O pesquisador Geraldo Xavier dos Anjos revela que na época da Província do Amazonas os acontecimentos de ruas eram feitos por brincadeiras como o “Entrudo e o Zé – Pereira”, além dos foliões mascarados.
Segundo pesquisador Geraldo Xavier dos Anjos, as reminiscências do carnaval do passado são recheadas de fatos bastante interessantes. Tais manifestações do carnaval que transcorriam nos principais clubes da cidade e de uma forma mais popular nas ruas de Manaus.
O pesquisador nos revela ainda que na época da Província do Amazonas esses acontecimentos de ruas eram feitos por brincadeiras como o “Entrudo e o Zé – Pereira”, além dos foliões mascarados que invadiam o centro antigo de Manaus quando da época da festa popular.
Por sua vez, o entrudo era uma prática proibida, por promover sujeira e imundície. O “Entrudo” foi uma manifestação introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses da Ilha de Açores.
A prática consistia em jogar nas pessoas “água de lama, tinta, lixo e tudo que fosse malcheiroso, até água podre e urina”. Tal comportamento provocou a proibição por meio de uma portaria da Câmara Municipal de Manaus publicada no código De Postura do Município.
O fiscal do primeiro Distrito desta cidade faz publicar a bem dos interesses o seguinte artigo:
Art. 82-É proibido andar-se pelas ruas e lugares públicos e jogar entrudo ou lançar alguma coisa sobre os transeuntes. Pena de dez mil – réis de multa ou três dias de prisão.
1º Permite-se as mascaradas danças carnavalescas de modo que não ofendam a moral e a tranquilidade pública e não contenham alusão às autoridades ou a religião.
2º Pelas ruas, praças e estradas da cidade não transitarão pessoas mascaradas depois do toque da Ave – Maria, Salvo as que tiverem para isso licença da autoridade policial. Os infratores incorreram na multa de cinco mil – réis ou dois dias de prisão.
Manaus, 28 de janeiro de 1874
Pedro Mendes Gonçalves Pinto
Fonte: O Malho, Ed. 760 ano XVI – 7 de abril de 1917. Foto: Reprodução/Instituto Durango Duarte
Embora sob pena de pesar das multas e prisões, esse procedimento se estendeu até o início do século XX. Por sua vez, “O Zé – Pereira” também trazido pelos portugueses acaba por revolucionar o carnaval. Os brincantes transitavam pelas vias públicas tocando bumbas, zabumbas, esse costume perdurou até o ano de 1929. As fantasias da época eram de palhaços, diabos, papa angus, etc.
Por volta de 1855 eram publicados em jornais da época os bailes de máscaras, que aconteciam em residências dos barões da borracha e nos clubes, começa assim a prevalecer o carnaval de salão que eram frequentados por uma classe privilegiada e o de rua que contava com a participação popular.
Geraldo Xavier dos Anjos relata ainda que o comércio dessa época promovia vendas de artigos para a quadra momesca em especial na Rua do Imperador (hoje Marechal Deodoro). Nessa artéria funcionava uma loja denominada “Bazar de Paris”, especializada em artigos para o carnaval. Os jornais da época promoviam anúncios de interesses dos foliões, como por exemplo, a presença de um “Coiffeur”, Francês que se chamava George Petrus. O estabelecimento atendia seus clientes com os mais modernos penteados que eram moda na Europa.
Em 1889, época do último Carnaval da Província, aconteceu a “Batalha de Confete” na Praça Dom Pedro II. Com a chegada da República e a urbanização da cidade promovida na administração do governador Eduardo Ribeiro (1892-1896). Na principal artéria e a rua da Matriz (hoje Eduardo Ribeiro), o Carnaval toma conotação com o desfile do “Clube dos Coatyz”. Já em 1904, surgiram dois grupos importantes, “Cavalheiros Infernais e o Clube dos Terríveis, que prolongou sua participação até 1915.
Anúncio sobre o Club dos Terríveis em 12 de fevereiro de 1907 no Jornal do Commercio. Imagem: Reprodução/Biblioteca Nacional
Os Cavalheiros Infernais eram formados por foliões do Clube Internacional, cujas fantasias eram predominadas pela cor vermelha. O “Clube dos Terríveis”, porém, tinha como foliões algumas figuras de maior importância do contexto social da época como: o coronel José Cardoso Ramalho Júnior, o ex-governador Silvério Nery, o próprio governador Constantino Nery e superintendente municipal Adolpho Lisboa e Arthur César Moreira de Araújo.
Fonte: BAZE, Abrahim. Luso Sporting Club – A Sociedade Portuguesa no Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2007.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Treinador tem mais idade que Felipão, por exemplo, que tem 75 anos e comanda o Atlético-MG.
O técnico Aderbal Lana, comemorou em 10 de novembro de 2023 seu aniversário de 77 anos. Lana, além de ser o treinador de futebol mais velho em atividade no país, é um capítulo à parte do futebol amazonense, sendo o maior vencedor do Campeonato Amazonense com 10 títulos. O último com o Manaus FC, em 2017, clube que voltará a comandar na temporada 2024, após seis anos.
