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Pará mantém liderança na produção de açaí: 89,5% do total

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Foto: Rafael Rocha/Embrapa

Base alimentar da população paraense e símbolo da Amazônia, o açaí consolidou-se como um dos principais indutores de desenvolvimento sustentável. De acordo com estudo da Fundação Amazônia de Amparo e Pesquisa (Fapespa), a produção do fruto saltou de quase 150 mil toneladas para cerca de dois milhões de toneladas em 38 anos, de 1987 a 2024, um crescimento de 14 vezes.

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Nesse cenário, o Pará mantém a liderança absoluta, com 89,5% do total nacional, seguido por Amazonas, com 7,2%, e Amapá, com 1,3%.

Em termos financeiros, o valor da produção paraense saltou de quase R$ 510 milhões, em 1994, para quase R$ 9 bilhões, em 2024, respondendo por 93,8% do valor total gerado no setor no Brasil.

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açaí de belém
Foto: Vanessa Monteiro/Ascom Ufra

Açaí reflete no reflorestamento

O presidente da Fapespa, Marcel Botelho, destaca o reflorestamento como resultado da alta produção:

“O reflorestamento é extremamente relevante para a cultura do açaí. O projeto Manejaí, coordenado pela Embrapa, já trouxe esses indicadores de uma forma muito clara. O açaí é uma planta nativa da nossa região e depende desse ecossistema para a sua produtividade. Então, é necessário que haja o reflorestamento das áreas do entorno da plantação do açaí. Esses são os indicadores que a ciência está mostrando, que o reflorestamento aumentou a produtividade do açaí”.

Entre 2015 e 2024, a área reflorestada com o fruto no Pará cresceu de 135 mil para 252 mil hectares. Esse avanço permitiu que o estado quase dobrasse sua capacidade de captura de dióxido de carbono (CO₂), atingindo quase um milhão de toneladas capturadas em 2024.

*Com informações da Rádio Agência Nacional

Indica Tapajós: tecnologias digitais reforçam monitoramento territorial em comunidades da Amazônia

Foto: Reprodução/Sapopema

Comunidades do PAE Tapará, em Santarém (PA), receberam a primeira rodada de instalação de tecnologias digitais e formação para monitoramento territorial no âmbito do Projeto Indica Tapajós, entre os dias 10 e 14 de março. A iniciativa é desenvolvida pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) e a Sociedade para Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), com financiamento da União Europeia.

Durante cinco dias de atividades, representantes de organizações comunitárias participaram de formações práticas e receberam kits de inclusão digital com antenas de internet, computadores, celulares, GPS e drones. Os equipamentos vão apoiar ações de monitoramento territorial independente, com foco em diferentes ações. No Tapará apoiarão na vigilância de acordos de pesca e no fortalecimento do manejo comunitário do pirarucu.

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A iniciativa integra um conjunto de estratégias voltadas à inclusão digital e ao fortalecimento das organizações locais que atuam na defesa de seus territórios.

“Nós estamos no PAE Tapará desenvolvendo uma série de iniciativas voltadas para inclusão territorial e para o fortalecimento do monitoramento territorial independente. Esse é um momento muito importante para fortalecer essas quatro organizações, que são as primeiras de uma série de 20 selecionadas no projeto Indica Tapajós”, explicou Samela Bonfim, gestora do programa de comunicação comunitária e inclusão digital da Sapopema.

Indica Tapajós: tecnologias digitais reforçam monitoramento territorial em comunidades da Amazônia
Foto: Reprodução/Sapopema

A atividade também incluiu formações sobre uso da internet segura, operação de drones, GPS e aplicativos de celular voltados ao monitoramento territorial. “Jovens, mulheres e pessoas que atuam frente a frente com esse monitoramento estão sendo treinados para utilizar essas tecnologias digitais, conseguir coordenadas geográficas, realizar denúncias mais qualificadas e vigiar seus lagos com mais segurança”, destaca.

A mobilização das organizações comunitárias e o engajamento dos pescadores foram marcantes em meio a uma semana chuvosa no inverno amazônico. “Foi uma semana muito rica, tanto pelas contribuições para o território quanto pela mobilização das associações de pescadores da região. Fiquei muito impressionado com o engajamento dos pescadores no monitoramento da pesca e na vigilância das regras do acordo de pesca”, esclareceu Eric Macedo, pesquisador do FGVces.

O uso de tecnologias digitais também foi pensado como estratégia para ampliar a participação da juventude nas ações de proteção territorial. “A gente focou no uso de tecnologias digitais, como drones, GPS e aplicativos de celular, justamente para criar um apelo para que os jovens se engajem nessas atividades que são fundamentais para a preservação dos recursos essenciais para a vida das comunidades”, complementou.

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Foto: Reprodução/Sapopema

Indica Tapajós fortalece vigilância

Nas comunidades do Tapará, os equipamentos chegam para fortalecer um trabalho de vigilância e manejo que já vem sendo realizado pelos próprios pescadores. “Essa chegada desses equipamentos para nossa região vai evoluir muito o nosso trabalho nos acordos de pesca. A fiscalização vai ser mais extensa e vai ajudar muito a combater a pesca predatória e pessoas que não querem respeitar o acordo”, avalia Rionaldo Pereira, presidente do Conselho Regional de Pesca do Tapará.

O fortalecimento dos acordos comunitários é apontado como uma estratégia central para garantir a conservação dos recursos pesqueiros e a segurança alimentar das famílias. “A importância do acordo de pesca para a região é muito grande, porque a gente faz a preservação do futuro da nossa família e das nossas crianças”, reforça.

Na comunidade Santa Maria do Tapará, a chegada dos equipamentos é vista como um reforço para o monitoramento do manejo do pirarucu e de outras espécies. “Esse equipamento veio para somar principalmente na fiscalização do monitoramento da pesca. Sabemos que enfrentamos muitas dificuldades para fiscalizações, então esses equipamentos vieram para melhorar muito a nossa comunidade”, comenta Odirlei Souza, presidente da comunidade.

Foto: Reprodução/Sapopema

Na comunidade Pixuna, a iniciativa também foi recebida como um instrumento para fortalecer as ações de conservação. “É de grande importância receber esse projeto na nossa comunidade. Veio para somar como um instrumento para melhorar o acordo de pesca e o manejo do pirarucu”, observa Lino, presidente da associação local.

