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Justiça impede ICMBio de retirar ‘bois piratas’ de floresta protegida na Amazônia

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Cerca de 1.500 bois estavam prestes a ser retirados da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no sudoeste do Pará, onde os animais são criados ilegalmente em uma área da Amazônia  que deveria ser de mata preservada. 

Porém, no dia 22 de maio, a Justiça Federal barrou a operação do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão ambiental do governo federal, e permitiu que o pecuarista apontado como infrator retomasse o gado.

A decisão judicial, acessada pela Repórter Brasil, é em caráter liminar (provisório) e foi tomada pelo desembargador Eduardo Filipe Alves Martins, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). O processo corre em sigilo.

O magistrado reverteu sentença de 1ª instância que havia negado anteriormente o mesmo pedido do pecuarista Rodrigo da Cruz Pereira. Agora, com a decisão favorável, o fazendeiro tem dez dias para transportar o gado para fora da floresta protegida. O valor do rebanho apreendido supera R$ 4 milhões, estima o órgão ambiental.

O ICMBio, ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, deu início à operação em 3 de abril, quando publicou no Diário Oficial uma notificação para que pecuaristas  retirassem as cabeças dos chamados ‘bois piratas’ em 30 dias.

Como o transporte voluntário dos animais não ocorreu, o Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) expediu em 6 de maio uma recomendação para a remoção dos animais.

A retirada de fato começou pela Fazenda Ferradura, arrendada por Rodrigo Pereira, mas embargada por desmatamento ilegal. O ICMBio e a Adepará (Agência de Defesa Agropecuária do Pará) cogitaram a possibilidade de destinar parte do gado apreendido para o Rio Grande do Sul, assolado por enchentes históricas. A operação visava remover até 6.000 animais de algumas fazendas da região. A ação, porém, foi bloqueada na primeira fazenda fiscalizada após a liminar judicial.

Na avaliação de uma fonte ligada à operação, que não será identificada, o caso ilustra a dificuldade de combater crimes ambientais na Amazônia. “Estão dando salvo conduto para uma pessoa que está com gado dentro de área embargada. É um salvo conduto para o crime”, critica.

O advogado Pedro Henrique Gonçalves, responsável pela defesa do fazendeiro, diz que está na propriedade acompanhando o transporte dos animais. “Se não fosse a burocracia imposta, conseguiríamos retirar de forma mais eficiente”, afirmou.

O MPF-PA disse que não iria comentar, pois o caso corre em sigilo. Já o ICMBio não respondeu.

Imagens da Fazenda Ferradura, onde o pecuarista Rodrigo da Cruz Pereira criava milhares de animais dentro de uma área que deveria ser de mata preservada. A propriedade fica a apenas 15 km da Fazenda Arara Azul, fora da Flona do Jamanxim, de onde o fazendeiro vendia animais para frigoríficos. Fato levanta suspeita para ‘lavagem de gado’ (Foto: Reprodução)

Apreensão de animais é mais eficiente que multas e embargos

A apreensão de animais criados ilegalmente em áreas de conservação é considerada uma das medidas mais eficazes para coibir crimes ambientais na Amazônia. Segundo o ‘Protocolo para Retirada de Gado de Áreas Protegidas’, do ICMBio, as multas e os embargos não têm surtido o efeito necessário.

De acordo com o documento, as multas aplicadas por desmatamento raramente são pagas e não costumam atingir seu objetivo. “A apreensão do gado criado ilegalmente nas áreas desmatadas e a retirada de estruturas ligadas a essa atividade tendem a reverter ambas as deficiências, já que promovem uma invariável descapitalização do infrator e, automaticamente, permitem a recuperação ambiental do local”, diz o texto.

O MPF-PA, no documento em que recomenda a operação na Flona do Jamanxim, alerta que há ‘indícios de um esquema de ‘lavagem de gado” na região. O protocolo do ICMBio também alerta para essa suspeita, na qual bois com origem em áreas irregulares são transferidos para locais sem qualquer ilegalidade – e assim misturados com animais criados de forma regular, dificultando o monitoramento.

De acordo com a Procuradoria, esses animais criados ilegalmente em áreas de preservação costumam sujar toda a cadeia de produção de carne, pois acabam vendidos de forma indireta para frigoríficos, que posteriormente vendem a carne para supermercados.

A Repórter Brasil teve acesso a imagens feitas na Fazenda Ferradura que mostram brincos de identificação de animais com o nome de outra propriedade fora da Flona do Jamanxim. É a Fazenda Arara Azul, a apenas 15 quilômetros da área embargada, e apontada como origem de centenas de animais vendidos por Rodrigo da Cruz Pereira, entre 2018 e 2022, segundo dados de trânsito animal obtidos pela reportagem. 

