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Memórias sobre o Dia de Finados

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Foto: Camila Henriques/Acervo g1 Amazonas

Não sei vocês, mas o dia de finados, na minha época de criança, era um evento. Minha mãe, católica atuante, preparava tudo um dia antes do dia do finados. Ela mandava limpar e pintar os túmulos. Comprava velas e se preparava para comprar flores próximo da entrada do cemitério. 

Nos jornais, anunciava-se como seria o trânsito, pois haveria engarrafamento e era difícil estacionar. O prefeito mandava pintar e limpar o cemitério. Estava escrito no jornal como o cemitério estaria sendo preparado para receber a população. O cemitério era lotado. Tinha polícia e todos os tipos de controle para deixar a coisa ordenada. 

Na entrada havia uma corda separando o povo que entrava e o povo que saia. Era muita gente lá, era verdadeiro encontro de amigos. Meus pais encontravam parceiros e trocavam ideia. Conversavam relativamente baixo, pois era um lugar de respeito e lembrança. Na praça Chile, em frente do cemitério São João Batista, colocavam palanque onde tinha missa e até a banda da polícia tocava em um horário preestabelecido. 

No cemitério, nós íamos aos túmulos de tias e avós. Na frente do tumulo orávamos e cada um dos filhos colocava uma vela acesa (somos quatro). Ainda tinha, não lembro bem, mas era um túmulo ou só um monumento de uma pessoa e todos ainda antes de sair visitavam aquele local, oravam, colocavam vela e saiam. 

O cemitério era quente. A caminhada lá dava para suar. Mas era interessante que nas sombras daquelas inúmeras mangueiras era agradável. Depois vinha uma chuva, às vezes torrencial. Anunciava-se assim, o início do tempo de chuva.

Lembro-me que quando bem pequeno eu observei que no cemitério era cheio de casinha e tinha escrito nas suas frentes a palavra Jazigo. Fui motivo de sarro porque falei para minha mãe que a família Jazigo era imensa, pois o cemitério estava cheio deles.

O cemitério era lugar de respeito e de certo modo amedrontador para nós. Meus irmãos treinavam voleibol no Olímpico Clube, que fica no fim do Boulevard Amazonas. Nos morávamos em Adrianópolis, na Rua Belém. A rua ia da praça Chile (frente ao cemitério) para Cachoeirinha. Então voltávamos do trieno cerca de nove ou dez horas da noite. Na frente do cemitério passávamos correndo para que nós não fossemos mais uma vítima de lendas urbanas.

Depois do cemitério era hora de brincar. Se desse íamos para o Guanabara tomar banho no Mindú. Lá encontrava nossa turma e jogávamos futebol enquanto meu pai jogava voleibol. No vôlei praticamente tinha dois times: um time que meu pai jogava e no outro lado o Milton Nogueira Marques montava. Sempre foi assim Milton x Edgar. Os dois eram grandes amigos, mas no jogo o pau cantava. Era divertida a discussão entre os dois, se um tocou na rede ou não.

Milton era dono do Cartório Nogueira. Manaus inteira ia para lá assinar acordos etc. Uma figura baixa e magra, mas extremamente simpático. Aberto as conversas e atencioso com os filhos dos amigos. Seu filho Pedro foi conosco para os Estados Unidos. Era uma pessoa muito legal que de um minuto para outro mudou muito quando foi abatido por uma tragédia familiar. Daí seu Milton praticamente sumiu.

Lembro-me uma vez que minha mãe tinha colocado unhas postiças. Era a moda, muito caro e difícil de conseguir em Manaus. Esta unha caiu no campo de areia de futebol. Minha mãe chamou o meu pai e pediu para procurar sem falar para ninguém que ela usava as unhas.

Chegou um momento que os dois times vasculhavam a areia procurando uma coisa vermelha. Meu pai não falava o que era e o pessoal insistia para saber até que minha mãe anunciou que era unha postiça dela. Finalmente acharam e devolveram para minha mãe.

Assim eram os dias feriados e em especial o dia dos finados. Que Deus tenha piedade daqueles que já se foram.

Observação: Este texto foi escrito por meu irmão Estevão e gentilmente cedido para fazermos uma reflexão sobre este dia. 

Sobre o autor

Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 

4 histórias curiosas sobre a origem de bairros de Porto Velho

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Um dos mais populares é Arigolândia, pois durante a 2ª Guerra Mundial, soldados da borracha foram para Porto Velho e entre eles muitos eram nordestinos, chamados de “arigós”.

Alguns bairros de Porto Velho, em Rondônia, têm histórias curiosas sobre suas origens. Um deles é Pedacinho de Chão. Na década de 1970 foi preciso abrir uma avenida chamada Norte e Sul, que começava na avenida Pinheiro Machado e acabava no quartel do 5º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC), que hoje é a Avenida Rogério Weber, no bairro Baixa da União. 

As pessoas foram retiradas e transferidas para um novo local, o Pedacinho de Chão, que recebeu esse nome em homenagem a uma novela da Rede Globo que passava na época. 

“Então falaram pra os moradores que os levariam para uma terra legalizada e documentada onde eles teriam o pedaço de chão de deles”, explicou o economista e historiador Anísio Gorayeb.

Já o bairro mais antigo da história do município, Caiari, surgiu como o primeiro conjunto habitacional do Brasil, a partir do primeiro governador do Território Federal do Guaporé, Aluísio Ferreira, que nacionalizou a Ferrovia Madeira-Mamoré. 