O treinamento para pilotagem de drones despertou interesse entre os participantes, especialmente entre os jovens envolvidos nas ações de monitoramento.

“Foi a primeira vez que pilotei um drone e foi uma maravilha. Ver ele subir, descer e filmar foi muito bom. Vai servir para monitoramento de lago e para identificar invasões”, conta um Odirclei Viegas, participante da formação.

As lideranças comunitárias avaliam que a tecnologia pode ampliar o alcance das ações de fiscalização, principalmente em áreas de difícil acesso. “Esse equipamento vai nos ajudar muito na fiscalização, porque ainda existem irregularidades dentro dos nossos acordos. Muitas vezes a gente não tem acesso para chegar em determinados lugares, mas com o drone vai ser possível identificar essas situações”, explica Ronaldo Pereira dos Santos, coordenador da base de Pixuna do Tapará.

Foto: Reprodução/Sapopema

A chegada dos equipamentos também fortalece um trabalho comunitário construído ao longo de décadas em torno do manejo do pescado. “Nós já trabalhamos há mais de 25 anos com manejo e monitoramento do pescado. Um equipamento como esse vem só fortalecer o nosso trabalho e ajudar no desenvolvimento do conhecimento sobre a natureza”, ressalta Amarildo Ribeiro Fernandes.

Para as lideranças locais, o projeto Indica Tapajós representa um passo importante no fortalecimento das estratégias comunitárias de proteção dos lagos e territórios pesqueiros.

“Esse projeto vem fortalecer muito o nosso trabalho comunitário e a vigilância dos lagos. Era um sonho que nós estávamos esperando”, celebra Geraldo Ferreira de Santos, coordenador do núcleo de pesca da Costa do Tapará.

O Projeto Indica Tapajós irá apoiar 20 organizações de povos e comunidades tradicionais da bacia do Tapajós e do Baixo Amazonas com equipamentos, conectividade e capacitações voltadas ao monitoramento territorial independente. As organizações receberão kits digitais e antenas de internet, com o custo do serviço garantido pelo projeto por um período de 18 meses.

Além do acesso à conectividade, o projeto prevê formações sobre monitoramento territorial independente, uso de equipamentos e aplicativos, segurança digital, formulação de denúncias e gestão comunitária da internet. As organizações participantes também passam a integrar a Rede de Monitoramento Territorial Independente (Rede MTI), fortalecendo a articulação entre comunidades que atuam na proteção de seus territórios na Amazônia.

*O texto foi originalmente publicado pela Sapopema

Mulheres de Roraima recebem capacitação para produção de cajuína

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Foto: Taíse Pereira

Com foco no fortalecimento da agroindústria e no aproveitamento integral do caju, a Embrapa Roraima realizou no final de fevereiro o Curso de Produção de Cajuína. A capacitação ocorreu no Laboratório de Pós-colheita da Unidade e reuniu agricultoras familiares e indígenas dos municípios de Bonfim e Normandia.

O treinamento foi uma realização da Embrapa Roraima e do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), por meio do programa Quintais Produtivos, via Termo de Execução Descentralizada (TED) do MDA. A iniciativa integra as ações de desenvolvimento da cajucultura no estado, viabilizadas por emenda parlamentar da deputada federal Helena Lima (MDB/RR), e contou com o apoio estratégico do Sebrae, Senai, Di Fruta’s e Bebidas Monte Roraima.

Leia também: Chegada do verão amazônico marca temporada do caju e fruta toma ruas e lavrado de Roraima

Muito além do caju: ciência e prática no campo

O curso foi ministrado pelos pesquisadores Ingrid Moraes e Gustavo Saavedra, da Embrapa Agroindústria Tropical (CE), em parceria com as pesquisadoras Caroline Coelho e Mariana Fensterseifer, da Embrapa Roraima. A programação integrou teoria e prática, abordando desde o preparo da matéria-prima e todas as etapas de produção da cajuína, incluindo extração, clarificação, padronização, rotulagem e controle de qualidade, conforme as exigências do mercado.

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Treinamento foi ministrado por pesquisadores da Embrapa. Foto: Taíse Pereira
Treinamento foi ministrado por pesquisadores da Embrapa e integrou teoria e prática das etapas de produção da cajuína. Foto: Taíse Pereira

Para o pesquisador Gustavo Saavedra, o potencial de Roraima é estratégico, pois o pedúnculo do caju possui grande potencial de aproveitamento e pode ser utilizado na produção de polpa, suco clarificado, cajuína e doces, agregando valor à cadeia produtiva: 

“Quando trabalhamos o aproveitamento integral do fruto, ampliamos as possibilidades de geração de renda e fortalecemos as comunidades produtoras. Esse avanço é resultado de décadas de pesquisa sobre o caju, com estudos iniciados ainda nas décadas de 1950 e 1970. A parceria entre as Unidades é fundamental para garantir a transferência desse conhecimento e das tecnologias já consolidadas, permitindo que essas soluções científicas sejam aplicadas de forma prática nas comunidades locais”, afirmou Gustavo.

Leia também: Cajuaçu, o gigante da floresta amazônica que esconde segredos e potencial

Curso de produção de cajuína reuniu agricultores e indígenas de Roraima. Foto: Divulgação/Embrapa
Curso de produção de cajuína reuniu agricultores e indígenas de Roraima. Foto: Divulgação/Embrapa

Fortalecimento da Agricultura Familiar

Entre o público-alvo, destacaram-se as mulheres da Associação das Mulheres Rurais de Normandia (ASMURN) e da Associação Reviver, de moradores indígenas da sede de Bonfim. Ambos os grupos já recebem orientações técnicas da Embrapa e veem no processamento do caju uma oportunidade de independência econômica.

Lucineia Sagica, presidente da Associação Reviver, destacou o impacto da capacitação para a comunidade.

“Aproveitamos o caju nativo, mas antes parte da produção se perdia, porque fazíamos apenas doce e o ‘mocororó’, bebida tradicional fermentada à base de suco de caju, comum nas comunidades indígenas. Com o curso, aprendemos como produzir cajuína com qualidade. Isso vai transformar a rotina da associação e valorizar o trabalho das mulheres indígenas”, afirmou.