“Não vejo qualquer indício de ‘lavagem de gado’. Estamos tratando de trabalhadores rurais que estão na região desde a década de 80 e só fazem trabalhar. O único fato que envolve tais personagens, é o fato de serem familiares e atuarem no mesmo ramo de atividade, inexistindo crime”, respondeu Pedro Henrique Gonçalves,  advogado de Pereira, após ser questionado sobre os brincos da Fazenda Arara Azul encontrados dentro da unidade de conservação.

A Procuradoria alega também que há risco sanitário na criação de animais em áreas embargadas e sem registro, situação que não permite o controle e monitoramento adequado dos animais.

Santuário verde cobiçado pelo agronegócio

A Flona do Jamanxim é uma área de 1,3 milhão de hectares situada às margens da BR-163 e cobiçada pelo agronegócio. A rodovia é conhecida como estrada da soja e conecta a zona graneleira do norte do Mato Grosso aos portos exportadores no rio Tapajós. Poucos quilômetros dali está o Parque Nacional do Jamanxim, que está no centro de uma disputa judicial no Supremo Tribunal Federal envolvendo a construção da Ferrogrão – conhecida como ‘ferrovia da soja’.

Segundo o MPF-PA, a Flona do Jamanxim historicamente figura “como a unidade de conservação federal mais desmatada do país”. Desde 2006, quando foi criada, até 2022, quase 10% da floresta foram destruídos e convertidos em pasto para criação ilegal de gado. 

A Flona do Jamanxim se tornou uma das áreas prioritárias de atuação do ICMBio neste ano, com foco na retirada dos animais. Essa ação se tornou mais frequente nas unidades de conservação da região. Em 2023, mais de 3.000 cabeças foram removidas da Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, segundo o MPF-PA. Tal operação resultou na destinação de mais de 4.200 hectares para recuperação ambiental, além de multas superiores a R$ 24 milhões. 

Na Flona do Jamanxim, só é permitida a exploração sustentável por ribeirinhos e extrativistas, além de atividades de pesquisa. Fazendeiros, porém, alegam que ocupavam a área antes de a reserva ser criada, mas que não receberam indenizações da União para deixarem o local.

Fazenda Ferradura está localizada muito próxima dos limites da Flona do Jamanxim (Poliana Dallabrida/dados de Google Satellite, CNFP e Qgis de maio de 2024)

No pedido ao TRF1, os advogados de Rodrigo da Cruz Pereira alegam que o pecuarista não é dono da área, mas sim um ‘terceiro de boa-fé’, que arrenda o imóvel desde 2018 e não tem ‘conhecimento acerca de possíveis ilegalidades’. Alega também que o dono do imóvel o possui desde 2002.

“Naquela região existem pessoas que estão há décadas em seus imóveis, muito antes da criação da Flona, e o gado ali existente é fruto de uma vida toda“, dizem os advogados.

Em sua decisão, o desembargador Eduardo Filipe Alves Martins entendeu que o pecuarista não teve acesso “ao auto de infração, ao relatório de fiscalização e ao processo administrativo que deu origem à notificação de retirada de gado de sua propriedade/posse, não podendo exercer o contraditório e a ampla defesa”.

“No arrendamento temporário de pastagens, não é usual se verificar a regularidade do imóvel cujos pastos são arrendados, bastando o conhecimento e a concordância de quem se apresenta como seu legítimo possuidor. E não consta, ao menos neste momento processual, que o agravante teria conhecimento de tais embaraços por outros meios”, diz o desembargador.

No entanto, segundo a fonte ligada à investigação, a presença dos brincos da Arara Azul em área situada dentro da Flona é um indício de que o fazendeiro tinha conhecimento de que criava gado ilegalmente em uma unidade de conservação.

O MPF-PA alerta em sua recomendação que “ninguém poderia manter atividades de pecuária em áreas ilegalmente desmatadas no interior da Flona Jamanxim e que isso, por si só, já ensejaria todas as medidas administrativas e criminais previstas em lei”.

Versão anterior desta reportagem informava, erroneamente, que a Flona do Jamanxim está no centro de uma disputa judicial no STF envolvendo a Ferrogrão. Porém, é o Parque Nacional do Jamanxim que é objeto da ação no Supremo. O texto foi corrigido em 27 de maio de 2024.

*O conteúdo foi originalmente publicado no Repórter Brasil, escrito por Isabel Harari e Diego Junqueira, com edição de Juliano Barros

Peixe da Amazônia se mostra sensível ao calor intenso

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Nativo da Amazônia e consumido em todo o país, o tambaqui (Colossoma macropomum) se mostrou sensível a agrotóxicos encontrados nos rios da Região Norte. Os efeitos se agravam – e as defesas do organismo contra contaminação caem ainda mais – quando os pesticidas agem sob temperaturas mais elevadas que as atuais, como previsto pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) submeteram 36 tambaquis jovens, com 35 gramas e 10 centímetros em média, divididos em três grupos, a condições experimentais por 96 horas.

