Em 2024, Manaus (AM) foi a cidade brasileira que mais emitiu alertas de desastres naturais, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). A capital amazonense lidera o ranking, com 50 alertas emitidos, seguida por Belo Horizonte e São Paulo, que tiveram 41 alertas cada.
O risco é real, como relata Fábio Melo, morador de uma área vulnerável: “Toda vez que chove a gente já fica preocupado”, disse ele, enquanto a estrutura de sua casa, localizada à beira do barranco, desmorona gradativamente.
Moradores de diversas áreas enfrentam problemas semelhantes, como a crescente cratera no Núcleo 23, que já dura quatro anos e continua sem solução, apesar das visitas técnicas.
Em outros locais da cidade, como o bairro Cidade Nova, são registrados 104 pontos de risco, conforme a Defesa Civil. A situação se agrava com os deslizamentos ocorridos no Monte das Oliveiras e na Colônia Terra Nova, que deixaram feridos no ano passado. A preocupação persiste, com os moradores ainda sem uma resposta efetiva das autoridades.
De acordo com o Cemaden, Manaus ocupa a oitava posição no ranking de municípios com maior número de ocorrências de desastres naturais, com 19 incidentes registrados, a maioria de origem hidrológica, como enchentes e enxurradas, seguidos pelos deslizamentos em áreas urbanas vulneráveis.
A situação, que se agrava com as chuvas intensas típicas deste período, é reflexo do crescimento urbano desordenado, levando muitas famílias a se estabelecerem em áreas de risco por falta de opções.
A Defesa Civil Municipal tem realizado adaptações para atender as demandas emergenciais, mas, como aponta a comerciante Amélia Alves, as promessas ainda não foram cumpridas. “Enquanto isso, os moradores ficam à mercê da situação”, lamentou.
Com o aumento da vulnerabilidade e a escassez de soluções definitivas, os moradores de Manaus seguem na expectativa de ações concretas para mitigar os riscos e proteger suas vidas e propriedades durante este período crítico de chuvas.
Aluna da Escola Estadual Maria Calderaro, localizada em Presidente Figueiredo, no Amazonas, a estudante Maria Eduarda Alves de Araújo, de 17 anos, conquistou a medalha de prata na Olimpíada Internacional de Física e Astronomia Copernicus, realizada em Houston (Texas), nos Estados Unidos. Única representante do Amazonas no evento, ela também garantiu o 3º lugar no ranking global.
A competição, que incentiva alunos do 7º ano do Ensino Fundamental até a 3ª série do Ensino Médio de todo o mundo a se aprofundarem nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), aconteceu de 5 a 10 de janeiro e envolveu exames, desafios interativos e questionários de excursão. Os participantes enfrentaram jogos de física, quebra-cabeças e desafios improvisados.
Para Maria Eduarda, a experiência foi inesquecível:
“No final do teste, a delegação brasileira compartilhou o que eu descreveria como uma sensação unânime, porque, embora não tivéssemos certeza do resultado, sabíamos que havíamos dado nosso melhor. É uma experiência que ficará para sempre na minha memória, porque para mim não é apenas um marco acadêmico, mas também uma grande realização pessoal”.
Durante sua estadia nos Estados Unidos, a aluna participou de visitas técnicas que enriqueceram seus conhecimentos, conhecendo planetários, museus, observatórios e o “Space Center” de Houston.
Ela também destacou a importância de participar de palestras com astrônomos, pois esse momento lhe permitiu visualizar de perto tudo o que havia aprendido em sala de aula.
A microrregião do Salgado Paraense é o nome dado para o conjunto de municípios do Nordeste do Pará que localizam-se no litoral paraense. A região recebeu esse nome por causa das cidades de Salinópolis e Vigia, entre a foz do rio Pará e a foz do rio Gurupi, com ecossistemas que incluem manguezais.
A região abrange 11 municípios da costa do estado:
Colares
Curuçá
Magalhães Barata
Maracanã
Marapanim
Salinópolis
São Caetano de Odivelas
São João da Ponta
São João de Pirabas
Terra Alta
Vigia
Imagem: edição sobre original de Raphael Lorenzeto de Abreu
O Salgado Paraense, compreende também as Reservas Extrativistas Mãe Grande de Curuçá, São João da Ponta, Caeté-Taperaçu, Tracuateua, Araí Peroba, Gurupi-Piriá, Chocoaré-Mato Grosso e Soure, que são predominantes entre as populações tradicionais, com atividades de artesanato, associada à pesca artesanal e à caça do caranguejo.
O canto dos pássaros. A vibração que a onça-pintada emite ao caminhar pela mata. A comunicação entre os pirarucus na profundeza dos rios. No interior da Amazônia, sons da floresta funcionam como uma orquestra harmônica. Mesmo ouvidos destreinados conseguem perceber a sinfonia. Mas, se um dos “instrumentos” desafina ou para de tocar, o descompasso também é evidente.
O pesquisador Emiliano Ramalho coordena o Projeto Providence, que monitora espécies amazônicas. Foto: Marcello Nicolato
A analogia entre a música e a biodiversidade amazônica é do biólogo carioca Emiliano Ramalho, de 46 anos, que mora há mais de duas décadas na floresta. É a melhor forma que ele encontrou para explicar como o monitoramento contínuo dos animais ajuda a avaliar o funcionamento do ecossistema e se há sinais de alerta.
Ramalho é diretor técnico-científico do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na cidade de Tefé, no Amazonas, uma entidade vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Ele coordena desde 2016 o Projeto Providence, que usa sistemas automatizados de som e imagem para estudar as espécies amazônicas. São mais de 40 sensores espalhados pela floresta, que realizam monitoramento em tempo real, 24 horas por dia e sete dias por semana.
“Por meio da tecnologia, conseguimos observar um número de espécies e tipos de comportamentos que seriam impossíveis de monitorar por meios naturais. Então, muda completamente a perspectiva de observação dos bichos. A tecnologia não exclui a necessidade, muitas vezes, de ter o ser humano indo em campo, mas ela se torna um tipo de sétimo sentido nosso”, diz o biólogo.
Cientistas do Instituto Mamirauá investigam comportamentos das onças-pintadas na Amazônia. Foto: Emiliano Ramalho
Emiliano Ramalho já trabalhou especificamente com a contagem de pirarucus, no início da carreira, e depois se tornou um dos maiores especialistas em ecologia e biologia de onças-pintadas, principalmente em ambientes de várzea. Em um cenário que sofre inundações durante três a quatro meses por ano, o felino se adapta e passa a viver no topo das árvores. O comportamento foi registrado cientificamente pela primeira vez pelo pesquisador.
