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Dzoodzo Baniwa: educador ajuda a articular projetos de desenvolvimento sustentável na Amazônia

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O educador Dzoodzo Baniwa fotografado em setembro, em São Paulo, por ocasião do Prêmio Fundação Bunge. Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Em 2018, foi criada a Organização Baniwa e Koripako Nadzoeri, sediada no Amazonas, e naquele mesmo ano assumi sua secretaria executiva. Ela representa hoje 85 comunidades, 10 escolas e três coletivos de mulheres desses dois povos indígenas, os Baniwa e os Koripako.

O nome da organização traz a palavra Nadzoeri, que é a junção das sílabas iniciais de três divindades: Ñapirikoli, Dzooli e Eeri. Elas fazem parte da mitologia da nossa comunidade, que vive ao norte do estado, às margens do rio Içana. Ele, por sua vez, deságua no rio Negro, na região do município São Gabriel da Cachoeira, que concentra grande número de indígenas.

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A Nadzoeri, como nossa organização é mais conhecida, está vinculada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro [Foirn]. Uma das primeiras atividades que realizamos foi um diagnóstico socioambiental, feito de forma coletiva, ainda em 2018. A meta era entender as potencialidades locais e incentivar atividades voltadas para o desenvolvimento sustentável.

Uma das demandas veio dos moradores da comunidade de Nazaré do Rio Cubate, localizada na Terra Indígena do Alto Rio Negro. Eles queriam conhecer melhor a diversidade de aves daquela região, tendo em vista um futuro projeto de ecoturismo de base comunitária para observação de pássaros.

Essa ideia se desdobrou. No ano seguinte, firmamos uma parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [Inpa] para elaborar um inventário de avifauna da região. O trabalho entre pesquisadores do órgão e as comunidades rendeu o livro Espécies de aves do Rio Cubate: Terra Indígena do Alto Rio Negro, escrito em nheengatu, baniwa e português. A obra reúne 310 espécies e apresenta descrições físicas e comportamentais, além de relatos sobre o significado desses animais para o nosso povo.

Leia também: Pesquisador e educador indígena do Amazonas é condecorado por defesa da educação e integração de saberes ancestrais e ciência

Tenho orgulho de ser um dos organizadores dessa obra, publicada pelo próprio Inpa. No ano passado, o livro recebeu o prêmio Jabuti Acadêmico na área de ciências biológicas, biodiversidade e biotecnologia. É um reconhecimento que celebra essa construção coletiva de conhecimento, mas que, em âmbito pessoal, também reafirma a importância da educação na minha trajetória.

Nasci em 1985 e cresci na aldeia Santa Isabel, às margens do rio Ayari, na bacia do rio Içana. Só fui para a escola aos 10 anos e entrei em uma classe de educação infantil, com crianças bem mais novas do que eu. Para completar, meu professor só falava em português, língua que eu não dominava na época.

Imagem colorida do pesquisador e educador indígena amazonense dzoodzo baniwa
O educador e pesquisador indígena Dzoodzo Baniwa. Foto: Divulgação/Fundação Bunge

Eu tinha medo de ir para a escola e só não desisti pela insistência do meu pai. Ele tem um profundo conhecimento sobre a floresta, mas sentiu na pele as consequências de ser analfabeto. No passado, chegou a ser submetido à condição de trabalho análogo à escravidão por não saber ler e escrever.

Aos 15 anos, me transferi para a então recém-inaugurada Escola Indígena Baniwa e Koripako Pamáali. Criada em 2000, ela é resultado de um longo processo de discussão sobre currículo, metodologia e calendário escolar, que contou com a participação efetiva das comunidades.

Essa foi a primeira escola indígena de ensino fundamental II do nosso território. Como eu era um pouco mais velho do que meus colegas, comecei a participar de projetos agroflorestais, de piscicultura e de meliponicultura. Em 2004, quando terminei o ciclo do fundamental, acabei sendo contratado como técnico no laboratório de criação de peixes da escola, onde permaneci até 2010.

No ano seguinte, aos 20 anos, fui para Manaus cursar o ensino médio na modalidade supletivo. Pela primeira vez tive aulas teóricas formais de química, biologia e física e me surpreendi ao perceber que já aplicávamos alguns princípios dessas disciplinas em atividades na nossa comunidade, como, por exemplo, na criação de peixes ou nos sistemas agroflorestais.

Educador investe em conexões

Foi movido pelo desejo de ampliar as conexões entre os saberes tradicionais indígenas e a ciência que optei pela licenciatura intercultural em física. Fiz essa graduação no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas [Ifam], em São Gabriel da Cachoeira.

Em 2016, após terminar o curso, voltei para a minha aldeia disposto a colocar em prática o que tinha aprendido no curso de física. O primeiro projeto a que me dediquei foi inspirado por uma lembrança da minha mãe carregando água do rio até a aldeia para cozinhar. Para facilitar essa atividade, desenvolvi um sistema de bombeamento simples e sustentável, que não usa eletricidade, mas a energia do fluxo da água. Nos últimos anos, melhoramos o sistema, incluindo uma bomba elétrica movida a energia solar fotovoltaica e implementamos o kit [bomba e placas solares] em cerca de 40 aldeias no território do rio Içana.

O educador Dzoodzo Baniwa com os demais organizadores do livro ‘Espécies de aves do Rio Cubate: Terra Indígena do Alto Rio Negro‘, durante a cerimônia do prêmio Jabuti Acadêmico, em 2025. Foto: Divulgação/Prêmio Jabuti Acadêmico

A água foi tema da minha pesquisa de mestrado, concluída em 2021, no curso de Pós-graduação de Mestrado Profissional para o Ensino de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Amazonas [Ufam]. No estudo tratei dos significados cultural e cosmológico desse recurso natural para o povo Baniwa e do direito a ele na perspectiva dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas [ODS-ONU]. Além disso, discuti como a questão da água pode ser mais bem explorada no currículo integral da escola indígena.