*Com informações da Embrapa

Brasil tem potencial para reduzir 28% das emissões de metano até 2035, mostra artigo

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Foto: Breno Lobato

O Imaflora publicou um artigo nesta semana que revela o potencial do Brasil para reduzir até 28% das emissões de metano (CH₄) no setor agropecuário brasileiro até 2035 em comparação com o ano de 2020. O metano é o principal gás de efeito estufa emitido pelo setor e correspondeu a 20,3% das emissões nacionais em 2024. 

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Com o título ‘Solutions for methane mitigation in Brazilian agriculture: achieving a 28% reduction by 2035‘, o artigo foi elaborado considerando as atividades de produção da pecuária e agricultura, abordando propostas de soluções de mitigação possíveis de serem adotadas pelo setor e que já ocorrem.

Para a pecuária, foi proposta a melhoria da dieta, da genética e da manipulação da fermentação ruminal de bovinos de corte e leite, além do abate precoce e do aumento e melhoria do manejo alimentar de bovinos de corte.

O tratamento de dejetos da produção de suínos, de vacas leiteiras e de corte também é uma solução sugerida pelos especialistas. Já para a agricultura, foi proposto o melhor manejo do solo e da irrigação do cultivo do arroz e a eliminação na queima dos resíduos agrícolas, especialmente da cana-de-açúcar.

agricultura familiar amazonas brasil
Agricultura familiar brasileira. Foto: Mauro Neto/Secom AM

Para todas as soluções abordadas foram estabelecidas metas de adoção até o ano de 2035, de modo que contribuam com o aumento da produtividade e produção, além da redução das emissões pelo setor.

“As propostas e resultados do artigo indicam o potencial que agropecuária brasileira possui de reduzir suas emissões de metano (CH₄) em diferentes atividades produtivas. Reduzir as emissões é uma oportunidade que o setor tem de aumentar a eficiência e produtividade, visto que várias das soluções apresentam esses benefícios ao mesmo tempo”, explica Gabriel Quintana, analista de Ciência do Clima no Imaflora e um dos autores do artigo. 

Leia também: Grupo de 40 mulheres transforma pasto em floresta produtiva no Pará

Soluções para o Brasil

As soluções propostas pela publicação favorecem também o cumprimento das metas nacionais para a redução de gases de efeito estufa, definidas pela atual Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira.

“As soluções sugeridas pelo artigo já existem e parte delas já são abordadas pelo Plano ABC+ para promover uma agropecuária de baixas emissões. Muitas delas já são inclusive aplicadas em campo, devendo ser destacadas e monitoradas para permitir a melhor representatividade do setor. A grande oportunidade é a inclusão de outras estratégias que são viáveis, conciliando com uma melhor produtividade e maior produção”, afirma Gabriel. 

O artigo foi publicado pela Frontiers in Sustainable Food Systems, uma revista multidisciplinar de pesquisa básica e aplicada que explora soluções sustentáveis ​​para o desafio da segurança alimentar global. Esse estudo faz parte de um trabalho integrado do Imaflora para fomentar soluções de redução de emissões de gases de efeito estufa no setor agropecuário.

Para ler na íntegra, acesse este link.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora

Contadora de histórias: “A natureza fala para quem sabe ouvir”, alerta Karla Martins

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Karla Martins, contadora de histórias. Foto: Reprodução/Mídia Ninja

Karla Martins, ou @karlotadoacre, é atriz acreana formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e com pós-graduação pelo Instituto Superior de Arte em Havana, Cuba. Contadora de histórias, ativista cultural e ambiental, ela falou à newsletter Um Grau e Meio, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) sobre como mitos e lendas ajudam a nos enxergarmos como parte da natureza.

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‘Karlota’ é articuladora do Comitê Chico Mendes, também fundadora da Mídia Ninja, da Casa Ninja Amazônia e do movimento Fora do Eixo. Foi professora em seringais no estado do Acre, onde aprendeu que contar histórias é um processo coletivo.

A atuação na interface entre cultura e meio ambiente fez com que a atriz passasse a ser requisitada pela produção audiovisual nacional. Durante a entrevista, inclusive, ela estava em Pucallpa, no Peru, trabalhando como produtora de um filme que irá se passar na Amazônia transfronteiriça.

Fale um pouco sobre seu trabalho e sua relação com a contação de histórias

Karla Martins: Pelo fato de ter nascido em Rio Branco, no Acre, mas também ter vivido um período no Rio de Janeiro, fui entendendo, sem saber exatamente esse nome que a gente dá hoje, o que é o lugar de fala.

Existe uma visão no Brasil de que tudo aquilo que tem qualidade na cultura precisa da régua de aprovação do Sudeste. Durante muito tempo, nós, que morávamos longe, quando íamos para os grandes centros, a gente sofria muito preconceito. Hoje menos.

Depois de ter passado 10 anos fora do Acre,  quando voltei, comecei a entender essa força que a gente tem no território e que era muito pouco reconhecida.

Leia também: Lendas Vivas: animais amazônicos e suas histórias místicas

Karla Martins, contadora de histórias
Karla Martins, contadora de histórias. Foto: Reprodução/Instagram-@Karlotadoacre

Fui ser professora em escolas do Projeto Seringueiro e fui conhecendo os professores e os processos de oralidade. eu sou filha de mãe seringueira, avô seringueiro, isso tá dentro da minha família.

Então me deparei com as histórias, crenças e sabedorias populares. Se tem nome, é porque existe: já não chamo de lenda. Se escutei uma história, do Mapinguari, do Caboclinho da Mata… se você está me perguntando, é porque existe. A floresta fala para quem sabe ouvir.

O que é contar uma história?

Karla Martins: Antigamente, na escola, a gente aprendia que história com H era “história de verdade” e estória com E era “de mentira”. Só que inclusive a história com H era escrita por mentiras. Então, tudo é história.

O que a gente está fazendo agora é história. Todos nós temos nossas referências e isso nos permite contar. O movimento dos contadores de história fala muito disso. Não tem um tema específico, qualquer pessoa pode contar uma história e é importante trazer o processo da oralidade para nossa sociedade hoje.

Contar história é um lugar da humanidade. A gente tem esse código entre nós, um código letrado. Mas os povos indígenas nos ensinam que oralidade é o valor da palavra, o que a pessoa nos diz, e isso é muito importante. É uma coisa para a gente pensar. Contar história é um ato coletivo.

