Dona Úrsula e a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora: religiosidade, pertencimento e amor à educação. Foto: Acervo pessoal
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Neste dia 1º de janeiro, Rondônia ficou mais pobre. Morreu, com problemas respiratórios, a professora Úrsula Depeiza Maloney, a “Tia Sula” de tantos alunos, personagem emblemática da educação rondoniense. Ela havia completado 89 anos de idade duas semanas antes. Corpo será sepultado nesta sexta, 2, no tradicional Cemitério dos Inocentes.
Filha de imigrantes barbadianos que ajudaram a fundar a cidade, Úrsula nasceu em 1936, quando Porto Velho ainda era uma promessa de futuro e tinha apenas 22 anos como cidade constituída. Seu pai, Oscar Depeiza Maloney, chegou às barrancas do rio Madeira em 1908 para ajudar na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e foi o primeiro bombeiro hidráulico da capital, responsável pelo abastecimento das lendárias Três Caixas D’Água — monumento que até hoje simboliza a identidade urbana da cidade. Da herança paterna, herdou o senso de missão: servir à coletividade.
Com apenas 23 anos, em fevereiro de 1960, iniciou sua carreira no magistério. Formada em Comunicação e Expressão, foi pioneira ao cursar Letras na primeira faculdade instalada em Porto Velho, ainda como extensão da Universidade do Rio Grande do Sul. Desde então, sua vida se confundiu com a própria história da educação rondoniense.
Supervisora e coordenadora na transição de território para estado, esteve ao lado de nomes como a professora Marise Castiel, de quem foi chefe de gabinete, à época em que esta foi secretária de Educação. Percorreu escolas às margens do Rio Madeira e ao longo da BR-364, levando a língua portuguesa como ferramenta de emancipação e contribuindo na formação de dezenas de educadores. Lecionou em instituições que hoje são marcos da memória coletiva — Duque de Caxias, Castelo Branco, Barão do Solimões, John Kennedy, Getúlio Vargas — e dirigiu a Escola Municipal Antônio Ferreira da Silva.
Úrsula também foi presença ativa nas comissões que regulamentaram o ensino particular, planejaram materiais e obras, e estruturaram o sistema educacional nascente. Sua atuação ajudou a dar forma ao que hoje é a rede de ensino de Rondônia.
Aposentou-se do serviço público em 1994, mas não abandonou a vocação. Continuou no SESI e no Colégio Dom Bosco, sempre como professora e supervisora, sempre como referência. Recebeu homenagens que traduzem o reconhecimento coletivo: a Medalha do Mérito Marechal Rondon, insígnias da Assembleia Legislativa, da Câmara de Vereadores e da Prefeitura. Em 2016, foi escolhida para conduzir a tocha olímpica – que percorreu o mundo – em Porto Velho, gesto simbólico que iluminou sua trajetória como chama viva da educação.
Religiosa, discípula de Nossa Senhora Auxiliadora, de sorriso cativante e modos gentis, dona Úrsula é uma cidadão reconhecida e amada. Sua vida é testemunho de que a educação não se faz apenas com livros e salas de aula, mas com coragem, dedicação e amor à comunidade. Porto Velho, Rondônia e todos que passaram por suas lições sabem: a professora Úrsula é uma heroína da educação.
Pai herói
Desde os primeiros anos, as caixas eram cuidadas por um legítimo barbadiano, Osmar Depeize Maloney. Barbados era então um domínio inglês. Osmar foi o primeiro profissional hidráulico a trabalhar nas Três Caixas d’Água, chegando ao Brasil em 1908, aos 18 anos de idade, e constituindo família com uma brasileira, Cleta Francisca, de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Tiveram sete filhos, entre eles a conhecida professora Úrsula Maloney, que acaba de nos deixar.
Desde os primeiros anos, as caixas eram cuidadas por um legítimo barbadiano, Osmar Depeize Maloney. Barbados era então um domínio inglês. Oscar foi o primeiro profissional hidráulico a trabalhar nas Três Caixas d’Água, chegando ao Brasil em 1908, aos 18 anos de idade, e constituindo família com uma brasileira, Cleta Francisca, de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Tiveram sete filhos, entre eles a conhecida professora Úrsula Maloney, nascida em Porto Velho em 1936, e muito respeitada como uma personalidade marcante pela sua memória carregada de histórias ascendentes e por suas vivências e contribuições como educadora.
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
A ampliação de créditos é resultado de uma articulação iniciada em julho. Foto: Divulgação/CGPT
Fechando o ano com motivos de comemoração às famílias residentes em Unidades de Conservação (UCs) Federais do Pará, Amazonas, Acre e Bahia, foi ampliado o acesso aos créditos do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) para mais de 2,7 mil famílias, totalizando um investimento acima de R$ 25 milhões. A ampliação é fruto de parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) chegou a resultar em avanços concretos.
Os recursos estão distribuídos entre as modalidades de Apoio Inicial, Fomento Mulher, Fomento Jovem, Habitação, Recuperação Ambiental e Fomento, incentivando práticas compatíveis com o uso sustentável dos recursos naturais e fortalecendo a estrutura produtiva das famílias, consequentemente, melhorando as condições de vida destes milhares de brasileiros e brasileiras residentes em UCs.
Como etapa final das ações em 2025, nos dias 18 e 19 de dezembro, foram assinados novos contratos com 385 famílias nas Reservas Extrativistas Verde para Sempre e Maracanã, ambas no Pará, que receberão os Créditos de Apoio Inicial a partir de mais um investimento de R$ 3 milhões do Incra.
Foto: Rodolfo Pongelupe
Segundo a coordenadora-geral de Articulação de Políticas Públicas e Economias da Sociobiodiversidade (CGPT/DISAT), Tatiana Rehder, a parceria representa um marco na atuação conjunta dos órgãos.
“Embora as populações tradicionais das UCs já sejam reconhecidas como público beneficiário da reforma agrária desde 2008, foi nesta gestão que conseguimos um avanço histórico em um curto espaço de tempo”, coloca. Tatiana ainda reforçou a essencialidade do comprometimento dos servidores das Unidades para o fazer acontecer da iniciativa.
A iniciativa é resultado de uma articulação iniciada em julho, que passou a integrar, de forma estruturada, as Unidades de Conservação às ações do Programa Nacional de Reforma Agrária, reconhecendo, na prática, seus beneficiários como público atendido pela política de reforma agrária. Essa integração ampliou o alcance da política pública e consolida um ótimo exemplo de atuação conjunta entre autarquias de ministérios distintos.