Depois, avaliaram os efeitos da mistura de quatro agrotóxicos (os inseticidas clorpirifós e malation, o fungicida carbendazim e o herbicida atrazina) sob as condições ambientais atuais e as previstas para 2100 (com aumento de 5 graus Celsius e de 700 partes por milhão de CO2) sobre sangue, brânquias, fígado, cérebro e músculos. 

Os pesticidas causaram danos mesmo em baixas concentrações. Quanto maior o calor, mais intensas são as alterações nas enzimas antioxidantes, no DNA e no fígado, reduzindo a capacidade de se ajustar às mudanças climáticas.

Conclusão: a combinação de estímulos externos poderia comprometer a sobrevivência da espécie. Após a tilápia (Oreochromis niloticus, uma espécie exótica), o tambaqui é a segunda espécie de peixe mais cultivada no país, principalmente em Rondônia, Maranhão e Roraima. Tem em média 70 cm de comprimento e pode pesar até 30 quilos (Science of The Total Environment, abril).

*O conteúdo foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP

Festival de Parintins: a ilha divida em azul e vermelho

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Localizado a 369 quilômetros de Manaus, o município de Parintins, no Amazonas, é palco das apresentações dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, que protagonizam o maior Festival Folclórico do mundo. A cidade, onde tudo é azul e vermelho – as cores dos bois –, encontra harmonia a favor da cultura.

As cores azulada e encarnada estão presentes na arquitetura da cidade, nos espaços públicos, nas casas dos apaixonados pelos bumbás, em hotéis, restaurantes e nas vitrines de loja, onde marcas mundialmente famosas de cor azul adotam mais uma versão na cor vermelha e marcas mundialmente famosas de cor vermelha adotam a versão azul.

O azul do boi Caprichoso e o vermelho do boi Garantido também dividem a cidade na localização geográfica, onde a catedral de Nossa Senhora do Carmo é o ponto de partida.

Foto: Lucas Silva/Amazonastur

Lado Azul

O lado azul é conhecido como reduto do Caprichoso. Inclui bairros da cidade onde está localizado o curral Zeca Xibelão. Nos currais, os visitantes podem acompanhar os eventos e ensaios de cada boi e aproveitar uma prévia da magia do festival.

Outro ponto turístico muito visitado no lado azul é a igreja Sagrado Coração

Lado Vermelho

O lado vermelho, conhecido como Baixa do São José, é onde está situado o curral Lindolfo Monteverde, no complexo Cidade Garantido. Do lado vermelho, está também a praça da igreja São Benedito, famosa entre os turistas.

Pontos neutros

Existem ainda pontos neutros em comum, onde estão os principais atrativos turísticos da cidade, como a Praça Digital, com bares e restaurantes; além do Mercado Municipal, com vista para o rio Amazonas; e o Porto da cidade.

57° Festival

Em 2023, cerca de 110 mil turistas estiveram presentes na Ilha de Tupinambarana, durante o Festival de Parintins. O Governo do Amazonas estima que 120 mil turistas visitem a ilha, em 2024, para o 57º Festival.

Foto: Lucas Silva/Amazonastur

“A expectativa do número de turistas é significativa, o maior festival de todos os tempos. Pensando nisso, o Governo do Amazonas, por meio da Amazonastur, tem investido em uma estrutura necessária para atender aos turistas, como o Turistódromo, com centro de atendimento ao turista, uma equipe técnica preparada para sensibilização e orientação para práticas de um turismo seguro e consciente”, destacou o presidente da Amazonastur, Ian Ribeiro.

Neste ano, o Festival de Parintins irá acontecer nos dias 28, 29 e 30 de junho.

*Com informações da Agência Amazonas e Amazonastur

Microplástico e mudanças climáticas: ameaças aos rios amazônicos

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Mudanças climáticas e microplásticos podem ser listados como duas das maiores ameaças que a humanidade e para a biodiversidade, de maneira geral. Ainda há uma grande lacuna, entretanto, sobre os potenciais impactos destas ameaças aos diferentes seres vivos, em especial aos menores e menos estudados organismos. Em sua pesquisa inédita, a bióloga Viviane Caetano, selecionada pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro em 2021, buscou entender o impacto do clima e da poluição plástica em criaturas fundamentais – e normalmente invisibilizadas – dos riachos amazônicos.

Os insetos fragmentadores são seres aquáticos que vivem no fundo dos riachos e alimentam-se das folhas que caem. Ao comerem e “fragmentarem” as folhas – daí o nome – esses insetos contribuem com a decomposição da matéria orgânica e a geração de nutrientes. E o objetivo da pesquisadora era esclarecer como as mudanças climáticas e a alta concentração de microplásticos poderiam afetar esse importante serviço ecossistêmico.

