Torre micrometeorológica instalada na Fazenda da Ufopa. Foto: Avner Gaspar
Uma torre micrometeorológica com 40 metros de altura foi instalada na Fazenda Experimental da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém (PA). A iniciativa é mais uma ação da campanha de campo do projeto CarbonARA-Brazil, que ocorrerá até outubro deste ano na região do Baixo Amazonas. A ação integra expedição científica de investigação sobre fluxos de carbono na Amazônia, liderada pelo King´s College London e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com a Ufopa e com financiamento da Agência Espacial Europeia (ESA).
Uma torre micrometeorológica é uma estrutura equipada com instrumentos para coletar dados detalhados sobre o ambiente atmosférico e de superfície, fornecendo informações sobre fluxos de energia, água e carbono entre a vegetação, o solo e a atmosfera. Essas torres são fundamentais em projetos de pesquisa para monitorar mudanças climáticas, estudar o impacto de atividades humanas e aprimorar modelos climáticos, sendo usadas em diversos ecossistemas como a Floresta Amazônica, o Cerrado e o Pantanal.
Uma torre micrometeorológica com 40 metros de altura foi instalada na Fazenda Experimental da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém (PA). Foto: Divulgação
A montagem e instalação da torre foram feitas pelo coordenador local do projeto, Julio Tota, que é professor do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG), e representa mais uma relevante contribuição para o avanço na pesquisa sobre fluxos de carbono na Amazônia: equipamentos de ponta, voltados para o registro de dados meteorológicos com precisão, estão sendo instalados na estrutura para auxiliar no monitoramento da qualidade do ar e na realização de diversos estudos sobre o clima.
Com aproximadamente 660 hectares, a Fazenda Experimental da Ufopa está localizada no km 37 da Rodovia Curuá-Una (PA-370) e se destina a desenvolver atividades de experimentação, estágio e complemento da formação profissional interdisciplinar, em nível de graduação e pós-graduação, em interação com as unidades acadêmicas da Ufopa. Para o coordenador da Fazenda, Ronaldo Francisco de Lima, a instalação da torre do projeto CarbonARA-Brazil marca um passo importante na consolidação desse espaço como polo de pesquisa ambiental e climática na região amazônica.
“Como coordenador da Fazenda, vejo com entusiasmo o fortalecimento das ações científicas voltadas à compreensão do clima, especialmente em um bioma tão estratégico como o nosso. A presença do Observatório Atmosférico da Ufopa e, agora, da torre do CarbonARA, reforçam o papel da Fazenda como laboratório vivo, onde ciência, tecnologia e sustentabilidade caminham juntas em prol do desenvolvimento regional”, afirma.
Com duração prevista de dois anos, o projeto CarbonARA-Brazil é formado por um consórcio de instituições, nacionais e internacionais, que tem como objetivo aprofundar o conhecimento sobre os fluxos de carbono, os impactos das queimadas e o papel da Amazônia no balanço climático global, por meio da aplicação de tecnologias avançadas de sensoriamento terrestre, aéreo e orbital.
Torre micrometeorológica instalada na Fazenda da Ufopa. Foto: Avner Gaspar
No Brasil, a iniciativa é liderada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no âmbito do projeto “Investigação terrestre, aérea e por satélite da variação espaço temporal nos estoques e fluxos de carbono na Amazônia (GAS-AMZ)”, coordenado pelo pesquisador Luiz Aragão, que é chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do instituto. O cientista possui 25 anos de experiência na produção de informações científicas sobre os impactos das mudanças ambientais e climáticas no sistema terrestre.
A Ufopa é a única universidade da região amazônica a compor esta rede global de pesquisa, sendo responsável pela coordenação das atividades científicas no território local, em especial na região do Baixo Tapajós. Professor do curso de graduação em Ciências Atmosféricas, o pesquisador e meteorologista Júlio Tota é o coordenador local do projeto, que irá instalar mais de quatro toneladas de equipamentos, avaliados em 30 milhões de reais, na universidade.
As atividades de coleta com finalidade científica têm autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Além da Fazenda Experimental da Ufopa, também serão realizadas medidas de fluxo de gases e atmosféricas em solo na Floresta Nacional do Tapajós, em áreas amostrais situadas no município de Santarém vinculadas ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) – LBA (Large Scale Biosphere – Atmosphere Experiment in Amazonia), também parceiro do projeto.
Uma aeronave de pesquisa cedida pela British Antarctic Survey (BAS) também participará da campanha de campo, sobrevoando a Flona Tapajós para coleta de dados. A entidade do Reino Unido realiza pesquisas de ponta na Antártida para compreender questões ligadas ao aquecimento global. Outro destaque será a utilização de dados fornecidos por satélites da Agência Espacial Europeia (ESA), organização intergovernamental dedicada à exploração espacial, com 22 estados-membros.
*Com informação da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa)
Tabatinga, município que ocupa posição estratégica na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, é palco de uma das mais vibrantes manifestações culturais do Amazonas: o Festival Internacional de Tribos do Alto Solimões (Festisol).
Ao longo de quatro dias, a cidade se converte em arena de celebrações culturais, competições, música, dança e intercâmbio entre povos da região fronteiriça.
O evento reúne agremiações que representam tribos históricas e traz artistas e grupos de diferentes países. Durante o festival, o público pode acompanhar apresentações, exibições de danças, rituais, além de shows musicais de âmbito nacional e regional.
A cada edição, Tabatinga atrai visitantes de municípios vizinhos e estrangeiros vindos da Colômbia e do Peru. Mas qual a origem do Festisol amazonense?
Origem e papel cultural do Festisol
O Festival Internacional de Tribos do Alto Solimões foi criado com o objetivo de resgatar, difundir e valorizar expressões culturais do caboclo amazônico e dos povos indígenas da região do Alto Solimões.
Foto: Lucas Silva/Amazonastur
Desde sua primeira edição, o Festival tem como marca a disputa entre as agremiações Onça Preta e Onça Pintada, que simbolizam tribos regionais e suas cores — azul e branco para Onça Preta, vermelho e branco para Onça Pintada.
