Dia Internacional dos Manguezais: presente na Amazônia, entenda a importância da conservação desse ecossistema

Atualmente a costa amazônica abriga a maior área contínua de manguezais do planeta. É um território onde rios, floresta e oceano se encontram para sustentar uma biodiversidade única e o modo de vida de milhares.

Conheça a história de resistência dos povos do mar e das águas na defesa dos manguezais. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Quando pensamos no oceano, é comum imaginar praias, ondas e baleias. Mas a vida marinha começa muito antes de encontrar o mar aberto. Ela nasce onde os rios encontram o oceano, como na Amazônia, entre raízes que desaparecem e reaparecem conforme o ritmo das marés. Esse lugar é o manguezal.

Muito mais do que uma floresta costeira, os manguezais são verdadeiros berçários da vida marinha. Eles oferecem:

  • Abrigo e alimento para espécies como peixes, camarões e caranguejos.
  • Proteção costeira contra a erosão e eventos climáticos extremos.
  • Sequestro de carbono, contribuindo para o enfrentamento global dos impactos das mudanças climáticas.

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O manguezal sustenta uma das maiores biodiversidades do planeta e também milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, pescadores e pescadoras artesanais dependem diretamente desse ecossistema para garantir alimento, renda e manter vivas suas culturas.

Não é por acaso que proteger os manguezais significa muito mais do que conservar uma paisagem natural. Significa defender modos de vida, fortalecer a segurança alimentar, proteger a biodiversidade e preservar um patrimônio que beneficia toda a sociedade.

A origem do Dia Internacional dos Manguezais

Na década de 1990, uma nova ameaça avançava sobre diversos países tropicais: a expansão da criação de camarões em larga escala, também conhecida como carcinicultura industrial. Grandes áreas de manguezais passaram a ser desmatadas para dar lugar a essa criação intensiva de camarão, comprometendo ecossistemas inteiros e restringindo o acesso das comunidades aos territórios de pesca e coleta.

Um dos casos mais emblemáticos dessa disputa por espaço aconteceu em Muisne, na costa do Equador. Em 1998, comunidades organizadas pela Fundação de Defesa Ecológica equatoriana convidaram o Greenpeace Internacional para ajudar a denunciar a destruição dos manguezais causada pela carcinicultura. O navio do Greenpeace Rainbow Warrior chegou ao país para apoiar uma campanha que rapidamente ganhou repercussão internacional.

Leia também: Marchas mobilizam Maranhão e Pará em defesa dos manguezais amazônicos

Durante uma ação pacífica para desmontar um viveiro de camarão construído ilegalmente sobre um manguezal, o ativista do Greenpeace Internacional Hayhow Daniel Nanoto, natural da Micronésia, sofreu um ataque cardíaco e faleceu. Sua morte marcou profundamente todos que participaram daquela mobilização. Mas seu legado foi muito maior do que aquela tragédia.

A campanha pelos manguezais tornou-se uma das primeiras grandes mobilizações internacionais do Greenpeace a articular conservação da biodiversidade, justiça ambiental e defesa dos direitos das comunidades tradicionais. Ela ajudou a fortalecer uma rede latino-americana de proteção dos manguezais que permanece ativa até hoje e transformou o dia 26 de julho em um símbolo de resistência. Anos depois, a data seria reconhecida pela UNESCO como o Dia Internacional para a Conservação do Ecossistema Manguezal.

“Mais do que uma denúncia ambiental, aquela campanha representou um marco para o movimento socioambiental. Foi uma das primeiras grandes mobilizações internacionais do Greenpeace a reunir conservação da biodiversidade, justiça ambiental e defesa dos direitos das comunidades tradicionais — uma visão que hoje orienta grande parte das nossas lutas pela proteção dos oceanos”, comenta Bruna Canal, porta-voz de Oceanos do Greenpeace Brasil.

