Home Blog Page 395

Memória iconográfica do Grupo Rede Amazônica no estado de Rondônia

0

Ministro Hygino Corsetti cumprimentando o presidente da Rede Amazônica, jornalista Phelippe Daou, após o ato de assinatura do contrato de concessão para instalação de um canal de TV em Porto Velho (RO). Fato ocorrido em 8 de junho de 1973 (Brasília-DF). Registro feito por Aluísio Daou. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br 

A velocidade de transformação das cidades da Amazônia é narrada por um longo período por Silvino Santos. Sua obra iconográfica se destaca não só pela experiência da nova síntese de período glamoroso, mas pelo congelamento futurista que, somada a colagem de fragmentos, visões rápidas e múltiplas de nosso cotidiano urbano, aparenta hoje uma vida moderna da época em se instalavam o período do látex.

É nesse ambiente de efervescência cultural, econômica e política, de significados e alterações no espaço urbano e do cotidiano interiorano é que devemos inserir e entender a lente que documentou todo o momento com fotografias e filmes.

Silvino Santos, um imigrante português que tem uma importância diferenciada na história iconográfica da Amazônia, como também temos que considerá-lo como um dos pioneiros, juntamente, com o alemão Huebner, na tentativa de documentar e organizar a memória iconográfica da Amazônica e todo seu entorno.

Governador José Lindoso assina documento sendo observado por políticos e autoridades. Brasília, 8 de junho de 1973. Registro feito por Aluísio Daou. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Exímio fotógrafo e cineasta, como nenhum outro, soube retratar a atmosfera das cidades da Amazônia e seu cotidiano interiorano nas primeiras décadas do século XX. Sua produção retrata tudo aquilo que ele via, ao mesmo tempo, com as novidades que adentravam no espaço urbano, pouco se mostra do seu trabalho e atuação em estúdios, com retratos e crayon, produções praticamente pequena diante da exuberância de sua fotografia documental urbana. Isso é bastante raro na história da fotografia universal, já que no período foram poucas as fotografias que conseguiram escapar da tradição do ateliê.

Silvino Santos mergulhou na arte de fotografar, documentarista, cronista, que deu relevância à fotografia como informação na história das representações visuais e foram muitas. Assim, a velocidade de transformação de todas as cidades da Amazônia foram narradas por um longo período, por esses dois fotógrafos: George Huebner, que iniciou o fotografar a Amazônia em 1894, e Silvino Santos, no início do século passado a partir de 1910.

É nessa particularidade que fotógrafos comuns tentam recuperar para a história momentos importantes de acontecimentos diversos, que marcam para eternidade com qualidade excepcional para a época o fato registrado. Na verdade este fato que enriquece não apenas o patrimônio e imagético da Amazônia, mas a própria cultura fotográfica de uma empresa em particular e de um período não muito distante, porém, histórico.

Reprodução do jornal ‘Alto Madeira’ – quarta-feira, 22 de maio de 1974. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Este fotógrafo que se encontrava no momento exato, nos dá a oportunidade de ampliarmos a investigação e a pesquisa tanto no campo da fotografia quanto da história, do cotidiano urbano e da paisagem humana. Tudo isso garante o acesso irrestrito para pesquisadores, estudantes de fotografia, fotógrafos amadores e profissionais ou interessados neste segmento.

Não podemos esquecer de um período de ampliadores, câmeras, obturadores, lentes e tripés, balanças, bacias, prensas, lanternas e cortadores, químicas, filmes e chapas de vidro, papéis e fórmulas especiais, álbum, cartões-postais, pass-partouts, produtos para acabamento e apresentação dos trabalhos de um período que ficou para trás. Todas essas variedades de materiais e marcas foi a época a consolidação desse importante mercado, tanto profissional quanto o amador da época conheceram, hoje já estamos na era digital.

A bem da verdade, as obras de George Huebner e de Silvino Santos se destacaram não só pela experiência de uma nova síntese de um período glamoroso, mas pelo congelamento futurista que, somada pela colagem de fragmentos visões rápidas e múltiplas da arte de fotografar o nosso cotidiano urbano, retrataram uma vida moderna daquela época.

É nesse ambiente de oportunidade de significado importante que o senhor Aluísio Daou, no dia 8 de junho de 1973, documentou o ato de assinatura da homologação do canal da TV Rondônia, pertencente ao Grupo Rede Amazônica, no gabinete do Ministro em Brasília (DF).

Estavam presentes: o diretor técnico da Embratel, Rubens Bussaco; o diretor-presidente do Grupo Rede Amazônica, jornalista e empresário das Comunicações, Phelippe Daou; o senador Raimundo Parente; o senador José Lindoso; e deputado federal Ney Oscar de Lima Rayol.

Aluísio Daou conseguiu inserir através da lente de sua máquina fotográfica Olimpus Trip 35 a documentação desse importante momento que, usando da sensibilidade, soube retratar para posteridade a atmosfera desse acontecimento histórico. O senhor Aluísio Daou, naquela oportunidade, encarnava os espíritos dos dois maiores fotógrafos da Amazônia – George Huebner e Silvino Santos – documentando este fato histórico.

Aluiísio Daou foi o responsável pelos registros. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Trata-se de um fato importante, documentado com a exuberância de sua fotografia. Todo esse fragmento histórico documentou o tempo, as pessoas, com registro do antes e a possibilidade de estudo, depois, com recorte através dos vestígios da imagem iconográfica daquele período.

A matéria de que se alimenta esta memória lembra, principalmente, a luta desigual, as portas que se fecharam e, naturalmente, outras tantas que se abriram, as conversas em gabinetes como fios que se entrelaçaram encadeados em cores e sonhos, muitas vezes difíceis de serem atingidos, mas certamente encantadores, pois hoje são reais.

A linha divisória das realidades e das idealidades é sempre diluída pelo sonho de fazer realizar, sem se importar com os sofrimentos em nome de uma boa causa.

Porto Velho era a meta. A Amazônia era o alvo de conquista. A crise econômica, o obstáculo. A grande maioria da população, entretanto, parecia respirar sonhos com a realidade.

