Quantas pessoas compartilham do mesmo nome dos representantes da região Norte do BBB 26? Foto: Arte Globo/Manuella Mello
Desistência, eliminação, discussões acaloradas, beijaços, flertes, racha de grupos… O Big Brother Brasil (BBB 26) mal completou duas semanas e já entregou muito entretenimento para o público que acompanha o reality show. Representantes da região Norte do país, os amazônidas Brígido Neto (Amazonas) e Marciele Albuquerque (Pará) seguem na disputa pelo prêmio milionário desta edição, que deve ultrapassar o valor de R$ 5,5 milhões.
Mas, para isso, é preciso que tanto nortistas quanto fãs dos dois participantes espalhados pelo Brasil sejam todos “um só” Brígido ou Marciele.
Por curiosidade, o Portal Amazônia procurou descobrir quantos ‘Brígidos’ e ‘Marcieles’ existem no país, com base no Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Descubra!
‘Brígidos’ no Brasil
Natural de Manaus (AM), Brígido Neto tem 34 anos e é diretor de uma escola particular na capital amazonense. Foto: Divulgação/TV Globo
De acordo com o censo, existem 415 brasileiros com nome de Brígido, que ocupa a 206ª posição na lista dos nomes mais populares no Brasil com a letra B. Na Amazônia Legal, 94 pessoas carregam esse nome, sendo 49 no Maranhão, 30 no Pará e 15 no Amazonas.
Natural de Juruti (PA), Marciele tem 32 anos e é cunhã-poranga do Boi Caprichoso há quase 10 anos. Foto: Divulgação/TV Globo
Considerado o 163º nome mais popular no Brasil com a letra M, Marciele é o nome de 8.333 mulheres em todo o Brasil. Com exceção de Rondônia, todos os demais estados da Amazônia Legal possuem registros deste nome segundo o Censo, totalizando:
De acordo com o site Escreva.ai, biblioteca virtual de palavras da língua portuguesa do Brasil, o nome Brígido significa “forte, firme ou inflexível” e carrega intepretações simbólicas como determinação, rigor moral e personalidade sólida. Sua origem, segundo o Escreva, vem do latim Brigidus, que deriva do termo celta Brig ou Brigh e é associado às ideias de força, elevação e poder.
Já Marciele carrega à raiz Marc que vem do latim Marcus, associado ao deus romano Marte, divindade da guerra, da coragem e da energia vital. Seu significado, conforme o Escreva.ai, herda adjetivos como força interior, coragem e determinação. Dito isso, existe uma relação contextual da Cunhã-poranga Marciele, que representa beleza indígena, coragem feminina, conexão com a natureza e o orgulho cultural.
Censo Demográfico
O Censo Demográfico 2022, do IBGE, apresenta os nomes e sobrenomes mais frequentes identificados pelo levantamento, tendo por base a lista de moradores do domicílio em 1º de agosto de 2022, data de referência do último levantamento.
Essa lista contém a relação de todos os moradores naquela data e estabelece a relação de parentesco ou de convivência de tais moradores com o responsável pelo domicílio.
Trata-se de divulgação oficial que abarca a totalidade do Território Nacional, composto por 27 Unidades da Federação e 5 570 Municípios, abrangendo 203 milhões de pessoas em 90,7 milhões de domicílios, nos quais foram recenseados os nomes e sobrenomes de todos os moradores que, na data de referência, estavam presentes ou ausentes por período não superior a 12 meses.
Há personagens que atravessam os séculos como enigmas. Antônio Raposo Tavares é um deles. Entre herói e genocida, entre cavaleiro da Casa Real e inimigo dos jesuítas, sua vida foi marcada por contradições que fazem parte da formação do Brasil. Ele foi um dos principais bandeirantes paulistas – e neste domingo, 25, é aniversário da cidade de São Paulo. Resolvi relacioná-lo às terras de Rondônia [especifico Rondônia, porque é aqui onde estou, mas o território o assunto abrange partes do Mato Grosso, Amazonas e Pará].
No século XVII, quando Portugal buscava expandir seus domínios na América, uma ordem secreta determinou que exploradores avançassem rumo ao Oeste, em busca de novas províncias minerais. Coube a Raposo Tavares comandar a chamada Bandeira de Limites, partindo de São Paulo em 1648 com 200 paulistas e mil indígenas. Três anos depois, após percorrer mais de 10 mil quilômetros, apenas 58 homens sobreviveram.
A jornada foi épica e brutal: doenças tropicais, confrontos, fome e a vastidão da floresta. Economicamente, um fracasso. Nenhum ouro de Potosí, nenhum grande saque. Mas politicamente, um triunfo. Ao optar por descer a bacia amazônica, Raposo Tavares abriu rotas estratégicas e consolidou a presença portuguesa em territórios que, sem sua ousadia, poderiam ter permanecido sob domínio espanhol. Rondônia, por exemplo, estaria em outro mapa.
Estátua do sertanista Raposo Tavares no Museu do Ipiranga, em São Paulo (SP). Foto: Divulgação
Entre o mito e a sombra
A expedição de Raposo Tavares foi a primeira missão portuguesa documentada na Amazônia. Ele navegou pelos rios Guaporé, Mamoré e Madeira, alcançou Manaus e chegou a Belém. O rei D. João IV recebeu o primeiro relatório oficial sobre a região. Mais de um século depois, o Tratado de Madri (1750) oficializou fronteiras e assegurou a Amazônia a Portugal.
Mas o sertanista não foi apenas desbravador. Foi também destruidor. Suas bandeiras devastaram missões jesuíticas e escravizaram indígenas. A memória de Raposo Tavares ficou por muito tempo silenciada, marcada pela crítica dos padres que o viam como inimigo implacável.