De onde vêm as histórias que você conta?

Karla Martins: Eu conto aquilo em que eu acredito. Como diz Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, se forem falar da Amazônia, nos chamem. Temos muito a contar sobre nós mesmos.

A coisa mais importante de pensar é que quando você conta uma história, você vai ver um processo coletivo.

‘Eu sou daqui mas vim de longe, contando histórias naveguei num barco grande. Tem rosa de cor morena e uma verbena para te enfeitar. São flores de carne e osso, do meu pescoço para o seu colar’.

Leia também: Conheça histórias inspiradoras de quatro mulheres indígenas

Karla Martins, Contadora de histórias. Foto: Reprodução/Instagram-@Karlotadoacre

Eu canto e digo assim para as pessoas, dependendo da história: ‘quanto tempo faz que você não escuta uma história? Que você não senta numa roda, de coração aberto, para ouvir o que alguém te diz?’

‘Venho aqui para te dizer que você precisa lembrar de uma árvore, porque todos temos dentro de nós uma árvore. Aquela árvore que você desenhava, que você subiu para brincar, uma árvore que você viu florida. As árvores trazem ensinamento, porque gostam de viver junto uma das outras, se protegendo, se cuidando. Te desejo que você se lembre da sua árvore, que você seja árvore. Sinta onde está enraizado, sinta a copa em cima de você, a sombra… e assim eu vou te contar uma história’.

Como é a relação com quem escuta?

Karla Martins: Se a gente não tivesse perdido o pensamento real de que estar junto é bom, de que viver coletivamente é bom, a gente teria a floresta e a natureza mais cuidada.

Estou trabalhando na sala da oralidade para um museu que vai abrir em Belém, o Museu das Amazônias. Numa reunião, falaram que o tempo máximo de concentração que as pessoas têm hoje para visitar um museu é de 17 minutos. Fiquei rindo.

Quando eu dava aula no seringal, uma pessoa muito antiga disse para mim: ‘às vezes eu falo por duas ou três horas e paro. Depende do quanto os meninos estão olhando para o canto. Aí eu paro, mando todo mundo beber água e volta, para de novo eu ser o foco principal’.

As pessoas têm um lugar de concentração. Isso, nas cidades, pela tecnologia, tem se perdido muito. Mas eu te digo claramente, seja no campo, na cidade, em terras indígenas ou comunidades, quando você diz ‘era uma vez’ as pessoas param. Ainda está no ser humano a ideia da escuta.

Mesmo contar história para uma pessoa só faz sentido. Às vezes quando vou nos asilos, conto histórias mais engraçadas. É um brilho no olho.

De que forma a natureza entra na história?

Karla Martins: A natureza fala para quem sabe ouvir. Precisa pensar nisso quando vai contar histórias. Celebrar a palavra como algo muito importante. O ato da paciência. A coisa que mais aprendi com os povos indígenas e comunidades tradicionais foi a paciência, é ter calma para olhar o que está em volta.

Nessa época eu ainda andava a pé, às vezes 26 horas de caminhada. Eram dias até chegar na colocação. Andava com um seringueiro e uma vez falei ‘é tanto verde que a gente cansa de ver’, e ele disse ‘é não. É verde claro, escuro, tem marrom, cinza. Quando tá com flor, às vezes é vermelho, roxo’.

Leia também: Roraima, Terra de Macunaima: conheça a história que se entrelaça com saberes indígenas

Karla Martins, contadora de histórias. Foto: Reprodução/Instagram-@Karlotadoacre

Meu olhar era cheio de vícios. A floresta não é um verde só, ela é multicolor. A gente precisa abrir o olho e a paciência faz isso.

Às vezes eu digo assim: ‘todo mundo aprende na escola que a Amazônia é o pulmão do mundo, está errado. A Amazônia é o ar-condicionado deste planeta. E porque ela refresca o planeta, nos dá também a ideia de que poderíamos refrescar as mentes e os corações para pensar possibilidades futuras de vida. Por isso também a gente conta história’.

Qual é o papel da ludicidade na proteção ambiental?

Karla Martins: Contar histórias e fazer essa interface com o meio ambiente tem a ver com o pensamento orgânico de que meio ambiente e gente é tudo a mesma coisa. A gente parou de se enxergar como meio ambiente. Por mais que agora eu sinta que as pessoas levantam isso, a gente ainda se enxerga só como gente.

Houve um momento que nós nos ejetamos de nos pensar dentro do meio ambiente. Passamos a pensar a humanidade e criamos uma arrogância para nos manter, de que nós somos mais importantes do que qualquer coisa. Com isso, fomos perdendo o sentido de proteção para o todo. Mas quando eu protejo o meio ambiente, protejo todas as pessoas em volta, protejo a vida e o mundo.

A sociedade começou a estabelecer dinâmicas que você tem que ser o melhor, e se você não é o melhor, você não tem sucesso. Esse pensamento sistêmico social colocou isso na nossa cabeça e tirou, inclusive, a ideia de coletividade.

Mas o mito conservacionista da floresta em pé não existe. Onde tem floresta em pé, tem gente cuidando. Um amigo meu, Antônio Alves, pensador acreano, criou a palavra florestania, que as pessoas entendem como a cidadania da floresta. Quando você tem a ideia de coletividade, você compreende a floresta, porque a floresta é um lugar coletivo.

Às vezes, aquilo que parece modernidade, também pode ser uma maneira de matar o pensamento de um povo, de uma comunidade, de um lugar. Quanto tempo a gente ficou chamando indígenas de atrasados? Quanto tempo a gente ficou usando as palavras ‘índio’ e ‘seringueiro’ para desqualificar pessoas tímidas?

Todo mundo tem as suas folhas. Todo mundo tem uma árvore dentro de si. Se todo mundo se lembrasse da sua árvore, talvez fosse o primeiro passo para sair dessa agonia climática que estamos vivendo. É uma maneira de chamar as pessoas para esse lugar de escuta da história, da natureza, do que está dentro de você, muito mais como um chamamento.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito pelo Bibiana Alcântara Garrido

Convivência entre humanos e mamíferos aquáticos é foco de projeto em comunidades ribeirinhas

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Peixe-boi da Amazônia. Foto: Carolina Oliveira/Instituto Mamirauá

A primeira etapa do projeto ‘Coexistência entre população humana e mamíferos aquáticos em duas reservas de desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental brasileira’ ocorreu entre 2023 e 2026. Nessa fase, o objetivo foi compreender a relação entre mamíferos aquáticos e populações ribeirinhas por meio de um diagnóstico realizado em 25 comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e em 40 comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã. 