A Amazônia foi revelada pelo olhar dos viajantes missionários e naturalistas e mostrada para o país a partir da chegada da Rádio TV do Amazonas. Esta chegada criou o fascínio da nossa tela, o que também se enredou nas teias sedutoras das novelas e minisséries, embora não tenha mudado o curso das águas do velho Madeira, criou um novo olhar de outro horizonte, além da preservação assumida, de forma muito própria, não permitindo a descaracterização da nossa região, motivo de preocupação, até hoje, por parte de toda a diretoria da Rádio TV do Amazonas.

Câmera usada por Aluísio Daou no registro do contrato em Porto Velho. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

Pensar o regional foi fazer o “globalismo” tornar-se um desafio constante no decifrar da região. Este fato nos permitiu a conquistas da realidade. Tudo isso buscado através da motivação que marca a longa e brilhante existência das nossas cores em toda região amazônica.

A partir daí, deu-se o início de uma nova era. O então território de Rondônia contava com um aliado, a Rádio TV do Amazonas e um aliado forte que, juntos, seguiram lado a lado, com um único objetivo, trabalhar pelo engrandecimento de Rondônia.

Para homenagear o território, a emissora receberia o nome de TV Rondônia. Uma justa homenagem para uma Rede de Televisão que estava apenas começando.

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

O impasse amazônico: como construir a terceira natureza e promover o desenvolvimento sustentável da região

0

Embrapa investe em projetos de agroenergia. Foto: Vivian Chies/Embrapa

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

As limitações tecnológicas da região são por demais conhecidas. Os cientistas estão motivados para promover esta mudança e ela é possível. A Embrapa, por exemplo, foi protagonista de três revoluções tecnológicas, como a produção de agroenergia, a viabilização da agricultura nos cerrados e a domesticação de plantas amazônicas (seringueira, guaraná, cupuaçu, castanha do pará, açaí, bacuri, etc.). Ao mesmo tempo, a engenharia nacional domina a exploração de petróleo em alto-mar e a fabricação de aviões regionais, que são exemplos da capacidade nacional de promover uma revolução tecnológica na Amazônia, desenvolvendo uma agricultura tropical com sua flora e fauna. Na Amazônia Legal, 83% das propriedades são de pequenos produtores, dos quais metade encontram-se em razoáveis condições de vida. O desafio está em encontrar oportunidades produtivas para outra metade, representada pelos colonos assentados, indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e populações tradicionais que apresentam baixo padrão de vida.

Estas são algumas das conclusões a que chegou o pesquisador Alfredo Homma, da Embrapa Amazônia Oriental, em seu estudo “Construindo a Terceira Natureza na Amazônia”. O desafio, segundo ele, relaciona-se às tecnologias agrícolas e ambientais que precisam ser desenvolvidas nos próprios locais para integrar o conhecimento local com a capacidade tecnológica de nosso País. A falta dessa integração reflete-se na redução dos recursos naturais, na importação de alimentos e na geração de emprego e renda. Homma defende a tese de que as alternativas agrícolas mais sustentáveis para a região amazônica dependem do estabelecimento de um novo padrão tecnológico.

Para isso, “é necessário efetuar um grande esforço de ampliação da fronteira do conhecimento científico e tecnológico, com resultados para os pequenos, médios e grandes produtores. O atual sistema de financiamento de pesquisa e de avaliação dos pesquisadores tem prejudicado a pesquisa agrícola por exigir longo tempo. A redução dos impactos ambientais e a geração de emprego e de renda vão depender da mudança das propostas usuais, como extrativismo vegetal, venda de créditos de carbono e atividades tradicionais, defendidas pelas organizações não governamentais e entidades externas. Aproveitar as áreas desmatadas com atividades produtivas mais adequadas é mais importante para o conjunto da população do que o retorno à floresta”.

Esta mesma solução, aponta o estudo, “precisa ser encontrada para os problemas ambientais e agrícolas na Amazônia, com a criação de alternativas tecnológicas e econômicas em vez da criação de mercados difusos ou artificiais, como a venda de créditos de carbono. A população precisa de alimentos e matérias-primas com menor dano ambiental. A Amazônia Legal concentra mais de 104 milhões de bovinos (44,51%) do país, em 2022, sendo que Mato Grosso tem o maior rebanho estadual (14,61%), o Pará o segundo (10,57%) e Rondônia o sexto (7,55%). Em termos de rebanho bubalino, a Amazônia Legal concentra 75,25% do efetivo nacional estimado em 1.598 mil reses, destacando-se os estados do Pará e do Amapá, salienta o pesquisador”.

O estudo conclui afirmando que “a Amazônia precisa aumentar sua produtividade agrícola para reduzir a pressão sobre os recursos naturais, promover a domesticação de plantas potenciais e substituir importações (interna e externa) de produtos tropicais (borracha, dendê, café, cacau, açúcar, arroz, leite, aves, ovos, hortaliças, etc.) e incentivos à recuperação de áreas que não deveriam ter sido desmatadas. Os problemas ambientais na Amazônia não são independentes, mas conectados a outras partes do País e do mundo e sua solução vai depender da utilização parcial da Segunda Natureza e de um forte aparato de pesquisa científica e de extensão rural”.

As análises de Homma conduzem a uma constatação óbvia, ou seja, a “necessidade de se construir o futuro da Amazônia em um cenário sem desmatamento ilegal e queimadas, independentemente de pressões externas, gerando alternativas tecnológicas e econômicas em relação ao uso de recursos da flora e da fauna sobre os quais impõe-se concentrar ações de planejamento econômico e agroflorestal. Espera-se que a realização da COP 30 venha a se tornar um marco decisivo para a Amazônia, não como um torniquete para as atividades produtivas, mas a partir de uma agricultura tropical mais sustentável para a região, que tem potencial real de resgatar mais de 11.300.000 brasileiros amazônidas da sua atual condição de pobreza, salienta o estudo.