Eventos extremos como ondas de calor, secas e inundações já são realidade em nosso território. No meu trabalho como educador, tenho defendido a adoção de metodologias participativas, que envolvam as crianças e jovens nos processos de monitoramento da natureza e os preparem para responder a esses desafios ambientais. É o que eu chamo de educação territorializada, onde a escola assume um papel ativo na busca de solução criativa aos problemas da comunidade e, nesse sentido, se torna uma fonte de oportunidades para as pessoas e para o local.

Essa premissa me motivou a liderar o estabelecimento de um convênio assinado em 2022 entre a Nadzoeri e a Foirn com a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo [FE-USP]. Por meio desse acordo, a Escola Municipal Baniwa Eeno Hiepole, onde sou professor de matemática, começou a participar do programa global Escolas2030, financiado pela Fundação Aga Khan, sediada em Genebra, na Suíça. No Brasil, essas atividades são coordenadas pela FE-USP e a organização de empreendedores sociais Ashoka.

Com duração de 10 anos, o programa busca catalisar a ação das escolas como laboratórios de uma educação integral e transformadora. Essa proposta tem a ver com a nossa escola, que defende a diversificação dos ambientes de aprendizagem.

Em setembro recebi o Prêmio Fundação Bunge. Fui agraciado na categoria Vida e Obra, no tema Saberes e práticas dos povos tradicionais e sua importância para a conservação dos recursos naturais.

Nós, indígenas, temos conhecimentos de assuntos como astronomia e ciclos da natureza, só que as nossas referências não estão nos livros, mas escritas nas pedras, no céu, na floresta. Talvez por isso nosso saber nem sempre seja respeitado e costume ser visto como inferior em relação ao conhecimento dos brancos.

Mas não desanimo. Espero que o diálogo entre o conhecimento ancestral, a ciência e o poder público se fortaleça. É a partir dessa tríade que podemos encontrar meios para enfrentar a emergência climática no planeta.

O depoimento do educador Dzoodzo Baniwa foi dado a Patricia Mariuzzo

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa FAPESP.

Acre registra recuo de 49% na exploração madeireira

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Dados da redução expressiva fazem parte do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), desenvolvido pelo Imazon. Foto: Uêslei Araújo/Sema AC

A exploração madeireira no estado do Acre apresentou uma queda significativa de 49% entre agosto de 2023 e julho de 2024, em comparação com o período anterior. Os dados são do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), desenvolvido pelo Imazon.

De acordo com o levantamento, foram mapeados cerca de 5,3 mil hectares com atividade madeireira no período analisado. Além da redução expressiva, o estudo destaca que toda a exploração registrada ocorreu em áreas autorizadas, o que indica avanço no controle e na regularização da atividade no estado.

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O resultado aponta para um cenário de maior fiscalização e cumprimento das normas ambientais, com a exploração concentrada principalmente em imóveis rurais privados devidamente regularizados. A ausência de registros de exploração não autorizada reforça o papel das políticas públicas e dos mecanismos de monitoramento no combate a práticas ilegais.

Comparativo histórico

Dados históricos mostram que a atividade madeireira no estado vinha apresentando oscilações nos últimos anos, com picos e quedas entre 2020 e 2023. No entanto, o período mais recente se destaca pela combinação de redução na área explorada e maior conformidade legal.

Arte exploração madeireira no Acre
Comparativo histórico da exploração madeireira no Acre. Foto: Divulgação

Informações do Projeto de Monitoramento e Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), também apontam que a taxa registrada no período de agosto de 2024 a julho de 2025 superou em 43% a meta estabelecida para 2025 no Plano de Prevenção, Controle de Desmatamento e de Queimadas do Acre (PPCDQ).

A área de desmatamento projetada pelo Plano era de aproximadamente 572 km ², no entanto, o total registrado ficou em torno de 320 km², indicando uma redução de 252 km²  de área degradada em relação ao limite previsto.

O Simex utiliza imagens de satélite e análise técnica para identificar áreas de exploração florestal na Amazônia Legal, contribuindo para a transparência e o acompanhamento da atividade. As informações subsidiam ações de fiscalização e políticas de preservação ambiental.

Leia também: Estudo aponta que 62% da área de exploração de madeira no Amazonas é ilegal

Avanços na atividade madeireira

Para o secretário de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho, os dados comprovam o fortalecimento do licenciamento ambiental no estado e a consolidação de uma política voltada à promoção da conformidade no setor produtivo.

“Esse resultado consolida o avanço de uma política pública construída com planejamento estratégico e atuação integrada entre os órgãos ambientais. A redução de 49% na exploração madeireira, aliada ao fato de que toda a atividade identificada ocorreu exclusivamente em áreas autorizadas, demonstra que o Acre está avançando de forma concreta na qualificação do licenciamento ambiental e o manejo sustentável”, explicou.

Secretário estadual do Meio Ambiente, Leonardo Carvalho. Foto: Diego Gurgel/Secom Acre

Segundo Carvalho, mais do que coibir ilícitos, o Imac está estruturando um ambiente de segurança jurídica para quem produz de forma regular. “Temos investido na orientação técnica, na realização de mutirões para regularização ambiental e na ampliação do acesso ao Cadastro Ambiental Rural (CAR), garantindo que produtores possam se adequar às exigências legais e acessar políticas públicas’ salientou.

“Reforçando esse compromisso, em 2026 estamos intensificando ainda mais esse trabalho, com o fortalecimento das ações de campo e de inteligência territorial, por meio da Operação Amburana, em apenas sete dias de operação, foram apreendidos 24 metros cúbicos de madeira ilegal, resultado que evidencia a presença ativa e firme do Estado no combate às irregularidades”, concluiu Leonardo.