Diante dos resultados alcançados, ICMBio e Incra reafirmam a continuidade da parceria em 2026, com a perspectiva de ampliação do atendimento e de inclusão de novas Unidades de Conservação no Programa.
Franceses impulsionam a economia, a hotelaria e a visibilidade internacional durante a virada do ano e evento promovido pelo Governo do Estado. Foto: Arthur Alves
Com ações voltadas à promoção do destino e à integração internacional, o Governo do Amapá registra crescimento no turismo estrangeiro durante o Maior Réveillon da Amazônia. Até o dia 28 de dezembro, cerca de 12.379 pessoas cruzaram a fronteira da Ponte Binacional, em Oiapoque, com destino à Macapá.
Mesmo antes do encerramento oficial do mês, os números já superavam todo o fluxo de visitantes de 2024, confirmando um crescimento expressivo no turismo internacional e o fortalecimento do Amapá como destino para estrangeiros ao longo dos anos.
A Secretária Especial de Relações Internacionais e Comércio Exterior, Patrícia Ferraz, destacou que o governador do Amapá, Clécio Luís, é o responsável direto pela chegada dos turistas que foram convidados pelo chefe do executivo e eles estão entre nós.
“O Amapá está recebendo um grande número de turistas, impulsionado por investimentos da gestão em cultura, eventos e infraestrutura. O número de carros e turistas já está próximo de ultrapassar os números do ano passado, gerando impacto positivo na economia local, com aumento do consumo em hotéis, restaurantes, comércio e serviços“, comemorou Patrícia Ferraz.
A guianense Maya Joigny, de 32 anos, disse que veio para viver o Maior Réveillon da Amazônia e ficou simplesmente encantada com a programação e a segurança apresentada pelas autoridades policiais.
“É a primeira vez em Macapá e, sério, a cidade superou tudo que eu imaginava. O evento é incrível, mas o que mais chama atenção é o calor humano. O povo é acolhedor demais, a energia é lá em cima. Estou muito feliz de estar aqui”, disse Maya.
Scott Palcy, de 34 anos, é natural da Guiana Francesa. Ele disse que mesmo com a viagem longa, valeu à pena estar acompanhando o Maior Réveillon da Amazônia.
“O Maior Réveillon da Amazônia tem uma energia única, a cidade abraça a gente, o povo é caloroso, acolhedor. Macapá surpreende, emociona, faz a gente querer ficar mais. É uma experiência que eu vou levar para vida”, comemorou Scott.
Entre os franceses visitantes, estava Maya Joigny. Foto: Divulgação
Muito além da presença dos franceses no Amapá
O Réveillon 2026 carrega o conceito “O Amapá Virou. E você faz parte disso”, que representa não só a mudança de ano, mas a virada de página vivida pelo estado, reforçada pela aprovação de 70% da população na última pesquisa pós-Expofeira. A celebração é realizada pelo Governo do Estado e o Instituto Artístico Cultural e Social Cena Livre, com patrocínio da iniciativa privada e articulação do presidente do Senado Federal e senador pelo Amapá, Davi Alcolumbre.
Mais do que festa, o evento se consolida como um motor econômico. Durante cinco noites, de 27 a 31 de dezembro, o Réveillon do Amapá integrou turismo, cultura e oportunidades, com mais de 50 atrações locais na Noite Amapaense, os shows da virada com Nattanzinho Lima; Nattan; e a Estação Primeira de Mangueira; e demais noites com o Grupo Revelação, Anitta, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo e Luciano no Encontro dos Amigos em Macapá; Noite das Aparelhagens com Crocolive, Tranzamérica, Som Tropical, Mega Gibson, Trepidante, Hippersom, Amazônia Fusion+, Matrix e Mega Pressão 360.
O Amapá agora quer transformar o Réveillon em uma vitrine global, reforçando a imagem de um estado sustentável, moderno e capaz de atrair investimentos.
Moradores da Baixada da Sobral convivem com sujeira e entulhos durante a enchente. Foto: Amanda Oliveira/Rede Amazônica Acre
Rio Branco viveu, em pleno mês de dezembro, um cenário que não se repetia há 50 anos para a época: alagações provocadas por fortes chuvas registradas na última semana que fizeram igarapés urbanos e o Rio Acre transbordarem no sábado (27). A situação atípica envolvendo o principal manancial do estado já atinge mais de 20 mil pessoas.
Alagação é um termo usado no estado acreano para se referir ao transbordamento de rios que, consequentemente, atingem residências e inundam vias urbanas, bem como comunidades rurais.
Em entrevista ao Grupo Rede Amazônica, o doutor em Meteorologia e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Rafael Coll Delgado, explicou que o episódio é considerado atípico do ponto de vista climático, mas explicável do ponto de vista meteorológico, já que foi causado pela atuação de um sistema atmosférico raro na região.
O principal fator por trás das chuvas extremas foi a atuação de um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), um sistema atmosférico mais comum no Nordeste, mas que se deslocou de forma incomum para o oeste do país.
“Nesse caso de Rio Branco, ele se posicionou como uma alta pressão em torno de 10 quilômetros de altitude e começou a se deslocar para o interior do continente, atingindo a região oeste do Brasil”, detalhou.
De acordo com o especialista, os alertas de tempestade já vinham sendo emitidos para a Região Norte. Inclusive, os modelos meteorológicos já indicavam, entre os dias 24 e 25 de dezembro, o deslocamento desse sistema em direção ao Acre.
O VCAN, que tem grandes dimensões, favoreceu a formação de tempestades severas na região.
“Não é um vórtice pequeno. A dimensão dele é realmente muito grande, atingiu a Bolívia, a faixa de Goiás e, na sequência, avançou em direção ao estado do Acre. Isso já vinha sendo observado nos modelos meteorológicos”, afirmou.
Instabilidades intensas e chuvas concentradas
O meteorologista explicou que, embora o núcleo do VCAN seja associado à estabilidade atmosférica, suas bordas, chamadas de vanguarda, favorecem a formação de nuvens profundas e tempestades severas, como as que atingiram Rio Branco e municípios do interior.
“No núcleo do vórtice, há ausência de formação de nuvens. Mas, na vanguarda do sistema, ou seja, nas áreas frontais do vórtice, há uma instabilidade atmosférica muito intensa que favorece a formação de células convectivas profundas, tempestades e volumes elevados de precipitação”, complementou.
