Turismo em Santarém, no Pará. Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém
Em um movimento estratégico para posicionar a Amazônia como um grande destino turístico sustentável, o Ministério do Turismo e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) lançaram oficialmente, no sábado (15), o “Projeto Tapajós – A porta de entrada do turismo na Amazônia”.
O evento, realizado durante um painel na COP30, em Belém (PA), incluiu a promoção de um debate com as presenças de Ana Carla Lopes, ministra do Turismo em exercício; Ellen Acioli, especialista do BID para a Amazônia; Fabiana Oliveira, coordenadora-geral de Produtos e Experiências Turísticas do Ministério do Turismo; e o chef paraense Saulo Jennings, embaixador gastronômico da ONU Turismo.
Ao apresentar uma iniciativa focada no turismo sustentável dentro do maior fórum climático do mundo, o Ministério reforça o setor como uma alternativa econômica verde, inovadora e viável para a Amazônia. O projeto materializa, na prática, como o turismo pode gerar renda, inclusão social e conservação ambiental, alinhando o desenvolvimento do Brasil aos debates globais sobre a preservação do bioma e a economia climática.
A ação envolve a elaboração do Plano Estratégico do Turismo Sustentável da Região do Baixo Tapajós, abrangendo Santarém e Belterra, no Pará. O território já é reconhecido internacionalmente por experiências autênticas de contato com a floresta, comunidades locais, praias fluviais e uma gastronomia que figura entre as mais premiadas do país.
A ministra em exercício, Ana Carla Lopes, destacou o caráter transformador da iniciativa.
“O Projeto Tapajós é uma demonstração concreta de que o turismo pode ser uma força motriz da bioeconomia amazônica. Estamos mostrando ao mundo, na COP30, que é possível gerar renda para os povos da floresta, fortalecer experiências autênticas e garantir que o desenvolvimento aconteça com a floresta em pé”, declarou Ana Carla.
Representando o BID, Ellen Acioli reforçou o papel da cooperação internacional na construção de soluções sustentáveis. “O BID tem trabalhado para apoiar iniciativas que conectam desenvolvimento econômico, inclusão e conservação ambiental. O Projeto Tapajós é um exemplo de como o turismo pode transformar territórios quando envolve as comunidades desde o início”, afirmou Ellen.
Fabiana Oliveira, enfatizou o impacto direto da ação nas experiências oferecidas ao visitante da região. “Esse é um trabalho conjunto que valoriza as potencialidades de uma região já muito visada pelos turistas que visitam o Pará. Nosso objetivo é tornar esse destino ainda mais potente, com ações alinhadas ao desenvolvimento sustentável, respeitando a cultura e os saberes dos povos tradicionais”, explicou Fabiana.
O chef Saulo Jennings, referência da gastronomia do Tapajós, celebrou o protagonismo da Amazônia na COP30. “É muito simbólico ver a Amazônia sendo discutida com a participação real das pessoas que vivem aqui. E, ainda mais simbólico, é ter a gastronomia que nasce das nossas comunidades, dos nossos ingredientes e da força dos povos tradicionais como parte desse processo de reconhecimento e valorização”, destacou Jennings.
O Projeto Tapajós terá duração de 10 meses e vai ser estruturado em seis eixos principais: infraestrutura e saneamento; ordenamento territorial; estruturação de produtos turísticos e marketing; fomento à economia criativa; atração de investimentos e concessões; e criação de linhas de crédito específicas para o setor.
A metodologia envolve visitas técnicas aos municípios e comunidades para a elaboração de um diagnóstico situacional completo. Ao final, será entregue um Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável (PDITS) no Polo Tapajós, acompanhado de seis planos de ação temáticos de cada área.
Comunidades tradicionais
participação ativa das comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas é um eixo estruturante da proposta. O plano reconhece estes grupos como protagonistas e guardiões dos valores naturais e culturais que sustentam o turismo no território – e busca beneficiá-los diretamente por meio da geração de renda, da valorização de saberes e da melhoria das condições de infraestrutura e serviços básicos.
Segundo um diagnóstico preliminar do Ministério do Turismo, o projeto pode impactar positivamente 15 comunidades indígenas, mais de 30 comunidades tradicionais e ribeirinhas, 7 assentamentos e 3 comunidades quilombolas do Baixo Tapajós. A execução ficará a cargo da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) Garupa, que atua desde 2012 com foco no fortalecimento do turismo sustentável em parceria com povos tradicionais.
*Com informação da Assessoria de Comunicação do Ministério do Turismo
A prefeitura está renovando 100% da frota de transporte escolar. Foto: Giovani Oliveira/PMBV
A Rede Municipal de Ensino vai receber 84 novos ônibus para a frota escolar. Desse total, 38 já foram entregues. Os demais estão em fase de revisão e liberação em Manaus. Os veículos atenderão alunos da área urbana, indígena e rural.
Os novos ônibus incluem dois modelos. Um tem capacidade para até 29 estudantes sentados. O outro transporta até 21 alunos sentados e possui plataforma elevatória para cadeirantes.
Os veículos atenderão alunos da área urbana, indígena e rural. Foto: Giovani Oliveira/PMBV
Com a nova aquisição, a Secretaria Municipal de Educação (SMEC) amplia a capacidade de atendimento e garante mais conforto, segurança e acessibilidade aos estudantes. O secretário municipal de Educação, Lincoln Oliveira, disse que a prefeitura está renovando 100% da frota de transporte escolar, substituindo veículos alugados desde 2019.
A nova frota representa conforto e segurança para mais de 3 mil alunos da cidade.
“Essa entrega reforça o nosso compromisso em oferecer uma educação digna e de qualidade para toda a rede municipal, além de demonstrar o respeito com os recursos públicos, aplicados de forma responsável em melhorias para quem mais precisa”, disse o secretário.
No total, serão entregues à rede municipal 84 novos ônibus escolares. Foto: Will Manauima/PMBV
A renovação dos veículos representa um investimento direto na qualidade do serviço e na segurança dos estudantes. Um investimento feito com recursos do município. Com isso, a capital terá uma das frotas escolares mais novas e modernas do Brasil.
Atualmente, a Rede Municipal de Ensino conta com 142 unidades, atendendo cerca de 54 mil estudantes. Com o reforço, a prefeitura assegura o transporte escolar a todas as regiões, promovendo inclusão e equidade no acesso à educação.
