Área degradada pelo garimpo cai, mas atividade muda estratégia e segue na Terra Indígena Yanomami

Relatório divulgado pelo Instituto Socioambiental (ISA) aponta que as novas áreas afetadas pelo garimpo ilegal caíram de 83,95 hectares em 2024 para 45,2 hectares em 2025. Mas atividade continua na TI.

Foto: Fabrício Marinho/ Platô Filmes/ ISA

As novas áreas afetadas pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami somaram 45,2 hectares em 2025, uma queda de 46% em relação a 2024. Apesar da redução, a atividade garimpeira continua no território três anos após o governo federal decretar emergência em saúde na região, segundo relatório divulgado pelo Instituto Socioambiental (ISA) no dia 22 de maio.

A Terra Yanomami é o maior território indígena do Brasil, com quase 10 milhões de hectares entre Roraima, Amazonas e parte da Venezuela. Garimpeiros atuam na região desde, ao menos, a década de 1970.

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Até dezembro de 2025, o garimpo ilegal destruiu 5.564 hectares da Terra Yanomami, segundo o levantamento. A maior parte da destruição ocorreu antes de 2023, ano em que o governo federal decretou situação de emergência.

Segundo o relatório, o garimpo atingiu o pico de expansão em 2022, quando foram 1.800 hectares destruídos. Entre 2020 e 2025, foram 3.659,15 hectares.

Fonte: Reprodução/ISA

Segundo o estudo, a redução da degradação está ligada às ações do governo federal para retirada de invasores após o reconhecimento da crise humanitária Yanomami. Apesar disso, os garimpeiros têm adotado novas estratégias para driblar a fiscalização e manter a atividade no território

Em nota, a Casa de Governo informou que as operações desenvolvidas desde 2024, quando o órgão foi implementado, vêm atuando de forma permanente no enfrentamento da logística do garimpo, com ações de fiscalização aérea, fluvial e terrestre, desmobilização de estruturas, inutilização de pistas de pouso clandestinas, monitoramento de rotas de abastecimento e repressão ao transporte ilegal de combustível, equipamentos e minério.

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Disse ainda que “as forças envolvidas acompanham de forma contínua as mudanças de estratégia adotadas pelos grupos ligados ao garimpo ilegal, incluindo a descentralização das atividades e a utilização de áreas próximas à faixa de fronteira”. 

Mudança na atuação do garimpo

Em vez de grandes áreas concentradas, a exploração passou a ocorrer em pontos menores. Em 2025, foram identificadas 121 áreas de garimpo. De acordo com o relatório, 90% dessas áreas têm menos de um hectare. As duas maiores tinham cerca de quatro hectares cada.

A exceção é a região do rio Couto Magalhães. No local, o estudo identificou a abertura de novas áreas próximas de regiões já degradadas.

Região da comunidade Waikás, no rio Uraricoera, na Terra Indígena Yanomami. Foto: Fabrício Marinho/Platô Filmes/ISA

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O relatório também aponta que garimpeiros têm migrado para áreas próximas da fronteira com a Venezuela, como Parafuri-Parima, Hokomawë e Cabeceira do Aracaçá, rota estratégica para escapar de fiscalizações.

Para o geógrafo do ISA, Estêvão Senra, com o valor do ouro atingindo patamares históricos no mercado internacional, a pressão do garimpo é constante.

“Operações de desintrusão são o primeiro passo indispensável, mas sozinhas elas não resolvem o problema estrutural. Sem estratégias de proteção territorial de médio e longo prazo, que envolvam vigilância permanente e melhorias na regulação da cadeia do ouro, há um grande risco de observarmos uma nova onda de invasão num futuro próximo”, disse.

Alertas territoriais

Região da comunidade Palimiu, no rio Uraricoera, na Terra Indígena Yanomami. Foto: Fabrício Marinho/Platô Filmes/ISA

Em 2025, o sistema de alertas da Terra Yanomami registrou 66 ocorrências territoriais. Desse total, 83% estavam ligados a invasões, com registros de aeronaves clandestinas, barcos e balsas.

Na região de Auaris, foram ao menos cinco ocorrências envolvendo aeronaves clandestinas. Na maioria dos casos, os voos seguiam para pistas ilegais próximas a rios, como a do Gaúcho Animal e a do Gongo.

Também houve registros em Xitei, Alto Catrimani e Apiaú, possivelmente ligados ao avanço do garimpo no rio Couto Magalhães. No Alto Catrimani, o relatório aponta relação entre a movimentação aérea e o garimpo na cabeceira do rio Orinoco, na Venezuela.

“Vale ressaltar que no caso do garimpo do Xitei, os alertas reforçam a preocupação dos moradores em relação à entrada de munição e armas de fogo levadas pelos garimpeiros com o objetivo de aliciar jovens e ameaçar lideranças que se opõem à exploração mineral na região. Desde 2021, o Xitei é marcado por conflitos violentos associados ao garimpo, e, em 2025, não foi diferente. Apenas em 2025, estima-se que pelo menos cinco pessoas morreram devido a esses conflitos”, cita trecho do relatório.

O sistema também registrou invasões pelos rios Uraricoera, Catrimani, Apiaú e Ajarani. De acordo com o estudo, parte da circulação estava ligada ao uso de balsas e dragas, além do transporte de cassiterita e de insumos para abastecer acampamentos de garimpo.

O Baixo Catrimani foi a área com mais registros de invasão fluvial. Entre abril e dezembro de 2025, foram nove alertas envolvendo balsas, dragas e barcos suspeitos.

No rio Apiaú, há denúncias de um “varadouro” usado por quadriciclos para abastecer garimpos rio acima e evitar uma área onde está sendo instalada uma nova base de fiscalzação. A trilha conectaria estradas fora da Terra Yanomami até o Igarapé Ingarana, afluente do rio Apiaú.

O relatório foi desenvolvido pelo ISA, em parceria com o programa Monitoring of the Andes Amazon Program (MAAP), iniciativa da Amazon Conservation Association, além da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e da Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume).

*Com informações da Rede Amazônica RR e ISA

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