“Insetos aquáticos, de maneira geral, são normalmente muito negligenciados. Contudo, como qualquer organismo na natureza, eles apresentam uma grande importância nos ecossistemas em que ocorrem. E até o momento não havia estudos sobre os insetos fragmentadores da região amazônica, então havia uma lacuna sobre como os efeitos desses estressores poderia impactar a decomposição foliar em riachos amazônicos”, explica a bióloga, que concluiu seu doutorado na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Para realizar sua pesquisa, Viviane elegeu um desses insetos fragmentadores, uma mosca d’água conhecida pela ciência como Phylloicus elektoros. A bióloga coletou larvas da espécie na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus, Amazonas, e as levou para o laboratório. Em um ambiente controlado, a pesquisadora pôde manipular uma solução de microplástico e variáveis climáticas para criar cenários possíveis e a resposta da mosca d’água.

“Sem o apoio do Bolsas FUNBIO seria praticamente impossível a execução do experimento, visto que os reagentes e a solução de microplástico são muito caros. Então seria inviável adquirir isso”, destaca a pesquisadora, que também contou com o recurso para compra dos equipamentos necessários e para o campo de coleta dos insetos.

Um dos principais resultados da pesquisa é a confirmação de que tanto as mudanças climáticas quanto o microplástico reduzem a sobrevivência do inseto fragmentador. E nas situações em que as duas ameaças ocorrem simultaneamente, há uma redução do consumo de folhas e, consequentemente, um efeito direto na prestação do serviço ecossistêmico tão fundamental para a saúde dos rios amazônicos.

Entre as consequências dessa ameaça invisível estão a bioacumulação e biomagnificação. Isso porque além de ajudarem na decomposição da matéria orgânica, os insetos fragmentadores estão na base da cadeia alimentar em ecossistemas de riachos e igarapés. “E isso pode levar ao aumento das concentrações de microplástico através da cadeia alimentar, o que chamamos de biomagnificação”, conta a bióloga.

Isso significa que se um peixe consome centenas de moscas d’água, por exemplo, que possuem concentrações de microplástico em seus organismos, este resíduo será acumulado no corpo do peixe e assim por diante, até o momento em que, talvez, este animal seja consumido por um ser humano, numa ameaça direta a nossa saúde.

A pesquisadora explica que, por serem provenientes da degradação de plásticos maiores, os microplásticos possuem diferentes formas, composições químicas e aditivos, o que faz com que eles tenham diferentes densidades. Por isso, em um ambiente aquático, eles podem ser encontrados tanto no sedimento quanto ao longo de toda coluna d’água e até mesmo na superfície da água.

“E uma vez ali, disponível para todos os organismos, vertebrados e invertebrados, eles podem ter impactos biológicos e ecológicos mais proeminentes”, alerta Viviane.

A lista de impactos, já conhecidos pelos cientistas, causados pelo microplástico incluem ainda o bloqueio do aparelho digestivo de organismos menores e até mesmo efeitos na regulação hormonal de animais, principalmente peixes.

Os resultados completos do experimento foram publicados no periódico científico Environmental Pollution, em março de 2023.

“Nós sabemos que os ecossistemas aquáticos de água doce são imprescindíveis para o funcionamento do planeta, então é fundamental entender o efeito desses estressores nesse ecossistema, assim como em outros ambientes e organismos”, completa a bióloga.

*Com informações da Funbio

Lideranças indígenas de Mato Grosso fazem intercâmbio no Acre para conhecer formação de Agentes Ambientais

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Representantes da Governança Indígena do Programa REM MT realizaram um intercâmbio para conhecer o programa de formação de Agentes Ambientais Indígenas do Acre, que existe há cerca de 20 anos. O Programa REM MT subsidiou a viagem das lideranças com o intuito de trocar experiências com o Programa REM Acre, que apoia a capacitação através de programa de formação e bolsas de estudo para os agentes ambientais no Estado.

Inspirada por este modelo, uma equipe do Programa REM MT, junto com os representantes indígenas, visitaram o Acre para compreender melhor a proposta  do programa de formação e adaptar as melhores práticas à realidade de Mato Grosso. 

O Programa REM Acre atua junto com e com a Associação dos Agentes Agroflorestais do Acre (AMAAIAC). O programa inclui cursos intensivos e monitoramento contínuo das ações dos agentes em formação.

Intercâmbio foi importante para o desenvolvimento do programa de formação em Mato Grosso. Foto: Reprodução/Programa REM MT 

A cientista social e antropóloga do Programa REM MT, Paula Vanucci, explica como está sendo idealizada essa formação em Mato Grosso.

“O objetivo é que o Programa não só forneça formação técnica, mas que também seja um fomento para o reconhecimento dessa categoria, essencial para a defesa dos territórios indígenas. O enfoque principal será na segurança alimentar e na vigilância territorial. A experiência do Acre demonstra que é possível restaurar áreas degradadas e implementar Sistemas Agroflorestais (SAF) e quintais produtivos, garantindo assim a produção de alimentos para as aldeias”, explica Paula.