Vista aérea do Parque do Forte em Macapá, no Amapá. Foto: Divulgação
O governador no Amapá, Clécio Luís, apresentou em Belém (PA), durante a COP 30, o Plano Estadual de Apoio à Sociobioeconomia (Peas), uma estratégia pioneira que consolida o potencial da floresta amapaense como vetor de desenvolvimento econômico, social e ambiental.
O documento mapeia 11 cadeias produtivas estratégicas — entre elas, açaí, pescado, madeira manejada, castanha-do-Brasil, cacau, óleos vegetais e plantas medicinais — com diagnóstico detalhado sobre produção, consumo, renda dos produtores e potencial de expansão e de comercialização.
“A expansão da bioeconomia representa a inserção do Estado em um modelo de economia moderna que alia sustentabilidade, desenvolvimento econômico e inclusão social, permitindo que a riqueza da floresta seja utilizada de forma responsável, inovadora e, sobretudo, gerando emprego e renda, especialmente para quem vive sob a copa das árvores”, afirmou o governador durante a apresentação do plano, no pavilhão do Amapá, na área verde da COP 30, em Belém.
Oiapoque, no Amapá. Foto: Maksuel Martins/GEA
Os dados do plano apontam que o Amapá conta com mais de 25 mil pessoas envolvidas na cadeia do açaí, cerca de 30 mil na pesca e aquicultura, e milhares de famílias dedicadas ao extrativismo da castanha-do-Brasil e à produção de óleos vegetais e manteigas naturais. Há também potencial crescente nas cadeias do cacau e da madeira manejada, com mecanismos já implementado de certificação e verticalização produtiva.
O Peas aponta que o consumo interno de produtos da sociobioeconomia (como açaí, óleos e castanha) já supera a oferta local, abrindo espaço para expansão da produção e formalização das cadeias. O plano prevê que, com incentivos adequados, o faturamento conjunto das cadeias poderá crescer até 50% até 2030.
Segundo o governador, o instrumento de gestão é uma política ambiental inovadora que fortalece o desenvolvimento sustentável da chamada economia verde, gerando novas oportunidades de trabalho e transformando indicadores sociais, com foco na melhoria da qualidade de vida da população.
Foto: Divulgação
“Precisamos trazer para o campo econômico e social os mesmos níveis de indicadores de desempenho que o Amapá já possui quando se fala de sustentabilidade. É preciso incluir as pessoas e melhorar a qualidade de vida e a oferta de oportunidades para quem vive na floresta”, afirma Clécio.
Com 73,5% do território sob áreas protegidas, o Amapá tem uma das menores taxas de desmatamento do país e aposta na bioeconomia inclusiva como caminho para gerar renda e manter a floresta em pé. Mais de 60% dos produtores mapeados pertencem à agricultura familiar e ao extrativismo tradicional.
O Plano Estadual de Apoio à Sociobioeconomia (Peas) foi construído a partir de pesquisas e de uma escuta ativa com a população, realizadas em workshops e oficinas promovidos pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). Ele consolida informações sobre consumo, produção e faturamento das principais cadeias, servindo como base técnica para políticas públicas, atração de investimentos e fortalecimento da economia de base florestal.
Orla de Macapá. Foto: Divulgação/Secretaria de Cultura do Estado do Amapá
O processo de elaboração reuniu consultores especialistas, gestores, representantes de comunidades locais e diversos segmentos da sociedade — como cooperativas, extrativistas, empreendedores, povos tradicionais, ribeirinhos e quilombolas — que contribuíram com o debate e a construção coletiva do projeto voltado ao desenvolvimento sustentável, mantendo a floresta em pé.
Decreto Estadual
A base legal do Peas foi instituída pelo Decreto Estadual n.º 4.616 (5.jun.2024). O documento orienta políticas públicas e atração de investimentos voltados à transição ecológica e economia de baixo carbono e estrutura-se em cinco eixos estratégicos: 1) Governança e institucionalidade; 2) Capacitação e assistência técnica; 3) Infraestrutura e logística; 4) Acesso a crédito, mercado e 5) Pesquisa, inovação e certificação.
O plano também integra as metas estaduais de neutralidade de carbono até 2050, conectando as cadeias de valor a estratégias de mitigação climática, com destaque para projetos de incentivo ao manejo florestal sustentável e à certificação; recuperação de áreas degradadas e promoção da produção agroflorestal, e monitoramento socioambiental contínuo, vinculado ao Sistema Estadual de Mudanças Climáticas.
O Peas também estabelece uma estrutura permanente de gestão intersetorial, com a criação do Comitê Estadual de Sociobioeconomia, responsável por articular secretarias, instituições de pesquisa, setor privado e comunidades. Entre as instituições parceiras estão Embrapa, Iepa (Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá), Sebrae, Ifap (Instituto Federal do Amapá) e universidades locais, fortalecendo a base científica e técnica para o avanço das cadeias sustentáveis.
Desenvolvida com apoio técnico do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a iniciativa cria uma base inédita de dados ambientais e territoriais para orientar políticas públicas voltadas ao enfrentamento da crise climática e ao desenvolvimento sustentável da região.
O governador do Pará, Helder Barbalho, participou do lançamento da plataforma CAL 2050. Foto: Marco Santos/Agência Pará
“O que é eficaz em um ambiente não necessariamente é em outro. E, a partir desse olhar de consórcio de região, estamos construindo o engajamento de todos os estados para fortalecer esse suporte, de modo que possamos escalar cada vez mais a ambição regional das políticas públicas, das ações e da missão comum de cuidar da Amazônia”, afirmou o governador Helder Barbalho, que preside o Consórcio da Amazônia Legal.
A CAL 2050
A CAL 2050 reúne dados geoespaciais, climáticos e de uso do solo, permitindo acompanhar em tempo real indicadores sobre desmatamento, regeneração florestal, emissões de gases de efeito estufa, investimentos em bioeconomia e rastreabilidade de ativos ambientais.
A plataforma conecta informações federais e estaduais e será uma ferramenta estratégica para monitorar a contribuição dos estados amazônicos às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), no âmbito do Acordo de Paris.