Mesmo que seja outro treinador campeão em 2024, Aderbal Lana continuará sendo o líder em títulos com três taças nos últimos anos. Duas foram conquistadas à frente do Nacional, nos anos de 2012 e 2015, além de uma com o Manaus , em 2017. Vale ressaltar que foi o primeiro título do Gavião e, pelo Leão da Vila Municipal, o último dos 43 títulos conquistados pelo clube.
Além dos três títulos, Aderbal Lana também tem títulos do Barezão com o Nacional em 1986 e 1991, com o Rio Negro em 1989, além de dois tricampeonatos com o São Raimundo em 1997, 1998 e 1999, pelo amazonense e da Copa Norte quando o Tufão faturou as edicoes de 1999, 2000 e 2001 e um vice-brasileiro da Série C com o Alviceleste Colinense em 1999.
Foto: João Normando
Mineiro de Uberlândia, Lana construiu não só uma carreira vitoriosa dentro de campo, mas também constituiu família, arrumou esposa e teve dois filhos no Amazonas. De volta ao Manaus, clube de 10 anos, no qual o comandante conquistou o título Amazonense em 2017, o primeiro da historia da equipe. O treinador prometeu muito vigor, mas que na próxima temporada não vai abrir mão do cigarro e da cerveja.
“Eu bebo cervejas, geralmente uma, duas cervejas todo dia. Depois de um jogo, evidentemente que você toma um pouquinho mais. O meu cigarro eu não largo, porque é um dos amigos que eu tenho, apesar de muita gente ser contra isso, pra mim não é um vício. Eu sou um cara meio distante da sociedade, porque treinador de futebol é muito difícil viver. Você vai num bar, o cara quer saber por que você tirou o fulano, você vai num restaurante e o garçom te pergunta por que perdeu, ou às vezes até porque que ganhou. E você vai nos momentos de folga, você quer ter paz, quer ter tranquilidade, você treina todo dia, joga nos finais de semana e estuda praticamente toda noite”, conta Aderbal Lana.
“Quando você tem uma folga, é complicado você ficar frequentando os lugares, né? Então você fica um pouco afastado e o que eu tenho é uma rede, um cigarro, a minha televisão, meus quadros sobre futebol, meus slides, meus vídeos e meu pen-drive. Então a vida é essa, cara. E assim a gente vai vivendo, olhando para trás e sabendo que está deixando sempre alguma coisa positiva”,
disse.
Na próxima temporada (2024), Aderbal Lana terá um grande desafio pela frente com o Manaus FC, recém-rebaixado para a Série D do Campeonato Brasileiro. Em 2018, quando era treinador do time, Lana bateu na trave do acesso à Série C, mas o comandante frisou que em 2024, o maior presente será resgatar o Gavião aos seus dias de glórias.
“Estou bem, feliz por completar mais um ano de vida, agradecendo ao meu Senhor lá de cima, que me deu essa oportunidade de viver uma vida que eu vivo com saúde, com longevidade, com família e com filhos. Graças a Deus, e olhando para trás, saber que eu fui um bom pai, que pratiquei coisas boas, e isso é o mais importante de tudo. Pode crer que eu vou estar com muita saúde, muito vivo, para que a gente consiga levar o Manaus a uma situação melhor ano que vem [2024], porque esse ano foi um ano difícil para o Manaus, com esse descenso”, disse.
“A gente está com muita dificuldade lá, porque você sabe que a realidade hoje é outra, mas nós vamos trabalhar bastante, com muita vivacidade, com muita saúde e muita dedicação para que o Manaus dê alegria novamente ao seu torcedor”,
concluiu.
Em 2024, o Manaus disputa apenas a Série D, Copa Verde e o Amazonense, que inicia no dia 21 de janeiro. O Gavião está no grupo A, com Amazonas, Nacional, Operário e Alvorada.
Hoje é Dia de Reis, uma das mais tradicionais e importantes festa da cultura brasileira. Em tempos de redes sociais, como muitas tradições estão sendo esquecidas. Lembro como era importante receber a bandeira do Divino em casa e compartilhar o pão com os foliões, hoje não temos isso. Aliás, não temos nem espírito cristão, perdidos na atual intolerância de nossos dias.
Assim, quero propor a reflexão que é necessária. Hoje, Dia de Reis, esse hino a vida e expressão do cristianismo tem que ser dedicado a um verdadeiro cristão, Padre Julio Lancellotti. A vida dele dá sentido ao significado de ser cristão em cada ato dele e a todos que acolhe e são esquecidos pela sociedade.
Os devotos do Divino Vão abrir sua morada Pra bandeira do menino Ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai
Os devotos do Divino Vão abrir sua morada Pra bandeira do menino Ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai
Deus nos salve esse devoto Pela esmola em vosso nome Dando água a quem tem sede Dando pão a quem tem fome, ai, ai
Deus nos salve esse devoto Pela esmola em vosso nome Dando água a quem tem sede Dando pão a quem tem fome, ai, ai
A bandeira acredita Que a semente seja tanta Que essa mesa seja farta Que essa casa seja santa, ai, ai
A bandeira acredita Que a semente seja tanta Que essa mesa seja farta Que essa casa seja santa, ai, ai
Que o perdão seja sagrado Que a fé seja infinita Que o homem seja livre Que a justiça sobreviva, ai, ai
Que o perdão seja sagrado Que a fé seja infinita Que o homem seja livre Que a justiça sobreviva, ai, ai
Assim como os três reis magos Que seguiram a estrela guia A bandeira segue em frente Atrás de melhores dias, ai, ai
Assim como os três reis magos Que seguiram a estrela guia A bandeira segue em frente Atrás de melhores dias, ai, ai
No estandarte vai escrito Que ele voltará de novo Que o rei será bendito Ele nascerá do povo, ai, ai
No estandarte vai escrito Que ele voltará de novo Que o rei será bendito Ele nascerá do povo, ai, ai
Bandeira do Divino – Ivan Lins
Sobre o autor
Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).