Imagens de satélite analisadas durante o evento mostraram nuvens com desenvolvimento vertical extremo, indicando alto potencial de chuva.
“Quando a gente observa imagens de satélite com topos de nuvens atingindo temperaturas inferiores a -100ºC, isso significa que essas nuvens ultrapassaram a troposfera e alcançaram a tropopausa. Isso é um indicativo claro de atividade convectiva muito intensa e, consequentemente, de chuvas volumosas, afirmou.
Enchente já atinge mais de 20 mil pessoas em Rio Branco. Foto: Júnior Andrade/Rede Amazônica Acre
Volume de chuva extremo e fora da normalidade
O meteorologista destacou que, além da atuação do sistema atmosférico, o volume de chuva registrado foi excepcional. Em apenas uma hora de chuva na sexta (26), por exemplo, foram medidos 38 milímetros, o que equivale a 38 litros de água por metro quadrado.
Em menos de um mês, o acumulado ultrapassou os 500 milímetros, o dobro do valor normal climatológico.
Ele explicou que a intensidade e a distribuição espacial da chuva são difíceis de serem estimadas com precisão pelos modelos globais de meteorologia, especialmente no Acre onde há condições específicas como florestas, rios, áreas urbanas e uso do solo.
“Porém, esse fenômeno era previsível. Então, não houve uma surpresa do ponto de vista meteorológico, mas na quantidade de chuva”, pontuou.
Falta de estações e radares agrava impactos
Rafael chamou a atenção para a necessidade urgente de investimentos em estações meteorológicas, radares e recursos humanos especializados no Acre. Segundo ele, a ausência desses equipamentos limita a capacidade de previsão mais precisa e de emissão de alertas com antecedência adequada.
“Essas informações precisam ser especializadas. A gente precisa saber onde a chuva está se concentrando. E isso só é possível com mais estações meteorológicas e, principalmente, com radares meteorológicos, que são capazes de antecipar eventos de microescala como esse que ocorreu”, disse.
O professor reforçou que radares meteorológicos são capazes de antecipar eventos extremos de microescala, como tempestades intensas e concentradas, algo que os modelos globais não conseguem captar com precisão na realidade local.
“Os modelos globais não têm um refinamento da grade do estado do Acre, das condições de superfície, da floresta, dos rios, da área urbana”, explicou.
Alerta
O especialista também relacionou o episódio a mudanças na frequência e intensidade dos fenômenos extremos, associadas às mudanças climáticas, ao aumento das temperaturas e às alterações no uso do solo.
Ao destacar que uma enchente em dezembro havia sido registrada pela última vez somente em 1975, ressaltou que os eventos extremos estão ocorrendo com intervalos cada vez menores na atualidade.
Apesar de a situação ser frequentemente relacionada a fenômenos como El Niño e La Niña, o meteorologista afirmou que o cenário atual vai além disso.
“Isso vai muito além de El Niño e La Niña. O aquecimento anômalo dos oceanos e a mudança na circulação geral da atmosfera estão alterando completamente a dinâmica dos sistemas meteorológicos”, concluiu.
Olhando para as águas límpidas do Lago Puruzinho, o pescador Raimundo Nonato dos Santos lamenta o declínio dos estoques de peixes que afeta o sustento de sua comunidade. Ele relata que espécies como o pirarucu (Arapaima gigas), o tambaqui(Colossoma macropomum) e a pirapitinga (Piaractus brachypomus) tornaram-se “bem raras” na comunidade do Lago Puruzinho, no Amazonas. “Quando a gente pega um, é uma surpresa.”
Morador do Puruzinho desde que nasceu, há 53 anos, Santos — líder da comunidade e conhecido pelo apelido de Leleca — disse que a construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no estado vizinho de Rondônia, em 2008, desencadeou “a ruína” de sua comunidade.
Frequentemente promovidas como uma forma de “energia limpa” por não usarem combustíveis fósseis, as usinas hidrelétricas têm provocado graves impactos ambientais. A usina de Santo Antônio, a quinta maior do país, gerou protestos de ambientalistas desde o início de sua construção no rio Madeira devido aos seus impactos ambientais e sociais, como a redução dos estoques de peixes e o deslocamento de comunidades tradicionais. Seu reservatório abrange mais de 54.600 hectares, limitando o fluxo natural do Madeira.
“Houve um descontrole muito grande e o impacto foi grande para nós: a diminuição de peixes, a água [leitosa] permanecendo muitos meses dentro da comunidade. Isso afetou muito a gente”, Santos disse à Mongabay debaixo de uma árvore frondosa às margens do Lago Puruzinho, a 20 quilômetros da cidade de Humaitá.
Com o início das operações da usina em 2012, a escassez de peixes afetou não só as capturas e as vendas dos pescadores, mas também a dieta da comunidade do Puruzinho, que tradicionalmente comia peixe “todo dia”, afirmou Santos. “Peixe precisa de correnteza para navegar. Ele não precisa de água parada, ele precisa [estar se] movimentando. E o rio Madeira parou.”
O pescador Raimundo Nonato dos Santos (à esquerda, com a família) afirma que houve declínio nos estoques pesqueiros após a construção de hidrelétricas no rio Madeira. “Quando a gente pega um, é uma surpresa.” Foto: Kelvily Santos de Souza para a Mongabay.
O Rio Madeira também foi afetado pela usina hidrelétrica de Jirau, a quarta maior do país, localizada a 120 km rio acima, que começou a operar em 2013. Desde então, uma ampla gama de estudos tem mostrado uma redução nos estoques pesqueiros após os projetos de infraestrutura ao longo do Madeira. Um artigo recente revelou detalhes sobre as comunidades e espécies mais impactadas — questões até então sem resposta — tendo os pescadores como protagonistas.
Santos foi um dos 120 pescadores que trabalharam com os pesquisadores, fornecendo-lhes “informações valiosíssimas sobre a região”, disse o coautor Igor Hister Lourenço, ex-pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Infelizmente, ele é uma das pessoas que têm sido afetadas pelo declínio nos estoques pesqueiros — e um dos maiores colaboradores com os dados”.
