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Tikúna: Língua indígena mais falada do Brasil tem a maior parte da etnia no Amazonas

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De acordo com o IBGE, do total de integrantes da etnia Tikúna, 51.978 pessoas utilizam efetivamente o idioma no dia a dia. — Foto: Michael Dantas

O Tikúna é a língua indígena mais falada do Brasil, com 74.061 pessoas pertencentes à etnia em todo o país, segundo dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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A maior parte da população está no Amazonas, com 73.564 integrantes, principalmente dentro de Terras Indígenas, na região do Alto Solimões, no sudoeste do estado, próximo às fronteiras com Colômbia e Peru.

Comunidade Indígena Vila Betânia – Mecürane do povo Tikuna, em Santo Antônio do Iça, no Amazonas — Foto: Michael Dantas/WCS Brasil

Leia também: Entre os falantes ativos: “Toda arte é uma forma de resistência e fortalecimento”: indígena tikuna produz bonecas que retratam seu povo

De acordo com o IBGE, do total de integrantes da etnia Tikúna, 51.978 pessoas utilizam efetivamente o idioma no dia a dia, enquanto outros podem não falar mais a língua ou a usar como segunda língua.

  • 87,69% vivem em Terras Indígenas
  • 8,71% residem fora delas em áreas urbanas
  • 3,60% residem fora delas em áreas rurais

Outros estados com presença da etnia Tikúna são Rio de Janeiro (73 pessoas) e São Paulo (70 pessoas). A idade mediana da população Tikúna subiu de 17 anos em 2010 para 19 anos em 2022, indicando que o idioma segue sendo transmitido para as novas gerações.

Diversidade de povos e línguas

Conforme o Censo Demográfico 2022 do IBGE, o Amazonas concentra 94 etnias declaradas dentro de Terras Indígenas, com 137.421 pessoas que falam ou utilizam idiomas nativos, cerca de um terço de todos os falantes indígenas do país.

Criança da comunidade Tikúna Vila Betânia – Mecürane, em Santo Antônio do Içá, no Amazonas. — Foto: Michael Dantas

Entre os municípios com maior diversidade de línguas estão:

Análises

Encontro Tikuna. Foto: Pedro Federal/IDGlobal

Segundo o IBGE, uma pessoa indígena era considerada falante de língua indígena apenas se utilizasse o idioma, inclusive sinais próprios, para se comunicar em casa. Quando isso ocorria, registrava-se o nome da língua falada no domicílio.

Quando uma pessoa indígena falava mais de uma língua, o IBGE registrava até três idiomas utilizados no domicílio.

Cada campo recebia apenas uma língua, e o recenseador não devia incentivar respostas adicionais; assim, o segundo e o terceiro campos podiam permanecer em branco.

Por Daniel Landazuri, g1 AM — Manaus

Da floresta ao mercado: desafios e oportunidades para os sistemas produtivos locais na Amazônia

Fruto do açaí. Foto: Reprodução/IDAM

Por Yunier Sarmiento Ramírez e Jose Barbosa Filho

A Amazônia abriga uma diversidade de sistemas produtivos locais (SPLs) — da castanha, do açaí e dos óleos vegetais ao artesanato e ao turismo de base comunitária — que articulam saberes tradicionais, conservação ambiental e geração de renda. No entanto, a passagem “da floresta ao mercado” enfrenta gargalos persistentes de logística, crédito, assistência técnica, certificação e acesso a canais comerciais mais justos, ao mesmo tempo em que convive com pressões de desmatamento e volatilidade de preços.

Da floresta ao mercado: desafios e oportunidades para os sistemas produtivos locais na Amazônia
Açaí é um dos frutos típicos da Amazônia. Fonte: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP). Webinar Extrativismo vegetal e bioeconomia na Amazônia: desafios e oportunidades. Campinas: Instituto de Economia, 2023. Disponível em: https://www.eco.unicamp.br/eventos/historico/webinar-extrativismo-vegetal-e-bioeconomia-na-amazonia-desafios-e-oportunidades. Acesso em: 23 out. 2025.

Este artigo analisa os desafios e oportunidades para o fortalecimento dos sistemas produtivos locais na Amazônia, à luz da transição para uma bioeconomia baseada na sociobiodiversidade e na valorização dos conhecimentos tradicionais. A discussão enfatiza o papel das políticas públicas, do cooperativismo, da rastreabilidade e da inovação tecnológica como eixos estratégicos para a sustentabilidade regional. Em seguida, são mobilizados dados do IBGE que caracterizam a escala e a dinâmica recente da produção extrativista e agroflorestal, oferecendo subsídios para compreender as potencialidades e limitações desses sistemas no desenvolvimento territorial sustentável da região.

1. Panorama da Produção Extrativista na Amazônia

      Os dados mais recentes do IBGE (2024) revelam que o Brasil produziu 763.662 toneladas de produtos alimentícios oriundos da extração vegetal, distribuídas de forma bastante desigual entre as grandes regiões do país. A Região Sul ocupa o primeiro lugar, com 387.200 toneladas, o que corresponde a 51% do total nacional, seguida pela Região Norte, com 277.058 toneladas (36%). As demais regiões — Sudeste (7%), Nordeste (5%) e Centro-Oeste (1%) — têm participações bem mais modestas, conforme apresentado na Figura 1.

      Figura 1 – Quantidade produzida na extração vegetal de produtos alimentícios por grande região, Brasil, 2024.

      Fonte: IBGE – Produção da Extração Vegetal e Silvicultura, 2024.

      A produção expressiva do Sul, contudo, é fortemente concentrada em um único produto: a erva-mate, cuja extração alcançou 377.441 toneladas, representando cerca de 95,5% da produção total da região. Trata-se de uma cadeia consolidada e tradicional, voltada tanto ao mercado interno quanto à exportação, e que difere substancialmente das dinâmicas produtivas observadas na Amazônia. No caso amazônico, a diversidade é a principal característica: castanha-do-pará, açaí, babaçu, andiroba, buriti, copaíba e outros produtos formam uma teia de sistemas produtivos locais (SPLs) baseados no uso sustentável da floresta e na valorização de saberes tradicionais.

