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Obras de infovia sob as águas do rio Solimões para levar internet à região amazônica são iniciadas

Uma plataforma acoplada a dois rebocadores está implantando os cabos de fibra ótica sob as águas do rio Solimões. Foto: Layo Stambassi/MCom

O Governo Federal iniciou no dia 21 de janeiro as obras de instalação da Infovia 02, que vai levar internet de fibra óptica a cerca de 370 mil habitantes de 13 cidades da região amazônica. Com investimento de R$ 268 milhões, serão lançados 1,1 mil km de cabos subfluviais, num dos maiores projetos de conectividade do mundo. 

Uma plataforma acoplada a dois rebocadores está implantando os cabos sob as águas do rio Solimões, com quase uma centena de profissionais trabalhando. A embarcação sai de Tefé e vai até Benjamin Constant (AM), com previsão de chegada em 18 de fevereiro.

Cidades e estruturas

A operação vai passar ainda por:

  • Alvarães,
  • Uarini,
  • Fonte Boa,
  • Jutaí,
  • Tonantins,
  • Santo Antônio do Içá,
  • Amaturá,
  • São Paulo de Olivença,
  • Belém do Solimões
  • e Tabatinga.

A Infovia contempla também a cidade de Atalaia do Norte (AM), mas com conexão via terrestre a partir de Benjamin Constant. 

A Infovia 02 irá conectar 85 escolas públicas, 13 hospitais e oito centros de pesquisa, além de possibilitar que operadoras ofereçam pacotes de internet mais acessíveis.

Além disso, cada local terá uma praça pública equipada com wi-fi, ampliando o acesso à internet para toda a comunidade.

Redes metropolitanas

Quando o lançamento for finalizado, a infraestrutura subfluvial será conectada a redes metropolitanas nas cidades, que levarão conexão de alta velocidade para escolas públicas, unidades de saúde, tribunais e organizações das Forças Armadas, batalhões de policiamento, centros de pesquisa, agência fluvial e cerca de 12 mil indígenas distribuídos em 30 aldeias, todas localizadas em Belém do Solimões.

Operação

Um grande aparato foi montado para garantir o sucesso da operação. A plataforma conta com cozinha, refeitório, academia, ambulatório, alojamento, lavanderia, barcos de apoio e segurança feita pelo Exército. Estão embarcados diversos profissionais, como engenheiros, geólogos, geofísicos, comandantes da embarcação, operadores, chefes de cozinha, técnicos ambientais e arqueólogos.

Sustentabilidade

A plataforma é montada para operar de forma ininterrupta, incluindo as madrugadas. A iniciativa também tem um caráter de sustentabilidade, pois a instalação da rede de internet submersa nos rios evita que árvores sejam cortadas pelos métodos mais comuns de cabeamento, seja por via aérea em postes ou subterrânea por enterramento.

Leilão

A implantação está sendo feita pela Entidade Administradora de Faixa (EAF), entidade não governamental e sem fins lucrativos criada por determinação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), vinculada ao Ministério das Comunicações, a partir do leilão do 5G para ações de conectividade.

Acordo internacional

A infovia integra um acordo internacional assinado em abril do ano passado entre Juscelino Filho e o ministro de Tecnologias da Informação e Comunicações da Colômbia, Mauricio Lizcano, para estender a infraestrutura até a cidade colombiana de Leticia.

O acordo prevê a criação de um grupo de trabalho entre a Secretaria de Telecomunicações do Ministério das Comunicações do Brasil e o Vice-Ministério de Conectividade do Ministério de Tecnologias da Informação e Comunicações da Colômbia.

Norte Conectado

A iniciativa integra o programa Norte Conectado, que tem como finalidade expandir a infraestrutura de comunicações na região amazônica, por meio da implantação de 12 mil km de cabos de fibra ótica submersos em rios. 

O investimento é de R$ 1,3 bilhão, com 10 milhões de pessoas beneficiadas e 59 municípios atendidos no Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima.

Estrutura

Cada infovia é feita de cabos compostos por 24 pares de fibra óptica. Cada par possui capacidade de até 20Tb por segundo, ou seja, pode transmitir simultaneamente o equivalente a 200 mil vídeos de streaming em HD com altíssima qualidade. Os cabos foram feitos para durarem pelos menos 25 anos submersos nos rios.

28 infovias

A Infovia 02 é a quinta a ser viabilizada pelo governo brasileiro. A primeira foi a Infovia 00, que saiu de Macapá (AP) e passou pelas cidades paraenses de Almeirim, Monte Alegre, Santarém e Alenquer. A Infovia 01 ligou Manaus (AM) a nove municípios, sendo quatro no Amazonas (Parintins, Urucurituba, Itacoatiara e Autazes) e cinco no Pará (Curuá, Óbidos, Oriximiná, Juruti e Terra Santa). 

Já a Infovia 03, entregue no ano passado, interligou Belém (PA) a Macapá, levando cabos de fibra óptica aos municípios paraenses de São Sebastião da Boa Vista, Curralinho, Bagre e Breves. Num segundo momento, foram interligadas também as cidades de Ponta de Pedras (PA) e Afuá (PA). 

A parte fluvial da Infovia 04 foi implantada em novembro de 2024. É composta por um total de 647 quilômetros de cabos de fibra ótica, sendo 515 km subaquáticos. Essa Infovia conectou Boa Vista (RR) a Vila de Moura, distrito de Barcelos (AM), passando por outros municípios de difícil acesso, como Santa Maria do Boiaçu, distrito de Rorainópolis (RR), e Caracaraí (RR). A conexão entre Caracaraí a Boa Vista, de 132 km, está sendo feita por terra. 

No total, serão viabilizadas 28 infovias. O objetivo é ampliar a capacidade de tráfego de dados e a disponibilidade de banda larga em municípios de difícil acesso. As “estradas digitais” contam com investimento total de R$ 1,9 bilhão via Novo PAC.