Publicado em novembro de 2023, o artigo, liderado por pesquisadores da UFAM, analisou dados de capturas diárias na Colônia dos Pescadores de Humaitá entre maio de 2018 e abril de 2019 — dados atualizados estão sendo compilados para publicação — e informações do período anterior à barragem de Santo Antônio, em 2009 e 2010, coletados pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). “Os resultados mostram que a instalação das usinas hidrelétricas afetou negativamente a dinâmica de captura de diversas espécies de peixes devido à alteração dos períodos e locais de captura registrados anteriormente”, constatou o estudo.
Essas descobertas só foram possíveis, disse Lourenço, graças ao trabalho colaborativo entre pescadores e pesquisadores, utilizando o método tecnologia social de baixo custo aplicada ao monitoramento da pesca artesanal (TSBCAMPA), proposto por ele e outros pesquisadores.
Desaparecimento de peixes
Ao retornarem de um dia de pesca, os pescadores compartilham informações sobre onde, como, quando e quanto gastaram para pescar, bem como a quantidade e as espécies capturadas, disse Lourenço. Técnicos do laboratório da UFAM, presentes nos desembarques diários, anotam essas informações em um formulário para quantificar e identificar os peixes e realizam medições biométricas e tiram fotos de todos os peixes capturados, acrescentou. Depois, todas essas informações são sistematizadas, permitindo aos pesquisadores identificar qual peixe veio de qual embarcação, qual pescador o capturou e qual é a espécie, disse Lourenço.
“O Puruzinho era um dos ambientes mais piscosos do município”, disse Lourenço à Mongabay nas margens do rio Madeira, dentro de um barco utilizado para a pesquisa e como sua residência temporária. “É fato que diminuíram as capturas”, acrescentou ele, enquanto um jacaré descansava na margem do rio e uma iguana verde (Iguana iguana) subia em árvores.
O estudo apontou 25 novos pontos pesqueiros “com capturas expressivas”, ao passo que nas comunidades de Sossego, Trapicho, Lago do Caiarí e Santa Júlia a pesca desapareceu. O artigo também registrou menos capturas de Characiformes e Siluriformes, ordens que abrangem várias famílias, gêneros e espécies de peixes com escamas e sem escamas. Para Siluriformes, as capturas também passaram a ocorrer em locais e períodos diferentes, apontou o estudo. “Consequentemente, isso levou os pescadores a buscarem novos e mais distantes locais de captura e ocasionou o desaparecimento de comunidades que, historicamente, exploravam áreas que não são mais produtivas, refletindo os efeitos do barramento sobre os gradientes de captura espacial/temporal”.
As barragens interromperam o fluxo natural do Madeira, mudando as correntes necessárias para a reprodução dos peixes, provocando uma redução de até 90% nos estoques em alguns locais. Foto: Kelvily Santos de Souza para a Mongabay.
A pesquisa também mostrou uma redução de até 90% nos estoques de peixes em alguns locais, entre 65 espécies capturadas nas áreas de influência das barragens de Santo Antônio e Jirau. “O maior problema não é nem a redução das capturas — apesar de isso ser algo que existe e está sendo corroborado pelos relatos dos pescadores”, disse Lourenço. Para ele, a questão principal são as mudanças na dinâmica espaço-temporal nas atividades de pesca artesanal. “O que isso quer dizer? Algumas espécies passaram a ser capturadas em locais diferentes e em épocas diferentes e isso, por sua vez, faz com que algumas comunidades sejam extremamente afetadas.”
Segundo Lourenço, os dados sobre a redução de peixes no estudo são um tanto “discutíveis” porque foram utilizados métodos diferentes nos períodos pré e pós-barragens. Em estudos anteriores, acrescentou, as conclusões eram genéricas em termos de informação sobre as comunidades e espécies mais afetadas após a construção das barragens do Madeira. Da mesma forma, disse Lourenço, as informações compartilhadas pelas empresas não revelaram o local de captura ou a espécie, apenas o nome comum e as capturas totais.
Em um comunicado por e-mail, a Axia, responsável pela barragem de Santo Antônio, afirmou que a usina tem operado de forma “sustentável” e realizado ações socioambientais supervisionadas por autoridades governamentais e “em diálogo com as comunidades no entorno e representantes da sociedade civil”.
A empresa informou que investiu mais de R$ 2,6 bilhões em 28 programas socioambientais, entre eles um programa de ictiofauna, que monitora a dinâmica da população de peixes desde 2009, e um sistema de transposição de peixes, mas não divulgou os resultados. A Axia disse que Santo Antônio tem um reservatório reduzido que “reproduz o comportamento hidrológico” do Madeira e “não interfere na força natural do rio”.
A Jirau Energia, proprietária da barragem de Jirau, não respondeu aos pedidos de resposta da Mongabay.
Com o objetivo de resolver esse problema por meio de uma “pesquisa mais refinada”, Lourenço disse que a parceria com os pescadores foi fundamental: algumas espécies foram selecionadas, permitindo a avaliação de suas capturas antes e depois da barragem em locais específicos.
Cerca de 120 pescadores trabalharam com pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) para mapear os prejuízos das barragens do Madeira para a pesca. Foto: Igor Hister Lourenço.
Menos peixe em todo lugar
“Depois das usinas, o peixe desapareceu”, disse a agricultora Maria Delci Barros de Morais, de 58 anos, à Mongabay na varanda de sua casa em Paraíso Grande, localidade também coberta pelo estudo de 2023.
Moradora da comunidade há 37 anos, Morais afirmou que os peixes eram muito abundantes no passado, mas agora a realidade é de escassez. “Meus filhos gastam dinheiro com malhadeiras, isopor, gelo e, às vezes, não ganham [dinheiro] nem para o sustento, quanto mais para cobrir que eles gastaram”.
Em Rondônia, a Mongabay também visitou a comunidade de Calama e a Terra Indígena Karipuna, ambas na área de influência das barragens, mas não pesquisadas pelo artigo. As queixas sobre a escassez de peixe são generalizadas.
“Há 10 anos, com meia hora você pegava, sem exagero, até 500 kg de peixe”, disse o líder indígena Adriano Karipuna à Mongabay debaixo de árvores centenárias da Floresta Amazônica, na Terra Indígena Karipuna. “Hoje, passam 6 horas e se [a gente] pegar quatro peixes, é bastante — e não é o tamanho do peixe adequado.”
A agricultora Maria Delci Barros de Morais (segunda da esquerda, com a família) diz que os peixes eram muito abundantes em sua comunidade de Paraíso Grande, mas agora a realidade é de escassez. Foto: Karla Mendes/Mongabay.