“Aluísio era diretor da Estrada de Ferro e tinha a intenção de construir o conjunto com casas em alto padrão de luxo para que morassem os diretores, engenheiros e administradores da Madeira-Mamoré”, contou Gorayeb.

Sobre o bairro Triângulo, localizado na beira do rio, o historiador explicou que com a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, o trem entrava em um triângulo para virar a locomotiva e conseguir retornar o trajeto, a ação deu origem ao nome do bairro.

Durante a 2ª Guerra Mundial, soldados da borracha foram para Porto Velho, muitos nordestinos chamados de “arigós” moravam na região próxima ao Rio Madeira que recebeu o nome de Arigolândia, pela grande concentração destes moradores. 

Vista aérea do Bairro Arigolândia. Foto: Anisio Gorayeb Filho

Ruas e avenidas 

De acordo com o historiador, as grandes obras de Porto Velho foram realizadas pela Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e definiu o traçado da cidade, herdado dos americanos que implantaram o formato de ruas retas, que levavam aos pontos extremos, facilitando a locomoção pela cidade.

A avenida Sete de Setembro chamava-se rua do Comércio e a avenida Presidente Dutra, de Rua Divisória, e surgiram no início da criação da cidade. Surgiram outros bairros com nomes curiosos, como o bairro da Lagoa, que fica localizado em uma região que alagava muito e todas as ruas têm nomes de peixes, e o bairro Marechal Rondon, que as ruas receberam nomes de minérios.

*Acervo g1 Rondônia

A hora e a vez do protagonismo da Amazônia

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Foto: Ana Flávia Venâncio/Prefeitura de Porto Velho

Por Walace SO*

Porto Velho sediou o I Fórum de Sustentabilidade de Porto Velho em parceria com o ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, que é uma rede com mais de 2.500 governos locais comprometidos com a implantação sustentável em 130 países, durante os dias de 17 a 19 de outubro. Aqui recebemos entidades globais, locais e panamazônicas refletindo e debatendo nossos problemas do dia-a-dia. O foco além do meio-ambiente teve a reflexão da sustentabilidade de nossas cidades panamazônicas, apresentando projetos de sucesso e alternativas que possam ser compartilhadas em toda região.

Aqui se encontraram representantes de vários setores público, privado, terceiro setor, governamentais locais e internacionais, ONU, comunidades e outros. Destacamos algumas das personalidades e órgãos representados como o Ministério das Cidades com o Ministro Jader Filho, o Ministério do Meio Ambiente pelo diretor de Maio Ambiente Urbano Maurício Guerra, o Senador Federal de Rondônia Confúcio Moura, o prefeito de Porto Velho Hildon Chaves, o representante do Povo Paiter-Suruí Almir Suruí (uma das 100 maiores figuras de sustentabilidade pela revista Times), o secretário Rodrigo Perpétuo Executivo da ICLEI América do Sul, Julia Sandner Diretora do Programa de Segurança Energética e Mudanças Climáticas da América Latina (EKLA) e Fundação Konrad Adenauer (KAS), Elkin Veláskez Representante Regional do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT), Marcelo Thomé diretor do Instituto Amazônia +21 entre muitos outros nomes de relevância do tema.

Mais que debater nossa realidade, sua relação com as novas necessidades de meios produtivos da Amazônia, foi à reflexão que além do meio ambiente, precisamos refletir nossas cidades, nossa urbanização e a relação com as características da nossa região. E essa reflexão tem que partir do nosso povo, nossos pesquisadores e sua contribuição para a região e todo planeta. Nada é sem conexão, tudo está em rede, mas não na rede da web, mas sim na rede do planeta e da vida. Nossa água, nossa terra, nossa fauna e flora, estão interligadas em conexão com todo o mundo. Assim, qual é o nosso papel? Qual é a nossa responsabilidade? Qual é de fato o nosso protagonismo? Essas questões serão norteadoras para que possamos preservar e produzir como pede o século XXI e o planeta precisa e necessita.

O Prefeito Hildon Chaves m sua fala fez uma declaração ousada e verdadeira, “não precisamos derrubar mais nenhuma árvore para termos desenvolvimento, precisamos apreender e inovar nossa cadeia produtiva”. O senador Confúcio Moura observou a importância do nosso protagonismo para os novos meios de produção pela pesquisa, qualificação de nossos pesquisadores e integração entre o agronegócio e o meio ambiente caminhando juntos alinhando tecnologia e sustentabilidade. O ministro Jader Filho observou a importância de construirmos nossas cidades, integradas com nossas características regionais e as novas necessidades de urbanização com infraestruturas adequadas, cidades adequadas ao nosso clima tão peculiar. Fala que corroborou a explanação de Elkin Veláskez da ONU-HABITAT e os projetos defendidos pela entidade.

Exemplos de sustentabilidade com a floresta como a produção do café dos Paiter-Suruí que é premiado nacionalmente, modelos de sustentabilidade de turismo e preservação como o Machu Picchu no Peru foram apresentados com outros, mostrando que podemos produzir soluções e gerenciar nossas demandas. E a preservação da Amazônia é um passo fundamental para a preservação do planeta. E devemos ter o protagonismo dessas demandas integradas com o diálogo e o fomento internacional. Muito se levou da nossa terra, agora é a hora de voltar, e essa volta não é para nós, ela é para todos nós. Não vivemos isolados, tudo que acontece aqui repercute em todo planeta. Assim, bora refletir e reconstruir um mundo melhor. 

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Geoglifos escondidos na Amazônia são detectados por laser

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Pesquisa brasileira com tecnologia de ponta indica presença humana de mais de 1500 anos na floresta amazônica.