Floresta tropical e seu clima. Foto: Autor desconhecido/Wikimedia Commons
O diretor-executivo do Ipam, Ludovico Pereira, destacou que a ferramenta representa um salto de qualidade na gestão ambiental regional.
“O desafio da implementação exige novas formas de abordar a realidade, uma realidade que precisa ser mensurável, quantificável e traduzida em dados inteligentes. Sem smart data, não é possível sustentar decisões estratégicas. A CAL 2050 entrega uma resposta concreta à emergência climática global e mostra que a governança climática começa no território”, afirmou.
Diretrizes de longo prazo
Apresentada no mesmo painel, a Estratégia Amazônia 2050 define diretrizes de longo prazo para conciliar floresta viva, prosperidade econômica, transição energética e justiça social.
A CAL 2050 será a infraestrutura técnica que assegura transparência, rastreabilidade e integridade na execução dessas metas, em conformidade com a Lei nº 15.042/2024, que institui o mercado regulado de carbono no Brasil e abre caminho para a integração ao Artigo 6 do Acordo de Paris.
Com o lançamento, o Pará reforça seu papel como articulador político e técnico da agenda ambiental. Foto: divulgação
Com o lançamento, o Pará reforça seu papel como articulador político e técnico da agenda ambiental da Amazônia. À frente do Consórcio, Helder Barbalho conduz um esforço coletivo que ultrapassa fronteiras estaduais e projeta a região como referência global em governança climática.
Durante a COP30, Belém tem revelado uma Amazônia mais organizada, conectada e disposta a conduzir suas próprias soluções, de dentro da floresta, com dados, ciência e decisão política.
Manaus inicia conclusão da primeira célula do aterro sanitário municipal. Foto: Dhyeizo Lemos/Semcom Manaus
As obras do primeiro aterro sanitário municipal da história de Manaus (AM) é uma entrega inédita que reposiciona a capital amazonense na agenda climática, energética e ambiental do país. A primeira célula operacional, que teve conclusão prevista no dia 15 de novembro, é um marco técnico que inaugura um novo ciclo de sustentabilidade e destinação adequada de resíduos sólidos na cidade.
Localizado no quilômetro 19 da AM-010, no bairro Lago Azul, o complexo ocupa 67 hectares e foi projetado com quatro células sanitárias, cada uma com cinco hectares, totalizando 20 hectares de área operacional.
Cada célula possui 50 mil metros quadrados, construídas com rigor técnico e seguindo padrões completos de impermeabilização, drenagem, contenção, tratamento de efluentes e reaproveitamento energético.
Localizado no quilômetro 19 da AM-010, no bairro Lago Azul, o complexo ocupa 67 hectares. Foto: Dhyeizo Lemos/Semcom Manaus
Capacidade
A estrutura terá capacidade de absorver 2.600 toneladas de resíduos por dia, com vida útil estimada de 20 anos, e investimento entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões. Quando entrar em operação, prevista para fevereiro de 2026, será o primeiro aterro sanitário do Norte do Brasil totalmente adequado à Resolução 430, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), encerrando um passivo histórico de mais de três décadas de funcionamento do antigo aterro controlado.
Durante a agenda técnica, o prefeito David Almeida destacou que a cidade assumiu responsabilidade por resolver um problema estrutural ignorado por décadas.
“Recebemos a cidade de Manaus com um aterro controlado entrando em colapso. Um problema de mais de 30 anos. Coube a nós resolvermos esse problema. Estamos implementando o primeiro aterro sanitário da cidade de Manaus e resolvendo definitivamente essa questão histórica”, afirmou.
COP30
O prefeito também reforçou que a nova estrutura é um dos pilares da participação de Manaus na COP30, com resultados concretos e mensuráveis.
Anúncio do empreendimento foi realizado antes da COP30 começar em Belém (PA). “[…] a cidade de Manaus está fazendo a sua parte. Todo lixo que vier para o aterro será tratado adequadamente e vamos abrir uma usina para aproveitar o gás e produzir biometano”.
O prefeito David Almeida vistoriou, no dia (6), o andamento das obras do primeiro aterro sanitário municipal da história de Manaus. Foto: Dhyeizo Lemos/Semcom Manaus
Segundo ele, a mudança representa um avanço decisivo para a transição energética da capital. “Hoje os nossos veículos de coleta usam combustíveis fósseis, muito poluentes. Com o biometano produzido aqui, vamos mover a frota com energia limpa e reduzir as partículas poluentes. Manaus fará a sua transição energética usando o biometano gerado no próprio aterro sanitário”, completou o prefeito.
A infraestrutura foi planejada para garantir um ciclo operacional completo e de baixo impacto ambiental. O aterro conta com:
múltiplas camadas industriais de proteção e impermeabilização, evitando infiltrações no solo;
sistema de drenagem e lagoas de chorume, garantindo tratamento eficiente dos efluentes;
captação e conversão de gás metano em biometano para abastecer ônibus e caminhões coletores;
reaproveitamento da água tratada na hidrossemeadura e umectação das vias internas;
operação sustentável baseada em reaproveitamento, segurança e controle ambiental contínuo.
O secretário municipal de Limpeza Urbana, Sabá Reis, ressaltou o caráter transformador da obra: “Foi na gestão do prefeito David que o aterro controlado chegou ao fim da vida útil e que essa transição se tornou obrigatória. Ele está entregando uma estrutura moderna, ambientalmente correta e preparada para transformar o resíduo da cidade em economia”.
O prefeito David Almeida vistoriou, no dia (6), o andamento das obras do primeiro aterro sanitário municipal da história de Manaus. Foto: Dhyeizo Lemos/Semcom-Prefeitura
Sabá também destacou o impacto financeiro para o futuro de Manaus: “A usina terá capacidade de abastecer até 300 veículos por dia com biometano. Isso significa economia real para Manaus e um grande avanço na política ambiental da cidade”.
Com a conclusão da primeira célula prevista para 15 de novembro e o projeto avançando em todas as frentes técnicas, Manaus se consolida como referência amazônica em gestão moderna de resíduos, produção de energia limpa e política climática, chegando à COP30 com entregas concretas, tecnológicas e alinhadas às metas globais de redução de emissões.