Maria das Graças Correia da Silva, operacional de serviços gerais e limpeza em uma escola em Calama, disse que os estoques de peixes reduziram drasticamente após as barragens. Ela disse que gosta de comer peixe capturado na região todos os dias, mas a única forma de garantir esse alimento em meio à escassez é comprar peixe de cativeiro em Porto Velho. “Passei um tempo sem ter peixe daqui da região.”
Todas as comunidades também relataram perdas por inundações, bem como o agravamento de problemas de saúde após terem de substituir o peixe por outras proteínas, como frango e alimentos processados.
Lourenço disse que as empresas alegam que o declínio de peixes se deve à sobrepesca, o que ele afirmou não ser verdade, pois os pesquisadores monitoram todas as capturas na região. Segundo ele, as empresas também afirmaram que as barragens “não afetam a média geral da bacia”, o que é verdade, mas a diferença nos níveis de água, conhecida como repiquete, causa prejuízos aos pescadores.
“O peixe não entende [essas mudanças nos níveis da água]; o que ele entende é o volume de sedimentos na água e o nível da água. Então, quando o rio sobe, ele vai para os igarapés, e quando desce, ele volta”, disse Lourenço, atualmente analista pleno de pesquisa e desenvolvimento no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. “Os pescadores já tinham, historicamente, através de gerações, esse conhecimento: saber quando e onde eles iam capturar. Agora eles saem, colocam as malhadeiras, e aí o rio sobe quando o peixe deveria descer. E isso prejudica porque tem investimento e é caro.”
Lutando por compensação
Desde 2013, os pescadores de Humaitá buscam compensação pelas perdas junto às empresas proprietárias das usinas. Eles entraram com uma ação pedindo indenização por danos morais e materiais, mas a Justiça de Humaitá decidiu que a ação havia prescrito. Os pescadores recorreram e o caso aguarda decisão do Tribunal de Justiça do Amazonas.
Lourenço, o pesquisador, disse que o estudo de 2023 é um retrato da situação entre 2018 e 2019, mas que o cenário pode ter mudado ainda mais. A coleta de todas essas informações é um trabalho contínuo, acrescentou, e dados atualizados estão em processo de revisão para publicação, o que permitirá aos pesquisadores “comparar os nossos dados com os nossos dados” e ter menos incertezas sobre os resultados.
Os dados coletados pela UFAM desde 2018 estão disponíveis em uma plataforma interativa para ajudar a gerir os estoques e apoiar políticas de conservação, disse Lourenço. A ferramenta fornece informações detalhadas sobre as espécies capturadas na região: localização, peso, tamanho, preço por quilo e períodos hidrológicos.
A comunidade de Paraíso Grande também foi coberta pelo estudo de 2023, que avaliou os estoques pesqueiros do rio Madeira. Foto: Karla Mendes/Mongabay.
Para incentivar os pescadores a colaborar com o estudo, disse Lourenço, foi-lhes concedido o direito de usar os dados para reivindicar seus pedidos de aposentadoria, dado que a pesca artesanal é, geralmente, um trabalho informal.
Mas o principal objetivo das pesquisas é ajudá-los a obter compensação pelos danos, disse Lourenço. “O nosso sonho final é que, no futuro, eles mesmos possam fazer o preenchimento desse formulário, mas, atualmente nós precisamos dos técnicos, que estão lá todos os dias de manhã nos desembarques.”
No Lago Puruzinho, Santos disse que seu sonho é criar peixes na região para combater a escassez. Mas, para isso, ele disse que precisa obter recursos financeiros para saldar as dívidas da Associação de Desenvolvimento da Comunidade do Lago do Puruzinho e avançar com a compra de tanques para peixes.
“Quando se fala do peixe, ele serve de renda para nossa sobrevivência e para o nosso alimento. O peixe tem essa importância para nós na nossa região.”
Escrito por Karla Mendes, repórter investigativa da Mongabay no Brasil.
Nova lei do licenciamento promete destravar obras. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei do Licenciamento Ambiental Especial (LAE). A norma estabelece prioridade na análise e na concessão de licenças para empreendimentos considerados de grande relevância, como a reconstrução de rodovias, por exemplo. O texto foi publicado no Diário Oficial da União no dia 23 de dezembro de 2025.
De acordo com a nova lei (nº 15.300/2025), empreendimentos que já possuem licença prévia terão prazo de 90 dias para apresentar os estudos ambientais exigidos. Já os órgãos ambientais deverão se manifestar em até 30 dias. Caso esse prazo não seja cumprido, o empreendedor poderá recorrer aos dados secundários mais recentes disponíveis.
O texto determina ainda que a análise conclusiva das obras deverá ser finalizada em até três meses após o protocolo dos estudos, com prazo máximo de 12 meses para a conclusão de todo o processo de licenciamento ambiental especial.
A legislação também introduz conceitos relacionados a medidas preventivas e mitigadoras, além de atualizar diretrizes para atividades de dragagem. Além disso, foram mantidas as restrições específicas para a proteção de territórios vulneráveis, como terras indígenas e unidades de conservação.
A norma resulta da conversão da Medida Provisória nº 1.308, aprovada pelo Congresso Nacional no início de dezembro, e substitui trechos do projeto original da Lei do Licenciamento Ambiental (nº 15.190/2025), vetados pelo governo federal por preverem uma análise em etapa única, considerada insuficiente para garantir a proteção ambiental.
Cascata de armadilhas para coleta dos insetos. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
O líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), afirmou que a nova lei contribuirá para a retomada de obras de infraestrutura no país.
“Esta Casa votou e aprovou uma medida provisória, transformada agora em lei de conversão, sobre o licenciamento ambiental especial, que vai destravar este país de inúmeras, de milhares de obras que estão paralisadas, que prejudicam o nosso país pelo imobilismo. Esta lei libertará o Brasil e gerará milhares de empregos na nossa economia.”
Mão de obra técnica
Apesar de acelerar o ritmo do licenciamento, o analista ambiental Charles Dayler avalia que a principal fragilidade do sistema está na escassez de mão de obra técnica dos órgãos ambientais, tanto em nível estadual quanto federal, sobretudo nos pequenos municípios. “É unânime no Brasil todo, quando você participa de eventos e conferências, que a quantidade de técnicos nos órgãos ambientais é insuficiente para a demanda de processos”.