As lideranças indígenas e os representantes do Programa REM MT acompanharam, por dois dias, o curso de formação dos agentes agroflorestais no Centro de Formação dos Povos Indígenas da Comissão Pró-Indígenas, observando práticas como manejo de tartarugas e tracajás, implementação de SAFs e aproveitamento de águas da chuva com tecnologias sociais. Essas experiências serão fundamentais para a discussão e fechamento do desenho do curso para Mato Grosso, que deverá ocorrer no segundo semestre de 2024. 

Com os resultados promissores verificados no Acre, o Programa REM MT visa replicar esses sucessos, promovendo autossuficiência alimentar e o bem estar das comunidades indígenas, conciliando com a proteção ambiental  e o uso sustentável dos recursos naturais. Este projeto espera não só capacitar novos agentes ambientais indígenas, mas também servir como um legado duradouro para futuras políticas públicas de proteção e desenvolvimento das terras indígenas em Mato Grosso.

*Com informações do Programa REM MT

 

Fiocruz Amazônia e Ibama-AM firmam acordo de cooperação pioneiro para investigação de patógenos em animais silvestres

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O Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis do Amazonas (Ibama-AM) firmaram acordo de cooperação técnico-científica para a realização de pesquisas na área de investigação de patógenos em animais silvestres na Amazônia.

O acordo é pioneiro e tem por objeto estabelecer a cooperação entre o Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama (Cetas-AM) e a Fiocruz Amazônia, por meio de apoio técnico, científico e operacional, por um período de cinco anos (60 meses). O documento foi assinado pela diretora da Fiocruz Amazônia, Stefanie Costa Pinto Lopes, e a diretora de Biodiversidade e Florestas do Ibama, Lívia Karina Passos Martins.

De acordo com Stefanie Lopes, o acordo representa um passo importante no processo de oficialização de uma parceria já existente entre as duas instituições no Amazonas, por meio do Programa Saúde Única, desenvolvido pela Fiocruz Amazônia.

O programa tem como objetivo promover um alinhamento de protocolos e informações sobre resultados de análises de amostras de material biológico coletado de espécimes da fauna amazônica, recebidos pelo Cetas, do Ibama, em Manaus. “A partir de agora, essa parceria é fortalecida”, reforça a diretora.

O Cetas/Ibama AM recebe animais silvestres de diversas regiões do Amazonas e, a partir das análises realizadas, é possível mapear a ocorrência de possíveis surtos de novas doenças infectocontagiosas e o ressurgimento de outras.

A analista ambiental do Ibama, Natália de A. de Souza Lima, chefe do Núcleo de Apoio ao Cetas/Ibama AM, explica que o ACT representa um avanço na parceria existente desde 2019.

“O acordo de cooperação reflete a sinergia das duas instituições na busca por conhecimentos para promover a saúde animal, ambiental e humana. E fortalece a colaboração entre instituições que atuam em áreas aparentemente distintas, inclusive vinculadas a diferentes ministérios, mas que convergem no objetivo maior de consolidar a abordagem de Saúde Única em suas atuações”, desatacou.

A médica veterinária Alessandra Nava, pesquisadora bolsista da Fiocruz Amazônia, lembra que a iniciativa conta também com a parceria do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) e o Projeto Sauim de Coleira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “A intenção é fortalecer a investigação de aspectos sanitários e epidemiológicos dos animais recebidos pelo Cetas. Acessamos o material biológico para poder entender a prevalência de algumas doenças virais e parasitárias que acometem a população silvestre”, explica.

Segundo a veterinária, o acordo de cooperação legitima a parceria e coloca as duas instituições em sintonia com os direcionamentos em One Health (Saúde Única) preconizados pelas organizações Mundial de Saúde (OMS), das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e Mundial de Saúde Animal (OMSA). Natália Lima observa que a parceria e o ACT levam o Cetas do Ibama-AM a um novo patamar. “Além de suas já conhecidas contribuições à reabilitação e conservação de espécies da fauna, amplia sua atuação por meio da geração de conhecimentos e informações, que tem interface com a saúde da população humana”, afirmou.

Os animais recebidos no Cetas-AM vêm de várias partes do Estado, o que permite um mapeamento das prevalências. Geralmente, são animais tanto mantidos em cativeiro quanto de vida livre que sofreram algum tipo de trauma (vítimas de atropelamento, choque elétrico, entre outros).

Biobanco

O conceito de Saúde Única é difundido hoje mundialmente, associando saúde humana, animal e ambiental, como fatores que interagem entre si de forma indissociável. A Fiocruz Amazônia possui um biobanco da vida silvestre com amostras de mais de 200 tipos de animais, entre morcegos, primatas e roedores, coletados não só no Cetas Ibama como também em áreas de floresta na área urbana e rural da Região Metropolitana de Manaus, entre elas, a área de proteção ambiental da Ufam e do assentamento Rio Pardo, onde funciona uma base de apoio a pesquisas da Fiocruz Amazônia, no município de Presidente Figueiredo-AM).