A Onça Preta representa, em suas cores e nos temas de suas apresentações, a tribo Ticuna, enquanto a Onça Pintada representa a tribo Omágua.
O festival possui caráter internacional por envolver, além de municípios do Alto Solimões no Brasil, comunidades culturais e entidades artísticas da Colômbia e do Peru.
Em 2023, o evento ganhou status de patrimônio cultural imaterial do Estado do Amazonas por meio da Lei nº 6.632, sancionada em 12 de dezembro de 2023.
Programação e disputas entre tribos
Em geral, o Festival ocorre em quatro noites consecutivas em setembro, com programação no Centro Cultural deTabatinga, espaço que abriga apresentações e competições conhecidas como o “Onçódromo”.
Nas noites de exibição, cada tribo (Onça Preta e Onça Pintada) apresenta coreografias, cantos, alegorias e adereços que dialogam com mitos, lendas e aspectos simbólicos da cultura amazônica.
Além das apresentações das tribos, o festival conta com shows musicais de artistas regionais e nacionais. Na edição de 2024, em setembro, foram confirmadas as participações de Solange Almeida e Mari Fernandez, por exemplo.
O festival também incorpora exibições culturais dos países vizinhos, com grupos vindos da Colômbia e do Peru, ampliando o intercâmbio entre fronteiras.
No encerramento, é feita a apuração das notas atribuídas às tribos em diversos itens, e a agremiação campeã é divulgada em cerimônia pública, muitas vezes acompanhada de atrações musicais.
Tabatinga: cenário e identidade
Tabatinga está ligada diretamente ao festival, não apenas como sede, mas em sua identidade cultural e geográfica. A cidade forma uma conurbação (união de duas ou mais cidades que se expandiram até seus limites se encontrarem) com a colombiana Letícia, o que facilita a circulação de público e de expressões culturais transfronteiriças.
Geograficamente, Tabatinga está situada às margens do rio Solimões, em plena floresta amazônica, área que favorece a presença de comunidades indígenas e ribeirinhas.
Vista aérea de Tabatinga, banhada pelo rio Solimões. Foto: Divulgação/Prefeitura de Tabatinga
A realização anual do festival contribui para o fortalecimento da economia local por meio do turismo cultural, movimentação de hospedagem, alimentação e comércio de artesanato.
Durante o evento, ocorre intensa circulação de pessoas vindas de municípios vizinhos, de Letícia (Colômbia) e de localidades peruanas próximas.
Tabatinga também abriga construções históricas como o Forte de São Francisco Xavier de Tabatinga, estrutura que remonta ao século XVIII e marca a presença colonial na região.
Impacto simbólico e cultural
O Festival Internacional de Tribos do Alto Solimões opera como um palco de afirmação cultural dos povos indígenas e caboclos da região. A disputa entre Onça Preta e Onça Pintada torna-se metáfora das tensões, encontros e diálogos entre diferentes tradições.
O evento retoma lendas, mitos e narrativas próprias das etnias locais e promove sua visibilidade no cenário regional.
A inserção de artistas nacionais e internacionais consolida o Festival como um ponto de convergência entre cultura popular regional e circuitos artísticos mais amplos.
Atribuir ao Festisol o título de patrimônio cultural imaterial confere-lhe reconhecimento institucional e simbólico, reforçando sua importância para a identidade do Amazonas.
Chocolate sem leite e glúten em Rondônia. Foto: Jhanne Franco/Acervo pessoal
Uma fábrica de chocolate em Ouro Preto do Oeste (RO) decidiu unir inovação, sustentabilidade e inclusão alimentar para criar uma nova forma de fazer chocolate: sem leite e sem glúten. O processo desenvolvido pela chocolateira Jhanne Franco pode até parecer algo de outro mundo, mas ela garante que o sabor é tão bom ou até melhor que o tradicional.
De acordo com Jhanne, ao contrário do que muita gente pensa, não é preciso usar leite para fazer um bom chocolate, apenas cacau e açúcar bastam para alcançar um sabor intenso. O processo de fabricação segue padrões rigorosos de pureza, e nenhum ingrediente com leite ou glúten entra na fábrica.
“O chocolate é gostoso, saudável e sustentável. As pessoas têm um certo receio, mas quando provam se surpreendem”.
O segredo do sabor está na origem: o cacau rondoniense, cultivado por produtores locais. Ao Grupo Rede Amazônica, Jhanne conta que faz questão de valorizar o que é daqui.
“Tudo o que posso comprar aqui dentro, eu compro direto dos produtores. Só recorro a outros estados quando realmente não há produção local”.
Foto: Amanda Oliveira/Rede Amazônica RO
O início de tudo para a criação do chocolate
A fábrica nasceu quando Jhanne descobriu que sua afilhada era alérgica a leite e glúten. Em um gesto de carinho, decidiu criar um produto de alta qualidade que pudesse ser consumido por pessoas com as mesmas restrições.
Mas o caminho até aqui não foi doce o tempo todo. Jhanne precisou investir em equipamentos, tecnologia e conhecimento para se destacar no mercado: “Eu não tinha público nem recursos. Comecei com equipamentos pequenos, produção pequena e fui reinvestindo tudo que entrava”.
Segundo Jhanne, o setor de cacau fino ainda era novo em Rondônia, o que tornava tudo mais desafiador. Mas com o tempo, o estado começou a ganhar reconhecimento nacional e sua trajetória se misturou com a do próprio desenvolvimento da cacauicultura regional.
“Quase ninguém falava do cacau daqui. Hoje nossos produtores estão ganhando prêmios e mostrando que Rondônia pode não ser o maior, mas pode ser o melhor. Nós crescemos juntos”.
