Home Blog Page 43

Projetos da Amazônia fortalecem proteção territorial e geram renda aos indígenas

0

Projetos na Amazônia fortalecem proteção territorial e geram renda com protagonismo indígena. Foto: André+Carioba

Projetos apoiados pelo Fundo LIRA/IPÊ fortalecem a proteção de territórios e impulsionam a bioeconomia na Amazônia Legal, com participação direta de milhares de indígenas e comunidades tradicionais. As iniciativas articulam organizações locais em diferentes estados e combinam conhecimento tradicional, tecnologia e gestão territorial para gerar renda, fortalecer a governança e conservar a floresta.

Para Neluce Soares, coordenadora do Fundo LIRA/IPÊ, os resultados evidenciam um modelo consistente de desenvolvimento a partir dos territórios.

“Quando os investimentos chegam diretamente às organizações locais, é possível fortalecer a governança, gerar renda e proteger a floresta ao mesmo tempo. São soluções que nascem dos territórios e respondem a desafios globais”, afirma.

Leia também: Comunidades indígenas do Xingu usam tecnologia para proteger território de atividades ilegais

Proteção territorial

Na região do Xingu, mais de 7.300 indígenas foram diretamente beneficiados por ações de gestão territorial e fortalecimento institucional. O trabalho envolveu cinco Terras Indígenas, com a realização de 225 missões de vigilância e a implementação de instrumentos de gestão em uma área próxima a 10 milhões de hectares.

O uso de tecnologias como drones, GPS e sistemas de monitoramento, aliado ao conhecimento ancestral, tem ampliado a capacidade de proteção dos territórios.

“Através do trabalho com o drone, localizamos um acampamento de madeireiros próximo à aldeia. Isso facilitou nossa atuação”, afirma Awanene Parakanã, da Associação Indígena Tato’a (TATOA).

Proteção territorial
Área territorial da região do Xingu. Foto: Reprodução/Norte Energia

Além da proteção territorial, as iniciativas também fortalecem cadeias produtivas da sociobiodiversidade em diferentes regiões da Amazônia. No Alto Rio Negro, mais de 4.900 indígenas participaram da implementação de Planos de Gestão Territorial e Ambiental em três Terras Indígenas, totalizando 10,2 milhões de hectares. Os projetos contribuíram para a geração de R$ 2,5 milhões em faturamento com produtos e serviços, ampliando o acesso a mercados municipais, estaduais e nacionais.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Em Rondônia e no Acre, organizações apoiadas ampliaram a produção e a base de cooperados, consolidando cadeias produtivas e fortalecendo a gestão local. No território Xipaya, a estruturação de uma miniusina de beneficiamento ampliou a produção de óleos vegetais e outros produtos da sociobiodiversidade, fortalecendo a geração de renda e a autonomia das comunidades.

Os impactos também se refletem na melhoria das condições de vida. Na Terra Indígena Trincheira Bacajá, a perfuração de poços e a instalação de sistemas de bombeamento com energia solar garantiram acesso contínuo à água potável, reduzindo doenças e fortalecendo a segurança alimentar. “Hoje temos água limpa para todas as nossas crianças. Antes, elas ficavam doentes ao beber água do igarapé”, relata Printkore Xikrin, cacique da aldeia Ngôkôndjâm, da Associação ABEX.

Os projetos ainda impulsionam o protagonismo das mulheres em diferentes territórios. No Alto Rio Negro, mulheres Baniwa vêm ampliando sua atuação na produção e comercialização de produtos da sociobiodiversidade, fortalecendo a autonomia econômica, a organização comunitária e sua participação nas decisões locais.

Para Fabiana Prado, gerente do Fundo LIRA/IPÊ, os resultados reforçam o papel estratégico de iniciativas que conectam conservação, economia e governança. “A experiência mostra que é possível integrar proteção ambiental, geração de renda e fortalecimento institucional. Esses projetos demonstram que a Amazônia tem caminhos concretos para um desenvolvimento sustentável baseado nos territórios”, afirma.

Leia também: Modelo de proteção territorial indígena se destaca ao unir tecnologia e tradições

Sobre o Fundo LIRA

O Fundo LIRA é uma iniciativa de apoio a projetos de impacto socioambiental em áreas protegidas. É uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas que atua de forma integrada, combinando financiamento, desenvolvimento institucional das organizações de povos e comunidades tradicionais, gestão do conhecimento, inovação e articulação com políticas públicas. Ao trabalhar em rede e a partir das realidades territoriais, o LIRA contribui para a conservação da biodiversidade, justiça climática, consolidação das organizações locais e a construção de estratégias duradouras para os territórios amazônicos.

Mais informações sobre o LIRA podem ser conferidos neste link.

Fundo LIRA também incentiva projetos de impactos socioambientais para milhares de pessoas. Foto: Synergia Socioambiental

Falta de energia elétrica afeta abastecimento de água para a população

0

Abastecimento de água. Foto de capa: Reprodução

Nas grandes cidades, o fornecimento de água para a população é feito por redes de abastecimento que dependem da energia elétrica para funcionar. Por conta disso, quando ocorre algum tipo de problema no sistema elétrico, afeta imediatamente a distribuição de água para os consumidores.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Isso acontece devido a dependência da eletricidade no processo de coleta, tratamento e distribuição de água. De acordo com João Augusto Saraiva, engenheiro ambiental e sanitarista, a rede utiliza diversos equipamentos eletrônicos em todas essas etapas.

“O caminho da água para chegar nas casas passa por diversas etapas: captação, transporte, armazenamento, tratamento e depois a distribuição para o cliente final. Acontece que, em todas essas etapas, existem diversos equipamentos elétricos que fazem o sistema como todo funcionar. A partir do momento que a energia falta, vamos ter problema no abastecimento de água”, explicou João.

Leia também: MPF move ação para que Amazonas Energia e União forneçam eletricidade a comunidades de Novo Airão

Falta de energia afeta o serviço de abastecimento de água. Foto: Roverma Energia
Falta de energia elétrica afeta o serviço de abastecimento de água. Rede é dependente da eletricidade. Foto: Reprodução/Roverma Energia

Além da falta de energia elétrica, a retomada do serviço também afeta o reestabelecimento do fornecimento de água para a população. Segundo Saraiva, mesmo com o retorno da eletricidade, a retomada na distribuição da água para as residências é feita de forma gradual para não comprometer os aparelhos e toda a rede de abastecimento.

“O que a gente precisa entender que necessariamente o retorno da energia não vai implicar no retorno imediato do abastecimento de forma regular. Como o sistema depende da energia, ele precisa passar por uma recomposição operacional gradual, então os equipamentos são religados novamente, a gente precisa testar eles, é necessário regularizar o nível nos reservatóios, pressurizar a rede novamente, estabilizar a vazão da água. Aí sim, a gente estabiliza o fornecimento para a residência dos clientes. Seria um risco para o próprio sistema em si a água retornar de forma abrupta”, explica Augusto.

Leia também: ‘O Rio que Somos’: documentário mostra cotidiano dos ribeirinhos da Amazônia e do Pantanal

Falta de energia afeta qualidade da água

A falta de energia elétrica também impacta na qualidade da água. Segundo o especialista, devido as redes serem antigas, a água não tratada acaba infiltrando dentro da rede durante o desabastecimento.

“De forma geral, as redes de abastecimento são antigas e existem tubulações que possuem infiltrações. Nesses pontos, a água externa acaba entrando para dentro da rede, impactando na qualidade da água. Mas a gente tem passado por um processo de restruturação da rede de abastecimento”, frisou o engenheiro, que é consultor ambiental.

Equipes trabalham no restabelecimento de água após falta de energia elétrica em Belém. Foto: Divulgação/ Águas do Pará

Águas que Transformam

A entrevista com João Augusto faz parte do quadro ‘Águas que transformam’, do programa Estação CBN Belém, da rádio CBN Amazônia, na edição de 8 de abril.

O especial visa ampliar o diálogo com a população e a melhoria do serviço do fornecimento de água no estado.

Engenheiro João Augusto Saraiva fala sobre os impactos da falta de energia elétrica no abastecimento de água. Foto: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia

Com apresentação da jornalista Ize Sena, o quadro vai ao ar toda quarta-feira no Estação CBN Belém, na 102.3 FM e no YouTube. Confira a entrevista completa (a partir de 1:18):

Confira mais episódios do especial ‘Águas que transformam’ AQUI.

Pesquisadores instalam estação meteorológica em Alvarães para monitorar clima na Amazônia

Estação meteorológica busca ampliar a rede de monitoramento climático na região da Amazônia Central. Foto: Bianca Darski

Pesquisadores do Instituto Mamirauá instalaram uma estação meteorológica na comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé, no município de Alvarães (AM). A ação, organizada em parceria com os comunitários, busca ampliar a rede de monitoramento climático na região da Amazônia Central e fortalecer a resiliência das comunidades por meio de informações úteis para a adaptação às mudanças climáticas.

Esta é primeira estação meteorológica instalada no âmbito do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia. A estação medirá informações para a compreensão do clima na região onde está localizado o Lago de Tefé, como temperatura e umidade do ar, direção e velocidade do vento, radiação solar e quantidade de chuva. Outras quatro estações serão instaladas, uma para cada lago monitorado no projeto: Lago de Coari, Lago de Janauacá, Lago de Serpa, no estado do Amazonas, e Lago Grande de Monte Alegre, no Pará.

Leia também: Manaus inaugura primeira estação meteorológica municipal

estação meteorológica na comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé, no município de Alvarães (AM).
Estação meteorológica foi instalada na comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé, em Alvarães (AM). Foto: Bianca Darski/Instituto Mamirauá

De acordo com Daniel Michelon, pesquisador do Grupo de Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia do Instituto Mamirauá, medir variáveis meteorológicas é fundamental para entender como o clima está mudando na região amazônica, especialmente em áreas protegidas como a Flona de Tefé. “Essas variáveis controlam diversos processos ambientais, incluindo o nível dos lagos, a ocorrência de secas e cheias, e o funcionamento dos ecossistemas. Esses dados também são fundamentais para compreender as interações entre atmosfera, floresta e corpos d’água, além de alimentar e validar modelos climáticos e ecológicos e de previsão do tempo”, explica o pesquisador.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Benefícios da estação

O coordenador do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia e pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann, destaca a importância da parceria com a comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, e demais comunitárias do Lago de Tefé, para a instalação da estação meteorológica. “Essa estação vai nos ajudar especialmente porque queremos mantê-la por muito tempo para entender como as mudanças climáticas têm afetado o clima da região. Quando falamos em clima, temos que entender em longo prazo, mais de 10 anos idealmente, 30 anos ou mais. Queremos medir ao longo do tempo como a temperatura e chuva tem mudado, se eventos de chuva extrema tem se intensificado nesses anos em relação ao passado… Tudo isso pode ser analisado com a estação meteorológica automática que instalamos. Sabemos que o clima tem mudado. Temos visto ondas de calor muito intensas, tanto no ar quanto na água, entre outros impactos muito fortes das mudanças climáticas, no clima da região de Tefé, Alvarães, da Floresta Nacional de Tefé como um todo”.

Diante de um cenário cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos, como as secas históricas que ocorreram em 2023 e 2024 no Amazonas, pesquisadores do Instituto Mamirauá e de outras instituições concentram esforços para coletar e analisar informações nos ecossistemas aquáticos na região. Com dados de longo prazo e em ampla escala geográfica, o objetivo é entender as consequências desses eventos extremos e prever a sua ocorrência, de forma a subsidiar políticas públicas para reduzir a vulnerabilidade de quem vive e depende dos ecossistemas aquáticos amazônicos. “Para os moradores da Flona Tefé, essas informações ajudarão a entender melhor os padrões de chuva, seca e vento, apoiando o planejamento de atividades locais e fortalecendo a capacidade de adaptação às mudanças climáticas”, explica Daniel Michelon.

Moradores da Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha decidiram o local da instalação da estação meteorológica e discutiram os benefícios para a comunidade. O comunitário Jucelino Oliveira da Costa explica que para ele é motivo de muito orgulho ter uma estação na comunidade. “Conseguir esta estação através do conhecimento e da parceria é motivo de muito orgulho. A gente não tem como saber o quanto está quente ou frio, então tendo um aparelho que mede isso, a gente vai passar a saber, quanto graus está, o que secou, o que choveu”, explica Jucelino Costa.

Moradores da Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha
Moradores aprovaram a instalação da estação meteorológica na Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha. Foto: Bianca Darski/Instituto Mamirauá

Silas Rodrigues, presidente da comunidade, aponta que para os comunitários será importante acompanhar como está o clima. “Envolvendo as escolas, quem sabe não pode surgir o interesse de saber o que é uma estação e o que ela faz? Pode surgir pessoas que se interessam pela área de meteorologia e se formar nessa área. Vamos ficar próximos, acompanhando”, destaca o presidente.

Rede de monitoramento climático e ambiental

O Instituto Mamirauá, por meio do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia, mantém desde 2023 uma rede de monitoramento climático e ambiental, composta por quatro estações meteorológicas distantes entre si por mais de 80 quilômetros. As estações estão localizadas na cidade de Tefé e nas unidades de conservação Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (Uarini, AM) e Floresta Nacional de Tefé (Alvarães, AM). Além dos dados meteorológicos, também é medido diariamente o nível da água do rio ou do lago com uso de uma régua.

Os dados monitorados são divulgados mensalmente em diferentes canais, como rádio, e-mail e o grupo de whatsapp do Boletim das Águas do Médio Solimões. O grupo foi criado em 2023 e atualmente conta com mais de 900 membros, em sua maioria moradores da região. Além de dados meteorológicos da região do Médio Solimões, são divulgadas informações hidrológicas como o nível do rio do Alto Solimões e de afluentes como os rios Japurá e Negro.

Mapa da rede de monitoramento climático e ambiental do Instituto Mamirauá. Foto: Divulgação/ Instituto Mamirauá

Sobre o projeto Lagos Sentinelas da Amazônia

O projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia: Centro Transdisciplinar para Compreensão das Dinâmicas Socioambientais e das Águas Amazônicas sob Mudanças Climáticas” é uma iniciativa que reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades ribeirinhas com o objetivo de compreender e monitorar, de forma colaborativa, os impactos das mudanças climáticas nos lagos da Amazônia Central e possíveis soluções, especialmente para comunidades que vivem no entorno.

A iniciativa teve início diante dos cenários alarmantes enfrentados pelas águas amazônicas nos últimos anos. Lagos da região se mostraram particularmente sensíveis às mudanças climáticas, sendo impactados por secas extremas que ocasionaram a morte de diversas espécies — entre elas, centenas de botos nos lagos Tefé e Coari, no Amazonas —, além de afetar milhares de pessoas que vivem nessas regiões. Nesse contexto, devido ao fato de os lagos estarem em posições mais baixas na paisagem, eles funcionam como “sentinelas” porque recebem, abrigam, acumulam e refletem tudo que está em seu entorno.

O projeto é coordenado pelo pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann e é financiado pela chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia, voltada à criação de Centros Avançados em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. O projeto também conta com apoio da Fundação Gordon e Betty Moore, WCS, Fapeam, Sedecti e Governo do Amazonas, além da participação de 15 instituições nacionais e internacionais.

Entre as instituições parceiras do projeto, estão: Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), Instituto Tecnológico Vale (ITV), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade de Brasília (UnB), Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), Instituto Cary e Universidade Bangor e Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB).

Sobre o Instituto Mamirauá 

O Instituto Mamirauá é uma Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que atua por meio de programas de pesquisa, manejo de recursos naturais e desenvolvimento social na Amazônia, tendo como linhas de ação principais a aplicação da ciência, tecnologia e inovação na conservação e uso sustentável da biodiversidade amazônica, bem como a construção e consolidação de tecnologias sociais e programas de manejo em parceria com comunidades tradicionais. 

Área da aldeia indígena Gamir, em Rondônia, passa por processo de restauração florestal

0

A restauração florestal na Aldeia Gamir, localizada na Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia, atingiu um marco importante neste primeiro trimestre de 2026. Em visita técnica realizada pela Ecoporé, a área de 70 hectares está em fase inicial de restauração e as primeiras impressões já demonstram sinais de crescimento surpreeendente de recuperação.

Através do projeto Regenera, a transformação já é aparente. Antes, a área apresentava solo compacto e sem vida, decorrentes da pecuária extensiva sem práticas de manejo sustentável das pastagens. Agora, toda a região já conta com espécies leguminosas plantadas.

Para o vice-cacique geral do povo Paiter Suruí e cacique da Aldeia Gamir, Uraan Suruí, a parceria com a Ecoporé e o Projeto Regenera veio fortalecer um desejo que já pulsava na comunidade.

“Antes mesmo do projeto começar, nós já vínhamos realizando nossas próprias ações de restauração. Isso sempre fez parte da nossa visão de recuperar, proteger e produzir de forma equilibrada. Agora, com o apoio da Ecoporé, esse trabalho se torna mais concreto. É como somar forças: o conhecimento ancestral com o suporte técnico para potencializar os resultados”, afirmou o vice.

Leia também: Restauração florestal cresce 90% no Brasil em relação a 2021, mas Amazônia representa menor porcentagem

Restauração florestal na Aldeia Gamir conta com espécies leguminosas plantadas na região. Foto: Acervo Ecoporé
Restauração florestal na Aldeia Gamir conta com espécies leguminosas plantadas na região. Foto: Acervo Ecoporé

O caminho da restauração

O processo de restauração foi planejado estrategicamente para priorizar a saúde do solo. O primeiro passo foi construir os acordos com a comunidade. A partir daí remover o principal fator de degradação, que consistia em uma gramínea exótica, e preparar o solo. Com a área livre, iniciou-se o plantio de espécies leguminosas, como o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis) e o feijão-guandu (Cajanus cajan).

Essas espécies desempenham um papel vital na fixação biológica de nitrogênio, recuperando a fertilidade do solo de forma natural e eficiente, controlando o crescimento das espécies exóticas, eliminando a necessidade de agrotóxicos e contribuindo para a germinação de espécies florestais nativas.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Dados

Os dados coletados em campo através de monitoramento e medições em parcelas confirmam o sucesso da metodologia:

  • 1º Talhão (Dezembro/2025): Com aproximadamente 40 hectares, as plantas já atingem 1,80m de altura. A floração já começou, indicando uma excelente expectativa para a colheita de sementes.
  • 2º Talhão (Fevereiro/2026): Implantado de forma estratégica para otimizar o manejo da comunidade, permitindo que a colheita das sementes do primeiro talhão coincida com o ciclo de manutenção.

Para Marcos Souza, supervisor técnico da Ecoporé, a metodologia tem dado certo.

“Nossas visitas técnicas confirmam o que os olhos já veem: a terra está ganhando vida nova. Sem o uso de uma gota de veneno, as plantas nativas estão vencendo naturalmente o mato invasor. O solo, antes cansado, agora está recuperando seus nutrientes e sendo protegido por um manto verde de vegetação que não para de crescer”, afirma Marcos.

Impacto Social e Futuro

Mais do que uma recuperação ecológica, o projeto foca na geração de renda. As sementes produzidas nestas áreas serão colhidas pelos indígenas, replantadas ou negociadas para outros projetos de restauração, garantindo a sustentabilidade ecológica e financeira para as famílias. A partir do segundo ano, o projeto evolui para a implementação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), integrando a produção de alimentos com a floresta em pé, sempre com a decisão e participação ativa da comunidade indígena.

Saiba mais: Entenda a importância da restauração florestal para garantir a Saúde Única na Amazônia

Marcos de Souza, supervisor, faz panorama na TI com vice-cacique geral do povo Paiter Suruí, Uraan Suruí. Foto: Acervo Ecoporé

“Para mim, como liderança e como filho desse território, essa restauração é mais do que plantar árvores, é reconstruir a vida. Ver esses hectares sendo recuperados é como ver nosso próprio futuro sendo replantado com as nossas mãos, garantindo harmonia ambiental, social e econômica para as próximas gerações”, resume Uraan.

Esta iniciativa conta com o suporte das sementes disponibilizadas pela RESEBA, executada pela  Ecoporé e realizada através do Projeto Regenera, com apoio da The Caring Family Foundation. Promove a agricultura regenerativa na Amazônia,  fortalece a bioeconomia e a restauração ecológica, tudo isso  sem que a floresta precise ser derrubada.

*Com informações da assessoria

Martha Falcão Wyden abre matrículas com bolsas de até 50%

0

Foto: Divulgação

O Centro Universitário Martha Falcão Wyden segue com matrículas abertas e condições especiais para quem deseja iniciar a graduação ainda este ano. A instituição está oferecendo bolsas exclusivas de até 50% durante todo o curso, com inscrições válidas até o dia 13 de abril.

 📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

As oportunidades contemplam cursos que estão em alta no mercado de trabalho em Manaus, como Odontologia, Direito, Psicologia e Enfermagem — áreas que apresentam grande demanda por profissionais qualificados e oferecem excelentes perspectivas de crescimento profissional.

Leia também: Legado de Martha Falcão pontua história da educação no Amazonas

Martha Falcão Wyden abre matrículas com bolsas de até 50%

Matrículas abertas no Centro Universitário Martha Falcão Wyde. Foto: Divulgação

Além das condições facilitadas de ingresso, a instituição também promove iniciativas voltadas à empregabilidade. Entre elas, destaca-se a Feira de Empregabilidade, que será realizada no campus do Martha Falcão, reunindo empresas, especialistas e oportunidades de networking para os alunos e futuros acadêmicos, fortalecendo a conexão entre formação acadêmica e mercado de trabalho.

A iniciativa reforça o compromisso da instituição com o acesso ao ensino superior de qualidade, ampliando as possibilidades para estudantes que buscam formação sólida e inserção competitiva no mercado. Mais informações sobre cursos, ingresso via Enem e critérios para concessão de bolsas podem ser obtidas pelo telefone (92) 98104-8265.

Segundo a reitora Carla Sena, as condições especiais e ações como a feira fazem parte de uma estratégia para aproximar os estudantes das oportunidades profissionais desde o início da graduação.

“Nosso objetivo é oferecer não apenas acesso ao ensino superior de qualidade, mas também criar pontes reais com o mercado de trabalho. A Feira de Empregabilidade é uma dessas iniciativas que potencializam a trajetória dos nossos alunos, conectando-os com empresas e ampliando suas perspectivas de carreira”, destaca.

*Com informações de Martha Falcão Wyden.

Projeto sobre plantas medicinais alia saber tradicional e ciência em Itacoatiara

0

Unha de gato, um tipo de planta medicinal. Foto: Acervo Farmafittos.

O uso de plantas medicinais, comum no dia a dia de muitas famílias amazônidas, está no centro de um projeto desenvolvido pela Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara, em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A iniciativa vai resultar na elaboração de uma cartilha com orientações sobre o uso seguro de plantas medicinais.

“A proposta é fortalecer o diálogo entre ciência e tradição, ampliando o acesso à informação e incentivando práticas seguras no uso de plantas medicinais da região amazônica”, ressalta a diretora geral da Afya de Itacoatiara, Soraia Tatikawa.

O projeto “Etnobotânico de Plantas Medicinais da região de Itacoatiara” é coordenado pela professora da Afya de Itacoatiara, Francenilda Gualberto, e envolve estudantes do curso de Medicina e pesquisadores na coleta, identificação e análise das espécies utilizadas pelas comunidades locais. O objetivo é catalogar essas plantas e descrever suas propriedades químicas e biológicas a partir do conhecimento tradicional aliado à evidência científica.

Leia também: Conheça 4 plantas medicinais com efeito anti-inflamatório

Projeto irá catalogar essas plantas e descrever suas propriedades químicas e biológicas a partir do conhecimento tradicional aliado à evidência científica. Foto: Divulgação

A iniciativa prevê a elaboração de uma cartilha com informações sobre as principais plantas medicinais identificadas durante a pesquisa, incluindo orientações sobre preparo, indicações e uso seguro. O material será produzido a partir do processo de catalogação das espécies realizado em parceria com a Ufam e deverá ser disponibilizado à comunidade, como forma de devolver o conhecimento sistematizado e valorizar os saberes tradicionais. “O projeto parte da escuta das comunidades e do conhecimento tradicional para, a partir disso, realizar a identificação das espécies e a análise de suas propriedades com base na literatura científica”, explica a professora.

A cartilha deve ser concluída até o mês de junho, período necessário para a identificação das espécies medicinais e o depósito do material em herbário. Após a finalização, o conteúdo será disponibilizado de forma online, por meio de grupos de WhatsApp de moradores de bairros e comunidades locais, além das redes sociais institucionais.

Segundo a coordenadora do projeto, as plantas podem oferecer benefícios importantes devido à presença de compostos bioativos com ação antioxidante, anti-inflamatória e antimicrobiana. “Algumas espécies também apresentam efeito calmante, auxiliam na digestão e contribuem para a hidratação do organismo”, destaca. No entanto, é importante diferenciar o consumo cotidiano do uso medicinal. “Enquanto o uso no dia a dia está associado ao hábito cultural, o uso medicinal possui finalidade terapêutica e exige cuidados específicos quanto à dose, preparo e tempo de uso”, explica Francenilda Gualberto.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Projeto prevê a elaboração de uma cartilha com principais informações das plantas medicinais. Foto: Divulgação

Uso responsável das plantas medicinais

Ela reforça que, apesar de naturais, as plantas devem ser utilizadas com cautela. “O uso medicinal das plantas precisa ser feito com responsabilidade. Elas contêm substâncias que podem ter efeitos no organismo, especialmente quando consumidas em excesso ou sem orientação adequada”, afirma.

Entre os riscos do consumo inadequado estão irritações gástricas, sobrecarga hepática e reações alérgicas. Gestantes e pessoas com doenças crônicas, como problemas renais, hepáticos ou cardiovasculares, devem ter atenção redobrada, já que algumas espécies podem agravar quadros clínicos ou interferir em tratamentos.

Leia também: Fitoterápicos: médico nutrólogo afirma que plantas medicinais da Amazônia são tesouro ainda não explorado

Ela considera que a integração entre o conhecimento tradicional e a medicina baseada em evidências tem ganhado espaço. “Hoje, existe um reconhecimento crescente da importância de integrar o saber popular com a validação científica, garantindo segurança e eficácia no uso das plantas medicinais”, ressalta a professora da Afya.

Na região amazônica, diversas espécies utilizadas tradicionalmente já apresentam respaldo científico quanto aos seus efeitos. Entre elas está o anador (Justicia pectoralis), com ação analgésica e anti-inflamatória; o boldo chinês (Plectranthus barbatus), conhecido por auxiliar na digestão; e o capim-santo (Cymbopogon citratus), que possui efeito calmante e propriedades antioxidantes.

Plantas medicinais
Diversas espécies de plantas medicinais já são utilizadas tradicionalmente e apresentam respaldo científico quanto aos seus efeitos. Foto: Divulgação

Outras plantas bastante utilizadas são a hortelã grande (Plectranthus amboinicus) e o hortelãzinho (Mentha spp.), com ação anti-inflamatória e digestiva; a mangarataia (Zingiber officinale), com efeito anti-inflamatório e expectorante; e a pitanga (Eugenia uniflora), que apresenta potencial antioxidante e antimicrobiano.

Também fazem parte desse conjunto espécies como pobre-velho (Costus spicatus), utilizado em distúrbios urinários, e saratudo (Justicia acuminatissima), associado a processos inflamatórios e cicatrização.

A Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara atua na formação de profissionais de saúde, preparando médicos capacitados para atuar na prevenção, diagnóstico e cuidado de condições que impactam a qualidade de vida da população. O projeto também contribui para o desenvolvimento dos estudantes de Medicina, que participam diretamente das atividades de pesquisa e extensão, adquirindo competências voltadas à atenção integral e à valorização dos conhecimentos locais.

Pesquisadores do Maranhão desenvolvem aplicativo para detectar bebidas adulteradas

0

A pesquisa foi realizada no Câmpus de Chapadinha e teve como produto a criação do aplicativo AlcoLab. Foto: UFMA

Um aplicativo gratuito desenvolvido na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Câmpus Chapadinha, permite detectar a presença de metanol em bebidas alcoólicas com materiais simples e de baixo custo. O AlcoLab, criado pelo professor da UFMA Pedro Augusto de Oliveira e pelo bolsista de pós-doutorado em Biomedicina Romério Rodrigues, em parceria com a Polícia Civil do Distrito Federal, é capaz de identificar a presença de metanol  utilizando apenas materiais simples: uma seringa, uma balança de cozinha e um smartphone.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp 

Partindo de uma colaboração entre os pesquisadores, o estudo buscou também investigar a toxicidade dessa substância, após o Brasil enfrentar surtos de intoxicação por metanol no segundo semestre de 2025. Segundo os dados oficiais do Ministério da Saúde, em dezembro de 2025, foram registrados 73 casos e 22 óbitos em todo o país, incluindo estados como  São Paulo, Pernambuco, Paraná, Mato Grosso e Bahia. 

