O Governo Federal lançou o Sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos (SinPatinhas) no dia 17 de abril com o objetivo de ajudar na proteção e bem-estar de pets em território nacional. O chamado “RG Animal” tem como foco o registro de cães e gatos, mas e se os animais da Amazônia também pudessem realizar o cadastro?
O Portal Amazônia buscou por alguns animais da região que já são tão conhecidos que já poderiam ter seu RG:
A onça Mura
Um vídeo registrando a onça-pintada Mura mergulhando no zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus (AM), encantou internautas nas redes sociais. De acordo com as informações do CIGS, Mura é uma fêmea que nasceu em 2022 no zoológico, filha de Pituca e Máximus.
Um jacaré-açu caminhando próximo de casas no bairro Panair, em Porto Velho. Poderia ser assustador para muitos, mas segundo os moradores, o animal frequenta a área há pelo menos 7 anos. É tão conhecido que já recebeu até um nome carinhoso: Dony.
Uma família da zona rural de Jaru, em Rondônia, foi pega de surpresa ao presenciar o nascimento de uma ave com traços de galinha e galinha-d’angola. O animal, apelidado de “galinhola”, chamou a atenção por sua aparência incomum. Apesar da semelhança entre as aves, pesquisadores afirmam que não se trata de um cruzamento entre diferentes espécies, mas sim de aves de diferentes raças.
Nascido em cativeiro no Inpa em fevereiro de 2004, Kinjá é filho da fêmea Boo e do macho Tupy. O charme desse peixe-boi é devido à marcante mancha branca que se estende da barriga, passa pela nadadeira peitoral e vai até o focinho, característica que, segundo especialistas, o torna “o peixe-boi da Amazônia mais bonito”.
O Sistema do Castrado Nacional de Animais Domésticos (SinPatinhas) foi criado para registrar cães e gatos em um banco de dados nacional. Tutores, ONGs e municípios podem cadastrar os animais sob sua responsabilidade e emitir a carteirinha de identificação.
De forma simples, é um “RG Animal” que inclui um QR Code, que pode ser fixado na coleira e permite que, em caso de perda, qualquer pessoa consiga localizar o tutor e ajudar o animal a voltar para casa.
O SinPatinhas é gratuito e o cadastro é voluntário para a maioria das pessoas. Veja todas as regras AQUI.
Praia do Goiabal, em Calçoene, na costa do Amapá. Foto: Rafael Aleixo/Rede Amazônica AP
Quatro unidades de conservação marinhas podem ser criadas no litoral do Amapá. O objetivo, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é proteger as comunidades pesqueiras artesanais ameaçadas pela pesca predatória.
Consultas públicas vão ser realizadas até maio em municípios costeiros e fazem parte de um processo de esclarecimento das propostas para a população local (veja locais e datas no fim desta matéria).
O ICMBio informou que a criação das reservas extrativistas não impede a possível pesquisa sobre petróleo na Margem Equatorial brasileira. De acordo com o instituto, as reservas têm sido alvo de informações distorcidas.
Os limites das reservas Flamã, Bailique, Amapá-Sucuriju e Goiabal ficam entre 130 km e 447 km do Bloco FZA-M-59, na Margem Equatorial.
“É importante dizer que as reservas extrativistas que estão sobre consulta vieram de um processo que começou lá em 2005, quando pescadores artesanais, populações tradicionais, apresentaram ao governo federal uma proposta de criação de uma reserva extrativista marinha”, disse Mauro Pires, presidente do ICMBio.
Proposta de criação de quatro Unidades de Conservação no Amapá. Foto: Reprodução/ICMBio
O estado tem cerca de 24 mil pescadores artesanais que têm na pesca a fonte de sustento. Para o instituto, as quatro propostas abrangem áreas predominantemente sobre o mar, com a inclusão de algumas áreas de manguezais, que são fundamentais para a reprodução e alimentação de peixes. Nessas áreas a atividade extrativista principal é a pesca.
O que dizem os políticos
Sobre o assunto, políticos do Amapá se manifestaram contra a criação das unidades. Na terça-feira (22) o senador Lucas Barreto (PSD-AP) disse, em pronunciamento no plenário do Senado, que a medida pode limitar o uso do território para as atividades de pesca e de exploração de petróleo.
“Já conhecemos essa história. Foi assim que nos tiraram mais de 74% do território estadual em nome de parques nacionais que só existem no papel. Agora, a tentativa se repete com novos rótulos e velhos propósitos. O ICMBio age como sabotador do desenvolvimento do Amapá e ainda tenta negar que as reservas afetem a exploração de petróleo. Trata-se de uma ofensiva articulada para transformar o estado em um museu ambiental: bonito de ver, inútil para quem mora dentro dele”, disse o senador.
Ainda na terça-feira (22) foi realizada na Assembleia Legislativa do Amapá (Alap) uma sessão ordinária sobre as consultas públicas do ICMBio.
“Criar mais uma reserva, nesse contexto, é um obstáculo ao progresso. Isso pode inviabilizar projetos estratégicos como o porto oceânico e transferir nossas oportunidades para outros estados. O Amapá precisa de desenvolvimento, emprego e renda — não de mais restrições”, disse o deputado Delegado Inácio (PDT-AP).
O vice-governador do Amapá, Teles Júnior, criticou a proposta e disse que as unidades podem comprometer projetos estratégicos para o estado.
“Mais de 70% do território amapaense já é área protegida. Criar mais uma reserva pode inviabilizar projetos estruturantes”, disse Teles Júnior durante a sessão.
O que é uma reserva marinha?
As reservas, também chamadas de Resex, são categorias de unidades de conservação criadas em áreas utilizadas por populações extrativistas tradicionais. O objetivo é proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais.