Chocolate criado em Rondônia. Foto: Jhanne Franco/Acervo pessoal
Frascos com metanol (mais amarelado, à esquerda) e etanol (álcool combustível, mais avermelhado). Foto: Fabíola Almeida Bezerra
Um novo método para detectar a presença de metanol em álcool combustível foi desenvolvido por pesquisadores do Câmpus de Gurupi, da Universidade Federal do Tocantins (UFT). A mestranda do Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ), Fabíola Almeida Bezerra, e seu professor orientador Nelson Luis Gonçalves Dias de Souza, criaram um processo com o uso de nanossensores capazes de identificar o metanol. A defesa da dissertação ocorrerá em março de 2026, e a descoberta deverá entrar em processo de solicitação de patente.
Segundo os pesquisadores, a mistura de metanol no álcool combustível tem sido alvo de preocupação das autoridades e gerou, inclusive, uma grande operação policial e fiscal (Operação Carbono Oculto) em todo o país; a ação também atende resoluções (807/2020 e 907/2022) da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que determinam um limite máximo de 0,5% de metanol na composição da gasolina e do etanol combustível.
A presença do metanol nos combustíveis (gasolina e álcool) acima do permitido pode gerar prejuízo para os donos de veículos, porque é um material corrosivo. Ele pode danificar diretamente componentes essenciais do motor, como bicos injetores, bombas de combustível, câmaras de combustão e tubulações. Essa corrosão pode levar a falhas no funcionamento do motor, fazendo com que ele chegue a não ligar.
“A utilização de nanossensores não é uma novidade, na literatura já há diversas aplicações. Porém, um sensor para determinar metanol em álcool combustível não há”, contou o professor Souza.
Segundo ele, o processo de detecção do metanol no álcool combustível é simples, “apenas misturando a amostra com a solução do nanossensor. Não há necessidade do preparo da amostra. Após a mistura, espera-se 30 minutos para a obtenção do resultado. Esse processo facilita a realização da análise e a torna mais simples de executar”, diz o docente.
O professor orientador, Dr. Nelson Luis Gonçalves Dias de Souza, e a mestranda Fabiola Almeida Bezerra. Foto: Divulgação
O professor Souza explica que os nanossensores são dispositivos muitíssimo pequenos que, ao entrar em contato com o metanol, mudam de cor. Para determinar se há ou não metanol, após 30 minutos o pesquisador verifica a coloração da mistura. Quanto mais amarela a cor, maior a quantidade de metanol na amostra. “Assim, o novo método traz uma alternativa mais simples, barata e rápida para a verificação de fraudes, que podem ser verificadas na bomba dos postos de combustíveis. Os testes da utilização do novo nanossensor já foram finalizados e será solicitada a patente ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), afirma.
A mestranda Fabíola destaca que os ganhos não se restringem apenas ao tempo menor para detecção. “A metodologia que a ANP utiliza baseia-se na cromatografia gasosa que comparado com o equipamento que utilizamos para quantificar as amostras, custa até oito vezes mais”.
Ela diz ainda que “o fato de ser um método colorimétrico é um fator ainda mais interessante, uma vez que através da cor a pessoa que for fazer o teste já consegue ter noção em trinta minutos se aquela amostra está acima do limite permitido ou não. A atual metodologia pode levar até uma hora para se obter resultados, e utiliza um equipamento caro”.
Confira, abaixo, links para as resoluções da ANP sobre a adição de metanol no álcool combustível:
A imagem peregrina de Nossa Senhora, durante o Círio de Nazaré. Foto: Reprodução/Arquidiocese de Belém
Quais elementos compõem o Círio de Nazaré? A corda, o cartaz, o almoço do Círio e, claro, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. Muito além de símbolos religiosos, esses objetos formam uma rede de significados que conecta pessoas, territórios e memórias, um exemplo de como a cultura material ajuda a comunicar identidades e experiências coletivas na Amazônia.
A cultura material estuda a relação dos objetos na vida das pessoas. O mundo é experienciado por meio das materialidades e, no contexto do Círio de Nazaré, realizado na segunda semana de outubro, em Belém, elas assumem um papel central na vivência religiosa/cultural, tornando-se uma via de compreensão da paisagem devocional estabelecida durante as procissões.
A imagem peregrina de Nossa Senhora, durante o Círio de Nazaré. Foto: Roberto Castro/MTur
“A cultura material, como área de estudo, nos mostra os diferentes objetos que fazem parte da nossa vida e que são constitutivos da nossa experiência”, explica Gabriel da Mota, autor da dissertação Círio de Nazaré: experiências de sentidos e sociabilidades por meio da cultura material, defendida em 2022, no Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia (Ppgcom/UFPA).
Durante a pandemia de covid-19, quando os eventos presenciais foram suspensos, essa dimensão material do Círio ganhou ainda mais força. Imagens da Santa nas casas, cartazes nas janelas e o tradicional almoço do segundo domingo de outubro tornaram-se formas de manter viva a experiência coletiva e o sentimento de pertencimento – uma nova forma de presença, mesmo na ausência das ruas cheias.
Símbolos de pertencimento
Entre os rituais mais simbólicos, o almoço do Círio de Nazaré se destaca como um momento de convivência, memória e troca. As lembranças evocadas durante o preparo e o consumo frequentemente remetem a familiares, especialmente mães e avós que preparavam os pratos, religando os sujeitos a entes queridos já falecidos.
O almoço do Círio de Nazaré se destaca como um momento de convivência, memória e troca. Foto: Fernando Sette
“Perdi a minha avó em 2020 e, no Círio de Nazaré, a gente almoçou um pouco de maniçoba que ela tinha deixado congelada. Então, ela se fez presente na nossa mesa por meio daquilo que ela sempre fazia pra gente, o almoço do Círio. Isto foi muito marcante para mim: perceber as ausências e o enfrentamento dessas ausências que as pessoas fizeram”, relembra o pesquisador.