O legado paroxal
Na década de 1920, a historiografia paulista o resgatou como herói da expansão territorial. Seu nome passou a figurar em homenagens oficiais, como a rodovia Raposo Tavares (SP-270), que liga a capital ao interior, além de ter estátuas em museus e é nome de rua até em Lisboa. Assim, o homem que percorreu a maior jornada terrestre da história colonial da América passou a ser lembrado como símbolo de coragem.
Mas a história não se resume a celebrações. Raposo Tavares foi também fruto de sua época: cristão-novo, excomungado pela Igreja, descendente de judeus sefarditas perseguidos pela Inquisição. Um mosaico humano que revela tanto a brutalidade da colonização quanto a audácia que ampliou os horizontes do Brasil.
O sangue e o mapa
Para quem descende de Raposo Tavares, como eu – ele foi meu 11º avô (pelo que me ensina meu mestre em genealogia, José Newton Noronha Almeida, meu primo e igualmente descendente do Raposão) –, sua trajetória não é apenas uma narrativa distante. É parte da própria genealogia. Carrego nas veias o sangue de um homem que, em vida, foi paradoxal: ousado e cruel, visionário e devastador.
Se Rondônia hoje é Brasil, é porque Raposo Tavares decidiu enfrentar o desconhecido. Sua marcha pela Amazônia redesenhou fronteiras e deixou marcas que ainda nos obrigam a refletir: até que ponto a expansão de um território pode ser celebrada sem que se reconheça o preço humano que ela custou?
Raposo Tavares permanece, assim, entre o mito e a sombra. Um personagem que ajudou a mapear o Brasil, mas também expôs as cicatrizes da colonização em território ancestral ameríndio.
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Um carregamento de equipamentos e suprimentos de segurança foi entregue aos comitês de monitoramento de 16 comunidades indígenas localizadas na Reserva Comunal El Sira, na região de Ucayali, no Peru. A entrega foi feita pelo Ministério do Meio Ambiente (Minam) do país vizinho.
Essas ferramentas tecnológicas e equipamentos de proteção individual permitirão que comunitários da Reserva Comunal El Sira reforcem seus esforços de vigilância nessa área natural, que possui mais de 616.000 hectares de florestas e abriga mais de 1.000 famílias dos grupos étnicos Ashininka, Ashaninka e Shipibo-Conibo.
Por meio do Programa Nacional de Conservação Florestal para Mitigação das Mudanças Climáticas, o setor entregou um lote de mercadorias composto por 5 laptops, 4 câmeras, 12 pares de botas militares, 160 pares de botas de borracha, 160 camisas de manga comprida e 160 camisas polo de manga comprida, entre outros itens.
“Esses dispositivos permitirão que os comitês de vigilância comunitária otimizem seus esforços de monitoramento, registrem melhor os incidentes e patrulhem áreas de difícil acesso na Reserva Comunitária El Sira”, destacou Bruno Fernández, Coordenador Zonal do Programa Florestal em Atalaya.
O Ministério do Meio Ambiente (Minam) informou que o equipamento fornecido representa um investimento de cerca de S/ 100.000 (moeda peruana) e foi recebido pelo presidente da EcoSira (Executora do Contrato de Gestão da Reserva Comunal El Sira), José Vásquez, que destacou que ele também permitirá o monitoramento das atividades produtivas realizadas pelas comunidades, juntamente com seus planos de negócios, para garantir o cumprimento adequado de seus compromissos de conservação.
Comunidades indígenas se unem pela conservação das florestas
A iniciativa EcoSira, gerida em conjunto com o SERNANP (Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas), administra a reserva comunal, uma área que abrange territórios nas regiões de Ucayali, Pasco e Huánuco. Representa 69 comunidades indígenas e um povoado. Hermes Liviac, chefe da Reserva Comunal El Sira (RCESR) do SERNANP, participou na cerimónia de entrega dos equipamentos.
O Ministério do Meio Ambiente (MINAM), por meio de seu Programa Florestal, está implementando o Programa de Investimento Florestal no Peru (FIP PERÚ) nas regiões de Ucayali, San Martín, Loreto e Madre de Dios, com financiamento do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Este programa inclui o desenvolvimento de empreendimentos sustentáveis, o fortalecimento do monitoramento e da supervisão comunitária, e outras iniciativas voltadas para a conservação florestal e a mitigação das mudanças climáticas.
Por fim, especificou que as comunidades indígenas beneficiárias são: Alto Aruya, Bajo Aruya, Diobamba, Catoteni, Cocani, Chicosa, Fernando Sthal, Nuevo Paraíso, Nuevo Pozo, Pandishari, Pensylvania, Sempaya, Sheremashe, Shenontiari, Quiapachari e Quempitiari.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em parceria com o Instituto Federal do Maranhão (IFMA), promoveu o ‘I Seminário de Formação Intercultural: Educação, Língua e Cultura do Povo Awa Guajá’, povo indígena de recente contato. O evento foi realizado entre os dias 15 e 17 de dezembro, no campus Santa Inês do IFMA, no Maranhão.
A iniciativa integra o projeto do Curso Médio Técnico em Magistério Awa Pape Mumu’ũha Ma’a Kwa Mataha, voltado à formação de professores indígenas do povo Awa Guajá. O seminário teve como objetivo apresentar e debater o projeto pedagógico do curso, além de iniciar a formação do quadro docente do IFMA para atuação na educação intercultural e específica — que, no caso do povo Awa Guajá, exige atenção diferenciada por se tratar de um povo de recente contato.
O curso tem como objetivo formar 50 professores indígenas para atuação no Ensino Fundamental em suas aldeias e, assim, fortalecer a gestão dos processos educativos próprios e promover a autonomia das comunidades Awa Guajá.
Executada de forma interinstitucional entre Funai e IFMA, a iniciativa é coordenada por uma equipe interdisciplinar composta por especialistas da autarquia indigenista, do IFMA e da Secretaria de Estado da Educação do Maranhão (Seduc-MA).