Zona Franca de Iquique, no Chile. Foto: Reprodução/Libre Empresa
O texto de hoje é sobre uma viagem há muito tempo atrás. A Zona Franca (Distrito Industrial de Manaus) completava os seus primeiros anos, para ser mais exato 10 anos. O Dr. Phelippe Daou nos convidou para, junto com cinegrafista Jair Alberto, acompanhado com um grupo de empresários do Amazonas, conhecer tecnicamente as zonas especiais Arica e Iquique, no Chile.
Nesta viagem tivemos a possibilidade de visitar duas faces diferentes: Arica, um fracasso total, e Iquique, um verdadeiro sucesso. Saindo de Manaus em direção ao Chile aterrissamos em Santa Cruz de La Serra, uma altitude fora do comum com muita dificuldade de respirar, porém as autoridades locais nos oferecem chá de coca, o que faz com que o corpo logo se adapte a altitude.
De manhã, de avião, ultrapassamos as Cordilheiras dos Andes e em uma descida vertiginosa acompanhando as montanhas chegamos a um grande deserto. Tão logo pousamos saímos para conhecer a abandonada zona livre da Arica. Tinha quase o mesmo tamanho do Distrito Industrial de Manaus, mas completamente abandonado. Um modelo que não deu certo. Ouvimos palestras dos empresários locais que explicaram as razões do fracasso.
Na manhã seguinte visitamos Atacama, os desenhos gigantescos e as múmias mais antigas do mundo. Chegamos a Iquique, uma cidade efervescente e de muita vida. A área central da cidade (grande) era cercada com muros altos e controle de entrada e saída e praticamente os mesmo produtos vendidos em Manaus e também o mesmo preço respeitando o câmbio.
Não tenho nenhuma ideia de como estão estas duas cidades hoje. Para mim foi a minha primeira experiência como repórter internacional e trabalhei inclusive como tradutor para grupo de empresários. Meu amigo gaúcho Jair Alberto voltou para o Rio Grande do Sul e nunca mais nos encontramos.
Por hoje é só! FUUUUUUIIIIIIII!!!!!!
Sobre o autor
Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
Em 1988 eu era locutor e diretor da rádio Amazonas FM. Recebi um comunicado passado pela Associação Amazonense de Imprensa, instituição que reunia todos os veículos de comunicação no Amazonas, dirigida pelo Dr. Francisco Garcia Rodrigues, anunciando o prêmio na categoria Rádio.
Imediatamente me coloquei à disposição para criar algo que pudesse destacar na programação e oferecer ao ouvinte algo que seria diferente do que era apresentado em quase todas as rádios do estado. Inspirado e motivado pelo crescente movimento dos bois de Parintins, busquei algo que complementasse a história de nossa terra amazônida.
Fui em busca de um personagem que representasse muito bem a nossa região e, de repente, resolvi convidar o mais importante pintor de nossa região, Moacir Andrade.
Ao analisar a obra geral de Moacir percebe-se a sua contínua busca de caracterização do amazônida. Mas não era uma exposição de quadro e sim um programa de rádio. E logo no primeiro contato senti que seria muito difícil.
Ele, Moacir, era um excelente contador de história e das lendas amazônicas, e falava horas intermináveis. Eu tinha pensado que no Dia da Natureza apresentaria a cada meia hora um “programete” de um minuto e trinta segundos, mas como? O Moacir não tinha freio, falava sem parar.
Como havia convidado para editar o competente radialista e amigo Ray Áureo (hoje na CBN Amazônia Manaus), ele sugeriu que gravássemos o Moacir livre e depois, em cima do que ele falava, faríamos um roteiro e o convidaríamos para ler.
Primeiro Moacir não gostou da ideia, acho que ele pensou que seria desvirtuar a história, e segundo eu passaria vários dias ouvindo para fazer o roteiro. Mas assim ficou decidido e ele acabou aceitando sob a condição que ele aprovasse o texto. Eu parti para a longa jornada com o fone no ouvido por longas horas. Não foi fácil, entretanto cheguei a um texto enxuto das longas lendas e histórias.
Para a minha surpresa ele gostou, mas mesmo assim ele sempre acrescentava algo mais. Foi necessário muita paciência de meu amigo Ray Áureo que finalmente editou e, escolhido um BG, o resultado ficou muito bom.
Nós inscrevemos na Associação e em seguida foi ao ar. Como são muita lendas vou destacar esta, exatamente como foi ao ar em 1989 na voz e desenvolvimento de Moacir Andrade:
Programa número 3: A lenda do Mapinguari
“A lenda do mapinguari conta que nas matas amazônicas existe um animal chamado de mapinguari, que tem a forma de macaco com um olho só na testa e uma abertura que vai ao umbigo. Este animal é uma espécie de defensor da floresta amazônica, ele só mata caçadores ou qualquer indivíduo que penetra na floresta fora de tempo regulamentar, por exemplo feriados, dias santos, domingo. Em dia reservado para a tranquilidade da floresta nenhuma pessoa pode entrar sob pena de ter os miolos devorados pelo mapinguari”.