Fiscalização

O presidente do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), André Hassem, comentou sobre a redução dos índices de exploração madeireira.

“A redução da exploração de madeira no Acre demonstra que o fortalecimento da fiscalização contra os ilícitos ambientais, aliado ao avanço dos processos de licenciamento e monitoramento, tem gerado resultados concretos na proteção dos nossos recursos florestais”, afirmou.

Presidente do Imac, André Hassem. Foto: José Caminha/Secom

Segundo Hassem, o Imac segue atuando com responsabilidade para garantir que a atividade madeireira ocorra dentro da legalidade, promovendo o uso sustentável das florestas e combatendo práticas ilegais que causam danos ambientais e prejuízos à sociedade. “Nosso compromisso é desenvolver economicamente o estado de forma sustentável”, ressaltou o gestor.

*Com informações da Agência de Notícias do Acre

Dia Mundial do Livro: qual obra mudou a sua vida?

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Foto: Apoena Fotografia

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Em abril, há muitas datas que celebram a Literatura: temos, no dia 02.04, o Dia Internacional do Livro Infantil, enquanto no dia 18.04, comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil. Já no dia 09.04, celebra-se o Dia da Biblioteca, em honra aos espaços de leitura e o trabalho dos bibliotecários. Finalmente, no dia 23.04, o Dia do Livro, elemento central da Literatura, ganha destaque, uma homenagem feita pela UNESCO às vidas de William Shakespeare e Miguel de Cervantes.

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Enquanto autor, considero esta uma data para relembrar das obras que causaram grande impacto na minha vida, que moldaram minha trajetória enquanto leitor até que me tornasse, também, um escritor.

Assim, gostaria de fazer uma breve retrospectiva das leituras que mudaram minha vida, a fim de compartilhar algumas das experiências que a Literatura me proporcionou ao longo desses últimos anos como quem olha para o passado e reconhece os amigos que fez ao longo do caminho.

Alguns se foram.

Alguns se perderam.

Alguns permaneceram.

Todos foram indispensáveis.

Nenhum chegou a ser esquecido.

Ruth Rocha conta ‘A Odisseia’

Imagem: Reprodução

Claro que, como uma boa criança brasileira, Maurício de Souza foi minha porta de entrada para a leitura, mas foi com a versão infantojuvenil que Ruth Rocha fez de “A Odisseia”, de Homero, que fui definitivamente batizado.

Minha história com esse livro começa num tempo em que bibliotecas em escolas públicas não eram espaços acessíveis, então os empréstimos eram feitos de modo informal pelos próprios professores quando a Secretaria de Educação enviava novos exemplares.

Não me orgulho do que vou dizer, mas também não me arrependo: eu fui um menino que roubava livros. Minha única entrada no mundo do crime se deu pelo encanto que tive com essa história, uma vez que me lembrou dos filmes que assistia com meu pai na Tela de Sucessos.

Não suportei a ideia de ficar sem as aventuras de Ulisses e suas disputas com os próprios deuses, então o livro simplesmente não retornou à escola no dia devido. Não me arrependo pois não era minha culpa se, na época, não tínhamos espaços nem profissionais adequados para que pudéssemos ler na própria escola, e meu delito chamou a atenção de meus pais para meu interesse pela leitura. Logo, ganhar livros no meu aniversário se tornou um costume, então algo de muito bom saiu disso tudo (crianças, não tem necessidade disso hoje, hein).

‘O senhor dos anéis’, de J.R.R. Tolkien

livro O senhor dos anéis de J.R.R. Tolkien
Imagem: Reprodução

Após “A Odisseia”, eu me tornei fanático por Fantasia. Então, quando assisti à adaptação de Peter Jackson da obra de J.R.R. Tolkien, me senti como Alice na toca do Coelho.

Lembro que ver o mago Gandalf, ali tão pequeno, enfrentando um gigantesco demônio de fogo às bordas de um abismo sem fundo não só foi para mim sinônimo da coragem suprema, mas também o exemplo definitivo da magia que pulsa na Fantasia.

Desnecessário dizer que, quando tive idade suficiente (e coragem para ler um livro da grossura de uma bíblia), “O senhor dos anéis” se tornou uma das obras fundamentais da minha vida, e quem é fã de Tolkien conhece o esquema de pirâmide que é acompanhar o seu trabalho: inevitável ler também “O hobbit”, “Silmarillion” e “Contos inacabados”.

Enquanto escritor, minha missão se tornou reproduzir em meus leitores a mesma sensação de encantamento que senti vendo Gandalf nos abismos de Moria.

‘Uma vela para Dario’, de Dalton Trevisan

Capa da adaptação em quadrinhos feita por Robson Vilaba, disponível em https://nanu.blog.br/uma-vela-para-dario/

Aqui, temos um caso interessante. Após a experiência com Fantasia na escola me catapultar para o curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Amazonas, conheci textos estranhos e impressionantes. Descobri que a realidade pode ser tão bizarra quanto a Fantasia, e a fronteira entre as duas pareceu mais fina.

Conheci obras de Machado, de Clarisse, de Hatoum, mas foi a prosa curta e afiada do paranaense Dalton Trevisan que fez o corte mais fundo.

Acredito que todo estudante de Letras já leu “Uma vela para Dario”, conto que mostra o quão absurda é a indiferença do ser humano diante da vida, tomado por uma passividade monstruosa por conta da dinâmica da rotina.

Isso me assustou mais do que as histórias de suspense e horror que lia na época, e me mostrou que, mesmo curtas, as narrativas podem ter um poder sinistro de impactar a nossa percepção de mundo.