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      Esses dados revelam dois modelos distintos de extrativismo vegetal no Brasil. O primeiro, predominante no Sul, é marcado pela especialização produtiva e pela inserção consolidada em cadeias agroindustriais. O segundo, característico da Amazônia, apresenta forte relação entre economia e ecologia, sendo sustentado por comunidades ribeirinhas, indígenas e extrativistas que conciliam o uso dos recursos naturais com a conservação ambiental. Essa diferença explica por que, mesmo com menor volume absoluto, a produção amazônica possui maior relevância socioambiental e representa um ativo estratégico para o avanço da bioeconomia e do desenvolvimento territorial sustentável.

      A análise dos levantamentos anteriores do IBGE indica que a participação da Região Norte tem se mantido relativamente estável ao longo dos últimos anos, sempre figurando entre as principais produtoras de alimentos extrativos do país. Essa constância reforça o papel estrutural do extrativismo amazônico na economia regional e sua importância para a transição rumo à bioeconomia sustentável. Essa estabilidade sugere resiliência dos sistemas extrativistas amazônicos, mesmo diante de desafios como a oscilação de preços, o difícil acesso a mercados e a pressão de atividades predatórias. Assim, o fortalecimento dessas cadeias — por meio de políticas de crédito verde, certificação, agregação de valor e infraestrutura logística sustentável — é essencial para transformar o potencial amazônico em vantagem competitiva e sustentável no cenário nacional e global.

      2. Principais Produtos da Extração Vegetal na Amazônia

        A diversidade produtiva é uma das principais marcas do extrativismo amazônico. Os dados do IBGE (2024) revelam que, embora produtos como açaí (229.938 t) e castanha-do-pará (33.422 t) liderem a produção regional, há uma ampla variedade de itens que compõem o mosaico dos sistemas produtivos locais — incluindo fibras, óleos vegetais, borrachas naturais, piaçava, babaçu, buriti e outros frutos nativos com grande potencial de uso na bioeconomia.

        Tabela 1 – Produção de produtos extrativos selecionados na Região Norte, 2024

        Madeira em tora8.080.566,0Metros cúbicos
        Lenha3.309.926,0Metros cúbicos
        Açaí (fruto)229.938,0Toneladas
        Carvão vegetal140.793,0Toneladas
        Castanha-do-pará33.422,0Toneladas
        Fibras5.355,0Toneladas
        Piaçava5.039,0Toneladas
        Palmito3.299,0Toneladas
        Pequi (fruto)3.074,0Toneladas
        Oleaginosos2.467,0Toneladas
        Borrachas1.549,0Toneladas
        Hevea (látex coagulado)1.532,0Toneladas
        Babaçu (amêndoa)1.296,0Toneladas
        Buriti297,0Toneladas
        Copaíba (óleo)290,0Toneladas
        Pequi (amêndoa)270,0Toneladas
        Cumaru (amêndoa)188,0Toneladas
        Ceras120,0Toneladas
        Castanha-de-caju53,0Toneladas
        Hevea (látex líquido)18,0Toneladas
        Mangaba (fruto)12,0Toneladas
        Aromáticos, medicinais, tóxicos e corantes1,0Toneladas
        Urucum (semente)1,0Toneladas
        Tucum (amêndoa)1,0Toneladas

        Fonte: IBGE – Produção da Extração Vegetal e Silvicultura (PEVS), 2024.

        Essa diversidade reflete a interdependência entre economia e ecossistema amazônico, pois cada produto extrativo está associado a um bioma específico, um ciclo ecológico e um saber tradicional distinto. O açaí, por exemplo, é o principal produto alimentar da região, com forte presença em mercados nacionais e internacionais, enquanto a castanha-do-pará constitui um dos pilares da renda comunitária em territórios ribeirinhos e indígenas.

        Além disso, produtos como copaíba, andiroba, buriti e cumaru apresentam crescente demanda nos setores cosmético e farmacêutico, sendo estratégicos para a consolidação da bioeconomia amazônica. Mesmo itens com menor volume, como o urucum e o tucum, possuem valor simbólico e potencial de uso em cadeias artesanais e de pigmentos naturais.

        Essa variedade evidencia que o extrativismo na Amazônia não é apenas uma atividade econômica, mas um modo de vida e de gestão ambiental coletiva, que contribui simultaneamente para a conservação da floresta e para o sustento de milhares de famílias. Assim, fortalecer esses sistemas produtivos exige políticas públicas que combinem inovação tecnológica, valorização cultural e acesso justo a mercados, promovendo uma transição efetiva “da floresta ao mercado”.

        3. Desafios e Oportunidades para os Sistemas Produtivos Locais na Amazônia

          A Amazônia é um território de paradoxos: possui uma das maiores biodiversidades do planeta, mas também enfrenta profundas desigualdades socioeconômicas e gargalos estruturais que dificultam a consolidação de sistemas produtivos locais sustentáveis. De acordo com Dias e Galina (2025), os negócios da floresta — em sua maioria, associações e cooperativas formadas por ribeirinhos, indígenas e extrativistas — representam alternativas concretas de desenvolvimento, pois combinam valorização da sociobiodiversidade com inclusão produtiva e conservação ambiental. No entanto, a ausência de infraestrutura adequada, o alto custo logístico e a concentração de valor nas etapas finais das cadeias produtivas ainda limitam o alcance econômico dessas iniciativas.

          Entre os principais desafios estruturais, destacam-se:

          • Infraestrutura e logística insuficientes, que elevam o custo de transporte dos produtos extrativos e reduzem sua competitividade nos mercados nacional e internacional;
          • Baixa capacidade de agregação de valor, já que a maior parte da produção é comercializada in natura, com pouca industrialização local;
          • Acesso limitado a crédito e assistência técnica, especialmente nas áreas rurais e fluviais;
          • Fragilidade institucional e ausência de políticas públicas contínuas voltadas à bioeconomia e à organização comunitária.

          Como observam Ossame et al. (2025), a bioeconomia amazônica surge como um caminho promissor para enfrentar esses desafios, ao propor a transformação sustentável dos recursos biológicos em produtos de maior valor agregado, como alimentos funcionais, cosméticos naturais e fitoterápicos. Essa abordagem favorece cadeias mais resilientes e reduz a dependência da exploração predatória, ampliando as oportunidades de mercado para comunidades locais.