O biólogo costuma dizer que a “onça-pintada é fundamental para a conservação da floresta e a floresta é essencial para a sobrevivência da onça-pintada”. Nesse sentido, o equilíbrio social e natural passa, necessariamente, por estratégias de conservação da biodiversidade amazônica. É esse trabalho, aperfeiçoado pelos instrumentos tecnológicos, que move Ramalho a acreditar em um futuro melhor.
“Para trabalhar na Amazônia, você precisa ter esperança. Sou otimista, porque a nossa geração e a próxima ainda vão ter chance de mudar o cenário de crise. Mas hoje a situação é muito crítica, porque não temos de fato mais zona de amortecimento. Se não mudar o paradigma de como deve ser o desenvolvimento da floresta, a gente vai perder a Amazônia”, analisa o biólogo.
Ecologia digital
Uma outra forma de entender as dinâmicas climáticas da Amazônia é olhar para árvores e vegetações. Esse tem sido o caminho percorrido pelo cientista paulista Thiago Sanna Freire Silva, ecologista digital, como gosta de se intitular, que leciona informática ambiental na Universidade de Stirling, na Escócia, e coordena projetos de monitoramento de florestas inundáveis.
O foco principal do cientista está em entender como mudanças na hidrologia, no nível da água durante secas e cheias, afeta o ecossistema, principalmente em um cenário em que esses fenômenos se tornaram mais extremos. Para ter uma visão analítica mais ampla, ele escaneia extensões grandes da floresta com a tecnologia light detection and ranging (Lidar), um sensor capaz de emitir lasers, mapear e gerar cenários em 3D.
“Partimos das seguintes reflexões: se a gente começar a ter secas muito intensas sempre, isso poderia ser uma coisa boa para as árvores. Porque, quando elas estão inundadas, geralmente param de crescer. Ao mesmo tempo, por causa do aumento de temperatura e da redução de precipitação, durante a época de seca pode também faltar quantidade adequada de água para elas. E as árvores vão ficar estressadas e ainda mais vulneráveis do que em florestas de terra firme”, diz Silva.
Ecologista digital, Thiago Silva dá aulas de informática ambiental na Universidade de Stirling, na Escócia. Foto: Tânia Rêgo
O cientista explica que a análise ajuda a entender os padrões em níveis macroestruturais, a partir de grandes escalas e padrões de funcionamento da floresta. E que os resultados são aprimorados ao dialogarem com os estudos em nível micro e local. Diante do ritmo acelerado de impactos e prejuízos ao ecossistema, é preciso pensar primeiro em adaptações, antes de vislumbrar regenerações ambientais.
“Um dos grandes problemas dessas grandes crises climáticas é que a gente não tem como frear, pela velocidade e o tamanho delas. Só o que a gente pode fazer é se adaptar, entender melhor o que está acontecendo e conseguir prever com antecedência como essas mudanças vão se acumular ao longo das décadas. Assim, podemos pensar em estratégias melhores de como preservar essas florestas e ajudar as pessoas que dependem desses ambientes”, projeta Silva.
Ao rastrear a saúde das zonas úmidas durante anos, o cientista distingue as áreas que precisam ser protegidas antes que os danos se tornem irreversíveis. Enquanto há estudo, há esperança.
“Qualquer cientista que trabalha com ecologia e mudanças climáticas vive uma montanha-russa de sentimentos. Em alguns momentos, você fica completamente pessimista. Em outros, tem uma explosão de otimismo. O mais importante é que a gente tem buscado engajamento com as comunidades locais, as pessoas que têm maior capacidade de realmente proteger e fazer diferença. E que às vezes podem até não perceber o poder que elas têm”, diz o pesquisador.
Floresta estressada
No caso da cientista Luciana Gatti, os sinais do desmatamento e da crise climática são percebidos no ar. Ela é química e coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Desde 2003, atua em pesquisas na área de mudanças climáticas, com foco no papel da Amazônia na emissão e absorção de carbono.
Cientista Luciana Gatti coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Inpe. Foto: Luciana Gatti/Arquivo Pessoal
A medição das emissões de gases do efeito estufa começou em 2004, na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará. A partir de 2010, conseguiram expandir os trabalhos para outras localidades da Amazônia. Aviões de pequeno sobrevoam pontos específicos da floresta, onde amostras de ar são coletadas e armazenadas em frascos, para posterior análise em laboratório.
Com isso, poderia ser calculado se a floresta estava se comportando como fonte ou sumidouro de carbono. Ou seja, se ela mantinha a capacidade de absorver mais gases do efeito estuda do que eram emitidos.
“A primeira constatação foi a de que uma região da Amazônia é muito diferente da outra. A maior parte dos cientistas usa um número ou uma taxa e aplica para o bioma inteiro. Vimos que, quanto mais desmatada a floresta, mais a região tinha perdido volume de chuva e aumentado a temperatura ao longo de 40 anos. E isso acontecia principalmente durante a estação seca, especificamente entre os meses de agosto a outubro, no período da seca. Desmatamento não é só perda de carbono e emissão de gás estufa. É também mudança da condição climática para a floresta que ainda não foi desmatada”, explica Luciana.
Em outras palavras, a floresta que está sendo modificada pelo desmatamento ao redor vive em uma situação de “estresse”.
“Estamos matando a floresta de duas maneiras diferente: direta e indiretamente. A árvore não consegue fazer fotossíntese, porque está tão seco embaixo da terra que ela precisa fechar o ‘estômago’ para não perder água e continuar vivendo. E isso explica porque árvores das regiões mais desmatadas emitem sete vezes mais carbono do que as das regiões menos desmatadas”, diz Luciana.
Malas de amostragem da coleta de carbono na Amazônia. Foto: Luciana Gatti
Em um cenário ideal, o balanço de carbono da Floresta Amazônica deveria ser neutro, com equilíbrio entre emissões e absorções. Mas, com o desmatamento, a própria floresta passa a ser fonte de carbono e perde a capacidade de regular o clima. Segundo a cientista, não há outra solução a não ser interromper a destruição e priorizar projetos de restauração florestal.
“Nós precisamos de um plano de sobrevivência para restaurar as áreas perdidas da Amazônia. Eu tenho uma sugestão: vamos colocar como meta reduzir o rebanho bovino brasileiro em 44%, já que é a principal causa de emissão de gases estufa e a maior parte do desmatamento vira pasto”, defende Luciana. “Nosso plano de sobrevivência é plantar árvore. É ela que vai abaixar a temperatura, nos proteger das ondas de calor, dos eventos extremos. Quem disse que destruir a floresta é progresso é ignorante. A salvação dos brasileiros passa por salvar a Amazônia. Sejamos todos ativistas”, defende a pesquisadora.