‘A guerra dos tronos’, de George Martin, e “O feiticeiro de Terramar”, de Úrsula Le Guin

Na vida adulta, eu fiquei experimentando até encontrar o tipo de Fantasia que queria escrever. Tolkien não parecia moderno o suficiente, uma vez que o mundo tinha novos desafios e monstros para que eu enfrentasse, e a Terra Média não pareceu entender que dentro de mim também havia desafios e monstros.

Já no primeiro livro das “Crônicas de Gelo e Fogo”, de Martin, e na saga de Terramar, de Le Guin, encontrei histórias e personagens que precisavam lidar não só com as trevas do mundo, mas também com as do próprio coração. Encontrei neles autores que tinham algo a dizer sobre essa realidade violenta em que vivemos, e me deram as ferramentas para contar histórias que transformassem a dor em enredos. Le Guin, particularmente, ensina a encontrar luzes mesmo quando não parece existir nenhuma, enquanto Martin mostra, de forma brutal, que nada critica melhor a realidade do que a Fantasia.

Dia Mundial do Livro

Em honra ao dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro, convido você também, leitor ou leitora, a fazer sua própria retrospectiva, uma vez que as histórias que nos constroem são chave para entender quem nos tornamos, um exercício de autorreflexão que gosto bastante de fazer nesta época do ano.

Então, quais livros mudaram sua vida?

jan santos autor amazonense
Foto: Apoena Fotografia

Leia também: Contos com cheiro de terra molhada

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Macaco que só é visto em Rondônia faz visita inesperada em espaço de eventos

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Foto: Guilherme Gomes

Um filhote de macaco Mico rondoni surpreendeu quem estava em um espaço de eventos no dia 17 de abril, em Porto Velho (RO). O animal apareceu de forma inesperada, circulou pelo local e foi filmado.

O produtor Guilherme Gomes contou que organizava um evento quando notou a presença do macaco. Segundo ele, o responsável pelo espaço disse que o filhote tem aparecido com frequência no local há cerca de um mês.

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A suspeita é de que o animal tenha se perdido do bando em uma área próxima, já que a região conta com mata preservada e presença de outros macacos. O espaço onde o filhote foi visto fica ao lado de um bosque, com muitas árvores, o que facilita a circulação e a permanência do mico.

De acordo com Guilherme, ao longo do dia o animal costuma ser visto circulando entre galhos e telhados, mas faz visitas frequentes ao local, especialmente no período da manhã. Segundo ele, o filhote tem comportamento dócil e curioso, se aproxima das pessoas e chega a subir nas mesas durante o café da manhã para pegar comida.

Leia também: Conheça espécies de macacos que só são encontradas na Amazônia

Macaco Mico rondoni é de espécie única

Mico rondoni é um primata de pequeno porte, conhecido pela pelagem cinza e pelo comportamento ágil entre as árvores. A espécie é considerada única, pois existe exclusivamente no estado de Rondônia.

Descrito pela ciência apenas em 2010, o Mico rondoni está entre os primatas identificados mais recentemente no mundo. Antes disso, ele era confundido com outras espécies semelhantes. A confirmação como uma espécie distinta ocorreu após análises genéticas e morfológicas.

Saiba mais: Mico rondoni: espécie de macaco que só pode ser vista em Rondônia está em risco de extinção

Foto: Guilherme Gomes

Além da raridade, o animal desempenha um papel importante no equilíbrio ambiental. Ao se alimentar de insetos e frutos, contribui para o controle de populações de pequenos animais e auxilia na regeneração de áreas degradadas, por meio da dispersão de sementes.

Apesar da importância ecológica, o Mico rondoni é classificado como vulnerável à extinção, principalmente devido à perda de habitat causada pelo desmatamento. Com a redução das áreas de floresta, encontros com a espécie em zonas urbanas têm se tornado mais comuns.

Especialistas alertam que, mesmo aparentando ser dócil, o contato com humanos deve ser evitado. A oferta de alimentos pode prejudicar a saúde do animal, aumentar o risco de transmissão de doenças e modificar seu comportamento natural.

*Com informações da Rede Amazônica RO

Leptospirose é um dos perigos da água das enchentes para a saúde pública; especialista explica

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Foto de capa: Reprodução/PM-PA

O inverno amazônico, época de fortes chuvas na região Norte, é o período que mais contribui para as enchentes, fenômenos naturais que acontecem quando a água de rios, igarapés ou córregos transborda e alcança ruas e perímetros urbanos isolados. Tal cenário cria condições propícias para a proliferação de doenças através da água contaminada por bactérias, vírus e parasitas.

Por isso, o ambiente das enchentes gera grandes riscos à saúde, como a leptospirose, doença infecciosa causada a partir do contato direto de pessoas e animais com água, lama ou solo contaminado pela urina de rato.

Para a médica veterinária Jocilda Soares, é fundamental evitar qualquer tipo de contato com a água das enchentes, que geralmente se mistura com o lixo acumulado das ruas.

“As enchentes oferecem um grande risco de contaminação de doenças como leptospirose, hepatite A, diarreia, febre tifoide. A mais comum é a leptospirose, causada pela urina de rato e quando acometida a um paciente ou animal, é bem complicado reverter um quadro grave e evitar o óbito. Então, a gente tem que ter muito cuidado em não pisar na água e cuidar para que animais não tenham contato nem bebam dela para não contrair a doença”, explicou a médica.

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Enchentes podem provocar contaminação e transmissão de doenças. Foto: Dalton Pacheco
Contato direto com água contaminada das enchentes pode provocar contaminação e transmissão de doenças. Foto: Dalton Pacheco

Jocilda destaca que, mesmo que tenha o contato inevitável com a água contaminada, é fundamental evitar a permanência por longos períodos, o que diminui o risco de contaminação da leptospirose.