A partir do diagnóstico, os pesquisadores puderam compreender melhor a atual relação entre os mamíferos aquáticos e as comunidades que convivem e compartilham o mesmo habitat, além de perceber a real necessidade de avançar com o projeto.

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“Na primeira etapa do projeto identificamos os principais pontos de tensão e de conflitos e, a partir deles, começamos a buscar as melhores práticas e soluções para reverter esses problemas e garantir que essas atividades humanas, seja a pesca e outras do cotidiano continuem acontecendo, mas também resguardando a sustentabilidade dessas espécies”, explicou João Borges, pesquisador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA).

Os principais mamíferos aquáticos com os quais o projeto planeja trabalhar junto às comunidades, e que fazem parte do cotidiano dessas populações tradicionais, são os botos (tucuxi e vermelho), os peixes-boi, ariranhas e lontras. Essas espécies são frequentemente afetadas por caça, captura incidental ou outros problemas relacionados às atividades de caça de subsistência.

Leia também: Conheça o peixe-boi-da-Amazônia: além de vítima de caça predatória é vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção

Projeto na prática: próximos passos

Visando a próxima etapa, em fevereiro de 2026, os envolvidos reuniram-se na sede do Instituto Mamirauá para a elaboração de um plano estratégico com o objetivo de debater as melhores iniciativas para o equilíbrio sustentável entre as populações locais e os mamíferos aquáticos, etapa que busca amenizar significativamente os impactos negativos oriundos dessas interações e contribuir para o fortalecimento da coexistência na região.

Durante toda a pesquisa, até a reunião do plano estratégico, os pesquisadores elaboraram uma “teoria da mudança”, cujo objetivo é melhorar as interações entre as populações locais e os mamíferos aquáticos por meio de iniciativas práticas de longo prazo.

“A participação da população amazônica é fundamental para o processo deste projeto. As boas práticas são essenciais para a coexistência em áreas e recursos compartilhados, por exemplo, vigiar a malhadeira durante atividades de pesca, cercar a malhadeira, não colocar malhadeiras na entrada de rios e igarapés. Práticas que podem fazer total diferença para o equilíbrio ecológico”, explicou a pesquisadora Míriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.

humanos e mamíferos podem ter ótima convivência, principalmente em comunidades ribeirinhas.
Foto:  Marcelo Ismar Santana / Instituto Mamirauá

Seca histórica intensifica monitoramento de mamíferos aquáticos na Amazônia

Com as mudanças climáticas influenciando as secas extremas nos rios da Amazônia, as espécies de mamíferos aquáticos têm ficado ainda mais vulneráveis, tornando a iniciativa ainda mais necessária dentro das comunidades ribeirinhas.

Durante a seca dos anos de 2023 e 2024, o Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá destacou-se como uma das instituições à frente das iniciativas voltadas à compreensão da mortalidade de mamíferos aquáticos e à busca por medidas para mitigá-la. Entre essas iniciativas, destaca-se a colaboração com comunidades ribeirinhas.

“Após esse período, nos mantivemos em uma rede de contatos junto com a população local, tanto nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã quanto no Lago Tefé, que alerta e aciona o Grupo em caso de mortalidade das espécies em questão”, acrescentou a pesquisadora Míriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.

Após a mortalidade dos botos, outras parcerias foram fortalecidas com diversas organizações locais, regionais e nacionais, com o objetivo de monitorar as espécies e estudar a vulnerabilidade desses animais ao clima.

O projeto é uma iniciativa da Fundação de Mamíferos Aquáticos (FMA), em parceria com o Instituto Mamirauá e com o Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do próprio instituto, que contou com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A iniciativa também mantém vínculo de pesquisa com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental (PPGEMA).

*Com informações do Instituto Mamirauá

Encontro reúne comunidades tradicionais e indígenas para debater gestão participativa dos recursos naturais da Amazônia

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Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá

O Instituto Mamirauá realiza, nos dias 29 e 30 de março, o Encontro Anual de Caminhos e Resultados. O evento será realizado em formato híbrido, com polos presenciais em Tefé (Amazonas) e Bragança (Pará), conectados por meio de videoconferência. Participantes e comunidades do Amapá acompanharão a programação de forma online, ampliando o intercâmbio entre os diferentes territórios de atuação dos projetos.

O encontro marca a conclusão do primeiro ano de implementação dos projetos e visa alinhar expectativas, compartilhar aprendizados e planejar, de forma participativa, as ações para o próximo ciclo.

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O objetivo central dos projetos no encontro é unir instituições e comunidades tradicionais para fortalecer, por meio de pesquisa científica, metodologias de manejo e conhecimentos ancestrais, a gestão de recursos naturais de ecossistemas de várzea, manguezal e outras áreas prioritárias para a conservação.

Dávila Corrêa, diretora de Manejo e Desenvolvimento do Instituto Mamirauá, destaca a relevância dos projetos para as comunidades no encontro.

“São territórios de grande riqueza biológica e estratégicos para a mitigação das mudanças climáticas. São também as comunidades tradicionais e indígenas amazônicas que mantêm esses ecossistemas de pé. Os projetos buscam valorizar e fortalecer esses modos de vida, em uma iniciativa construída a muitas mãos, que integra conhecimentos ancestrais e científicos, além de promover inovação e tecnologias sociais”, afirmou a diretoria.

Leia também: Instituto Mamirauá disponibiliza novas edições de cartilhas sobre manejo do pirarucu

Pesca e encontro de comunidades ribeirinhas no Tapajós. foto Daniel Govino
Pesca de ribeirinhos do rio Tapajós, no Pará. Foto: Daniel Govino/The Nature Conservancy

O  Instituto Mamirauá é um centro de excelência em pesquisa aplicada vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).  O projeto Entre Águas Amazônicas é financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e conta com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no papel de agência implementadora. O projeto Sustenta Mangue é financiado pela Fundação Gordon e Betty Moore.