Exemplo de resistência comunitária no Extremo Sul da Bahia

Enquanto comunidades equatorianas defendiam seus manguezais, um conflito semelhante começava a se desenhar no litoral do Extremo Sul da Bahia.

A região abriga um dos mais importantes complexos de manguezais e estuários do país, conectado ao Banco dos Abrolhos, onde esses ambientes funcionam como verdadeiros berçários da vida marinha. É deles que dependem inúmeras espécies que abastecem os recifes, os rios e a pesca artesanal da região.

No final da década de 1990, a expansão da carcinicultura também passou a ameaçar esse território. Diante desse cenário, comunidades ribeirinhas e organizações da sociedade civil iniciaram um amplo processo de mobilização para proteger seus modos de vida e garantir o direito coletivo de permanecer no território.

Foi dessa articulação que nasceu o Grupo Pró-RESEX, responsável por impulsionar a criação da Reserva Extrativista de Canavieiras, em 2006. Poucos anos depois, uma nova mobilização impediria a implantação de um grande empreendimento de carcinicultura na região de Cassurubá e contribuiria para a criação da Reserva Extrativista de Cassurubá, em 2009.

Assim como no Equador, foram os povos do mar e das águas que lideraram a defesa dos manguezais. As Reservas Extrativistas representam muito mais do que áreas protegidas. Elas reconhecem que conservar a natureza e garantir os direitos das populações tradicionais são objetivos inseparáveis.

Desafios atuais dos manguezais: a ameaça do petróleo na Foz do Amazonas

Atualmente a costa amazônica abriga a maior área contínua de manguezais do planeta. É um território onde rios, floresta e oceano se encontram para sustentar uma biodiversidade única e o modo de vida de milhares de pescadores, extrativistas, quilombolas, ribeirinhos e povos indígenas. Mas essa história de resistência está longe de terminar.

Leia também: Conheça os manguezais da Amazônia, o maior cinturão de manguezais do mundo

projeto mangues da amazônia no pará
Foto: Reprodução/UFPA

A região vive um momento decisivo com o avanço da exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. A abertura dessa nova fronteira para os combustíveis fósseis coloca em risco um dos ecossistemas mais ricos e sensíveis do planeta e levanta preocupações que vão muito além de um eventual derramamento de óleo.

Menos de três meses após o início da perfuração do Bloco 59, um vazamento de aproximadamente 15 mil litros de fluido de perfuração interrompeu as operações e expôs, na prática, os riscos de uma atividade realizada em uma região de enorme complexidade ambiental. O episódio reforçou um alerta que organizações da sociedade civil e pesquisadores vêm fazendo há anos: quando se trata de um território tão sensível, qualquer falha pode ter consequências difíceis de prever.

Além disso, o processo de licenciamento segue sendo alvo de questionamentos. Organizações socioambientais apontam que a autorização para a exploração avançou sem a realização da consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais potencialmente afetados. Também foram levantadas preocupações sobre lacunas nos estudos ambientais e nos cenários de resposta a acidentes.

A história dos manguezais mostra que esperar o dano acontecer nunca foi o caminho. No Equador, em Canavieiras e em Cassurubá, comunidades se mobilizaram antes que fosse tarde demais para proteger seus territórios.

Proteger o manguezal é proteger o futuro do oceano

A história que começou em Muisne, passou pelos estuários de Canavieiras e Cassurubá e chega hoje à costa amazônica nos lembra que os manguezais nunca foram apenas árvores adaptadas à água salgada.

Eles são berçários da biodiversidade, aliados no enfrentamento da crise climática, fonte de alimento, cultura e identidade para milhões de pessoas.

Há quase três décadas, comunidades do Equador mostraram ao mundo que a defesa dos manguezais podia unir pessoas de diferentes países em torno de uma mesma causa. No Brasil, os povos do mar e das águas seguem escrevendo essa história todos os dias.

*Com informações do Greenpeace

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