“A melhor prevenção é evitar o excesso do contato com a água contaminada. Lembrando que o rato precisa estar com a doença, ele geralmente é o hospedeiro da doença, ou seja, não pega, mas transmite para o animal ou humano. Então, a gente não vai saber se a água está ou não contaminada, por isso o importante é: se puder evitar, melhor”, pontua.

Enchente não é diversão

Uma cena bem comum registrada durante as fortes chuvas são crianças pulando e nadando nas águas das enchentes. Apesar de parecer divertido, a prática esconde um grande risco à saúde dessas crianças, que vão deste a contaminação de doenças até acidentes fatais. Para Jocilda Soares, os pais precisam enxergar isso como um grande risco à vida humana e não como diversão.

“Infelizmente, é algo tão comum, mas que deveria ser evitado, principalmente com crianças. E é até meio difícil né, porque a gente vê até adultos brincando na água. Eles que têm mais entendimento, deveriam dar exemplo, mas até os adultos brincam nessa água suja”, lamenta.

Crianças brincando em água durante enchente.
Cena de crianças brincando na água é comum durante as enchentes. Foto: Reprodução/Portal Ambiente Legal

Orientações e tratamento da leptospirose

Além de evitar o contato com a água, Jocilda recomenda que os locais afetados pelas enchentes passem por um processo de limpeza com a utilização de produtos químicos.

“A primeira coisa é fazer a limpeza e desinfecção dos locais afetados pelas enchentes, usando água sanitária. É fundamental que as pessoas utilizem botas tipo galocha, capas e luvas para entrar na água e fazer este processo. Isso porque a bactéria está lá, não sabemos se ela vai estar ‘viva’, mas bactéria é bactéria, então existe a possibilidade de ter uma nova enchente e ela ser reativada”, explicou.

Utilização de botas é fundamental para evitar contato com água contaminada das enchentes. Foto: Reprodução/Unimed

Outro ponto importante, segundo Jocilda, são os sintomas após o contato com a água contaminada.

De acordo com a profissional, é essencial ter atenção redobrada em casos de sinais suspeitos e procurar uma unidade de saúde o mais rápido possível.

“Se aparecer febre alta, dores no corpo, diarreia, é necessário se atentar a esses sintomas, procurar um posto de saúde com urgência para verificar se houve contaminação. Já os animais, é fundamental que eles tomem uma vacina chamada múltipla para evitar lepstospirose, assim como outras doenças”, finalizou.

Águas que transformam

A entrevista com Jocilda Soares faz parte do quadro ‘Águas que transformam’, do programa Estação CBN Belém, da rádio CBN Amazônia, na edição de 23 de abril.

O especial visa ampliar o diálogo com a população e a melhoria do serviço do fornecimento de água no estado.

Imagem: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia

Com apresentação da jornalista Ize Sena, o quadro vai ao ar toda quarta-feira no Estação CBN Belém, na 102.3 FM e no YouTube. Confira a entrevista completa (a partir de 1:19):

Confira mais episódios do especial ‘Águas que transformam’ AQUI.

Inpa e Shell Brasil anunciam lançamento de centro para recuperar áreas degradadas na Amazônia

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Foto: Kaylane Golvim/Ascom Inpa

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e a Shell Brasil formalizaram o lançamento do Centro de Inovação Biotecnológica para Recuperação de Áreas Degradadas (Cibrad), que será voltado para o desenvolvimento de soluções que ampliem a recuperação de áreas degradadas na Amazônia.

Com investimento inicial de R$ 18,7 milhões da Shell Brasil, via cláusula de PD&I da ANP, o objetivo é acelerar o desenvolvimento de tecnologias para soluções baseadas na natureza.

Sediado no Inpa, em Manaus, o Cibrad integrará pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação, conectando governo, comunidade científica, empresas e startups. A proposta é fortalecer cadeias produtivas de espécies nativas, conservar recursos genéticos e estimular novos negócios ligados à restauração florestal e ao mercado de carbono. A iniciativa também prevê a modernização da infraestrutura de pesquisa do Inpa.

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Segundo o secretário da Subsecretaria para a Amazônia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Dorival dos Santos, o Cibrad é um marco para a ciência brasileira e para o futuro da Amazônia.

“Tenho plena confiança de que o Centro se tornará uma referência internacional em biotecnologia aplicada à restauração florestal e à economia de baixo carbono. Mais do que um centro de pesquisa, o Cibrad nasce como um espaço de convergência entre ciência, inovação e compromisso com o futuro da Amazônia. Proteger a floresta, restaurar seus ecossistemas e gerar conhecimento a partir dela é investir diretamente no futuro do Brasil e do planeta”, destaca. 

“A criação do Cibrad reforça como a inovação aberta é essencial para avançarmos em soluções concretas para desafios complexos, como a recuperação de áreas degradadas na Amazônia. A iniciativa nasce de uma parceria prévia entre Shell e Inpa, iniciada em 2022, quando se formou a rede de instituições e pesquisadores que vão atuar no referido centro. Esse é um exemplo de como a Shell Brasil, por meio de Pesquisa e Desenvolvimento, atua em parceria para transformar conhecimento em impacto positivo e acelerar o desenvolvimento de tecnologias baseadas na natureza”, afirma Alexandre Breda, gerente de Tecnologia e Inovação da Shell Brasil.

O Cibrad reúne um consórcio de projetos que abrangem instituições de pesquisa dos nove estados da Amazônia Legal. Entre as iniciativas estão o NanoRad’s 2.0, que aplica abordagens bio e nanotecnológicas para acelerar plantios florestais, e o Amazon GeneBank, dedicado ao apoio a programas de melhoramento genético e à conservação de sementes e microrganismos da Amazônia Legal.