A Cúpula dos Povos, evento paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), terminou neste domingo (16), com palavras de encorajamento do cacique Raoni Metuktire. Em uma mensagem aos participantes, a liderança indígena lembrou que vem chamando atenção do mundo há décadas para a destruição do meio ambiente, das florestas e dos modos de vida de povos originários e ancestrais.
“Há muito tempo, eu vinha alertando sobre o problema que, hoje, nós estamos passando, de mudanças climáticas, de guerras”, disse Raoni. “Mais uma vez, peço a todos que possamos dar continuidade a essa missão de poder defender a vida da Terra, do planeta. Eu quero que tenhamos essa continuidade de luta, para que possamos lutar contra aqueles que querem o mal, que querem destruir a nossa terra”, completou.
Raoni também criticou os conflitos e guerras ao redor do mundo e cobrou mais amor e defesa da vida. “Há muito tempo, eu venho falando para que possamos ter respeito um com o outro e possamos viver em paz nessa terra”, conclamou.
Cacique Raoni Metuktire durante encerramento da cúpula dos povos Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Após os cinco dias de debates, mobilizações e manifestações que marcaram Belém, a cúpula termina com um “banquetaço”, na Praça da República, no centro da capital paraenses, com a distribuição de comida, feita pelas cozinhas comunitárias e celebração cultural aberta ao público.
No ato encerramento da Cúpula dos Povos, foi lida uma carta final, criticando o que os participantes classificaram como “falsas soluções” para o enfrentamento da emergência climática.
“Nossa visão de mundo está orientada pelo internacionalismo popular, com intercâmbios de conhecimentos e saberes, que constroem laços de solidariedade, lutas e de cooperação entre nossos povos”.
Banquetaço da Cúpula dos Povos, na Praça da República, reúne cozinhas coletivas, alimentos agroecológicos e partilha popular. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
“As verdadeiras soluções são fortalecidas por esta troca de experiências, desenvolvidas em nossos territórios e por muitas mãos. Temos o compromisso de estimular, convocar e fortalecer essas construções”, diz o documento.
O documento (leia aqui) foi entregue ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, que prometeu apresentá-lo nas reuniões de alto nível da COP, que serão realizadas a partir desta segunda-feira (17).
“Não há vida sem natureza. Não há vida sem a ética e o trabalho de cuidado. Por isso, o feminismo é parte central do nosso projeto político. Colocamos o trabalho de reprodução da vida no centro, é isso que nos diferencia radicalmente dos que querem preservar a lógica e a dinâmica de um sistema econômico que prioriza o lucro e a acumulação privada de riquezas”, continua o documento.
O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago disrcusa durante encerramento da cúpula dos povos Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Capitalismo e crise climática
A carta aponta o modo de produção capitalista como causa principal da crise climática crescente e ressalta que as comunidades periféricas são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos e o racismo ambiental.
O texto lembra que as empresas transnacionais, a exemplo das indústrias de mineração, energia, das armas, agronegócio e as Big Techs, são as principais responsáveis pela catástrofe climática.
A carta pede a demarcação de terras indígenas e de outros povos; reforma agrária e fomento a agroecologia; fim do uso de combustíveis fósseis; financiamento público para uma transição justa, com taxação das corporações, agronegócio e dos mais ricos; e fim das guerras. Além disso, cobra maior participação dos povos.
“Cobramos que haja participação e protagonismo dos povos na construção de soluções climáticas, reconhecendo os saberes ancestrais. A multidiversidade de culturas e de cosmovisões, carrega sabedoria e conhecimentos ancestrais que os Estados devem reconhecer como referências para soluções às múltiplas crises que assolam a humanidade e a Mãe Natureza”.
Guerras
O documento critica ainda o avanço da extrema direita, do fascismo e das guerras ao redor do mundo e faz uma defesa da Palestina e de seu povo. A carta cita os bombardeios praticados pelo Estado “sionista” de Israel, o deslocamento forçado de milhões de pessoas e as dezenas de milhares de mortes de inocentes, a maioria crianças, mulheres e idosos.
“Nosso repúdio total ao genocídio praticado contra a Palestina. Nosso apoio e abraço solidário ao povo que bravamente resiste, e ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS)”, diz a carta.
O texto também faz críticas à ação militar dos Estados Unidos, no mar do Caribe, com o pretexto de guerra ao narcotráfico. Os integrantes da cúpula afirmam que ações como essa têm caráter imperialista de ameaça a povos e países da região e da África.
“O imperialismo segue ameaçando a soberania dos povos, criminalizando movimentos sociais e legitimando intervenções que historicamente serviram aos interesses privados na região. Nos solidarizamos à resistência da Venezuela, Cuba, Haiti, Equador, Panamá, Colômbia, El Salvador, República Democrática do Congo, Moçambique, Nigéria, Sudão, e com os projetos de emancipação dos povos do Sahel, Nepal e de todo o mundo”, diz a carta.
Participação popular
A Cúpula dos Povos reuniu dezenas de milhares de pessoas:
de movimentos sociais locais, nacionais e internacionais,
povos originários e tradicionais,
camponeses/as,
indígenas,
quilombolas,
pescadores/as,
extrativistas,
marisqueiras,
trabalhadores/as da cidade,
sindicalistas,
população em situação de rua,
quebradeiras de coco babaçu,
povos de terreiro,
mulheres,
comunidade LGBTQIAPN+,
jovens,
afrodescendentes,
pessoas idosas,
dos povos da floresta,
do campo,
das periferias,
dos mares, rios, lagos e mangues.
Encerramento da Cúpula dos Povos. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
O evento, considerado o maior espaço de participação social da conferência climática, começou na última quarta-feira (12), em paralelo à COP30, com críticas a ausência de maior participação popular na COP30.
Para as cerca de 1,3 mil organizações e movimentos que participaram da cúpula, países e tomadores de decisão, especialmente dos países ricos, têm se omitido ou apresentado soluções absolutamente ineficientes, colocando em risco a meta de 1,5°C do Acordo de Paris.
Na abertura, foi realizada uma “barqueata” na orla da capital paraense, com centenas de barcos. Eles navegaram pela Baía do Guajará em defesa da Amazônia e dos povos tradicionais.