A tecnologia de sensoriamento Lidar permite remover virtualmente a floresta e enxergar detalhes do relevo no solo, inclusive os geoglifos. Imagem: Vinicius Peripato/Inpe

Pesquisas realizadas nas últimas três décadas indicam que o Brasil foi habitado em uma vasta extensão, inclusive na região amazônica, antes da chegada do colonizador português ao país, em 1500. Agora, um artigo publicado na revista Science (6/10), assinado por 230 pesquisadores, especialistas estimam que existam entre 10 mil e 23 mil estruturas que indicam presença humana pré-colombiana no território da floresta.

As conclusões partiram de um mapeamento feito com sensores dotados da tecnologia óptica Lidar (detecção de luz e medida de distância). Acoplado a um drone ou a bordo de um veículo aéreo, o equipamento emite milhares de pulsos laser por segundo e, a cada pulso, calcula uma medida de distância. 

“É quase como uma radiografia”,

explica o geógrafo Vinicius Peripato, estudante de doutorado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e primeiro autor do estudo.

Graças à alta precisão do equipamento, ele e seus colegas conseguiram enxergar o relevo da floresta amazônica por baixo da copa das árvores utilizando processamento de dados.

De cima, em áreas já desmatadas na parte oeste da Amazônia, é possível observar enormes formas geométricas no solo, chamadas de geoglifos. A partir dos anos 2000, os geoglifos passaram a ser vistos por meio de imagens de satélite, tanto por cientistas quanto por amadores, usando a ferramenta Google Earth. “Foi possível identificar centenas dessas estruturas, principalmente no oeste da Amazônia”, conta o biólogo Luiz Aragão, chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe, orientador de Peripato e coordenador do artigo da Science.

Muitas estruturas geométricas ficam ocultas debaixo das copas e aparecem com o desmatamento da floresta. Foto: Diego Lourenço Gurgel

Nos últimos 20 anos, escavações feitas por arqueólogos mostraram que as formas geométricas foram locais de importância religiosa. Sabendo da existência das estruturas, Peripato e seus colegas criaram a hipótese de que outros vestígios de ocupação humana poderiam existir por baixo do dossel da floresta. Começar a procurá-los foi um desafio.

Originalmente, os dados de sensoriamento Lidar visavam estimativas de biomassa, não tinham resolução adequada para observações arqueológicas: “Testes anteriores indicavam a possibilidade de ocorrência dessas estruturas, mas nada preciso”, explica Peripato. Apostando nessa hipótese, o grupo desenvolveu um método para retirar virtualmente a floresta e melhorar aspectos do relevo. “Deu certo, felizmente encontramos 24 estruturas até então desconhecidas”. O equipamento cobriu 5.315 quilômetros quadrados (km²) da Amazônia, o equivalente a 0,08% da floresta.

Animado com a descoberta, o pesquisador desenvolveu um modelo matemático para estimar quantos seriam e onde estariam outros geoglifos similares no território, levando em conta uma série de variáveis ainda desconhecidas. Ele cruzou os dados fornecidos pelo sensor Lidar com informações de outras 937 estruturas arqueológicas já conhecidas e, com esse modelo, calculou que existam pelo menos 10.272 estruturas pré-colombianas ainda não descobertas, podendo chegar até a 23.648 na floresta inteira – um território de 6.700 km². A distribuição de 53 espécies de plantas domesticadas, utilizadas na alimentação, foi mapeada em inventários florestais prévios e poderá servir como indicação da existência das estruturas arqueológicas na imensidão da Amazônia.

Com Lidar e modelo matemático, os pesquisadores calculam que existam entre 10 mil e 24 mil dessas estruturas na Amazônia. Foto: Diego Lourenço Gurgel

“Foi um trabalho que, para ser realizado, exigiu uma equipe multidisciplinar e o uso de uma tecnologia de ponta”, avalia Aragão. A datação dos geoglifos ainda não descobertos foi estimada com base na literatura arqueológica já existente sobre essas estruturas, mas só poderá ser confirmada quando houver um trabalho de escavação e coleta de material para análise.

“É um artigo importante que confirma algo que os arqueólogos dizem há anos: tinha muita gente vivendo na Amazônia no passado”, 

comenta o arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

“Esses povos viviam ali e também modificavam a floresta”, afirma. Os indícios de presença humana na região datam de cerca de 12 mil anos atrás. Para uma parte dos especialistas, a Amazônia é um patrimônio biocultural que sofre influências tanto da própria natureza quanto da população que viveu e ainda vive por ali.

“As modificações feitas na floresta são informações muito valiosas para que possamos entender melhor como é a estrutura de um bioma que foi ocupado por milênios, como é a resiliência naquela área e como ela busca voltar a seu formato original”, comenta Peripato. “Com os processos de mudanças climáticas, compreender como a floresta opera é de extrema relevância.”

Neves diz que boa parte dos geoglifos ainda preservados está em terras de proteção ambiental, de ocupação indígena. “São os indígenas que preservam as estruturas em meio ao avanço do agronegócio e da destruição que está acontecendo na Amazônia”, opina o pesquisador. Para ele, a presença indígena sempre esteve por todo o Brasil, é muito antiga e contribuiu para criar os biomas do país. “Não dá pra separar a história deles da história do Brasil.”

Artigos científicos

PERIPATO, V. et al. More than 10,000 pre-Columbian earthworks are still hidden throughout Amazonia. Science. On-line. 06 out. 2023.
LEVIS, C. et al. How People Domesticated Amazonian Forests. Frontiers in Ecology and Evolution. On-line. 17 jan. 2018.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Letícia Naísa

Círio de Nazaré: o material e o imaterial compõe a maior celebração católica do mundo

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A celebração anual ocorre na interação dos fiéis com símbolos imateriais, que simbolizam a sua fé.