Leia também: Pesquisadora diz que memória indígena pode recuperar áreas degradadas

“Com o Cibrad, estamos dando um passo além: sistematizar a pesquisa associada a plantios florestais com um objetivo maior, que é estruturar cadeias produtivas baseadas em espécies nativas. Isso envolve avançar em uma silvicultura de alta performance e conectar esse conhecimento a agendas estratégicas, como o mercado de carbono. Esse alinhamento é fundamental para o que esperamos construir nas próximas décadas na Amazônia”, ressalta o diretor do Inpa, Henrique Pereira.

unidade do inpa em manaus
Unidade do Inpa em Manaus. Foto: Reprodução/Inpa

Pesquisas do Inpa e parceiros ajudam na construção no centro

As pesquisas abrangem dez espécies florestais amazônicas de áreas degradadas de elevado potencial para restauração, como castanheira-da-Amazônia, andiroba, cumaru, mogno, copaíba e seringueira.

Além dos projetos conduzidos no âmbito do Inpa, o Cibrad também conecta iniciativas desenvolvidas em parceria com startups como Krilltech e Bioflore, ampliando o potencial de aplicação prática das pesquisas e fortalecendo o ecossistema de inovação voltado à restauração florestal na Amazônia.

A Amazônia tem cerca de 20% de áreas degradadas desflorestadas, equivalente a 1 milhão de quilômetros quadrados.

“O Cibrad se propõe a implementar não só o processo de domesticação de novas espécies, mas também de espécies que já têm cadeias produtivas consolidadas. Isso significa trazer processos de melhoramento genético, número de propágulos o suficiente para reflorestar grandes áreas e impactar não só o mercado de carbono, mas a indústria de produtos e processos”, conta o coordenador do Cibrad, o pesquisador do Inpa, José Francisco de Carvalho Gonçalves.

A coordenação dos projetos será acompanhada por um Conselho Diretor e supervisionada por um comitê técnico-científico composto por pesquisadores, cientistas e profissionais das empresas parceiras, assumindo uma governança moderna e identificada com os mais elevados princípios de transparência e compliance.

*Da assessoria do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA

Comunidade Ashaninka se destaca pela gestão florestal sustentável na Amazônia peruana

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Osinfor destacou o trabalho realizado pela comunidade Coriteni Tarso na gestão sustentável das florestas e afirmou que esse trabalho pode servir de modelo. Foto: Reprodução/Agência Andina

A Agência de Supervisão dos Recursos Florestais e da Vida Selvagem (Osinfor) no Peru destacou o trabalho realizado pela comunidade Ashaninka Coriteni Tarso na gestão sustentável das florestas, tornando-se seu melhor aliado para avançar, e afirmou que esse trabalho pode servir de modelo para a Selva Central.

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A entidade não apenas destacou o trabalho da comunidade, mas também dedicou uma crônica a ela detalhando o importante trabalho que realizam. Cercada pelas montanhas exuberantes da selva de Junín, onde o canto dos pássaros se mistura com o poderoso som do rio Tambo, a comunidade nativa de Coriteni Tarso, em Satipo, aprendeu a transformar seu destino. O que antes era incerteza agora é um exemplo: um povo Ashaninka que está emergindo como referência na gestão legal e sustentável das florestas.

Há 10 anos, entre trilhas de lama e árvores gigantes, a comunidade começou suas atividades madeireiras com mais dúvidas do que certezas. Nessa estrada, cometeram algumas infrações que afetaram suas florestas. A selva era generosa, mas também vulnerável.

Leia também: Conheça o povo Ashaninka, os anfitriões dos indígenas Kayapó

Brandon Mahuanca Ramírez, um jovem Ashaninka membro do comitê de vigilância. Foto: Divulgação/Andina
Brandon Mahuanca Ramírez, um jovem Ashaninka membro do comitê de vigilância. Foto: Reprodução/Agência Andina

“No começo, não sabíamos como realizar a vigilância correta dos nossos recursos, os empresários nos enganaram sobre o volume da nossa madeira”, recorda Brandon Mahuanca Ramírez, um jovem Ashaninka membro do comitê de vigilância, enquanto segura folhas de coca entre os dedos e observa o vasto horizonte das montanhas de sua floresta com uma mistura de orgulho e memória.

A floresta, que sempre foi seu lar, começou a se tornar um território de risco. A falta de conhecimento técnico não apenas afetou sua renda, mas também levou a que recebessem duas sanções que hoje fazem parte de sua história como uma experiência de aprendizado que conseguiram reverter.

O medo não era apenas econômico, mas também cultural e ambiental. A comunidade entendia que, se continuassem assim, poderiam perder muito mais do que dinheiro: controle direto de seus recursos, seu território e sua identidade. Cada árvore mal usada também representava uma ameaça ao equilíbrio que protegiam por gerações.

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Aprendendo a conservar a floresta

Treinamento da Osinfor para comunidade Ashaninka. Foto: Reprodução/Agência Andina

Diante dessa ameaça silenciosa, a comunidade Ashaninka tomou uma decisão transcendental: aprender. Assim, em 2017, iniciou uma mudança de atitude e adotou novas práticas para a gestão sustentável de suas florestas.

Esse processo foi acompanhado pela Agência de Supervisão dos Recursos Florestais e de Vida Selvagem (OSINFOR), que, por meio da Mochila Florestal, promoveu o fortalecimento de capacidades com uma abordagem intercultural.

Os dias de aprendizado eram realizados na floresta da comunidade. Entre homens e mulheres Asháninka, aprenderam a cortar a madeira em cubos, registrar em cadernos de campo e, acima de tudo, a importância de extrair seus recursos legalmente. “Estou muito feliz com o apoio da OSINFOR. Com o treinamento deles, aprendemos nosso papel principal e, acima de tudo, não devemos nos deixar enganar”, diz o chefe da comunidade, Nelbyn Izaguirres Camaiteri.