Os objetos e os gestos do almoço – a casa, o lugar à mesa, o modo de preparo – tornam-se, assim, pontes entre gerações e veículos da memória coletiva. A corda também é um dos principais símbolos da festividade. Antes restrita ao Círio de Belém, ela se expandiu para outras procissões no Pará. Inicialmente usada para puxar a berlinda, hoje já não é necessária para essa função, mas permanece devido à sua força simbólica. Representa a conexão dos participantes com Nossa Senhora e a responsabilidade coletiva pelo transporte da imagem. É um “cordão umbilical” simbólico que conecta os devotos.
“A corda tem esse poder identitário, coletivo, por várias razões. Por gerar o encantamento em quem tá de fora e antecipar essa experiência com o divino, quer dizer, não é só quando você vê a Santa que você se emociona e se conecta com essa força. A própria corda já é um símbolo disso, é um anúncio”, detalha.
A corda no Círio de Nazaré tem esse poder identitário, coletivo, por várias razões. Foto: Angel Duarte/Comunicalente
O cartaz é outro objeto central: sua distribuição permite que as pessoas levem um pedaço da festa para casa, compartilhem e utilizem o material para anunciar o Círio. A personalização do cartaz em camisas, toalhas e outros objetos tornou-se um fenômeno incontrolável que movimenta a economia local. Além disso, ele carrega um forte valor afetivo por conter a imagem da Santa, possibilitando que as pessoas se sintam presentes no Círio.
“Para mim, esse valor afetivo de ter a imagem da Santa (que é o objeto mais importante) no cartaz tem um peso muito significativo para quem é devoto dela”, afirma o estudioso.
Celebração ecumênica e cultural
Desde 2022, com o retorno completo do formato presencial, o Círio tem reafirmado o seu papel como expressão cultural da Amazônia. As ruas cheias, os almoços, os cheiros e os sons compõem uma experiência sensorial que vai além da fé, é uma celebração de pertencimento coletivo. E todos esses fatores atuam para que a festividade atraia a participação de pessoas com diferentes crenças, tanto nos rituais organizados pela Igreja quanto nas manifestações da sociedade civil.
Romaria fluvial do Cirio de Nazaré. Foto: Ricardo Stuckert/PR
O que se observa é a expressão de aspectos da cultura local que revelam as marcas da identidade paraense, com uma programação diversificada, que vai além das procissões e celebrações eclesiásticas, incluindo espetáculos culturais, exposições temáticas, comercialização de produtos artesanais e o preparo de pratos típicos.
Nesse contexto, baseada em uma perspectiva relacional da comunicação, a dissertação diferencia “interação” e “relação” para compreender as experiências do Círio: a interação se refere aos contatos imediatos, enquanto a relação envolve laços contínuos e afetivos. E, no Círio, os objetos estão presentes em ambas e podem, inclusive, ajudar a transformar interações em relações, materializando vínculos e memórias.
“Naquele contexto de pandemia, eu poderia abrir mão das interações eventualmente estabelecidas no meio da multidão, mas eu não tenho como viver o Círio absolutamente sozinho. É impossível. E é muito curioso isto, pensar que o Círio pode até ser vivido sem a imagem nas ruas, sem a procissão, mas não sem as pessoas da tua casa, do teu núcleo mais próximo. Ele é feito dessa relação com os teus, e Nossa Senhora vai se fazer presente sempre em diversas materialidades: no cartaz, na imagem que tu colocas em cima da tua mesa e na tua memória”, explica Gabriel da Mota.
*Com informação da Universidade Federal do Pará (UFPA)
Implementado no baixo madeira, o projeto é uma iniciativa da Prefeitura de Porto Velho em parceria com a Universidade Federal de Rondônia. Foto: João Paulo Prudêncio
Na comunidade de Bom Jardim (baixo madeira), situada a aproximadamente 70 quilômetros do perímetro urbano de Porto Velho (RO), a falta de água potável sempre foi uma dificuldade enfrentada pelos moradores. A dona de casa Luciléia da Silva Ribeiro, moradora há mais de 40 anos no povoado, recorda inúmeras situações críticas, já que a falta de água tratada era constante, obrigando famílias a se arriscarem por horas a fio no rio Madeira.
“Todo mundo aqui pegava água em Cujubim Grande. A gente saía com meu motor pequeno (barco) e demorava muito para fazer esse transporte”, comentou Luciléia.
Estrutura instalada em Bom Jardim (baixo madeira), garante o padrão de potabilidade estipulado pelo Ministério da Saúde (MS). Foto: João Paulo Prudêncio
A Prefeitura de Porto Velho deu início ao projeto que pretende solucionar um problema histórico da escassez hídrica em localidades ribeirinhas dentro do território municipal. Por meio de uma técnica que dispensa grandes estruturas — utilizando apenas duas caixas d’água e um equipamento portátil de fácil instalação, o sistema produz água própria para consumo, de alta qualidade e dentro dos padrões de potabilidade. Essa tecnologia será levada para as regiões mais afetadas pela escassez.
A comunidade Bom Jardim, no baixo madeira, onde vive dona Lucélia, foi o primeiro local a receber o projeto, executado por equipes da Defesa Civil e da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra) em parceria com a Universidade Federal de Rondônia (Unir) por meio do Departamento de Engenharia Civil.
Sistema instalado em comunidade no baixo madeira utiliza apenas duas caixas d’água e um equipamento portátil de fácil instalação. Foto: João Paulo Prudêncio
Em Bom Jardim residem cerca de 50 famílias que sobrevivem da agricultura familiar e outras atividades do campo. Por décadas, essas pessoas se viram obrigadas a navegar por mais de três horas pelo rio Madeira em busca de água potável percorrendo vilarejos — um sofrimento e despesas desnecessárias que chegaram ao fim com a instalação do novo equipamento projetado para assegurar água limpa e saudável para todos.
Água tratada em casa para os ribeirinhos significa mais qualidade de vida. A iniciativa da Prefeitura reduz queixas de diarreia e outros agravamentos de saúde em crianças, idosos e adultos. “Hoje, podemos dizer que nossa comunidade tem água potável a qualquer hora. Tinha muita gente que não acreditava, mas eu acreditei e hoje a Prefeitura está aqui”, lembra dona Lucélia.