“Iniciamos nossa Cúpula dos Povos navegando pelos rios da Amazônia que, com suas águas, nutrem todo o corpo. Como o sangue, sustentam a vida e alimentam um mar de encontros e esperanças. Reconhecemos também a presença dos encantados e de outros seres fundamentais na cosmovisão dos povos originários e tradicionais, cuja força espiritual orienta caminhos, protege territórios e inspira as lutas pela vida, pela memória e por um mundo de bem viver”, diz a carta.
A COP das Baixadas é um movimento formado por 10 organizações que defendem a participação de periferias urbanas nas discussões climáticas. Foto: Hugo Chaves
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontece de 10 a 21 de novembro em Belém, no Pará, tem reunido líderes de quase 200 países entre cientistas, empresários, autoridades políticas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para discutir ações e estratégias de combate às mudanças climáticas.
Mas você sabia que existe um movimento social que dá voz e vez para a periferia no debate mundial do clima? É a COP das Baixadas, projeto social que coloca moradores, ativistas comunitários e coletivos de áreas periféricas da capital paraense nas discussões climáticas da conferência mundial.
A iniciativa popular busca fortalecer a participação das periferias urbanas nos debates e na tomada de decisões sobre o clima no evento global.
Fundada em 2023, a COP das Baixadas é uma coalizão formada por uma rede de 10 organizações de diferentes contextos e partes de território amazônico, que têm em comum a articulação e o fortalecimento de pautas relacionadas à justiça climática das periferias urbanas da Amazônia.
O termo “baixada” se refere às áreas urbanas localizadas nas regiões “baixas” de Belém, consideradas periféricas e distantes da visão do poder público.
O grupo surgiu, inclusive, dentro do bairro Coração de Jurunas, localizado em área periférica da cidade-sede da 30ª edição da maior conferência mundial do clima.
Através de ações de educação climática, atividades culturais, de lazer e esporte, a COP das Baixadas nasceu com o intuito de promover a inclusão dessas comunidades periféricas na discussão das estratégias globais acerca da crise climática.
Espaços estão instalados nas sedes das organizações sociais que foram a COP das Baixadas, em Belém. Foto: Instagram-Yellow Zones
Programação na COP 30
Em sua terceira edição, a COP das Baixadas promove em 2025 uma programação ampla e diversificada durante as duas semanas da conferência climática em Belém. O grupo criou as “Yellow Zones” (Zonas Amarelas), espaços dedicados para o envolvimento da comunidade periférica no ambiente da COP30.
Os espaços foram inspirados na estrutura oficial da conferência, denominados de Blue Zone (Zona Azul, para negociações diplomáticas) e Green Zone (Zona Verde, voltadas à sociedade civil), e visam descentralizar o tema da COP30 para as periferias e comunidades.
Nas “Yellow Zones” a programação consiste em várias atividades paralelas como oficinas, rodas de conversa, atos culturais e palestras, que funcionam como grandes polos de mobilização popular, formação e resistência amazônica.
Os espaços acontecem em territórios espalhados de Belém, Ananindeua e Castanhal, nas sedes das organizações integrantes do movimento, e visam integrar os moradores de regiões periféricas dessas cidades dentro do ambiente da COP30.
“As Yellow Zones são zonas de envolvimento comunitário, porque quando a gente começou a ter oportunidade de chegar nessas conferências internacionais, a gente viu que a população não se fazia presente porque era uma área muito restrita. Então pensamos em de que modo a gente podia fazer esse envolvimento comunitário aqui em Belém. Assim surgem as Yellow Zones”, explicou a cofundadora da COP das Baixadas, Ruth Ferreira, quando esteve na Blue Zone, nas redes sociais.
Além de dar voz e vez às populações periféricas nas decisões climáticas do planeta, a COP das Baixadas também tem como missão a defesa pelo direito à permanência desses territórios. Uma das lutas do movimento é a reivindicação pelo reconhecimento das baixadas nos censos oficiais. O IBGE, por exemplo, classifica essas regiões como “favelas e comunidades urbanas”, favorecendo uma visão marginalizada e a exclusão das periferias das políticas públicas de infraestrutura e saneamento.
Prova dessa resistência será o Ato Pela Vida e Defesa dos Territórios, manifestação que ocorre no dia 21 de novembro, último dia da COP30 e encerra a participação da COP das Baixadas na conferência popular. O evento será realizado no bairro de Jurunas, e tem como objetivo reafirmar o compromisso das comunidades amazônicas com a defesa do direito à permanência nos territórios e com a continuidade da luta por justiça climática além da COP30.
No último sábado, 15, a COP das Baixadas foi uma das organizadoras da Marcha Mundial pelo Clima, evento que reuniu mais de 70 mil pessoas nas ruas de Belém.
COP das Baixadas foi uma das organizadoras da Marcha Mundial pelo Clima, que movimentou 70 mil pessoas no sábado, 15. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Pé de mandioca com vassoura-de-bruxa. Foto: Adilson Lima/Embrapa
Encontrado pela primeira vez em março de 2023 em uma comunidade indígena do município de Oiapoque, no Amapá, o fungo Ceratobasidium theobromae, também conhecido como Rhizoctonia theobromae, espalha-se com rapidez entre as plantações de mandioca (Manihot esculenta) da região Norte.
Mobilizados, especialistas de instituições de pesquisa do Brasil, da Guiana Francesa, onde o problema foi detectado na mesma época, e da França, trabalham no campo e no laboratório para conhecer e combater o agente causador da vassoura-de-bruxa da mandioca. A doença é assim chamada por induzir a formação de brotos finos, que depois secam e lembram o formato de uma vassoura, e se soma a outras, causadas por bactérias, vírus e outras espécies de fungos.
Os estudos preliminares indicaram que a espécie de fungo que chegou à Amazônia é a mesma que nos últimos anos arruinou de 40% a 60% das plantações de mandioca no Vietnã, Filipinas, Tailândia e Laos. No Sudeste da Ásia, a planta é usada principalmente para a produção de ração animal e de biocombustíveis, enquanto na região Norte do Brasil a também chamada macaxeira ou aipim é a base da alimentação diária.
Os esporos — estruturas semelhantes a sementes — do fungo chegaram à América do Sul possivelmente em ferramentas ou plantas infectadas. Muito leves, se espalham levados pelo vento.