O documento projeta, por fim, que a COP 30, que se realiza em novembro deste ano em Belém, PA, possa se tornar um marco decisivo para a Amazônia, “não como um torniquete para as atividades produtivas, mas que é possível uma agricultura tropical mais sustentável para a região a qual tem potencial real de resgatar mais de 11.300.000 brasileiros amazônidas da sua atual condição de pobreza”.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Histórias e saberes regionais: e-book traz conteúdo que valoriza diversidade amazônica

0

Foto: Reprodução/Acervo da pesquisa

Entre estudos, pesquisas e atividades em sala, os pro­fessores do ensino fundamental desempenham um papel importante: além de ensinar, eles introduzem as crianças no universo da ciência, despertando nelas o interesse e o respeito pelo ambiente ao seu redor. Dessa forma, os educadores são agentes fundamentais para aju­dar os pequenos cidadãos a perceberem que a natureza está entrelaçada com a vida de cada um e é parte integral de sua existência. Apesar de nossa tendência em separar natureza e humanidade, é crucial entender que a natureza humana faz parte do todo natural.

Este primeiro contato é essencial para que as crianças se sintam pertencentes ao meio ambiente e responsáveis por ele, dando os primeiros passos para se tornarem adultos conscientes e comprometidos com a preservação da natureza. Os conteúdos abordados em sala de aula devem estimular os alunos a refletir criticamente sobre ações e comportamentos que se estendem além do espaço escolar. 

Com esse propósito, surgiu o E-book Histórias para Entender e Ensinar Ciências na Amazônia: Educação CTS a partir de temáticas regionais decoloniais no Ensino Fundamental‘. O material busca incentivar reflexões sobre as relações que moldam a construção do conhecimento científico e sua presença no cotidiano escolar.

Leia também: “Ouvidos, mas não escutados”: professor defende conhecimento científico indígena no Pará

Produzido por Iris Caroline dos Santos Rodrigues como parte de sua dissertação de mestrado, o e-book é um recurso educacional voltado para o ensino de Ciências. Sob orientação da professora Ana Cristina Pimentel Carneiro de Almeida, Iris desenvolveu o projeto no Programa de Pós-Graduação em Docência em Ciências e Matemáticas (PPGDOC/Iemci). Nascida em Belém e com passagem por São Caetano de Odivelas, Iris traz para o e-book a vivência e as influências culturais dessa região, reforçando a importância de uma educação que dialogue com a dinâmica amazônica.

Obra apresenta ciência e cotidiano nos estudos de caso

Segundo a pesquisadora, o e-book nasceu do desejo de trazer visibilidade a uma “Amazônia miúda”, uma Amazônia que vive nas florestas, nas cidades, nos rios e que se manifesta em cores, músicas, histórias, saberes e crenças. É uma Amazônia que existe e resiste, mas, dentro da lógica capitalista, é frequentemente retratada apenas como um bioma exuberante, ignorando a complexidade de seus povos e culturas. A escolha desse tema reflete a intenção de resgatar os saberes dos diversos atores que compõem a sociedade amazônica: do pescador de caranguejos à pesquisadora da universidade, cada um tem muito a dizer e a contribuir para o entendimento da região.

O material está organizado em duas partes: uma seção teórica, que aborda a Educação CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), a decolonialidade e o ensino de Ciências na Amazônia; e uma seção metodológica, baseada em Estudos de Caso de Ensino. Nesta segunda parte, são apresentados cinco casos desenvolvidos pela autora, com sugestões de atividades para aplicação em sala de aula, incentivando uma educação científica que dialogue com a realidade amazônica e valorize o conhecimento local.

Os estudos de caso foram todos elaborados por Iris Caroline Rodrigues, que escolheu temas que permitissem trabalhar o conteúdo de forma crítica e não reducionista. Seu critério foi selecionar assuntos que unissem decolonialidade, cultura e ciência, mantendo uma conexão com os conteúdos abordados em sala de aula para propor uma alternativa enriquecedora no ensino. Essa proposta busca relacionar o ensino de Ciências com o cotidiano dos alunos, permitindo-lhes observar tanto a Via Láctea, da Astronomia Ocidental, quanto a constelação da Anta do Norte (Tapi’i), do povo Guarani.

Metodologicamente, o material promove a construção coletiva do conhecimento, incentivando a argumentação, a autonomia, a formulação de hipóteses e a solução de problemas.

A coletânea traz temas que integram o conhecimento científico com saberes populares da Amazônia, promovendo reflexões sobre o meio ambiente e a cultura regional. Entre elas, estão:

  • “Quando eu descobri que a Via Láctea era uma reunião de antas”, a astronomia indígena é explorada ao lado dos impactos do crescimento urbano na visibilidade das estrelas;
  • “O mistério da pedra do Saci” aborda o intemperismo e a transformação da paisagem pela monocultura;
  • e “O encantador de caranguejos” ressalta a importância dos manguezais e os desafios dos pescadores durante o período de defeso.

A autora compartilha uma experiência que ilustra o impacto desses temas: “Eu ministrei uma palestra para professores de Ciências, em Castanhal, e uma das professoras contou que trabalhou em comunidades indígenas que possuem seu próprio calendário, influenciado por uma etnoastronomia própria. É interessante ver que os temas abordados não estão esgotados. Deixo isso bem claro no texto”.

Abordagem promove visão crítica e integrada da Ciência

A Educação CTS (Educação em Ciência, Tecnologia e Sociedade), conceito central do e-book e da pesquisa citados, é uma abordagem educacional, alternativa ao ensino tradicional, que promove uma visão mais crítica e integrada da ciência e da tecnologia, destacando seus impactos sociais, éticos e ambientais. 

O objetivo é formar cidadãos conscientes, que questionem o papel da ciência em suas vidas e participem ativamente de discussões sobre temas como sustentabilidade, saúde pública e inovação, conectando o aprendizado científico às questões do cotidiano amazônico. Para isso, o e-book propõe que os educadores incentivem, em cada aula, os alunos a reconhecerem seu lugar na Amazônia, compreendendo-se como parte de um ecossistema vivo e diverso.

“Quando uma pessoa consegue entender um problema, ela desenvolve uma expectativa de como resolvê-lo, por exemplo, cobrar de uma empresa de mineração que está despejando rejeitos de maneira indevida ou de uma empresa que não tem responsabilidade com a reciclagem de resíduos sólidos. Esse olhar crítico é fundamental para formarmos cidadãos que consigam atuar como produtores de ciência no país”, explica a pesquisadora.