          Leia também: Amazonas e o clima: impactos das mudanças globais

          Por outro lado, o relatório da Jornada Amazônia (2024) reforça que as cadeias produtivas amazônicas são complexas e fragmentadas, com baixo grau de integração entre os elos de produção, processamento e comercialização. A construção de uma cadeia de valor sustentável, portanto, requer arranjos interorganizacionais capazes de articular comunidades, governos e setor privado — promovendo inovação social, governança compartilhada e inclusão produtiva.

          Ainda que os obstáculos sejam significativos, há oportunidades estratégicas emergindo nesse cenário:

          • Expansão dos mercados verdes e éticos, que valorizam produtos certificados e de origem sustentável;
          • Integração digital e comércio eletrônico, que reduzem intermediários e ampliam o alcance de produtores locais;
          • Valorização dos saberes tradicionais, reconhecidos como ativos culturais e produtivos da sociobiodiversidade;
          • Iniciativas de financiamento climático e investimentos de impacto, que têm direcionado recursos para projetos de baixo carbono e negócios comunitários da floresta.

          Essas dinâmicas indicam que o futuro dos sistemas produtivos amazônicos dependerá da capacidade de conectar inovação tecnológica, justiça social e conservação ambiental. Assim, transformar o potencial da floresta em oportunidades de mercado sustentáveis exige repensar as políticas públicas, os instrumentos de fomento e os modelos de governança regional — colocando as comunidades tradicionais no centro da estratégia de desenvolvimento da bioeconomia.

          4. Considerações finais

            Os sistemas produtivos locais da Amazônia enfrentam o desafio de conciliar conservação ambiental e desenvolvimento econômico em um território marcado por desigualdades estruturais e baixa capacidade de agregação de valor. As cadeias extrativistas, formadas majoritariamente por cooperativas e comunidades tradicionais, ainda sofrem com limitações logísticas, falta de crédito e infraestrutura, além de políticas públicas fragmentadas. No entanto, estudos recentes apontam que a bioeconomia amazônica representa uma oportunidade estratégica para transformar produtos tradicionais — como o açaí, a castanha-do-pará e os óleos vegetais — em bens de alto valor agregado, fortalecendo cadeias de valor sustentáveis e gerando inclusão social. Essa transição, entretanto, exige inovação tecnológica, governança compartilhada e integração entre comunidades, governos e setor privado, de modo que o potencial da floresta seja convertido em riqueza distribuída e sustentável, sem romper o vínculo histórico e cultural das populações amazônicas com seus territórios

            Referências

            DIAS, Sylmara Lopes Francelino Gonçalves; GALINA, Simone Vasconcelos Ribeiro. Negócios da (na) floresta amazônica: desafios e oportunidades da sustentabilidade na cadeia de valor. Cadernos Gestão Pública e Cidadania, v. 30, e93339, São Paulo: FGV EAESP, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.12660/cgpc.v30.93339.

            OSSAME, Reinaldo Dias; EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Bioeconomia, inclusão social e sustentabilidade: caminhos para uma transição verde e justa. RECIMA21 – Revista Científica Multidisciplinar, v. 6, n. 3, p. e636303, 2025. Disponível em: https://recima21.com.br/index.php/recima21/article/view/6303.

            JORNADA AMAZÔNIA. A complexidade da cadeia produtiva na Amazônia: os desafios e potenciais de uma bioeconomia inclusiva. Relatório técnico, 2024. Disponível em: https://jornadaamazonia.org.br.

            Com a colaboração de:

            Prof. Dr, Yunier Sarmiento Ramírez possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade do Estado do Amazonas, mestrado em Gestão de Empresas pela Universidad de Holguín – Cuba e doutorado em Economia pela Universidade Federal de Rio Grande do Sul. Atualmente é professor da Universidade Federal do Amazonas no Departamento de Economia e Análise – DEA e no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia – PPGSS. Desenvolve pesquisas na área de Economia aplicada, teoria econômica e métodos quantitativos

            Sobre o autor

            Prof. Dr, José Barbosa Filho possui graduação em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal do Ceará (1989), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Ceará (1992) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005). Atualmente é professor Titular da Universidade Federal do Amazonas. Desenvolve pesquisas na área de Contabilidade Ambiental, Matemática Financeira e Econometria, com ênfase em Gestão Ambiental, atuando principalmente nas seguintes áreas: valoração ambiental, desenvolvimento sustentável, avaliação de impactos ambientais e gerenciamento de processos.

            Contato: jbarbosa@ufam.edu.br

            *O conteúdo é de responsabilidade do colunista

            A cidade Manaus pelo olhar do escritor imortal da ABL, Milton Hatoum

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            Em comemoração aos 356 anos de Manaus, o autor fala sobre a sua relação com a cidade natal. Foto: Hamyle Nobre/Menina Miúda Producões Artísticas

            Com uma população estimada de 2.303.722 pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística (IBGE). Esses milhões de rostos que dão vida à capital amazonense são objeto de estudo e de escrita do mais recente imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Milton Hatoum. Em comemoração aos 356 anos de Manaus, o autor fala sobre a sua relação com a cidade natal.

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            cidade Manaus
            Cidade de Manaus. Foto: Divulgação

            Entre as várias profissões de Milton, ele se destaca como escritor, professor e tradutor. Publicou oito livros, dos quais quatro são ambientados em Manaus:

            • Relato de um certo oriente (1989)
            • Dois irmãos (2000)
            • Cinzas do Norte (2005)
            • Órfãos do Eldorado (2008)

            De postura carismática e com seu caráter observador, Milton contou um pouco sobre as memórias de infância e a preocupação com a situação atual de Manaus. Confira a entrevista na íntegra.

            Leia também: 10 lugares reais em Manaus descritos nas obras de Milton Hatoum

            Escritor Milton Hatoum — Foto: Wanezza Soares/Divulgação

            Há quanto tempo o senhor se mudou de Manaus?

            Milton: “Faz uns 25, 26 anos.”

            Tem algum motivo específico?