A formação conta com apoio do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), suporte financeiro da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação (MEC) e constitui a primeira experiência estruturada com base na Instrução Normativa Funai nº 33/2024, que estabelece normas e diretrizes para a atuação da Fundação em processos educativos junto a povos indígenas de recente contato.
Segundo André Ramos, coordenador de Políticas de Educação Escolar e Formação Intercultural, a iniciativa demonstra que a Funai está avançando na construção de uma política específica voltada às ações educativas junto a povos de recente contato.
“Isso é muito significativo, porque a especificidade da legislação da educação escolar indígena é fundamental para garantir uma relação de respeito, de valorização das línguas, das culturas e das formas de vida desses povos, permitindo que a gente se distancie cada vez mais de práticas dominadoras e de violação de direitos”, afirmou
Formação de professores indígenas
O seminário, que inaugurou o primeiro curso específico de magistério voltado a um povo indígena de recente contato, reuniu momentos culturais, debates institucionais e reflexões técnico-pedagógicas, com protagonismo do povo Awa Guajá e articulação entre Funai, IFMA, MEC, MPI e pesquisadores.
A programação abordou os princípios da educação escolar indígena bilíngue, diferenciada, específica e comunitária; o ensino e a aprendizagem em contextos multilíngues; as parcerias entre Institutos Federais e a Funai na formação indígena; a política de proteção aos povos indígenas de recente contato e os marcos normativos que orientam a atuação institucional da Funai.
Também foram debatidas a história, a língua e a cultura Awa Guajá, além da apresentação do projeto pedagógico do curso de magistério e dos resultados parciais do diagnóstico sociolinguístico e sociocultural.
Articulação institucional
O evento contou com representantes da Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental (CFPE) Awa e da Coordenação-Geral de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (CGiirc), ambas vinculadas à Diretoria de Proteção Territorial (DPT); e da Coordenação-Geral de Processos Educativos e Culturais (CGPec), ligada à Diretoria de Direitos Humanos e Políticas Sociais (DHPS) da Funai.
Ao longo da programação, mesas-redondas reuniram especialistas do IFMA, da Funai, do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL), do Instituto Federal do Pará e da Seduc-MA em busca de promover o diálogo entre políticas públicas, conhecimentos acadêmicos e indígenas.
Durante o evento, a Funai apresentou a servidores, professores do IFMA e representantes do povo Awa Guajá o marco legal e a atuação institucional da Fundação no campo da educação escolar indígena específica e diferenciada.
A equipe também compartilhou a experiência de construção e implementação de um projeto educativo intercultural desenvolvido junto ao povo Munduruku — o Projeto Ibaorebu. O objetivo foi contribuir para o planejamento interinstitucional do curso. O relato foi conduzido por Jairo Saw, professor e especialista Munduruku.
Próximos passos
O seminário representou o primeiro passo para a formação das equipes que atuarão no curso de magistério e para o planejamento da primeira etapa da formação, prevista para 2026. Além de fortalecer o planejamento interinstitucional do curso, o encontro possibilitou trocas diretas entre instituições e comunidades indígenas a fim de evidenciar a educação intercultural como instrumento de valorização da cultura indígena, fortalecimento da autonomia e defesa dos territórios.
Para o professor indígena Tatitiá Awa Guajá, liderança do povo Awa, o seminário teve grande relevância para as comunidades. “Esse evento é muito importante para nós, pois reúne pessoas de várias aldeias e traz informações que fortalecem nossa liderança”, afirmou.
O professor Batista Botelho, do IFMA e chefe do Departamento de Direitos Humanos, destacou o papel da formação intercultural no diálogo entre conhecimentos.
“Esse é um momento muito enriquecedor para o Instituto Federal do Maranhão, pois nos permite conhecer de forma mais próxima a realidade de um povo de recente contato e construir um diálogo respeitoso entre culturas. Esse encontro amplia as possibilidades de aprendizagem para todos os envolvidos”, afirmou.
Segundo ele, a proposta do curso fortalece o vínculo entre educação, território e cultura ao reconhecer o compromisso do povo Awa Guajá com a preservação de suas raízes e de seu modo de vida.
Assim como a vegetação que brota do mais árido dos ambientes, a arte que emerge de contextos sociopolíticos de crise afirma a resistência da vida. Uma vida pulsante, que firma os pés na terra e escuta a herança cultural e epistêmica de um território situado em um continente de culturas milenares, como é o caso da América Latina.
Essas práticas artísticas resistem a um contexto de crise num desenhar e esculpir de obras feitas de materiais diversos e a partir de abordagens variadas. No campo da escrita, discutem ideias que revelam não apenas o íntimo dos artistas e escritores, mas também as profundezas e complexidades da identidade de quem as faz. Essa identidade não é homogênea, nem monofônica, pois não se restringe ao indivíduo, mas integra uma possível resposta ao questionamento sobre o que constitui a identidade de toda uma nação, como a Venezuela.
No contexto da arte venezuelana contemporânea, essa identidade é fragmentada em milhares de pedaços provenientes da diáspora que predomina no cenário social e artístico do país frente à opressão de regimes políticos, como os de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Assim, o trabalho de artistas e escritores estão situados em diversos lugares do mundo.
Em Bogotá, Colômbia, o fotógrafo e artista visual de Caracas, Andrés Pérez, reflete em suas obras sobre a construção binária da identidade venezuelana. Em Nova York, Estados Unidos, a artista visual e modelo Cassandra Mayela Allen, também de Caracas, pensa sobre memória e pertencimento em suas instalações ricas em cores e texturas.
Em São Paulo, Brasil, a escritora e roteirista María Elena Morán, natural de Maracaibo, escreve sobre uma revolução venezuelana que nunca nasceu e um Estado em colapso, implicando na busca por uma reconstrução de si em outro país. Na capital da Espanha, Madrid, a artista e fotógrafa coreana-venezuelana Suwon Lee capta paisagem e distâncias em suas fotografias, que exploram a luz enquanto uma força física com o poder de criar imagens.