Sistema instalado em comunidade no baixo madeira utiliza apenas duas caixas d’água e um equipamento portátil de fácil instalação. Foto: João Paulo Prudêncio
De acordo com o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, garantir condições dignas às populações rurais é fundamental para o bom desempenho do Executivo Municipal e para o avanço econômico e social da cidade.
“Assegurar que as comunidades rurais e ribeirinhas tenham a presença atuante da Prefeitura é uma das nossas metas, que vem sendo alcançada com ações inovadoras, econômicas, práticas e criativas. Dessa forma, driblamos as dificuldades e levamos o respeito que a nossa população merece”, destacou Léo Moraes.
Segundo Marcelo Melo Barroso, diretor do Departamento de Serviços Básicos da Seinfra, a estrutura instalada em Bom Jardim garante o padrão de potabilidade estipulado pelo Ministério da Saúde (MS). Ele também afirmou que o projeto será ampliado para outras áreas rurais e ribeirinhas.
“Esse equipamento trata qualquer água com alta turbidez e consegue reduzi-la a menos de um, que é o parâmetro exigido pelo Ministério da Saúde. Outras comunidades do baixo Madeira também irão receber o sistema. Estamos aqui para garantir o tratamento e fornecer água segura”, explicou Marcelo Barroso.
Em Roraima, a inclusão de Mucajaí e Rorainópolis fortalece o processo de regionalização e o trabalho das IGRs. Foto: Reprodução/Arquivo Prefeitura de Boa Vista
Seis municípios de Roraima agora fazem parte do Mapa do Turismo Brasileiro, instrumento que orienta a aplicação de políticas públicas e investimentos federais no setor. Além de Boa Vista, Pacaraima, Amajari e Caroebe, que já integravam a lista, Mucajaí e Rorainópolis tiveram documentações aprovadas e foram oficialmente incluídas na atualização mais recente.
Em Roraima, a inclusão de Mucajaí e Rorainópolis fortalece o processo de regionalização e o trabalho das IGRs (Instâncias de Governança Regionais). Mucajaí faz parte da IGR Savana Amazônica, recentemente formalizada, enquanto Rorainópolis integra a IGR Águas e Florestas da Linha do Equador, ambas aptas a receber investimentos e emendas parlamentares voltadas ao turismo.
O diretor do Departamento de Turismo da Secult (Secretaria de Cultura e Turismo), Bruno Rodrigues, destacou que o resultado é fruto de um trabalho conjunto entre Estado e municípios para fortalecer a política de regionalização do turismo.
“A partir da categorização no Mapa [do Turismo], os municípios passam a protagonizar as políticas públicas de turismo do Estado e do país. Isso possibilita a captação de recursos, o planejamento de ações e o fortalecimento da atividade turística em nível local e regional”, afirmou.
Bruno ressaltou ainda que os municípios incluídos já desenvolvem projetos estruturantes e ações de fomento ao turismo, o que contribui diretamente para o crescimento econômico do setor. “A presença no Mapa é fundamental para garantir visibilidade e acesso a recursos. É um reconhecimento do trabalho que vem sendo feito para estruturar o turismo de forma sustentável e integrada”, completou.
Como funciona o cadastramento?
O cadastramento no Mapa do Turismo Brasileiro considera cinco variáveis relacionadas ao desempenho econômico do turismo, permitindo ao Ministério do Turismo definir prioridades de investimentos e repasses de recursos. Para ser incluído, o município deve possuir secretaria ou coordenação de turismo ativa, lei orçamentária própria, prestadores de serviços cadastrados no Cadastur, Conselho Municipal de Turismo atuante e comprovar vínculo com uma instância de governança regional.
Roraima amplia presença no Mapa do Turismo Brasileiro com seis municípios cadastrados. Foto: Ascom Secult RR
A inclusão dos municípios de Roraima representa um reconhecimento da importância do turismo para a economia estadual, fortalecendo a diversidade cultural e natural do Estado e ampliando as oportunidades de investimentos e geração de renda.
“Com a ampliação do número de municípios no Mapa, Roraima reafirma seu potencial como destino turístico sustentável e competitivo, valorizando suas belezas naturais e a identidade cultural de seu povo”, concluiu Bruno.
Mapa do Turismo Brasileiro
O Mapa do Turismo Brasileiro é um importante instrumento do Programa de Regionalização do Turismo, coordenado pelo Ministério do Turismo, e tem como objetivo identificar e organizar destinos turísticos em todo o país, definindo áreas prioritárias para o desenvolvimento de políticas e ações voltadas ao setor.
*Com informação da Secretaria de Cultura e Turismo de Roraima
O deputado estadual Delegado Péricles (PL) concedeu, na terça-feira (14/10), Cessão de Tempo à Associação Esportiva Hien Kan para celebrar o desempenho de destaque da equipe amazonense na seletiva do Campeonato Brasileiro de Karatê 2025, realizado em Boa Vista (RR), que garantiu classificação para a grande final da competição, que será realizada em novembro.
A equipe amazonense conquistou 40 medalhas na competição nacional, resultado que, segundo o parlamentar, evidencia o talento, a disciplina e a dedicação dos atletas e treinadores do Amazonas.
“É com grande satisfação que hoje homenageamos esses atletas que conquistaram mais um grande feito para o karatê amazonense. Parabenizo o sensei Waghynton por mais essa conquista e aos atletas pela dedicação. Essa é a prova de que o esporte transforma vidas, inspira jovens e fortalece nossa identidade”, destacou o deputado Péricles.
Delegado Péricles ressaltou, ainda, que o mandato tem atuado de forma efetiva no incentivo ao esporte, contribuindo para que atletas possam participar de competições em outros estados.
“Sempre disponibilizamos passagens, hospedagens e apoio logístico para os atletas dessa instituição, que é bastante respeitada no Amazonas e tem nos dado muito orgulho com resultados impressionantes. Parabéns a todos que colocam o karatê amazonense nesse patamar”, comemorou.