*Com informações da Fiocruz Amazônia

Festa tradicional da Bolívia resgata expressão ancestral dos povos indígenas de Beni 

O departamento de Trinidad celebrou este ano o 338º aniversário da Santíssima Trindade ‘Chope Piesta’, Patrimônio Cultural Boliviano , com diversas atividades que valorizam a identidade cultural dos Trinitários, uma festa que sincretiza a essência dos povos indígenas e da religião católica, que comemora seu dia entre as últimas datas de maio ou primeiro de junho.

“A celebração da Festa da Padroeira da cidade da Santísima Trinidad ‘Chope Piesta’ é declarada Patrimônio Cultural da Bolívia, em reconhecimento à sua indiscutível contribuição à preservação dos valores e tradições culturais e do folclore, ao incentivo à conservação e valorização da identidade nacional e da sua significativa importância social e econômica para o Departamento de Beni e para todo o país”, afirma o artigo 1º da Lei nº 2.612, de 18 de dezembro de 2003.

As atividades começam com a entrada do folclore estudantil que resgata as expressões e mantém vivas as culturas dos povos indígenas do departamento de Beni, onde participaram alunos das diferentes unidades educacionais, recuperando as danças ancestrais e novas que estão relacionadas com a produção agrícola e pecuária daquele Departamento.

Em seguida é realizada na cidade de Trinidad a uma noite cultural com exibições de dança, música, tecelagem, gastronomia e outros elementos que caracterizam os diferentes povos indígenas.

Brasil terá Política Nacional de Fronteiras pela primeira vez na história

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Os 16,9 mil quilômetros de fronteiras terrestres no Brasil em 867 municípios passam a contar com uma atuação maior e mais integrada com estados e municípios, além de maior cooperação internacional, com a publicação, no Diário Oficial da União, do Decreto Nº 12.038, que institui a Política Nacional de Fronteiras (PNFron) e seu Comitê Nacional. A promoção da segurança, desenvolvimento sustentável, integração regional, direitos humanos, cidadania e proteção social são os principais objetivos para a criação da política.

Um comitê formado por representantes de órgãos do governo será responsável pela articulação com a sociedade civil, além da elaboração de estratégia para toda a extensão territorial vizinha a dez países e à fronteira marítima.

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A iniciativa se propõe a contribuir para um Brasil mais próspero, inclusivo e soberano, além de reforçar as fronteiras de aproximação, cooperação e integração, dar respostas à sociedade em questões de fronteiras que se refletem em todo o país e permitir a abrangência de espaços seguros, integrados, desenvolvidos e sustentáveis. Além disso, contribuir para a integração de uma governança de políticas transversais relativas às fronteiras; e aprimorar a integração regional e a cooperação internacional.

A secretária Nacional de Políticas de Desenvolvimento Regional e Territorial do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (MIDR), Adriana Melo, afirma que o órgão atua na faixa de fronteira há bastante tempo. “A Política Nacional de Fronteiras, que foi instituída hoje, vem corroborar a atuação do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional com vistas ao desenvolvimento dessa região que é tão peculiar. A política tem um foco muito grande nas questões de segurança e é estritamente necessária, porque um território inseguro é um território que tem dificuldade de se desenvolver e, para isso, ela está diretamente associada à nossa atuação”, disse.

Segundo a secretária, o ministro do MIDR, Waldez Góes, subscreve também esse decreto, que tem uma participação intensiva do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. “A governança da Política de Fronteiras é multissetorial e dialoga com diversas frentes, como os setores de educação, saúde e economia. Os esforços são complementares e se somam em um propósito maior, que é desenvolver as fronteiras do Brasil, especialmente a fronteira oeste”, explicou Adriana Melo.

Leia também: Saiba quais Estados da Amazônia brasileira fazem fronteira com a Amazônia Internacional

Mecanismos de cooperação

Para acompanhar a implementação e a evolução da PNFron, representantes de 25 ministérios e agências irão compor o Comitê Nacional, que terá, entre outras atribuições, coordenar a elaboração da Estratégia Nacional de Fronteiras e propor mecanismos de cooperação entre órgãos e entidades governamentais, o setor privado e a sociedade civil.

O Comitê também irá promover a articulação e a cooperação com foco em áreas como justiça e segurança pública; defesa, inteligência e combate aos ilícitos transnacionais; preservação do meio ambiente e mitigação das mudanças climáticas; desenvolvimento sustentável; turismo, esporte e cultura; e proteção aos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais nas fronteiras.