*Com informações da Secretaria de Comunicação da Presidência

O pioneiro no combate ao racismo científico na Amazônia

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O poeta João do Monte. Foto: Acervo pessoal

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Filho de uma tradicional família cearense, João do Monte escrevia poemas em jornais de Fortaleza e de Sobral desde 1910, quando ainda era adolescente. À parte dos versos, era um polemista e se dizia “mestiço”. Uma raridade na sociedade vigente na época, com espaços reduzidos a pessoas que não fossem brancas. A escravidão havia terminado, oficialmente, há pouco mais de duas décadas.

Sua inquietude era explícita, pois embora tivesse facilidades para conseguir empregos em jornais de prestígio e atuar como professor, ele não parava em lugar algum, e deixava dívidas de empréstimos pelos caminhos que percorria.

Parecia estar em busca de algo que nem ele mesmo sabia o que era, com rebeldia e algum tormento psicológico.

Em Porto Velho – uma cidade nova, fundada em 1914 –, onde viveu por quase três anos, até 1920, combatia, ao lado do também poeta Mendonça Lima, que era médico e dono de cinema no povoado de Abunã, as teses de eugenia defendidas por intelectuais locais.

As ideias que Monte rejeitava tinham raízes no século XIX e foram usadas para justificar a colonização, a escravidão e a exploração de povos não europeus. No Brasil, o racismo científico foi uma ferramenta utilizada para legitimar políticas de branqueamento e marginalizar a população negra, mesmo após a abolição da escravidão.

O racista mais veemente era o presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, Alfredo da Mata (1870/1954), médico baiano morador em Manaus, onde chegou como funcionário da empresa de navegação estatal Lloyd Brasileiro. O político tinha muita credibilidade como médico e publicou livros importantes neste segmento. Porém, era defensor de ideais de supremacia branca. E além de deputado estadual e federal, foi eleito ao Senado em 1935 bradando esse tema potencializado, posteriormente, por Adolph Hitler.

No final do século XIX e início do século XX, o governo dos Estados Unidos adotou medidas legislativas em vários estados como meio de promover o “melhoramento racial”. O parlamentar amazonense Alfredo da Mata elogiou: “O povo norte-americano, um povo de técnicos sempre ávidos por progresso material e social, impregnado de ciência desde as escolas até a imprensa e conhecedor de métodos biológicos de cultura e criação, é o povo que habita a terra prometida da eugenia. Não pormenorizarei, mas esta ciência faz parte dos programas escolares e universitários dos Estados Unidos.”

O político Alfredo da Mata. Foto: Acervo pessoal

Formado no Rio de Janeiro, o advogado Raif Costa da Cunha Lima atuava em Porto Velho, onde foi versais entre 1920 e 1923 – e mais tarde foi promotor de justiça no Acre, nas décadas 1920,30 e 40 – comungava da “teoria científica da eugenia” propagada por Alfredo da Mata, junto com “mestres” como o capitão Alencarliense de Castro, militar que integrou a Comissão Rondon e que àquela altura vivia em Porto Velho. Alencaliense era engenheiro e o autor do monumento dos cem anos da Independência do Brasil, presente até hoje no centro histórico da capital rondoniense.

Raif se ofendeu, e deixou isso explícito e textualmente dito, por não ter sido chamado de “doutor” pelo poeta João do Monte em um artigo no jornal “Alto Madeira”, criticando-o pelas posições racistas.

O advogado tratou de desqualifiá-lo academicamente – “João é dono de um cérebro simples”, assim o definiu – e pela “falta de profundidade de seus argumentos” a favor da mestiçagem, “além dos incontáveis erros ortográficos que comete na escrita sofrível ao defender o que não sabe”.

A eugenia é, em síntese, a hipótese da reprodução de indivíduos com características consideradas superiores ou desejáveis, para uma purificação “natural” da raça brasileira, por meio do embranquecimento da população.

João do Monte era atacado pelos detratores que, ao revidá-lo com argumentos, apontavam erros de português em sua escrita, sem entrar no mérito de suas teorias. Ele se atinha a contestar os que defendiam o racismo e deixava claro: “Nestes últimos quatro séculos, onde mais intenso se tornou o intercâmbio espiritual e material dos povos, a terra brasileira, recebendo no seu seio o contingente de dois povos diferenciados em cultura, para cruzarem-se entre si, juntamente com a população autóctone, os indígenas americanos, vem sedimentando os alicerces de uma nacionalidade distinta”.

E mais, João continuava: “Ninguém poderá esquecer a série imensa de vultos, resultante da mestiçagem brasileira, cuja capacidade de ação é poderosa e definida nas mais claras manifestações do pensamento. Luiz Gama, Cruz e Sousa, Natividade Saldanha, Silva Alvarenga, André Rebouças, Lírio de Castro, José do Patrocínio e tantos outros, mestiços de brancos com negros, atestam a sua inconcussa superioridade. Carlos Gomes, Franklin Távora, Romualdo de Seixas, Diogo Feijó, João Lisboa, para não falar em outros, mestiços de brancos com indígenas”.

O crítico de literatura João da Ribeira, do jornal “O Imparcial” de Manaus, descreveu o autor cearense como “um raro littéraire”. Como poeta, João do Monte deixou vários versos memoráveis.

Quem foi

Em 1914, João do Monte fundou seu próprio jornal, o pequeno “Resedá”, em Camocim, no litoral do Ceará. No entanto, o semanário foi logo fechado. Em 1916, o jovem talentoso passou a trabalhar como redator no “Diário do Estado”, em Fortaleza, e, posteriormente, como repórter no “Jornal do Commercio”, em Manaus, para onde se mudou naquele mesmo ano.

Ainda em 1916, ele partiu para o Acre, onde atuou como revisor da Imprensa Oficial do Estado. Pouco tempo depois, foi frequentemente mencionado como assistente e colaborador do jornal “Alto Madeira”, em Porto Velho, entre 1917 e 1920.

Com tanta movimentação, fica claro que ele era um aventureiro, então com cerca de 25 anos, quanto muito.

O poeta João do Monte. Foto: Acervo pessoal

Foi uma figura emblemática da boemia. Conhecido por suas risadas debochadas, era presença constante nas cafeterias e no palco do teatrinho do Cine Phênix, onde declamava poemas junto a outros agitadores culturais da cena de Porto Velho, especialmente seu amigo e chefe no jornal “Alto Madeira”, João Soares Braga, o Português.