            Milton: Eu vim para terminar um doutorado na USP e acabei me casando aqui em São Paulo, com uma pessoa daqui e aqui fiquei. E eu também queria escrever. Queria mais tempo para meu trabalho de escritor. Aí, infelizmente, tive que me desligar da Ufam e viver da minha pena, dos meus escritos. Foi quando eu terminei o ‘Dois Irmãos’, aqui em São Paulo. Isso foi em 1999, 2000, por aí. Mas eu sempre volto para Manaus quando posso.

            E por que é que o senhor volta?

            Milton: Por uma questão muito simples. Eu tenho minha irmã, tia, primos, tenho minha família, da qual uma parte mora em Manaus. Aliás, toda minha família amazônica mora em Manaus. E eu, enfim, já não tenho muitos amigos (daí), mas tem os espaços da minha infância, tem o rio Negro, que foi um dos grandes acontecimentos da minha vida. Ainda é. Então eu sinto muita saudade de tudo isso. Embora essa Manaus de hoje seja muito diferente da Manaus da minha juventude.”

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            Escritor Milton Hatoum — Foto: Divulgação

            Diferente em que sentido?

            Milton: Olha, Manaus nos anos 1960, década do século passado, era uma cidade relativamente pequena e calma, que tinha uma relação muito harmônica com a natureza, sabe? Os rios, os igarapés, os banhos, que eram o nosso lazer principal. Ah, era uma cidade com pouquíssima violência. Não era uma cidade hostil.

            E depois a cidade, a partir dos anos 1970, cresceu de uma forma desordenada, caótica. Não houve planejamento para esse crescimento brusco ou abrupto. E o acumulado foi dando problemas durante essas décadas. Hoje Manaus é uma cidade complicada.

            Você sabe, é complicada do ponto de vista da mobilidade urbana. É uma cidade que não é arborizada, o que é, vamos dizer, um contrassenso. Uma cidade de clima quente e úmido não ser arborizada? Quer dizer, uma cidade praticamente sem calçadas, sem lugar para a gente caminhar, e o ideal seria caminhar na sombra. Fora os problemas mais graves, como o saneamento urbano na periferia. Falta saneamento adequado para uma parte considerável da população. A violência também, claro.

            Acho que tudo isso fez da minha cidade um lugar um pouco hostil, muito diferente daquela cidade da qual todos da minha geração se lembram muito bem. Que era uma cidade belíssima. E muita coisa foi destruída. E a gente precisa evitar isso, não é? Precisa-se revitalizar o Centro de Manaus, e fazer uma coisa inteligente. Por exemplo, limitar a circulação de automóveis em alguns pontos do Centro da cidade. Talvez fazer calçadões. É preciso humanizar a cidade, sabe? E é isso que eu espero dos administradores da minha cidade, humanizá-la.

            As capas dos livros de Minton Hatoum. Imagem: reprodução/Portal Amazônia

            Eu acho muito interessante como o senhor utiliza sempre o pronome possessivo, “minha cidade”, mesmo morando há mais de 20 anos fora daqui. O senhor pode falar um pouco mais sobre isso?

            Milton: Eu nasci em Manaus. É a minha cidade. Não tenho outra. Quer dizer, eu gosto de tantas outras onde morei, no Brasil e no exterior. Mas a cidade da infância é, na verdade, a nossa cidade, do ponto de vista afetivo e simbólico. Então, é a cidade onde eu me sinto em casa. Mas a minha casa foi muito maltratada nessas últimas décadas. Eu não falo desse ou daquele administrador ou prefeito. Eu acho que de um modo geral foi maltratada.

            Acho que é preciso formar uma equipe inteligente, que tenha amor pela cidade e pense no planejamento urbano, em estratégias urbanas e arquitetônicas, que humanizem a cidade. Que tornem a cidade um espaço de convívio. Isto acho fundamental. Mas não é só Manaus que é assim. Há tantas outras cidades complicadas no Brasil todo. Assim como Manaus, às vezes vou para o interior de São Paulo e vejo poucas árvores, e me pergunto: por que os prefeitos não arborizam suas cidades? O mundo todo está fazendo isso.

            E no caso de Manaus e das outras capitais da Amazônia, elas são de uma região de clima equatorial. Então é mais um motivo para a gente pensar nas áreas de sombra e de conforto térmico. Eu até falei disso em alguns romances, como ‘Dois Irmãos’, ‘Cinzas do Norte’, que eu acho que têm um pouco da decadência da cidade e da destruição de seu Centro Histórico. O que é um absurdo.

            Qual a sua mensagem para o aniversário de Manaus? Mesmo com todos os problemas e questões daqui, por que escrever e por que sentir Manaus?

            Milton: Eu escrevi quatro romances ambientados em Manaus e alguns contos. Por que fiz isso? Porque todo escritor e toda escritora, de algum modo, escrevem sobre a sua infância e a sua juventude. E a memória desempenha um papel fundamental nisso. Mesmo ausente de Manaus, estou sempre voltando à cidade onde nasci.

            *Com informação do g1 AM — Manaus. Escrito Por João Santana, sob supervisão de Jacqueline Nascimento.

            Expedição científica reúne pesquisadores de todo o Brasil e pode revelar espécies inéditas na Amazônia

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            Bolsista indígena Adão Galvão em campo. Foto: Divulgação/Projeto Tsiino Hiiwiida

            A primeira expedição científica do projeto ‘Tsiino Hiiwiida: revelando múltiplas dimensões da biodiversidade de plantas e fungos no Alto Rio Negro’, realizada no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, resultou na coleta de cerca de mil amostras e na identificação de possíveis novas espécies da flora amazônica.

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            Vinculado à iniciativa Amazônia +10 e com coordenadoria geral do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Charles Eugene Zartman, a expedição aconteceu em 16 dias e contou com três acampamentos, divididos em dois grupos de  pesquisadores,  bolsistas indígenas, além de parceiros da 2ª Brigada de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro no município de São Gabriel da Cachoeira.

            Desafios e descobertas da expedição

            Charles Zartman (coordenador) e Roberto Galvão com a possível espécie nova. Divulgação/Projeto Tsiino Hiiwiida

            Após a definição dos locais de coleta, da logística e do protocolo de segurança com a oficina da expedição, os pesquisadores se dividiram para cobrir diferentes áreas que alcançam até 600 metros de altura, na região cercada pela rica diversidade biológica.