*Com informações do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDR)

Bruno e Dom: dois anos após o crime, MPF atua para punir responsáveis e melhorar a segurança no Vale do Javari 

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Um indigenista e um jornalista britânico em missão à segunda maior terra indígena do país, uma emboscada e dois assassinatos cometidos por motivo torpe e de forma cruel, sem chance de defesa para as vítimas. Há exatos dois anos, Bruno Pereira e Dom Phillips eram mortos no Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas, num crime que chocou o mundo. Eles foram dados como desaparecidos no dia 5 de junho de 2022, e as buscas mobilizaram autoridades brasileiras, indígenas, populações locais e a imprensa internacional.

Dez dias depois, os corpos foram localizados enterrados numa área de mata fechada, após a confissão de um dos envolvidos no crime. O Ministério Público Federal (MPF) atua no caso desde o primeiro dia e, dois anos depois dos assassinatos, segue trabalhando de forma ativa para obter a condenação de todos os envolvidos e melhores condições de vida e de segurança para as populações que habitam a região.

No âmbito criminal, são três frentes principais de atuação. A primeira delas é a ação penal contra os executores dos crimes. Amarildo da Costa Oliveira (conhecido pelo “Pelado”), Oseney da Costa de Oliveira (“Dos Santos”) e Jefferson da Silva Lima (“Pelado da Dinha”) foram denunciados pelo MPF cerca de um mês e meio depois dos assassinatos, em julho de 2023, por duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Em outubro de 2023, após a análise das alegações finais, a Justiça Federal em Tabatinga pronunciou os réus nos exatos termos da denúncia do MPF. Isso significa dizer que o juiz concordou com as alegações do Ministério Público Federal e enviou o processo para julgamento pelo Tribunal do Júri.

Foto: Reprodução/CNS

O procurador da República Guilherme Diego Rodrigues Leal, atual responsável pelo caso, explica que o processo do júri tem duas etapas. “Na primeira fase ocorre o juízo de formação de culpa perante um juiz federal e, na segunda, ocorre o julgamento da causa pelo conselho de sentença, que são os jurados. Na primeira fase, o juiz não diz se o réu é culpado ou inocente, mas julga se existem elementos mínimos para que o caso seja submetido ao Tribunal do Júri. No caso concreto, houve a decisão de pronúncia, que marca o final da primeira fase. Então, o processo já está rumo à segunda fase”, diz ele.

Amarildo e Jefferson serão julgados por homicídio por motivo torpe e mediante emboscada no caso de Bruno e por homicídio mediante emboscada e para assegurar a impunidade do crime anterior no caso de Dom, bem como pela ocultação dos cadáveres das vítimas. Já Oseney irá a júri popular apenas pelos homicídios. Os réus recorreram ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região e, se a pronúncia for confirmada, o processo irá a julgamento pelo plenário do Tribunal do Júri.

Em abril de 2024, em outro inquérito, o MPF denunciou cinco pessoas por ocultação de cadáver, crime previsto no art. 211 do Código Penal. Segundo a acusação, Eliclei Costa de Oliveira, Amarílio de Freitas Oliveira, Otávio da Costa de Oliveira, Edivaldo da Costa de Oliveira (parentes dos réus Amarildo e Oseney) e Francisco Conceição de Freitas ajudaram os executores a esconderem os corpos de Bruno e Dom na mata, na tentativa de livrá-los do crime. Quatro desses denunciados, além de Amarildo e Jefferson, ainda convenceram um jovem com menos de 18 anos de idade a participar do crime e vão responder por corrupção de menor, previsto no art. 244-B da Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente). O MPF aguarda que a denúncia seja recebida pela Justiça.

Há ainda um terceiro inquérito em andamento, que busca apurar a existência de possíveis mandantes dos assassinatos. A investigação tramita sob sigilo e está em fase de diligências finais. Além disso, em inquérito que é desdobramento do caso, o MPF denunciou Ruben Dário da Silva Villar, conhecido como “Colômbia”, por organização criminosa para a pesca predatória no Vale do Javari (AM).

Segurança no Vale do Javari – Localizado nos municípios de Atalaia do Norte e Guajará, no oeste do Amazonas, o Vale do Javari tem cerca de 8,5 milhões de hectares. Habitado por 26 povos originários (Kanamari, Kulina Pano, Matis, Matsés, Korubo, Tsohom Djapá, Marubo, entre outros), o território ainda concentra o maior número de indígenas em isolamento voluntário do planeta. A área protegida sofre pressões e ameaças constantes de madeireiros, garimpeiros, da pesca e da caça ilegais, além de outras atividades criminosas, cenário que ficou ainda mais evidente com a morte de Bruno e Dom.

“Há diversos procedimentos relacionados ao Vale do Javari, não apenas sob a ótica criminal, mas também sob a ótica de garantia de direitos individuais e da qualidade de vida da população residente no local”, explica Guilherme Leal.

