Romaria das Águas em Manaus. Foto: Divulgação
O Fórum das Águas do Amazonas, composto por 16 organizações da sociedade civil, realiza no dia 22 de março, a terceira edição da Romaria das Águas. O evento celebra o Dia Mundial da Água e marca a luta dos povos das cidades e da floresta pelo acesso à água e pela preservação dos recursos hídricos da Amazônia.
Com o tema “Água, fonte de vida e bem comum: nossos rios não estão à venda!” e lema “Que a justiça corra como um rio e a vida floresça”, a Romaria irá realizar uma barqueata no dia 22 de março, com início às 8h no Porto da Ceasa, local de concentração dos participantes, e segue para o Encontro das Águas, confluência dos rios Negro e Solimões, em Manaus (AM).
A programação contará com místicas em dois momentos (um no Porto da Ceasa e outro no Encontro das Águas), representantes de organizações integrantes do Fórum se pronunciam e os participantes são convidados a integrar performances em defesa da água como bem público. Haverá momentos de espiritualidade. A Romaria segue o percurso Porto da Ceasa – Encontro das Águas – Porto da Ceasa, com encerramento às 12h.
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“Nossos rios não estão à venda”
Unidos pela preservação da fonte de vida na Amazônia, representantes de movimentos sociais e ambientais buscam, por meio da Romaria, promover a sensibilização da sociedade para as questões que permeiam o tema e cobrar das instituições e das autoridades medidas que garantam o acesso à água em condições de consumo e à sustentabilidade das fontes hídricas no Amazonas.
Além da celebração do dia mundial, a Romaria também é uma denúncia de projetos que ameaçam os recursos hídricos na Amazônia. O tema da edição deste ano alerta para os riscos da privatização dos rios. Foi a força da mobilização dos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas que pressionou o governo federal a revogar, no dia 23 de fevereiro, o Decreto nº 12.600/2025, que incluía trechos dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND) e permitia a privatização e dragagem dos rios por gigantes do agronegócio.
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Vidas humanas sob ameaça
“A Romaria das Águas repercute as falas e os gritos das populações amazônicas que estão sendo agredidas pelo capitalismo predatório, poluidor e devastador da natureza”, afirma o Padre e pesquisador Sandoval Rocha, jesuíta, membro da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas.
Para o sacerdote, “o modus operandi dos empreendimentos minerários, industriais, agrícolas e petrolíferos violenta as águas, os solos e a biodiversidade, levando muitas populações à exaustão e ao desespero”.
Rocha adverte que a privatização dos recursos hídricos ameaça as vidas humanas, sobretudo aquelas mais vulneráveis em uma operação explícita contra os direitos humanos.
“O grito da Romaria das Águas é um grito de dor e um grito de esperança, pois, enquanto houver manifestações como esta também há coletivos, organizações, lideranças e cidadãos que lutam por um mundo melhor, mais democrático e mais sustentável”, disse.

Barqueata nas águas
A presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA – seção sindical), professora Ana Lúcia Silva Gomes, vê a Romaria como um gesto concreto na soma das lutas na defesa dos recursos hídricos. “O ANDES e a ADUA têm preocupação muito grande com a questão ambiental. Temos um grupo de trabalho na nossa estrutura que trata desse tema. Quanto à Romaria, trata-se de um movimento de referência e de um momento especial, é espiritual e é político”.
Ana Lúcia Silva Gomes chama atenção à condição dos habitantes da Amazônia.
“Nós vivemos em um Estado que é comandado pelas águas. Os amazônidas vivem da dinâmica das águas, da cheia, da enchente, da vazante e da seca dos rios. Esse movimento diz respeito a vida dos ribeirinhos e da nossa vida que vivemos na cidade, da vida de outras espécies. Então, água é um tema de relevância para toda a sociedade. Devemos nos preocupar e querer saber o que está acontecendo com nossos recursos aquáticos e de que modo a interferência humana afeta as demais formas de vida. Para nós, da ADUA, a Romaria das Águasé um dos gestos concretos de luta, da busca de unidade na defesa desse bem comum”, afirma a líder.
Desafios na realidade amazônica
Apesar de abrigar a maior reserva de água subterrânea do mundo, a Amazônia enfrenta uma realidade precária de acesso, de saneamento básico e de impactos das mudanças climáticas. O relatório do Instituto Trata Brasil, Ranking do Saneamento 2025, mostra que nove das 20 cidades brasileiras com os piores índices de saneamento estão na Amazônia Legal. Manaus está entre esses municípios, ocupando a 87ª posição das cem cidades que integram o ranking.

O desmatamento e as queimadas na Amazônia estão contribuindo para as mudanças climáticas e impactando nas dinâmicas na região. O fenômeno dos rios voadores, mananciais aéreos responsáveis por grande parte das chuvas na América do Sul, está perdendo sua potência pela diminuição da cobertura florestal, o que alterar o regime pluviométrico das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil.
Além disso, as mudanças climáticas estão provocando eventos extremos, como a seca de 2024 no Amazonas, a maior de sua história, quando o rio Negro registrou 12,70m, a menor marca em 122 anos.
Programação
- 8h – concentração dos participantes no Porto da Ceasa (Zona Sul)
- 8h30 – 9h30 – 1ª Mística, fala dos representantes do Fórum
- 9h30 – Organização do Embarque dos participantes, embarque
- 10h – Início da barqueata rumo ao Encontro das Águas
- 10h20 – 2ª Mística – No Encontro das Águas
- 11h30 – Retorno ao Porto da Ceasa/encerramento