Série sobre a Amazônia
A reportagem faz parte da série ‘Em Defesa da Amazônia’, que abre o ano da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), a ser realizada em Belém, em novembro deste ano. Nas matérias publicadas na Agência Brasil, povos da Amazônia e aqueles diretamente engajados na defesa da floresta discutem os impactos das mudanças climáticas e respostas para lidar com elas.
*O conteúdo foi publicado pela Agência Brasil, escrito por Rafael Cardoso (A equipe viajou a convite da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024)
A menos de um ano da realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), entre 10 e 21 de novembro, a cidade de Belém (PA) passa por uma transformação na sua infraestrutura e oferta de serviços. Assim como suas vias, prédios e praças, micro e pequenos empreendedores também se preparam para receber os visitantes e oferecer o melhor da já tradicional hospitalidade amazônica.
Novas tecnologias na moda, produção de biojoias associada ao reaproveitamento, inovação em artigos de decoração com matéria-prima da Amazônia são alguns dos produtos que serão apresentados aos visitantes que chegarão ao estado do Pará para a conferência global do clima.
O governo brasileiro espera receber cerca de 100 mil visitantes ao longo das duas semanas de conferência, entre chefes de Estado, participantes e turistas que pretendem visitar a cidade no mesmo período. Em 2024, Baku, no Azerbaijão, recebeu 54.148 participantes presenciais entre delegações, observadores, convidados e equipe de suporte inscritos na COP29.
Atualmente, Belém possui 18 mil leitos em hotéis e deve alcançar 22 mil nos próximos meses com a inauguração de novas unidades já em construção. O secretário extraordinário para a COP30, Valter Correia, declarou que, além das iniciativas do empresariado paraense, o governo federal garantirá a construção de 500 apartamentos modulares no padrão cinco estrelas, além da disponibilização de dois navios utilizados em cruzeiros internacionais com capacidade de acomodar até 5 mil pessoas.
O número de unidades de hospedagem em residências e locais para temporada nos aplicativos mais utilizados no país também crescem a cada dia. São espaços que já eram usados para hospedagem de visitantes em festividades como o Círio de Nazaré, quando a cidade reúne milhares de turistas do próprio estado e de outras cidades brasileiras, principalmente. Em 2023 foram 80,5 mil turistas, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA).
Capacitação
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por exemplo, firmou parceria com um dos aplicativos para capacitação dos proprietários desses espaços e, apenas em 2024, o número de anfitriões na plataforma subiu de 700 para 3,5 mil, informou a instituição.
“As expectativas são as melhores possíveis, não só para novembro, mas também para antes e depois do evento. Para você ter uma ideia, o turismo no nosso estado já aumentou desde o anúncio de que a conferência seria aqui”, afirma Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae no Pará.
Uma dessas empresárias é Betty Saldarriaga, que é proprietária de um spa com hospedagem pós-cirurgia plástica. Ela possui unidades tipo suítes duplas, com duas camas de solteiro, que resolveu disponibilizar também para o turismo, inicialmente durante o Círio de Nazaré.
“Eles (os turistas) ficam muito satisfeitos com o nosso atendimento. Porque como eu já trabalho com hospedagem para cirurgia plástica, tenho um atendimento privilegiado, um atendimento muito humanizado. Então, a gente já sabe como receber as pessoas”, explica.
Segundo Betty, a capacitação recebida pelo Sebrae foi fundamental para diversificar a oferta de seu negócio, partindo também para a hospedagem de turismo por meio de uma plataforma. O modelo de negócio era desconhecido pela empresária. “Quando eu fui atender uma paciente, ela me passou o endereço, eu fui até ela. E quando eu cheguei lá, ela me disse que o apartamento não era dela, que ela não estava muito confortável, porque o apartamento não estava oferecendo muitas condições para ela. Aí me explicou e me mandou o nome da plataforma e eu procurei o Sebrae para entender melhor”, lembra.
Após a capacitação, Betty passou a disponibilizar as unidades com agenda de atendimento livre nas ocasiões em que a cidade de Belém tem aumento na demanda por hospedagem turística, como a COP30. “Todo mundo está falando aqui em Belém sobre isso. Inclusive eu estou indicando pessoas que têm suas casas, esses apartamentos, algum imóvel, para aproveitarem a oportunidade e receberam essas pessoas. Eu acho que vai ter bastante gente que vai ajudar bastante como no Círio”, diz.
De acordo com Magno, somente em 2024, o Sebrae realizou 18 mil atendimentos de empresas, dos setores de hospitalidade, alimentos e bebidas, mobilidade e economia criativa, interessadas em se preparar para a COP30. “As empresas nos procuram em busca de orientações em assuntos como gestão financeira, precificação, estoque e atendimento, mirando o aumento de demanda que já chegou a seus negócios com a visibilidade trazida pela conferência da ONU”, diz.
Foto: Divulgação
Inovação
Uma dessas empresas é da design Nilma Arraes, que produz biojoias e objetos autorais com responsabilidade ambiental. A empresária, que já passou por várias capacitações e também atua como consultora do Sebrae, vem inovando no reaproveitamento de materiais descartados de forma abundante na região. “O foco do meu produto, desde sempre, ele tem tudo a ver com a COP, porque eu trabalho a sustentabilidade e o social também, além de eu trabalhar o meio ambiente. O meu trabalho é focado em não usar material que vai destruir e sim em reaproveitar aquilo que iria para o lixo”, explica.
Partindo dessa ideia, Nilma desenvolveu uma matéria-prima chamada Maria, uma abreviação para mistura de açaí com resina e insumos da Amazônia, com a qual produz biojoias e outros acessórios. Para a COP30, lançou a linha de luminárias, chamada Luz de Rios, elaboradas a partir do reaproveitamento de escamas do peixe pirapema, muito presente na costa paraense e consumida na culinária regional.
A estilista Val Valadares foi além e fez uma parceria com outra empresa paraense, responsável por iniciar um novo ciclo da borracha na Amazônia, e juntas lançaram uma coleção de moda feita de látex.
“Nós estamos estudando transformar a nossa borracha numa espécie de couro paraense inédito na moda. Fazendo peças exclusivas, já não vão ser peças em quantidade, mas exclusivas para artistas, para quem gosta de usar alguma coisa diferente. Então, eu estou agora aperfeiçoando essa possibilidade de forrar com acabamento 100% sustentável, para eu não precisar usar nenhum produto que não seja sustentável.”, diz.
A empresa parceira trabalha com 1.570 famílias de seringalistas, na Ilha do Marajó, a partir de tecnologias sociais que profissionalizam, comercializa biojoias de látex produzidas por mulheres de seringueiros e fornecem matéria prima para indústria de calçados. “Todo seringueiro cadastrado nesse processo, ele põe uma etiqueta lá no Marajó, quando ele pesa o produto. Ela vem com o nome dele direitinho, chega aqui na fábrica, a gente pesa, confere a qualidade da borracha e deposita o dinheiro”, explica Francisco Samonek, coordenador do projeto que estruturou a marca.