Encontro recebe projeto ‘Entre Águas Amazônicas’

Com o objetivo de conservar os ecossistemas de várzea e manguezal, que estão entre os mais ameaçados da Amazônia, o projeto Entre Águas Amazônicas busca fortalecer a gestão participativa e o desenvolvimento econômico sustentável, com a meta de beneficiar diretamente mais de 8.000 pessoas.

De acordo com as metas estabelecidas, a iniciativa prevê melhorar a gestão de 26 territórios — entre reservas extrativistas, florestas nacionais, reservas estaduais e outras áreas prioritárias para a conservação — que, somados, abrangem aproximadamente 4,8 milhões de hectares, uma área maior que a Suíça.

“Esses ecossistemas amazônicos, como a várzea e o manguezal, são altamente produtivos e, por isso, concentram um grande número de comunidades tradicionais e indígenas. Ao mesmo tempo, são territórios sob intensa pressão e diversas ameaças. O manejo de recursos naturais já se mostrou uma estratégia bem-sucedida de conservação aliada à geração de renda. Em grande parte, o projeto busca replicar e desenvolver novas metodologias de manejo de recursos como o pirarucu, no Amazonas, e o caranguejo, no Salgado Paraense”, explica Dávila.

Estão contemplados também o manejo florestal (Amapá), o manejo de jacaré, o manejo de agroecossistemas e iniciativas voltadas ao turismo de base comunitária (Amazonas). A proposta se constrói em parceria com as comunidades, fortalecendo práticas já existentes e criando novas oportunidades a partir da troca de saberes.

Nesse processo, a formação de jovens e lideranças ganha destaque, com percursos formativos, oficinas e espaços de aprendizagem contínua voltados à gestão dos territórios, ao manejo sustentável e à geração de renda. A iniciativa contribui ainda para o fortalecimento das condições de vida e das economias das comunidades locais, a partir do uso sustentável da biodiversidade.

Manejo dos peixes pirarucu. — Foto: Adriano Gambarini/OPAN/Divulgação
Manejo dos peixes pirarucu. Foto: Adriano Gambarini/OPAN

O projeto Entre Águas Amazônicas também adota uma diretriz de equidade de gênero, garantindo que ao menos 50% do público beneficiado seja composto por mulheres, além de buscar estimular a participação e o protagonismo de jovens de comunidades.

Já o projeto Sustenta Mangue tem como foco a costa do Pará e o manejo sustentável do caranguejo e outros pescados, buscando promover um futuro mais sustentável e participativo para os manguezais amazônicos. A iniciativa enfrenta desafios como a sobre-exploração dos recursos naturais, a poluição e os impactos das mudanças climáticas, por meio de ações que incluem formação técnica, elaboração de planos de gestão e uso público, fortalecimento da governança local e monitoramento da biodiversidade e das pressões antrópicas.

Comunidades participantes

Durante o evento, participantes — entre representantes comunitários, parceiros e equipe do Instituto Mamirauá — irão apresentar os resultados do primeiro ano de implementação por meio de um painel expositivo que representará um ecossistema de áreas alagáveis e os manejos de recursos naturais e rodas de diálogo voltadas ao compartilhamento de aprendizados e desafios.

A programação inclui ainda a validação coletiva do Plano de Ação 2026, com a definição de estratégias e prioridades para ampliar o engajamento dos diferentes atores e garantir transparência na condução dos projetos, reforçando o compromisso com uma gestão participativa e sustentável nos territórios.

*Com informações do Instituto Mamirauá

CUFA Amazonas oferece serviços gratuitos de saúde, esporte e cultura em Manaus

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Oficina de maracatu é um dos serviços oferecidos pela CUFA Amazonas. Foto: Divulgação

A CUFA Amazonas está com programação gratuita nas áreas de saúde, esporte e cultura, ampliando o acesso da população a serviços essenciais. As ações fortalecem vínculos comunitários, promovem qualidade de vida e reafirmam o compromisso da instituição com a transformação das periferias por meio de iniciativas permanentes e acessíveis.

O atendimento fisioterapêutico é realizado de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h, na sede da instituição, mediante agendamento prévio. O serviço é destinado a pessoas que necessitam de reabilitação, alívio de dores musculares, recuperação de lesões ou melhoria da mobilidade, promovendo mais qualidade de vida.

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“Nosso propósito é garantir que serviços fundamentais cheguem a quem mais precisa. A fisioterapia gratuita é mais uma ação concreta de cuidado com a nossa comunidade”, destaca Fabiana Carioca, vice-presidente da instituição.

IV Marcha das Mulheres Indígenas CUFA AM
CUFA Amazonas. Foto: Divulgação/CUFA

O esporte também faz parte da programação semanal. O treino de parajiu-jitsu acontece às terças-feiras, das 19h às 20h, na Av. Joaquim Nabuco, 2274 – Centro (esquina com a Rua Japurá, entrada pela Rua Japurá). Os atendimentos podem ser feitos pelo telefone (92) 99310-1558.

CUFA Amazonas e atividades

A atividade é gratuita e voltada especialmente para pessoas com deficiência (PcDs), contemplando o público juvenil e adulto. A modalidade é adaptada, respeitando as necessidades e potencialidades de cada participante, promovendo inclusão, fortalecimento físico, autonomia e integração social por meio do esporte.

A cultura ganha espaço aos sábados, às 17h, com a Oficina de Maracatu – O Baque das Ondas do Mar, realizada na sede da CUFA/AM, na Av. Joaquim Nabuco, 2224 – Centro. A atividade promove ritmo, ancestralidade e valorização da cultura afro-brasileira, com acesso gratuito. O atendimento aos interessados na oficina pode ser feito pelo telefone (92) 99208-2550.

Pesquisas da Amazônia paraense chegam à Inglaterra em intercâmbio do Museu Goeldi

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Grupo de pesquisadores e estudantes em simpósio da Universidade de Birmingham. Foto: Divulgação/UoB

Estudantes e pesquisadores da Amazônia paraense participaram, neste mês de março, do Decolonising Climate Change Symposium, na Universidade de Birmingham (UoB), na Inglaterra. Foi a segunda etapa do intercâmbio multidisciplinar financiado pelo projeto “Descolonizando as mudanças climáticas: produção colaborativa de conhecimento através das diferenças entre Norte-Sul globais”, que analisa os impactos do clima na Amazônia sob uma perspectiva local e global.