            O primeiro grupo de coletas seguiu para a comunidade indígena Itacoatiara Mirim, na BR-307 e na localidade conhecida como Ilha do Açaí.

            “O objetivo principal desse grupo terrestre liderado pelo Prof. Dr. Clístenes Williams Araújo do Nascimento (UFRPE) foi investigar plantas acumuladoras de metais pesados e outros elementos incomuns”, comentou o coordenador geral do projeto de pesquisa. 

            O segundo grupo foi em direção à Serra do Curicuriari, conhecida popularmente como Serra da Bela Adormecida.

            Leia também: Bela Adormecida da Amazônia: a serra amazonense que parece pintura

            Apoio do exército. Foto: Divulgação/Projeto Tsiino Hiiwiida

            “Esse grupo foi composto por oito membros, e teve o apoio de três bolsistas  da comunidade indígena São Jorge que passaram um total de oito dias em dois acampamentos, ambos nas cabeceiras do igarapé Arabo. A equipe acampou em dois locais diferentes para ampliar o número de localidades amostradas, podendo gerar uma maior diversidade de plantas catalogadas”, detalhou o pesquisador do Inpa.

            De acordo com Zartman, foram realizadas coletas em florestas de terra firme, baixios, campinaranas, áreas de afloramentos rochosos e vegetações ripárias. Com o período de permanência foram coletadas cerca de mil amostras de fungos, líquens, e plantas, dentre elas: briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas, nas formas de vida terrícola, epífita e saprófita.

            “As coletas, que estão atualmente na fase de secagem, triagem (herborização) e identificação já apresentam algumas possíveis espécies novas como, por exemplo, uma espécie de árvore emergente com parentesco com o uchi (Humiriaceae), além de outras coletas de plantas raras como um exemplar do gênero Zamia, uma planta de sub-bosque representante das Gimnospermas, grupo de plantas parentes dos pinheiros e araucárias”, revelou o coordenador geral do projeto.

            Oficina com a comunidade. Foto: Divulgação/Projeto Tsiino Hiiwiida

            Interação com as comunidades

            Para o pesquisador, o sucesso da expedição do projeto “Tsiino Hiiwiida” também se deve à participação direta das comunidades, como um componente fundamental da parceria.

            “O projeto Tsiino Hiiwiida, possui todas as licenças e anuências dos órgãos, associações, e das comunidades, para a realização da pesquisa. As comunidades indígenas são parceiras diretas do projeto, contando atualmente com seis bolsistas indígenas que desenvolvem atividades de campo e recebem treinamento dos pesquisadores, além de possibilitar uma troca intensa de conhecimentos locais sobre a diversidade de plantas regionais e técnicas de coleta e documentação da biodiversidade”, completou.

            A viagem aconteceu entre 19 de julho e 02 de agosto e contou com a participação de pesquisadores do Inpa, além de especialistas:

            • do Instituto Federal do Amazonas (Ifam – São Gabriel da Cachoeira),
            • da Universidade Federal do Amazonas (Ufam),
            • do Instituto Federal do Maranhão (IFMA-São João dos Patos),
            • do Instituto Federal do Tocantins (IFTO),
            • da Universidade de Brasília (UnB),
            • da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),
            • do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA – SP),
            • do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ),
            • da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
            • e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)

            Também contou com parceiros de outras localidades do Brasil e da expertise da logística da 2ª Brigada de Infantaria de Selva no município de São Gabriel da Cachoeira.

            Sobre a iniciativa Amazônia +10

            O projeto ‘Tsiino Hiiwiida: revelando múltiplas dimensões da biodiversidade de plantas e fungos no Alto Rio Negro’ foi um dos 20 projetos de pesquisa selecionados no edital Expedições Científicas, lançado em novembro de 2023 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). 

            Ao todo, são 77 grupos de pesquisadores vinculados a 18 diferentes Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), além das agências estrangeiras UK Research and Innovation (UKRI) do Reino Unido, e Swiss National Science Foundation (SNSF), da Suíça.

            *Com informações do INPA

            Artista usa aquarela para registrar aves que observa na Amazônia

            Foto: Reprodução/Amazon Sat

            Na Amazônia, entre as atividades em meio à natureza buscados por pesquisadores, ou até mesmo curiosos, está o birdwatching, a ação de observar as aves. Regiane Marques é uma artista e observadora de pássaros da etnia indígena Mura, no Amazonas, que usa da aquarela para retratar as aves que sua visão captura.

            Leia também: Observação de aves: uma janela da Amazônia para o mundo

            De acordo com Regiane, a aquarela é um método antigo, que utiliza da água para tonificar a tinta, e é bastante utilizada pelos observadores da natureza e artistas que gostam de retratar a fauna.

            Artista usa aquarela para registrar aves que observa na Amazônia
            Foto: Reprodução/Amazon Sat

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            Aquarela educativa

            No programa Amazônia Animal, do canal Amazon Sat, o biólogo Rodrigo Hidalgo conversou com Regiane sobre a prática de observação das aves e como é o processo de encontrá-las.

            “É maravilhoso, você se apropria do conhecimento da importância que os pássaros tem para a ecologia e ajuda no fortalecimento cultural”, afirma Regiane.

            Confira:

            Gente do Norte Empresas: saiba quem é João Gonçalves

            Gente do Norte Empresas: João Gonçalves. Foto: Reprodução/Amazon Sat

            João Gonçalves é o CEO e fundador do grupo de supermercados Irmãos Gonçalves, a maior rede de mercados de Rondônia, que conta também com o IG Shopping Porto Velho, IG Shopping Ariquemes, IG Shopping Ji-Paraná e o IG Centro Comercial em Rolim de Moura.

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            Em Jaru (RO), o Grupo conta com o maior frigorífico do estado e um dos maiores frigoríficos da Região Norte, o FRIGON, criando mais de 7 mil empregos diretos. Segundo o empresário, o que é arrecadado é aplicado no próprio estado, gerando mais riqueza e economia para os rondonienses.

            João é natural de Monte Belo, em Minas Gerais, onde viveu grande parte da sua vida. Era agricultor e cuidava do sítio de sua família, mas sempre teve o desejo de abrir seu próprio comércio e empreender, desejo este que concretizou na Amazônia.