As histórias podem e devem ser adaptadas conforme o contexto em que são inseridas. O material foi projetado para que o professor o adapte ao contexto dos alunos, investigando os temas presentes no cotidiano das crianças e tornando o aprendizado mais lúdico e prático. Isso reduz a homogeneização, preserva as marcas culturais e enriquece os questionamentos.

Cada cenário educacional é único e traz desafios que precisam ser enfrentados com criatividade e comprometimento.

Sobre a pesquisa

A dissertação Histórias para Entender Ciências na Amazônia: Educação CTS a partir de Temáticas Regionais Decoloniais no Ensino Fundamental foi defendida por Iris Caroline dos Santos Rodrigues, em 2022, no Programa de Pós- Graduação em Docência em Ciências e Matemáticas (PPGDOC/Iemci), da Universidade Federal do Pará, sob orientação da professora Ana Cristina Pimentel Carneiro de Almeida.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por Evelyn Ludovina

Pesquisa para conter desmatamento ilegal na Amazônia é destaque na revista Nature Sustainability

Foto: Reprodução/Pixabay

O desmatamento na Amazônia já foi considerado uma situação fora de controle. Índices recentes, porém, indicam tendência de redução, devido principalmente aos mecanismos de controle implementados e as pesquisas científicas que viabilizaram um monitoramento eficaz das florestas.

São várias vertentes de soluções nascendo dentro das universidades e uma delas, a que auxilia a conter a extração ilegal de madeira no Brasil, foi destacada pela edição janeiro/2025 da revista Nature Sustainability, uma das mais importantes publicações científicas do mundo.

Um dos autores do artigo e coordenador do projeto é o professor Luis Gustavo Nonato, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC/USP-São Carlos) e pesquisador do CEPID-CeMEAI.

Segundo ele, a base do estudo está na análise da rede de comércio madeireiro no Brasil.

“Ao implementar mecanismos de controle e regulamentações, o governo brasileiro conseguiu impactos positivos nas taxas de desmatamento”, disse. “Ao mesmo tempo, produziu dados importantes sobre o comércio madeireiro, uma vez que todo produto resultante da extração de madeira, desde toras brutas até madeira processada, que devem ser registrados nos sistemas de controle a fim de serem transportados e comercializados, permitindo a modelagem e análise da rede madeireira ao longo do tempo”.

Leia também: Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagem, informa MapBiomas

O professor responsável pela pesquisa. Foto:Divulgação/FGV EMAp

Nonato observa que o grande desafio foi a integração de dados oriundos dos três principais sistemas de controle operando no Brasil.

“Este estudo integra dados desses sistemas para criar redes de comércio de madeira, que ajudam a identificar empresas ou grupos que operam fora dos padrões esperados. Também propomos um método para rastrear prováveis ​​cadeias de suprimentos de empresas madeireiras, abordando preocupações governamentais de longa data sobre a rastreabilidade da madeira”, explicou o autor.

Entre os resultados, o estudo demonstra que certas componentes da rede de comércio de madeira operam sem conexões com florestas licenciadas, sugerindo que madeira não registrada é inserida nesses componentes, o que é ilegal. “Mostramos ainda como a análise da cadeia de suprimentos pode aumentar consideravelmente a confiança de consumidores na legalidade dos produtos de madeira adquiridos”.

O trabalho publicado na Nature Sustainability foi desenvolvido em parceria com Victor Russo, Bernardo Costa, Felipe Moreno Vera, Guilherme Toledo, Osni Brito de Jesus, Robson Vieira, Marco Lentini e Jorge Poco.

“A abordagem proposta faz uso de dados já existentes nos sistemas de controle, evitando o emprego de tecnologias economicamente custosas e de difícil implementação. Sistemas de rastreamento mais eficientes tendem a reduzir fraudes. Além da redução do desmatamento ilegal em si e preservação da biodiversidade, a confiabilidade sobre a origem dos produtos adquiridos aumenta a competitividade da madeira amazônica no mercado global, atraindo investimentos sustentáveis que fortalecem o setor. Estamos contribuindo ainda com a melhoria nas condições de trabalho e beneficiando as comunidades locais, uma vez que a extração e o comércio ilegal fomentam conflitos sociais que impactam principalmente as populações mais vulneráveis”.

Leia também: Desmatamento e degradação aumentam pelo quinto mês consecutivo na Amazônia

Outro fator importante a ser destacado, segundo o pesquisador, é o fato do modelo proposto ser adaptável a outros contexto, viabilizando soluções para problemas semelhantes que envolvam a modelagem e análise de redes comerciais e cadeias de suprimentos, abrindo caminho para projetos novos. 

*Com informações da USP São Carlos

Projeto usa aditivos digitais para preservação e restauração ambiental em Itacoatiara

Foto: Reprodução/Agropecuária Aruanã

Desenvolver a sustentabilidade através de certificação, metodologias, registros e uso de ativos digitais são os principais objetivos da startup Tero Carbon, apoiada por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

O projeto já conseguiu um impacto positivo de preservação ambiental de mais de 6 mil hectares de floresta e restauração de áreas degradadas, no município de Itacoatiara, no Amazonas.

A primeira iniciativa de créditos de carbono certificado pela Tero Carbon, o Projeto Aruanã, conseguiu R$ 2,2 milhões de créditos de carbono pela atividade de restauração florestal e redução/evitação, pela atividade de desmatamento.

De acordo com o coordenador do projeto, Mateus Bonadiman, mestre em Engenharia Eletrônica e Computação, a Tero Carbon tem capacidade técnica para auditar projetos, gerar ativos ambientais, realizar transferências e aposentadorias de créditos de carbono, além de reportar registros de forma transparente e alinhada às melhores práticas internacionais.

O coordenador ressalta que a Fapeam foi crucial para a trajetória da Tero Carbon, o que permitiu alinhar as práticas com os padrões internacionais mais reconhecidos e exigidos pelo mercado.