A iniciativa é coordenada pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), instituição científica localizada em Belém-PA e vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e pela UoB.

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O Museu esteve representado pela coordenadora de Comunicação e Extensão (Cocex/MPEG), Sue Costa, que também é coordenadora do projeto, juntamente com a professora Emanuelle Santos, da Universidade de Birmingham.

Também participaram do evento o diretor-presidente da Fapespa, Marcel Botelho; os pesquisadores do MPEG Erêndira Oliveira, arqueóloga; Tatyana Mariucha, chefe da Estação Científica do MPEG; e Pedro Glécio Costa Lima, bolsista. Além deles, também estiveram envolvidos nas discussões estudantes e representantes da Universidade Estadual do Pará (Uepa) e de outras instituições de pesquisa do Brasil.

Foto: Divulgação/UoB

Durante o simpósio, que aconteceu entre os dias 2 e 6 de março, dentro da programação do The Brazilian Carnival, Sue Costa falou sobre as exposições do Museu Goeldi, com destaque para a Ahetxiê, que está em cartaz no Aquário Jacques Huber, no Parque Zoobotânico do MPEG. Ela explicou que a integração entre a ciência, a arte e a cultura indígena foi fundamental para a apresentação ao público de uma espécie de peixe em extinção, o peixe-espada ou espadarte. 

Ela também apresentou outras pesquisas do MPEG e os resultados da primeira etapa do projeto em colaboração com a Universidade de Birmingham, “Imersão Amazônia – desafios Globais”, que foi realizado em julho do ano passado, reunindo estudantes de cinco instituições (UoB, IFPA, Uepa, UFPA e Ufra), nas bases do Museu localizadas em Belém e na Floresta Nacional de Caxiuanã. 

Além dessa participação no simpósio, a coordenadora do projeto, Sue Costa, também ministrou, no último dia 12, a palestra “Descolonizando o encantamento: ciência e arte no Museu Goeldi, Amazônia brasileira”, em um seminário coordenado pela professora Emanuelle Santos, da UoB. 

“Apresentamos a estudantes e a outros pesquisadores como a ciência e a arte interagem nas exposições do Museu Goeldi, que detém um dos maiores acervos científicos e culturais da Amazônia brasileira. Enquanto a ciência fornece métodos rigorosos para investigar e para preservar a biodiversidade e as culturas, a arte amplia a percepção e incorpora a sensibilidade ao diálogo com o público. Juntas, elas transformam dados em narrativas e conhecimento em experiências significativas”, relatou Sue Costa. 

Leia também: Museu Goeldi estreia no Google Arts & Culture com exposição virtual do Parque Zoobotânico

Da arqueologia à etnobotânica

A arqueóloga Erêndira Oliveira falou sobre a importância das pesquisas arqueológicas para a compreensão da ocupação da Amazônia, não só no passado, mas também como afirmação para o presente no reconhecimento da longa permanência dos povos nos territórios amazônicos. 

Tatyana Mariucha apresentou a relação com a comunidade e mostrou como cosmologias diversas são importantes para os processos de reintegração e de conservação de espécies de peixes-boi na Amazônia. Pedro Glécio defendeu a importância da etnobotânica para conservação da floresta e o trabalho em conjunto com a comunidade na elaboração de guias botânicos para fortalecer a construção e a divulgação do conhecimento.

Expansão do projeto 

O projeto “Descolonizando as mudanças climáticas: produção colaborativa de conhecimento através das diferenças entre Norte-Sul globais” foi aprovado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), dentro do Edital 011/2025 – Connect Amazônia.

Em julho do mesmo ano, o projeto realizou o Immerse Amazonia Summer School, uma parceria entre o UBBI, o MPEG e a Fapespa, que promoveu a interação entre pesquisadores, alunos e comunidades de Caxiuanã-PA, na Amazônia brasileira. Este ano, a colaboração se expandiu com a realização da segunda parte do intercâmbio, na Inglaterra. 

Foto: Divulgação/UoB

De acordo com Sue Costa, além do intercâmbio – que integra pessoas de várias áreas, como das ciências naturais e humanas, da saúde e da museologia –, o projeto tem mais dois eixos. O primeiro é a produção acadêmica, com a elaboração de um artigo científico em coautoria, com os diferentes atores do projeto, sintetizando debates teóricos e soluções baseadas nos sistemas de conhecimentos.

O outro é o fomento a uma rede sustentável, com realização de eventos presenciais e online, como o simpósio Decolonising Climate Change, realizado em Birmingham.

Além dos eventos acadêmicos, o grupo de estudantes e pesquisadores brasileiros e britânicos participou das atividades culturais da segunda edição do The Brazilian Carnival, que contou com apresentações de samba e de capoeira e com comidas típicas da culinária brasileira.

*Com informações do Museu Goeldi

Aves migratórias mudam rotina e estimulam novos estudos na Amazônia

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Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

A seca extrema de 2024 na Amazônia trouxe uma surpresa para a Transpetro, o braço logístico da Petrobras. Da noite para o dia, uma revoada de milhares de andorinhas-azuis (Progne subis) ocupou as estruturas metálicas do terminal de carga da empresa no rio Solimões.

Durante a estiagem, com a redução da vazão do rio, o porto de gás liquefeito em Coari, no Amazonas, foi desativado; não havia calado para atracar os navios cargueiros. Sem a movimentação habitual de funcionários e embarcações, as aves migratórias encontraram uma nova morada e permaneceram ali durante todo o verão amazônico.

Em 2025, os bandos da andorinha-azul, que realizam anualmente uma migração desde os Estados Unidos, já estavam familiarizados com o gigante ninho metálico da Transpetro e voltaram a ocupar o terminal. Porém, desta vez, com o fim da seca, o sistema logístico voltou ao normal e a coexistência com as aves migratórias se tornou um problema.

Leia também: COP15: conferência da proteção global das espécies migratórias é realizada no Brasil em 2026

Revoada de andorinhas-azuis, espécies migratórias, no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal
Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

As fezes dessas milhares de aves apresentaram um risco tanto para a operação do terminal como para os funcionários. Os relógios e medidores das tubulações ficaram cobertos de cocô de andorinha-azul. Trabalhadores do terminal chegaram a resvalar devido à mistura das chuvas torrenciais amazônicas com as fezes.