As unidades permitem a organização da pesca artesanal para reduzir conflitos com embarcações industriais e promover o equilíbrio no uso dos recursos. De acordo com o ICMBio, as Resex incentivam o uso sustentável dos recursos pesqueiros e viabilizam a pesca de forma controlada e estruturada, além do potencial para o desenvolvimento do turismo ecológico e comunitário.
Veja as datas das consultas públicas:
30/04 (9h) – Oiapoque: Igreja Evangélica Quadrangular, Av. Karipuna, nº 270, bairro Nova Esperança. 03/05 (9h) – Bailique (zona rural de Macapá): Centro Comunitário de Jaranduba de Bailique, Rio Marinheiro. 05/05 (9h) – Amapá: Ginásio poliesportivo municipal Jânio Teixeira da Silva, s/nº, bairro das Sete Mangueiras. 07/05 (9h) – Calçoene: Escola Estadual Amaro Brasilino de Farias Filho, Rua Eulálio Modesto, bairro das Comunicações.
Mostra de Cinema ‘A Moda é Viver’ exibirá curtas produzidos por estudantes: ASCOM IAMV
A I Mostra de Cinema “A Moda é Viver” será realizada em Caracaraí, no dia 26 de abril, a partir das 18h, na quadra coberta do município, localizada às margens do rio Branco, na avenida principal da cidade. O evento conta com uma ampla programação, iniciando com a animação de DJ, bandas, premiações, homenagens e a exibição de curtas metragens premiados produzidos por cineastas do estado.
O momento mais esperado da festa é a exibição de dois curtas metragens de gênero documentário, produzidos por alunos e alunas da rede pública de ensino de Caracaraí e dirigidos pelo jornalista Éder Santos e pelo coordenador da Mostra, Leandro Monte. Durante as oficinas de formação que ocorreram no âmbito do projeto da Mostra, os alunos sugeriram ideias e criaram roteiros para documentários com base na realidade observada por eles. Eles foram a campo para produzir o material, gravando entrevista e acompanhando a equipe de filmagem durante uma semana intensa.
Mostra de Cinema ‘A Moda é Viver’ exibirá curtas produzidos por estudantes: ASCOM IAMV
Curtas
O primeiro documentário tem como tem título “Andercley”. Conta a vida de um estudante com deficiência motora, com dificuldades de locomoção, coordenação, força muscular e fala. Ele precisa se deslocar por meio de uma cadeira de rodas e, no documentário, relata seus dramas e como faz para superar os desafios diários, enfrentando ruas precárias no período de inverno, a escuridão do bairro em que mora com dois irmãos menores de idade e o preconceito de alguns colegas. O pai de Andercley Costa, senhor Anderson Costa, também está no filme relatando a luta que enfrenta ao criar os três filhos sozinho, após a separação da esposa e depois de “puxar” oito anos e 10 meses de cadeia em regime fechado por um crime cometido em sua juventude.
Mostra de Cinema ‘A Moda é Viver’ exibirá curtas produzidos por estudantes: ASCOM IAMV
O segundo documentário de curta metragem trata da vida da jovem Luciana Paiva. Com o título “Yuri”, nome do bebê da personagem principal, o curta traz entrevista com a protagonista sobre como se deu o processo de superação, após o distanciamento da mãe, o acidente fatal que vitimou seu pai, a gravidez na adolescência e de como fez para continuar estudando, levando seu filho para as aulas. O filme ainda traz entrevistas com o diretor da escola Castelo Branco e com professores que acompanham o drama da estudante e suas conquistas.
Estudantes do município de Caracaraí (RR) receberam, nos meses de março e abril, duas oficinas de formação em audiovisual, sob a coordenação do Instituto A Moda é Viver: diga sim a vida. As oficinas de cinema compõem o projeto da I Mostra de Cinema “A Moda é Viver”.
Mostra de Cinema ‘A Moda é Viver’ exibirá curtas produzidos por estudantes: ASCOM IAMV
A primeira oficina foi de Direção de Cinema, ministrada pelo cineasta Alex Paiva. Os estudantes estudaram roteiros, arte de guiar atores e a direção de equipe técnica. Com a oficina de Produção, ministrada pelo cineasta Éder Santos, os estudantes aprenderam sobre as etapas de um filme, como a pré-produção, produção e pós-produção, observando na prática como se faz o agendamento de filmagens, o gerenciamento de prazos e outras tarefas administrativas.
O evento é viabilizado por meio de recursos da emenda parlamentar do deputado federal Haroldo Catedral, que tem apoiado ações culturais e educacionais em Roraima. A mostra tem o apoio da Associação Roraimense de Cinema e Produção Audiovisual Independente (Arcine), da Secretaria de Estado de Turismo e Cultura (Secult/RR), da Prefeitura Municipal de Caracaraí e da empresa Platô Filmes.
Qualquer pessoa que publica neste estado que conseguiu um pouquinho mais de projeção já percebeu uma verdade dura: não basta ser bom, tem que romper fronteiras, e às vezes nem assim.
Não falo apenas de obstáculos metafóricos, mas de fronteiras mesmo, geográficas, que por vezes colocam um limite no alcance de nossas publicações.
Recentemente, eu e alguns colegas escritores do Coletivo Visagem passamos por uma situação que nos lembrou dessa verdade. Decidimos nos inscrever em um evento de Literatura Fantástica na Capital do Sucesso, São Paulo, e, para a nossa surpresa, fomos convidados a apresentar um pitching sobre um de nossos projetos em conjunto. O negócio é o seguinte: quando você é um artista no Norte e não recebeu “nãos” o suficiente na vida, e de repente alguém da Capital do Sucesso enxerga o que você faz demonstra interesse, expectativas são criadas.
Não muitas, porque mesmo não tendo “nãos” o suficiente, já tive algumas dezenas para entender que o interesse do Sudeste é algo muito pontual, como acabou sendo o caso. Acontece que, para nossa surpresa, provavelmente viram nossa inscrição no evento, o fato de sermos de Manaus e logo tiraram a conclusão que o brasileiro médio, mas que se acha por demais inteligente e culto, costuma tirar: se são de Manaus, logo são indígenas. Isso não nos foi perguntado, tampouco estava descrito no material que enviamos: foi totalmente presumido.