            Veja também: Gente do Norte Empresas: saiba quem é Rosa Maia

            Gente do Norte Empresas: saiba quem é João Gonçalves
            Gente do Norte Empresas. Foto: Reprodução/ Amazon Sat

            Em 1975, em suas pesquisas para achar uma cidade para começar sua vida comercial, João se encantou pela cidade de Jaru, em Rondônia. Desde então, iniciou as construções do Grupo. O CEO analisou o estado de Rondônia como uma terra oportuna de logística, já que suas rodovias estão interligadas com várias partes do Brasil.

            O empresário é um dos convidados do programa Gente do Norte – Empresas, no Amazon Sat:

            Pesquisa identifica potencial de resíduos de frutos oleaginosos amazônicos na redução do colesterol

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            A pesquisa utiliza resíduos de andiroba, murumuru, tucumã e castanha-do-brasil, fornecidos por uma empresa de Ananindeua. Foto: Reprodução/IFMA

            Resíduos de frutos oleaginosos da Amazônia, normalmente descartados após a extração de óleo, apresentaram potencial para reduzir o colesterol hepático e agir como antioxidantes, segundo resultados preliminares de uma pesquisa conduzida por um grupo de pesquisadores do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e do Instituto Butantan.

            O estudo utiliza resíduos de andiroba, murumuru, tucumã e castanha-do-brasil, fornecidos por uma empresa de Ananindeua (PA), que atua no setor de extração de óleos e gorduras vegetais.

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            Pesquisa identifica potencial de resíduos de frutos oleaginosos amazônicos
            Resíduos de frutos oleaginosos da Amazônia, normalmente descartados após a extração de óleo, apresentaram potencial para reduzir o colesterol. Foto: Reprodução/IFMA

            A pesquisa conta com a participação do professor do IFMA Campus Zé Doca, Marcelo Rodrigues Marques, nutricionista, doutor em Ciências e coordenador do Grupo de Inovação e Pesquisa em Alimentos e Nutrição (GIPAN). A investigação é conduzida ainda pela professora Luiza Helena da Silva Martins, Tecnóloga em Alimentos com doutorado em Engenharia Química; pelo professor Gustavo Fontanari, Nutricionista com doutorado em Ciência e tecnologia de Alimentos; e pelo pesquisador Daniel Carvalho Pimenta, Biomédico com doutorado em bioquímica.

            Leia também: Resíduos de frutos amazônicos ricos em vitamina A servem de compostos para produção de corante natural

            De acordo com o pesquisador do IFMA, as proteínas isoladas desses resíduos foram capazes de inibir a enzima responsável pela síntese do colesterol no fígado, além de apresentar atividade antioxidante.

            “Os resultados mais promissores em relação à redução do colesterol vieram da andiroba, do murumuru e da castanha-do-brasil, enquanto o tucumã se destacou pela ação antioxidante”, afirma Marques.

            Os resíduos analisados são subprodutos gerados após a extração a frio do óleo que são direcionados e exportados para indústrias de cosméticos. Foto: Reprodução/IFMA

            Os resíduos analisados são subprodutos gerados após a extração a frio do óleo que são direcionados e exportados para indústrias de cosméticos. Atualmente, a biomassa é descartada no meio ambiente ou reaproveitada por pequenos produtores como adubo e ração.

            Leia também: Frutos amazônicos são testados no controle de doenças crônicas não transmissíveis

            A equipe agora trabalha na identificação das moléculas responsáveis pelos efeitos observados, tarefa que será conduzida nos próximos meses pelo Instituto Butantan.

            “Sabemos que há a atuação de peptídeos e compostos fenólicos, mas queremos entender de forma mais precisa como essas substâncias interagem”, explica o professor. A previsão é que os resultados sirvam de base para publicações científicas e possíveis registros de patentes.

            A equipe agora trabalha na identificação das moléculas responsáveis pelos efeitos observados, tarefa que será conduzida nos próximos meses pelo Instituto Butantan. Foto: Reprodução/IFMA

            Além dos experimentos, o professor Dr. Marcelo Marques também ministrou o curso “Uso de técnicas espectrofotométricas e de fluorescência para avaliação de moléculas bioativas” a estudantes da UFRA, fortalecendo a cooperação acadêmica e a formação de novos pesquisadores na área.

            Leia também: Fipo Biopellet: startup amazonense transforma resíduos de frutos da floresta em bioplásticos de alta performance

            Segundo o docente, o aproveitamento desses resíduos pode gerar impacto econômico e social na região amazônica. “A valorização de subprodutos pode estimular o cultivo de frutos nativos, abrir novas cadeias produtivas e criar oportunidades de renda sustentável para comunidades locais”, afirma.

            Estudo de grupo de pesquisa envolvendo o IFMA, UFRA e Instituto Butantan. Foto: Reprodução/IFMA

            A pesquisa tem apoio da Fapespa (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará), da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e do CNPq. Já os resíduos são fornecidos pela Amazon Oil.

            Leia também: Guaraná e Copaíba: conheça os frutos que são os olhos da Amazônia

            *Com informação do Instituto Federal do Maranhão (IFMA)

            25% das mortes infantis no mundo estão ligadas à poluição do ar, alerta relatório

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            O estudo mostra que, todos os anos, centenas de milhares de crianças morrem devido à poluição. Foto: Divulgação

            Um novo relatório da Zero Carbon Analytics revela o impacto letal da poluição do ar sobre crianças ao redor do mundo, com efeitos especialmente graves nos países em desenvolvimento. Baseado em dados do Global Burden of Disease (GBD), o estudo mostra que, todos os anos, centenas de milhares de crianças morrem devido à poluição, enquanto milhões sobrevivem com danos permanentes à saúde. Esses efeitos são intensificados por vulnerabilidades econômicas e barreiras estruturais, como infraestrutura precária, práticas insustentáveis de uso do solo e dependência de combustíveis fósseis.