Rapidez prejudica plantações de mandioca
“A dispersão é muito rápida”, observa a bióloga Cristiane Ramos de Jesus, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Amapá, que tem visitado as plantações atingidas. “Em apenas dois anos, o fungo foi do norte do Amapá ao norte do Pará, ainda que as plantações estejam cercadas pela mata e separadas por rios”.
O biólogo peruano Wilmer Cuellar, com sua equipe do Centro Internacional de Agricultura Tropical (Ciat), na Colômbia, e colegas da Alemanha e do Laos, coordenou o primeiro mapeamento do genoma (o conjunto de genes) de C. theobromae, coletado de folhas e caules de plantas infectadas no Laos.
Como detalhado em um artigo publicado em agosto de 2024 na Scientific Reports, o genoma desse microrganismo é formado por 33 milhões de pares de bases (mpb) nitrogenadas, elementos básicos do DNA, e contém 8.247 genes expressos. É um tamanho médio entre os fungos causadores de doenças em plantas, cujo genoma varia de 30 a 80 mpb, com 10 mil a 20 mil genes. Nas bactérias, o genoma varia de 3 a 5 mpb e o número de genes de 3 mil a 5 mil. Os seres humanos têm um genoma com 3 bilhões de pares de bases e cerca de 45 mil genes.
Similaridades
As análises registraram várias enzimas associadas à infecção nos tecidos vegetais. Chamou a atenção a alta similaridade genética, de até 99,7%, com o genoma de uma variedade da mesma espécie que infecta cacaueiros na Ásia — veio daí um dos nomes da espécie, C. theobromae (o nome científico do cacaueiro é Theobroma cacao). Essa descoberta indica que o fungo poderia colonizar espécies diferentes de plantas, o que, no Brasil, colocaria em risco as mandiocas silvestres e o cupuaçu (Theobroma grandiflorum), do mesmo gênero que o cacau.
Com especialistas de outros grupos de pesquisa da Ásia e das Américas, Cuellar investiga agora as diferenças entre as populações do fungo em cada país onde já chegou. “Queremos saber se uma população que evoluiu em ilhas das Filipinas, por exemplo, se desenvolve de forma diferente na parte continental do Sudeste Asiático ou nas Américas”, disse ele em entrevista a Pesquisa FAPESP.
O fungo C. theobromae sob o microscópio. Imagem: Juan M. Pardo / CIAT
Uma equipe da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, na Bahia, completou o trabalho ao identificar fungos coletados no Amapá. Os resultados, publicados em fevereiro como preprint na plataforma bioRxiv, indicaram se tratar do mesmo microrganismo da Guiana Francesa e da Ásia, capaz de invadir os vasos condutores de água e sais minerais, os chamados xilemas, e bloquear a passagem de água e nutrientes, o que leva os ramos a murchar e morrer. O fungo pode também ocupar o exterior da planta, formando uma fina camada branca de micélio nas gemas (estruturas que podem originar ramos) e na base das folhas.
O engenheiro-agrônomo da Embrapa Mandioca e Fruticultura Saulo Alves Santos de Oliveira, coordenador do sequenciamento, teme que o fungo que chegou ao norte da América do Sul, por causa do clima na região, possa se mostrar mais agressivo que na Ásia.
“No Sudeste Asiático, as chuvas se concentram no verão, trazidas pelos ventos úmidos, as monções, enquanto na Amazônia o clima é constantemente úmido e quente, o que pode favorecer mais ainda a dispersão e crescimento do fungo”, diz.
A Embrapa e o Ministério da Agricutura e Pecuária (Mapa) recomendam aos agricultores uma série de medidas emergenciais para conter a doença. Entre elas estão a remoção e a queima das plantas infectadas, a limpeza rigorosa das ferramentas e a aplicação de fungicidas específicos. Também é indicada a higienização cuidadosa de roupas, calçados, chapéus e bonés usados em áreas afetadas, com o ensacamento e a lavagem imediata desses itens para evitar a disseminação dos esporos para outras regiões do país.
Para reduzir as perdas econômicas causadas pela nova doença, uma das alternativas sugeridas é substituir temporariamente os mandiocais por outras culturas, como a banana. “Estamos muito preocupados com a possibilidade de faltar renda e comida para as comunidades atingidas por esse problema”, comenta Ramos de Jesus, da Embrapa Amapá.
Em janeiro de 2025, o Mapa decretou estado de emergência fitossanitária no Amapá e no Pará, indicando o alto risco de disseminação de uma praga capaz de causar grandes prejuízos. Até outubro de 2025, mandiocais infectados já haviam sido registrados em 48 localidades do Amapá e no município paraense de Almeirim.
O biólogo Marcelo Simon, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, pesquisa a diversidade genética em variedades de mandioca. Das 160 espécies do gênero Manihot nas Américas, o Brasil abriga 116 (ver Pesquisa FAPESP nº 311). “Estamos em uma posição boa em termos de variabilidade genética da mandioca. Mas há também grande preocupação em relação à conservação dessas espécies, que já correm o risco de desaparecer por causa da perda de hábitat e não sabemos se são resistentes ao fungo”, comenta. Segundo ele, não basta encontrar uma variedade de mandioca tolerante ao fungo: é preciso também atender às exigências de gosto e sabor de quem as consumirá.
Há anos, a identificação de espécies resistentes, além do aprimoramento das técnicas agrícolas, foi o que evitou uma tragédia maior com outra vassoura-de-bruxa, a causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, que atacou as plantações de cacau (Theobroma cacao). Antes das mudanças, a praga fez a produção nacional, então ainda liderada pela Bahia, cair de 400 mil toneladas anuais (t/a) em 1980 para cerca de 100 mil t/a em 2000. Hoje o estado do Pará é o maior produtor nacional (ver Pesquisa FAPESP nº 128).
A inovação amplia o alcance da técnica de recuperação de solos com o uso de microrganismos. Foto: Sérgio Miana de Faria
Pesquisadores da Embrapa Agrobiologia (RJ) desenvolveram um insumo biológico (inoculante) de amplo espectro, capaz de atender pelo menos 31 espécies florestais leguminosas. A inovação amplia o alcance da técnica de recuperação de solos com o uso de microrganismos, reconhecida desde a década de 1990 pela capacidade de recuperar solos severamente degradados, como os afetados pela mineração, erosão ou ocupação urbana desordenada. O produto, que está em fase final de desenvolvimento, pode contribuir para fortalecer o mercado de bioinsumos no País.