Imagine a decepção deles – e a nossa, quando entendemos isso – quando perceberam que investiram seu precioso interesse em autores de Manaus que sequer eram indígenas?? Considerei isso um duplo desrespeito: por um lado, fomos novamente encaixados em um estereótipo bem familiar a todo amazonense, e por outro, uma ofensa aos próprios povos indígenas, que habitam cada canto deste território e não estão restritos à região Norte, mas são vitimados também por outro estereótipo familiar.
De repente, nosso pitching já não era tão interessante, passou a ter defeitos que não tinha antes, e o que pareceu uma boa oportunidade de romper as fronteiras já mencionadas não passou de mais uma negativa daqueles que guardam os portões da oportunidade. Afinal, não éramos a Amazônia que desenharam em suas mentes, aquela que o estrangeiro espera devorar na emergência da COP-30, daqui a uns meses.
Nossa Amazônia, afinal, não se vende do mesmo jeito.
Mais uma vez, não é como se eu esperasse que isso nos abrisse as portas de uma editora que nos levasse a turnês literárias e sessões de autógrafo pelo Brasil (tenho minhas sérias dúvidas se isso sequer é possível).
Conheço sobre o interesse de baixo o suficiente para entender que não podemos apostar nossas fichas em um reconhecimento que é repetidamente negado. A questão é que a expectativa é inevitável, e deuses sabem que trabalhamos duro demais para nunca achar que um dia seremos finalmente vistos.
Por que a diversidade que é produzida nos estados do Norte ainda não é compreendida? Não é abraçada? Não é reconhecida como plural?
A imagem mostra um grupo diverso de sete escritoras nortistas cujos rostos foram rasurados em alusão ao apagamento comentado no texto, a despeito de sua movimentação e contribuição para a literatura da região. Foto: Jan Santos/Acervo pessoal
Não pretendo responder isso, porque cada negativa é uma resposta que, por mais que seja diferente, brota da mesma intenção.
Mais uma vez, seguimos colonizados, porque o que é daqui mal pode sonhar em chegar lá e prosperar, mas o movimento contrário não só é aceito como incentivado, e deuses nos proíbam de questionar tais iniciativas, quando é o sudestino que vem com sua bandeira e projetos nos ensinar o que é cultura, como fazer cultura, o que temos feito de errado durante todo esse tempo.
Porque o que já fazemos não existe, não sem a benção que vem de baixo.
Quando o movimento é esse, vemos a mesma história se desenrolar: feiras, saraus, festivais e demais eventos que buscam fortalecer a literatura amazônida. Agora, como pretendem fazer isso pagando cachês gordos para escritores de fora e nos obrigando a pagar por um espaço, por uma hora, por atenção, eu realmente não entendo. Como nos fortalecer nos enfraquecendo?
Eu entendo, atrai público celebrar o que passa no horário nobre, e já não tem um Programa da Fátima para servir de plataforma para os pobres artistas do Norte. Eventos precisam de público, e, colonizados, precisamos apenas aceitar que é assim mesmo, tudo pela visibilidade.
O que mata fazer uma curadoria? O que mata ir além da primeira página de resultados do Google?
O que mata não matar um artista?
Caso o mundo não saiba, não paramos de escrever com o Clube da Madrugada, e continuamos escrevendo mesmo quando nossas histórias não são adaptadas em rede nacional.
A imagem mostra um grupo de cinco escritores cujos rostos foram rasurados em alusão ao apagamento comentado no texto, a despeito de sua movimentação e contribuição para a literatura da região. Foto: Jan Santos/Acervo pessoal
A nós, só nos resta isso mesmo, continuar escrevendo. Mulheres amazônidas produzindo suas versões do feminino neste nosso território belo e hostil, LGBTQIA+ contando seus cantares, indígenas conjurando realidades que não exatamente conversam com o “índio” criado por José de Alencar e espalhado nos livros didáticos, pessoas mostrando que são tão diversas quanto as estrelas no céu ou peixes no rio.
Continuamos publicando não porque é agradável ser drenado pelo deleite de quem ainda coloniza, mas porque é pior a dor de quem não expressa. Só quem sufocou uma palavra na garganta sabe a necessidade de gritar em uma página, e poucas amarras doem mais do que essas.
Do Sudeste veio o Movimento Antropofágico, mas isso só vale quando não são eles os devorados.
Mal sabem que é dessa carne que faremos nosso sustento e nos escreveremos na existência, seja por bem ou por mal, da mesma forma que temos feito há décadas.
Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia, né?
Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
O projeto de pesquisa ‘Memória e preservação do cinema e audiovisual em Mato Grosso: acervo, história e cineclubismo’ está em importantes discussões nos Estados Unidos. O trabalho de investigação sobre a memória e história do audiovisual levou pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) a universidades estadunidenses para conhecer mais sobre a Expedição Mato Grosso, realizada pelo Museu da Pensilvânia em 1931. Inclusive, materiais relacionados à expedição já foram compartilhados com o Cineclube Coxiponés.
A professora Letícia Capanema, coordenadora do projeto de pesquisa, destaca que a viagem mostra aspectos fundadores para o cinema.
“O projeto de pesquisa busca realizar investigações acerca da memória e história do cinema e Audiovisual em Mato Grosso. A viagem possibilitou o acesso a materiais de um importante episódio dessa trajetória: a realização da expedição Mato Grosso pelo Museu da Pensilvânia em 1931 que gerou o filme ‘Matto Grosso: the great brazilian wilderness’, filme esse que tem sido considerado o primeiro documentário sonoro da história do cinema”, relata.
A visita técnica ao Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia, o Penn Museum, contou com a participação do professor Diego Baraldi para acessar a coleção de objetos, documentos, fotografias e filmes.
“Ao ter contato com o amplo acervo de objetos, documentos e fotografias relativos a expedição Mato Grosso e ao filme, pudemos compreender, com mais detalhes, o conjunto de circunstâncias e o tipo de olhar trazido pelos expedicionário que se traduzem em imagens e representações de Cuiabá, Cáceres e arredores e, principalmente, dos povos indígenas que interagiram com a expedição”, explica a professora Letícia Capanema.
Entre os primeiros documentários sonoros do cinema, o longa-metragem mescla registros documentais com reencenações e teve papel importante na construção das representações da natureza e das populações indígenas mato-grossenses no exterior, com a participação do diretor de fotografia Floyd Crosby, além da colaboração de exploradores como Sasha Siemel e George Rawls.
O material está sob a guarda do museu vinculado a coleção de Vincenzo Petrullo, antropólogo da Universidade da Pensilvânia que integrou a equipe científica da missão.
Novas descobertas e exibição no Brasil
O projeto de pesquisa também tem como resultado positivo a descoberta de um novo filme produzido na Expedição Mato Grosso.
“A visita nos revelou um segundo filme também produzido pela expedição: ‘The Hoax’ (A farsa, 1932), protagonizado por uma criança boe bororo. Os filmes, fotos e documentos serão objeto de estudo dos pesquisadores envolvidos com a pesquisa que poderão agora fazer análises, a partir de diversas perspectivas, do material encontrado”, conta a professora Letícia Capanema.
A docente conta que cópias dos filmes, documentos e fotos foram compartilhados pelo Museu da Pensilvânia com o Cineclube Coxiponés.
“Nos próximos meses, o Penn Museum nos enviará cópias dos filmes legendados em português em DVD, além de fotos selecionadas e digitalizadas em alta resolução. Estamos prevendo a realização de exibições dos filmes e também uma exposição de fotos e documentos da Expedição Mato Grosso”, finaliza a professora.
A vassoura-de-bruxa foi a responsável por levar municípios do Amapá a pedirem socorro. Foto: divulgação/embrapa
Uma praga agrícola foi a responsável por levar municípios do Amapá a pedirem socorro ao Governo Federal. A infestação da vassoura-de-bruxa, doença que ataca a mandioca e compromete seriamente sua produção, está afetando a principal base de sustento de milhares de famílias no estado e já provocou o reconhecimento federal de situação de emergência em seis municípios.
Diante da gravidade da situação, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), por meio da Defesa Civil Nacional, está atuando para apoiar os produtores rurais afetados. O ministro Waldez Góes recebeu no dia 23 de abril, o prefeito de Calçoene – uma das seis cidades afetadas -, Antônio de Sousa, para discutir soluções conjuntas que ajudem a combater a praga e garantir apoio imediato às populações atingidas.
Com os reconhecimentos concedidos pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), o Governo Federal aguarda o envio dos planos de trabalho por parte dos municípios atingidos para que os recursos possam ser liberados e utilizados nas ações emergenciais.
A praga vassoura-se-bruxa ataca a produção do Amapá. Foto: Lucilia Marcelino
“Além do reconhecimento da emergência e da ajuda humanitária, estamos articulando com o Ministério da Agricultura e a Embrapa para resolver o problema de forma definitiva. Às vezes, a mesma terra que não serve temporariamente para a mandioca pode receber outras culturas, e, depois de curada, volta-se a plantar mandioca naquele solo. Estamos discutindo várias alternativas para solucionar o problema”, explicou o ministro Waldez Góes.
Plantio de mandioca onde a praga não está presente. Foto: agência Pará
O prefeito de Calçoene, Antonio de Sousa, destacou que a situação é crítica especialmente em distritos como Canoas, onde a farinha é o principal meio de subsistência. “A sobrevivência ali do nosso agricultor é a farinha. Já temos decreto municipal, estadual e, agora, com a parceria do Governo Federal, tenho certeza de que vamos achar uma saída para atender as famílias e garantir a sobrevivência desses agricultores,” destacou.
Entre as primeiras ações previstas está o repasse de recursos para a aquisição de alimentos para as famílias. “A praga afeta diretamente a produção de mandioca, comprometendo a segurança alimentar e econômica de milhares de famílias. A distribuição de alimentos busca atender às necessidades básicas das populações mais vulneráveis durante esse período de crise,” destacou o coordenador-geral de Gerenciamento Operacional da Sedec, Leno Queiroz
Fruto infectado pela praga vassoura-de-bruxa — Foto: Ana Lee
A “vassoura-de-bruxa” é uma doença fúngica que afeta principalmente as plantas de cacau, mas também pode afetar outras culturas. A doença é causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa e é caracterizada por deformações nos galhos e frutos das plantas, que ficam com aspecto semelhante a vassouras velhas, daí o nome da doença.
Entre os desastres reconhecidos pelo Governo Federal, além de chuvas e secas prolongadas, estão também as doenças infecciosas, como surtos de dengue, chikungunya e zika. Quando uma cidade enfrenta um aumento expressivo de casos, sobrecarregando o sistema de saúde, o reconhecimento federal permite a liberação de recursos para combate ao vetor, atendimento médico e ampliação de medidas preventivas. Um caso recente envolve a cidade amapaense de Porto Grande, que obteve reconhecimento de situação de emergência em 11 de novembro de 2024, devido a infecção parasitária em peixes do rio Araguari.
Folhas secas atingidas pela praga vassoura-de-bruxa — Foto: Ana Lee
Também são classificadas como desastres pelo sistema federal, os deslizamentos de terra, comuns em regiões de encostas e áreas urbanizadas. Esses eventos podem comprometer moradias e infraestrutura, exigindo resposta rápida das autoridades. Queimadas e incêndios florestais também podem motivar a solicitação de reconhecimento de emergência, principalmente em períodos de seca severa, quando há aumento do risco ambiental.
A solicitação de reconhecimento segue o mesmo procedimento para todos os tipos de desastre. O ente federativo deve acessar o S2iD, preencher o Formulário de Informações do Desastre (FIDE) e anexar os documentos necessários. Após análise da SEDEC, o reconhecimento federal pode ser concedido, permitindo o acesso a recursos emergenciais para socorro, assistência humanitária e recuperação.
O reconhecimento de situação de emergência ou estado de calamidade pública é um instrumento fundamental para garantir apoio federal a estados e municípios diante de diferentes tipos de desastres. Com o uso correto do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), gestores locais podem obter auxílio de forma ágil, minimizando impactos à população e agilizando a recuperação das áreas afetadas.
*Com informações da Assessoria de Comunicação Social do MIDR
Uma pesquisa realizada pelo Departamento de Arqueologia (DArq) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) foi destaque em reportagem especial publicada pelo jornal norte-americano The Washington Post.
A reportagem ‘Cientistas estão usando ‘raio-X’ na Amazônia para desvendar uma história humana perdida’, publicada dia 10 de abril, explora as mais recentes descobertas arqueológicas na Amazônia brasileira com o uso da tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging), um laser que tem permitido a identificação de geoglifos, estruturas complexas e assentamentos milenares ocultos sob a densa vegetação amazônica.
Essas descobertas são fruto de um esforço coletivo que envolve, além da UNIR, várias universidades brasileiras e centros de pesquisa, mas também, de maneira fundamental, os pesquisadores e pesquisadoras do Quilombo do Forte Príncipe da Beira, em Costa Marques (RO).
“A participação da UNIR no estudo, por meio do DArq e a partir do projeto de pesquisa Arqueologia com a comunidade quilombola do Forte Príncipe da Beira, tem sido fundamental nesse processo, evidenciando o papel estratégico da ciência produzida na Amazônia e por amazônidas”, ressalta o chefe do Departamento de Arqueologia, professor Carlos Zimpel.
Segundo o docente, o reconhecimento internacional reforça também o compromisso da UNIR com a valorização do patrimônio cultural, histórico e arqueológico da região, e fortalece a luta por uma ciência engajada, crítica e comprometida com os povos e territórios amazônicos. “A ciência amazônica está no centro do debate mundial — e Rondônia está presente!”, conclui o professor.
Foto: Reprodução/Grupo de Pesquisa de Estudos da Biodiversidade de Plantas Superiores (EBPS)
Cádmio, Cromo, Cobre, Zinco e Arsênio. Esses são alguns dos metais pesados considerados tóxicos à saúde humana e ao meio ambiente, mas que estão presentes em solos que foram degradados pela mineração e por lixões na Amazônia.
Diante dessa problemática, alunos e professores do Grupo de Pesquisa de Estudos da Biodiversidade de Plantas Superiores (EBPS), da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) vem trabalhando na busca por soluções.
“O objetivo principal é restabelecer essas áreas degradadas a partir de uma atuação que envolve duas frentes de trabalho, que são o uso de biocarvão para recuperar o solo e a utilização de plantas fitorremediadoras para reflorestá-lo”, explica o coordenador do grupo, professor Cândido Ferreira Neto.
Biocarvão
O caroço do açaí é um poluente ambiental que ainda não possui uma destinação adequada na região amazônica. Uma alternativa para a reutilização desse resíduo é o biocarvão, também chamado de biochar. A partir de um processo chamado pirólise, em que há a degradação térmica do caroço do açaí em altas temperaturas e na ausência de oxigênio, os pesquisadores conseguiram chegar à temperatura ideal para que o caroço não vire carvão e ainda mantenha suas propriedades físico-químicas, necessárias para a nutrição do solo.
Segundo o coordenador do grupo, quando aplicado no solo, o biochar do caroço do açaí tem a capacidade de reter os metais pesados, absorvendo-os e corrigindo o ph do solo, além de fornecer nutrientes.
“O biochar também retém carbono no solo, evitando que o gás carbônico alcance a atmosfera, o que contribui para evitar mais danos ao efeito estufa”, diz Cândido Ferreira.
Aí é a vez das plantas. Para que ocorra o reflorestamento é preciso que as plantas utilizadas também suportem a quantidade de elementos químicos presentes no solo contaminado. Para isso, a equipe também está testando espécies da Amazônia com potencial fitorremediador, ou seja, plantas com capacidade de tirar esse metal do solo, acumulando-os na raiz, tronco ou folhas, como explica o coordenador.
Três plantas testadas já apresentaram resultados positivos, com crescimento combinado ao biocarvão: Ucuuba, Mogno e Palheteira. As plantas de mogno foram expostas a níveis tóxicos de cobre, enquanto que as de ucuuba foram expostas a doses de cádmio.
“O mogno brasileiro apresentou alto índice de tolerância em todas as concentrações de cobre aplicadas, da mesma forma a ucuúba, que se mostrou tolerante ao cádmio, principalmente nas altas dosagens”, disse o pesquisador. Já a Palheteira apresentou tolerância somente a doses de cádmio e deve passar por testes com outros metais.
Fotos: Reprodução/Grupo de Pesquisa de Estudos da Biodiversidade de Plantas Superiores (EBPS)
Para identificar o potencial fitorremediador da espécie foi feito um levantamento inicial de quais seriam essas plantas, onde foram avaliados: a tolerância do vegetal em ambientes tóxicos, a quantidade de metal que a espécie concentra em seus órgãos e a capacidade da planta em translocar o metal da raiz para parte aérea.
“Existem várias plantas com potencial fitorremediador. Mas o tempo que essa planta fica exposta a esses metais e a concentração desses elementos, podem fazer com que essa planta morra. É justamente o que não queremos”, diz o coordenador.
“O biocarvão retém o metal e depois a planta absorve e retira esse metal do solo. Como o biocarvão retém e adsorve esses metais, sua disponibilidade no solo e para a planta fica reduzida. Isso significa que a planta fitorremediadora vai absorver uma quantidade menor de metal, impactando diretamente no melhor desenvolvimento dessa planta”, diz Cândido Ferreira.
Resultado também é observado na agricultura
Essa combinação tem mostrado resultados promissores, não só para a recuperação de solos degradados, mas também para melhorar a produção agrícola na região.
“Percebemos que, quando se coloca o biocarvão a uma concentração ideal no solo, isso melhora a produção e o desenvolvimento da cultura”, explica.
Segundo o pesquisador, os solos da região amazônica são ácidos e pobres de nutrientes. Por isso é comum o uso da calagem, procedimento feito pelos agricultores para aumentar o ph do solo. “Mas com o biocarvão isso já é corrigido. O biocarvão libera macro e micronutrientes ao solo. Aos poucos ele libera nitrogênio, fósforo, magnésio, potássio, enxofre, essenciais para a planta se desenvolver. Ao longo do tempo é possível que não seja preciso adubar esse solo, o que vai impactar na renda do produtor, que não vai precisar gastar com calagem e produtos”, diz.
A equipe realizou testes com milho e jambú, e os resultados superaram as expectativas. “O biocarvão não só melhorou o ph ácido do solo, mas também forneceu nutrientes a esse solo e melhorou a produção e o desenvolvimento daquela cultura”, explica. “O Biocarvão também é capaz de reter agua no solo, em períodos de estiagem ele consegue reter essa agua e ajudar a manter a umidade do solo para a planta”, diz.
Próximos passos
Os próximos passos da pesquisa incluem a testagem de novas espécies de plantas com potencial fitorremediador, como andira-uxi, pau pretinho e tatapiririca. O objetivo é avaliar o potencial fitorremediador de cada uma dessas espécies para as áreas degradadas. Já a produção de biocarvão está sendo testada também com resíduos de outros materiais, como o ouriço e a casca da castanha, resíduos de poda e a casca do cacau. Nesse caso o foco é na produção vegetal, como a produção de mudas de frutíferas e espécies florestais e na produção de hortaliças. Eles ja estão sendo testados em culturas agrícolas, como o feijão e milho.
O projeto existe desde 2023, e conta com financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa).
Terceiro elemento mais abundante na crosta terrestre, o alumínio pode ser encontrado em uma variedade de produtos e objetos utilizados pelos seres humanos – como utensílios de cozinha, agentes culinários antiaglomerantes, agentes emulsificantes e desodorantes.
Não obstante sua ampla distribuição e uso, o alumínio não possui um papel biológico definido, não é biodegradável e, quando biodisponível, pode ter efeitos tóxicos em organismos aquáticos.
Neste sentido, os nematoides (que são vermes invertebrados amplamente distribuídos em ambientes aquáticos e terrestres) podem ser utilizados como biomonitores para avaliar e compreender os impactos do alumínio no ambiente.
A pesquisa teve orientação das professoras Virag Venekey e Lílian Lund Amado, que coassinam a publicação. Houve ainda apoio financeiro do Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC).
“Foram realizados experimentos em laboratório com juvenis/filhotes das três espécies citadas com concentrações de alumínio que já foram registradas em ambientes aquáticos na Amazônia para avaliar o impacto dessas quantidades na sobrevivência (efeito letal), no crescimento, na fertilidade e no sucesso reprodutivo (efeitos subletais)”, explica a professora Virag Venekey.
Os resultados revelaram que C. tropicalis foi a espécie mais sensível à exposição ao alumínio, sofrendo efeitos subletais mesmo em concentrações inferiores às consideradas ambientalmente relevantes. A espécie apresentou redução significativa no sucesso reprodutivo e foi a única, entre as analisadas, a ter o crescimento afetado pela presença do metal.
Segundo Erivaldo Santos, alterações em parâmetros importantes, como reprodução e crescimento, podem levar à chamada “morte ecológica” da espécie – quando o organismo deixa de cumprir seu papel ecológico, o que pode resultar na diminuição populacional ou até mesmo na extinção local da espécie.
Inovação
O estudo representa um marco na produção científica da UFPA, pois se trata do primeiro estudo a utilizar C. tropicalis como organismo-teste em bioensaios toxicológicos. Os resultados evidenciam a importância do uso de espécies amazônicas em avaliações de risco ecológico, uma vez que organismos nativos podem reagir de maneiras distintas aos poluentes, em comparação com modelos importados, como é o caso do C. elegans.
Para Erivaldo Santos, padronizar o uso de C. tropicalis como organismo-teste em pesquisas ecotoxicológicas na Amazônia favorece uma avaliação mais realista da toxicidade de poluentes, além de ajudar a evitar o risco de introdução acidental de espécies exóticas em ecossistemas tropicais.
Aldeia Ulupwene, ‘ilha’ banhada pelos rios Ulupwene e Tamitatoala. Foto: Piratá Waurá/ InfoAmazonia
A construção da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) deve impactar 24 terras indígenas na Amazônia Legal, sendo 23 em Mato Grosso e uma em Rondônia. Um levantamento da InfoAmazonia revela ainda que a obra atravessará 105 nascentes e afluentes de três importantes bacias hidrográficas brasileiras: Xingu, Tocantins-Araguaia e Tapajós e pode contaminar e destruir cursos d’água fundamentais para a região.
Iniciada em 2022, a ferrovia foi orçada em R$ 7,2 bilhões, com previsão de conclusão em 2027. O projeto, que está em fase de estudos para licenciamento socioambientais, prevê uma área de influência direta (região onde os impactos de um empreendimento ou atividade são mais intensos e imediatos, afetando diretamente o meio ambiente e as comunidades locais) de 50 quilômetros, na qual comunidades indígenas poderão sofrer com desmatamento, erosão e mudanças nos fluxos hídricos.
A análise da reportagem se baseou no Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) da FICO, disponibilizado pela Infra.SA, empresa pública brasileira vinculada ao Ministério do Transportes e responsável pela fiscalização dos trabalhos realizados pelo setor privado na ferrovia. Também foram analisados os dados de localização das TIs, disponibilizados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com sobreposição ao traçado da ferrovia. O EIA/RIMA é um estudo que avalia os impactos ambientais de uma determinada obra. O EIA é técnico, e o RIMA apresenta as conclusões de forma acessível ao público.
A InfoAmazonia identificou que seis dessas terras – Manoki, Irantxe, Utiariti, Tirecatinga, Nambikwara e Vale do Guaporé – estão a menos de 10 quilômetros da linha da ferrovia, tornando-se mais vulneráveis aos impactos da obra e à pressão da expansão agrícola. O traçado passa pelos municípios de Água Boa, Lucas do Rio Verde, Gaúcha do Norte, Canarana, Paranatinga e outros com economias ligadas ao agronegócio.
A FICO terá um trajeto de 1.641 km, cortando o Mato Grosso de leste a oeste, dividido em três trechos: 383 km entre Mara Rosa (GO) e Água Boa (MT), 505 km de Água Boa a Lucas do Rio Verde (MT) e 646 km entre Lucas do Rio Verde (MT) e Vilhena (RO). Parte do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a ferrovia servirá para escoar a produção agrícola e incentivar a exploração mineral no Cerrado e na Amazônia, conforme informações da Infra S.A.
Além disso, a FICO se insere em um conjunto de obras que fazem parte do projeto da Ferrovia Transcontinental, também da Infra S.A. Planejada para ter cerca de 4.400 km de extensão no território brasileiro, ela conectará o Porto de Açu, no Rio de Janeiro, a Boqueirão da Esperança, no Acre. Esse projeto é parte de uma proposta maior para criar uma ligação ferroviária entre os oceanos Atlântico, no Brasil, e Pacífico, no Peru. A FICO, especificamente, conectaria as BRs 158 e 163.
Comunidade indígena impactada
Entre os 105 corpos d’água que devem ser impactados pela obra, a reportagem mapeou que três deles estão na nascente do rio Xingu: o rio Sete de Setembro, o rio Batovi e o rio Curisevo. A análise identificou que a obra passa fora da Terra Indígena do Xingu, mas atravessa as nascentes dos rios que correm na região, o que pode impactar na qualidade e na quantidade de água no território, com poluição e assoreamento em razão da obra.
Na aldeia Ulupuwene, localizada na Terra Indígena Batovi, dentro do Parque Indígena do Xingu (TIX), a comunidade, que depende dos rios para alimentação, higiene e lazer, tem o apoio da Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) em um Grupo de Trabalho de Componente Indígena. Esse grupo monitora os impactos da FICO e da BR-242 no território, acompanhando os estudos, realizando reuniões com os responsáveis pelas obras e mantendo contato com órgãos do governo federal.
A comunidade é banhada pelas nascentes da bacia do Xingu: o rio Tamitatoala (ou Batovi) e o rio Ulupuwene (também chamado de Bakairi), que estão entre os 105 corpos d’água que devem ser impactados. Localizada na ponta oeste da TIX, na divisa entre o território do Xingu e fazendas produtoras de soja e milho, a comunidade está vulnerável a tudo o que ocorre fora da área demarcada.
Professor na aldeia Ulupuwene, Hukai Waurá é formado em Ciências da Cultura pela Universidade Federal do Goiás, e membro do Grupo de Trabalho de Componente Indígena da ATIX. Ele conta que a região tem sofrido pressão do agronegócio, o que pode piorar com a chegada da FICO.
“Nas cabeceiras dos dois rios [que correm na aldeia] está tudo desmatado pelos fazendeiros. A lavoura está colada nos rios. A gente entende que os proprietários jogam os venenos na soja e cai no rio Bakairi e Tamitatoala, que é onde a gente se alimenta. Acredito que a gente está consumindo com os venenos [agrotóxicos], então isso nos deixa preocupados”, diz Hukai.
Hukai Waurá alerta que os efeitos da FICO serão permanentes, e que por isso o governo federal deve estar preparado para atender as demandas dos povos indígenas Foto: Piratá Waurá/InfoAmazonia
Para evitar os avanços da FICO, os indígenas cobram do governo federal um relatório que liste os reais impactos que a obra vai causar na região da Ulupuwene.
“Em 2024, o governo não só atendeu, como mandou os pesquisadores que andaram nas aldeias conversando com as comunidades. Até agora não apresentaram relatório. Eles têm que apresentar relatório para a gente aprovar ou não. Temos que saber qual impacto vamos sofrer, como é que a gente vai sobreviver com isso daqui mais futuramente”, explica Hukai.
Em 1985, a cobertura florestal em Mato Grosso — o principal estado impactado pela FICO — era de 80.239.031 hectares. Em 2023, essa área foi reduzida em 31%, caindo para 55.230.962 hectares, conforme dados da Plataforma MapBiomas. O uso da terra para agropecuária e lavoura no estado também aumentou drasticamente, passando de 9.747.376 hectares para 34.715.252 hectares no mesmo período, um crescimento superior a 256%.
Entre 1985 e 2023, as nascentes da bacia do rio Xingu perderam 46% de sua superfície de água. Em 1985, o volume de água na região era de 117 mil hectares, mas, em 2024, era de cerca de 62.735 hectares: uma perda de 54.376 hectares, segundo dados do MapBiomas. Isso significa que, em 38 anos, as áreas úmidas (rios, lagos e outras fontes d’água) perderam quase metade de seu território.
Um dos primeiros moradores e liderança da aldeia Ulupuwene, Yaponuma Waurá diz: “Como estamos na fronteira da área indígena, a gente fica preocupado. Ouvi a história de que vão trazer a BR-242 e a ferrovia, que vão trazer problemas para nós. Por que esses projetos causam problema? Isso vai acelerar bastante o desmatamento para o nosso território e aumentar as áreas urbanas nos arredores”.
Para a safra 2023/2024, Mato Grosso plantou mais de 11 milhões de hectares de soja, consolidando-se como o maior produtor nacional, com 25% da produção do país, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Nascentes vulneráveis há anos
No final dos anos 1990, a bióloga Rosely Alves Sanches, pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), foi convidada pelo Instituto Socioambiental (ISA) para iniciar um diálogo entre os povos indígenas do Xingu e as comunidades ao redor, em cidades de Mato Grosso como Canarana, Querência e Gaúcha do Norte. As comunidades indígenas estavam preocupadas com a mudança na qualidade das nascentes e a diminuição dos peixes.
“O ISA tinha um trabalho muito focado para dentro do território indígena, mas havia uma demanda por parte de lideranças indígenas naquela época com a questão das nascentes do Xingu, que ficaram fora durante todo processo de demarcação do Parque Indigena do Xingu”, explicou a pesquisadora.
Assim, começou no início dos anos 2000 o projeto Yikatu Xingu, que consistia na construção de um diálogo com o objetivo de proteção das nascentes. Além de reunir diferentes grupos, como governos municipais, pequenos e grandes agricultores, lideranças indígenas e população local para discutir ações, o projeto resultou na criação da organização Sementes do Xingu, que reúne coletores de sementes da região que revendem os produtos da natureza para reflorestamento local. Mas os problemas não deixaram de existir.
Sanches também estudou as nascentes do Xingu e sua importância ambiental. Ela identificou uma floresta adaptada ao clima, com raízes profundas que buscam água no subterrâneo. A região, entre a Amazônia e o Cerrado, possui áreas úmidas essenciais para a produção hídrica e pesqueira, mas essas áreas vêm se perdendo fora do Parque Indígena do Xingu.
Em 2022, o Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema-MT) aprovou a drenagem de áreas úmidas para outros usos, gerando críticas por comprometer a produção de água e peixes. “Começou a me chamar atenção que dentro do Parque Xingu, você vê as lagoas, os lagos. Mas fora do Xingu hoje, atualmente, a gente tem observado que cada vez mais essas áreas estão desaparecendo”, alerta.
O rio Ulupwene corre dentro da aldeia e, para os Wauja, é mercado, banho, brincadeira, vida. O povo teme que o rio seque com a passagem da FICO Foto: Piratá Waurá / InfoAmazonia
O cacique e pajé da aldeia Ulupuwene, Elewoká Waurá, foi morar na Terra Indígena Batovi em 2010, junto a seus irmãos. Nascido na aldeia Piyulaga, na região central do território Xingu, ele decidiu se mudar quando percebeu que a região começou a ser ocupada por não indígenas para fins de pesca, caça e outros. Sua preocupação é com o uso de agrotóxicos em lavouras próximas às nascentes, mas também com a proteção da mata. No trajeto antes de chegar ao Parque do Xingu, está localizada uma área de cerca de 10 km que pertence à reserva legal (área dentro de uma propriedade rural que deve ser preservada com vegetação nativa, garantindo o equilíbrio ecológico. Seu percentual varia conforme o bioma, conforme previsto no Código Florestal) de uma fazenda. Elewoká quer que o trecho seja preservado para que o desmatamento não se aproxime mais de seu povo.
É da floresta, como conta o cacique, que vem o material com que o povo Wauja faz suas casas e os remédios que ele, como pajé, usará na cura dos pacientes, a comida e os trabalhos de arte, como a cerâmica e a tinta para o grafismo.
“Aqui o ar é diferente. É o ar limpo. Quando você sai dentro do território para fora, a respiração que você sente lá é diferente: você sente o cheiro do veneno. Estou muito preocupado com o futuro, não sei como vai ser daqui mais para frente. Estou aconselhando os jovens que continuem nesta luta que eu estou fazendo e para não abrir mão para os não indígenas destruir nossa riqueza. É como eu falei: daqui a gente tira nossa alegria. Se não tiver natureza, a gente não tem liberdade de alegria”, conta o cacique e pajé da aldeia Ulupuwene, Elewoká Waurá.
Falando em Aruak, sua língua nativa, o cacique Elewoká Waurá alertou sobre a vulnerabilidade da aldeia Ulupwene diante da expansão da ocupação não indígena na região. Foto: Piratá Waurá / InfoAmazonia
Infra S.A
Procurada pela reportagem, a Infra S.A, responsável pela ferrovia, respondeu por meio de assessoria de imprensa que o licenciamento prévio para toda a extensão da FICO foi obtido junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), com base em estudos de impacto na área de influência do empreendimento. O Instituto foi procurado, mas não respondeu à reportagem
“Todos os cursos d’água localizados na área de influência da ferrovia foram objeto de estudos técnicos que são avaliados pelos órgãos ambientais competentes para determinar, na fase de instalação do empreendimento, as medidas pertinentes de proteção e monitoramento. Dentre os programas comumente executados na fase de instalação, estão ações de supervisão ambiental das obras, monitoramento de efluentes e recursos hídricos, processos erosivos e ações para recuperação de áreas degradadas e de matas ciliares”, afirmam em resposta.
Afirmam ainda que “para as comunidades tradicionais situadas na área de influência do empreendimento, são elaborados estudos específicos que avaliam os eventuais impactos e medidas para mitigação e/ou compensação. No caso de povos indígenas, o trabalho é supervisionado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e no caso de comunidades quilombolas, as atividades são acompanhadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Esta reportagem foi produzida por jornalistas bolsistas da segunda edição do curso de Jornalismo Investigativo Ambiental e Geojornalismo, oferecido com o apoio da Earth Journalism Network da Internews, e é parte do eixo educacional da InfoAmazonia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Erika Artmann