Nova lei do licenciamento promete destravar obras. Foto: Josivan Antelo/Rede Amazônica RR
Dayler observa que, diante desse cenário, o caminho mais frequente adotado pelo poder público tem sido a flexibilização das normas. “Só que temos que achar um meio termo. Não dá só para flexibilizar a norma e não recompor o quadro dos órgãos e a qualificação constante dos funcionários”, alerta.
Um exemplo dessa fragilidade institucional ocorre no município de Guaramiranga, no norte do Ceará, onde a Justiça da Comarca de Pacoti acatou uma ação do Ministério Público do Ceará (MPCE) e reconheceu que a Autarquia Municipal do Meio Ambiente não possui capacidade técnica para exercer atividades de licenciamento e fiscalização ambiental, consideradas de alta complexidade.
Decisão
A decisão apontou que o órgão foi criado por meio de uma lei municipal que previa cargos comissionados sem exigência de qualificação técnica ou concurso público, o que viola normas federais e estaduais. Com isso, a Justiça declarou a inconstitucionalidade de dispositivos da lei e determinou que a prefeitura e a autarquia não podem nomear comissionados, nem emitir licenças ou autorizações ambientais, até que seja implantada uma estrutura adequada, com servidores concursados e qualificados.
Enquanto isso, a responsabilidade pelo licenciamento e fiscalização ambiental no município ficará sob a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace).
O professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB), Reuber Brandão, avalia que o principal problema nesse contexto é a transferência de atribuições para agências ambientais estaduais, frequentemente ocupadas por servidores nomeados pelo governo local em cargos de confiança, responsáveis por conduzir estudos ambientais relacionados a interesses políticos circunstanciais.
Segundo ele, o loteamento de cargos compromete a qualidade técnica dos processos. “O loteamento de cargos nomeados é um grande problema, pois a pressão política muitas vezes sobrepõe a necessidade de qualidade técnica nos estudos”, afirma.
Produtores rurais podem conseguir permissão para exportar a produção através de plataforma. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Agora ficou mais fácil para os produtores rurais conseguirem permissão para exportar a produção. Começou a funcionar, nesta semana, a nova funcionalidade da plataforma Agro Brasil + Sustentável de habilitação automática para áreas que atendem a diferentes critérios socioambientais dos países importadores.
O serviço de habilitação de Área de Produção para Exportação integra, organiza e disponibiliza informações de gestão ambiental, social e corporativa relacionadas aos produtores, empresas agrícolas e propriedades rurais para qualificar os produtos agropecuários brasileiros.
A ferramenta também visa a atender às exigências de grandes mercados internacionais, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O objetivo é permitir a habilitação do produtor e de produtos agropecuários, a partir de requisitos, padrões, processos e tecnologias, devidamente caracterizados quanto à produção.
Agro Brasil + Sustentável
Lançado há um ano, o sistema Agro Brasil + Sustentável integra dados oficiais do governo e informações fornecidas pelo mercado, como certificações emitidas por instituições de avaliação de conformidade. A ferramenta auxilia produtores a atenderem às exigências socioambientais do mercado interno e externo de forma gratuita, como se habilitar para acessar recursos do Plano Safra.
Emília de Godoi. Foto: Erika de Faria/Temporal Filmes
Na fronteira da monocultura da soja na Amazônia, comunidades comprometidas com a prática de sistemas agrícolas tradicionais (SATs) preservam a memória do passado, sustentam o meio ambiente e mostram um caminho para o futuro.
“Esses sistemas desempenham papel fundamental na produção das paisagens e na manutenção da sociobiodiversidade”, afirmou a antropóloga Emília Pietrafesa de Godoi, professora do Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp).
Ela apresentou a conferência “Sistemas agrícolas tradicionais como herança cultural e ambiental” na Escola Interdisciplinar FAPESP 2025: Humanidades, Ciências Sociais e Artes.
Godoi desenvolve atualmente, com apoio da FAPESP, pesquisa sobre sistemas agrícolas tradicionais na região do Baixo Tapajós, no Pará, articulando-os como patrimônio cultural e ambiental. Sua equipe atua principalmente na Floresta Nacional (Flona) do Tapajós e em seu entorno, em comunidades como Jamaraquá, Maguari, São Domingos, Santa Cruz, Revolta e Jatobá da Volta Grande, em sinergia com as organizações das comunidades locais, como as associações agroecológicas de mulheres Amabelas e Flores do Campo.
“Desde o início, o desenho do trabalho exigiu a combinação de muitos olhares. Temos antropólogos, economistas, ecólogos, geógrafos, uma pessoa especializada em direito ambiental e pesquisadores da área de biologia. Mas o que estamos fazendo não é só uma pesquisa interdisciplinar. É também uma pesquisa colaborativa entre distintos regimes de conhecimento. Sem a participação das populações locais, é impossível levar adiante o trabalho”, disse.
Um eixo central da proposta é reconhecer os moradores como pesquisadores locais. “Temos falado muito em interlocução entre campos de conhecimento, mas não temos considerado suficientemente a colaboração entre esses distintos regimes. No Baixo Tapajós, não consideramos os moradores meros informantes”, sublinhou Godoi.
“Não chegamos lá dizendo ‘vamos fazer isso ou aquilo’. Antes de iniciar as atividades, visitamos cada comunidade para apresentar o projeto e ouvir as demandas. A partir dessas conversas, foram estruturadas oficinas com temas de interesse dos moradores, como associativismo. Além das oficinas, organizamos intercâmbios entre as comunidades e entre os moradores e pesquisadores universitários. Encontros em Santarém, Campinas e na Universidade Federal do Oeste do Pará [Ufopa] colocaram ribeirinhos, quilombolas, produtores agroecológicos e acadêmicos na mesma roda de conversa. Estamos agora elaborando um livro, com contribuições de cada participante. Esse processo reforça uma demanda que vem crescendo entre indígenas e comunidades tradicionais: serem reconhecidos como coautores”.
O ponto de partida conceitual da conferência foi o reconhecimento dos sistemas agrícolas tradicionais como patrimônios. No Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já reconheceu, por exemplo, os sistemas agrícolas tradicionais de populações indígenas do Rio Negro e de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira como patrimônio cultural. A região estudada por Godoi ainda não foi patrimonializada.
“Em nosso caso, eles estão profundamente ligados às chamadas ‘terras pretas de índios’, que aportam uma dimensão temporal profunda, como remanescentes de sociedades pré-coloniais”, explicou Godoi.