Monte também atuou como ator na comédia “Dois Estudantes no Prego”. Segundo a crítica publicada no jornal, ele “apresentou perfeita dicção e muito chiste”.

Infelizmente, pouco mais se sabe sobre ele, exceto que era constantemente referido como “amigo de todos”, “festejado poeta”, “o mais engraçado” e promotor de “seratas”, segundo anunciava a imprensa naqueles tempos de “Belle Époque” tropical na Amazônia. Ele gostava de dançar e curtir a vida de maneira desprendida e despretensiosa, e isso é o que mais se dizia.

Era morador do bairro Favela, reduto de operários e pessoas pobres, e dava aulas de alfabetização na Escola Municipal “Sátiro Dias”. Em 1919, criou com Anthistenes Nogueira Pinto – tabelião e também seu colega professor na escola Sátiro – o colégio Externato Madeirense, instalado à avenida Osório. Este educandário teve vida efêmera, pois em 1920 Monte mudou-se para Fortaleza (CE), sua terra natal.

Em 9 de junho de 1921 o jornal “Alto Madeira” noticiou a morte, sem falar da idade e das causas:

“JOÃO DO MONTE – Pereceu a bordo de um dos vapores do Lloyd o jovem poeta João do Monte, nome muito conhecido aqui, onde passou alguns anos de sua vida de boêmio, de eterno despreocupado com as incógnitas do futuro.
Era um moço que cultivava as musas com inspiração, mas que, nada deixou de duradouro, devido a sua organização infensa ao estudo acérrido, aproveitoso elemento indispensável ao bom êxito nas lutas da inteligência.
Olhando o mundo pelo lado cômico, morreu poeta que ria de tudo e de todos. Foi assim a sua existência, aproveitando a expressão de Forjaz Sampaio, ‘uma eterna corda de risos’.”

Meses depois, um desmentido: ele estaria vivo e trabalhando em um jornal no Rio de Janeiro. E o mistério continuou. No entanto, em 1928, o jornal “O Ceará” publicou, em 25 de dezembro, o poema “Natal”, referindo-se ao autor João do Monte como “saudoso e malogrado poeta”; foi uma homenagem póstuma de uma vida curta e atordoada.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

5ª Conferência Indígena da Ayahuasca reúne lideranças para proteção de saberes tradicionais no Acre

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Foto: Reprodução/Site oficial

A Aldeia Sagrada do povo Yawanawá, localizada em Tarauacá, no Acre, será palco da 5ª Conferência Indígena da Ayahuasca, um encontro que reúne lideranças espirituais indígenas de cerca de 30 povos, entre os dias 25 a 30 de janeiro. O objetivo do evento é debater temas cruciais como o uso, transporte, difusão e proteção dos conhecimentos, saberes tradicionais e recursos genéticos relacionados à ayahuasca, bebida sagrada utilizada há séculos por mais de 100 povos da bacia amazônica.

Promovida pelo Instituto Yorenka Tasorentsi, Instituto Nixiwaka e Cooperativa Yawanawa (Coopyawa), a conferência é um evento fechado, exclusivo para convidados. Contudo, ao final dos debates, será publicada uma carta oficial com as recomendações e reflexões dos povos indígenas, reafirmando o protagonismo dessas comunidades na preservação e uso consciente da ayahuasca.

Ayahuasca

Feita a partir do cipó Banisteriopsis caapi e das folhas da Psychotria viridis, a ayahuasca é uma bebida utilizada em práticas espirituais e medicinais pelos povos indígenas da Amazônia. Mais do que uma substância, ela é vista como um canal de conexão com a espiritualidade e com os ensinamentos ancestrais.

Nas últimas décadas, o uso da ayahuasca despertou o interesse de diversos setores acadêmicos e internacionais. Esse interesse, porém, nem sempre tem considerado os direitos, o protagonismo e os saberes tradicionais dos povos indígenas, criando tensões em relação ao respeito à sua cultura e à proteção dos conhecimentos tradicionais.

Leia também: Pesquisas revelam benefícios do uso de Ayahuasca em tratamentos terapêuticos

Foto: Divulgação

Histórico

O marco para a criação de um espaço de diálogo exclusivo dos povos indígenas foi a ausência de representantes dessas comunidades na I Conferência Mundial de Ayahuasca, realizada na Espanha, em 2014. Na edição seguinte, indígenas foram convidados, mas relataram a necessidade de um evento próprio que refletisse suas visões e prioridades.

Assim, em 2017, aconteceu a primeira Conferência Indígena da Ayahuasca, que resultou em uma carta inaugural de recomendações. O documento ressaltava que, embora pesquisadores acadêmicos tenham legitimidade em seus campos, os povos indígenas são os verdadeiros conhecedores espirituais da ayahuasca e devem ser os protagonistas nas discussões sobre seu uso e preservação.

Desde então, as conferências têm sido um espaço de intercâmbio entre lideranças indígenas, onde são debatidos temas como o acesso, a exploração comercial, o transporte da ayahuasca e a proteção dos recursos genéticos.

Relevância

A edição de 2025 ganha ainda mais importância devido ao crescente interesse global pela ayahuasca, tanto para fins terapêuticos quanto recreativos, e os desafios associados à sua comercialização e difusão. O evento busca fortalecer o protagonismo indígena nas discussões, assegurando que as práticas e saberes espirituais ligados à bebida sejam respeitados e protegidos contra apropriações inadequadas.

Para financiar o evento, o Instituto Yorenka Tasorentsi captou recursos com parceiros alinhados às causas indígenas. Esse modelo de financiamento assegura que as conferências sejam organizadas de forma independente e com foco nas prioridades das comunidades indígenas.

Ao término da conferência, a carta oficial com as principais recomendações será disponibilizada no site oficial do evento. O documento é um instrumento de grande relevância, servindo tanto como registro histórico quanto como ferramenta de advocacy para a proteção da ayahuasca e dos direitos dos povos indígenas.