Esta e mais 16 histórias conquistaram os jurados e fomos vencedores na categoria Rádio. Graças ao Moacir, que aceitou o desafio, e o talento e paciência do amigo Ray Áureo, dividimos o prêmio em dinheiro por nós três, que foi bem-vindo. O melhor foi o reconhecimento do talento das pessoas que compunham a rádio Amazonas FM.
Por hoje é só! Semana que vem tem mais. FFFFUUUUUUUUUUIIIIIIIIIIII!!
Sobre o autor
Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
Buenas, bela Manaus! Das bandas do Rio Madeira em terras amazônidas entre um açaí e um jaraqui para o mundo é hora da nossa coluna Bora Refletir.
Tenho assistido repetidas vezes o filme “Diamante de sangue”, seu enredo sobre o contrabando ilegal de diamantes e a manutenção das guerras civis pelo continente africano sempre me desperta reflexão e tristeza. E cada vez que assisto o desalento é profundo. Vamos refletir juntos a ligação dos “diamantes de sangue” africano e o “ouro de sangue” da nossa Amazônia.
África e Ásia durante o final do século XIX e no auge da segunda Revolução Industrial foi um movimento justificado pelos europeus como uma necessidade civilizatória. Dessa forma esses dois continentes foram fatiados como uma pizza, e alguns países se alimentaram deles até o século XX. Com destaque para Inglaterra, Alemanha, França e até a pequena Bélgica que cabe no estado do Espírito Santo. Contudo sua crueldade com o seu “pedaço” da África conhecido naquela época como Congo Belga é digno de filme de terror. Abusando da escravidão, mutilação e literalmente surrupiada a riqueza daquele país sem precedentes históricos.
E sempre com a alegação de ser um processo de civilização superior a uma civilização inferior. Mas, verdadeiramente ideológica e de expansão imperialista e nada mais. Afinal, o capitalismo necessitava de matéria–prima para sua expansão e mão-de-obra barata para seus mercados, com as bênçãos das religiões, principalmente sem organização sindical e a consciência de cidadania caracterizada por direitos e deveres baseados em um Estado constituído democraticamente.
No século XX o processo de retirada desses países, principalmente na África, provocou o caos social com vários grupos disputando o poder e normalmente financiados pelas potencias europeias. Dessa forma escondiam sua ação e domínio em suas antigas colônias.
No século XXI, após três séculos de supremacia da Revolução Industrial e do capitalismo vivemos um novo caos, o do aquecimento global. E o planeta que tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos segundo os cientistas, contrariando “terraplanistas” e “pastores fundamentalistas”, não está dando conta da devastação dessa supremacia. Estamos cada dia mais perto de um mundo apocalítico, pela insanidade do “bicho homem” e de sua ganancia desenfreada.
E você já deve estar perguntando, onde entra o “ouro de sangue”, bom ele está no seu celular, nos computadores, na web e redes sociais. Pois, tudo utiliza filamentos de ouro em sua fabricação. Segundo uma reportagem de 2022 do Brasil Repórter (uma agência independente e premiada de jornalismo investigativo) de Daniel Camargos, em 2019, de todo ouro que circulou no E.U.A. 37% vinha do ouro de sangue ligado a aparelhos eletrônicos. Numa conexão entre garimpo ilegal com as Big Techs, com esse ouro sendo usado nos celulares, notebook e superservidores que comandam o emaranhado das redes da internet pela exploração de terras indígenas Yanomami, Munduruku e Kayapó.
Lembrando que o garimpo ilegal afeta toda a floresta amazônica e depois a única coisa que sobra e devastação total, com o meio ambiente praticamente destruído e os rios contaminados de mercúrio por séculos.
Em fevereiro de 2023, os repórteres César Tralli e Marcus Passo da G1 Pará e TV Globo, publicaram uma reportagem sobre o caminho do ouro de sangue e a ilegalidade. Que culminou com a excelente reportagem sobre uma operação da Polícia Federal desmontando todo o esquema criminoso responsável pelo contrabando de um pouco mais de 13 toneladas de ouro com seu auge no período de 2020 a 2022. Segue link da reportagem para uma leitura mais apurada.
Lembrando que o garimpo ilegal afeta toda a floresta amazônica e todo o equilíbrio do planeta. E sua única herança é a devastação total do meio ambiente e dos rios contaminados por séculos pelo mercúrio. Assim, devemos refletir se queremos que a Amazônia vire um grande canteiro de terra arrasada, rios envenenados, estupros, prostituição, criminalidade e mortes ou lutaremos pela sobrevivência da floresta com novos arranjos produtivos sustentáveis e que trazem a paz, prosperidade e riqueza social.
A escolha está em nossas mãos se continuaremos a ser uma colônia no século XXI, deixando extraírem nossas riquezas, desde a invasão portuguesa. Ou assumimos de fato nosso potencial e protagonismo como o país do futuro investindo na preservação da floresta sustentável e na educação que produzem tecnologia e desenvolvimento social. Bora refletir!