Com novas ferramentas em mãos, a comunidade assumiu o controle direto da gestão de seu território florestal. Brandon, agora com GPS e um caderno de campo, viaja quilômetros sob o sol e a chuva.

“Graças às oficinas que aprendi a colocar cubos, preencher cadernos de campo, agora monitoro a extração da madeira da minha floresta”, diz ele com grande determinação.

A organização também foi fortalecida. Eles decidiram trabalhar com um regente florestal para garantir a rastreabilidade da madeira e proteger as árvores com sementes. “Realizamos o inventário e rastreamos o processo legal de extração, sempre protegendo as árvores sementes”, explica Brayan Dolores Camargo, engenheiro florestal que tecnicamente acompanha a comunidade.

Graças a esse esforço, a comunidade não apenas foi fortalecida internamente, mas também conseguiu se consolidar formalizando seus acordos e negociando em termos mais justos com empresas externas que aproveitam seus recursos madeireiros.

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Foto: Reprodução/Agência Andina

Resultados do Modelo Ashaninka

Os resultados não demoraram a se tornar visíveis. Nos anos de 2017, 2019, 2024 e 2026, a comunidade passou com sucesso nas supervisões florestais. No último ano, obteve um certificado de cumprimento das obrigações, reconhecimento do esforço para implementar boas práticas no uso sustentável de seus recursos florestais. Mas as mudanças não estão vistas apenas em documentos.

Hoje, a comunidade tem uma qualidade de vida melhor: estradas que facilitam o comércio, acesso à internet, infraestrutura comunitária e novas oportunidades em piscicultura e agricultura, de modo que sua floresta ainda está de pé e, com ela, seu futuro próspero. “Os verdadeiros Asháninka conservam suas florestas, porque na floresta há vida e sustento”, diz Brandon, com orgulho.

A experiência da comunidade transcende suas próprias fronteiras e é projetada como uma mensagem viva para outros povos da selva peruana. “Deixe outras comunidades aprenderem, que sejam treinadas”, convida o jovem líder Asháninka com convicção.

Assim, essa comunidade demonstra que o uso sustentável é uma prática que exige compromisso e profundo respeito pela natureza. Porque em cada árvore que permanece de pé e em cada decisão tomada com responsabilidade, vence uma verdade simples, mas poderosa: cuidar da floresta é, de fato, tarefa de todos.

*Com informações da Agência Andina

Decisão judicial garante acesso ao CPF para indígenas e ribeirinhos no Amazonas

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Foto: Divulgação

A Defensoria Pública da União (DPU) obteve decisão favorável em ação civil pública que garante o acesso ao Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) para indígenas e ribeirinhos de Tefé, no Amazonas. A medida determina que a União suspenda a exigência de documento oficial com foto para a inscrição ou regularização do CPF dessas populações, permitindo o uso apenas da certidão de nascimento.

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A decisão reconhece que a exigência imposta pela Receita Federal vinha impedindo o acesso de comunidades tradicionais a direitos básicos, como benefícios sociais, atendimento de saúde e inclusão em políticas públicas. Sem o CPF, essas populações permanecem em situação de invisibilidade social e exclusão.

“É muito comum que indígenas e ribeirinhos tenham apenas certidão de nascimento. Para retirar um documento com foto, como a carteira de identidade, precisam fazer longos deslocamentos e ainda aguardar meses. Isso, quando conseguem agendar. Tal situação dificulta o acesso ao CPF e aos benefícios sociais que exigem o documento, como o Bolsa Família”, explica o defensor regional de direitos humanos no Pará, Marcos Wagner Alves Teixeira.

Para ele, a medida corrige uma barreira desproporcional que desconsiderava a realidade local. Em regiões de difícil acesso, como na Amazônia, a obtenção de documentos com foto é limitada por entraves logísticos, entre eles a ausência de postos de atendimento e a dificuldade de deslocamento entre comunidades.

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Fotos: Lucas Silva/Secom

CPF é essencial para garantia de direitos

Na ação civil pública, a Defensoria destacou que o CPF é essencial para o exercício da cidadania, sendo requisito para inscrição no Cadastro Único (CadÚnico) e acesso a programas sociais do governo.

“A ausência do documento compromete diretamente a subsistência dessas comunidades, agravando situações de vulnerabilidade social. A estimativa é que a medida atinja centenas de pessoas, podendo ser usada como precedente para casos similares”, destacou o defensor.

Além de afastar a exigência, a Justiça determinou que a União apresente um cronograma de atendimentos itinerantes para alcançar as populações mais isoladas. Também foi estabelecida a necessidade de articulação entre órgãos públicos, como a Receita Federal, Ministério dos Povos Indígenas e cartórios, para ampliar o acesso à documentação civil.

*Com informações da Defensoria Pública da União

Amazonense pode economizar cerca de R$ 800 com acesso ao saneamento, aponta estudo

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Pesquisa prevê ganho por habitante ao ano até 2040, a partir do acesso pleno aos serviços de saneamento básico. Foto: Divulgação

A universalização do saneamento na Amazônia Legal, conforme estudo do Instituto Trata Brasil, aponta um cenário de benefícios transformadores para os nove estados da região: Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Pará, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso.

A pesquisa estima ganhos de R$ 330 bilhões decorrentes da ampliação do acesso aos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

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Para o estado do Amazonas, que abriga cerca de 4 milhões de habitantes, o estudo indica ganhos de R$817,14 por habitante ao ano até 2040, a partir do acesso pleno aos serviços. Esse resultado se traduz em benefícios socioeconômicos que impactam positivamente a população, elevando a qualidade de vida.