A quinta Conferência Indígena da Ayahuasca reafirma a importância de respeitar e ouvir as vozes dos verdadeiros guardiões dos saberes ancestrais. Em um mundo cada vez mais globalizado, preservar as tradições e garantir o protagonismo dos povos originários é um passo essencial para a construção de um futuro mais justo e sustentável.

É importante citar que o termo Ayahuasca não substitui as terminologias apresentadas por cada povo participante, tais como Kamarãpi, Uni, Huni, Dispãnī hew, Tsĩbu, Yage, Gaapi, Caapi, Hayakwaska, entre outras. No entanto, desde a primeira Conferência foi acordada a utilização deste termo de forma genérica, compreendendo todas as demais nomenclaturas.

Para conhecer mais sobre a conferência, acesse o site oficial.

Conheça 8 projetos que apoiam a conservação da Amazônia

Pirarucu manejado. Foto: Reprodução/Arquivo Idam

A Amazônia, maior floresta tropical do mundo e que desempenha um papel crucial no equilíbrio do ecossistema e na preservação das espécies, seja da fauna ou da flora, permanece sob ameaça. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na região atingiu 4.315 quilômetros quadrados de agosto de 2023 a julho de 2024.

Além disso, a floresta enfrentou em 2024 o maior número de incêndios florestais em 17 anos, com 137.538 focos de calor registrados até dezembro, concentrando 50,6% das queimadas no país. Diante desses dados alarmantes, alguns projetos de conservação trabalham incansavelmente para proteger o que muitos chamam de “os pulmões da Terra”.

Leia também: Retrospectiva 2024: Projetos da Fundação Rede Amazônica levam cultura, educação e sustentabilidade a toda a região Norte

Lucas Ribeiro, fundador e CEO do PlanetaEXO, plataforma dedicada a oferecer experiências turísticas com foco em impacto positivo e apoio a comunidades locais, destaca:

Com uma área total de 6,74 milhões de quilômetros quadrados, sendo mais de 62% (ou 4,2 milhões de quilômetros quadrados) no território brasileiro, a Amazônia abriga milhões de animais e plantas, além de ser responsável por até 16% da água doce que chega aos oceanos por meio da Bacia Amazônica, considerado o maior sistema hidrográfico do planeta. Ela também captura e armazena grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2), ajudando a mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

As consequências deste desmatamento descontrolado são graves: aumento das temperaturas, secas prolongadas, rios mais baixos, morte de animais, má qualidade do ar e perda de casas e fontes de renda para as pessoas que dependem da floresta para sobreviver. Conheça projetos que atuam diretamente na região amazônica:

 Artesão e peças de artesanato de madeira da FAM. Foto: Divulgação

1. Programa de Empreendedorismo e Negócios Sustentáveis da Amazônia (Pensa)

A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) combate a vulnerabilidade social com o Programa de Empreendedorismo e Negócios Sustentáveis da Amazônia (Pensa). Em 2023, o programa apoiou mais de 583 comunidades em 16 Unidades de Conservação (UC), com 62 empreendimentos sustentáveis e 323 pessoas adquirindo novas habilidades. A renda média das famílias beneficiadas aumentou em 19%, enquanto a receita total dos empreendimentos turísticos de base comunitária arrecadou R$ 5 milhões.

2. Fundação Almerinda Malaquias (FAM)

Com sede em Novo Airão, Amazonas, a Fundação Almerinda Malaquias (FAM) promove geração de renda, educação ambiental e ecoturismo. Em 2024, a FAM ajudou 190 pessoas matriculadas na escola, 45 famílias na geração de renda e atendeu dez comunidades ribeirinhas em educação e financiamento.

3. Instituto Mamirauá

Trabalhando para mitigar os efeitos das secas severas, o Instituto Mamirauá, com sede em Tefé, oferece suporte educacional às comunidades locais, desenvolve métodos para melhorar o acesso à água potável e ajuda a reduzir os impactos das mudanças climáticas na Amazônia.

4. Expedição Boto da Amazônia

Desde 2021, a Sea Shepherd lidera o projeto Expedição Boto da Amazônia, monitorando e protegendo os golfinhos cor-de-rosa da região. O projeto implementa estudos de longo prazo sobre a população desses animais e busca preservá-los.

Boto-vermelho sendo capturado para pesquisa no lago da RDS Amanã. Foto: Adriano Gambarini

5. Brigada de Incêndios Florestais de Alter do Chão

Fundada em 2019, a Brigada de Alter do Chão, no Pará, previne e combate incêndios florestais. A organização também realiza mutirões e ações de educação ambiental para controlar a propagação do fogo e evitar desastres.

6. Expedicionários da Saúde (EDS)

Os Expedicionários da Saúde, posicionados em Campinas, São Paulo, levam assistência médica a grupos indígenas que vivem em áreas isoladas da Floresta Amazônica. Desde 2003, realizaram mais de 10.486 cirurgias e 76.333 consultas, além de doar mais de 8.000 óculos graduados.

7. Mulheres Empreendedoras da Floresta

O projeto, promovido pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA), capacita mulheres da Amazônia para criar e expandir negócios próprios. Desde 2024, o programa tem sido referência em empoderamento feminino em cidades como Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos.

8. Programa Carbono Neutro (PCN)

Gerido pelo Idesam, o Programa Carbono Neutro permite que pessoas e empresas compensem emissões de carbono por meio do reflorestamento de áreas degradadas na Reserva Biológica do Uatumã, em Presidente Figueiredo, Amazonas.

Praias de Manaus recebem monitoramento da qualidade da água; entenda como funciona

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Foto: Divulgação

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Mudanças do Clima (Semmasclima) de Manaus (AM), utiliza uma embarcação para as atividades de monitoramento da balneabilidade – o qual avalia a capacidade que um local tem de possibilitar o banho, atividades esportivas e de recreação em suas águas.

Ao todo, são 11 locais monitorados, periodicamente, pela gestão ambiental municipal: Prainha (Ponta Negra), orla do anfiteatro (dois pontos na Ponta Negra), escola de remo (Ponta Negra), praia Dourada (Tarumã-Açu), praia da Lua (dois pontos), praia do Arrombado, praia do Tupé (dois pontos).   