A maior celebração católica do mundo ocorre anualmente, em outubro, na capital do Pará. O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é uma manifestação religiosa/cultural que reúne dois milhões de pessoas na grande procissão, dando forma a um espetáculo amazônico nas ruas de Belém.

A devoção à Nazinha, em nossa região, data do início do século XVIII, quando Plácido José de Souza encontrou uma imagem de Nazaré às margens do igarapé Murutucu. A história conta que Plácido levou a imagem para casa, mas ela reapareceu no local onde foi encontrada. O fato se repetiu por diversas vezes, até que ali fosse construída uma pequena capela. Atualmente, o local do achado é o endereço da Basílica Santuário de Nazaré, destino de milhares de peregrinos que agradecem a Nossa Senhora pelas graças alcançadas.

Foto: Divulgação/ Círio de Nazaré

O encontro da Santa com o caboclo Plácido é o primeiro relato de interação entre um objeto material e o povo na história do Círio. Desde então, diversas materialidades simbólicas foram incorporadas, expandindo os sentidos que constituem a festa. A imagem da Santa continua sendo o elemento central, mas, além dela, há a corda que os devotos puxam, ligada à berlinda que transporta a imagem – sempre envolta em um manto, trocado a cada ano. 

O cartaz de divulgação é mais um item que faz parte da vivência material do Círio: lançado anualmente em maio e adquirido imediatamente pelos fiéis, que o exibem em suas casas e locais de trabalho, a peça também estampa campanhas publicitárias na mídia e nos espaços públicos da cidade, como na barreira de fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF) entre os municípios de Ananindeua e Marituba, na Região Metropolitana de Belém.

Quando utilizamos a palavra “sentidos”, torna-se importante reconhecer sua ambiguidade, especialmente em relação ao Círio de Nazaré. O que o Círio significa para cada indivíduo? O que se sente ao participar do Círio e ao se aproximar da imagem de Nossa Senhora? Quem consegue responder a essas perguntas inevitavelmente cita os objetos símbolos da festa como componentes da experiência de devoção vivida coletivamente. Por isso podemos afirmar que o Círio é uma experiência de sentidos e sociabilidades que ocorre por meio da cultura material, ou seja, com as coisas que fazem parte do nosso mundo.

As considerações acima fazem parte da dissertação realizada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (PPGCom/UFPA), resultante de pesquisa conduzida entre os anos de 2020 e 2021. O estudo buscou refletir sobre o papel dos objetos materiais na constituição de processos comunicativos do Círio de Nazaré, considerando como esses processos foram adaptados durante a pandemia (período da pesquisa), que levou à suspensão das procissões e dos eventos presenciais nazarenos.

Além de sua natureza material, alguns objetos ganham “vida” durante o Círio. Um exemplo disso é a corda dos promesseiros, que foi utilizada pela primeira vez em 1855 unicamente para tirar a berlinda de um atoleiro em determinado trecho da procissão. Com o passar do tempo, a corda deixou de ser apenas um instrumento técnico para simbolizar sacrifício e aproximação com o sagrado, na metáfora de conexão umbilical entre a Virgem Maria e seus filhos. Durante a pandemia, a corda que não foi às ruas foi uma das ausências profundamente sentidas pelos participantes.

O desejo de ter uma imagem de Nossa Senhora leva à produção de diversos bens de consumo, como o cartaz de divulgação que é comprado, customizado e reproduzido em camisetas, feitas para grupos de amigos e familiares. A circulação econômica é também de ordem afetiva. O ato de colocar o cartaz na porta de casa, por exemplo, mesmo durante a suspensão das procissões, foi uma tradição mantida naquele contexto.

Outro hábito que se manteve durante a pandemia foi o almoço do Círio, reforçando a dimensão social da festa. As famílias que se reuniram para comer junto, fizeram-no em celebração pela vida e em memória de quem não estava mais à mesa. Seja no cenário de saúde desafiador, seja no Círio em que podemos nos abraçar, outubro em Belém é sempre uma oportunidade de encontro com lembranças afetivas e de conexão com as tradições paraenses.

Graças à vacinação em massa contra a covid-19, o Círio de Nazaré voltou ao seu formato completamente presencial desde 2022. Outra vez é tempo de sentir o clima da cidade que se prepara, sem restrições, para festejar a Rainha da Amazônia. E viva Nossa Senhora de Nazaré!

Gabriel da Mota é jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pelo PPGCOM-UFPA. Acesse aqui a dissertação que deu origem a este artigo.

*Texto de Gabriel da Mota, originalmente publicado no Jornal Beira do Rio, da UFPA 

Espécies amazônicas invasoras causam prejuízo mundo afora

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Relatório mundial traz exemplos de danos ecológicos, financeiros e à saúde em consequência da disseminação de espécies exóticas de diversos países que invadem outras regiões.

A planta aquática aguapé (Pontederia crassipes) se espraia em lagos e rios com suas folhas flutuantes e belas flores roxas. Nativa das bacias sul-americanas do Amazonas e do rio da Prata, ela acabou com as tilápias ao invadir o lago Victoria, na África, um importante recurso pesqueiro, por impedir a passagem de luz e a oxigenação da água. 

Causadora também de danos à produção de energia e ao suprimento de água, o aguapé é a espécie de planta invasora mais disseminada pelo mundo, encontrada em 74 das regiões examinadas no relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (Ipbes), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 4/9. 