Das mais de 800 estirpes de rizóbio (bactérias do solo) isoladas pela Embrapa, duas foram selecionadas pela capacidade de estabelecer simbiose eficiente com 31 espécies florestais, cobrindo assim um leque expressivo de leguminosas nativas e de valor comercial.
“Com essas estirpes, conseguiremos eliminar uma das principais barreiras à adoção dessa técnica em larga escala, que é a especificidade entre bactéria e planta hospedeira”, explica Sérgio Faria, pesquisador da Embrapa Agrobiologia.
Essas descobertas abrem caminho para o desenvolvimento de inoculantes multiespécies, de largo espectro, capazes de atender simultaneamente várias espécies florestais utilizadas em ações de reabilitação ambiental em todos os biomas brasileiros. “A indústria de inoculantes não consegue produzir uma formulação para cada espécie florestal. Ter um produto com ampla compatibilidade é um ganho técnico e econômico para todos”, ressalta Faria.
Trata-se de uma solução que reduz custos e simplifica a logística de produção e aplicação. O objetivo é oferecer aos viveiristas e restauradores um inoculante único, eficiente para diferentes espécies usadas em projetos de recomposição florestal em todos os biomas brasileiros, sem perda de eficiência na fixação de nitrogênio.
O avanço resulta de um trabalho de décadas conduzido pelos pesquisadores da Embrapa Agrobiologia, com apoio de instituições públicas, universidades e empresas privadas. O foco é unir ciência do solo, microbiologia e ecologia para restaurar paisagens degradadas com base em processos naturais, especialmente na interação entre plantas leguminosas, bactérias fixadoras de nitrogênio e fungos micorrízicos (foram simbioses com as raízes das plantas).
Trinta anos de pesquisa para recuperar o que parecia perdido
A técnica de recuperação com o uso de microrganismos teve início há mais de três décadas, quando a Embrapa Agrobiologia buscava alternativas para regenerar áreas que haviam perdido completamente sua estrutura e fertilidade, sobretudo em regiões mineradas. Na época, o desafio era restaurar o “chão”, transformando substratos pobres em solo vivo novamente.
Nos primeiros experimentos foram testadas menos de dez espécies de leguminosas com potencial madeireiro, como sabiá (Mimosa caesalpiniifolia), gliricídia (Gliricidia sepium) e saman (Samanea saman). Hoje, a base de dados acumulada pela Embrapa já contempla centenas de espécies com potencial de uso em todos os biomas brasileiros, desde a Amazônia até o Semiárido.
“Começamos com poucos exemplos e hoje temos informações que orientam o uso de leguminosas para praticamente todas as condições de solo e clima do País”, observa o pesquisador Alexander Resende.
Recuperação de área de mineração na Região Norte do País. Foto: Liliane Bello
O papel invisível dos microrganismos
O segredo da tecnologia está na associação simbiótica entre plantas e microrganismos. As bactérias conhecidas como rizóbios colonizam as raízes das leguminosas e formam nódulos, onde capturam o nitrogênio do ar e o convertem em uma forma assimilável pela planta. Os fungos micorrízicos, por sua vez, ampliam o alcance das raízes no solo, favorecendo a absorção de água e nutrientes, especialmente o fósforo.
Essa relação de troca cria uma aliança que aumenta o crescimento vegetal mesmo em solos degradados e acelera a formação de matéria orgânica. As folhas, raízes e galhos caídos enriquecem a terra e reativam processos ecológicos essenciais, como a ciclagem de nutrientes e a retenção de água.
“O que fazemos é otimizar uma simbiose natural, selecionando as bactérias, fungos e espécies de plantas mais adaptadas para formar um sistema eficiente, capaz de reconstruir a fertilidade e preparar o terreno para o retorno da biodiversidade”, resume Eduardo Campello.
Evidências de sucesso em campo
A técnica já foi aplicada com êxito em áreas de mineração de bauxita e ferro na Amazônia e em Minas Gerais, em jazidas de piçarra no Rio Grande do Norte, e na recuperação de encostas e voçorocas no estado do Rio de Janeiro. Também há registros de uso em projetos de restauração na Caatinga e no Cerrado, sempre com resultados consistentes.
Os primeiros sinais visuais aparecem após aproximadamente 12 meses, com vegetação cobrindo o solo e controle da erosão. Em quatro a cinco anos, as áreas adquirem aspecto de “floresta jovem”. Estudos mostram ainda que, após uma década, a fauna local retorna e mais de 40 novas espécies vegetais passam a colonizar espontaneamente a área — número que chega a 70 espécies na Amazônia.
“Conseguimos estabelecer uma cobertura herbácea, arbustiva e arbórea, mesmo nos cenários mais inóspitos. A vida volta, e o solo volta a respirar”, relata Faria, que conduz os estudos com microrganismos desde os primeiros experimentos da Embrapa Agrobiologia.
Sustentabilidade e metas globais
Além de reduzir custos, o uso desses inoculantes tem impacto ambiental direto. Ao eliminar a necessidade de adubação nitrogenada mineral em viveiros e áreas em processo de restauração, a tecnologia evita perdas de nitrogênio para a atmosfera e águas subterrâneas — um problema ambiental e econômico conhecido. Estima-se que cerca de 50% do nitrogênio aplicado em adubos convencionais é perdido por volatilização e lixiviação.
O avanço também contribui para as metas de sustentabilidade assumidas pelo Brasil, como o Código Florestal, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e os compromissos internacionais do Acordo de Paris.
“Estamos na década da restauração, e com a COP30 acontecendo na Amazônia, é essencial mostrar soluções brasileiras baseadas em ciência e na natureza. As leguminosas inoculadas com microrganismos são uma das ferramentas mais eficazes para recuperar funções ecológicas em áreas degradadas”, complementa Resende.
Parcerias e próximos passos
O desenvolvimento da tecnologia contou com o apoio de instituições como:
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento (Faped),
além de parcerias com o Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes/Petrobras), o Instituto Federal de Educação do Rio de Janeiro (IFRJ), a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e prefeituras locais.