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            “A poluição do ar é uma agressão invisível que corrói silenciosamente o futuro das crianças”, alerta o pneumologista brasileiro Felipe Saddy. “Partículas, gases tóxicos e oxidantes inflamam seus pulmões, comprometem o desenvolvimento pulmonar, aumentam o risco de infecções e agravam a asma. Na gestação, o ar poluído ameaça o feto, elevando riscos de parto prematuro e baixo peso ao nascer”.

            25% das mortes de crianças no mundo estão ligadas à poluição do ar
            Poluição em Manaus. Foto. Filipe Jazz/TCE-AM

            O levantamento

            Segundo o levantamento intitulado “Structural dependencies perpetuate disproportionate childhood health burden from air pollution” (“Dependências estruturais perpetuam o fardo desproporcional da poluição do ar sobre a saúde infantil”), mais de 25% das mortes de crianças menores de cinco anos no mundo estão relacionadas à poluição do ar, e crianças morrem em taxas até seis vezes maiores que adultos por causa da exposição.

            A poluição começa a afetar ainda no útero e pode causar doenças crônicas ao longo da vida. As comunidades mais pobres são as mais impactadas, devido a vulnerabilidades estruturais e dependências econômicas de combustíveis fósseis.

            Tanto a poluição atmosférica externa quanto a doméstica causam sérios danos à saúde pública — provocando doenças crônicas e cardiovasculares, problemas respiratórios, câncer e até déficits cognitivos. Para ilustrar isso, o relatório analisa quatro estudos de caso: África do Sul, Brasil, Nigéria e Bangladesh e identifica fontes de poluição como geração de energia a carvão, incêndios florestais, cozinhas domésticas com combustíveis sólidos, emissões industriais e tráfego urbano.

            Poluição no Estado do Acre. Foto: Andryo Amaral/Rede Amazônica AC

            O Brasil

            No Brasil, em 2021, quase 1.600 crianças morreram por causas ligadas à poluição do ar — quase quatro crianças menores de cinco anos por dia. A poluição externa, causada por incêndios florestais e queima de biomassa, é um dos principais fatores. Incêndios são uma emergência recorrente de saúde pública: na Amazônia e regiões centrais, 60% da população está exposta a níveis inseguros de poluição do ar, com crianças pequenas e idosos sendo os mais afetados.

            Secas impulsionadas pelas mudanças climáticas, somadas a práticas insustentáveis de uso da terra — principalmente desmatamento e queima de biomassa ligados à produção de carne bovina e soja — prolongam a temporada de incêndios e aumentam sua intensidade. A fumaça de queimadas percorre centenas de quilômetros, das áreas rurais da Amazônia até grandes cidades como São Paulo, provocando picos de doenças respiratórias e cardiovasculares.

            Durante a temporada de incêndios de 2024, as internações por doenças respiratórias aumentaram 27,6% em todo o Brasil em relação a 2023, elevando o custo do atendimento em aproximadamente US$ 2,2 milhões. Em São Paulo, o número de crianças hospitalizadas por doenças respiratórias aumentou cerca de 77% em setembro de 2024.

            imagem colorida mostra fumaça geradas por queimadas cobrindo a cidade de manaus em 2023
            Poluição em Manaus. Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM

            Além dos danos respiratórios, os incêndios florestais representam riscos graves à saúde pré-natal e ao desenvolvimento infantil. A exposição materna à fumaça durante a gestação aumenta a probabilidade de parto prematuro em 41% no Sudeste e 5% no Norte, e de baixo peso ao nascer em mais de 18% no Sul.

            A exposição a PM10 e monóxido de carbono também está associada a menores pesos ao nascer em São Paulo, além de aumentar as chances de defeitos congênitos, como anomalias respiratórias e do sistema nervoso. Em crianças em idade escolar, níveis elevados de PM2,5 e NO₂ prejudicam o desempenho acadêmico, sendo que alunos de escolas públicas são mais expostos do que os de escolas privadas, devido à proximidade com rodovias e áreas de incêndio.

            O relatório alerta que esses impactos na saúde infantil são consequências diretas de um modelo de exportação baseado na conversão de terras para agricultura industrial, em que os preços das commodities raramente refletem os danos à saúde e ao clima nas regiões produtoras. Dentre as soluções estão padrões rigorosos de produção livre de desmatamento, rastreabilidade completa das cadeias produtivas e financiamento climático internacional, que apoiem a produção sustentável e a proteção das florestas.

            “As crianças nos países mais pobres enfrentam taxas de mortalidade por poluição do ar até 94 vezes maiores do que nas nações ricas. Isso não é apenas uma questão ambiental — é uma questão de justiça. As mais jovens e vulneráveis estão pagando o preço por sistemas que não criaram. Romper esse ciclo exige ação global e transição para energia limpa, e não a continuidade de subsídios aos combustíveis fósseis”, alerta Joanne Bentley-McKune, pesquisadora principal do relatório.

            *Com informação da Zero Carbon Analytics

            Aleam aprova Projeto de Lei Complementar que atualiza valores de isenção do ITCMD

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            Foto: Danilo Mello/Aleam

            Por unanimidade, os deputados da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) aprovaram, no dia 21 de outubro, o Projeto de Lei Complementar (PLC) nº 9/2025, encaminhado por meio da Mensagem Governamental nº 98/2025. A proposta altera a Lei Complementar nº 19/1997, que institui o Código Tributário do Estado do Amazonas, atualizando os valores de isenção do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD).

            O presidente da Aleam, deputado Roberto Cidade (União Brasil), destacou que a atualização dos valores representa uma medida de justiça fiscal e sensibilidade social.

            “Elevar o limite de isenção para heranças de até R$ 1 milhão é modernizar a legislação e tornar os processos de doação e sucessão mais simples e equilibrados. Essa decisão demonstra o compromisso da Assembleia Legislativa em proteger o patrimônio das famílias amazonenses e garantir uma tributação mais justa e adequada à realidade atual”, afirmou o parlamentar.

            Leia também: Aleam aprova projetos que reforçam proteção infantojuvenil e valorizam a cultura

            Mudanças no ITCMD

            Entre as principais alterações no Código Tributário do Estado, o texto estabelece que, a partir de 2026, heranças de até R$ 1 milhão estarão isentas do imposto — atualmente o limite é de R$ 400 mil.