“É o resultado de um esforço de quatro anos por mais de três dezenas de autores, inclusive alguns brasileiros”, conta o biólogo Ricardo Pinto Coelho, aposentado como professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e hoje proprietário da empresa RMPC Meio Ambiente Sustentável, único brasileiro no painel de especialistas da Ipbes. “É um documento de auxílio para governos em decisões sobre políticas públicas”.

Aguapé, a espécie mais disseminada pelo planeta, pode causar enormes danos em lagos onde não é nativa. Foto: Nico Vromant

Além de exportar espécies, as Américas também sofrem invasões. “No ambiente aquático, que conheço bem, um exemplo no Brasil é Limnoperna fortunei, o mexilhão-dourado”, afirma Coelho. “Nas águas brasileiras tem causado problemas não só para a aquacultura, mas também no sistema de operação das usinas, onde ficam incrustados nos sistemas de refrigeração”. 

Ele ressalta o caso do microcrustáceo africano Mesocyclops ogunnus, que invadiu os principais reservatórios em toda a bacia do Tietê e do rio Grande. “Ele é o hospedeiro intermediário de uma filariose muito importante, então se uma pessoa com esse parasita se banhar nesses reservatórios, poderá introduzir a doença no Brasil”. 

Outro exemplo destacado no relatório: o mosquito Aedes aegypti, terror da saúde pública, transmite os agentes causadores da dengue, zika e outras doenças. Originário da África, deve ter sido introduzido na América do Sul durante o período colonial, provavelmente de carona com o tráfico de escravizados.

Invasões também podem acontecer, e causar danos, dentro do próprio continente. Coelho conta que uma espécie de piranha da bacia amazônica se disseminou em lagos do rio Doce, na região Sudeste, e causou um fenômeno ecológico chamado de cascata trófica invertida. Como a piranha elimina praticamente toda a fauna de peixes nativa, não resta quem consuma a matéria orgânica produzida pelas algas e o lago se torna verde, um processo de poluição natural que prejudica todo o ecossistema.

Invasores no Brasil: o mosquito africano Aedes aegypti causa doenças e o mexilhão-dourado traz problemas à agricultura e a reservatórios de geração de energia. Fotos: CDC | Santiago Mailhos

O relatório afirma que as atividades humanas causaram a disseminação pelo mundo de mais de 37 mil espécies de plantas, animais e microrganismos, com papel central em 60% das extinções globais. Em 2019, o impacto econômico das espécies invasoras ultrapassou US$ 423 bilhões anuais, cerca de R$ 2 trilhões. 

O levantamento da Ipbes foi realizado por 86 especialistas de 49 países, que trabalharam por quase cinco anos analisando publicações científicas e contribuições de povos indígenas e comunidades locais. Por volta de um terço dos impactos listados foi detectado nas Américas, a maior parte (75%) em ambientes terrestres como florestas e lavouras. 

Um problema é que quase metade dos países não investe em iniciativas para o manejo das invasões biológicas. O estudo preconiza três linhas de defesa: prevenção, erradicação e, em último caso, contenção.

“Espécies exóticas causam prejuízos econômicos, de saúde pública e ecológicos incalculáveis”,

resume Coelho.

Ele alerta para a necessidade de as universidades formarem profissionais capazes de realizar o manejo da flora e da fauna, de modo a evitar ou minimizar esses danos. Na própria Ipbes há oportunidades de trabalho para professores e estudantes, ele avisa.

*Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui, escrito por Maria Guimarães.


Jaraqui e açaí, saúde e riqueza da nossa terra

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Foto: Reprodução/Tv Amazonas

Por Walace SO*

Nossa maior riqueza é nossa cultura e nossa relação com a natureza, o beiradeiro, os quilombolas, os povos tradicionais e ribeirinhos trazem consigo essa comunhão. Resgatar e preservar são de suma importância para nossa região e para o mundo.

Todos os dias assistimos propagandas de maravilhas que precisamos como exemplo o ômega 3, e os principais anúncios sempre propagam que são de peixes das águas geladas do norte da Europa, o mais rico rsrsrsrs. O engraçado que encontramos tanto ou mais ômega 3 no nosso querido jaraqui. E quando ele é combinado com o açaí temos uma potencialização nutricional maravilhosa e deliciosa desses ácidos graxos e outros nutrientes.  

 E poucas pessoas conhecem as pesquisas desenvolvidas pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), que são centros de excelência de pesquisas de reconhecimento internacional sobre o ômega3 do nosso jaraqui. Aliás, são os chamados ácidos graxos com ômegas 3, 6 e 9. E só estou falando de dos ácidos graxos que são explorados comercialmente de forma exaustiva e não sabemos que estão aqui em nossos rios e na nossa cultura. Outro exemplo é o açaí, que além do valor nutricional rende por ano mais que soja ou boi no pasto, sem degradar nossa natureza ou nossas florestas.

A nossa tradição cultural nos presenteou com uma riqueza enorme, que se expressa em nossa relação com o meio ambiente, e poderíamos não só desenvolver pesquisas, mas transformar em produtos que nos beneficiariam e com uma proposta de desenvolvimento regional sustentável, mais adequado ao século XXI.

E as perguntas são muitas, por que não organizamos propostas de desenvolvimentos que sejam sustentáveis e com nossas características? Por que não temos laboratórios pesquisando e produzindo essas riquezas aqui e gerando empregos e desenvolvimento? Bora Refletir e mudar.