Em busca de uma solução, a equipe de meio ambiente da Transpetro entrou em contato com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Lá, um dos ornitólogos mais renomados na região, o pesquisador Mario Cohn-Haft, já estava mapeando os padrões de migração das andorinhas-azuis para a Amazônia brasileira, considerada a maior andorinha do ocidente. 

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Cohn-Haft e alguns de seus alunos de pós-graduação atuam em parceria com a Associação para Conservação Purple Martin (que recebe o nome da espécie em inglês). A organização, além de trabalhar com instituições como o Inpa e o Instituto Butantan, utiliza uma rede de voluntários brasileiros e estrangeiros para fazer o rastreamento da espécie. Por meio de um projeto de ciência cidadã, ajudou a entender as rotas migratórias da Progne Subis revelando sua presença em diversas partes do bioma brasileiro.

A andorinha-azul — cuja população estimada é de 7,5 milhões de indivíduos — se reproduz no leste dos Estados Unidos, mas passa a maior parte do ano na Amazônia . No inverno estadunidense, grandes bandos da espécie realizam uma viagem de milhares de quilômetros em direção à América do Sul, em busca de condições melhores para se alimentar.

Leia também: COP15 discute relação de áreas úmidas e proteção de espécies migratórias

Ao chegar no rio Negro, as aves migratórias ocupam as copas de árvores das florestas alagadas. Os estudos indicaram que alguns grupos podem chegar a até 250 mil indivíduos.

“A migração é um fenômeno absolutamente impressionante e inspirador. É, na verdade, emocionante assistir a milhares de pássaros passando em uma viagem impressionante, inimaginável para a mente humana. Mostram a complexidade de suas vidas e uma forma de inteligência muito distinta da nossa”, afirma Cohn-Haft.

O cientista conta que a chegada dessas enormes revoadas nem sempre é apreciada. Não é incomum que prefeituras de cidades amazônicas entrem em contato com o Inpa pedindo uma solução para o “problema”. Cohn-Haft diz que sua única recomendação aos prefeitos é que celebrem o fenômeno da migração. Mas não é o que geralmente acontece: incomodados com a sujeira, os gestores municipais tentam expulsar as aves cortando as árvores escolhidas por elas.

No caso da Transpetro, a solução tentará a coexistência com as aves. Para receber a revoada de 2026, há previsão da construção de uma estrutura em uma balsa próxima ao terminal, ainda sem data definida.

Amazônia, destino de aves migratórias

A discussão sobre as aves migratórias na Amazônia ocupou um espaço de destaque na tarde da terça-feira (24), na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que ocorre até o próximo domingo (29), em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O evento reuniu cientistas, representantes de empresas, governo e comunidades indígenas que enfatizaram que ainda há muito por descobrir sobre os padrões de aves migratórias no bioma.

Saiba mais: Migração na Amazônia: conheça os principais fluxos de pessoas na região

Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin
Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin

Diferentemente do Pantanal e das zonas costeiras do Brasil, a Amazônia não é considerada uma região prioritária para o estudo de aves migratórias. A razão para isso é que a maioria das espécies de aves registradas na Amazônia são residentes (85%), ou seja, não realizam migrações.

Mesmo assim, os 15% restantes ainda representam um número significativo: segundo Cohn-Haft, 150 e 200 espécies de aves migratórias realizam algum tipo de deslocamento para o bioma. 

“A Amazônia é um destino de espécies que se reproduzem em outras regiões, mas que caem fora quando as condições são desfavoráveis. São espécies que se reproduzem nas zonas temperadas da América do Norte ou da América do Sul. Elas vão para lá para reproduzir e aproveitar o boom de insetos que ocorre na primavera e no verão”, diz o pesquisador do Inpa. Ele explica que dois terços de todas as espécies de aves no mundo são insetívoras.



Muitas vezes, a Amazônia é utilizada como um ponto de parada mais ao sul. São casos extraordinários, como os dos maçaricos que podem fazer migrações de até 30 mil quilômetros, viajando do Ártico à Patagônia. Na migração deste tipo de aves utilizam as praias de rio da Amazônia além das zonas costeiras como uma parada necessária antes de seguirem viagem. 

Mas existem outras espécies que ocupam a floresta por vários meses, como é o caso da andorinha-azul. Lá, elas trocam a plumagem, ganham gordura, fortalecem os músculos peitorais e, quando estão prontas, voam de volta ao norte.

Tudo isso passou a ser muito mais fácil de entender com as novas tecnologias de rastreamento. Até pouco tempo, os pesquisadores colocavam anilhas nos pássaros e contavam com sua rede de colaboradores para recapturar alguns destes indivíduos no destino final da migração. Considerando a extensão da Amazônia, esse método sempre foi pouco eficaz. Agora, cada vez mais se têm utilizado pequenos rastreadores com capacidade de envio de dados em tempo real.

Pesquisa intercultural como ferramenta

Um outro fenômeno da migração pouco entendido na Amazônia são as migrações dentro do próprio bioma. Há espécies que vivem em ambientes variados em diferentes épocas do ano, dependendo das variações da temperatura ou dos ciclos de cheia e vazante das planícies amazônicas.


Pesquisas entre organizações e comunidades indígenas enriquecem esses conhecimentos. Na COP15, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) apresentaram um projeto de 20 anos de pesquisa intercultural na região dos rios Tiquié e Içana, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela.

Pesquisadores indígenas registram os dados em diários e relatam a ocorrência de espécies migratórias, além de atividades culturais e ciclos de pesca, caça e agricultura. Desde 2017, a Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Rio Negro passou também utilizar o aplicativo Open Data Kit (ODK) para inclusão das informações.

Essa coleta já soma 35 mil observações e permitiu a identificação de 18 espécies de aves. A combinação dos dados de ocorrência com registros de precipitação e nível dos rios tem permitido entender o impacto das mudanças climáticas: “nós sabíamos que elas buscavam as cabeceiras dos rios no inverno, em maio, junho e julho, e que voltavam nos meses de verão. Mas isso está mudando”, conta Tiago Pacheco, indígena Koripako, coordenador dos AIMAs da região do Médio Içana.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Gustavo Faleiros