Sobre o autor
Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).
Passeata dos 100 mil, contra a ditadura militar. Foto: Evandro Teixeira (26/06/1968)
Por Walace SO*
Buenas bela Manaus, depois de um recesso retorno das bandas do Rio Madeira em terras amazônidas. Em 13/12/1968 foi decretado o terrível AI-5, um dos momentos mais nefastos da história brasileira e contra a Democracia e Estado de Direito. E para refletir, compartilho um trecho de Chico Buarque de Holanda:
“Num tempo Página infeliz da nossa história Passagem desbotada na memória Das nossas novas gerações
Dormia A nossa pátria-mãe tão distraída Sem perceber que era subtraída Em tenebrosas transações
Seus filhos Erravam cegos pelo continente Levavam pedras feito penitentes Erguendo estranhas catedrais”
Não podemos esquecer todo mal da ditadura militar e sua nefasta herança, que hoje ainda é viva. Aqueles que estavam nos porões e nos esgotos, hoje andam com a arma numa mão, a bíblia na outra e com a bandeira no ombro.
Esses falsos “homens de bem” são arautos do apocalipse e defensores do terror. Nossa democracia ainda engatinha, mas um dia será adulta e consciente. Lutar contra as instituições republicanas é um projeto do autoritarismo, resistir a ele e construir o diálogo institucional não é fácil. Deixamos de ser o país dos coronéis para sermos o país dos “pastores”, e em ambos o “curral eleitoral” é a prática. O primeiro alimentado pelo medo, o segundo pela ignorância.
A república brasileira foi anunciada, mas ela precisa de fato ser proclamada e vivida em sua essência e plenitude. Caso contrário seremos o país das milícias, onde religiosos abençoam armas e se dizem defensores da vida.
Bora refletir!
Sobre o autor
Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).
Figura ímpar, o professor foi reconhecido por seu conhecimento e contribuições notáveis para o avanço da ciência no Brasil. Foto: Reprodução/MUSA
De grande relevância para a ciência brasileira e para a comunidade científica mundial, o professor, físico e diretor-geral do Museu da Amazônia (Musa) em Manaus (AM), Ennio Candotti, morreu neste 6 de dezembro.
Nascido em Roma, na Itália, Ennio veio para o país aos 10 anos e foi naturalizado brasileiro. Formado em física, era professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Candotti foi Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência com o maior número de mandatos na entidade – como vice-presidente (1985-1987, 1987-1989, 2011-2013) e (2013-2015), e como presidente (1989-1991, 1991-1993, 2003-2005 e 2005-2007).
Recebeu, em 1998 o prêmio Kalinga de Popularização da Ciência, dado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura por habilidades excepcionais na divulgação científica.
A notícia de sua morte deixou a sociedade científica comovida. Em nota, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), declarou que o professor era uma figura ímpar, reconhecido por seu conhecimento e contribuições notáveis para o avanço da ciência no Brasil.
“Seu legado será eternamente lembrado como exemplo de dedicação, comprometimento e amor pela ciência. A comunidade científica perde um grande líder, mas suas ideias e realizações continuarão a inspirar futuras gerações de pesquisadores”, informou o Inpa em nota para imprensa.
Foto: Valter Calheiros/Facebook-Museu da Amazônia
A nota ainda reconhece que a partida de Ennio “deixará uma lacuna irreparável na comunidade científica brasileira”. O presidente Luis Inácio Lula da Silva também manifestou suas condolências no ‘X’ (antigo Twitter).
Hoje perdemos Ennio Candotti, físico ítalo-brasileiro e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Ennio foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência por quatro mandatos e mais recentemente era diretor do Museu da Amazônia. Sempre foi comprometido…
Candotti atuou ativamente na divulgação científica, tendo participado da criação de “Ciência Hoje” e “Ciência Hoje das Crianças” e da “Ciência Hoy” da Argentina. Foi editor de “Ciência Hoje” de 1982 a 1996. Em 1999 compartilhou com a Sra. Regina Paz Lopes o prêmio Kalinga de popularização da Ciência concedido pela UNESCO com o patrocínio da Fundação Kalinga de Bhubaneswar, Orissa, Índia. Em 2002 fundou com cientistas e comunicadores indianos e de outros países a International Union of Scientific Communicators, Associação com sede em Mumbai.
Durante sua trajetória científica, foi, desde cedo, bolsista da FAPESP e do CNPq, realizou estágios de pesquisa em física teórica no Instituto de Física da Universidade de Pisa e na Scuola Normale Superiore de Pisa, Italia entre 1966-67, e no Instituto de Física Teórica da Universidade de Munique, Alemanha (1968-69) e mais tarde no Instituto de Física da Universidade de Nápoles/INFN (1969-1972).
Em 2001 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Campina Grande. Foi membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia de 2003 a 2007; e de 2011 a 2015.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), uma fundação vinculada ao Ministério da Educação, também lamentou a perda do professor.