Como funciona

A qualidade da água para banho, atividades esportivas e de recreação é determinada a partir da quantidade de bactérias do grupo coliforme, presentes na água.

Após os últimos estudos, os índices de balneabilidade serão divulgados no site da Prefeitura de Manaus, a partir do início de março. 

*Com informações da Prefeitura de Manaus

Instituto abre processo seletivo para 1.000 bolsistas em escolas de Manaus

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Foto: Divulgação

O Instituto Educações anunciou o início do processo seletivo para 1.000 bolsas de estudo em escolas particulares de Manaus (AM). Fundado no Amazonas em 2013, o instituto se dedica à concessão de bolsas e ao acompanhamento de bolsistas, ampliando suas ações para diversas regiões do Brasil. Com mais de 70 mil benefícios concedidos, o Educações oferece apoio desde a educação infantil até o pós-doutorado. O processo seletivo ocorrerá semanalmente, com etapas simples e rápidas.

Critérios de seleção e prazos

Para participar, os candidatos devem comprovar residência no estado do Amazonas, não estar matriculados na escola escolhida e ter uma renda familiar per capita de até 4 salários mínimos. As inscrições podem ser feitas através do portal www.educacoes.com.br ou pelo WhatsApp (11) 96930-5718 (atendimento nacional).

As inscrições para a educação básica estão abertas até o dia 30 de janeiro. Após a inscrição, os candidatos passarão por entrevistas. Os selecionados receberão bolsas de 50% em escolas de alto padrão pedagógico e responsabilidade social, situadas em diversos bairros de Manaus.

Como funciona

De acordo com o professor Rony Siqueira, presidente do Instituto Educações, o projeto visa proporcionar benefícios sociais, com a contrapartida das famílias. “Como as bolsas são de fato especiais, os estudantes precisam ter excelente desempenho acadêmico e participar de projetos sociais coordenados pelas escolas e pelo Instituto Educações”, afirmou.

As vagas são destinadas à complementação de turmas e representam benefícios reais, com acompanhamento mensal oferecido pelo Instituto Educações. Já estão credenciadas para o programa escolas renomadas como Pinocchio, Martha Falcão, Palas Atena, Denizard Rivail, Paraíso Infantil, Meu Caminho, Helena Romero, C.E. Triunfo, Colégio Nazareno, Creche Escolar, Corujinha, Estrela da Manhã, Leão de Judá, Criar e Recriar, CIEC, Meyre de Freitas, Colégio Batista Inovação e Estrela de Davi.

Novas escolas estão em processo de credenciamento, abrangendo desde a educação infantil até o ensino médio.

Expedições científicas desvendam mecanismos das chuvas e tempestades na Amazônia

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Foto: Philippe Donn/Pexels

“O que acontece na Amazônia não fica na Amazônia”. Essa frase dita por ambientalistas e pesquisadores se aplica perfeitamente aos complexo sistema de chuvas da região.  

A umidade produzida pela floresta é dispersada pelos rios voadores a outras regiões do País afetando o quadro meteorológico e influi no equilíbrio do clima global. Toda essa dinâmica é possível devido uma rede de outros fenômenos que estão atraindo o interesse de pesquisadores expedições científicas na região

Leia também: Formação de novas partículas acima do topo das árvores contribui com chuvas na Amazônia

Uma das expedições mais recentes, que contou com o apoio do Instituto Soka Amazônia, buscou registrar os super raios na região e foi documentada na série Caça Tempestades – Amazônia, exibida no programa Fantástico da Rede Globo, nos dias 5 e 12 de janeiro.

Da dir. para esq. Dr. Osmar, o jornalista Ernesto Paglia e a cineasta Iara Cardoso: equipe em cena no Instituto Soka Amazônia. Foto: Aline Branca/Divulgação Grupo Storm

A pesquisa contou com a participação de um dos maiores especialistas sobre tempestades no mundo: Osmar Pinto Junior, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

A iniciativa contou com a parceria do Instituto Soka Amazônia, dentro do seu eixo de apoio a pesquisas científicas. A sede do Instituto, na Reserva Particular de Patrimônio Natural Daisaku Ikeda, localizada diante do Encontro das Águas, em Manaus (AM), foi um dos locais escolhidos para captação de registros dos raios, devido a alta incidência dessas ocorrências em períodos mais chuvosos.

Tempestades elétricas

O Brasil é campeão na ocorrência de raios no mundo, mas a Amazônia,  maior floresta tropical e berço da maior biodiversidade do planeta, concentra grande incidência de tempestades e altíssimas descargas elétricas.

São 500 mil tempestades por ano, com raios cuja temperatura pode chegar a 10 vezes a da superfície do Sol.  

O que explica a grande atração de descargas elétricas, na região é a própria floresta que funciona como um grande “oceano verde”, como explica o professor  Osmar Pinto Jr.

Como se formam as chuvas na Amazônia

Outra expedição científica internacional, revelou o mecanismo físico-químico completo que gera a formação chuvas na Amazônia.

Publicado da revista Nature no mês de dezembro, o estudo demonstrou detalhes inéditos sobre a geração de aerossóis produtores de nuvens, como fato de isoprenos gerados pelas árvores conseguirem alcançara camadas superiores da atmosfera.

Saiba mais: ‘Máquina de nuvens’: emissões da floresta amazônica e descargas elétricas produzem partículas de chuva

A grande novidade revelada pela pesquisa é o registro do mecanismo físico-químico completo. Até então não se sabia que o isopreno poderia chegar as camadas superiores da atmosfera.

O conhecimento  gerado pelo estudo será incorporado aos modelos climáticos, melhorando a previsão de chuvas, especialmente em regiões tropicais, e fazendo simulações para compreender o funcionamento presente e futuro do planeta.

Mecanismo noite e dia

Nanopartículas de aerossóis combinadas com descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, durante à noite e durante o dia, fazem com que o complexo sistema das chuvas amazônicas funcione.