Para deixar a coluna mais saborosa segue abaixo uma receita de jaraqui com açaí, essa receita é da Feira do Ver o Peso, uma das minhas preferidas: 

Receita do prato de Peixe frito com Açaí  

Ingredientes

 4 postas de peixe (200 gramas cada)

Vinha d’alhos

150 gramas de farinha de trigo

4 colheres de sopa de óleo

1 litro de açaí

Farinha d’água

Preparo

Colocar as postas de peixe de molho no vinha d’alho para pegar sabor.

Retirá-las e secar com papel tolha.

Passar as postas na farinha de trigo, batendo para retirar o excesso.

Fritar as postas em uma frigideira com óleo bem quente.

Saiba como servir peixe frito com açaí corretamente

Colocar o peixe em um prato decorado com folhas de alface, rodelas de tomate e cebola.

O açaí e a farinha d’água serão colocados em recipientes separados.

Molhe o peixe no açaí e na farinha d’água. 

Sobre o autor 

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

E o discurso da COP27 senhor presidente, ficou só no discurso?

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Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Por Walace SO*

Um dos momentos mais marcantes e simbólicos do terceiro mandato do presidente Lula foi seu discurso na COP27 (Conferência das Partes das Nações Unidas sobre mudanças Climáticas) no Egito no final de 2022. Diferente do antecessor, que ignorou completamente essa pauta, antes mesmo dele assumir a presidência foi convidado para o evento onde discursou sobre a Carta da Amazônia – uma agenda comum para a transição climática.

O discurso foi o primeiro do evento, levando assim a esperança de zerar o desmatamento na Amazônia, recuperar a credibilidade e protagonismo do Brasil em relação ao tema que fora perdido (e outros), reivindicar a COP30 em 2025 no Brasil e liderar os nove países que compõe a Amazônia Internacional: Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Guiana Venezuelana, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Lembrando que aproximadamente 60% da Amazônia pertence ao território Brasileiro.

Após o discurso a retomada do protagonismo do Brasil em relação ao tema ficou marcada, novas perspectivas e cobranças foram feitas no discurso para a comunidade internacional, principalmente a Europeia. E alguns efeitos foram imediatos, como o aceno da Alemanha e Dinamarca para a liberação do Fundo Amazônia que estava congelado por causa do governo anterior, que é de suma importância para projetos na região. Nesse momento, acredito mais em Marina Silva, uma seringueira, guerreira e atual ministra do Meio Ambiente e em toda sua história de luta pela nossa região.

Contudo, um imbróglio logo se fez com a perspectiva de exploração de petróleo pelo Brasil na Bacia da Foz do Amazonas. E não é por acaso que o debate está acirrado, quando falamos em Amazonas. Ainda não temos a consciência da importância da região para o planeta e para o próprio país, e tudo que está relacionado a nós é gigantesco. Para o nosso leitor ter uma pequena noção da nossa importância, o Rio Amazonas despeja 200 milhões de litros de água doce no oceano por segundo. O que equivale a 17% do total mundial de água continental e sedimentos em suspensão para todos os oceanos. Já imaginaram o impacto disso?

Em relação ao Brasil, a Costa Amazônica abriga 80% dos manguezais do nosso país, que são responsáveis para a preservação da biodiversidade e sustentabilidade da indústria pesqueira. Os recifes da região são o habitat de mais 90 espécies de peixes que sustentam as economias locais pela costa brasileira. E primordialmente esses ecossistemas ainda são responsáveis em sua contribuição do balanço de gás carbônico, que é de suma importância e responsável por frear o aquecimento global.

A desculpa de progresso e desenvolvimento, é só uma desculpa, esquecendo o debate e a necessidade de um novo projeto real de desenvolvimento sustentável para a região, que leve em consideração nossas características, potencialidades, nosso povo ribeirinho, quilombola, povos originários, nossa cultura e toda nossa riqueza. E temos trágicos exemplos de exploração que não trouxeram riquezas apesar de suas promessas, o que sobrou para nossa região? Vamos lembrar de Serra Pelada e as mais de 40 mil toneladas de ouro retiradas de lá, quem enriqueceu? A Companhia Vale do Rio Doce que recebeu uma indenização de 59 milhões de reais, por deter os direitos de exploração. Qual foi a sua herança? Para a região, nenhuma que boa herança. Quais os efeitos ambientais e sociais para a região? Catástrofe ambiental, pobreza na região com total esquecimento e desigualdade social.

A nossa riqueza está em alternativas de arranjos produtivos sustentáveis devidamente ligados ao século XXI, e não exploratórios antiquados. Alinhados ao respeito da a nossa cultura ribeirinha, quilombola, dos povos originários, da floresta e de todos nós da região e do planeta. Se o discurso do presidente foi verdadeiro, se o papel brasileiro de liderança dos países da Pan Amazônia será nosso, devemos seguir os exemplos do povo e dos governos da Colômbia e Equador, que já se recusaram a exploração de petróleo na Amazônia.

Devemos lembrar que temos capital humano e podemos nos associar com o capital humano internacional, além de reivindicar que a comunidade internacional participe na manutenção. Pois, os países desenvolvidos têm suas responsabilidades históricas da exploração das Américas e da África, muito foi retirado daqui e nada nos foi dado em troca nem monetariamente, nem em respeito ou solidariedade. E estamos chegando ao ponto do não retorno, depois não haverá volta e todos seremos responsáveis. Talvez a ambição dos políticos junto a determinados grupos e nosso silêncio como cidadãos seja julgado como os maiores cúmplices do que está por vir.