O presidente da associação Hien Kan, sensei Waghynton Melo, agradeceu ao deputado pelo apoio e ressaltou que o sucesso alcançado é fruto de parceria e compromisso com o esporte local.
“Viemos aqui para mostrar o resultado de um trabalho que só é possível graças ao apoio do deputado Péricles, que há quatro anos acredita em nós. O esporte é a ferramenta que mantém nossos jovens longe das mazelas que assolam nossa sociedade. Vivemos em comunidades com muitas dificuldades, especialmente pela falta de espaços para a prática esportiva, e o projeto tem sido uma válvula de escape para muitas famílias. Mais uma vez, agradeço ao deputado em nome de todos os atletas e seus familiares”, concluiu o sensei.
A dinâmica climática da região é marcada por duas estações bem definidas: a seca e a chuvosa, separadas por curtos períodos de transição. Tradicionalmente, a estação seca ocorre entre maio e setembro/outubro, caracterizando-se pela redução significativa das chuvas e pela consequente queda nos níveis dos rios. Já a estação chuvosa, que se estende de novembro a março, é marcada pelo aumento expressivo das precipitações, ocasionando a elevação dos níveis dos rios e as cheias que atingem florestas e áreas ribeirinhas. Os meses de abril e outubro configuram-se como períodos de transição entre essas duas fases.
Durante a cheia (novembro a março), o Amazonas vivencia um período de elevada pluviosidade que provoca o transbordamento dos rios, formando os igapós — florestas alagadas — e os igarapés, que integram o complexo sistema hídrico amazônico. Esse fenômeno, embora essencial à dinâmica ecológica da região, pode causar sérios transtornos às populações ribeirinhas, como o alagamento de moradias, prejuízos à agricultura de várzea e interrupção de rotas de transporte.
Na transição de abril, observa-se a redução gradual das chuvas e o início do processo de vazante, quando o nível dos rios começa a baixar. A estação seca (maio a setembro) é marcada por baixas precipitações, aumento da temperatura e queda da umidade relativa do ar. Esse período favorece o surgimento de focos de queimadas, o comprometimento da navegabilidade dos rios — com embarcações encalhadas em trechos críticos — e a escassez de recursos hídricos em comunidades isoladas. O mês de outubro, por sua vez, sinaliza o retorno das chuvas e o início da recuperação dos níveis de água.
Entre as principais causas desses eventos extremos estão fenômenos climáticos de escala global, como o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico, e o aquecimento do Atlântico Tropical, que altera os padrões de circulação atmosférica e influencia a formação de nuvens na Amazônia. Esses fenômenos reduzem a umidade disponível e inibem a ocorrência de chuvas, intensificando os períodos de seca.
As consequências das secas severas são amplas e atingem diretamente a vida cotidiana das populações amazônicas: a escassez de água e alimentos, o isolamento de comunidades ribeirinhas devido à interrupção da navegação, o fechamento de comércios fluviais e o aumento das queimadas — que, por sua vez, agravam os problemas de saúde pública e a perda de biodiversidade. Em contrapartida, as cheias extremas também produzem efeitos negativos, inundando habitações, destruindo plantações, afetando a infraestrutura urbana e rural e forçando deslocamentos populacionais temporários.
De acordo com estudos recentes divulgados pela InfoAmazonia (2024), as mudanças climáticas globais estão intensificando tanto as secas quanto as cheias na Amazônia, tornando esses eventos mais extremos e frequentes. Essa tendência evidencia o crescente desequilíbrio do regime hidrológico amazônico, cujas consequências repercutem em toda a bacia hidrográfica e colocam em risco a estabilidade ecológica e socioeconômica da região.
A análise das receitas públicas do Estado do Amazonas revela uma trajetória de crescimento consistente ao longo do período de 2019 a 2024, ainda que em um cenário de intensificação das anomalias climáticas e de desafios socioeconômicos decorrentes da variabilidade ambiental. Conforme apresentado no Gráfico 1, observa-se que as Receitas – Exceto Intra-Orçamentárias – passaram de R$ 21,2 bilhões em 2019 para R$ 38,1 bilhões em 2024, o que representa um crescimento acumulado de aproximadamente 80% em cinco anos.
Esse aumento reflete, em parte, a recuperação econômica pós-pandemia e o fortalecimento das bases fiscais estaduais, impulsionado pela arrecadação de impostos sobre o consumo e a produção industrial, especialmente no Polo Industrial de Manaus (PIM). No entanto, o comportamento das receitas também está sujeito aos impactos das variações climáticas, que afetam direta e indiretamente a economia regional. Em períodos de seca severa, o transporte fluvial — principal meio logístico do estado — sofre restrições, o que compromete o escoamento de mercadorias, eleva custos e reduz a arrecadação em determinados setores. Já nas cheias extremas, as inundações afetam atividades produtivas urbanas e rurais, ampliando os gastos públicos com ações de emergência e recuperação.
Gráfico 1 – Evolução do Valor das Receitas – Exceto Intra-Orçamentárias por Ano no Amazonas (R$)
A intensificação das mudanças climáticas — expressa por secas prolongadas, cheias extremas, queimadas, deslizamentos e elevação anormal dos níveis dos rios — tem produzido efeitos significativos sobre a estrutura fiscal do Estado do Amazonas. Esses fenômenos impactam tanto a arrecadação tributária quanto a dependência de transferências federais e a geração de receitas ambientais, revelando a necessidade de incorporar a variável climática ao planejamento orçamentário e às políticas públicas estaduais.
De modo geral, as mudanças climáticas podem:
Reduzir a arrecadação tributária, por afetar a atividade econômica, o consumo, a produção e o transporte fluvial;
Aumentar a dependência de transferências da União, especialmente em períodos de crise ambiental, quando crescem as demandas por recursos destinados à saúde, defesa civil e assistência social;
Gerar novas receitas associadas à mitigação e à resposta a desastres, como compensações financeiras, operações de crédito e multas ambientais.