“A CAPES manifesta profunda tristeza pela morte do físico Ennio Candotti nesta quarta-feira, 6/12. Nascido na Itália, o cientista chegou ao Brasil em 1952 e por aqui fez toda sua carreira. Atuou em diversas instituições de ensino públicas, como estudante na Universidade de São Paulo (USP) e como professor nas Universidades Federais do Amazonas (Ufam), do Espírito Santo (Ufes) e do Rio de Janeiro (UFRJ), além da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Reconhecida personalidade da pesquisa e pós-graduação brasileiras, Candotti foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) por quatro vezes e, desde 1999, era presidente de honra da instituição. O físico fundou e foi o primeiro diretor do Museu da Amazônia (Musa), deixando um legado de dedicação à ciência do País”, informam.
Musa fechado
De luto, o Museu da Amazônia, local que Ennio foi idealizador e diretor, decretou fechamento nesta quinta-feira (7) e que comunicará quando o espaço estiver disponível para visitas novamente.
Realizado anualmente pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Prêmio Jabuti é o mais importante do mercado editorial brasileiro. Em sua 65ª edição, a premiação tem entre seus semifinalistas a obra ‘Linklado: teclado digital para línguas indígenas‘, fruto de uma parceria entre as cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Noemia Kazue Ishikawa, Ana Carla Bruno e Ruby Vargas-Isla, com dois jovens estudantes amazonenses: Samuel Minev Benzecry e Juliano Dantas Portela. O aplicativo está disponível gratuitamente para Android e iOS.
Concorrendo no eixo Inovação, categoria ‘Fomento à Leitura’, o projeto é sobre o desenvolvimento de um aplicativo que reúne caracteres especiais e combinações de diacríticos para mais de 40 línguas indígenas. A ideia de criar um teclado inclusivo nasceu por volta de 2009, enquanto Noemia e Ruby realizavam um trabalho com os povos Tikuna (Magüta), no Alto Rio Solimões.
“Em 2001, eu tinha escrito parte da minha tese [de doutorado] em língua japonesa, em um computador com teclado em japonês. Então, eu não me conformava. Se dá para escrever em língua japonesa com milhares de ideogramas, que é muito mais complexo, por quê não conseguir escrever menos que uma dezena de caracteres da língua indígena?”, questionava Noemia.
A falta de um teclado específico dificulta a continuidade da escrita em muitas etnias. “Diversas línguas indígenas estavam excluídas da revolução digital por terem em seu vocabulário caracteres especiais, como ʉ, ɨ, g̃, ʉ̈̃ e i̇̂, por exemplo, que não estavam na maioria dos teclados físicos e virtuais. Isso fazia com que os falantes dessas línguas se comuniquem evitando escrever ou usando substitutos para esses caracteres. O problema também era enfrentado por estudantes indígenas que queriam escrever suas monografias, dissertações, teses, em suas línguas. Assim como escritores que queriam publicar suas obras em línguas indígenas”, detalha.
Foram necessários aproximadamente 14 anos de discussões sobre o assunto entre as cientistas do Inpa e consultas com o setor de Tecnologia da Informática, até encontrar os jovens universitários Samuel Minev Benzecry e Juliano Dantas Portela, responsáveis pelo desenvolvimento do Linklado. Na época, ambos tinham 17 anos.
“Foi muito emocionante ver que o aplicativo que os meninos criaram funcionava no celular, no computador e especialmente quando vimos que os caracteres não desconfiguravam na hora de imprimir”, relembra Ruby.
O lançamento oficial do aplicativo aconteceu em 11 de agosto de 2022, na Banca do Largo São Sebastião, localizado no Centro Histórico de Manaus. Entre tantos exemplos, o Linklado foi utilizado para tradução da obra “Embaúba: uma árvore de muitas vidas” para a língua Tikuna, da autora Cristina Quirino Mariano, que hoje também faz parte do projeto como tradutora.
“Participar do projeto Linklado e ser reconhecido pelo Prêmio Jabuti é uma honra imensa. Este prêmio não é apenas um marco na carreira de qualquer pesquisador ou escritor, mas também uma plataforma poderosa para dar visibilidade a iniciativas cruciais como a nossa. O Linklado é mais do que um aplicativo: é uma ferramenta de empoderamento e preservação cultural. Ao possibilitar a escrita em mais de 40 línguas indígenas, estamos contribuindo para a sobrevivência dessas línguas, promovendo a diversidade linguística e cultural que é tão rica no Brasil. O Prêmio Jabuti, sendo o mais importante do mercado editorial brasileiro, reconhece não só a inovação tecnológica que o Linklado representa, mas também a sua importância social e cultural. Este prêmio ajudará a ampliar o alcance do nosso projeto, alcançando mais falantes e incentivando o uso dessas línguas tanto no dia a dia quanto em contextos acadêmicos e literários. É um passo gigantesco para garantir que as vozes das comunidades indígenas sejam ouvidas e preservadas para as futuras gerações”, comenta Juliano Portela.
Cristina Quirino Mariano afirma: “o Linklado mudou totalmente minha vida para conversar com os meus parentes. Quando eu escrevia em português, meus parentes não entendiam direito. Então eu mandava mensagens só no áudio, na minha língua. Agora com o Linklado eu consigo escrever com todas as letras e eles entendem bem. E falei para eles baixarem o Linklado também. Agora a gente escreve tudo na nossa língua e a conversa ficou melhor”.