Enquanto a arqueologia “olha para baixo”, escavando as formações de terras pretas para desenterrar fragmentos de cerâmicas e outros vestígios das populações ancestrais, como relatou Eduardo Neves em sua conferência na Escola Interdisciplinar FAPESP 2025, a antropologia “olha para cima”, para ver o que as populações atuais fazem com essas terras.
“Grande parte dos SATs na região da Flona e do entorno se faz nas terras pretas, porque estas são extremamente férteis. E, quando falam de suas vidas, as pessoas com quem trabalho contam histórias com a terra”, sublinhou.
Daí a complementaridade, proposta por Godoi, entre a “memória da terra” – isto é, a memória que a terra guarda, revelada por fragmentos cerâmicos, antigos poços, aterros, montículos – e “memória na terra” – inscrita por cultivos, sítios e roças manejadas por gerações de famílias. “Quando estamos com os moradores locais, somos convidados a visitar lugares onde a terra guarda uma memória secular. Eles reconhecem que, ali, estiveram outras populações e desenrolaram-se outras histórias de vida”, conta a pesquisadora.
Outra dimensão fundamental dos sistemas agrícolas tradicionais é a das micropaisagens domésticas: hortas, jiraus, canteiros de plantas medicinais, jardins com espécies ornamentais, cercados por árvores frutíferas ao redor da casa. “É uma paisagem feminina, porque manejada principalmente por mulheres, mesmo que os homens também trabalhem nela. Uma interlocutora local resumiu a potência desse universo dizendo que a família tinha uma ‘farmácia viva’ no sítio”, lembrou Godoi.
Os sistemas agrícolas tradicionais trazem também a ideia de uma cadeia intergeracional no manejo da terra e na produção da paisagem. A roça que está sendo trabalhada agora foi plantada pelo pai ou pelo avô e deverá ser transmitida, como legado, ao filho e ao neto.
“O entendimento dos mais velhos sobre os pomares é o de que eles expressam uma cadeia alimentar intergeracional de longa duração. O cacau e o teperebá [cajá] que hoje se come ou se bebe em forma de suco provêm do mesmo pé que alimentou o avô e que deverá ser deixado para o neto. Um agricultor de São Domingos foi questionado pelos vizinhos: por que plantar árvores frutíferas se ‘não tinha para quem deixar’? A resposta veio quando nasceu seu neto, Benjamin. Ele me disse, feliz, que agora plantava para o Benjamin”, comentou Godoi.
Cacau cultivado em Rondônia, no Brasil, faz parte de sistemas agrícolas tradicionais. Foto: Irene Mendes/Secom RO
A relação não utilitária explica também o regresso daqueles que partem, em busca de melhores condições de vida. “Histórias de migração e retorno também são incorporadas à terra. Um morador de Jamaraquá, o senhor Edson, passou 20 anos em Manaus e voltou em 2015. Ele me disse: ‘Chegou um dia de voltar para a raiz. Essa raiz, essa vontade, esse conhecimento eu não perdi. Estou recuperando o que meu pai fez’. E desenhou na terra sua roça, explicando: ‘Uma parte para colher em seis meses, outra para um ano, e no meio as frutíferas. No mesmo modelo que meu pai deixou para nós’”, observou Godoi.
A floresta e as roças formam um contínuo: a mata fornece alimentos, mudas e sementes comestíveis, fibras e outras sementes para o artesanato, enquanto as roças mantêm uma combinação de cultivos de ciclos curto, médio e longo. “Os ribeirinhos advertem: ‘Nossa roça é para ter o que comer e vender nas feiras’. As famílias participam em alguma medida do mercado, vendendo em feiras locais, em Santarém e Alter do Chão, ou atendendo políticas públicas de compra de alimentos, mas preservam áreas de produção voltadas prioritariamente para autoconsumo e troca, baseadas na reciprocidade”, explica Godoi.
Ameaças aos sistemas agrícolas tradicionais
Toda essa paisagem sociobiodiversa vem sendo ameaçada pela monocultura da soja, que avança inclusive sobre áreas próximas à Flona e ao longo da BR-163. “As pessoas afirmam que a terra está cercada de ‘sojeiros’. A mosca-branca que ataca as plantas – melancias, por exemplo – é associada à soja pelos agricultores. Quando há pulverização de agrotóxicos, o veneno, espalhado pelo vento, afeta as pessoas, os animais e as plantas”, relata Godoi.
Mesmo dentro da Flona, área formalmente protegida, as comunidades percebem alterações profundas. “Eles dizem que, antes, as árvores tinham o tempo certo de produção e recuperação; agora está tudo variado. As mangueiras produzem menos e as mangas caem do pé antes de amadurecer”, diz a pesquisadora.
Outro exemplo mostrado pela pesquisadora: a foto de uma castanheira solitária cercada por um campo de soja, nas cercanias da comunidade Revolta.
“A castanheira é a árvore-símbolo do Pará e espécie-chave dos sistemas florestais amazônicos. Sabemos, por estudos ecológicos, que ela depende de polinização cruzada. Uma árvore isolada dificilmente produz frutos. Precisa de plantas companheiras e de polinizadores, como as abelhas grandes, também afetadas pelos agrotóxicos. A árvore está lá, porque a castanheira é protegida pela lei, mas seu ciclo de vida foi completamente alterado. A literatura mostra que a distribuição, o adensamento e o rejuvenescimento das populações de castanheiras são favorecidos pela relação de longa duração com as populações humanas amazônicas”.
O projeto também passou a incorporar análises laboratoriais sobre contaminação por agrotóxicos. Em sua última ida ao campo, a pesquisadora voltou com um cooler cheio de amostras de terra das roças, igarapés e mel de abelha. “Levei tudo para o laboratório de química analítica da Unicamp, e estamos comprando, com o apoio da FAPESP, os reagentes para fazer a análise de glifosato”, contou.
Para a antropóloga, este é um exemplo emblemático da colaboração entre diferentes campos da ciência e entre diferentes regimes de conhecimento.
“Há certos problemas impossíveis de serem tratados sem essa interlocução entre vários campos da ciência, sem reconhecer que as populações locais são produtoras de conhecimento e guardiãs de um patrimônio ambiental e cultural que vai muito além dos nossos indicadores convencionais”, concluiu.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, escrito por José Tadeu Arantes
Com a chegada dos shoppings centers (centros de compras) à capital amazonense e, junto com eles, as salas de cinema de grandes redes internacionais, a tradição dos cinemas de rua em Manaus perdeu força. As antigas fachadas iluminadas, as filas na calçada e o charme das sessões ao ar livre deram lugar às poltronas numeradas e às telonas de multiplex.