O estudo conclui que o gás isopreno (liberado pela vegetação por meio de seu metabolismo) consegue chegar a camada da atmosfera acima da superfície terrestre próxima da tropopausa durante tempestades noturnas. Uma série de reações químicas desencadeadas com a radiação solar dá origem a uma grande quantidade de aerossóis que acabam por formar as nuvens. Esta produção de partícula é acelerada por reações com óxidos de nitrogênio produzidos por descargas elétricas na alta atmosfera, em nuvens dominadas por cristais de gelo.

Floresta em pé necessária para o clima

Para autores brasileiros do estudo a pesquisa demonstrou como a floresta amazônica tem grande influência no equilíbrio dos ecossistemas. Luiz Augusto Toledo Machado, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) fez um alerta: “alterações como as provocadas pelas mudanças climáticas ou pelo desflorestamento podem gerar efeitos inesperados e não estudados ainda”.

O professor Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável (Ceas) da USP, e também autor do estudo, ressaltou a importância de se combater o desmatamento. “As emissões de isopreno dependem da floresta em pé. Elas não ocorrem se a vegetação nativa for substituída por pastagem ou cultura de soja. Com o desmatamento, esse mecanismo de produção de partículas é destruído”.

Acesse artigo completo:
Isoprene nitrates drive new particle formation in Amazon’s upper troposphere 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Soka, escrito por Dulce Moraes

Proa de navio do século XIX descoberta durante obra em Belém é removida para restauro

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Foto: Cristina Vasconcelos/Iphan

A proa de um navio do século XIX, encontrada em agosto de 2024 durante as obras de construção do Parque Linear da Doca, em Belém (PA), foi removida no dia 17 de janeiro para estudo e restauração.

O resgate do achado arqueológico, coordenado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pela Secretaria de Estado de Obras Públicas do Pará (Seop), está sendo realizado em três etapas, com retirada de uma parte da peça em cada uma delas. As duas primeiras etapas foram concluídas com sucesso, e a terceira e última está prevista para esta semana. 

Após a conclusão da remoção, o Iphan supervisionará a conservação e a restauração, que serão executadas por uma equipe contratada pelo governo estadual. Esse trabalho será realizado em um laboratório provisório, montado no estacionamento de uma universidade particular, onde a proa está sendo acondicionada. 

A peça, com dimensões de aproximadamente 22m de comprimento, 7m de largura e 2,25m de profundidade, tem passado por uma complexa operação de remoção ao longo de cinco meses. O trabalho envolve uma equipe multidisciplinar composta por 15 profissionais incluindo arqueólogos, arquitetos, conservadores e técnicos, além de mais de 30 pessoas que atuaram no transporte dos fragmentos do local de escavação para a área do laboratório.

A operação está sob responsabilidade da empresa encarregada pela construção do Parque Linear da Doca, localizado no trecho inicial da Avenida Visconde de Sousa Franco. 

Foto: Cristina Vasconcelos/Iphan.
Foto: Cristina Vasconcelos/Iphan

O Iphan acompanha de perto todo o processo, oferecendo fiscalização, orientação e suporte técnico aos pesquisadores e à empresa responsável, assegurando a máxima preservação da peça. Após conclusão do restauro e dos estudos, está prevista uma exposição dos artefatos no Porto Futuro 2, novo espaço de lazer em construção na área portuária de Belém. 

Os estudos iniciais indicam que a peça arqueológica pertence a uma embarcação de ferro, possivelmente ligada ao antigo Igarapé das Almas, e remonta ao comércio fluvial do século XIX na capital paraense.

*Com informações do Iphan

Doutor José Francisco de Araújo Lima, diretor do Atlético Rio Negro Clube

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Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br 

O Doutor José Francisco de Araújo Lima nasceu na Vila de Muaná, na Ilha do Marajó no Estado do Pará, no dia 9 de maio de 1884, e faleceu no Rio de Janeiro no dia 11 de junho de 1945. Foram seus pais o Doutor José Francisco de Araújo Lima e Dona Maria Amélia de Mendonça Lima, sendo seu pai juiz de Direito em Manaus e ela proprietária e regente do Colégio Santa Catarina.

Estudou as primeiras letras em Manaus, seguindo após para o Rio de Janeiro onde se matriculou na Faculdade de Medicina, mantendo-se com uma bolsa de estudo muito limitada, enviada por seus genitores. Em certa ocasião foi obrigado a parar seus estudos no segundo ano, pela suspensão de sua mesada. Com recursos próprios pôde concluir seu curso e, em seguida, regressando a Manaus, tendo dedicado seu tempo a sua clínica e como professor secundário no Ginásio Amazonense Pedro II, como era comum a época mediante concurso público, em 1905.

O professor Agnello Bittencourt, na sua obra ‘Dicionário Amazonense de Biografias – vultos do passado’, assim destaca:

(…) Quando a tradicional casa de ensino festejou seu sesquicentenário de fundação em 1936, todos os lentes foram convidados a dá um resumo de sua biografia. O Doutor Araújo Lima escreveu: Fez o curso primário no Colégio Santa Catarina e o secundário no Ginásio Amazonense Pedro II. Formou-se em Farmácia na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1902, doutorando-se em Medicina na Faculdade do Rio de Janeiro, em 19012. Diplomou-se me Medicina Tropical pela Universidade de Paris, entre 1911 e 1912, conquistando o atestado do Curso de Microbiologia do Instituto Pasteur de Paris. Representou oficialmente o Governo do Amazonas, na II Conferencia Brasileira de Educação. Foi Inspetor do Ensino Primário do Estado, entre 1909 e 1910. Exerceu o cargo de Diretor da Instituição Pública do Amazonas de 1 de Janeiro de 1917 à 5 de novembro de 1919. Exerceu o cargo de Prefeito de Manaus de 5 de setembro a novembro de 1924 e de 1 de janeiro de 1926 a 29 de novembro de 1929. Foi eleito Deputado Federal pelo Amazonas em 1 de março de 1930, exercendo este mandato até a dissolução da Câmara dos Deputados em 24 de outubro de 1930. Escreveu as seguintes obras: “Dos culicídios” (tese de concurso e “Ensaios sobre hemolysinas” (tese de doutoramento), “Questão do Ensino Primário”, memória apresentada ao II Congresso Brasileiro de Educação, em 1912, “Capacidade de Testar”, Falsa Demência, em 1912, Só a Educação Transforma os Povos, em 1933, “Amazônia: a Terra e o Homem”, em 1933, (Extraído o Anuário do Ginásio Amazonense Pedro II, número especial comemorativo do cinquentenário de sua fundação, pág. 11 Manaus, 1936).