            Outra mudança que beneficia a população diz respeito às doações em vida, cujo limite de isenção passará de R$ 50 mil para R$ 150 mil por ano, por pessoa beneficiada. Além disso, imóveis de até R$ 1 milhão poderão ser doados em vida, a cada cinco anos, também por pessoa beneficiada, sem cobrança do imposto.

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            De acordo com a Mensagem Governamental nº 98/2025, a ampliação dos limites de isenção e a consequente redução da carga tributária contribuem para a proteção do patrimônio das famílias, facilitando processos de sucessão e doação. A medida promove mais justiça fiscal e reduz o peso dos tributos em momentos de reorganização patrimonial.

            A proposta tem caráter social relevante, ao assegurar que a transmissão de bens e direitos ocorra de forma menos onerosa, especialmente para famílias de classe média e de menor renda no Amazonas.

            Portal Amazônia responde: o que é banho de cheiro?

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            Mercado Ver-o-Peso dispõe de dezenas de fragrâncias para todos os dias de problemas ou situações de vida. Foto: Paula Lourinho/Agência Belém

            Você, amazônida, com certeza já recorreu ao banho de cheiro para renovar as energias, afastar a negatividade e atrair coisas boas. Essa prática, uma espécie de água misturada com algumas folhas, ervas e perfumes naturais, é uma tradição nos estados da região amazônica e vista como uma forma de proteção à alma e purificação da espiritualidade.

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            Mas, afinal, o que é o banho de cheiro? O que isso significa? De onde vem esse ritual? O Portal Amazônia conversou com Glacy Ane Araújo de Souza, doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), para explicar tudo sobre essa prática oriunda dos povos originários e até hoje se faz presente no cotidiano regional.

            O que é banho de cheiro?

            De acordo com Glacy, o banho de cheiro é uma prática centenária que consiste num ritual cultural, espiritual e medicinal feita com ervas, flores e perfumes naturais, visando a pureza, o cuidado e a conexão espiritual.

            “Trata-se da manipulação de ervas aromáticas da região amazônica, por vezes até essências cheirosas, que visam o equilíbrio espiritual e energético das pessoas. O banho de cheiro é uma prática popular muito comum nos terreiros de religiões de matriz africana, bem como no interior da Amazônia, em que se costuma realizar os banhos para proteção ou ainda para chamar espíritos”, explica a antropóloga.

            Origem

            A doutora detalha que o banho de cheiro surgiu na região amazônica, especialmente no Pará, e sua origem se remete ao conhecimento dos povos originários e de origem africana e a mescla com as influências trazidas pelos portugueses.

            “Os povos originários e de origem africana sempre praticaram o banho de cheiro em seus rituais de religiosidades e crenças ancestrais. No Pará, bem como em outros Estados da Amazônia, essa tradição se somou ao conhecimento do colonizador português entre os séculos XVIII e XIX na conjunção de novas ervas e aquelas provenientes da floresta. Dessa forma, o banho de cheiro assume uma prática local de proteção e equilíbrio”, conta a antropóloga.

            Leia Mais: Aroma do Pará: perfumes tradicionais que atraem amor, sorte e dinheiro

            No Mercado Ver-o-Peso, em Belém, os banhos de cheiro são uma tradição no espaço público, com dezenas de erveiras oferecendo potes de vidros com inúmeros desejos para quem visita o local. Os pedidos são dos mais diversos: “Chama Dinheiro”, “Amansa Corno”, Afasta Chifre” e “Pega Rapariga” são alguns dos exemplos dessas fragrâncias.

            Como se prepara o banho de cheiro?

            A preparação do banho de cheiro começa com a seleção das ervas. As erveiras, como são popularmente conhecidas, são as mulheres responsáveis pela produção do banho e que possuem amplo conhecimento sobre plantas, cascas e raízes medicinais da flora amazônica. Elas selecionam e colocam as ervas para maceração, que é o ato de deixar os ingredientes de molho em água ou líquido aromático para liberar seus sucos e aromas.

            “Antes do preparo do banho de cheiro, a erveira costuma se preparar espiritualmente, principalmente na evitação do álcool e cigarro. Grande conhecedora na manipulação das plantas energéticas, ela seleciona as ervas aromáticas que serão utilizadas e costuma macerar as folhas em água limpa. Lembrando que há ervas que precisam ser fervidas em seu preparo, depois se coa o banho e armazena em potes de barro”, explica Glacy.

            erveira prepara banho de cheiro em Belém
            Erveira no Mercado Ver-o-Peso. Foto: Paula Lourinho/Agência Belém

            Tipos de ervas

            A antropóloga reforça que as ervas são selecionadas conforme a necessidade ou situações de vida: atrair prosperidade, afastar energias negativas, proteção espiritual, dentre outras.

            “O banho de cheiro possui algumas variações na Amazônia e também atendem a situações da vida como amarração de casais, lavagem da cabeça para o preparo espiritual ou mesmo banho atrativo e de proteção. E para cada uma dessas situações, são usadas ervas diferenciadas para o propósito a que se destina espiritualmente”, salienta.

            Ervas são os elementos principais de um banho de cheiro. Foto: Reprodução/Agência Belém

            Algumas das principais ervas indicadas para o banho de cheiro, segundo Glacy, sao:

            • Chega-te a mim
            • Manjericão
            • Vindicá
            • Patchouli
            • Arruda
            • Alfazema

            Simbologia

            O banho de cheiro representa uma tradição bem forte na região Norte do Brasil. Em Belém, no Pará, a prática é comum durante o Círio de Nazaré e nas festas juninas.

            Relembre: Dicas de Beth Cheirosinha diretamente de Belém

            Nas religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, os banhos servem de conexão com os orixás e a purificação da espiritualidade. Entre os povos indígenas, as ervas são usadas para a ligação com o mundo natural, seus deuses e os fenômenos da natureza.

            “De modo geral, o banho de cheiro carrega a ancestralidade dos povos da Amazônia e produz uma conexão espiritual associada à Natureza. Ele reflete a energia ancestral passada de geração em geração e a sabedoria dos mais velhos até os dias de hoje”, finalizou Gracy, que desde 2001 trabalha com temas relacionadas à afrorreligiosidades, magia, povos e comunidades tradicionais.

            *Por Dayson Valente, para o Portal Amazônia