Um dos procedimentos instaurados como desdobramento dos crimes tem o objetivo de fiscalizar, de forma contínua, a adoção de providências pelas autoridades responsáveis para viabilizar a melhoria de condições das Bases de Proteção Etnoambiental (Bape) localizadas na terra indígena. Em recomendação enviada à Funai e ao Ministério da Justiça em julho de 2022, logo após os crimes, o MPF pediu a estruturação e modernização das bases, além de equipamentos, equipe e segurança necessários para o adequado funcionamento. O órgão atua, ainda, para garantir saneamento básico ao povo indígena Kanamari. “O MPF tem feito um acompanhamento periódico, com visitas regulares ao Vale do Javari, com objetivo não só apuratório para o caso Bruno e Dom, mas também para coibir, verificar e investigar outras eventuais situações e irregularidades que ocorram na região”, conclui o procurador.

Quem eram Bruno e Dom?

Servidor de carreira da Funai e um dos maiores especialistas em indígenas em isolamento voluntário do Brasil, Bruno Pereira estava licenciado do órgão desde 2019 e trabalhava como consultor para a União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja). Segundo a organização, ele recebia constantes ameaças de garimpeiros, madeireiros e pescadores ilegais por sua atuação em defesa dos povos tradicionais e do meio ambiente da região.

Já Dom Phillips era um veterano na cobertura internacional e colaborava com o jornal inglês The Guardian, um dos mais respeitados órgãos de imprensa do mundo. Também trabalhou para veículos como Washington Post, The New York Times e Financial Times. Escreveu inúmeras reportagens denunciando atividades criminosas na região amazônica e desmatamento. Com mais de 15 anos de Brasil e ampla experiência na área, ele estava no Vale do Javari entrevistando indígenas e ribeirinhos para um livro sobre a Amazônia.

*Com informações do MPF

Advogada indígena denuncia impactos das mudanças climáticas em audiência da CIDH

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Em articulação com a Amazon Watch, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) apresentou uma carta durante o 167º Período Ordinário de Sessões da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), realizado em Manaus (AM) no final de maio. O documento, lido pela assessora jurídica da Coiab, Carla Baré, denuncia os impactos das mudanças climáticas e ressalta a importância do papel dos povos indígenas na proteção do meio ambiente e da biodiversidade.

A Corte Interamericana é um Tribunal Internacional dedicado a conhecer casos de violações de direitos humanos reconhecidos na Convenção Americana sobre Direitos Humanos e em outros tratados relacionados. Este ano, a Corte traz a temática ‘Emergência Climática e Direitos Humanos’. A programação inclui audiências públicas e seminários relacionados ao tema, com a participação de organizações da sociedade civil nacionais e internacionais.

É a primeira vez que a Corte IDH vêm até um estado da Amazônia brasileira, com uma participação importante de povos indígenas das Américas. O parecer consultivo do tribunal vai estabelecer precedentes importantes para o mundo inteiro sobre as obrigações dos Estados em face à emergência climática. Em sua fala, Carla Baré destacou o papel dos povos indígenas na proteção e conservação do meio ambiente.

“Nossa conexão profunda com o território não é apenas um legado cultural, mas sim um pilar essencial para a estabilidade climática global. No entanto, apesar de contribuirmos minimamente para o aquecimento global, somos os primeiros a sofrer seus impactos devastadores. Os incêndios que assolam a Amazônia brasileira, exacerbados pelas mudanças climáticas, são uma dolorosa manifestação dessa ameaça”, declarou a advogada.

O documento ressalta que apenas 0,6% das terras protegidas por comunidades indígenas foram desmatadas entre 2000 e 2012, enquanto as terra não indígenas da Amazônia tiveram 7% de seus territórios desmatados no mesmo período. Isso evidencia a importância dos povos originários para a conservação e mitigação dos impactos das mudanças climáticas, estabelecidos pelos modos de vida e conhecimento ancestral intrínsecos desses povos.

“Não somos defensores do meio ambiente por escolha, mas sim por nossa relação com a mãe terra, nosso território e nossa conexão sagrada com a natureza”, afirmou Carla.

A advogada fez um apelo à Corte e aos Estados para que os povos indígenas tenham seus direitos protegidos, enquanto defensores do meio ambiente, de ameaças como o Marco Temporal.

“Precisamos de uma resposta integral dos Estados que garanta a segurança jurídica de nossos territórios, como a demarcação da totalidade dos territórios, que rejeite leis que nos colocam em perigo, como o marco temporal, e que crie e implemente mecanismos de proteção dos defensores em colaboração conosco”, disse a advogada.

Leia a carta na íntegra

Além da Coiab, representantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espirito Santo (Apoinme) participam do evento. Nesta terça-feira (28), o assessor jurídico da Coiab, Ednaldo Tukano, fará uma manifestação diante da Corte, representando a Apib, sobre o direito à terra e a ameaça do Marco Temporal. O 167º Período Ordinário de Sessões da Corte Interamericana de Direitos Humanos ocorre em Manaus e Brasília até a quarta-feira (29).

*Com informações da Coiab