Essa diversidade de pontos de vista e de vivências refletem a pluralidade identitária do país, que nas últimas décadas teve a sua expressão artística sufocada pelo autoritarismo do regime de Nicolás Maduro. Segundo o relatório da Freemuse sobre o estado da liberdade artística no mundo, publicado em 2025, nos últimos anos a repressão à liberdade artística na Venezuela atingiu níveis alarmantes.
Artistas, coletivos artísticos e eventos culturais foram alvos de ataques sistemáticos que se deram através de assédio, censura e perseguição judicial. Tanto artistas individuais quanto coletivos artísticos passaram a enfrentar cada vez mais riscos ao expressarem discordância ao regime em tentativas de documentar, em seus trabalhos, o contexto sociopolítico turbulento do país.
No último dia 3 de janeiro, o mundo acordou com a notícia de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia invadido a Venezuela durante a madrugada e sequestrado o então presidente, Maduro. O que se seguiu ao acontecimento foi um estado duplo de espírito: enquanto uma parcela da população do país celebra o que parece ser o fim da ditadura até então vigente, a outra protesta contra a violação da soberania do país. Nos dois casos, prevalece a resolução de que o que está por vir é, ainda, uma incerteza.
Arte venezuelana sem fronteiras
Nos últimos anos, a arte venezuelana esteve presente em alguns dos mais importantes centros de artes do mundo. Em 2023, a artista visual alemã-venezuelana Gertrud Louise Goldschmidt, conhecida como Gego, foi tema de uma exposição retrospectiva no Museu Guggenheim de Nova York. Uma obra do artista cinético Elias Crespin foi inserida de maneira permanente no acervo do Museu do Louvre, em Paris, França, em 2023.
Já em 2022, o complexo cultural Centre Pompidou, também em Paris, apresentou uma coleção de trabalhos sintetizando as influências e inspirações do arquiteto venezuelano Carlos Raúl Villanueva. Em 2024, a artista visual de Caracas Sol Calero foi convidada a criar uma instalação para a mais importante exposição de arte do mundo, a Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, que, à época, em sua 60ª edição, teve como tema Foreigners everywhere (Estrangeiros em todo lugar).
Nas américas, a arte venezuelana é espalhada em diferentes centros de artes de diferentes formas. O trabalho de curadores venezuelanos é uma delas. É o caso do poeta, historiador de arte e curador Luiz Pérez-Oramas, que foi curador de Arte Latino-Americana no Museu de Arte Contemporânea (MoMA) de Nova York. Outra curadora de destaque é a escritora, crítica e curadora Gabriela Rangel, que já foi curadora-chefe na Art at Americas Society.
Seja através da pintura expandida, da fotografia, da instalação, da performance ou do texto escrito que desmonta e remonta, a arte venezuelana permanece encontrando lugar em meio à crise que assola sua geografia e o seu povo. É um movimento que exemplifica do que são capazes os talentos latino-americanos no cenário artístico mundial.
Confira a lista de artistas e escritores venezuelanos que refletem sobre a identidade da Venezuela em suas obras:
1. Cassandra Mayela Allen – artista visual e modelo
Memória e pertencimento se encontram na obra da artista visual e modelo Cassandra Mayela Allen, nascida em Caracas. Morando em Nova York, Estados Unidos, desde 2014, ano em que migrou da Venezuela, o trabalho da artista investiga temas de memória e pertencimento através de uma mistura de elementos, por meio dos quais cria instalações ricas em texturas e cores, em uma arte socialmente engajada. Cassandra utiliza em suas obras, feitas a partir de tecelagem, materiais originalmente destinados ao descarte, como roupas e bandeiras.
Obra Hall of fame, de Cassandra AllenArtista Cassandra Allen. Foto: Divulgação
A artista se interessa por temas que tratam de identidade, migração e pertencimento. Em suas bandeiras, Cassandra cria uma paisagem biográfica para a Venezuela a partir de cores vibrantes e fotografias. “Busco compreender como o deslocamento se manifesta no cotidiano, focando naquilo que é retido e no que é transformado para sobreviver”, diz em seu site oficial.
2. José Balza – escritor e ensaísta
O escritor e ensaísta José Balza, nascido e crescido no Delta do Orinoco, é um dos nomes que integrou o boom latino-americano da literatura na década de 1970, ao lado de autores como o argentino Julio Cortázar, o peruano Mario Vargas Llosa e o colombiano Gabriel García Márquez.
Embora menos popular, a obra de Balza, composta por mais de 50 livros, sendo Percusión (1982) o mais conhecido, teve significativa contribuição na literatura latinoamericana. Suas ficções e ensaios, bem como seus aforismos – “Uma notícia pode ser um conto, mas este nunca pode ser somente notícia” –, deixaram marcas permanentes no cenário literário ao entender a literatura como uma forma geológica.
Para Balza, ter crescido junto dos rios do Orinoco foi uma grande influência para a sua produção literária e sua formação subjetiva.
Livro Percussion, de José Balza. Foto: Reprodução/NonadaEscritor José Balza. Foto: Reprodução/Nonada
“Fui criado com frangos, porcos e outros tipos de animais. Achava que era irmão deles, que éramos uma família. Aos cinco ou seis anos, aprendi que éramos diferentes, e que eu era diferente também das árvores. Comecei a escrever para poder me diferenciar das árvores”, escreveu.
3. Sheroanawe Hakihiiwe – artista visual
O artista yanomami Sheroanawe Hakihiiwe, nascido em 1971 em Sheroana, Venezuela, se dedica à produção de desenhos, monotipos e pinturas desde 1990. Sua linguagem artística delicada, abstrata e mínima usa linhas retas e curvas orgânicas, pontos, círculos, triângulos, zigue-zagues, arcos e cruzes.