Tero Carbon

A Tero Carbon nasceu em 2022, com sede em Manaus, e tem como compromisso protagonismo à Amazônia, desenvolvendo metodologias adaptadas à realidade da região, com certificação que prioriza a integridade, a qualidade e a sustentabilidade.

startup tem registros de aditivos digitais em plataformas renomadas mundialmente, como a CAD Trust, uma iniciativa do Banco Mundial e da IETA, e a OpenSea, o maior marketplace de NFTs do mundo. A tecnologia blockchain é integrada ao processo de certificação da Tero Carbon na fase de registro dos ativos ambientais. Após a verificação dos impactos do projeto, os créditos de carbono são gerados e cunhados em blockchain como NFTs, utilizando a rede pública da Polygon, uma das mais sustentáveis disponíveis atualmente.

Outro grande diferencial é o suporte técnico-científico proveniente de parcerias estratégicas com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Como a expertise do Laboratório de Manejo Florestal (LMF) e do Laboratório de Psicologia e Educação Ambiental, cujas pesquisas e estudos contribuem diretamente para o desenvolvimento e aplicação de metodologias adaptadas à realidade amazônica.

Para expandir seus projetos e gerar mais impacto positivo no combate à mudança climática, a startup pretende ampliar parcerias locais, participar da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), em Belém, para desenvolver projetos de mitigação e reforçar o papel de certificadora de referência. Além de apoiar iniciativas que promovam a regulamentação fundiária de projetos nas zonas rurais.  

Inova Amazônia

O Projeto Inova Amazônia- Módulo Tração tem o objetivo de fomentar, apoiar e desenvolver pequenos negócios, startups, empreendimentos e ideias inovadoras alinhadas à bioeconomia e que tenham como premissa a preservação e uso sustentável dos recursos da biodiversidade do bioma Amazônia.

*Com informações de Fapeam

Tráfico de drogas se reinventa na Amazônia: interdição aérea leva crime às hidrovias e aumenta violência

0

Foto: Fábio Jr./Arsepam

A política de interdição aérea implementada no Brasil em 2004 trouxe uma série de consequências para o tráfico de drogas na Amazônia, levando a um deslocamento das rotas aéreas para os rios da região e contribuindo para o aumento da violência. Essa é a principal conclusão do estudo “Aterrizando na água: interdição aérea, tráfico de drogas e violência na Amazônia brasileira”, publicado pelo projeto Amazônia 2030

A restrição ao uso de aviões para o transporte de cocaína tornou a logística aérea mais arriscada e cara, levando traficantes a utilizar hidrovias amazônicas. Esse deslocamento expôs comunidades ribeirinhas ao crime organizado, resultando em um aumento expressivo da violência. Entre 2005 e 2020, cerca de 1.430 homicídios em municípios ao longo dos rios amazônicos foram diretamente relacionados a essa mudança no tráfico. 

De acordo com o estudo conduzido pelos pesquisadores Leila Pereira, Rafael Pucci e Rodrigo R. Soares, a restrição ao tráfego aéreo fez com que traficantes passassem a utilizar rotas fluviais, afetando diretamente comunidades ribeirinhas.

“A interdição aérea impactou diretamente a logística do tráfico de drogas na região, deslocando a criminalidade para áreas antes menos expostas, como as margens dos rios amazônicos. Isso trouxe desafios adicionais para as forças de segurança e para as comunidades locais, que passaram a conviver mais de perto com essa dinâmica criminosa”, explica Rodrigo R. Soares.

Dados do Amazônia 2030

O estudo também revela que o aumento dos homicídios esteve diretamente relacionado ao crescimento da produção de cocaína nos países andinos (Bolívia, Colômbia e Peru). Além do crescimento dos homicídios, o estudo aponta um aumento das mortes por overdose, indicando maior disponibilidade de cocaína nos municípios afetados. A pesquisa também revela que o crime organizado demonstrou alta capacidade de adaptação, utilizando redes locais e tecnologias para manter suas operações, apesar da intensificação da fiscalização aérea.

Leia também: conheça os países da Amazônia internacional 

Os pesquisadores alertam para a necessidade de uma abordagem mais integrada no combate ao tráfico, evitando medidas isoladas que possam gerar impactos colaterais. “Políticas públicas de segurança devem levar em consideração os deslocamentos do crime organizado e seus efeitos sobre as comunidades locais. O combate ao tráfico na Amazônia precisa de estratégias que contemplem diferentes modais de transporte e a realidade social da região”, destaca o estudo.

Sobre o Amazônia 2030

Como desenvolver a Amazônia, aproveitando de forma sustentável os recursos naturais? Para responder a essa pergunta, quatro reconhecidas organizações de pesquisa brasileiras se juntaram para fazer o mais completo plano de ações para a Amazônia dar um salto de desenvolvimento humano e econômico preservando seus recursos naturais até 2030. Trata-se do projeto Amazônia 2030. O projeto é uma iniciativa conjunta do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos situados em Belém, com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, localizados no Rio de Janeiro. Pesquisadores têm gerado conhecimento a partir das experiências dos povos da floresta, empresários, empreendedores e agentes públicos. Esses documentos reúnem recomendações práticas, que poderão ser aplicadas por agentes privados e públicos.

Para baixar o estudo completoclique aqui.

*Com informações da Amazônia 2030

Estiagem severa no Amazonas aumenta teleatendimentos psicológicos de indígenas e ribeirinhos

0

Foto: Reprodução/Fundação Amazônia Sustentável

Durante a estiagem que atingiu rios amazônicos, o teleatendimento psicológico tem sido fundamental para apoiar pacientes que lidam com o aumento da ansiedade e angústia devido à incerteza do período. Entre os meses de agosto a outubro, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), responsável pelos atendimentos, realizou mais de 50 atendimentos psicoterapêuticos, auxiliando no desenvolvimento de estratégias para melhorar a qualidade de vida e a saúde mental de indígenas e ribeirinhos na região.

Leia também: Seca recorde deixa cicatrizes no coração dos amazonenses por dois anos consecutivos

Em 2023, a FAS contabilizou 193 teleatendimentos psicológicos, seguidos de 229 em 2025, em comunidades dentro de Unidades de Conservação (UCs). Ou seja, um aumento de 18%. Além disso, entre os meses de agosto e setembro, 30 atendimentos foram registrados, dos quais sete (23%) tiveram como queixa principal os impactos da estiagem. Já entre setembro e outubro, oito atendimentos (33%), dos 24 registrados, destacaram a estiagem severa que afetou o Amazonas neste ano.