Segundo Francisco, a capacitação oferecida pelo Sebrae permitiu que a marca se estruturasse com registro, inserção no mercado, divulgação e precificação, por exemplo. Também foi o ponto de conexão entre as duas marcas. “Estamos trabalhando para capacitar os pequenos negócios locais para que quem venha ao Pará tenha acesso às belezas e riquezas da floresta pelas mãos de quem vive dela.”, reforça Rubens Magno.
Protagonismo
Os empresários também esperam o protagonismo na COP30. A estilista Val Valadares conta que, além de elevar o padrão da costura na Amazônia, sonha abrir um ateliê escola, para multiplicar receita de uma marca que iniciou na comunidade Quilombola Jacundaí, no município de Moju, e que já alcançou as passarelas da Semana de Moda em Milão.
“A minha expectativa é que eu consiga mostrar o meu talento, o conhecimento que adquiri nesses anos todos de trabalho. Que eu possa divulgar e contribuir para a moda, não só na COP30, mas para que o nosso estado tenha uma outra cara, que não seja conhecido só pela culinária, mas também que tenha a sua participação na moda”, disse.
Nilma também tem projetos de expandir os negócios e envolver ainda mais gente na cadeia produtiva de suas criações. “Eu movimento seis pessoas que trabalham como ourives, além de comprar as escamas de um fornecedor de pescados, mas já trabalhei com outros profissionais que me ajudaram em momentos diferentes”, diz.
O protagonismo de quem produz e protege a Amazônia, também é o reconhecimento aguardado por Francisco. “A nossa expectativa maior é fazer nossa apresentação no mercado internacional. A gente está apostando muito na COP com uma grande oportunidade de a gente ser visto”, conclui.
O Parque Ambiental Chico Mendes (PACM), localizado em um espaço de 57 hectares que preserva uma grande porção da floresta amazônica, é um tesouro natural que convida a comunidade a explorar, aprender e se conectar com a biodiversidade regional. Inaugurado em 2 de julho de 1996, em Rio Branco (AC), o parque é uma homenagem viva ao líder seringueiro Chico Mendes, cuja luta pela preservação dos povos da floresta e pelo manejo sustentável dos recursos naturais marcou a história do Brasil e do mundo.
Mais do que um espaço de lazer, o parque é um laboratório vivo de conservação ambiental. O local abriga fauna e flora amazônica essenciais como marcadores da qualidade ambiental da região. Seu zoológico, por exemplo, é lar de 276 animais, incluindo 33 espécies de mamíferos, aves e répteis típicos da Amazônia, proporcionando uma oportunidade única para a comunidade científica, pesquisadores e estudantes explorarem a biodiversidade local.
Além disso, o parque se destaca por seu compromisso com a preservação dos recursos naturais e pela disseminação de práticas sustentáveis. O espaço colabora com iniciativas de manutenção de um banco genético de espécies regionais, um projeto que busca proteger a riqueza biológica da floresta.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Rio Branco
Educação
O parque tem como missão sensibilizar as atuais e futuras gerações sobre a importância da preservação ambiental. Para isso, promove programas de educação ambiental que combinam aprendizado com experiências práticas em meio à natureza.
O espaço é planejado para receber visitantes de todas as idades, oferecendo infraestrutura completa com administração, área de alimentação, estacionamento para 300 veículos, banheiros acessíveis e diversos ambientes de convivência.
Entre as atrações, destacam-se trilhas ecológicas, áreas para piqueniques, uma réplica de uma casa de seringueiro, uma maloca indígena e lendas da floresta, além de uma academia ao ar livre e espaços recreativos para crianças.
Memorial
Um ponto de visita imperdível é o Memorial Chico Mendes, onde os visitantes podem aprender mais sobre a vida e o legado do seringueiro. O memorial celebra a luta de Chico Mendes pela preservação da floresta amazônica e pelos direitos das populações tradicionais.
Visitar o parque é uma oportunidade de se reconectar com a natureza e compreender o papel que cada pessoa desempenha na preservação ambiental.
O Parque Ambiental Chico Mendes está localizado na Rodovia BR-317, km – 02 – Vila Acre. O horário de funcionamento é de terça-feira a domingo, das 6h às 17h. Informações pelo telefone (68) 3221-0961.
Praça 14 de Janeiro: História de um bairro que surgiu da revolta popular e já teve três nomes. Foto: Willian Duarte/Rede Amazônica AM
Berço do samba, símbolo de devoção a Nossa Senhora de Fátima e referência no comércio automotivo, o bairro Praça 14 de Janeiro, na Zona Sul de Manaus (AM), celebroa 141 anos em 2025. Criado após uma revolta contra o governo, o bairro teve pelo menos três nomes antes de voltar ao original, em 1950.
No livro ‘Bairros de Manaus’, o historiador Gaetano Antonaccio relata que o bairro tem uma forte conexão histórica com a revolta popular de 1892, que resultou na deposição do governador Gregório de Azevedo. Sob a liderança do senador Almino Affonso, do empreiteiro Leonardo Malcher e do ex-governador Lima Bacuri, a população exigiu mudanças devido à insatisfação com a administração, marcada por atrasos salariais e descaso com a população local.
“A alegação era de que o governador estava com o pagamento do funcionalismo público em atraso, sem dar assistência compatível com a riqueza da borracha aos moradores da capital e do interior, além de não cumprir compromisso financeiro com os fornecedores do estado”.
No ápice do confronto de 14 de janeiro de 1892, Almino Affonso foi ferido, um soldado da Polícia do Amazonas foi morto com um tiro no peito, e diversos civis foram perseguidos pelas forças de segurança.
“Mas a manifestação do povo, diante do palácio do governo, na Praça D. Pedro II, consagrou uma vitória esmagadora e o governador foi deposto no dia 27 de fevereiro de 1892, quando cedeu lugar a Eduardo Ribeiro”, conta o historiador.
Foto: Matheus Castro/Rede Amazônica AM
Bairro já teve três nomes
De acordo com o historiador, o bairro Praça 14 de Janeiro teve pelo menos três nomes ao longo de sua história:
O bairro começou como “Praça 14”, nome dado pelos moradores após a revolta de 1892 contra o governo de Gregório de Azevedo.
Em 1912, passou a se chamar “Praça Dr. Pedrosa”, em homenagem ao governador Jonatas Pedrosa.
Em 1939, foi renomeado para “Praça Portugal” pela Colônia Portuguesa no Amazonas.
Em 1950, retornou ao nome original, “Praça 14 de Janeiro”, por meio da Lei n. 257, atendendo a um desejo dos moradores.