A obra de Hakihiiwe, que esteve no MASP em 2023, evoca um sentido de preservação, cuidado, arquivo e tradução de imagens e materiais de valores culturais comunitários, produzindo desenhos que expressam a cosmologia yanomami e constroem um inventário do patrimônio intangível de seu povo.
Exposição de Sheroanawe Hakihiiwe no MASP, em 2023. Foto: Reprodução/NonadaO artista Sheroanawe Hakihiiwe. Foto: Reprodução/Nonada
Através de anotações registradas em um caderno, Hakihiiwe observa de modo ativo a natureza e o cotidiano de sua comunidade, apreendendo cantos xamânicos, pinturas corporais e faciais e informações sobre plantas medicinais.
Com base nessas anotações, o artista constrói memórias gráficas da vida na floresta, que posteriormente são transferidas para folhas de papel, nas quais cores, padrões, repetições e texturas chamam atenção. Sheroanawe Hakihiiwe vive atualmente em Mahekoto Theri, comunidade yanomami no município de Alto Orinoco, no estado venezuelano do Amazonas, divisa com os estados brasileiros de Roraima e Amazonas.
4. María Elena Morán – escritora e roteirista
Nascida em Maracaibo, Venezuela, a escritora e roteirista María Elena Morán teve seu primeiro livro publicado em 2021 pela Editora Zouk, com o título Os continentes de dentro. Radicada no Brasil, vive no país há 13 anos. Sua vinda foi motivada por uma história de amor, conforme descreve em seu site. “Foi só aqui [no Brasil] que tive coragem de escrever literatura, mas era uma fome antiga”.
Em seu livro mais recente, Voltar a quando (Biblioteca Azul, 2025), Morán narra a trajetória de Nina, uma mulher que viu cair por terra as promessas de revolução para o seu país, Venezuela, frente ao colapso do Estado. Nina decide migrar para o Brasil em busca de uma nova vida, deixando a filha aos cuidados da avó. “Escrevi Voltar a quando avassalada por três lutos: meu pai, meu país, minha revolução”, relatou ao site Lagoa Nerd. O livro é resultado da tese de doutorado de Morán em Escrita Criativa pela PUCRS. A escritora vive em São Paulo atualmente.
Livro Voltar a quando (Biblioteca Azul, 2025) Escritora María Elena Morán. Foto: Rafael Trindade
5. Suwon Lee – artista e fotógrafa
A artista e fotógrafa coreana-venezuelana Suwon Lee utiliza a fotografia como uma maneira de explorar sua identidade enquanto “estrangeira perpétua”. Lee, nascida em Caracas em 1977, atualmente vive em Madrid e se considera pertencente à diáspora venezuelana contemporânea.
Em seu trabalho, a fotografia é o meio dominante, utilizada para investigar a luz enquanto uma força física com o poder de criar imagens. A paisagem e a distância também são fatores presentes em sua obra. Para Lee, a fotografia serve como uma linguagem literal e metafórica, permitindo explorar dimensões variadas da essência humana.
A beleza serena das imagens feitas pela artista interagem com os temas de memória coletiva, identidade, reflexões sobre crises sociais, passagem do tempo e a relação humana com o espaço e o meio ambiente.
Fotografia de Suwon LeeA artista e fotógrafa Suwon Lee. Foto: Reprodução/Nonada
“A paisagem urbana pode ser contemplada e apreciada graças à distância e ao abrigo proporcionados pela natureza. A única maneira de as cidades e seus habitantes sobreviverem é se tomarem uma profunda consciência da importância de salvaguardar os recursos naturais e o meio ambiente de forma sustentável”, disse em entrevista ao Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York.
Suwon Lee reside em Madrid, na Espanha e já teve trabalhos individuais expostos em Caracas, Madrid e Seul, além de trabalhos coletivos presentes em países como Brasil, França, Chile e Estados Unidos.
6. Érika Ordosgoitti – performer, artista visual e poeta
A performer, artista visual e poeta Érika Ordosgoitti coloca o seu corpo no centro de seu trabalho partindo de provocações contra aquilo que é norma, em termos morais, estéticos e políticos. “A liberdade é o meu comprometimento com a vida. É o valor mais importante que me move”, declara a artista em seu site oficial. Ordosgoitti protagoniza tanto suas performances quanto suas foto-performances. Nelas, a artista de Caracas (1980) joga com a nudez de seu corpo em contraste com espaços urbanos, sejam eles vazios e decadentes ou ocupados por pessoas.
Em Laberinto del Toro (2011), Ordosgoitti monta, desnudada e com uma plateia de transeuntes ao seu redor, o monumento conhecido como El Toro de las delicias, na cidade de Maracay. Na performance, a artista traz o contraste entre o seu corpo nu e vulnerável, segundo normas sociais, e o touro, igualmente nu e imponente, pondo em cheque a maneira como ambos são vistos a partir da desconstrução dessas noções pré-estabelecidas, construindo uma simbologia de liberdade. Atualmente, a artista reside em Chicago, nos Estados Unidos.
7. Valerie Brathwaite – artista visual e DJ
A materialidade constituída a partir de diversas linguagens, como a cerâmica, o bronze, a madeira, têxteis e o cimento ocupa um lugar central na obra de Valerie Brathwaite. Nascida em Trinidad & Tobago em 1938, a artista visual e DJ se radicou na Venezuela em 1969, onde reside até os dias de hoje, em Caracas. Em suas esculturas e instalações, formas e desenhos abstratos circunscritos em linhas sinuosas dão vida a objetos que remetem a figuras orgânicas, como partes do corpo feminino, flores, vegetais e animais.
“Não pretendo ter nenhuma filosofia direta para explicar meus desenhos e esculturas, nem estou comprometida com nenhum movimento artístico específico. Mas há reminiscências orgânicas e sensuais em meus trabalhos, que, imagino, se originam do meu fascínio pela beleza avassaladora de montanhas, rochas, pedras, plantas exóticas, seios e pernas de mulheres, torsos masculinos, pores do sol e os corpos maravilhosos dos animais”, disse em uma entrevista de 1972.