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

E continua o professor Agnello Bittencourt:

Conheci o Dr. Araújo Lima desde o seu tempo de rapaz, ainda estudante do ginásio. Em agosto de 1908, encontrei-o no Rio de Janeiro, morando juntos, ele e o seu irmão Benjamin.

Antes de se formar em Medicina, ainda residindo em Manaus, foi nomeado inspetor escolar. No desempenho do cargo, patenteou profundos conhecimentos da Pedagogia e Psicologia aplicada ao ensino primário. Escreveu um alentado volume dividido em duas partes, intitulado “Questões do Ensino Primário”. A primeira foi publicada no Diário Oficial do Estado: a segunda perdeu-se em um incêndio, à época, nas oficinas desse diário.

Entrou para o Ginásio Amazonense em 1905 tendo conquistado a cátedra de Historia Natural, mediante memorável concurso em que sua inteligência e cultura mais uma vez se afirmaram brilhante.

Certa ocasião, eu, professor de Geografia do estabelecimento, passava pela porta do salão de sua aula, versando sobre célula vegetal. Fui convidado para entrar, assistindo o resto da explanação. Ao final não pude saber o que mais admirar, se o desenho da célula a giz, no quadro-negro, se a didática do assunto.

Em outras oportunidades, no mesmo ginásio, e, bancas de concurso para provimento de docentes, vi-o examinando os candidatos; não mais era uma revelação de inteligência, mas sim, uma reafirmação de cultura generalizada.

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

O Doutor Araújo Lima foi um importante membro da Academia Amazonense de Letras, em um período muito importante cuja amizade manifestava a época ao Presidente Doutor Adriano Jorge. Foi no quadriênio do Governo do Doutor Ephigenio de Salles, entre o período de 1926 a 1929, que esteve a frente da Prefeitura Municipal de Manaus.

Como se não bastassem a clínica e a dedicação ao ensino ele logo foi atraído pela politica em consequência de sua convivência com nomes importantes da política da época e naturalmente o amor que devotava ao Amazonas. Elegeu-se Deputado Federal no Pleito de 1° de março de 1930, com brilhante discurso que marcou época.

A partir daí a Câmara dos Deputados fora absorvida, cujo golpe estendeu-se por todos os outros legislativos do Brasil, além dessa violência sofreu ainda em Manaus o confisco de seus vencimentos como Professor do Ginásio Amazonense, que a esta altura estava em atraso o que correspondia 12 contos de reis e naturalmente passou por outros fatos desagradáveis.

O Doutor José Francisco de Araújo Lima casou-se com a senhora Branca Machado e Silva, filha do Barão de Machado e Silva, ilustre varão da elite amazonense. Fruto deste casamento trouxeram ao mundo três filhos: Doutor Cláudio de Araújo Lima, Doutor Ruy de Araújo Lima e dona Maria Amelia de Araújo Lima.

Na senda do progresso moral

Texto do Doutor Araújo Lima retirado da revista Rio Negrino quando foi Prefeito de Manaus no período de 1926 a 1929:

(…) O Club Rio Negro vem fazendo uma carreira ascencionalmente evolutiva, atravez das phases sucessivas por que tem traçado, na vida social amazonense, uma trajectoria victoriosa e edificante.

Do athletismo como objectivo máximo – Athletico Rio Negro Club é seu nome de baptismo – vae se encaminhando, progressivamente, às cogitações da cultura do espirito e da moral, alçando-se triumphalmente ás altas espheras do pensamento e do ideal.

Si athletismo, na sua significação cruamente gymnastica, é condemnada na era presente; si costuma ser presente; si costuma ser condemnado precisamente pelos arautos da educação physica; nem de longe se pretenda proscrever da educação da mocidade os exercicios physicos racionais e scientificos, bem comprehendidos e interpretados sabiamente no sentido moderno e avançado da cultura humana.

Banidos os excessos, os abusos, os desatinos, os exclusivismos, restarão as bellas escolas de saude e de força, que os clubs sportivos devem ter a preoccupação de realizar.

Mas a funcção social de em club, na sua objectivação nobre, na sua finalidade essencial, não é, não poderá jamais ser a de se constituir um agente de provocação e de rivalidade nas competições meramente sportivas, no seio de uma sociedade de gente culta e progressista.

Reclame-se-lhe uma actuação persuasiva, influidora de iniciativas elegantes e avançadas, tendentes ao aperfeiçoamento moral do meio, assim na sua representação mundana como na esphera mental.

Far-se-á então sob intuitos apparentemente recreativos, obra de assistencia humanitaria e de phylantropia.

E o Rio Negro já vae, em tangivel realidade, fazendo-a com o seu combate ao jogo e ao alcoolismo.

Centro de sport e de mundanismo, irradiará, pela pratica dessa acção benemerita, uma força de prestigio moral, de autoridade insobrepujavel no nosso meio social.

Excercerá uma acção praticamente moralisadora sobre os costumes, ao mesmo passo que recreará a sociedade, fomentando a alegria, que é um elemento de sanear os espiritos e educará physicamente os moços, desenvolvendo-lhes o vigor sadio, com o objectivo duplo que os integra na saude do espirito e na eurhythmia da vida sã.

Araújo Lima

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Ave rara é fotografada pela primeira vez no Parque Estadual Chandless, no Acre

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Tovacuçu-xodó (Grallaria eludens) foi registrado em fotografia pela primeira vez na história. Foto: Ricardo Plácido/Sema

“Lado dorsal marrom, lado ventral branco com estrias pretas do peito até o crisso”, essas são as características da ave rara conhecida popularmente como “fantasma da Amazônia”, o tovacuçu-xodó (Grallaria eludens), que foi registrada por foto pela primeira vez na história no Acre.