Nós somos a Amazônia, ela é nossa e somos responsáveis por ela, temos que assumir essa posição de protagonistas, debater, reivindicar e lutar por ela. E não esqueçamos nosso poeta Thiago de Mello, “quem sabe onde quer chegar escolhe o caminho certo e o jeito de caminhar”. BORA REFLETIR meu povo

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Mineirinho, venha tomar um açaí e tacacá na Amazônia

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Foto: Cristino Martins/Agência Pará

Por Walace SO*

Buenas, na coluna passada sugeri uma reflexão sobre a nossa riqueza amazônica e o desconhecimento que o Brasil tem sobre a nossa Região Norte. E não demorou a termos uma triste demonstração de preconceito, intolerância e xenofobia escancarada nos jornais contra nós e o Nordeste. Velhos políticos e politicagens, já tradicionais da história brasileira deram essa demonstração mais uma vez com as falas do governador Romeu Zema de Minas Gerais.

E basta uma leitura da coluna passada para percebermos a importância que temos para o Brasil e para o planeta. O governador, que se diz representante de uma nova política, age como os antigos coronéis da época da República do café com leite, dos tempos que as oligarquias paulistas e mineiras se revezavam e dominavam o país, marcada pela corrupção (aliás, corriqueira em nossa história) aliada ao voto de cabresto e fraudes eleitorais que caiu com a Revolução de 1930.

É interessante analisarmos esse movimento, com dois pontos a serem observados. O primeiro partindo de um movimento contra a Reforma Tributária do atual mandato que estava engavetado. Ressaltando que a Zona Franca de Manaus correu sérios riscos nas mãos da política econômica do gerente do “posto Ipiranga”, no superministério de Paulo Guedes, que trabalhou mais para ele e para a elite financeira do que para o país.

A reforma tributária passou claro que com alterações, ela ainda terá que ser avaliada. E dada à complexidade da tributação brasileira em todos os aspectos e sentidos, esperamos que ela seja um avanço pela necessidade que temos sobre o tema. As regras da tributação devem ser simples e claras para seu devido funcionamento do Estado, para o bem de todos. Claro que temos problemas com excesso de arrecadação, contudo creio é gestão adequada é o que mostra a eficiência do imposto e não somente sua cobrança. A burocracia permite a corrupção e o fisiologismo visto no orçamento secreto.

Segundo, a necessidade de se manter um estado de acirramento e de divisão pós-eleição de 2022, com a manutenção da polarização de direita x esquerda. Que é um combustível perigoso socialmente falando. E ela volta a mostrar a pior face do brasileiro, que ficou escancarada desde a eleição de 2018. A face da intolerância com o tempero de preconceitos entre regiões, colocando umas como mais evoluída que outras por sua opção ideológica (ridículo). Somos um país de democracia jovem e de velhas culturas de ditaduras.

E tentando buscar um espaço na linha sucessória da direita radical, o governador Zema, não agiu na tradição mineira de silenciosamente comer pelas tabelas para saborear o mingau quente. Atropelou, buscando um espaço que provavelmente irá dividir com o governador de São Paulo. E ambos assoprando e beijando as mãos do ex-presidente, pois essa é a fatia que lhes interessa. Contudo os estados do Sul e Sudeste esquecem a importância da nossa região para país e o planeta.

Aliás, o descaso com nossa região sempre existiu e nossos próprios políticos é que deveriam ter uma atuação de defesa, investimento em pesquisa, arranjos/processos produtivos e logísticos para o melhorar o nosso desenvolvimento. E sinceramente não vejo o empenho deles de forma satisfatória e adequada ao desenvolvimento produtivo orientado pelas nossas características que o século XXI pede.

Assim, quero deixar claro para os adeptos do velho mascarado de “novo”, como na afirmação do governador de Minas, que não vamos aceitar essa ideia e comparação depreciativa de “vacas gordas e vacas magras”. Pois temos sim produtos e uma cultura maravilhosa, que também representa o Brasil. Não adianta dizer que foi mal compreendido ou que sua fala do foi retirada do “contexto”, ela é bem clara e tem um modus operandis.

Aliás, esse é um movimento comum dessas pessoas e seus discursos. Caro governador, o senhor foi sim preconceituoso e uma pessoa que ocupa um cargo público como o seu deveria ter respeito por todos os estados irmãos de Minas, lembrando que juntos formamos uma só nação. Bora refletir, não importa a região, cada uma dela contribui muito mais que esse movimento arrogante, tosco e mal educado feito contra as regiões Norte e Nordeste. 

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Amazônia, a maior riqueza do planeta

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Foto: Reprodução/Imazon

Por Walace SO*

Nossa saudosa “pimentinha”, a grande cantora Elis Regina costumava cantar uma música chamada “querelas do Brasil”, a música é do século passado e refletia que o Brasil desconhecia o próprio Brasil. E realmente foi um presságio do que vivemos em pleno século XXI. Desconhecemos o Brasil desde a sua invasão portuguesa e o movimento colonialista daquele período e tudo que envolve principalmente a nossa terra, a nossa água, nossa história e enfim a nossa Amazônia.

Espanhóis e portugueses adentraram por essas bandas destruindo e escravizando em busca do Eldorado, a lendária cidade de ouro e pedras preciosas na Amazônia. Era a justificativa que os conquistadores europeus precisavam para continuar seu rastro de destruição, que se estendia do México até a América Latina. O tempo passou, e as Entradas e Bandeiras que trouxeram os bandeirantes com a mesma desculpa do litoral paulista, pelas Gerais, Goiás e outras bandas atrás das lendas de riquezas, com sua ganância e a destruição dos povos originários e suas culturas.