O AlcoLab é uma ferramenta gratuita e open-source que estima contaminação por metanol em bebidas e soluções. Foto: UFMA

De acordo com o professor e coordenador do projeto, Pedro Augusto de Oliveira Morais, o aplicativo AlcoLab foi criado nesse contexto. “A ideia surgiu no final de 2025, a partir de uma conversa entre pesquisadores. Durante essa discussão, questionei um perito da Polícia Civil do Distrito Federal, Diego Souza, sobre como esse tipo de análise é realizado na prática e quais são as limitações enfrentadas fora do ambiente laboratorial. A partir desse diálogo, passamos a explorar alternativas mais simples e acessíveis para a identificação da substância em bebidas”, explica o pesquisador. 

Leia também: Seis bebidas para conhecer as raízes culturais colombianas

O metanol é um álcool altamente tóxico, muitas vezes, utilizado de forma clandestina para adulterar cachaça, vodca, uísque, gin e outras bebidas. A ingestão pode causar cegueira, falência de órgãos e potencialmente morte.

Avaliando as propriedades da substância, os pesquisadores chegaram ao desenvolvimento da ferramenta. “Com base em estudos prévios, passamos a explorar a densidade e viscosidade, como parâmetros para uma triagem inicial. Nós buscamos adaptar o método para o uso com materiais simples, ampliando o acesso à técnica. Posteriormente, foi desenvolvido o aplicativo AlcoLab, com o objetivo de reduzir erros experimentais, automatizar os cálculos e tornar o processo intuitivo para o usuário”.  

Pesquisadores do Maranhão desenvolvem aplicativo para detectar bebidas adulteradas. Foto: divulgação

Na prática, o funcionamento é simples: a pessoa coloca a bebida na seringa, pesa com uma balança comum, grava um vídeo, enquanto o líquido escorre. Depois o usuário marca alguns pontos no vídeo dentro do aplicativo e então é calculado automaticamente a densidade e a viscosidade. O resultado surge em poucos minutos, informando se a bebida é suspeita de conter metanol a partir de 5%, além de estimar as porcentagens aproximadas de água e etanol. 

*Escrito por Byanca Santos, da assessoria da UFMA

MPF e MPRR atuam para regularizar pesca esportiva em reserva de Roraima

0

Criação da RDS Xeruini, em 2022, condicionou a exploração comercial da pesca esportiva à aprovação de um plano de manejo, ainda inexistente. Foto: João Paulo Araújo/ Governo de Roraima

O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado de Roraima (MPRR) firmaram um acordo com a Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Roraima (Femarh), empresários e ribeirinhos para regularizar a atividade de pesca esportiva nos Rios Xeruini e Amajaú, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Xeruini.

A unidade de conservação estadual é do tipo que permite o uso sustentável dos recursos naturais pelas comunidades tradicionais residentes, mas exige a elaboração de um plano de manejo para regulamentar atividades econômicas como o turismo de pesca esportiva.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O termo de ajustamento de conduta (TAC) foi assinado no dia 27 de março e terá validade até a aprovação e a implementação do plano de manejo da reserva. Participam do acordo empresas de Pesca Esportiva e as Comunidades Ribeirinhas Vila Terra Preta, Vila Canauini, Vila Lago Grande e Vila Cachoeirinha.

De acordo com o MPF e o MPRR, o TAC permanece aberto à adesão de outras comunidades ribeirinhas da RDS Xeruini que manifestem interesse em desenvolver a atividade de pesca esportiva. Caso o plano de manejo não tenha sido aprovado, o prazo de vigência do acordo será de três anos, prorrogável por igual período mediante concordância das partes.

Solução transitória 

A criação da RDS Xeruini, em 2022, condicionou a exploração comercial da pesca esportiva à aprovação de um plano de manejo, ainda inexistente, o que gerou a suspensão de novas licenças pela Femarh e deixou empresários e ribeirinhos em situação de incerteza jurídica. O termo de ajustamento de conduta surge como solução transitória, viabilizando a atividade de forma regulamentada enquanto o plano de manejo não é concluído.

A medida busca garantir segurança jurídica para as comunidades ribeirinhas que dependem da atividade. “A pesca esportiva nos Rios Xeruini e Amajaú é uma atividade extremamente relevante para as comunidades, uma vez que gera renda e subsistência para os moradores dessa região”, frisou o procurador da República Alisson Marugal.

Leia também: Porto Velho é nova Capital Nacional da Pesca Esportiva

pesca esportiva em reserva de roraima
Foto: Reprodução/Instagram-xeruinilodge

Ele explicou que havia insegurança jurídica, especialmente após a criação da RDS Xeruini, em 2022, que condicionou o licenciamento da atividade à existência de plano de manejo aprovado – documento ainda em elaboração. “Nos reunimos, dialogamos e assinamos o TAC. Isso viabiliza a regulamentação da pesca nos Rios Xeruini e Amajaú”, ressaltou Marugal.

O procurador da República destacou que o acordo representa uma mudança de abordagem institucional. “A nossa atuação não pode se limitar à fiscalização. É preciso compreender a realidade de quem vive nesses rios e construir, junto com as comunidades, os empresários e o poder público, soluções que promovam direitos – e não apenas aplicar sanções”.

Pesque e solte

O acordo reflete também uma concepção mais ampla de desenvolvimento para o Baixo Rio Branco, região em que as alternativas econômicas para além da subsistência são escassas. As próprias comunidades ribeirinhas relatam que o contato com a pesca esportiva transformou sua relação com o meio ambiente: preservar o rio passou a significar, concretamente, gerar renda.

O TAC consolida esse entendimento ao adotar o modelo “pesque e solte” – sendo expressamente vedada a retenção ou comercialização de tucunarés capturados. Dessa forma, o acordo subordina as decisões empresariais ao aval das comunidades e também exige que ao menos 95% da mão de obra seja contratada localmente, com repasse mínimo de R$ 600 por turista atendido às associações comunitárias.