No entanto, alguns espaços ainda resistem e mantêm viva a experiência de assistir a um filme fora do circuito comercial.
A equipe do Portal Amazônia encontrou três cinemas de rua que continuam a exibir filmes, promover eventos e preservar a história na cidade. Confira:
Cineteatro Guarany
Inaugurado em novembro de 1999, o Cineteatro Guarany nasceu com a proposta de receber shows, espetáculos de pequeno porte e, claro, sessões de cinema. O cineteatro está localizado na Villa Ninita, anexo ao Palácio Rio Negro (Avenida Sete de Setembro, 1546 – Centro), o espaço é um tributo ao antigo cinema de mesmo nome, que marcou gerações de manauaras no século XX.
Com apenas 94 lugares, o Guarany preserva a atmosfera intimista dos cinemas de rua. O projeto cênico foi idealizado por Sérgio Cardoso, diretor e autor teatral, inspirado na antiga casa de exibições.
Atualmente, o espaço divulga sua programação nas redes sociais e abriga eventos como o Cinema de Arte de Rua, mostras audiovisuais e festivais que valorizam as produções independentes e amazônicas. Confira a programação na página oficial AQUI.
Cineteatro Guarany. Foto: Divulgação
Cine Carmen Miranda
O nome ‘Cine Carmen Miranda’ remete à era de ouro dos cinemas de rua manauaras. Nos anos 1970 e 1980, o comunicador Joaquim Marinho, o “Kim”, em parceria com o empresário Antônio Gavinho, comandou uma rede de salas populares no Centro da cidade, entre elas: Chaplin, Renato Aragão, Grande Otelo e Cantinflas.
Em 2024, o espaço ganhou nova vida pelas mãos do ator e produtor cultural Michel Guerrero, que reabriu o Cine Carmen Miranda na Rua do Progresso, também no Centro. A iniciativa conta com apoio da Aliança Francesa Manaus e do Instituto Cultural Hiléia Amazônica.
Com 42 a 50 lugares, o novo local mantém a proposta de exibir clássicos que marcaram gerações, além de produções autorais e mostras especiais, reafirmando o compromisso de preservar o cinema de rua como um patrimônio afetivo da cidade. Confira a programação AQUI.
Cine Carmen Miranda. Foto: Divulgação
Cine Casarão
Entre os espaços que unem tradição e modernidade, o Cine Casarão se destaca. Localizado no Centro Cultural Casarão de Ideias (Rua Barroso, 279 – Centro), o cinema é referência em produções independentes e filmes nacionais.
Em setembro de 2024, o espaço inaugurou uma segunda sala, com 25 lugares e recursos de acessibilidade, ampliando a oferta cultural no coração de Manaus. O Casarão exibe títulos de distribuidoras como Warner, Paris Filmes e Universal, além de oferecer sessões gratuitas e eventos ao ar livre.
Equipado com tecnologia moderna, incluindo um projetor a laser Christie Series 4, o Cine Casarão mantém ingressos acessíveis: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia), disponíveis pelo site ou aplicativo do espaço.
Cinema de ruas ganham espaço em Manaus. Foto: Divulgação
Lançado em 1997, o filme ‘Anaconda’ conquistou o público com sua produção repleta de clichês, suspense e uma cobra gigante aterrorizando um grupo de exploradores na Amazônia. O sucesso foi grande e o filme acabou reforçando uma visão distorcida da floresta, que seria marcada por perigos constantes e criaturas monstruosas.
Mais de duas décadas depois, a franquia ganha um novo capítulo. No lançamento de 2025, os melhores amigos Griff e Doug decidem se aventurar na Amazônia com o objetivo ambicioso de gravar um reboot do filme ‘Anaconda’.
Veja o trailer:
A nova produção se inspira diretamente no longa original, que acompanhava um grupo de documentaristas em expedição pela floresta amazônica em busca da fictícia tribo indígena isolada Shirishama. Durante a viagem, uma tempestade altera os planos do grupo, que acaba cruzando o caminho do misterioso Paul Sarone.
Depois desse encontro, a expedição se transforma em um pesadelo, e os personagens percebem que estão no meio de uma caçada perigosa a uma anaconda, uma gigantesca e assombrosa cobra retratada como inteligente e estratégica, capaz de planejar ataques com precisão.
Mesmo envolto em ficção e exageros, o filme consegue mostrar verdades fundamentais sobre a Amazônia, como a sua grandeza, sua riqueza natural, os impactos da exploração externa e a necessidade de respeito a um território que não é vazio, nem selvagem, mas vivo, habitado e essencial para o equilíbrio ambiental do mundo.
Pensando em como a Amazônia foi retratada, a equipe do Portal Amazônia revisitou o primeiro filme e listou verdades sobre a região. Confira:
Imensidão da Floresta Amazônica
Mesmo sendo retratada de forma caricata, a narrativa deixa evidente que a Amazônia não é um espaço simples ou facilmente controlável, o que demonstra toda a imensidão e complexidade da floresta.
Os personagens se perdem, enfrentam dificuldades de locomoção e dependem dos rios para se deslocar, algo que reflete a realidade de grande parte da região, em que os rios são os principais caminhos para a deslocação.
Imensidão da Floresta Amazônica. Foto: Reprodução/ Facebook-@Ricardostuckert
Riqueza da biodiversidade amazônica
O longa mostra também, ainda que de forma distorcida, a riqueza da biodiversidade amazônica, chamando atenção para o fato de que a Amazônia abriga uma das maiores diversidades de espécies do planeta, muitas delas ainda pouco estudadas pela ciência.
O filme retrata que a floresta é, de fato, lar de animais predadores e espécies que exercem papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas.
Biodiversidade de animais amazônicos. Foto: Reprodução/ FAPEAM
Exploração predatória da Amazônia
O filme retrata, mesmo sem aprofundamento, a exploração predatória da Amazônia, em que a figura do caçador, obcecado por capturar a cobra, representa a relação histórica da região com a extração, caça e apropriação de recursos naturais como mercadorias.
Essa mentalidade, dramatizada no longa, dialoga com as práticas reais que ameaçam a floresta, como o garimpo ilegal, o desmatamento e o tráfico de animais silvestres.