Ganhos per capita da universalização do saneamento nos estados da Amazônia Legal, em R$ por habitante por ano, 2024 a 2040 
Ganhos per capita da universalização nos estados da Amazônia Legal, em R$ por habitante por ano, 2024 a 2040. Foto: Divulgação/Instituto Trata Brasil 

Na capital, Manaus, o benefício estimado é de R$ 384,79 com a garantia plena do saneamento. De acordo com o Ranking do Saneamento 2026, a capital amazonense ocupa a 82ª posição, subindo cinco colocações em relação ao ranking do ano anterior.

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Marco Legal do Saneamento

O alcance das metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento — 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033 — contribui para a formação de uma população mais saudável, com a redução da incidência de doenças de veiculação hídrica.

Esse cenário favorece a diminuição da evasão escolar e do absenteísmo no trabalho, além de gerar ganhos diretos em produtividade e bem-estar social. O avanço também contribui para a proteção do meio ambiente, assegura infraestrutura básica adequada e impulsiona o desenvolvimento sustentável do estado.

Acesso à água potável no Amazonas ainda é um problema a ser enfrentado. Foto: Reprodução/Blog 1 Doc

*Com informações do Instituto Trata Brasil

Bosque da Ciência pode se tornar patrimônio ambiental, científico e educacional do Amazonas

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Foto: Kaylane Golvin/Ascom Inpa

O Bosque da Ciência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) poderá ser reconhecido como patrimônio ambiental, científico e educacional do Estado do Amazonas. O Projeto de Lei (PL) foi anunciado durante homenagem aos 31 anos do parque verde urbano, na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), no dia 14 de abril, quando também foram agraciados 30 servidores e parceiros do espaço.

De autoria do deputado estadual Comandante Dan (Republicanos), o PL em tramitação na Aleam valoriza a importância do Bosque como espaço de preservação ambiental e conservação da biodiversidade amazônica. Também reconhece a contribuição desse museu de ciências ao ar livre para a pesquisa científica, por meio das atividades desenvolvidas pelo Inpa. 

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Criado em 1º de abril de 1995, o Bosque une lazer em contato com a natureza, educação e popularização da ciência em um só lugar. O espaço científico cultural promove a sensibilização da população sobre a proteção dos ecossistemas amazônicos e o turismo ecológico no Amazonas. Em 2025, recebeu mais de 140 mil visitas em 2025, entre moradores locais, estudantes e turistas. 

No PL, o Bosque da Ciência é apresentado como um dos mais emblemáticos espaços de integração entre preservação ambiental, produção científica e educação pública no Amazonas, constituindo-se um “verdadeiro patrimônio vivo da biodiversidade amazônica e da difusão do conhecimento”. 

“É extremamente significativo ver a ciência sendo reconhecida dentro do ambiente legislativo. Isso demonstra maturidade institucional e reforça o papel do conhecimento científico na formulação de políticas públicas. O Bosque da Ciência é uma vitrine desse trabalho e um elo direto do Inpa com a sociedade”, ressaltou o diretor do Inpa, o professor Henrique Pereira.

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Para o parlamentar, o reconhecimento proposto contribui para ampliar a visibilidade institucional do Bosque da Ciência. “Isso vai possibilitar a captação de parcerias, investimentos e projetos que garantam sua manutenção, expansão e permanente atualização como referência em ciência, educação e preservação ambiental”, afirma.

Homenagem

A sessão solene reuniu servidores, bolsistas e estudantes da pós-graduação do Inpa e autoridades. Além de representar uma homenagem pelas mais de três décadas de trajetória do Bosque, é um reforço do compromisso do Inpa e de seus servidores com a ciência, com a educação e com a preservação ambiental. 

“Essa honraria nos motiva ainda mais a ampliar nossas ações. O Bosque cumpre uma missão estratégica na educação ambiental, mas é fundamental avançarmos em novas parcerias com o poder público e a sociedade para fortalecer a preservação e expandir o alcance das atividades educativas”, disse o chefe do Bosque, Jorge Lobato.

Na sessão, Lobato e Pereira receberam uma placa em reconhecimento a seus relevantes serviços prestados ao parque. Acesse a lista dos homenageados aqui.

“Esse momento é memorável. O Bosque é um espaço muito importante, no qual compartilhamos informações e conhecimento, e também aprendemos em contato com a população”, contou a tecnologista Kyara Formiga, que  pesquisa e atua na popularização de conhecimento sobre genética populacional dos bagres migradores da Amazônia.

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Foto: Kaylane Golvin/Ascom Inpa

O pesquisador João Domingos atua há mais de 50 anos no Inpa e está entre os homenageados. “Temos uma oleoteca com 1.050 óleos essenciais no Inpa, como pau-rosa, casca preciosa e pimenta longa. E nós levamos amostras para crianças, jovens e adultos sentirem e conhecerem um pouco dos óleos da Amazônia”, disse o pesquisador que está prestes a se aposentar.

Bosque da Ciência 

O Bosque da Ciência é o primeiro parque verde urbano de Manaus. É um fragmento florestal de quase 13 hectares (equivalente a 13 campos de futebol), que integra a Área de Proteção Ambiental (APA Manaós), localizada na área central da capital amazonense. Em três décadas,  o Bosque recebeu mais de 2,5 milhões de visitas. 

No museu de ciências ao ar livre, o visitante pode se divertir e aprender em contato com a natureza. O espaço oferece observação de fauna (ariranha, peixe-boi da Amazônia, jacarés, tartarugas, cutias, preguiças, macacos), de flora (árvores centenárias, como a Tanimbuca de 600 anos), além de trilhas e atrativos culturais e expositivos na Maloca Indígena, Casa da Ciência e Paiol da Cultura.

O visitante ainda tem acesso a pesquisas e tecnologias que visam proteger a floresta, seus povos e desenvolver a Amazônia de forma sustentável. 

*Com informações do INPA