As queixas relatadas incluem sintomas de depressão, fobia social, transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), conflitos familiares e conjugais, e luto.

Cristina Maranghello, psicóloga clínica e responsável pelos teleatendimentos, vê que a alteração abrupta na rotina afeta a sensação de segurança e aumenta a imprevisibilidade em relação ao futuro.

“A maior diferença percebida nos relatos antes e durante a estiagem está relacionada à intensificação das preocupações e ao aumento da sensação de vulnerabilidade. Antes da estiagem, as queixas costumavam estar mais relacionadas a “desafios do cotidiano”, comenta.

Leia também: Duas secas: como falta de chuvas e baixa umidade do solo agravam incêndios na Amazônia

Foto: Fundação Amazônia Sustentável

Com a seca dos rios, os comunitários enfrentam uma queda de renda financeira e se vêem isolados, com muita dificuldade para conseguir itens básicos para subsistência, como água potável, alimentos e medicamentos. O calendário escolar é interrompido, o provisionamento de energia elétrica oscila e os lares passam a ter muitas pessoas reunidas em um período maior, o que favorece a ocorrência de conflitos familiares.

Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, destaca que a crescente valorização da saúde mental torna a oferta de psicoterapia via teleatendimento uma iniciativa fundamental. O programa que ela coordena foi criado durante a pandemia de Covid-19 pela instituição, fortalecendo as ações em saúde da FAS e, desde então, vem fazendo um diferencial em comunidades distantes da Amazônia.

“Essa abordagem promove qualidade de vida e ensina técnicas para lidar com sintomas como ansiedade e depressão. Conflitos familiares são comuns nessas comunidades, e a psicoterapia, via telessaúde, ajuda a melhorar o convívio familiar e a resolver essas questões conforme as necessidades de cada família”, diz Costa.

Devido ao forte calor, outro aspecto percebido foi a diminuição da prática de atividades físicas, um recurso extremamente recomendado para equilibrar os hormônios e neurotransmissores, que ajudam no combate à ansiedade e depressão.

Ecoansiedade

Referenciado de forma pioneira pela pesquisadora americana Susan Clayton, o termo “ecoansiedade”, ou “ansiedade climática”, é caracterizado como uma sensação de impotência e desesperança frente às mudanças climáticas que o mundo acompanha. Segundo um estudo publicado na revista científica The Lancet Planetary Health, em 2021, mais de 60% dos jovens entre 16 e 25 anos, no Brasil, se dizem “muito” ou “extremamente preocupados” com as mudanças climáticas.

Embora os termos não tenham critérios diagnósticos definidos pelo DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), da Associação Americana de Psiquiatria, a psicóloga Cristina enfatiza que muitos sintomas estão relacionados a esse fenômeno.

Leia também: Região Norte tem um dos piores acessos ao tratamento da depressão no Brasil

Foto: Fundação Amazônia Sustentável

“É evidente que a preocupação com o impacto das mudanças climáticas afeta diretamente a saúde mental dos pacientes, especialmente no contexto de cuja subsistência depende diretamente do equilíbrio ambiental. Essas preocupações são vivenciadas no dia a dia, com consequências concretas e imediatas na  Amazônia”, afirma Maranghello.

De acordo com a profissional, as novas informações sobre as mudanças climáticas não podem ser jogadas para “escanteio”. Para transmiti-las com ética e profissionalismo, a orientação é sensibilizar o público através de webpalestras e rodas de conversa, que são instrumentos de reflexão e acolhimento. A abordagem deve abarcar os aspectos realistas e uma perspectiva otimista, como iniciativas que se destacam em prol do meio ambiente.

Para os próximos anos, Cristina Maranghello também indica os passos que as populações tradicionais da Amazônia podem tomar para lidar com o assunto.

“Em primeiro lugar, o acesso ao conhecimento sobre o assunto é fundamental para a autonomia e o senso crítico do problema. Iniciativas para diminuir a pegada ambiental e formas mais sustentáveis de administrar os recursos caseiros são opções que não dão espaço para discursos alarmistas, na mesma medida em que as populações se tornam protagonistas frente às adversidades com resiliência e autonomia. Não podemos deixar de destacar o grande diferencial que é o atendimento psicológico para essa população. Com este acompanhamento os pacientes se tornam mais fortalecidos emocionalmente, frente aos problemas em geral”, finaliza Maranghello.

*Com informações da Fundação Amazônia Sustentável

Laboratório paraense une tradição e tecnologia na criação de nanoprodutos com bioativos

Foto: Alexandre de Moraes

Tão importante quanto a geração de conhecimento e a qualificação de pessoal para o mercado de trabalho, fazer chegar à sociedade os conhecimentos, as tecno­logias e os produtos desenvolvidos nos laboratórios faz parte das preocupações dos vários grupos de pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA). É dentro deste trinômio ensino, pesquisa e extensão que atua o Laboratório de Biomateriais, Bioprodutos e Tecnologias de Biofabricação (Labbio 3D), do Instituto de Ciências Biológicas, um dos mais novos e atuantes da UFPA.

O Labbio 3D desenvolve materiais e produtos para as áreas da saúde e agricultura utilizando recursos naturais da região. O grupo de pesquisa foi criado em 2017, mas sua trajetória foi interrompida durante a pandemia de covid-19. No início de 2024, o laboratório foi estruturado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Apesar da curta trajetória, o Labbio 3D possui mais de dez prêmios em editais de inovação e pesquisa científica.

Liderado por Marcele Fonseca Passos, professora adjunta da Faculdade de Biotecnologia (ICB/UFPA), doutora e mestre em Engenharia Química pela Unicamp, o Labbio 3D é um laboratório de biofabricação que desenvolve órteses, biocurativos, biocosméticos, biofertilizantes e fertilizantes organominerais.