“Usando o Linklado também tive a chance de trabalhar como tradutora de livros, o que me ajuda a ter uma renda extra e fazer livros na língua do meu povo Magüta (Tikuna). Por isso, acho que o Linklado merece ganhar o Prêmio Jabuti, porque traz tecnologia para o povo indígena”, diz Cristina.
Cristina é do povo Magüta (Tikuna). Nasceu na comunidade indígena Belém do Solimões, na Terra indígena Eware 1, localizada no município de Tabatinga, Amazonas, em 1993. Mora em Manaus desde 2015. Em 2019, ingressou no curso de Farmácia em uma universidade da capital. Atualmente participa do projeto ‘Redes de mulheres indígenas tradutoras e cientistas: conexões para uma educação transformadora em ciência no Amazonas’, do programa Amazônidas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), coordenado pela pesquisadora Noemia Kazue Ishikawa, desenvolvido no Inpa.
“Estamos muito felizes e eu, particularmente, pois estamos vivenciando a Década das Línguas Indígenas no mundo que vai de 2022 a 2032. Ação e movimento declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) com participação de vários povos indígenas do mundo e que tem como lema ‘Nada para nós sem nós’. E no Brasil várias mulheres indígenas estão encabeçando o movimento. Penso que o aplicativo Linklado pode ser uma singela contribuição da nossa equipe para Década das Línguas Indígenas no Brasil. A possibilidade de escrever na língua materna é uma das maneiras de mantê-las em uso, sobretudo entre os jovens. Ter o Linklado entre os finalistas do Jabuti, para mim, é possibilitar que o Brasil reconheça a sua diversidade linguística e que respeite os falantes destas línguas”, comenta Ana Carla Bruno.
“Participar de um projeto como o Linklado me afetou muito no sentido de manter minha esperança sobre o futuro da presença indígena milenar na Amazônia e através do continente Americano. O esforço de manter línguas em risco vivas, afinal, é o primeiro passo para aplicar conhecimentos ancestrais e garantir a convivência de humanos e não-humanos no Antropoceno”, declara Samuel Minev Benzecry.
Apesar das conquistas, Noemia afirma que a vitória ainda não foi totalmente alcançada. “Criamos o Linklado, mas precisamos divulgar melhor o aplicativo. Ainda falta chegar a mais usuários, os falantes das línguas, tanto para uso cotidiano, quanto na academia e no setor editorial de livros. Achamos que o Prêmio Jabuti pode ser um importante canal para que o aplicativo chegue ao conhecimento de mais e mais indígenas, e não indígenas que escrevem e publicam literatura, e consequentemente, os leitores em línguas indígenas”, finaliza.
Os membros da equipe do Linklado que concorre ao prêmio são: Samuel Minev Benzecry e Juliano Dantas Portela, Ana Carla Bruno, Ruby Vargas Isla Gordiano, Cristina Quirino Mariano e Noemia Kazue Ishikawa.
Prêmio Jabuti
Considerado um patrimônio cultural do Brasil, o Prêmio Jabuti é responsável por reconhecer e divulgar a produção literária nacional, com a valorização de cada um dos elos que formam a cadeia do livro. A premiação também tem o propósito de dialogar com os diversos públicos leitores e assimilar as mudanças da sociedade.
Neste ano, o Prêmio Jabuti tem 21 categorias literárias divididas em quatro eixos: “Literatura”, “Não Ficção”, “Produção Editorial” e “Inovação”, além do tão esperado “Livro do Ano”.
A divulgação dos dez semifinalistas de cada categoria aconteceu no dia 9 de novembro, enquanto a dos cinco finalistas está marcada para 21 de novembro, às 12h. A cerimônia de premiação será realizada no dia 5 de dezembro, às 20h, no Theatro Municipal de São Paulo (SP). Mais informações estão disponíveis no site oficial: premiojabuti.com.br.
Desmatamento e fungos letais já eram apontados como causas do declínio, mas agora biólogos ressaltam o papel da crise climática: altas temperaturas e baixa umidade afetam a respiração dos anfíbios, que é feita em parte pela pele.
A rãzinha-do-tepequém (Anomaloglossus tepequem) costumava ser observada em abundância em riachos da Serra do Tepequém, no estado de Roraima. Endêmica do Brasil e dessa localidade em específico, ou seja, só encontrada ali e em nenhum outro lugar do planeta, acredita-se que ela tenha desaparecido da natureza. Desde a década de 1990, nunca mais essa espécie amazônica foi vista.
Essa rã é um das 26 classificadas como possivelmente extintas no país, segundo o mais novo levantamento global de anfíbios feito pela União Internacional para a Conservação das Espécies da Natureza (IUCN). E os números são assustadores. Dois em cada cinco deles estão ameaçados.
O estudo teve a participação de mais de mil especialistas ao redor do mundo. Foram analisadas 8 mil espécies de anfíbios — entre sapos, rãs, salamandras, cobras-cegas e outros —, quase 3 mil a mais do que na última análise, realizada em 2004.
O grande destaque desta vez é o papel cada vez maior das alterações climáticas para o declínio global de anfíbios, considerados os mais ameaçados entre a classe dos animais vertebrados. Nada mais do que 40% de suas espécies estão com algum risco de extinção.