Berço do Samba e Centro de Tradição Religiosa
A Praça 14 de Janeiro é marcada pela histórica Igreja de Nossa Senhora de Fátima, um dos templos católicos mais antigos de Manaus. Além disso, o bairro é reconhecido como o “Berço do Samba”, por ser o palco da fundação da Escola de Samba Vitória Régia, celebrando a tradição do carnaval manauara e mantendo viva sua importância cultural.
A Paróquia de Fátima, que celebrou 50 anos em 2024, tem suas raízes em 1939, quando fiéis já se reuniam no local para devoções e missas. Só após anos de devoção, o local foi reconhecido oficialmente como uma comunidade pela Arquidiocese de Manaus.
“Com a construção de uma capela toda em madeira no ano de 1939, no dia 13 de maio, em homenagem à Nossa Senhora de Fátima, foi celebrada a primeira missa no bairro, comemorando-se a construção do Santuário de Fátima”.
Foto: Willian Duarte/Rede Amazônica AM
Embora a Escola de Samba Vitória Régia seja atualmente a mais representativa da Praça 14, o bairro já teve outras agremiações, como a Escola Mista da Praça 14, fundada em 1947. Essa escola iniciou os desfiles na Avenida Eduardo Ribeiro, conquistando o título de campeã no mesmo ano. A Vitória Régia, por sua vez, estreou no Carnaval de 1976, consolidando-se como um dos pilares do samba local.
Foi no local onde hoje está a escola de samba que os moradores da Praça 14 se reuniam inicialmente para as reivindicações do bairro.
“A região era conhecida como Jaqueirão, onde os moradores se reuniam para as reivindicações”, conta o historiador.
A Praça 14 também abriga o quilombo centenário São Benedito, um símbolo da luta e resistência dos moradores descendentes de escravos do Maranhão. Este é o primeiro território quilombola urbano da Amazônia, preservando a história e cultura de seus ancestrais.
Referência no comércio automotivo
A Praça 14 também é conhecida como um importante centro comercial, com destaque para as lojas de revenda de carros e acessórios automobilísticos. A Avenida Tarumã, uma das principais vias do bairro, concentra centenas de estabelecimentos desse segmento, tornando a área um reduto de negócios no setor automotivo.
O bairro Praça 14 também abriga escolas como Plácido Serrano, Primeiro de Maio e Luizinha Nascimento, além de ser sede de importantes instituições públicas, como a Procuradoria Geral do Estado (PGE) e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-AM). O local também guarda o barracão da Escola de Samba Meninos Levados, tornando-se um centro de educação, cultura e administração pública em Manaus.
Brazilian Team conquistou a terceira colocação na competição internacional Xprize Rainforest. Foto: Divulgação
Uma competição internacional, uma equipe brasileira e um horizonte de desafios para pesquisadores do Instituto de Biologia da Unicamp (IB) na floresta amazônica. A bióloga do Museu da Diversidade Biológica do IB, Simone Dena, os professores do IB André Freitas e Luiz Felipe Toledo e o doutorando Axel Minouwa, também do Instituto, integraram o Brazilian Team, formado por mais de cem pesquisadores de universidades brasileiras e terceiro colocado na Xprize Rainforest.
A competição internacional estimula o desenvolvimento de tecnologias para o mapeamento da biodiversidade de florestas tropicais e, durante cinco anos, promoveu a investigação sobre a relação entre a biodiversidade e as mudanças climáticas. A última etapa foi em julho de 2024 e reuniu quase 300 equipes de pesquisa de 70 países.
Realizada na floresta amazônica, esta etapa envolveu a disputa pela documentação de espécies em 24 horas; muitas ainda desconhecidas da ciência, como as duas que o grupo coordenado por Dena identificou. A pesquisadora trabalha com bioacústica, uma ciência que estuda os sons emitidos por animais, e na Unicamp também realiza pesquisas na Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard.
O convite para participar da equipe brasileira veio da necessidade de auxílio na captação e na análise dos sons de animais na floresta Amazônica. “Sabemos que são espécies novas, porque já existem estudos que demonstram que são. Agora o trabalho é fazer a descrição formal dessas duas espécies”, afirma. Como a pesquisadora não coletou exemplares das novas espécies, apenas seus sons, a suspeita é que pertençam ao grupo dos anfíbios.
Durante os experimentos na floresta, foram aplicadas tecnologias de ponta para realizar as amostragens de forma rápida e remota, por meio de processos automatizados e de inteligência artificial. Sensores, coletores, drones e até robôs adentraram a floresta, criando cenas próximas às dos filmes de ficção científica, que mostram objetos não identificados em ambientes remotos.
Os pesquisadores realizaram o mapeamento de espécies em cem hectares de floresta sem a presença humana e se concentraram na comunidade do Tumbira, reserva de desenvolvimento sustentável do Rio Negro. Foram coletadas amostras de espécies e vestígios de DNA em cursos d ‘água, no dossel das árvores e em áreas de serapilheira, forração de folhas e galhos que se depositam naturalmente sobre o solo. As informações foram relatadas em 48 horas, e, além de três espécies novas, foram identificados 266 animais, como preguiças, macacos, morcegos, peixes e insetos já descritos pela ciência e até mesmo espécies em escala microscópica, como as que Minowa estuda. “São os bichos de que ninguém gosta, mas geralmente são indicadores de que o ambiente é saudável”.
A observação de Minowa revela a importância de investigar os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade amazônica, um dos principais objetivos da competição internacional. Mas, na opinião de Freitas, é preciso dar um passo ainda mais importante antes desta investigação, trabalhando na contagem e na identificação de espécies que estão com o tempo contado de existência.
“Trabalhos mostram quantos pesquisadores precisam trabalhar continuamente, por décadas, para descrever toda a diversidade biológica. Temos que correr contra o tempo, porque algumas espécies estão em museus para serem descritas, mas já estão extintas na natureza”, afirma.
Freitas e outros colegas do IB realizaram à distância o levantamento de borboletas e mariposas encontradas nas 24 horas da última etapa da competição. Muitas delas têm exemplares expostos no museu no IB, mas a maior parte ainda precisa passar pelo processo de identificação. Entre estas, o pesquisador tem a expectativa de encontrar espécies ainda não descritas, principalmente mariposas.
Trata-se de um trabalho que não tem prazo para ser concluído, assim como a descrição das novas espécies encontradas pelo grupo da bioacústica. De concreto, fica a certeza de que a troca de experiências entre pesquisadores de vários países e universidades e o acesso a novas tecnologias são essenciais para a execução de uma tarefa tão complexa e desafiadora quanto fascinante, como o mapeamento da biodiversidade das florestas tropicais e os impactos das mudanças climáticas.