Os materiais para a área da agricultura são produzidos em processos nanoestruturados e com resíduos agroindustriais; os de saúde agregam, além da nanotecnologia, a técnica da manufatura aditiva, conhecida como impressão 3D, empregada no desenvolvimento de protótipos e de órteses. Estas últimas podem substituir o gesso em fraturas, eliminando problemas de oxigenação e irritação da pele. O laboratório é o primeiro da UFPA a possuir uma bioimpressora 3D, tecnologia empregada no desenvolvimento de biocurativos para cicatrização de feridas.

Um dos objetivos do laboratório é fazer chegar aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) os materiais produzidos para a área da saúde, como os biocurativos feitos com base no conhecimento tradicional, resultando em produtos de baixo custo. A copaíba, por exemplo, é um dos bioativos da Amazônia empregados na produção de curativos.

Marcele Passos informa que o laboratório desenvolveu uma membrana associada à copaíba, a qual, aplicada à ferida, tem a capacidade de absorver a matéria exsudada, o pus. Essa ação lhe dá maior eficiência por não grudar no ferimento, como ocorre com a gaze.

Produzida nos formatos de esparadrapo e filme, a membrana desenvolvida no Labbio 3D tem ação antimicrobiana e anti-inflamatória. Ela impede a proliferação de microrganismos indesejados, além de melhorar a oxigenação no local.

Produção passa por rigorosas fases de análise

O emprego de bioativos (extratos e óleos vegetais) da Amazônia pelo Labbio 3D passa por diversas fases, a começar pela prospecção, ou seja, a busca e identificação de compostos biológicos adequados ao objetivo da pesquisa.

No caso de feridas, a procura é por bioativos que tenham propriedade antimicrobiana. Na fase seguinte, é realizado um estudo individual do bioativo para constatar suas propriedades e determinar a concentração necessária para alcançar a ação medicamentosa. Há de se considerar que os bioativos possuem certa variabilidade, como no caso da copaíba, cujo óleo difere segundo a estação da extração (inverno ou verão) e a localização geográfica da árvore.

Em seguida, é realizada a combinação do bioativo com outras matrizes, normalmente matrizes poliméricas, por meio da adição de diferentes tecnologias. O resultado é a produção de diferentes formatos de materiais. No caso dos curativos, o Labbio produz géis, películas, filmes e membranas.

“Então, dependendo do grau e do tipo de ferida, usamos uma tecnologia específica. Após a realização dessas etapas, fazemos os ensaios in vitro com células cultivadas em laboratório, em parceria com o Instituto Evandro Chagas. Somente depois, passamos para os testes in vivo, realizados em camundongos”, explica Marcele Fonseca Passos. No entanto, como há uma grande demanda, o laboratório está desenvolvendo uma nova vertente, chamada “pele sintética”, que vai reduzir a quantidade de animais empregados nos testes in vivo.

Na área agrária, o Labbio 3D atua em parceria com pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) para o desenvolvimento de biofertilizantes com resíduos agroindustriais. O laboratório é responsável pelas formulações, cabendo aos pesquisadores da Ufra a realização de testes, dado o domínio que possuem em relação ao solo e à aplicação de produtos agrários.

Segundo a coordenadora, o Labbio 3D, em parceria com o Grupo Microbioma, atua na prospecção de microorganismos e bioativos amazônicos conforme o tipo de aplicação propiciada pela planta em estudo (fungicida, bactericida). Em outra vertente, o laboratório está desenvolvendo a produção de cosméticos enquadrados como bioprodutos. Os estudos estão se concentrando no desenvolvimento de máscaras faciais para acne, hidrogéis e materiais para regeneração de tecidos.

É extenso o rol de parcerias que o Labbio 3D mantém, dada a diversidade de produtos que pesquisa. Dentro da UFPA, o laboratório atua em parceria com pesquisadores de diferentes áreas. É o caso, por exemplo, do desenvolvimento de uma membrana com óleos essenciais e de um bionanossistema para tratamento da leishmaniose.

“A nossa equipe está espalhada na UFPA e nas instituições com quem temos parcerias, como o Instituto Evandro Chagas, o Museu Emílio Goeldi, a Uniara, a UFMG e a UFPB, entre outras. Eu não poderia desenvolver todas as pesquisas sozinha. Sem o apoio dos meus alunos e dos parceiros, este laboratório não iria para frente.”, diz a coordenadora.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por Walter Pinto

Organização peruana monitora possibilidade de La Niña em 2025: “improvável”

0

Foto: Reprodução/Agência Andina

Os anúncios do fenômeno La Niña na costa peruana são diluídos. A Organização Nacional de Estudos do Fenômeno ‘El Niño’ (ENFEN) informou que o sistema de alerta permanece ‘Não Ativo’ e que esta situação poderá continuar até agosto deste ano.

Da mesma forma, a ENFEN indica que é “improvável” que o fenômeno conhecido como La Niña ocorra na parte central do Oceano Pacífico nos próximos meses.

Leia também: Portal Amazônia responde: como El Niño e La Niña afetam a região amazônica?

Foto: Reprodução/Agência Andina

No mesmo documento, a agência aponta que “no Pacífico central, as condições de frio fraco são mais prováveis ​​até fevereiro de 2025, seguidas de condições neutras até agosto deste ano”. Nesse sentido, a ENFEN considera “improvável que um evento La Niña se consolide nos próximos meses”.

A organização explica a este respeito que é mais provável que “a condição neutra continue, por enquanto, até agosto de 2025”.

Condições “neutras”

Relativamente às chuvas, a ENFEN salienta que “é mais provável que ocorram condições normais a abaixo do normal nas terras altas ocidentais do norte e abaixo do normal na costa norte”.

Chuvas acima do normal provavelmente ocorrerão nas montanhas do centro e sul do país. Da mesma forma, afirma-se que o caudal nos rios da zona centro e sul será “normal e acima do normal”.

Na contramão, a zona norte do país, especificamente nos rios Piura e Chira, “predominariam fluxos muito abaixo do normal e abaixo do normal”. 

Foto: Reprodução/Agência Andina

Neste sentido, recomenda-se que as autoridades e a população “tenham em conta os cenários de risco baseados tanto nos avisos meteorológicos como nas previsões sazonais” para que tomem as medidas correspondentes para reduzir o risco de catástrofes “em caso de mudanças bruscas de condições oceânico-atmosféricas, principalmente na costa norte”.