A equipe da Embrapa planeja agora ampliar testes com os inoculantes multiespécies e trabalhar com a indústria de bioinsumos para viabilizar a produção em escala e o treinamento de viveiristas em todo o País.
Voçorocas, as feridas abertas do solo que podem ser curadas com ciência
Em Tupi Guarani, voçoroca significa “terra rasgada”. A tradução é precisa para descrever o que se vê em muitas paisagens rurais e urbanas do Brasil: imensas crateras formadas pela erosão acelerada do solo. Essas cicatrizes profundas destroem lavouras, ameaçam estradas, residências e rebanhos, provocam o assoreamento de rios e colocam em risco a segurança de comunidades inteiras.
O problema é antigo e disseminado. Há registros de voçorocas com mais de 50 metros de profundidade e 15 mil metros quadrados de área, formadas ao longo de dois séculos de uso inadequado do solo em regiões como o Vale do Paraíba (RJ e SP) e Tiradentes (MG). Mas também há casos recentes, em áreas abertas há menos de 50 anos, como em Alta Floresta e Alto Taquari (MT), Marabá (PA) e Loanda (PR). Onde o solo é frágil, a vegetação foi retirada e as chuvas são intensas, a erosão avança rapidamente.
Em levantamento realizado pela Embrapa Agrobiologia na bacia do rio Barra Mansa (RJ), foram identificadas 154 voçorocas apenas no trecho estudado. Cada uma delas apresentava, em média, 2 mil metros quadrados e 10 metros de profundidade, o que corresponde a cerca de 3 milhões de metros cúbicos de solo erodido, equivalente a 300 mil caminhões de aterro. Grande parte desse material foi arrastada para as baixadas e cursos d’água, alterando ecossistemas e aumentando riscos de enchentes.
“O que precisa ser feito para conter e recuperar as voçorocas já é conhecido há anos: manter o solo coberto, reintroduzir vegetação adequada e usar espécies capazes de melhorar a estrutura e a fertilidade do solo”, enfatiza Resende.
Nesse cenário, as leguminosas inoculadas com microrganismos benéficos — tecnologia desenvolvida pela Embrapa — têm se mostrado uma das estratégias mais eficazes. Elas ajudam a reconstruir a cobertura vegetal, fixam nitrogênio, aumentam a matéria orgânica e estabilizam o terreno, criando condições para que outras espécies se estabeleçam e o equilíbrio ecológico volte a se formar.
Assim, a ciência mostra que é possível reverter as “terras rasgadas” e transformá-las novamente em áreas produtivas e sustentáveis.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
O cajuaçu (Anacardium giganteum) é um fruto menos popular que o caju e a árvore é nativa da região amazônica, conhecida por ser uma árvore que faz muita sombra e fica perto de rios e igapós. Porém, é um fruto muito consumido no estado do Pará e se tornou identidade cultural para o município de Bragança.
Árvore impressiona pelo tamanho. Foto: Reprodução/Embrapa
O fruto também é chamado de caju-bravo, caju-da-mata, cajueiro-da-mata, cajuí e cajuí-da-mata. Ele pertence à família Anacardiaceae, sua árvore é de estrutura muito densa e de grande porte, chegando a atingir cerca de 40 metros de altura, com frutificação entre os meses de novembro e fevereiro, segundo dados a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O fruto, no entanto, é menor e com sabor mais doce que o caju comum.
Sua popularidade surge também por ser muito apreciado e comercializado entre as comunidades no carnaval em Bragança. Seu suco tem reputação de ser muito saboroso e agradavelmente doce.
A bebida alcoólica cajuaçu
Mas o principal uso do cajuaçu na comunidade, principalmente durante o período festivo, é o destilado feito com a fruta. A tradição de sua produção é totalmente artesanal e transmitida de forma geracional para permanência do consumo local.
Segundo Heloíza Verema, uma das autoras do artigo “Elaboração e caracterização físico-química de uma bebida fermentada de cajuaçu (Anacardium giganteum)”, não existe período de dezembro a março sem cajuaçu para a população bragantina. Mesmo quando a safra é pequena, a população tenta fazer o possível para manter a tradição.
O pesquisador e professor Josinaldo Reis, dirigente do Bloco Urubu Cheiroso em Bragança, é uma das referências sobre a cultura local.
Segundo Reis, a bebida é de baixo custo e sazonal, e “fica melhor ainda quando misturada com mel e açúcar”. Segundo ele: “o ‘porre’ de cajuaçu vem rápido, devido ao consumo exagerado dos cidadãos e por ser de fácil acesso”.
Mas para ele a melhor parte do cajuaçu “é beber entre os amigos e ver a fermentação acontecer”.
O destilado produzido a partir desse fruto, é suave, adocicado e bem aceito, marca registrada do seu sucesso durante o carnaval e sua importância dentro da região bragantina.
Josinaldo Reis afirma que, em algum momento da história, não se sabe exatamente quando, alguém decidiu fermentar a bebida e viu que tinha um teor alcoólico considerado. Mesmo quando a bebida não fermenta, costuma-se misturá-la com outras, como cachaça e destilado de cana.
“Quando mistura com cachaça ou outras bebidas alcoólicas, não tem a mesma graça, não é o mesmo sabor e não é o mesmo porre”, explica Josinaldo.
Seu consumo em forma de bebida tornou-se muito apreciado pelos moradores locais e pelos turistas que frequentam a região do Caeté no carnaval.
Cajuaçu-vermelho. Foto: Reprodução/ Bio Diversity 4 all
Impacto cultural do fruto adocicado
A pesquisa de Heloíza Verema confirma que o cajuaçu tem um significado simbólico e cultural para os povos da região e está presente nas tradições paraenses. “Seu significado advém de suas características físicas, cajuaçu recebe esse nome por conta de sua característica ácida. É presente em épocas festivas, como o carnaval e esporadicamente no período junino”, afirma a pesquisadora.
No Pará, o fruto do cajuaçu é profundamente enraizado nas comunidades especialmente em Bragança e Augusto Corrêa.
“Ao estudar o cajuaçu, eu não analiso apenas um fruto, mas uma expressão viva da identidade amazônica, um patrimônio que une biodiversidade, tradição e potencial de desenvolvimento”, afirma Heloíza.