Parte da série série Soft bodies, de Valerie Brathwaite. Foto: Reprodução/NonadaA artista Valerie Brathwaite. Foto: Reprodução/Nonada
Em 2025, a obra de Brathwaite esteve presente na 14ª Bienal do Mercosul, ocorrida em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, intitulada estalo. A série Soft bodies, de 2024, figurou entre as obras expostas na Fundação Iberê Camargo, um dos pontos de exposição do evento.
8. Ángela Bonadies – artista e fotógrafa
No trabalho de Ángela Bonadies, artista nascida em Caracas, em 1970, a fotografia é o meio central para as investigações socioculturais que realiza em estruturas arquitetônicas culturais, com foco na memória, no arquivo, na visibilidade e na invisibilidade dessas estruturas. Bonadies pensa o espaço urbano como um mapa histórico, do qual a existência e as interações humanas, destacadas por contextos políticos, são indissociáveis. A entropia das coisas, acelerada pela intervenção humana, é o que caracteriza a ruína dos edifícios presentes em seus trabalhos.
Parte da série Estructuras de excepción (2015), de Ángela Bonadies. Foto: Reprodução/NonadaA artista Ángela Bonadies. Foto: Reprodução/acervo backroom
Além da fotografia, a artista também utiliza o audiovisual como recurso em suas obras. Em Estructuras de excepción (2015), Bonadies reúne uma série de fotografias de edifícios, separadas por uma palavra-comentário, em um vídeo de dez minutos. A ideia da artista é investigar construções arquitetônicas que incorporam promessas modernas não cumpridas, abortadas pelos ritmos catastróficos da geologia política impulsionada pelo petróleo.
9. Sol Calero – artista visual
A artista visual Sol Calero trabalha com a construção de espaços imersivos utilizando materiais diversos, além de combinar cores vibrantes, remetendo ao tropicalismo da América Latina, cujas vanguardas artísticas são algumas de suas grandes inspirações. O modernismo no Brasil, bem como os conceitualismos do Sul Global e os movimentos que surgiram a partir das ditaduras nos territórios latino-americanos influenciam diretamente a artista.
Instalação de Sol Calero. Foto: Reprodução/NonadaA artista Sol Calero. Foto: Reprodução/Nonada
Nas obras de Calero, ambientes de aparência cenográfica dotados de desenhos e formas feitos a partir de pintura expandida e arquitetura vernacular parecem encenar uma realidade construída em um sonho colorido. Através da diversidade de cores, cenários, objetos e desenhos, Calero referencia sua identificação com uma identidade múltipla e reflexões sobre pertencimento, herança de quem migra. Em 2024, a artista esteve presente na 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza com a obra Pabellón Criollo (Pavilhão Crioulo), uma referência direta ao prato típico venezuelano, mas também à mistura de culturas indígenas, africanas e europeias na região. A artista nasceu em Caracas, em 1982, de onde migrou aos 17 anos.
10. Esdras Parra – poeta, escritora e ensaísta
Nascida na cidade de Santa Cruz de Mora em 1929, a poeta, escritora, ensaísta, tradutora e artista visual trans Esdras Parra começou sua carreira escrevendo e publicando narrativas de ficção. Viveu longos períodos na Europa. Em 1982, após anos morando em Londres, voltou para a Venezuela como uma mulher trans.
Seus três primeiros livros, El insurgente (1967), Por el norte el mar de las Antillas (1968) e Juego limpio (1968), são tidos como obras paradigmáticas dentro do gênero fictício. Depois disso, Parra passou a se dedicar exclusivamente à escrita de poemas e desenhos, período em que publicou as coleções Este suelo secreto (1995), vencedor da segunda Bienal de Literatura Mariano Picón Salas, Antigüedad del frío (2000) e Aún no (2004), publicado poucos meses antes de sua morte, em novembro de 2004, Caracas.
Livro de Esdras Parra Poeta e ensaísta Esdras Parra. Foto: Vasco Szinetar
Em seus poemas, Parra explora a dialética entre o sagrado e o profano. A natureza também é um aspecto evocado pela poeta, que constantemente apresenta elementos que funcionam como arquétipos para o que deseja representar, como a pedra, para simbolizar quietude, e o relâmpago, denotando esclarecimento. Em 2021, o livro póstumo Lo que trae el relámpago, reunião de textos escritos entre 1996 e 1997 e 2002 e 2003, foi publicado pela Fundación La Poeteca.
11. Andrés Pérez – fotógrafo e artista visual
O fotógrafo e artista não-binário visual Andrés Pérez oferece um contraponto à formação binária da identidade venezuelana ao destacar a própria vivência de pessoa não-binária em seu trabalho artístico. Além do tema da identidade, o trabalho de Pérez também encontra aporte em narrativas de memória e violência. Sua linguagem visual é uma mistura de retratos, narrativas documentais, moda e fotografia expandida.
Série Dead homeland (2023-atual). Foto: Andrés Peréz Andrés Peréz. Foto: Reprodução/Nonada
No acervo artístico Dead homeland (2023 – atualmente), compartilhado no site Women Photograph, destinado à exposição do trabalho de artistas mulheres e pessoas não-binárias, Pérez reflete sobre a constituição binária do seu país na segunda metade do século 20 através de fotografias e imagens com intervenção artística. Neste trabalho, o fotógrafo destaca a militarização do corpo humano, bem como a sua submissão aos ideais de beleza. “Essa visão binária violenta levou à exclusão de diversas pessoas, incluindo a comunidade LGBTQIA+”, diz na publicação.
12. Juan Carlos Méndez Guédez – escritor
Doutor em em Literatura hispano-americana pela Universidade de Salamanca com uma tese sobre o escritor venezoelano José Balza, o escritor Juan Carlos Méndez Guédez é autor de novelas, volumes de contos e ensaios. O escritor, nascido em Barquisimeto em 1967, cidade do Oeste da Venezuela, se mudou para Caracas ainda muito jovem.