Essa lógica orienta a construção de três eixos analíticos complementares, que permitem compreender como os eventos climáticos extremos afetam o equilíbrio fiscal e a resiliência econômica do Estado.
Eixo 1 — Arrecadação Própria e Atividade Econômica
O primeiro eixo examina o impacto das variações climáticas na capacidade arrecadatória do Estado, com foco nos tributos que refletem diretamente o desempenho econômico regional: ICMS (1.1.1.4.50.1.0), IPVA (1.1.1.2.51.0.0), IRRF (1.1.1.3.03.0.0) e taxas (1.1.2).
Durante os períodos de seca severa, a redução dos níveis dos rios compromete o transporte fluvial — eixo central da logística amazônica —, afetando o escoamento da produção e o abastecimento de insumos. Como consequência, há queda na arrecadação tributária e desaceleração da economia local. Em contrapartida, nas cheias extremas, a paralisação de atividades comerciais e produtivas em áreas urbanas e ribeirinhas também reduz temporariamente o volume de tributos arrecadados. Assim, a variação negativa na arrecadação durante eventos de seca, cheia ou interrupção logística constitui um indicador-chave da vulnerabilidade econômica e fiscal do Amazonas frente às mudanças climáticas.
Eixo 2 — Transferências Federais e Compensações Ambientais
O segundo eixo analisa a dependência dos repasses da União e de compensações financeiras em períodos de crise ambiental. Entre os principais componentes estão o FPE (1.7.1.1.50.0.0), as compensações pela exploração de recursos naturais (CFURH e CFEM – 1.7.1.2), os recursos do SUS (1.7.1.3), FUNDEB e FNDE (1.7.1.4 e 1.7.1.5), o FNAS (1.7.1.6) e os convênios de emergência (2.4.1.4).
Observa-se que, em situações de seca severa, enchentes ou queimadas de grande escala, tende a ocorrer expansão dos repasses federais destinados à recomposição de perdas e ao financiamento de políticas emergenciais. Esse comportamento evidencia a função contracíclica das transferências intergovernamentais, que atuam como mecanismo de compensação financeira e de apoio à capacidade fiscal estadual. Portanto, o crescimento desses repasses durante períodos de crise ambiental serve como indicador da dependência estrutural do Amazonas em relação à União em contextos de instabilidade climática.
Eixo 3 — Receitas Ambientais e Patrimoniais
O terceiro eixo foca nos mecanismos de política ambiental e de gestão patrimonial que produzem receitas diretamente associadas à mitigação e à resposta a desastres naturais. Entre as principais fontes estão a Taxa de Controle Ambiental (1.1.2.1.04.0.0), as multas ambientais (1.9.1.1.06.0.0), as compensações financeiras (1.7.1.2), a alienação de bens públicos danificados (2.2.0.0.00.0.0) e as operações de crédito para reconstrução (2.1.0.0.00.0.0).
O aumento dessas receitas indica, por um lado, o custo econômico crescente dos eventos climáticos e, por outro, o fortalecimento da atuação estatal em políticas ambientais e de reconstrução. Assim, a expansão das receitas ambientais e de crédito voltadas à recuperação de áreas afetadas pode ser interpretada como um indicador de resposta institucional e aprimoramento da governança ambiental no contexto amazônico.
Com base na lógica de análise e nos eixos fiscais apresentados anteriormente, foram definidos os grupos prioritários de receitas públicas a serem observados na investigação. Cada grupo representa uma dimensão específica de impacto das mudanças climáticas sobre as finanças estaduais, abrangendo desde a arrecadação própria até as receitas ambientais e operações de crédito voltadas à reconstrução. A tabela 1 a seguir sintetiza essas categorias, os principais códigos orçamentários e o tipo de impacto climático associado.
Tabela 1- Síntese: grupos prioritários para estudo
Categoria macro
Códigos principais
Tipo de impacto climático
Atividade econômica e arrecadação própria
1.1.1.4, 1.1.2, 1.3.1
Queda da arrecadação por desastres
Compensações e transferências federais
1.7.1.2, 1.7.1.3, 1.7.1.6, 2.4.1
Aumento da dependência de repasses
Receitas ambientais e multas
1.1.2.1.04, 1.9.1.1.06
Política ambiental e controle de desmatamento
Operações de crédito e capital
2.1.0, 2.2.0
Endividamento para reconstrução e adaptação
Essas transferências são realizadas por meio de convênios entre ministérios e governos estaduais ou municipais, geralmente com o objetivo de reconstruir pontes, estradas, escolas e unidades de saúde após desastres naturais, além de promover obras de drenagem, saneamento básico e contenção de encostas. Em contextos de seca severa, enchentes ou queimadas, observa-se historicamente um aumento expressivo desses repasses, especialmente aqueles firmados com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, a Defesa Civil Nacional e o Ministério do Meio Ambiente.
O comportamento dessas receitas no período de 2019 a 2024 ilustra com clareza essa relação. Como mostra o Gráfico 2, as Transferências de Convênios da União cresceram de R$ 49 milhões em 2019 para R$ 137 milhões em 2021, refletindo o aumento dos repasses federais para a reconstrução de municípios atingidos pela cheia histórica de 2021 — uma das mais severas já registradas no estado.
Gráfico 2 – Evolução do Valor das Transferências de Convênios da União (R$)
Em 2022, nota-se uma redução significativa, com o valor caindo para R$ 101 milhões, o que coincide com o fim dos convênios emergenciais estabelecidos no ano anterior. Contudo, o ciclo volta a se inverter em 2023 e 2024, quando os valores sobem para R$ 147 milhões e R$ 200 milhões, respectivamente. Esse novo aumento está associado à seca extrema que afetou o Amazonas nesses dois anos, comprometendo o transporte fluvial, a geração de energia e o abastecimento de comunidades ribeirinhas, o que levou à ampliação de convênios de apoio e mitigação.