O termo de ajustamento de conduta prevê ainda a realização de estudo técnico de capacidade de carga dos Rios Xeruini e Amajaú, custeado pelas empresas. O estudo deve apresentar um levantamento das espécies de peixes e sua dinâmica populacional (ictiofauna), análise da qualidade da água e avaliação dos impactos da atividade sobre o ecossistema. As informações coletadas orientarão o licenciamento definitivo e poderão ajustar os limites de operação estabelecidos no TAC.

Para a promotora de Justiça da Comarca de Caracaraí, Vanessa Queiroz, a celebração do TAC consolida a atuação extrajudicial e preventiva dos Ministérios Públicos junto aos órgãos públicos, comunidades ribeirinhas e empresários da região. “O acordo compatibiliza a proteção do meio ambiente, o respeito aos povos e comunidades tradicionais e o desenvolvimento de atividades econômicas”, ressaltou

O presidente da Femarh, Wagner Severo, disse que o acordo contribui para organizar e fortalecer a atividade na região.

“A atividade de pesca esportiva é fundamental para o desenvolvimento dessa região, é uma atividade consolidada e hoje nós estamos unindo os empresários com as comunidades locais”, comentou. Ele ainda explicou que, por meio dessas atividades, as comunidades poderão ampliar a capacidade de operação da pesca esportiva na RDS Xeruini, no município de Caracaraí.

Com o acordo, as comunidades ribeirinhas dos Rios Xeruini e Amajaú passam a contar com um marco regulatório que reconhece seu protagonismo na gestão do território e abre caminho para que a preservação ambiental seja, ao mesmo tempo, fonte de dignidade e renda.

Outros acordos

O TAC da RDS Xeruini integra um conjunto mais amplo de iniciativas do MPF e do MPRR para regularizar a pesca esportiva em regiões ribeirinhas de Roraima. Acordo semelhante está em fase de conclusão para a RDS Itapará/Boiaçú – onde o TAC abrangerá o Rio Itapará e os Lagos do Curiucú e do Matá-Matá –, também no Baixo Rio Branco.

MPF e MPRR mantêm ainda diálogo com comunidades do Rio Jufari, curso d’água federal que serve de divisa entre Roraima e o Amazonas e está inserido na própria RDS Xeruini, com a participação do Ibama nas discussões e vistas para buscar solução equivalente para a pesca esportiva naquele trecho.

*Com informações do MPF

Poeta rondoniense lança livro sobre a “errância” humana

0

DO DIREITO À POESIA, Marcus Vinícius Xavier de Oliveira. Foto: Divulgação

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

O cenário acadêmico e literário de Rondônia ganha um novo e instigante capítulo com o lançamento do livro “Não bastassem os erros alheios…”. A obra é de autoria de Marcus Vinícius Xavier de Oliveira, professor adjunto do Departamento de Ciências Jurídicas da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), em Porto Velho.

Embora Marcus Vinícius possua uma trajetória acadêmica sólida — sendo bacharel em Direito pela UNIR, mestre pela UFSC e doutorando em Direito Penal pela UERJ —, seu novo livro afasta-se do registro empolado do Direito. A obra revela um poeta envolto na filosofia e no cotidiano para explorar a experiência humana como um acúmulo de falhas.

O prefácio, assinado pelo escritor e professor Vitor Cei (UFES), descreve o livro como uma conexão entre “baixo ventre e cérebro”. Cei destaca que a poética de Marcus Vinícius é direta e irônica, misturando o erudito ao popular — do latim ao palavreado chulo — para criticar a hipocrisia e o autoritarismo moral.

Leia também: Livro ‘O Tabelião e o Ministro’ resgata a história da família Coelho na Amazônia

O Rio Madeira como metáfora

Livro rondoniense
Capa do livro ‘Não bastassem os erros alheios’. Foto:

A geografia amazônica transborda para os versos. O Rio Madeira surge como uma imagem central da vida que segue seu curso caudaloso, levando consigo planos, sonhos e projetos. Para o autor, viver não exige respostas ou dogmas, mas sim o exercício constante da dúvida e da perquirição.

O título do livro estabelece um paradoxo: a crítica ao erro alheio só é legítima quando se reconhece a própria implicação no erro. Como define o romancista Manoel Herzog em seu texto de apresentação, Marcus Vinícius observa o mundo a partir de um locus privilegiado — a periferia do sistema literário — para rir da “comédia humana” sem esnobismo.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Sobre o autor – Além de docente na UNIR, Marcos Vinícius desenvolve pesquisas em Direito Internacional, Direito Penal Internacional, Filosofia do Direito e Filosofia Política. Casado e pai de duas filhas, ele afirma, com o humor ácido que marca suas páginas, acreditar na “inutilidade da poesia” e na impermanência de todas as coisas.

Serviço

  • Título: Não bastassem os erros alheios…
  • Número de páginas: 56.
  • Formato: PDF
  • Editor: Carlos Henrique C. Gonçalves (Editora De Castro)
  • Gênero: Poesia Brasileira
  • Ano: 2026

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

‘Metáforas do amor’: estudo do Maranhão mostra resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher

0

Estudo sobre “Metáforas do amor” foi vencedor no prêmio FAPEMA 2025. Foto: Agaminon Sales (DCOM)

‘Como as metáforas do amor, transgredidas por um contexto de violência, nos mostram detalhes da conceptualização de um sentimento universal?’. Essa e outras perguntas instigaram a pesquisa ‘Metáforas do amor na fala das mulheres vítimas diretas de violência doméstica’, desenvolvida pela mestra em Linguística Hanna Almeida, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras (PGLetras) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 

 📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Sob orientação da professora Mônica Carneiro e coorientação do professor Cássius Chai, o estudo mostra, de forma inovadora, que as metáforas usadas pelas vítimas para falar do amor não apenas refletem experiências de violência, mas também podem reforçar sua naturalização ou, em contextos de acolhimento, favorecer processos de ruptura e reconstrução subjetiva. Em síntese, revela como essas mulheres interpretam e qualificam os acontecimentos vividos.  