Livro Arbol de Luna, de Juan Carlos MéndezO escritor Juan Carlos Méndez Guédez. Foto: Acervo Pessoal Juan Carlos
Essa mudança, no entanto, não enfraqueceu o seu vínculo com a sua cidade natal, visto que sua relação intensa com a cidade se manteve, como também influenciou o seu trabalho. Méndez Guédez atualmente reside na Espanha, país onde escreveu e publicou boa parte de sua obra. Seu livro Arena Negra (2012) foi premiado como Livro do Ano na Venezuela pelos livreiros do país, em abril de 2013. Algumas de suas obras são La ola detenida (2017), Los maletines (2014) e El libro de Esther (2011).
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Alexandre Briozo Filho
Análise dos grãos de café na versão portátil do equipamento de infravermelho próximo (NIR). Foto: Antonio Scarpinetti/Embrapa
Pesquisas da Embrapa Rondônia indicam que a espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) permite identificar a origem geográfica do café e detectar adulterações de forma rápida e acessível. A técnica, já empregada em outras cadeias agroindustriais, está em fase de validação para o setor cafeeiro e tem potencial para fortalecer as indicações geográficas e certificações de qualidade do produto brasileiro.
A NIR mede como a luz interage com os compostos químicos. O processo gera um sinal químico chamado de “espectro”, que funciona como uma “impressão digital”. Com base em bancos de dados e algoritmos treinados, o sistema identifica a origem do grão e verifica se há adulterações, em poucos segundos, e sem destruir a amostra.
“É uma tecnologia que permite identificar o terroir do café, chegando ao nível da área produtiva”, explica o pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia.
A pesquisa foi desenvolvida ao longo de cinco anos como parte do doutorado de Michel Baqueta na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a equipe da Embrapa Rondônia. O estudo combinou espectroscopia NIR e análise quimiométrica (aplicação de métodos matemáticos e estatísticos para extrair informações úteis de dados químicos complexos) para criar padrões espectrais capazes de diferenciar origens, detectar adulterações e reconhecer terroirs específicos.
Por exemplo, os resultados separam os cafés robustas amazônicos (inclusive as variedades indígenas) de conilons do Espírito Santo e da Bahia, variedades de café canéfora (Coffea canephora) em diferentes solos cultivados.
A mesma técnica pode ser aplicada em outras cadeias agroalimentares — cacau, soja, leite, frutas e vinhos — com ganhos de rastreabilidade e controle de qualidade. A NIR abre caminho para um novo padrão de confiança na origem e pureza dos produtos agropecuários brasileiros. Nos testes, foi possível identificar adulterações no café com materiais como milho, soja, casca e borra, além de sementes de açaí, apontada por Baqueta como “um tipo emergente de fraude”.
Amostra de café sendo analisada. Foto:Antonio Scarpinetti
Como funciona a NIR
1. A amostra de café (em grão ou moída) é colocada no equipamento. 2. O feixe de luz infravermelha incide sobre o grão. 3. Os compostos químicos reagem e geram um espectro químico — sua ‘impressão digital’. 4. O software compara o espectro com o banco de dados. 5. O sistema identifica origem, pureza e autenticidade em segundos.
Identidade e autenticidade como diferenciais
O trabalho contou com a colaboração de universidades brasileiras e centros de pesquisa da Itália e da França, reunindo competências em ciência de alimentos, química analítica e espectroscopia. Em paralelo, estudos no Espírito Santo aplicaram a mesma metodologia para delimitar terroirs regionais, reforçando a consistência dos resultados e a possibilidade de uso do banco de dados espectral em laboratórios e, futuramente, em equipamentos portáteis.
A validação científica por NIR facilita o reconhecimento técnico e mercadológico dos cafés indígenas amazônicos, fortalecendo sua identidade territorial e cultural. A confirmação de origem e autenticidade agrega valor econômico e simbólico, o que amplia o acesso desses produtores a mercados de cafés especiais e promove a valorização da biodiversidade e dos sistemas produtivos tradicionais.
Contra fraudes e adulterações
Alves explica que a técnica reconhece padrões químicos que funcionam como uma “impressão digital” do grão, permitindo distinguir cafés por origem e pureza. Ela também é capaz de identificar alterações provocadas pela presença de materiais estranhos — como milho, soja, casca, borra ou sementes de açaí — usados em fraudes que se intensificaram com a alta do preço do café no mercado brasileiro. “Se houver contaminante, palha ou outro resíduo, a curva espectral muda e conseguimos confirmar a adulteração”, complementa o pesquisador. É possível saber, também, se houve mistura de grãos em um lote.
A espectroscopia NIR possibilita detectar essas fraudes de maneira rápida e precisa, sem uso de reagentes e sem destruir a amostra. As análises podem ser realizadas diretamente no local de fiscalização, agilizando o controle de qualidade e fortalecendo a rastreabilidade do café brasileiro. “Uma análise convencional pode exigir preparo de amostra e reagentes. Com a NIR, o resultado sai em segundos, com mínimo custo operacional”, destaca Baqueta.
O que a NIR detecta
• Misturas de cafés de origens diferentes (ex.: Rondônia + Espírito Santo) • Adição de materiais estranhos: milho, soja, casca, borra, sementes de açaí • Diferença entre cafés indígenas e não indígenas • Contaminações e impurezas no pó moído
Tecnologia acessível e de baixo custo
Além de evitar adulterações, a técnica abre novas perspectivas para o melhoramento genético e a rastreabilidade digital. A equipe da Embrapa Rondônia pretende aplicá-la ao banco de germoplasma que contém mil acessos de café, para identificar perfis químicos associados a características como o teor de cafeína e minerais. Isso pode acelerar a seleção de materiais de interesse e valorizar cafés de origem, e assim reforçar a imagem de qualidade do produto nacional.