Portanto, a trajetória dessa rubrica evidencia que as mudanças climáticas têm influência direta sobre a execução das transferências intergovernamentais, funcionando como gatilhos fiscais que ampliam a necessidade de repasses extraordinários em períodos de crise. As cheias e secas severas intensificam tanto os danos materiais quanto as demandas por recursos, reforçando a importância de incorporar a variabilidade climática ao planejamento fiscal estadual, de modo a reduzir a dependência de transferências emergenciais e fortalecer políticas preventivas e de adaptação.
Com a colaboração de:
Prof. Dr, Yunier Sarmiento Ramírez possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade do Estado do Amazonas, mestrado em Gestão de Empresas pela Universidad de Holguín – Cuba e doutorado em Economia pela Universidade Federal de Rio Grande do Sul. Atualmente é professor da Universidade Federal do Amazonas no Departamento de Economia e Análise – DEA e no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia – PPGSS. Desenvolve pesquisas na área de Economia aplicada, teoria econômica e métodos quantitativos
Sobre o autor
Prof. Dr, José Barbosa Filho possui graduação em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal do Ceará (1989), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Ceará (1992) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005). Atualmente é professor Titular da Universidade Federal do Amazonas. Desenvolve pesquisas na área de Contabilidade Ambiental, Matemática Financeira e Econometria, com ênfase em Gestão Ambiental, atuando principalmente nas seguintes áreas: valoração ambiental, desenvolvimento sustentável, avaliação de impactos ambientais e gerenciamento de processos.
A foz do rio Amazonas em questão é o fim da linha do rio mais extenso do mundo. É quando o Amazonas desemboca no Oceano Atlântico depois de percorrer 7 mil quilômetros. Imagem: Divulgação
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Universidade Estadual do Amapá (UEAP), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e parceiros internacionais, alerta para riscos à biodiversidade marinha, às áreas protegidas e às populações tradicionais que dependem dos recursos naturais da região.
Exploração de petróleo na foz do rio Amazonas . Imagem: Petrobrás
Os pesquisadores utilizaram modelos de simulação que consideram fatores como a vazão do rio Amazonas, marés, correntes, ventos e características da costa. As projeções indicam que uma mancha de óleo poderia se espalhar por até 132 quilômetros em apenas três dias, comprometendo ecossistemas frágeis, incluindo manguezais e zonas úmidas costeiras. O abastecimento de água em cidades litorâneas também poderia ser afetado.
A equipe ressalta que o licenciamento ambiental atual foca na capacidade de resgate da fauna em caso de acidentes, mas não enfrenta a questão central: como conter um vazamento em um poço de 2,88 quilômetros de profundidade, sujeito a correntes oceânicas complexas. Para efeito de comparação, o desastre no Golfo do México, em 2010, ocorreu em 1,5 quilômetro de profundidade e levou mais de cinco meses para ser controlado.
Foz do Rio Amazonas. Imagem: Divulgação
“Enquanto o licenciamento ambiental se concentra na capacidade da empresa petrolífera estatal de resgatar a vida selvagem marinha em caso de derramamento, a questão muito mais fundamental é a capacidade de tapar um vazamento, caso ocorra”, explica o pesquisador Philip Fearnside, do INPA, um dos autores do estudo. “A experiência com royalties do pré-sal e outros casos recentes mostra isso”, disse Fearnside.
Além dos impactos ambientais, o estudo evidencia riscos socioeconômicos. O Amapá, com mais de 700 mil habitantes, abriga comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas que dependem da pesca artesanal e da coleta de produtos florestais.
A cadeia do açaí, concentrada na região da Foz do rio Amazonas, movimentou mais de R$ 6 bilhões em 2023, valor que poderia ser diretamente comprometido em caso de contaminação. O episódio do derramamento de óleo que atingiu a costa do Nordeste brasileiro em 2019 é lembrado como referência para dimensionar as possíveis consequências.
Benefícios discutíveis
Outro alerta dos cientistas diz respeito à promessa de que a arrecadação com petróleo resultaria em benefícios sociais e no financiamento da transição energética. O artigo lembra que, em experiências anteriores, os royalties contribuíram para o aumento da desigualdade e não trouxeram melhorias sustentáveis. Além disso, o cenário global de combate às mudanças climáticas deve reduzir a demanda por combustíveis fósseis nos próximos anos, limitando a viabilidade econômica do projeto.
“A exploração de petróleo é algo temporário. O mundo inteiro, incluindo o Brasil, precisa parar logo de usar petróleo como combustível para evitar um catástrofe climático que dizimaria o Brasil, inclusive o Amapá”, alerta Philip Fearnside.
Como alternativa, os pesquisadores destacam o potencial solar do Amapá, que poderia gerar cinquenta vezes mais energia do que a população consome hoje utilizando apenas 1% do território estadual. Outras possibilidades incluem o fortalecimento da bioeconomia, com a agregação de valor a produtos como o açaí e a andiroba, e o incentivo ao turismo comunitário.
Atualmente, o plano de exploração de petróleo na foz do rio Amazonas está sendo submetido a testes exigidos pelo Ibama que têm como foco avaliar a capacidade da Petrobras de responder a situações de emergência. Entre os pontos mais críticos está o resgate de animais oleados, um protocolo que busca garantir a sobrevivência de espécies marinhas e costeiras em caso de derramamento de óleo.
Comunidade no Arquipélago do Bailique na foz do Rio Amazonas. Foto: MIDR/Divulgacão
Em simulações recentes, fiscais identificaram falhas como embarcações presas em redes, uso inadequado de equipamentos e improvisos que não atenderiam a cenários reais de desastre. Esses problemas reforçaram a avaliação de que, apesar dos planos apresentados em papel, a resposta prática ainda não é suficiente para lidar com a complexidade da região.
O resgate da fauna é especialmente sensível no Amapá porque envolve ecossistemas diversos — como manguezais, áreas de desova de tartarugas e rotas de aves migratórias — além de espécies emblemáticas como peixes-boi e botos. Nessas áreas, um acidente poderia comprometer não apenas a biodiversidade, mas também atividades de subsistência de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas que dependem diretamente da pesca artesanal.