“Equivocadamente, as pessoas dizem ‘ficou porque quis’ ou ‘ficou porque ama’, mas será que é assim? O que eu posso explorar dentro do fenômeno metafórico, dentro do que elas dizem sobre o ocorrido? O que eu posso rastrear em relação a como elas apreenderam esse amor?”, questiona Hanna.  

O estudo, de caráter descritivo-exploratório, foi vencedor na categoria Dissertação de Mestrado no prêmio FAPEMA 2025, realizado em janeiro de 2026. O trabalho metáforas do amor, aborda conceitos da Linguística Cognitiva, sob a óptica da Teoria da Metáfora Conceptual Estendida, para demonstrar, com maior clareza, os conteúdos da cognição envolvidos/ativados no contexto em que se insere o discurso. 

Metáforas como forma de expressão  

A metáfora é uma figura de linguagem essencial da comunicação humana, escrita ou falada, que estabelece uma comparação implícita entre dois termos, transferindo o sentido de um para o outro. Um exemplo é como imaginamos o conceito de ‘mais’ como algo para cima e ‘menos’ como algo para baixo, assim como ‘sucesso’ para cima e ‘fracasso’ para baixo.  

“Tudo que nós pensamos é metafórico, uma maneira de apreender o mundo. No contexto do amor, buscamos aspectos da emoção, como ‘intensidade’ e ‘passividade’. Falamos frases como ‘fui cegado pelo amor’. No caso pesquisado, dentro da violência doméstica, a ocorrência é completamente diferente. Observamos a emergência de ‘amor’ muito ligado à ‘dor’, um sentimento relacionado à metáfora de ‘amor de sacrifício’, em relatos como ‘eu tenho que me sacrificar por esse casamento’”, explica a pesquisadora.  

Leia também: Conheça ações que visam reduzir casos de violência contra mulher em Roraima

'Metáforas do amor': estudo da UFMA mostra resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher
‘Metáforas do amor’: estudo da UFMA mostra resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher. Foto: Reprodução/ Universidade Estadual do Maranhão

O estudo de Hanna teve como base discursos coletados para a tese de Carneiro (2014) e para a tese de Damacena (2021). O primeiro analisou relatos de mulheres acolhidas pela Casa Mirabal, em Porto Alegre, e o segundo, na Casa da Mulher Brasileira, em São Luís —  instituições que oferecem acolhimento às vítimas de violência doméstica.  

A partir da Teoria da Metáfora Conceptual (TMC), proposta por Lakoff e Johnson (1980), Hanna aplicou os conceitos dos autores em diálogo com a metodologia de Kövecses (2020).  

“Além de elementos como ‘dor’ e ‘sacrifício’, também observei a ideia de ‘troca econômica’,  uma categoria que incluí porque emergia de forma significativa nos relatos analisados”, afirma.

Entre os exemplos, destaca frases como: “eu vou voltar com ele, com o agressor, porque ele vai terminar a minha casa”.  

Outro ponto que chamou atenção foi a vulnerabilidade de muitas mulheres: “Eu tinha 16, 17 anos quando casei com ele, eu não sabia”, relatou uma entrevistada. “Nesse relato percebi uma vulnerabilidade física e emocional”, acrescenta Hanna.  

Acolhimento e renovação  

A experiência de violência vivida pelas mulheres evidencia a relevância das instituições de acolhimento, que, para muitas, representam uma renovação na forma de compreender os próprios sentimentos. Os relatos revelam uma ruptura com antigas concepções de amor e marcam um processo de transformação.  

“Também me deparei com relatos como: ‘mas aí eu percebi que ele ia me matar’. Com isso, ocorre um colapso no frame de ‘investimento’, surgindo o da ‘sobrevivência’, a partir dos cuidados nessas casas”, explica. 

Leia também: Violência doméstica contra a mulher: A vítima não é culpada

‘Metáforas do amor’: estudo da UFMA mostra resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher. Casa da Mulher Brasileira, em São Luís. Foto: Reprodução/Governo do Maranhão

Nesse contexto, os discursos ressaltam o papel essencial dessas instituições como parte das políticas de atenção e cuidado voltadas a esse público.

 “Eu consegui rastrear o amor próprio. São relatos de mulheres que já passaram por um atendimento. Esse olhar, como ‘eu sou muito mais mulher’, ‘eu me amo muito mais’, revela um rastreio de amor próprio. A partir dos cuidados, as frases trazem novos olhares, como ‘hoje eu sou uma outra mulher’, ‘eu sou muito mais combativa’, ‘eu não sou mais a pessoa que eu era’, ‘eu me amo muito mais’”, afirma.  

De acordo com as constatações da pesquisa, o papel desempenhado pelas casas de acolhimento também revela a construção de uma rede de apoio entre as mulheres acolhidas. “Eu tenho rastreios de um amor como ‘teia’, a sororidade muito mais nítida no discurso dessas mulheres.”  

Contribuições à sociedade  

Disponível no repositório on-line da Universidade Federal do Maranhão, o trabalho da autora tem importância que vai além do campo acadêmico e oferece subsídios para um olhar mais humano e empático aos casos de mulheres vítimas de violência doméstica, sendo capaz de transformar práticas sociais e políticas públicas.   

“Um trabalho que traz todas essas nuances, todos esses resultados, colabora diretamente com uma escuta mais empática de qualquer acolhimento ou projeto social”, afirma Hanna.

Os relatos analisados permitem compreender não apenas a emoção demonstrada pelas mulheres, mas também como, por meio da linguagem, elas reelaboram suas experiências. Ao longo do estudo, emergem perspectivas que apontam para uma verdadeira virada de chave na vida das mulheres acolhidas.

 “Hoje, elas já têm o amor próprio ocupando uma instância maior. Não somente esse, mas também a metáfora da sororidade: não se sentem mais aprisionadas, isoladas ou sozinhas”, finaliza a pesquisadora.  

Mais do que um registro acadêmico, a pesquisa se torna uma ferramenta social, capaz de fortalecer redes de apoio e oferecer novos olhares sobre o enfrentamento da violência doméstica. 

*Por Agaminon Sales, Universidade Federal do Maranhão.