Recursos pesqueiros

O comunicado refere ainda que os processos de maturação e desova dos indicadores reprodutivos continuarão a apresentar um aumento “de acordo com o seu padrão histórico”.

Espécies como o carapau, a cavala e o bonito aumentarão a sua disponibilidade “de acordo com a sua sazonalidade”.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Relativamente à pescada, prevê-se que a sua disponibilidade continue, maioritariamente com exemplares inferiores a 28 centímetros.

*Com informações da Agência Andina

Plataforma potencializa combate a crimes ambientais na Amazônia

0

Imagem: Reprodução / Green São Paulo

No último ano, o Brasil tem enfrentado um cenário climático extremo, com períodos de chuvas intensas alternando com secas prolongadas, que atingiram diversas regiões, entre elas o Norte do país. A região também apresenta grandes índices de queimadas, desmatamento ilegal e outros ilícitos, colocando em evidência a necessidade do monitoramento contínuo e eficiente das áreas florestais.  

Nesse contexto, o Programa Brasil MAIS é uma ferramenta importante para combater os crimes ambientais e acompanhar impactos potencializados pelas mudanças climáticas. Por meio da Plataforma Web, é possível acessar e compartilhar imagens diárias de alta resolução capturadas pela constelação PlanetScope e ter acesso aos alertas gerados pela SCCON.

Leia também: Saiba o que é o inverno amazônico e por que o Amazonas vive a estação ‘peculiar’

Rondônia eleva eficácia no combate ao desmatamento

De acordo com o Major Felipe Santos das Chagas, da Polícia Militar de Rondônia – PM/RO, a instituição tem obtido resultados expressivos. Desde a implementação da RedeMAIS em 2021, a PM/RO aprimorou sua atuação, elevando sua capacidade de resposta de cinco alvos semanais para uma média de quatro alertas diários.

“Com o uso do geoprocessamento e da ferramenta Brasil MAIS, as operações tornaram-se mais eficazes e assertivas. Dessa forma, podemos redirecionar os policiais conforme a necessidade, aumentando a eficácia na fiscalização, reduzindo os desmatamentos, além de facilitar a execução de ações preventivas”.

Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

Controle ambiental ganha agilidade no Amapá    

A RedeMAIS também tem sido uma aliada importante nas averiguações conduzidas pela Polícia Civil do Estado do Amapá (PC/AP), como na operação Protetor dos Biomas, um programa do Governo Federal que visa combater incêndios florestais, desmatamento e proteger Terras Indígenas. O projeto que conta com a participação de órgãos como a Polícia Civil, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar, resultou em prisões em flagrante e apreensões de madeira, motosserras e até armas de fogo, muitas vezes associadas a atividades de caça ilegal.

“O uso da plataforma tem sido crucial para dar suporte às equipes durante as operações. Por meio da análise de dados de satélite, alertas ambientais e da produção de mapas georreferenciados, conseguimos orientá-las ao levantar informações precisas dos pontos de desmatamento, áreas protegidas e vias de acesso atualizadas, antes mesmo delas irem a campo. Essa abordagem permite maior eficiência nas investigações e contribui diretamente para a proteção ambiental no estado”, afirma Thalita Barcessat Vaz Pelaes, escrivã da PC/AP.

Programa intensifica ações policiais e apresenta bons resultados

A Polícia Civil do Estado do Pará – PC/PA, em colaboração com a Força-Tarefa Amazônia Segura, utiliza o programa para verificar áreas protegidas e unidades de conservação, especialmente em municípios com decretos de emergência, identificando possíveis regiões de risco e degradação.   

Foto: Karla Silva/Sema-MT

“Com a ferramentas da RedeMAIS conseguimos identificar tipos específicos de danos, como instalações irregulares em corpos d’água, incêndios florestais e exploração ilegal. A tecnologia integra dados e relatórios completos e atualizados sobre os espaços territoriais de proteção, florestas públicas e embargos. Isso nos ajuda a elaborar mapas precisos e qualificar os delitos cometidos, facilitando nossa análise, planejamento e a tomada de decisões em campo”, explica Sandrison Ribeiro, Investigador da PC/PA. 

Já a Polícia Civil do Estado do Amazonas – PC/AM, por meio da Delegacia de Crimes Ambientais do Estado (DEMA), dedicada exclusivamente à investigação de infrações contra o meio ambiente, utiliza a RedeMAIS para aprimorar suas atividades de investigação e perícia criminal.  Apenas no primeiro semestre, foram instaurados 134 inquéritos policiais, realizados 71 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) e presas 20 pessoas, tanto em flagrante delito quanto em cumprimento a mandados de prisão por crimes como maus-tratos a animais, poluição sonora e ambiental, desmatamento e pesca ilegal. 

Para Jucélia da Silva Trindade, investigadora da PC/AM, “a ferramenta contribui para as análises das áreas críticas e na mensuração precisa dos impactos ambientais. Isso otimiza tempo e recursos, o que antes poderia levar até um mês. Hoje, conseguimos realizar o mesmo trabalho em minutos, principalmente em áreas de difícil acesso, sem a necessidade de percorrer todo o local do crime ambiental”.

Leia também: Secas e cheias devem tornar-se mais intensas e frequentes na Amazônia, aponta pesquisador

Programa Mais Brasil

Programa Brasil MAIS é uma iniciativa abrangente e pioneira, com o objetivo de promover cooperação, compartilhamento de tecnologias, metodologias, técnicas e dados atualizados. Hoje já conta com mais de 560 instituições governamentais cadastradas, que somam cerca de 110 mil usuários.   

O Programa Brasil MAIS monitora mais de 8,5 milhões de km² do território brasileiro e áreas costeiras marinhas diariamente. A adesão está disponível para as instituições públicas do Brasil que tenham interesse de fazer parte da RedeMAIS, sendo disponibilizado acesso às imagens diárias de alta resolução da Planet e os alertas de detecção de mudanças gerados pela SCCON via Plataforma Web integrada, simples e intuitiva.