“Certamente, o projeto que nos levou ao terceiro lugar já contribuiu com informações importantes, mas é preciso saber quantas espécies existem, e, depois disso, podemos começar a pensar no que está acontecendo ao longo do tempo”, conclui Freitas.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Hebe Rios
O técnico mais longevo do futebol brasileiro, Aderbal Lana, de 78 anos, foi anunciado pelo Amazonas FC. Conhecido como a “Velha Raposa”, o treinador falou pela primeira vez sobre a aposentadoria que, segundo ele, é uma ideia que vem sendo cogitada há alguns anos. Nas palavras de Lana, o Amazonas, seu décimo clube no futebol amazonense, deve ser o último da carreira.
“Sim (sobre o Amazonas ser o último trabalho dele). Há muito tempo que a gente vem tomando essa decisão, mas nunca tem jeito porque sempre tem um convite. Mas se o homem lá em cima me ajudar, esse ano vai ser o último”.
O treinador mineiro, radicado no Amazonas, é o técnico com mais títulos estaduais do Brasil. Lana levantou 10 taças do Barezão, no comando de quatro clubes: Nacional, Rio Negro, São Raimundo e Manaus.
Este ano, ele volta a treinar um time da Série B do Brasileiro, que também irá disputar a Copa do Brasil e a Copa Verde. A poucos dias da estreia na temporada, Lana encara os desafios com uma certa naturalidade.
A segundo Lana, expectativa é na maior naturalidade possível porque a gente já está acostumado com isso. E aqui no Amazonas, esse ano, é uma montagem de equipe. Sabemos que a maioria dos jogadores foi embora, outros chegaram. O tempo está um pouco curto para o que nós queremos, mas estamos trabalhando para que tenhamos uma equipe forte.
Sabedoria para encarar as críticas
Antes de ser anunciado oficialmente, os bastidores do Amazonas indicavam a chegada do experiente treinador. A decisão pela escolha do nome gerou críticas internas e externas. Algo com que Lana se acostumou a lidar com o tempo.
Tenho muito desafeto no futebol, porque nunca deixei de falar o que sinto e nunca deixei de tomar posição quando sito que tenho que tomar.
“Muitas críticas pela minha idade, talvez um pouco de inveja. Porque, com a minha idade, estou sadio e inteiro. Nunca cuidei muito de saúde e levo a vida e deixo ela me levar naturalmente. Estou aí firme e forte. Agora tem muitos aí com 20 e 30 e que já estão com o caminho traçado lá para cima. Existe muita inveja, aqueles que acham que não entendo de bola, mas estou sempre beliscando na parte de cima e espero que esse ano seja a mesma coisa.”
Quando perguntado se o torcedor poderia presenciar a cena clássica do treinador fumando um cigarro à beira do campo, Lana não hesitou em responder.
Na beira do gramado, tenho respeitado as leis do futebol. Não pode. Mas quando estou folgado, se quiser fumar, é um atrás do outro- completou ele.
Aderbal Lana estreia no comando do Amazonas contra o Sete FC, no dia 25 de janeiro, às 15h30, no estádio Larissa Silva, em Presidente Figueiredo, (de Manaus), pela primeira rodada do Campeonato Amazonense 2025.
No Norte do Brasil, um cinema feito de histórias que abordam questões sociais, políticas e culturais próprias desse território é conduzido por realizadores independentes com recursos escassos, mas não, por isso, menos dedicados. Exercendo o projeto de um cinema nacional, para além do rótulo de “regional”, a produção audiovisual nortista têm ganhado destaque nos últimos anos no cenário nacional, com uma presença expressiva nos principais festivais de cinema brasileiros.
Em 2022, o longa-metragem Noites Alienígenas, dirigido por Sérgio de Carvalho, do Acre, chamou atenção ao ser exibido no 50° Festival de Gramado e conquistar cinco prêmios, incluindo uma menção honrosa pela atuação do ator e diretor amazonense Adanilo. O filme gira em torno do cotidiano de jovens da periferia de Rio Branco, afetados de forma violenta pela chegada de facções criminosas vindas do sudeste do país para o norte.
Em uma região historicamente marginalizada no cenário do cinema nacional, a produção audiovisual nortista desponta como ato de afirmação cultural. São filmes com narrativas capazes de romper com estereótipos e trazer à tona realidades únicas da Amazônia.
Olhares atentos aos territórios
Longe de retratar a Amazônia como cenário exótico, como é comum em produções de realizadores de fora da região, os cineastas nortistas usam histórias para além da floresta, narrando a complexidade da vida urbana, as lutas dos povos tradicionais e a relação dos povos amazônicos com a crise climática.
Gabriel Bravo de Lima, jornalista e cineasta de Manaus (AM) define sua obra como uma exploração do tema familiar, desde as relações afetivas à estrutura social. “Busco explorar essa área limítrofe onde a família representa apoio, mas também opressão”, diz o jovem realizador. Em 2024, o cineasta venceu duas categorias (Voto Popular e Menção Honrosa Cine Vídeo Tarumã) na sexta edição do Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, um dos maiores festivais do segmento na região, com seu curta-metragem Na dança que cansa voavas, no qual acompanha o rompimento de uma relação.
Em 2020, ele já havia conquistado o prêmio de melhor roteiro na terceira edição do Olhar do Norte, por seu primeiro curta-metragem, No dia seguinte ninguém morreu. No entanto, Gabriel não sente que há espaço suficiente para as narrativas nortistas no mercado audiovisual nacional. “É muito comum ter festivais, mostras, espaços em streaming ou salas de cinema sem nenhuma ou pouquíssima representação nortista”, lamenta.
Para produzir e distribuir seus filmes, a principal dificuldade que o cineasta enfrenta é financeira. Ele financiou a produção do seu primeiro curta com investimento de edital público, destinado aos novos realizadores do Amazonas.
“Mas não tenho como garantir que a partir de agora todos os meus filmes terão esse tipo de aporte. É difícil se inserir no mercado, infelizmente o maior investimento para novos produtores costuma significar menos investimento para produções maiores. A gente também costuma aprender as coisas enquanto vai fazendo e às vezes perdemos oportunidades por pura inexperiência”, explica.
De Belém (PA), a cineasta Mayara Sanchez gosta de escrever narrativas amazônicas contemporâneas. Dramas familiares e narrativas coming of age que discutem gênero e sexualidade e representações femininas são apresentados em filmes como Essa Cidade Se Esqueceu como Planta, lançado em 2023.
Para cumprir com o desafio, é preciso se adaptar ao modus operandi do fazer cinematográfico nas condições amazônicas de longas distâncias, onde os eventos climáticos influenciam as ordens de cronogramas de filmagens. “Também surgem inúmeras outras dificuldades burocráticas devido a questões próprias do território, que implicam em um fazer cinematográfico específico dentro da realidade amazônica”, diz a cineasta.
Com mais de 20 anos de trabalho em produção audiovisual, Juraci Junior atua em Rondônia como diretor, ator, redator e apresentador, com uma trajetória autoral marcada pela busca das histórias de relação das pessoas com as águas da Amazônia. Os rios atravessam diretamente sua criação visual. Seu primeiro curta-metragem, Balanceia (2017), co-dirigido com Thiago Oliveira, leva para as telas as sensações de um viajante que viaja de barco de Parintins (AM), rumo a Manaus, depois de conhecer o Festival Folclórico da ilha. Na animação Nazaré: do verde ao barro (2021), o tema central é o movimento de sobe e desce dos rios e a relação de ribeirinhos com este fenômeno.
Já no documentário Resistência (2023), o diretor fala da tragédia conhecida como “epopeia amazônica”, a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, em Porto Velho (RO). O monumento é uma marca colonial que deixou feridas na história dos povos tradicionais da região. “Aqui, as cicatrizes dessa história são tocadas, relevando traumas e questionamentos sobre a tantas mortes causadas pela obra, além dos moradores perceberem que a cidade cresceu de costas para o rio Madeira”, observa Juraci.
Em ritmo de reflexão sobre os eventos climáticos extremos, responsáveis pela desertificação dos rios amazônicos pelo segundo ano consecutivo, o cineasta finaliza seu curta-metragem de animação Pela Água, Sempre!, com co-direção de Douglas Magalhães. “É interessante justamente neste momento de seca extrema, onde os rios perdem sua forma e presença, causando tanta dor a todos nós, e lançam um grito de alerta sobre o futuro do planeta.”
Identidades em movimento
As obras de Bruma de Sá, cineasta de Manaus, flutuam entre temáticas orgânicas, corpo e psique. Ela começou sua trajetória artística como atriz, e quis desenvolver projetos que envolvessem a corporeidade. “Quando estava começando, eu fazia coisas mais experimentais e cruas. Na faculdade, minha pesquisa, Estar Entre (2021), foi desenvolvida a partir das minhas memórias quando criança habitando alguns móveis da minha antiga casa, e como meu corpo interagia e se relacionava, quase como uma dança, com a câmera”, disse.
Estar Entre tornou-se uma obra super orgânica pelos materiais que foram utilizados na produção de seis vídeos experimentais. Um deles é manuseado com uma mistura de água com goma de tapioca sob tecido voil, feito com os fios da trama torcidos e com baixa densidade.
“Os filmes são a representação do humano, da placenta, do ventre”, analisa Bruma.
Com o filme Duplo Retrato (2024), um curta-metragem que estreou na última edição do festival Olhar do Norte, a artista desenvolveu uma personagem que passa por momentos turbulentos com ela mesma, uma narrativa complexa que retrata a psique de Julia. “Para isso, utilizei a casa e a duplicata para demonstrar a instabilidade psicológica e depressão que a outra versão dela estaria passando. Acredito que essas são as obras principais e que elas falam muito sobre a sensibilidade da vida”.
Aida Harika Yanomami e o xamã Edmar Tokorino Yanomami, trabalhando nas edições do filme Uma Mulher Pensando (RR) (foto: Aruac Filmes). Foto: Reprodução/Aruac Filmes
Financiamento segue como desafio
Nortista que mora no sul do país e que trabalha de forma independente, Bruma enfrenta um cenário complexo ao tentar conseguir que suas obras tenham investimento e verba orçamentária para serem concluídas. “Aqui no sul, eu sinto que é muito difícil furar a bolha porque as coisas já estão estruturadas do jeito que elas são. É muito difícil que esses projetos sejam realmente contemplados porque na hora da avaliação, o que mais pesa é o portfólio e o nome das pessoas que fazem parte do projeto.”
Rodrigo Aquiles, diretor e montador cinematográfico de Macapá (AP), aborda em suas obras questões sociais e políticas: “Meu trabalho é a minha forma de contribuir para o debate com o foco na questão racial na Amazônia, as obras são meus pilares”, diz. Para ele, falta espaço para as narrativas nortistas no cenário do cinema nacional, apesar de existir um apelo por histórias estereotipadas. “As narrativas sobre a Amazônias que estão em vigor, ao meu ver, são saturadas. O público precisa e anseia novas narrativas e novas formas de contar as histórias da Amazônia. Mas não existe esse espaço, a gente não consegue encontrar esse espaço dentro dos streamings e dentro dos festivais pelo Brasil”, alerta.
O recurso no seu estado é escasso, garante. “É bem complexo fazer cinema independente com o risco de que eu não vou conseguir distribuir esse cinema e não conseguir ter um retorno financeiro. Tem que ter algumas linhas de financiamento específicas para os produtores independentes”, defende.
Narrativas indígenas em destaque
Adanilo, ator, dramaturgo e diretor originário manauara, dedica-se há quase 10 anos a uma pesquisa sobre os povos indígenas das Amazônias e da América Latina de maneira geral. Seus trabalhos trazem temas ligados também às periferias. Conhecido por seus papéis como ator, Adanilo já atuou em longas como Marighella, Noites Alienígenas e O Rio do Desejo. Em 2023, esteve em Cannes por sua atuação em Eureka, longa-metragem do diretor argentino Lisandro Alonso, exibido fora de competição. O filme mergulha em tempos e espaços distintos que mostram o avanço da violência contra os povos indígenas, seja pelo garimpo nas florestas ou pela vulnerabilidade social nos territórios.
Sua primeira direção foi no filme 521 Anos / Siaa Aira (2021), realizado de forma independente. Em 2023, estreou no festival Olhar do Norte o curta Castanho gravado na Comunidade Cachoeira do Castanho, a 24 quilômetros de Manaus, em Iranduba, em novembro de 2021. A história gira em torno da personagem Maria, interpretada pela atriz Sofia Sahakian, uma mulher estrangeira, latino-americana, que tem a chance de conviver com Dona Belém, papel interpretado pela artista amazonense Rosa Malagueta, e seu filho Cícero, interpretado por Israel Castro. “As narrativas do norte sempre estiveram mal retratadas, estereotipadas, por isso é tão importante que nós pessoas do norte consigamos cada vez mais protagonizar as nossas histórias, porque a gente é que sabe como fala da gente”, diz o artista.
O cinema indígena feito no norte utiliza o audiovisual como ferramenta de expressão de resistência e de denúncia. Na última década, os cineastas indígenas ocuparam espaços de produção, direção e narração de suas próprias histórias, o que significa a valorização da cosmovisão, dos saberes tradicionais e das lutas por direitos indígenas.
Muitos desses filmes são produzidos de forma coletiva, com as comunidades participando ativamente de todas as etapas da criação. Um dos destaques do cinema indígena é Morzaniel Ɨramari Yanomami. Nascido na aldeia Demini, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, Morzaniel é cinegrafista e documentarista desde 2010, formado pelo projeto Pontos de Cultura Indígena. No mesmo ano, produziu e lançou o filme Xapiripë Yanopë – Casa dos Espíritos, que venceu o prêmio de Melhor Filme Júri Popular na I Bienal de Cinema Indígena – Aldeia SP. Em 2014, lançou o filme Urihi Haromatipë – Curadores da Terra-Floresta, que venceu o prêmio de Melhor Filme na mostra competitiva do Forumdoc.BH.
Em 2023, os curtas roraimenses Mãri hi – A Árvore do Sonho, de Morzaniel Ɨramari, Thuë pihi kuuwi – Uma Mulher Pensando e Yuri u xëatima thë – A Pesca com Timbó, de Aida Harika Yanomami, Edmar Tokorino Yanomami e Roseane competiram foram exibidos no tradicional Festival de Veneza, no “Eyes of the Forest”, durante um dia dedicado ao primeiro cineasta Yanomami, Morzaniel Ɨramari, ao cinema indígena Yanomami no Brasil.
A cineasta Aida Harika Yanomami, que vive na aldeia Watorikɨ, região do Demini, na TI Yanomami, faz filmes e fotografias e participou da produção e direção de dois dos três curtas. Ela integra o coletivo de comunicadores Yanomami criado em 2018 pela Hutukara Associação Yanomami com apoio do Instituto Socioambiental. “Thuë pihi kuuwi – Uma Mulher Pensando”, de 2022, foi o primeiro filme produzido por mulheres Yanomami e teve sua exibição na 26ª Mostra de Cinema Tiradentes.
O ator e cineasta Adanilo. Foto: Divulgação
Entraves para o desenvolvimento
Embora seu destaque seja evidente, o cinema feito no norte enfrenta desafios particulares pela falta de apoio institucional, financiamento e a falta de valorização da identidade cultural da Amazônia. Iniciativas como a Lei Paulo Gustavo trouxeram algum alívio, mas os investimentos ainda são insuficientes para sustentar a indústria local de maneira robusta. Produzir filmes na região requer recursos. Os cineastas fora dos grandes estúdios lutam para conseguir financiamento, seja de fontes privadas ou públicas.
“O acesso é difícil tanto pela escassez, quanto também pela falta de conhecimento para disputar esse financiamento. É preciso dedicar tempo para entender como o mercado funciona e praticamente todos os produtores independentes dividem a atuação com audiovisual com outra profissão. Para quem está iniciando tudo parece complexo e burocrático”, observa o amazonense Gabriel Bravo de Lima.
Nenhuma produção audiovisual da região norte foi contemplada no edital Novos Realizadores da Agência Nacional do Cinema (Ancine), de 2023. O cinema produzido na Amazônia foi mais uma vez esquecido no que diz respeito aos investimentos para as produções audiovisuais locais.
Mesmo depois de produzir o filme, conseguir distribuí-lo em salas de cinema, plataformas de streaming ou festivais é outra grande barreira. As grandes redes de distribuição costumam priorizar filmes de apelo comercial, por exemplo.
“Duplo Retrato foi uma obra que aconteceu e foi realizada dentro de uma instituição pública, o curso Técnico de Produção de Áudio e Vídeo do Colégio Estadual do Paraná, é uma produção que aconteceu tendo apoio e incentivo dos professores do curso e essa pequena rede de apoio foi essencial para obra acontecer e ser distribuída. O maior desafio é realmente a falta de recursos. Artistas que vivem no norte são afetados pela centralização dos investimentos que, em grande maioria, estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. São menos oportunidades”, lembrou Bruma de Sá.
Adanilo complementa citando a carência de programas de capacitação técnica na região, como cursos de cinema e audiovisual que ajudem a formar profissionais locais.
“Falta investimento para profissionalizar, para capacitar, para distribuir, para produzir, para pré-produzir, pós-produzir. A gente tem que formar profissionais hiper capacitados em diversas áreas da produção audiovisual para se inserir no mercado mundial do cinema. E isso só se dá com o investimento, criação de escolas, intercâmbios culturais com outros artistas, outros lugares”, argumenta.
A falta de políticas públicas direcionadas à cultura é um obstáculo significativo para o desenvolvimento de cineastas emergentes do norte. Isso impacta a produção de diversos realizadores. “O cinema nortista como um todo não tem como se desenvolver, em toda a sua capacidade técnica e criativa, sem o investimento contínuo dos estados. Depender apenas de recursos federais fez com que, desde a pandemia, o setor cinematográfico ficasse abalado, e até agora não voltou ao fluxo de produção de antes. Isso impacta diretamente no desenvolvimento dos artistas e dos projetos daqui. É comum falarem dos ‘grandes valores’ dos editais de cinema. Mas entre a palavra no papel e o filme da tela, existe um caminho grande de desenvolvimento, produção, distribuição, que por vezes duram anos, envolvem uma grande equipe e muitos investimentos”, diz Mayara Sanchez.
Coletividades
A organização de cineastas e produtores em redes e coletivos tem sido uma das formas mais eficazes de enfrentar as dificuldades. Gabriel Bravo de Lima diz que a proximidade com outros cineastas, principalmente iniciantes, serve para trocar ideias e compartilhar experiências. “A ideia de coletividade para mim se tornou indispensável, dentro das minhas produções busco ao máximo proporcionar uma independência para quem trabalha comigo (muitas vezes artistas, sejam do audiovisual ou não) também se expressarem”, pontua. Em 2023, ele fundou sua própria produtora junto com amigos, chamada 1coletivo, para agregar projetos de diferentes artistas e áreas. “É uma luta que ainda estamos no início, mas é empolgante”.
A cineasta Bruma de Sá atualmente é sócia de uma produtora audiovisual, a Voyarte, junto com o artista e seu companheiro, Mauro Gruber. A realizadora também encontrou uma rede colaborativa com as artistas Raia Schnaider e Mate Bertucci. “Essa rede fortalece e faz com que essas produções realmente aconteçam”.
Para Mayara Sanchez, a organização de cineastas e produtores em associações ou sindicatos têm um impacto significativo na criação de oportunidades de trabalho e financiamento. “Um dos problemas mais agravantes no mercado local é a prática desrespeitosa, e eu acho que poderia dizer até neo-colonizadora, das produções nacionais que vem filmar nos estados daqui e não pagam os trabalhadores locais da mesma forma que paga a equipe de fora. É só através da organização coletiva que o mercado local consegue se proteger desse tipo de prática”, manifesta.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Nicoly Ambrosio