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O feito inédito foi realizado pelo biólogo e especialista em aves da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Ricardo Plácido, no dia 9 de janeiro no habitat do pássaro, o Parque Estadual Chandless, unidade de conservação gerida pela Sema, situada entre os municípios de Manoel Urbano, Sena Madureira e Santa Rosa do Purus.

Leia também: Parque Estadual Chandless, o paraíso da observação de aves no Acre

Até então, não havia nenhuma imagem do pássaro misterioso, uma das espécies menos conhecidas do mundo, fato que tem atraído pesquisadores e biólogos de vários lugares do mundo ao Acre, em expedições guiadas no Parque Chandless, curiosos em conhecer o majestoso canto da ave fantasmagórica.

Com o registro, Ricardo Plácido se tornou o primeiro a fotografar o tovacuçu-xodó e a disponibilizar o registro no site Wiki Aves – A Enciclopédia das Aves do Brasil. O biólogo relata como se deu a captura das primeiras imagens:

O secretário de Estado de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho, destaca a importância das unidades de conservação como instrumento de conhecimento e manutenção da biodiversidade: “As primeiras imagens dessa espécie misteriosa e pouco conhecida no mundo vem reforçar o importante papel da Sema na proteção do patrimônio natural do estado e da biodiversidade de nossas áreas protegidas e também abre espaço para a consolidação da observação de aves no Acre”.

‘Fantasma da Amazônia’

O pássaro, considerado pela comunidade ornitóloga (especialista em aves) como um “fantasma amazônico” é uma das aves pouco conhecidas e estudadas do mundo inteiro. Ela foi descrita para ciência em 1969, no leste do Peru, e os primeiros registros documentados por gravações foram feitos por volta da década de 1990 e anos 2000, também no país.

Em 2015, em Manoel Urbano, cidade do interior do Acre, o pesquisador Fernando Godoy documentou a existência no Brasil, todavia sem qualquer registro das características da ave “enigmática”.

A saga pela descoberta contou com o valioso conhecimento da comunidade que reside no Chandless. Foi graças ao conhecimento dos ribeirinhos Pedro Vasquez e Cristiano Valente que foi possível gravar dois vídeos de 30 segundos e duas fotos.

Ribeirinhos Pedro Vasquez e Cristiano Valente auxiliaram Ricardo na descoberta. Foto: Ricardo Plácido/Sema

Além de todo o aparato com câmera fotográfica, lentes de zoom óptico, binóculos e disfarce de selva, após quatro horas no terceiro dia de busca, dois passos cuidadosos e discretos foi o que possibilitou Ricardo fazer os registros da ave: “Eu não estava conseguindo fazer o registro. As imagens estavam ficando sem foco e ela estava muito escondida. Então, adotamos uma estratégia diferente, com o Vasquez indo por outra direção. Eu falei pra ele: ‘dá dois passinhos pra lá’, e assim ele fez. Foi quando o tovacuçu-xodó afastou mais um pouquinho e consegui fazer o registro”, destacou.

Observação de aves raras amplia potencial turístico do Acre

O Acre tem se tornado um dos roteiros mais procurados da Amazônia para a prática da observação de aves, atividade conhecida em inglês como birdwatching ou birding, um segmento do ecoturismo relacionado à contemplação e fotografia de aves na natureza.

Os observadores de aves (em inglês- birdwatchers ou birders) tornaram-se o maior grupo de observadores da vida silvestre do planeta, sendo o que mais cresce setorialmente no mundo.

Leia também: Experiência turística de observação de aves no Acre é pré-selecionada em projeto da Embratur

O secretário de Estado de Turismo e Empreendedorismo do Acre, Marcelo Messias, destaca que a conquista é muito importante para a ciência, mas também para o turismo no estado, que tem espécies endêmicas, como o tovacuçu-xodó.

O Ministério do Turismo, Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e Polícia Federal (PF) divulgaram dados que revelam que o Acre recebeu 19,8 mil turistas internacionais, registrando um aumento de 15,4% em comparação com 2023. Somente em dezembro, 1.714 estrangeiros visitaram o Acre.

O estudo não detalha destinos nem períodos do ano, mas o ministério destacou o Parque Nacional da Serra do Divisor como um dos principais atrativos do estado.

O biólogo da Sema, Ricardo Plácido, destaca que o Acre é conhecido como um dos estados que abriga diversas espécies ainda desconhecidas ou pouco desbravadas, que ainda não têm registros fotográficos documentados no Brasil.

Ricardo passou quatro horas para conseguir fazer dois registros em vídeo e duas fotos. Foto: Bruno Moraes/Sete

“A maioria dessas espécies ‘especiais’ são endêmicas, raras e de beleza exuberante. O Acre vem se destacando ao longo dos últimos anos como rota que está em evidência para o resto do Brasil e do mundo”, explicou.

O especialista destaca, ainda, que o Acre é um dos roteiros mais cobiçados da Amazônia quando se trata de birdwatching e que os observadores de vida selvagem movimentam diversos setores do turismo por onde passam. “Muitas pessoas vêm falando do Acre e buscando visitar o estado para observar aves. Essa demanda vem crescendo exponencialmente ano a ano”, diz.

Aves endêmicas

O Acre é um território que abriga milhares de espécies diferentes de animais e plantas. Dentre esses animais, as aves ganham notoriedade pela beleza, canto e, em alguns casos, a raridade.

No estado, já foram encontradas mais de 700 espécies e, entre elas, cerca de 35 são endêmicas, que são aves nativas, restritas à região do sudoeste da Amazônia, englobando todo o território acreano.

Parque Chandless

O Parque Estadual Chandless possui 695 mil hectares de área protegida, o equivalente a 4% de todo o território acreano. A unidade de conservação, gerida pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), conta com o importante apoio financeiro do programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa). O parque abriga uma das mais ricas biodiversidades da Amazônia Ocidental com mais de 1.300 espécies, entre aves, mamíferos, insetos e plantas, segundo dados do plano de manejo.

*Com informações da Agência Acre