Aliás, em Goiás, Bartolomeu Bueno da Silva aterrorizou as indígenas adornadas de peças de ouro que encontrou lá. E para conseguir que elas indicassem o local do ouro, ele encheu uma cuia de cachaça e ateou fogo nela, ameaçando queimar todas as águas dos rios. Assim nasceu Anhanguera (em tupi, añã’gwea), equivocadamente traduzido como “diabo velho”, ressaltando que a ideia de diabo é uma criação cristã, ela não existe nos povos originários, porém foi adaptada nas narrativas. E dessa forma, os bandeirantes aterrorizavam e escravizaram as etnias que encontravam, e elas cada vez mais se embrenhavam pela floresta, evitando o contato com o homem branco.

Essa introdução apresenta nosso lado europeu ganancioso, egoísta e que naquela época não compreenderia a verdadeira riqueza da nossa Amazônia, que é a nossa floresta, nossa água, a herança da sabedoria dos povos originários e que não podemos separar a Mãe Terra (ou Mãe Água) de seus filhos. Não se justifica, contudo, eram outros tempos. Assim vivemos séculos abandonados em nossa região, muitas vezes protegidos pela distância.

O Reino do Grão-Pará, como era conhecida a região naquele período, tinha sua importância na geopolítica histórica (entre espanhóis e portugueses) e de outros tipos de aventureiros que aqui chagavam com sede de levar tudo que podiam levar da nossa terra. Ainda tivemos outros ciclos como o da borracha que aproveitou os seringais e promoveu riqueza, e um novo tipo de escravidão dos migrantes nos seringais que fugiam do infortúnio da seca no Nordeste e enriqueceram os poderosos.

No século passado, o triste projeto de “integrar para não entregar”, na megalomania da ditadura militar, promoveu o genocídio de várias etnias e trouxeram outra legião de brasileiros produzidos pela desigualdade social, em especial do Sul e Sudeste que sofreram a falta de oportunidade em suas regiões fugindo do êxodo rural e da implacável mecanização que chegava por lá.

E a cultura da derrubada da mata para plantar e construir o progresso era o lema. Infelizmente com o gado e a monocultura como as novas bandeiras, que não são exatamente uma riqueza daqui, novamente não compreenderam a verdadeira riqueza da Amazônia. Nossa terra tem sua alma e peculiaridades, aqui tudo é diferente, aliás não deveria nem ser chamada de nossa terra, careceríamos de chamar de nossa água. Pois, paradoxalmente, somos a terra da água.

Aqui também é a terra da Oxum, de Yara, de Nossa Senhora do Nazaré, do povo ribeirinho das beiradas de nossos rios, somos a terra da água doce. E o Brasil tem 12% de toda água doce do mundo, e a maior parte dela está na Amazônia. Tanto em nossos rios quanto embaixo dela. Pois, o Aquífero de Alter do Chão é um reservatório subterrâneo de água que regula tanto nossos rios, quanto o meio ambiente e clima.

Para que vocês tenham uma ideia da sua importância, se toda a água potável do mundo findasse, o aquífero abasteceria o planeta por cem anos. Equivocamente a já foi considerada como o pulmão do mundo. Não, meus senhores, ela jamais foi o pulmão do mundo. A nossa maior riqueza é a combinação da água e floresta, elas se completam e não existiriam sem essa união.

A relação de ambas é tão profunda e intensa que nossas estações são divididas em duas, no verão da seca e inverno das chuvas. E devemos nos atentar, a escassez de água é uma realidade em todo mundo. Logo ela será o produto mais importante que o ouro, o petróleo ou qualquer outra riqueza, estamos mais perto de um mundo apocalíptico que imaginamos.

E a ciência já mostrou que a floresta está ligada em rede, preservar é de extrema importância para o clima e água daqui e de todo o mundo. Temos um processo conhecido do ciclo hidrológico que é a evapotranspiração, que de maneira simples é a transpiração de toda superfície da terra, onde ela se transforma em vapor a umidade dos rios, das plantas e de tudo gerando novas nuvens que regulam o clima e o novo abastecimento de água, daqui e de boa parte do planeta.

Por isso, devemos resistir contra a barbárie dos últimos quatro anos que se intensificaram pelo incentivo ao garimpo ilegal, a grilagem das reservas indígenas e de terras públicas; do desmatamento e do agronegócio predador (não o sério, porque temos o agro sério), que não entendeu o conceito de sustentabilidade avançando implacavelmente sobre a floresta e todas riquezas que temos aqui.

A ciência e tecnologia tem propostas de sustentabilidade e novas perspectivas para nossa terra, além das tradicionais e predatórias que só destroem e trazem riqueza para poucos. A riqueza da floresta tem que ser para todos, sem questões de ideologias, mas de civilidade. Se não compreendermos a riqueza da relação em rede que a floresta e a água têm, é o nosso Avatar. O cupuaçu está ligado ao açaí, a copaíba, e outras plantas que se ligam rainha da floresta a castanheira e todos estão comungam com a água.

Caso queiram se aprofundar nesse tema, segue um hiperlink sobre a Amazônia 4.0 do professor Carlos Nobre, estudioso sobre a sustentabilidade e novas perspectivas produtivas de nossas riquezas, clique e aumentem seus conhecimentos.

Realmente, não conhecemos o Brasil, muito menos a Amazônia, Elis Regina estava certa.

Deixo também o link de duas músicas, a primeira “querelas do Brasil”, o alerta que falei no primeiro parágrafo e “planeta água” um hino a nossa maior riqueza e símbolo de reflexão:

Agradeço a todos a atenção e “bora refletir” para podermos debater e construir uma sociedade de diálogo e tolerância.

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista