Plantações de cafés robustas são mais comuns na Amazônia devido ao clima. Foto: Paula Labòissiera/ Agência Brasil
A cafeicultura tem ganhado destaque na Amazônia, principalmente em estados como Rondônia, que desponta como um dos maiores produtores de café da região. Entre as espécies cultivadas, duas se sobressaem: o café arábica (Coffea arabica) e o café robusta (Coffea canephora), cada uma com características distintas de cultivo, sabor e uso comercial.
O café arábica representa cerca de 70% da produção global e é tradicionalmente cultivado em altitudes mais elevadas, muitas vezes como “café de sombra”, adaptando-se bem a climas mais amenos. Possui sabor mais suave e complexo, com notas aromáticas que variam entre chocolate, caramelo, frutas cítricas e flores, dependendo do processo de torrefação e da região onde é cultivado. Além disso, contém menor teor de cafeína em comparação ao robusta.
Café Robusta Amazônico. Foto: Armando Júnior
Já o café robusta responde por 30% da produção mundial e é mais resistente a pragas, doenças e variações climáticas. Sua principal variedade cultivada no Brasil é o conilon, e ele se desenvolve bem em altitudes mais baixas. Seu sabor é mais forte, amargo e marcante, e seu teor de cafeína é superior ao do arábica, o que o torna ideal para cafés solúveis e blends industriais. Na Amazônia, especialmente em Rondônia, o robusta tem se destacado e ganhado reconhecimento nacional e internacional.
Rondônia é considerada hoje o maior estado produtor de café da Amazônia e já recebeu diversos prêmios da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), como no concurso Brasil Artesanal 2024, em Brasília, onde cafés especiais torrados da categoria canéfora conquistaram os cinco primeiros lugares. Esse reconhecimento fortaleceu a identidade dos “Robustas Amazônicos”, uma denominação usada para o café resultante do cruzamento de cultivares de conilon e robusta.
A qualidade e a sustentabilidade do café robusta produzido em Rondônia levaram ao seu reconhecimento como Patrimônio Cultural e Imaterial do estado, por meio da Lei nº 5.722, sancionada em janeiro de 2024. A legislação reforça a importância histórica e econômica do café para o estado e reconhece o trabalho de centenas de produtores familiares que atuam na produção do grão há gerações.
A cafeicultura tem ganhado destaque na Amazônia, principalmente em estados como Rondônia. Foto: Divulgação
Os Robustas Amazônicos também receberam a primeira Indicação Geográfica com Denominação de Origem (DO) para café canéfora sustentável, destacando o perfil sensorial diferenciado da bebida, com notas de chocolate, madeira, frutas, especiarias e ervas. A qualidade do café também é resultado de investimentos em melhoramento genético, realizados desde 2003 pela Embrapa Rondônia em parceria com produtores, universidades e outras instituições de pesquisa.
De acordo com o pesquisador Marcelo Curitiba, da Embrapa Café, os cafés clonais da Amazônia são frutos de cruzamentos naturais feitos por agricultores da região, que aprenderam técnicas de clonagem e selecionaram plantas com alta produtividade. Essas plantas passaram a ser usadas na produção de mudas clonais, renovando as lavouras e modernizando a cafeicultura regional nos últimos anos.
“Esses cafeeiros híbridos reúnem características predominantes do café robusta e tiveram origem em processos de cruzamento natural, realizados por agricultores de diferentes localidades da Amazônia, que aprenderam a técnica de clonagem e passaram a selecionar plantas com elevado potencial de produção, nas lavouras comerciais. As plantas obtidas foram utilizadas como matrizes na produção de mudas para formação de novos plantios e serviram como base genética para renovação do parque cafeeiro da região, nos últimos dez anos”, explica o pesquisador.
Mudas de Robustas Amazonicos. Foto: Aliny Melo
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) aponta Rondônia entre os cinco maiores produtores de café do Brasil, ao lado de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Bahia. Atualmente, a cafeicultura amazônica é considerada uma atividade sustentável e estratégica para o desenvolvimento rural, e seu avanço se reflete na criação de viveiros credenciados para a multiplicação de mudas clonais com qualidade genética e sanitária em larga escala.
Além disso, há um esforço coordenado para expandir a cultura dos Robustas Amazônicos para outros estados da Amazônia Legal, como Acre, Amazonas, Roraima, Amapá e Mato Grosso. Os estudos em andamento buscam identificar os clones mais adaptados a cada região, promovendo a diversidade genética e a adaptação local.
Vitrine do Café Amazônico
A participação do café amazônico em feiras e eventos internacionais, como o Exporta Mais Brasil, também tem sido um fator decisivo para ampliar o mercado consumidor. Empresários de diversos países já demonstram interesse no café robusta da Amazônia, impulsionando a exportação e incentivando práticas sustentáveis.
O café, além de seu papel cultural e econômico, consolida-se como uma das principais cadeias produtivas em expansão na Amazônia, refletindo a capacidade da região de aliar tradição, inovação e sustentabilidade.
Para onde forem dois fenômenos do Brasil profundo, o corte de florestas nativas e o crescimento da agropecuária, as emissões nacionais de gases de estufa (GEE) também irão. O país tem um perfil bem diferente em relação às grandes economias que mais liberam na atmosfera dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O) e gases fluorados (como HFC, PFC, SF₆ e NF₃), que representam a quase totalidade dos GEE produzidos no planeta. Esses compostos retêm calor na atmosfera, potencializam o aquecimento global e exercem o papel de combustível das mudanças climáticas.
Segundo o mais recente Inventário Nacional de Emissões e Remoções de GEE, divulgado em dezembro de 2024 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), 39,5% dos GEE emitidos pelo Brasil são em grande parte oriundos da conversão de áreas de vegetação nativa – basicamente florestas – em campos, pastagens e terras para lavoura. Outros 30,5% advêm da agropecuária, sobretudo da criação de bovinos (quase 20% do total) e do manejo de solos (7%).
Ainda de acordo com o documento, o setor de energia, no qual são contabilizadas as emissões de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão), responde por 20,5%. As duas grandes categorias que menos liberam gases de efeito estufa são a indústria (5% do total) e a disposição e o tratamento de resíduos sólidos e líquidos (4,5%). As porcentagens se referem a 2022, o último ano coberto pela série histórica do inventário.
Um peso tão elevado do setor de uso da terra, mudança do uso da terra e florestas – resumido na sigla LULUCF, que engloba as emissões decorrentes do desmatamento – e da agropecuária dificilmente será encontrado no balanço de carbono de nações de porte semelhante. Na Indonésia, país com a segunda maior floresta tropical do planeta e cuja economia representa quase dois terços da brasileira, a categoria energia responde por 53% das emissões (a agropecuária por quase 10% do total e o LULUCF por pouco mais de 22%). Entre os países que mais liberam GEE, a área de energia é responsável por aproximadamente 75% das emissões, quase quatro vezes mais do que o Brasil em termos proporcionais.
“A taxa de desmatamento na Amazônia tem grande influência no perfil e no tamanho das emissões do Brasil”, diz o economista Régis Rathmann, supervisor do inventário nacional. O desflorestamento modula o viés de alta (ou de baixa) das emissões nacionais. “Como nossa matriz energética é limpa, devido ao uso de biocombustíveis nos automóveis e de hidrelétricas e outras fontes renováveis para gerar eletricidade, o peso das emissões do setor de energia é proporcionalmente menor aqui do que em outros países.”
Gráfico desenvolvido por Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP
O peso do Brasil nas emissões globais varia em função do ano e da metodologia de análise. O país quase sempre aparece na sexta posição entre os maiores geradores de GEE, flutuando, às vezes, para a quinta ou a sétima colocação. Sua contribuição representa entre 2% e 3% do total de gases de efeito estufa contabilizados em um período. Segundo o Emissions Gap Report, divulgado no ano passado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o Brasil foi o sexto maior emissor de GEE em 2023, atrás de China (30% do total), Estados Unidos (11%), Índia (8%), União Europeia (6%) e Rússia (5%).
As emissões líquidas de GEE no Brasil em 2022 atingiram pouco mais de 2 bilhões de toneladas (t) de dióxido de carbono equivalente (CO₂eq), uma leve queda em relação ao ano anterior. Elas representam o total de GEE gerado por todos os setores da economia nacional (emissões brutas) menos a remoção de CO₂ atmosférico atribuída à fixação de carbono, por exemplo, via fotossíntese, na biomassa da vegetação preservada em unidades de conservação e terras indígenas.
Gráfico desenvolvido por Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP
Para possibilitar a obtenção de um único valor que expresse a soma de todas as emissões dos principais gases de efeito estufa, os inventários nacionais adotam como unidade de medida o CO₂eq. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) preconiza o emprego preferencial do índice GWP-100 para calcular a equivalência entre os gases. Com o uso do GWP-100, a quantidade emitida de metano, óxido nitroso e gases fluorados é transformada em seu equivalente de dióxido de carbono.
“A conversão é feita de acordo com a vida média e o potencial que cada gás tem de aquecer a atmosfera por um período de 100 anos em relação ao CO₂”, explica o engenheiro químico David Tsai, da organização não governamental Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).
Ele coordena o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg), projeto da rede de organizações não governamentais Observatório do Clima (OC). O Seeg é uma iniciativa da sociedade civil que calcula o balanço de carbono do país, seguindo uma metodologia similar à adotada pelo inventário nacional. O total das emissões líquidas do Brasil obtido pelo inventário nacional e pelo Seeg costuma ser bem parecido e refletir as mesmas tendências de subida ou queda na produção de GEE.
Para 2022, o Seeg chegou a um total de emissões líquidas de quase 2 bilhões de t de CO₂eq, ligeiramente abaixo do calculado pelo inventário nacional. Os dados mais recentes do sistema montado pelo OC são de 2023, quando as emissões líquidas atingiram 1,65 bilhão de t de CO₂eq, queda de 15% em relação a 2022. O inventário nacional ainda não divulgou o valor das emissões de 2023.
“Calculamos as emissões a partir de dados consolidados, o que demanda tempo para as instituições provedoras os fornecerem. Além disso, atendemos ao compromisso internacional de relatar as emissões com um intervalo de até dois anos entre o ano de submissão e o último ano inventariado. É o mesmo padrão adotado pelos países desenvolvidos”, conta Rathmann. “Assim, temos dados oficiais mais consolidados dos setores que entram no inventário.” O Seeg tem um pouco mais de liberdade e, quando não estão disponíveis informações consolidadas sobre a economia nacional, pode recorrer a fontes alternativas ou, em casos extremos, até a estimativas.
Em 2006, o IPCC lançou as bases metodológicas usadas pela maioria dos países e de projetos como o Seeg para elaborar um inventário das emissões de GEE. “Essa metodologia passa por atualizações periódicas conforme a ciência avança e a forma de calcular as emissões de cada atividade econômica ou processo se refina”, comenta o engenheiro-agrônomo Carlos Eduardo Cerri, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), coordenador do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon-USP), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP. “É importante que os países adotem os mesmos critérios para que faça sentido comparar seus níveis de emissão.”
O primeiro passo dos inventários é calcular as emissões em cinco setores: energia; processos industriais e uso de produtos; agropecuária; resíduos; e LULUCF. Os quatro primeiros só liberam GEE. O LULUCF é o único que, além de emitir, pode reportar nos relatórios a remoção de CO₂ do ar por meio da fotossíntese, que fixa carbono na biomassa das plantas e até no solo.
Em seguida, é calculado quanto cada processo ou atividade abarcado pelos setores gera de GEE. No cálculo, dois tipos de informação são imprescindíveis: os chamados dados de atividade, que são multiplicados por fatores de emissão. Os dados de atividade dão a dimensão e as características principais de um segmento econômico. No setor de processos industriais e uso de produtos, um exemplo seria a quantidade de toneladas produzidas anualmente de cimento ou ferro. Os fatores de emissão são valores consagrados na literatura científica que estimam quanto cada atividade libera de GEE. São divididos em três níveis ou, para usar a terminologia dos especialistas, tiers.
O primeiro nível, proposto pelo IPCC, é o mais genérico e menos preciso. É um fator de emissão que vale para certa atividade, independentemente das condições e do país em que ela ocorra. O segundo vale para uma nação ou partes dela. O tier 3 é mais específico e tem o potencial de refletir as emissões de um lugar ou fábrica determinada. “O Brasil emprega hoje fatores dos tiers 2 e 3 para estimar 95% de suas emissões totais, como os países mais desenvolvidos”, diz Rathmann.
Gráfico desenvolvido por Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP
Um caso que ilustra bem essa particularidade é o cálculo da produção de metano pela fermentação entérica (o processo digestivo) de ruminantes, essencialmente do rebanho bovino nacional, que ultrapassa 200 milhões de cabeças e emite quase um quinto de todos os GEE gerados pelo país. Atualmente, há fatores de emissão específicos para diferentes tipos de bovinos criados em cada estado brasileiro. O documento do Seeg considera, por exemplo, que um bovino macho, com mais de 2 anos, mantido de forma não confinada, emite anualmente 72 quilos (kg) de metano se for criado em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás e 63 kg se estiver em Alagoas ou outros estados.
Essas diferenças impactam o resultado de um inventário. “Precisamos produzir mais ciência para propor fatores de emissão cada vez mais específicos”, diz o engenheiro ambiental Gabriel Quintana, da organização não governamental Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), que coordena os trabalhos do Seeg no setor agropecuário. Para serem aceitos internacionalmente, os fatores de impacto do tiers 2 e 3 precisam ser documentados de forma transparente, ser consistentes com as diretrizes do IPCC e ter base científica ou empírica robusta.
Entre 1990 e 2022, a produção anual de metano por cabeça de bovinos de corte caiu cerca de 8% no país, segundo o inventário nacional. Mas, como a taxa de crescimento do rebanho foi maior do que o ganho de produtividade, as emissões totais geradas pela fermentação entérica continuam em alta (ver gráfico abaixo). “Melhorar a qualidade do pasto diminui a produção de metano pelos bovinos”, pondera Cerri. “Temos ainda muito espaço para avançar nessa área.”
Gráfico desenvolvido por Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP
O peso do desmatamento
O cálculo das emissões referentes a uso da terra, mudanças do uso da terra e florestas é diferente do que é feito nos demais setores. A liberação de GEE ocorre quando uma categoria de uso da terra que estoca mais carbono, como as florestas nativas, é convertida em outra que retém menos, como campos, pastagens e áreas agrícolas. Em outras palavras, a emissão deriva do desmatamento. Essa é a “atividade econômica” registrada pelo setor de LULUCF. A emissão calculada é a diferença entre a quantidade de carbono que estava armazenada no trecho de mata nativa e a que passou a ser estocada no novo fim dado àquela mesma área, após a derrubada da vegetação original.
Esses valores são muito diferentes, especialmente quando envolvem o bioma Amazônia, cuja floresta estoca mais carbono na biomassa das plantas do que a vegetação dos outros ecossistemas. Tanto o Seeg quanto o inventário nacional trabalham com fatores de emissão específicos (do tier 2) para diferentes fisionomias vegetais da Amazônia. Há 44 fisionomias vegetais no bioma, que engloba metade do território nacional. A mais comum pertence ao grupo das florestas ombrófilas densas, que cobrem cerca de metade da Amazônia.
A quantidade de carbono armazenada em 1 hectare desse tipo de mata varia entre 130 t e 201 t. “Um hectare de pasto estoca em média cerca de 10 t, 1 de soja, 6 t”, afirma a ecóloga Bárbara Zimbres, do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), que coordena o monitoramento do setor de LULUCF no Seeg. Em um cálculo conservador, se de um ano para outro um hectare de floresta com 130 t de carbono armazenado for desmatado e virar pasto, haverá uma emissão de 120 t de GEE.
O inventário nacional utiliza o mapeamento do uso e da cobertura da terra obtido a partir de imagens de satélite do território nacional, além de outros dados, enquanto o Seeg emprega os mapas do projeto MapBiomas, outra iniciativa que nasceu no Observatório do Clima, mas hoje envolve instituições de pesquisa, organizações não governamentais e empresas de tecnologia e geoprocessamento.
A categoria LULUCF é a única que também contabiliza eventuais remoções de carbono da atmosfera, enquanto os demais setores apenas contribuem com o lado – majoritário – das emissões nos inventários. Essa particularidade faz com que o valor das emissões líquidas (descontadas as remoções) do setor possa ser menor se houver a adoção de práticas que promovam a absorção de CO₂ da atmosfera ou que evitem seu retorno para o ar.
Dois mecanismos de remoção de carbono são aceitos pelo IPCC e contabilizados nos inventários. O mais importante está ligado ao crescimento das plantas. Na fotossíntese, elas absorvem CO₂ e fixam o carbono retirado da atmosfera em seu tronco, galhos, folhas, raízes e solo. Esse mecanismo ocorre onde há vegetação em desenvolvimento.
Mas, nos inventários, apenas se contabiliza como remoção de carbono o crescimento da vegetação em áreas protegidas (unidades de conservação e terras indígenas) e de florestas secundárias. Estas representam as formações vegetais que crescem espontaneamente em antigos trechos de floresta nativa que foram desmatados e abandonados. “Como há um esforço para manter a vegetação nas unidades de proteção, o carbono estocado nas plantas dessas áreas pode ser contabilizado como remoção no inventário”, explica Zimbres.
Carbono fixado pela vegetação das terras indígenas protegidas conta nos inventários como remoção de CO₂ atmosférico. Foto: Fabio Colombini
Uma segunda situação pode ser debitada na conta das remoções. É o emprego de madeira oriunda de áreas de reflorestamento, como plantações de eucalipto, para fabricar móveis ou outros artefatos. Como essa madeira não foi queimada nem vai ser deixada para apodrecer ao ar livre, seu estoque de carbono não volta para a atmosfera. Fica imobilizado no produto por um longo tempo, enquanto a área de reflorestamento volta a crescer e a sequestrar mais carbono do ar, criando um círculo virtuoso.
Em 2022, o inventário calculou que as remoções em áreas protegidas e em segmentos de reflorestamento manejado reduziram, respectivamente, em 15,3% e 2,8% o valor final das emissões totais de GEE do Brasil. Esses dados mostram a importância ambiental da proteção de grandes áreas do território nacional.
Por mais bem-feitos que sejam, os inventários não estão isentos de imperfeições, embora sejam melhorados a cada edição. Há lacunas e imprecisões, tanto no campo das emissões como nodas remoções de GEE. A margem de erro dos cálculos do inventário nacional é de cerca de 20%. A do Seeg é similar. A metodologia preconizada pelo IPCC sofre aprimoramentos periódicos, que aperfeiçoam as formas de calcular a produção de gases de efeito estufa em diferentes setores da economia.
No cenário brasileiro, uma inconsistência é a não inclusão no inventário nacional das emissões produzidas por queimadas não associadas ao desmatamento. Os incêndios diretamente ligados aos desflorestamentos entram nos cálculos oficiais. Mas as queimadas de grandes proporções, propositais ou não, em campos, pastagens ou setores de floresta ainda enfrentam desafios para serem adequadamente capturadas e incluídas nas estimativas do inventário.
“Com as secas recorrentes na Amazônia e em outras regiões do país e as temperaturas mais quentes, esses incêndios têm se tornado mais intensos, frequentes e relevantes no que diz respeito às emissões de carbono”, pondera o engenheiro-agrônomo Jean Ometto, do Inpe, um dos coordenadores do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG). “Incêndios recorrentes tendem a degradar setores da floresta, o que afeta sua capacidade de sequestrar carbono da atmosfera.”
Em seu relatório anual, o Seeg reporta a liberação de GEE dos incêndios não relacionados ao desmatamento. Mas não contabiliza essa forma de produção de gases de efeito estufa com as demais. Ela é mencionada à parte, como emissões não contabilizadas no inventário. Em 2023, atingiram a soma de 100 milhões de t de CO₂eq.
Os quase 200 países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) e do Acordo de Paris – tratado internacional firmado em 2015 que tenta limitar as emissões de GEE e, por tabela, restringir o aquecimento global a no máximo 2 graus Celsius – têm de reportar periodicamente seu total de emissões. Além de servir de subsídio para a formulação de políticas nacionais, os inventários funcionam como base para que os países estabeleçam suas próprias metas de redução de emissões futuras, a chamada NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada), no âmbito do Acordo de Paris.
Divulgada no ano passado, a nova meta do Brasil prevê que, em 2035, as emissões líquidas de GEE (que levam em conta as remoções feitas pela manutenção de vegetação) representem entre 59% e 67% da produção de GEE em 2005.
Esse corte levaria o Brasil a emitir anualmente entre 850 milhões e 1,05 bilhão de t de CO₂eq. Desde o fim de 2024, os países signatários do Acordo de Paris são obrigados a produzir inventários oficiais a cada dois anos e a adotar a mesma metodologia para fazer seus relatórios. “Isso vai facilitar a comparação das emissões dos países, especialmente entre aqueles que usavam metodologias mais antigas”, comenta Rathmann. Está cada vez mais difícil esconder a pegada de carbono.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Pesquisa Fapesp, escrito por Marcos Pivetta, com gráficos de Alexandre Affonso.
O projeto, intitulado “Avaliação de impactos cumulativos para o Xingu: propostas para o planejamento e licenciamento de projetos de infraestrutura” tem como objetivo principal analisar e subsidiar cientificamente o planejamento de obras de infraestrutura e respectivo licenciamento ambiental na Bacia do Xingu, com foco na problemática dos impactos cumulativos resultantes das mudanças de uso e cobertura da terra na Bacia do Xingu.
A pesquisa contará com modelagem espacialmente explícitas dos impactos de projetos de transporte na região, além de discutir cenários com alternativas para a região.
Em um desenvolvimento significativo para a pesquisa ambiental no Brasil, o projeto colaborativo entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Escola Politécnica da USP (Poli) foi aprovado na Chamada FAPESP de Propostas (2024) – Fase 1, do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (PPPP), no final de maio de 2025.
A coordenação do projeto e liderança da pesquisa fica sob a responsabilidade da professora Juliana Siqueira-Gay, da Escola Politécnica da USP, tendo como pesquisadores associados a professora Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo e o professor Luis Enrique Sánchez, também da Escola Politécnica da USP. Além disso, o projeto contará com uma equipe de sete pesquisadores bolsistas, ainda a serem selecionados. É parte da equipe do projeto o ISA, sendo a gestora responsável a economista Mariel Nakane.
Além da Escola Politécnica da USP e ISA, também outras instituições entraram na condição de associadas ao projeto, ou seja, acompanharão o desenvolvimento da pesquisa, sendo essas o Ministério dos Transportes, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e a Rede Xingu+. A colaboração entre pesquisadores, gestores públicos e a sociedade civil foi considerada uma “garantia da relevância dos resultados para a região de estudo”.
A proposta se destacou por sua abordagem metodológica, que inclui análises espaciais e modelagem de cenários de uso e cobertura da terra, além de parcerias com entidades da sociedade civil e atores relevantes do licenciamento. A pesquisa pretende gerar modelos para subsidiar a avaliação de impactos cumulativos envolvendo a proposição de cenários, áreas de influência e limiares de significância dos impactos, com o objetivo subsidiar técnica e cientificamente pareceres de órgãos ambientais, contribuindo para a melhoria do planejamento e licenciamento ambiental.
A professora Juliana Siqueira-Gay detalha que este projeto “atua na interface ciência e políticas públicas e possui um enorme potencial de impacto social para as comunidades indígenas e tradicionais que vivem sobretudo no interflúvio Xingu-Tapajós. Acredito que, com este projeto, estamos desempenhando um papel importante como comunidade científica junto à sociedade, e em parceria com todas as instituições parceiras e associadas, buscamos colaborar diretamente com subsídios técnicos para melhorar a tomada de decisão no planejamento e licenciamento de projetos”.
Povos do Xingu
A análise da FAPESP ressaltou o mérito do projeto na “geração de conhecimentos para a formulação, revisão, aprimoramento, análise, monitoramento e implementação de políticas públicas relacionadas ao planejamento e execução de projetos de infraestrutura, que são de grande importância econômica, cultural, ambiental e social”.
“Apesar do atual contexto do desmonte da política ambiental, com o PL da Devastação, nossa pesquisa propõe o caminho de fortalecimento, melhoria e desenvolvimento da avaliação de impacto ambiental no país, tanto no âmbito da política ambiental, no licenciamento, quanto na política setorial, no planejamento de política de transportes federal, sobretudo com o reconhecimento da avaliação de impactos cumulativos pelos gestores públicos, porque são impactos que tanto afligem os territórios mas cujos efeitos são recorrentemente esquecidos nos estudos de impacto ambiental”, apontou Mariel Nakane do Instituto Socioambiental.
Equipe de pesquisadores da Ueap. Foto: Governo do Amapá
Um projeto inovador desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado do Amapá (Ueap), batizado de “Biorrefinaria Amazônica: Valorização de Resíduos Florestais para Conversão em Nanomateriais”, promete revolucionar a forma como a Amazônia lida com seus resíduos florestais.
A iniciativa, aprovada no edital Proinfra de Desenvolvimento Regional, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com um investimento robusto de R$ 7.954.302,89, visa transformar o que antes era descartado em valiosos nanomateriais biodegradáveis.
Imagine uma embalagem de alimentos feita com um filme transparente, resistente e biodegradável. Em vez de plástico derivado de petróleo, esse filme é feito com nanofibrilas de celulose. Este novo tipo de filme pode substituir plásticos convencionais em embalagens de alimentos; atuar como barreira contra oxigênio e umidade, prolongando a validade dos produtos; ser compostável, reduzindo o impacto ambiental.
Segundo os pesquisadores, os nanomateriais também podem ser utilizados na indústria têxtil com o desenvolvimento de tecidos com propriedades antibacterianas e maior resistência como bioplásticos, embalagens sustentáveis, biocompósitos estruturais, adesivos entre outros materiais de utilidades tanto cotidianas como industriais.
O cerne do projeto é a valorização de fibras de resíduos agroflorestais da Amazônia para a obtenção de bioprodutos nanoestruturados. O coordenador da iniciativa, professor Dr. Matheus Cordazzo Dias, do colegiado de Engenharia Florestal da Universidade do Estado do Amapá (UEAP), destaca a importância estratégica dessa abordagem.
“A princípio faremos o desenvolvimento de novos produtos e testes em escala laboratorial, mas visando o seu sucesso, podemos avançar para a produção em escala industrial, após análise técnica e de viabilidade econômica da sua inserção no mercado”, planeja Dias.
O pesquisador explica ainda que as nanofibrilas são estruturas com diâmetro aproximadamente 80 mil vezes mais fino que um fio de cabelo humano. Apesar de tão finas, elas podem atingir grandes comprimentos, o que lhes confere uma altíssima razão de aspecto (relação entre comprimento e diâmetro) – e essa característica resulta em propriedades mecânicas superiores às das fibras em escala macroscópica, garantindo ao material grande resistência.
Da Floresta ao Laboratório: Um Caminho para a Sustentabilidade
Equipe de pesquisadores da Ueap. Foto: Governo do Amapá
A equipe de pesquisadores da Ueap está focada em três objetivos específicos: otimizar o tratamento de diferentes tipos de fibras, produzir nanomateriais como nanofibrilas de celulose, nanopartículas de lignina e nanocarvão ativado, avaliando a qualidade desses materiais para o desenvolvimento de bionanocompósitos.
Podemos dizer que o projeto se insere em uma visão de médio a longo prazo, pois as transformações e exigências do mercado pela busca por materiais mais sustentáveis, por si só, já constitui um grande avanço na transição energética e na independência de combustíveis fósseis. Estamos falando em uso sustentável de recursos naturais e em reduzir a pressão sobre os recursos madeireiros. Cada resíduo florestal que transformamos em nanomaterial é menos uma árvore derrubada para outros fins. É um ganho ambiental enorme”, ressalta a professora Dr. Carla Priscilla Távora Cabral, também da Engenharia Florestal.
No aspecto econômico, o projeto promete impulsionar a bioeconomia local. A instalação de um centro multiusuário visa impulsionar o desenvolvimento econômico e social do Amapá e de outros estados da Região Norte, além da geração de novos conhecimentos e tecnologias, reforça a professora.
“Vamos contribuir para uma nova economia circular, trazendo novos conhecimentos no uso de materiais lignocelulósicos alternativos para além da madeira, analisando principalmente resíduos de outras cadeias produtivas”, finaliza Carla.
Além dos impactos ambientais, econômicos e sociais, o projeto espera gerar resultados concretos em termos de formação de recursos humanos, produção científica e infraestrutura de pesquisa. A professora Dr. Monize Martins da Silva, do colegiado de Licenciatura em Química, destaca a criação do primeiro Centro Multiusuário de Apoio à Pesquisa do estado do Amapá.
Universidade do Estado do Amapá (Ueap). Foto: Divulgação
“Este centro, com seus laboratórios de Biorrefinaria e Nanotecnologia de Recursos Florestais e de Análises e Prospecção Química, fortalece o nosso compromisso com a pesquisa científica, a inovação e o desenvolvimento regional, especialmente porque os recursos oriundos da Finep nos permitirão investir em infraestrutura, formação de recursos humanos e no fortalecimento de laboratórios e grupos de pesquisa”, celebra Monize Silva.
A pró-reitora considera ainda que a conquista amplia a visibilidade da Ueap no cenário acadêmico e científico, abrindo portas para novas parcerias, redes de colaboração e futuras captações de recursos
O projeto está em consonância com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, incluindo erradicação da pobreza, inovação e infraestrutura, redução das desigualdades, cidades e comunidades sustentáveis, consumo e produção sustentáveis, ação contra a mudança global do clima, e parcerias para a implementação dos objetivos.
O Brasil possui 296 barragens indicadas como prioritárias para gestão de segurança, sendo que 241 dessas possuem risco alto ou médio de potencial dano humano. Nelas, os responsáveis não cumpriram todos os requisitos de segurança exigidos na Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB).
As informações sobre a situação das barragens brasileiras fazem parte do Relatório de Segurança 2024/2025 (RSB 2024/2025). As barragens que necessitam de maior atenção estão em 24 unidades da Federação. Não foi apresentado levantamento na Paraíba, Paraná e Roraima.
Barragem de rejeito da Mineração Rio do Norte em Oriximiná, no Pará. Foto: Carlos Penteado/Arquivo/CPI-SP
A coordenadora do RSB 2024/2025, engenheira Aline Cristina Costa da Silva, destaca que das 241 em situação de prioridade, 67% já se encontravam nessa situação no relatório anterior.
“Indicadas pelos órgãos fiscalizadores, 241 barragens prioritárias para gestão de segurança. Eles informaram que em 67% a situação estava estabelecida anteriormente, de anos anteriores. Ao menos foi possível identificar no relatório que já constavam no RSB 2023. No último relatório, elas permanecem nessa situação. Em 16%, o fiscalizador informou ter registro de acidente e em 17% também foi identificada a incapacidade técnica ou financeira do empreendedor para atuar” explicou Aline na apresentação do relatório.
Foto: Divulgação
Das 241 para gestão de segurança, 40% (96%) são do setor privado, 16% (39) de empreendedores públicos, 39% (94) não têm informações disponíveis sobre propriedade e 4% (10) pertencem a sociedades de economia mista. As principais finalidades dessas barragens são: regularização de vazão 23,7% (57); disposição de rejeitos de mineração em 21,2% (51); irrigação em 16,6% (40); abastecimento humano de água em 12,9% (31); aquicultura em 7,1% (17), entre outros.
Acidentes
Conforme o RSB 2024/2025, foram reportados no período 24 acidentes e 45 incidentes com barragens no Brasil no ano passado com duas vítimas fatais e com danos diversos, como destruição vias públicas, rompimento de ponte, danos a residências, desaparecimento de animais, interdição de vias públicas, danos ambientais, entre outras consequências.
De acordo com a PNSB, acidentes se caracterizam pelo comprometimento da integridade estrutural da barragem, resultando em colapso total ou parcial da estrutura. Já os incidentes afetam o comportamento da barragem ou estruturas anexas, que podem vir a causar acidentes caso não sejam sanados.
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No total de 24 acidentes, 17 (71%) aconteceram em barragens de acumulação de água, três (13%) em estruturas para geração de energia, dois (8%) de abastecimento humano de água e outros dois (8%) sem finalidade identificada. Desses 24 casos, um total de 21 (88%) ocorreram nas de terra, dois (8%) em estruturas de concreto e um (4%) em barramento de terra/enrocamento (rochas).
O RSB é elaborado anualmente sob a coordenação da ANA com base em informações enviadas pelos 33 órgãos fiscalizadores de segurança de barragens ativos no país. Os objetivos do relatório são apresentar à sociedade um panorama da evolução da segurança das barragens brasileiras e da implementação da PNSB. A íntegra do relatório está disponível em: www.snisb.gov.br
A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em parceria com a Cooperativa de Café do Juruá (Coopercafe), inaugurou no final dejunho, em Mâncio Lima (AC), o maior complexo industrial de café da agricultura familiar da Região Norte, com foco no cooperativismo. A cerimônia contou com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e da diretora de Economia Sustentável e Industrialização da ABDI, Perpétua Almeida.
O Complexo integra o projeto Café Amazônia Sustentável, desenvolvido pela ABDI, que visa implementar um modelo cooperativista socioeconômico sustentável para o beneficiamento e rebeneficiamento do café cultivado pela agricultura familiar. A iniciativa recebeu investimentos de R$ 8 milhões da ABDI e R$ 2 milhões da Coopercafe, cooperativa que hoje reúne mais de 180 produtores na região.
“O projeto está alinhado às missões da Nova Indústria Brasil (NIB) e tem como foco transformar a vida dos produtores ligados às cadeias agroindustriais sustentáveis para a segurança alimentar”, destacou Perpétua Almeida. A iniciativa já beneficia diretamente 2 mil pessoas envolvidas na cadeia produtiva da região do Juruá.
Estrutura moderna e sustentável
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O parque fabril possui uma estrutura física de 1.640 m² e opera com energia elétrica 100% limpa e sustentável, abastecida por 356 painéis solares, que geram 21.500 kWh por mês, além de utilizar práticas como o reuso de água da chuva e o uso de lenha certificada. Toda a produção de café é realizada em áreas degradadas, sem qualquer desmatamento novo, reforçando o compromisso ambiental do projeto.
Capacidade produtiva
O Complexo tem capacidade produtiva de até 20 mil sacas de por safra (considerando o beneficiamento e o rebeneficiamento), o que pode gerar um faturamento em torno de R$ 40 milhões – variando conforme a produtividade local e a cotação diária do café. São dois processos principais:
Foto: Enrique Alves
Beneficiamento: envolve secagem, descascamento e classificação, preparando o grão para comercialização, seco e descascado. O maquinário inclui 11 secadores, uma máquina descascadora e uma classificadora in natura com despolpador.
Rebeneficiamento: agrega qualidade ao produto, por meio da padronização por tamanho e densidade, utilizando um conjunto de peneiras e mesa densimétrica. Esse processo permite separar os melhores lotes, aumentando o valor de mercado do produto.
O parque produz do café commodity até o especial, o que amplia o leque de possibilidades comerciais para os agricultores associados. Na região, predominam pequenos e médios produtores, responsáveis pelo cultivo de cerca de 1,5 milhão de pés. Considerando todo o Vale do Juruá e parte do Amazonas, esse número ultrapassa 5 milhões.
Nos dias 20 e 21 de agosto, o Amazon On Connectivity & Sustainability 2025 reunirá, em Manaus, o ecossistema do setor de inovação, incluindo empresas multinacionais, investidores, pesquisadores, ONGs, autoridades públicas e instituições internacionais que discutirão soluções tecnológicas para os principais desafios da Amazônia. O evento acontecerá no Centro de Convenções Vasco Vasques, com entrada gratuita para os inscritos.
Em sua segunda edição, o Amazon On impulsiona o emprego da tecnologia como ferramenta para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, promovendo conexões estratégicas entre diferentes atores que atuam ou buscam atuar na região amazônica. “Nosso foco é movimentar um ecossistema cada vez mais comprometido com soluções digitais sustentáveis para a região. Queremos gerar conexões reais entre empresas, investidores, centros de pesquisa, ONGs e comunidades tradicionais”, afirma Moisés Moreira, coordenador do evento.
Além de painéis e palestras com especialistas nacionais e internacionais, o Amazon On 2025 terá uma programação voltada à cooperação internacional, à transição digital verde, ao impacto da inteligência artificial nas mudanças climáticas, e ao papel da tecnologia no monitoramento e na preservação ambiental. Também haverá exposições de soluções tecnológicas, espaços para networking, reuniões bilaterais, estandes de relacionamento e a participação de lideranças locais e representantes de povos tradicionais.
O evento é uma oportunidade para empresas e investidores conhecerem iniciativas já em prática na Amazônia, firmar parcerias e explorar novas frentes de atuação econômica alinhadas com a preservação socioambiental. Para pesquisadores, o Amazon On oferece contato direto com lideranças e experiências que integram ciência, tecnologia e causas socioambientais.
O Amazon On conecta empresas, entidades governamentais, organismos internacionais, ONGs e comunidades locais. Foto: Divulgação
“É um espaço para construir pontes. A Amazônia precisa de soluções que respeitem sua diversidade e, ao mesmo tempo, projetem a região para o futuro”, reforça Moreira.
A primeira edição do Amazon On, realizada em setembro de 2024, conectou lideranças do setor público, empresas e organizações do Brasil e do exterior. Em 2025, a expectativa é receber cerca de 500 participantes por dia, com ampliação dos espaços de interação e um ambiente propício ao desenvolvimento de projetos colaborativos e sustentáveis.
O Amazon On
O Amazon On 2025 é idealizado pela MMoreira Consult e conta com o apoio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Rede Amazônica, Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica (Abinee) e Governo do Estado do Amazonas.
Apenas 21% dos torcedores do Norte admitem o fanatismo por seu time de coração, mas o consumo relacionado com o futebol é cada vez maior e já atinge a marca de 65% da população, como revela estudo realizado pela primeira vez pela Serasa.
A pesquisa “Gastos com Futebol”, que ouviu 2.940 pessoas de todas as regiões do país, mostra como o esporte impacta uma fatia do orçamento familiar e influencia o comportamento financeiro dos torcedores.
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Entre os principais gastos, as camisas de times continuam com larga vantagem de 61%, seguida bem abaixo por outros produtos licenciados (26,7%), ingressos para assistir aos jogos (24,7%) e streamings ou pay-per-view (20,5%).
As despesas, porém, parecem cada vez mais periféricas aos estádios, pois 58% dos nortistas acreditam que os eventos de futebol não são mais acessíveis ao público geral. Não por acaso, os ingressos para jogos aparecem em terceiro na lista, com apenas 24,7% na lista de gastos, mostrando não ser uma prioridade.
Arena Acreana. Foto: Divulgação
Um outro questionamento da pesquisa confirma o distanciamento. Quando perguntados sobre como assistem aos jogos, apenas 20,8% indicaram o estádio como palco. A preferência é de TV aberta (72%) e TV fechada (40%), e chama a atenção, embora não surpreenda, que a soma de quem assiste a jogos pelo Youtube (44%) e por streamings (22%) já chega próximo ao percentual dos que ainda estão na TV aberta.
Com dinheiro ou não, o certo é que o futebol estimula que o brasileiro não se imponha limites para estar ao lado de seu time. Pelo menos 60% dos entrevistados já “cometeu alguma loucura” pelo seu clube e 9% deles já colocaram como meta se fazer presente nos próximos mundiais de clubes.
O papel social do esporte
Além de movimentar o bolso do brasileiro, sete em cada dez pessoas do Norte enxergam o papel social que o esporte representa no país. E 46% consideram o futebol como um grande aproximador de pessoas, promovendo laços entre familiares e amigos.
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Durante a pesquisa foi possível perceber que o futebol feminino também está entre os eventos desejados pelo público. A porcentagem é muito próxima à intenção de assistir ao mesmo campeonato masculino, mostrando mais uma vez que o interesse do brasileiro é pelo esporte e não pelo gênero.
Metodologia
A pesquisa encomendada pela Serasa foi realizada pelo Instituto Opinion Box em junho de 2025, e ouviu 2.940 pessoas, de diferentes faixas etárias e regiões do Brasil.
Sobre a Serasa
Com o propósito de revolucionar o acesso ao crédito no Brasil, a Serasa oferece um ecossistema completo voltado para a melhoria da saúde financeira da população por meio de produtos e serviços digitais.
Um conjunto de tecnologias modernas, que alia custos acessíveis e sustentabilidade, tem aumentado significativamente a produtividade de culturas agrícolas de importância alimentar – como mandioca, arroz, milho, feijão, entre outras – em propriedades familiares do Maranhão.
Essa é a Roça Sustentável, um pacote de soluções referenciado no Sistema Bragantino da Embrapa, desenvolvido pela Embrapa Amazônia Oriental (AM) e adaptado pela Embrapa Maranhão (MA) para as condições do estado, que já resultou, por exemplo, em aumento de produtividade de 50% de arroz e milho, e em ganho temporal de sete meses para a colheita de mandioca.
A solução tecnológica surgiu para equacionar problemas de baixas produtividades e ausência de condições de uso de tecnologias nas roças. Foto: Embrapa
A solução tecnológica surgiu em um processo de inovação aberta, dentro das propriedades dos agricultores familiares, para equacionar problemas de baixas produtividades e ausência de condições de uso de tecnologias em lavouras da agricultura familiar em que os cultivos eram realizados em área compartilhada, sem qualquer coerência técnica ou econômica.
segundo o analista Carlos Santiago, responsável pela implementação da tecnologia em municípios maranhenses, sem o uso da Roça Sustentável, a produção média de mandioca no Maranhão é de 8 toneladas por hectare após 18 meses de cultivo.
Com a tecnologia, em 11 meses de cultivo a produção atinge 30 toneladas por hectare. “Trata-se de um policultivo das culturas mais produzidas pelos agricultores familiares, seja para consumo familiar ou comercialização. A ênfase é nas variedades em uso na região e preferidas pelos agricultores. A iniciativa aumentou o leque de produtos do agricultor familiar com excelentes resultados de produtividade e qualidade dos produtos”.
Carlos Santiago, responsável pela implementação da roça em municípios maranhenses. Foto: Embrapa
A lógica do consórcio é diversificar a produção e otimizar a produtividade com sustentabilidade econômica, social e ambiental. Para isso, os cultivos são dispostos em fileiras de forma a não haver competição por nutrientes, água, luz e espaço.
Além do consórcio, o sistema preconiza a rotação de culturas com uso de “safrinha”, prática que intensifica o uso da terra e maximiza o aproveitamento do período chuvoso. O objetivo é que essas novas técnicas contribuam para modernizar sistemas de produção tradicionais, como o de “roça no toco” (no qual uma área de vegetação é derrubada, queimada e utilizada para plantio), sob bases sustentáveis, ou seja, sem necessidade de fogo e desmatamento.
Em termos ambientais, a reconfiguração da “roça no toco” evita a abertura de novas áreas e a prática de “derruba e queima” ao cultivar a terra e as lavouras de acordo com suas necessidades nutricionais e de prevenção de pragas e doenças. Além disso, ao incentivar o consórcio e a rotação de culturas, a tecnologia permite incrementos na ciclagem de nutrientes, manutenção da biodiversidade, conservação do solo, controle de ervas daninhas e manejo de pragas e doenças das culturas.
Roça Sustentável aumenta a produtividade da agricultura familiar. Foto: Embrapa
Francisco Elias de Araújo, do Assentamento Cristina Alves em Itapecuru-Mirim (MA), diz que a mandiocultura é a atividade de maior importância econômica e a tecnologia deu resposta positiva no que se refere à produtividade. Para ele, a Roça Sustentável promove a diversificação de culturas consorciadas e a adequação da demanda nutricional de cada uma delas para melhorar a produtividade do conjunto.
“No assentamento, já completamos quatro anos consecutivos de produção na mesma área, com bom retorno do custo investido. Queremos deixar para as próximas gerações uma terra melhor do que achamos”, ressalta.
No Maranhão, estado de grande diversidade edafoclimática, a Roça Sustentável atualmente tem projetos na região amazônica e no Cerrado, onde está a fronteira agrícola do Matopiba. São duas Unidades de Referência Tecnológica (URTs) em São Raimundo das Mangabeiras e em Balsas; três em Itapecuru-Mirim (quilombo de Canta Galo, Jaibara dos Nogueiras e Outeiro dos Nogueiras); e uma em São Luís, em área rural do bairro Maracanã.
O conjunto tecnológico consiste em técnicas de manejo e arranjos espaciais com sustentabilidade e impactos na redução do fogo na agricultura, no combate à pobreza e redução da fome, por meio da produção diversificada de alimentos.
Roça Sustentável aumenta a produtividade da agricultura familiar. Foto: Embrapa
As práticas agrícolas aliadas ao uso de defensivos corretamente utilizados intensificam a eficiência do uso da terra e ainda recuperam áreas degradadas. Também aumentam a fertilidade do solo e a nutrição das plantas. Ou seja, trata-se de um sistema de cultivo convencional, no qual é permitido o uso de herbicidas e inseticidas, se necessário, na hora certa e na dose certa.
O uso da dose recomendada no momento certo provoca o mínimo impacto ambiental possível, com eficiência necessária para surtir o efeito desejado. “A lavoura, livre de mato, doenças e pragas, produz muito mais, com menos esforço físico do produtor, ou seja, há também redução da carga de trabalho e do gasto com mão de obra. Isso significa mais economia e tempo para as pessoas envolvidas cuidarem de outras atividades e da família. O retorno social é a melhoria da produtividade, segurança alimentar, renda e qualidade de vida da família e comunidade do produtor familiar, contribuindo para o desenvolvimento regional”, enfatiza Santiago.
A adubação equilibrada é também realizada no sistema para garantir o aporte dos nutrientes necessários ao desenvolvimento das plantas, à produtividade da lavoura e à conservação do solo. A diversificação de culturas melhora a utilização das terras.
Cada cultura é especializada num tipo de nutriente e a rotação entre elas permite a exploração de camadas do solo por diferentes culturas. Por exemplo, o arroz é uma cultura que oferece bastante potássio ao solo. Do potássio aplicado nas plantações de arroz, a cultura absorve 20%. Os 80% restantes ficam na palhada após a colheita, disponíveis no solo. A mandioca é uma cultura que demanda potássio. Ao plantar a mandioca na palhada do arroz, faz-se uma adubação natural de uma cultura pela outra.
Aprender fazendo
A Embrapa no Maranhão multiplica o conhecimento sobre o manejo do sistema alimentar em propriedades dos produtores em parceria com instituições públicas e privadas. A metodologia preconiza a implantação de URTs em comunidades rurais familiares com a participação de técnicos e produtores das regiões. São repassadas técnicas de manejo do solo, de pragas e doenças, fertilidade e arranjos espaciais para melhor eficiência com sustentabilidade, conservação e manejo adequados. Também fazem parte dessas capacitações noções de visão empreendedora da lavoura, para que o sistema de produção possa ser viabilizado.
Roça Sustentável aumenta a produtividade da agricultura familiar. Foto: Embrapa
O objetivo é a promoção do desenvolvimento regional pelo empoderamento dos atores locais envolvidos. “As URTS são vitrines tecnológicas, unidades didáticas de construção do conhecimento para eventos como dias de campo, palestras e visitas técnicas. Ali o produtor e o técnico aprendem a manejar as culturas de arroz, milho, feijão e mandioca separadamente, além da integração entre elas. Aprendem também o valor do trabalho realizado com dedicação e cuidado para ter os resultados esperados. Nossa missão é transformar a ciência em motor do desenvolvimento por meio da construção e compartilhamento de saberes e experiências”, frisa o analista.
O produtor Geraldo de Matos, conhecido por “Juca”, destaca o acesso ao conhecimento como diferencial para a qualidade de vida conquistada. “Graças à parceria com a Embrapa Maranhão, tivemos acesso ao conhecimento científico e tecnológico, a nossa produção aumentou, não só em quantidade, mas também em qualidade, e com diminuição da carga de trabalho. Nunca tinha visto tanta mandioca em um espaço tão pequeno. Ver nossa família com alimentação adequada é tudo. Hoje tenho a esperança de ver meus filhos na roça”, comemora.
Combate à fome e à pobreza e fixação no campo
Os agricultores que seguem o manejo corretamente têm uma transformação significativa. Já no primeiro ano, eles sanam a questão alimentar. Com mais tempo, passam a ter excedente para venda. A tendência é a ampliação da lavoura. A elevação da produtividade faz com que tenham garantia de diversificação alimentar e quantidade, volume produzido suficiente para a alimentação da sua família e comunidade e para a troca e comercialização do excedente. “A dignidade do homem que cultiva a terra e produz o alimento para a família permite a permanência no campo, e a de seus filhos, que passam a enxergar o futuro que almejam na agricultura”, conclui Santiago.
Mulheres Mẽbêngôkre-Kayapó em protesto. Foto: Reprodução/ Funbio
Durante os cinco dias da 21ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), pelo menos seis mil indígenas estiveram no Complexo da Funarte, em Brasília. Entre povos de todos os biomas, mulheres, crianças, anciãos, artesãos, comunicadores, gestores e lideranças participaram de plenárias, rodas de conversa, apresentações culturais e discussões sobre temas como monitoramento territorial, desintrusão e demarcação de terras, segurança alimentar, geração de renda, políticas públicas, saúde, educação, arte e cultura.
No palco principal e nas tendas de outras organizações indígenas do evento organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), o público acompanhou uma programação com diversas atividades. Por todo o Acampamento, biojoias, cestarias e inúmeros artefatos traduziam a criatividade e a beleza das artes indígenas do Brasil numa grande e diversa feira a céu aberto.
Uma pequena praça marcou a presença das três principais organizações do povo Mẽbêngôkre-Kayapó, com lojas da Arte Indígena/Instituto Raoni (IR), do Instituto Kabu (IK) e da Meprodjà/Associação Floresta Protegida (AFP). A pintura dos grafismos tradicionais também estampou de jenipapo os corpos de parentes e visitantes do ATL pintados pelas menire, as mulheres Kayapó.
Atualmente, cerca de 12 mil Mẽbêngôkre-Kayapó vivem em pouco mais de 150 aldeias ao longo das terras indígenas Baú, Mekragnoti, Capoto/Jarina, Badjônkôre, Las Casas e Kayapó. Esse território ocupa 10,6 milhões de hectares, sem contar com T.I. Kapot Nhinhore, localizada na bacia do Xingu.
Entre as T.I.s Mekragnoti e Capoto/ Jarina e ainda não homologada, representa hoje uma das principais demandas dos Mebêngôkre. A conclusão do processo de demarcação do território onde o cacique Raoni Metuktire passou sua juventude e onde seus ancestrais habitavam é aguardada há mais de duas décadas.
Cacique Raoni, líder do povo Mẽtyktire-Mẽbêngôkre foi um dos convidados na roda de conversa: “Garimpo na Amazônia, a vida após as desintrusões e a recuperação socioambiental dos territórios”. Um público formado por indígenas e não-indígenas lotou a tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) para ouvir Raoni e outras lideranças dos povos Munduruku, Yanomami e Ye’kwana sobre os desafios no enfrentamento às invasões.
Entrevista com o Cacique Raoni. Foto: Reprodução/ Funbio.
A experiência de outros povos no processo de desintrusão deixa evidente a necessidade de pensar em estratégias que possam apoiar as comunidades impactadas pelas operações de retirada da atividade garimpeira. A pauta ganha ainda mais relevância diante do início das operações do Governo Federal em terras kayapó, que devem seguir pelos próximos meses.
A força-tarefa envolve órgãos como Funai, Ministério dos Povos Indígenas, Ministério da Justiça, IBAMA e Força Nacional, entre outros. A primeira fase da desintrusão começou efetivamente em maio com o desmantelamento de bases de garimpo, destruição de dragas e maquinários e fiscalização no entorno das áreas indígenas do povo Mebengokre.
Raoni deu início à sua fala com um recado importante: “Para os nossos parentes que têm atividades ilícitas em seus territórios como o garimpo, vocês precisam se organizar no território de vocês para poder parar com essas invasões.” E continuou: “Estou orientando as novas gerações kayapó, [lembrando] que os nossos ancestrais sempre guerreavam com outros povos, mas hoje a luta é diferente: é contra as ameaças que estamos sofrendo. Os kuben estão atacando nossos recursos naturais e nossos territórios e eu peço aos nossos parentes que lutem para poder parar com isso. É o que eu tenho a dizer a todos vocês.”
A carta final da edição de 2025 do ATL traz a união e a importância de alianças que possibilitem novos futuros para os povos indígenas do Brasil. Como ferramenta de luta, a demarcação dos espaços de tomada de decisão para que os territórios e os modos de vida indígenas possam ser respeitados e o povo Mẽbêngôkre-Kayapó junto a suas organizações já vem se articulando no sentido de garantir seus direitos e ampliar sua autonomia.
Há 21 anos, o ATL reitera sua importância no contexto de mobilização e resistência na luta pelos direitos dos povos indígenas do Brasil. A proteção do território é uma questão transversal que precisa estar acompanhada de ações de geração de renda, principalmente quando os territórios estão próximos às áreas de maior pressão por atividades ilícitas. Para a gestora Josimara Baré, coordenadora do Fundo Indígena Rutî, a luta por autonomia é uma luta por futuros sustentáveis.
Convidada para compartilhar suas experiências na implementação de ferramentas de fortalecimento e autonomia financeira de organizações indígenas na tenda da COIAB, Josimara apresentou o Fundo Indígena Rutî, vinculado ao Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Depois de participar da estruturação do Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e atuar como conselheira em outras iniciativas, Josimara defende a governança própria com foco na comunidade como estratégia de emancipação financeira.
“Não tem indígena com as habilidade técnicas que a comunidade precisa? Por que não capacitamos os jovens e garantimos um processo formativo com estímulo à autonomia, ao invés de fazer por eles? “, pergunta Josimara, contando brevemente a história da criação do FIRN, que contou com apoio de doadores e assessoria do Instituto Socioambiental (ISA) por dois anos, contrariando o suporte com práticas de tutela. “É uma coisa que me toca muito, essa questão de que nós não temos profissionais indígenas capacitados tecnicamente para gerir esses mecanismos [financeiros]. E eu acho que isso vem mudando.”, conta a gestora.
Ao longo da conversa sobre os novos rumos dos fundos indígenas, Josimara lembrou que a governança é o ponto principal para o funcionamento de um fundo. “Ao mesmo tempo que a gente precisa de habilidades técnicas, a gente precisa também de uma sensibilidade das lideranças indígenas e uma visão que elas têm, que muitas vezes os técnicos não têm. Então a soma de habilidades técnicas, com sensibilidade, o olhar, a visão das lideranças indígenas, faz um fundo muito potente. “, explicou.
Uma das novidades do 5º ciclo do Fundo Kayapó é a criação de um planejamento de comunicação, para que cada vez mais pessoas conheçam o Fundo criado em 2011 para fortalecer o povo mẽbêngôkre através de suas organizações.
Responsável pela concepção e execução do planejamento de comunicação do Fundo Kayapó junto ao FUNBIO e à CI-Brasil, a equipe do Estúdio Afluente esteve em Brasília com o comunicador Matsi Waurá para conversar com outros comunicadores indígenas e lideranças do povo Mẽbêngôkre-Kayapó.
Com objetivo de coletar histórias, depoimentos e percepções sobre o Fundo Kayapó, suas atividades e impactos, a equipe de comunicação entrevistou gestores e representantes de associações estruturantes e de projetos locais, assessores técnicos e demais parceiros que atuam diretamente nas atividades das iniciativas mẽbêngôkre.
Presidido pelo cacique Raoni, o Instituto Raoni foi criado em 2001 e é uma das organizações estruturantes contempladas pelo Fundo Kayapó desde o primeiro ciclo junto com a Associação Floresta Protegida e o Instituto Kabu, que chegou ao Fundo no segundo ciclo de investimentos. A tenda do Instituto no ATL funcionou como ponto de encontro para acompanhar as falas e coletivas de imprensa cedida por uma das maiores lideranças do povo Mẽbêngôkre, o cacique Raoni Metuktire.
Acompanhado pelo neto e um de seus intérpretes, Patxon Metuktire, Raoni atendeu aos pedidos de entrevista de diversos órgãos de imprensa nacionais e internacionais. Respondendo à jornalista Amanda Scarparo, do Estúdio Afluente, sobre a importância de investimentos a longo prazo como o Fundo Kayapó para as comunidades mẽbêngôkre, o cacique fez questão de ressaltar a transparência na gestão do Fundo.
Disse ainda que se fosse preciso, puxaria a orelha dos gestores para garantir o acompanhamento dos projetos. “Esse trabalho é muito importante. Eu falo pro pessoal do Instituto Raoni que eles devem focar no trabalho de acompanhamento e execução e em todo o processo dos projetos [do Fundo Kayapó]. Eu sempre faço reunião. Eu vou fazer mais uma reunião e se precisar vou lá puxar a orelha do gestor, pedir pra ele me explicar e trabalhar direito, porque esse é um trabalho importante e que deve continuar.”, declarou Raoni.
Ao longo dos dias de Acampamento Terra Livre, assim como nos dias de reunião do comitê provisório de governança do Fundo Kayapó outras lideranças mẽbêngôkre de diferentes terras indígenas foram ouvidas e entrevistadas. O intuito de coletar material sobre o Fundo Kayapó a partir de seus gestores, lideranças e representantes de departamentos como o Departamento das Mulheres, por exemplo, faz parte do horizonte de colaboração pensado não somente para a comunicação das atividades do Fundo Kayapó, mas como um norte para ações futuras.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Funbio.