A rãzinha-do-tepequém (Anomaloglossus tepequem). Foto: Antoine Fouquet
Desmatamento, perda de habitat e a ocorrência de doenças, como a quitridiomicose, que tem devastado populações inteiras, já eram fatores mais amplamente documentados como ameaças, mas agora os biólogos alertam que o aumento da temperatura, a baixa umidade e a seca, consequências das mudanças no clima, estão aumentando ainda mais a pressão sobre muitas espécies de anfíbios.
De acordo com o estudo, de 2004 a 2022, mais de 300 espécies foram levadas bem próximas à extinção e 30% desses casos foram provocados, principalmente, pela crise climática.
“A água é essencial para a reprodução dos anfíbios. É nela que eles se reproduzem e os girinos nascem”, explica o biólogo Iberê Farina Machado, coordenador da Avaliação de Anfíbios no Brasil da Comissão de Sobrevivência das Espécies da IUCN e um dos coautores do artigo.
Além disso, alterações na temperatura e na umidade impactam a saúde e colocam em risco a sobrevivência desses bichos.
“Os anfíbios possuem a pele úmida e é através dela que respiram. Algumas espécies usam uma certa porcentagem maior do pulmão e outra da pele para a troca gasosa ou vice-versa. Se o clima está seco demais, isso afeta a respiração deles”.
Mapa produzido pelo levantamento revela onde estão as 2.873 espécies de anfíbios ameaçadas de extinção; a maioria está nas zonas de altitude, onde há cada vez menos umidade disponível
26 espécies possivelmente extintas no Brasil
O Brasil é o país com maior diversidade mundial em anfíbios, abrigando cerca de 1.200 espécies. Quase um terço delas foram avaliadas pela primeira vez nesse novo relatório.
A avaliação apontou que 189 espécies estão atualmente classificadas como criticamente (tem um s sobrando aí) ameaçadas, em perigo ou vulneráveis à extinção no Brasil. E o que preocupa mais é que a grande maioria delas é endêmica.
“O cenário é ainda mais sombrio quando temos em conta as 26 espécies classificadas como possivelmente extintas, não tendo sido avistadas em ambientes naturais desde a década de 1980 ou antes”, ressalta Machado.
É o caso da rãzinha-verrugosa-do-itatiaia (Holoaden bradei) e a rã-das-pedras-de-petrópolis (Thoropa petropolitana), ambas encontradas no século passado na Mata Atlântica. Entretanto, a última vez que a petropolitana foi avistada nos riachos da serra fluminense foi em 1982.
O biólogo esclarece que, no Brasil, o desmatamento e a expansão agropecuária e urbana continuam sendo os principais responsáveis pela extinção de anfíbios. Todavia, as alterações climáticas estão cada vez mais presentes.
Estima-se que nos últimos 40 anos, por exemplo, a Amazônia tenha ficado 1 ºC mais quente e apresentado uma taxa de redução de chuvas de até 36% em algumas áreas. As secas extremas no bioma são cada vez mais recorrentes. Neste exato momento, os estados amazônicos vivem uma das piores estiagens de sua história. Rios secaram e a navegação foi interrompida, deixando populações ribeirinhas sem acesso a alimentos e água potável. Mais de cem botos foram encontrados mortos no Lago de Tefé.
“À medida que os humanos provocam mudanças no clima e nos habitats, os anfíbios são incapazes de se deslocar muito longe para escapar do aumento da frequência e da intensidade do calor extremo, dos incêndios florestais, da seca e dos furacões acarretados pelas alterações climáticas”,
destaca Jennifer Luedtke Swandby, coordenadora da Autoridade da Lista Vermelha do Grupo de Especialistas em Anfíbios da IUCN e uma das envolvidas no estudo.
Anfíbios de altitude são os mais afetados
Seca e estiagem são sinônimos de falta de água e umidade. Nesse cenário desolador para a sobrevivência dos anfíbios, imagina-se que aqueles que vivem mais perto do solo seriam os mais impactados. Contudo, não é bem assim. As espécies que habitam áreas mais altas, acima dos 1.600 metros de altitude, perecem mais rapidamente.
Em regiões de grandes serras, como o Parque Nacional do Itatiaia, no Rio de Janeiro, ou no Monte Roraima, ao norte do país, sapos, rãs, pererecas e demais anfíbios sofrem mais com os distúrbios climáticos.
“Temos percebido as linhas das nuvens cada vez mais altas, ou seja, há menos umidade disponível para eles no topo das montanhas. E como eles não conseguem escapar mais para o alto, acabam se tornando reféns do clima”, diz o biólogo brasileiro.
A perda de tantas espécies e a iminente extinção de possíveis outras são um novo alerta sobre a necessidade urgente de se conter as causas das mudanças climáticas e mitigar seus efeitos. Os anfíbios são importantes bioindicadores da saúde de seus ecossistemas e, consequentemente, do planeta.
“O mundo aquecendo vai perdendo muitas mais espécies do que seres humanos e eles nos servem como um alerta”,
afirma Machado.
“Os anfíbios estão desaparecendo mais rapidamente do que podemos estudá-los, mas a lista de razões para protegê-los é longa, incluindo seu papel na medicina, no controle de pragas, alertando-nos para as condições ambientais e tornando o planeta mais bonito”, acrescenta Kelsey Neam, coordenadora de prioridades e métricas de espécies da Re:wild e uma das principais autoras do estudo.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Suzana Camargo