Foto: Michel Rocha Baqueta / Embrapa
Uma vantagem substancial da espectroscopia NIR é a significativa redução no tempo de análise em comparação com os métodos convencionais. Uma avaliação laboratorial tradicional pode levar horas ou até dias, dependendo do preparo da amostra (foto à esquerda) e do uso de reagentes químicos, e gera laudos laboratoriais demorados. Já a leitura por NIR é quase instantânea, fornecendo resultados em poucos segundos. “A técnica oferece rapidez e não requer reagentes, o que representa um avanço relevante para a rastreabilidade e a certificação de cafés de origem brasileira”, enfatiza Alves.
Baqueta acrescenta que o equipamento realiza a leitura sem destruir o grão e sem a necessidade de produtos químicos, o que também diminui custos e resíduos. Essa agilidade, somada à possibilidade de uso em campo com equipamentos portáteis, torna o método especialmente promissor para cooperativas, certificadoras e órgãos de fiscalização, que passam a poder verificar a autenticidade e a pureza do café de forma rápida e padronizada.
NIR em números
1000 acessos do banco genético de café analisáveis
Redução potencial de custo: até 95%
Tempo de análise: segundos
Aplicabilidade em grãos crus, torrados ou moídos
Equipamentos disponíveis em versões de bancada e portáteis
Foto: Michel Rocha Baqueta
A técnica foi idealizada justamente para permitir que cooperativas, associações e agências de certificação tenham acesso a uma ferramenta rápida, confiável e de baixo custo, promovendo a democratização da autenticação e rastreabilidade”, observa afirma Baqueta. Ele destaca que o equipamento de NIR pode ser usado em versões de bancada (foto à direita) ou portáteis, o que facilita a adoção. Ele ressalta que a técnica não exige reagentes, gases ou infraestrutura sofisticada, podendo ser aplicada até em unidades móveis de campo. O treinamento é simples e rápido, e diversos fabricantes já oferecem suporte técnico e capacitação.
Segundo Baqueta, há um movimento crescente de integração da espectroscopia NIR a dispositivos móveis e aplicativos conectados à nuvem, permitindo análises em tempo real e resultados disponíveis em plataformas digitais. Essa inovação pode ligar o campo ao consumidor e oferecer mais transparência no setor do café.
Rastreabilidade digital e certificação de origem
Embora a NIR já seja utilizada em cadeias como leite e soja, seu uso no café ainda é novidade no Brasil. A expectativa é que, com o avanço do banco de dados e a validação dos modelos, a tecnologia seja incorporada a dispositivos portáteis e sistemas digitais de rastreabilidade, ampliando o controle de qualidade ao longo de toda a cadeia produtiva.
Baqueta aponta que, uma vez validados os modelos e definidos protocolos oficiais, os resultados da NIR podem ganhar valor legal como ferramenta de apoio à certificação de origem, pureza e qualidade do café. Isso permitiria que o método seja reconhecido em auditorias e selos de qualidade, consolidando-o como instrumento técnico de confiança para o mercado e órgãos certificadores.
A adoção da espectroscopia NIR pode revolucionar o controle de qualidade e a rastreabilidade do café brasileiro: “A técnica permite monitorar lotes desde a origem até a exportação, prevenindo fraudes e fortalecendo a confiança do mercado. Também facilita ações de fiscalização mais ágeis e transparentes por parte de órgãos públicos e cooperativas”, diz Baqueta.
Por que isso importa?
Democratiza certificações, tornando-as viáveis para cooperativas e pequenos produtores.
Fortalece indicações geográficas e combate falsificações.
Aumenta a rastreabilidade e a confiança do mercado.
Valoriza cafés indígenas e produtos com identidade territorial
Uso coletivo
O custo inicial pode ser considerado um desafio, mas, para Baqueta, “a capacidade de uso coletivo torna o investimento viável”. Além disso, o treinamento é considerado simples e rápido, o que pode ser facilitado por programas de capacitação e suporte técnico de fabricantes.
Entre as próximas metas da pesquisa estão a ampliação do banco de dados espectral com amostras de diferentes regiões do Brasil e o desenvolvimento de uma plataforma digital de autenticação, conectando produtores, cooperativas e certificadoras. A expectativa é consolidar a NIR como referência nacional para autenticação e rastreabilidade dos cafés brasileiros.
Glossário
Espectroscopia NIR – técnica que usa radiação na região do infravermelho próximo para identificar compostos químicos.
Curva espectral – gráfico que representa a resposta química do café à radiação eletromagnética.
Terroir – conjunto de fatores ambientais e culturais que influenciam o sabor e a composição.
Quimiometria – análise multivariada dos dados químicos coletados.
Impressão digital química – assinatura única de cada amostra.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
Belém (PA) enfrenta um desafio de saúde pública complexo e multifacetado: o suicídio. Mais do que um problema individual, manifesta-se em diversas áreas, por fatores biológicos, econômicos, sociais e pessoais, deixando um rastro de impactos significativos na sociedade. A verdadeira dimensão desse dilema na cidade é obscurecida por uma realidade preocupante: a subnotificação e as falhas no registro de dados.
Segundo o Datasus, em 2022, o Pará registrou 1.484 casos de lesões autoprovocadas, com 235 deles em Belém. Contudo a pesquisadora Samara Machado Paiva, autora da dissertação de mestrado Itinerário, cuidado e vivência de profissionais de saúde na atenção à pessoa em risco e crise suicida, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), destaca que ainda existem casos não registrados.
De acordo com ela, muitas mortes por suicídio também são registradas como morte por outra causa, por exemplo, quando o óbito intencional por atropelamento é registrado como acidente de trânsito.
A subnotificação é um problema. A Lista Nacional de Notificação Compulsória deveria ser realizada pelas unidades de saúde em até 24 horas. No entanto a rotina corrida dos serviços de saúde e a burocracia do preenchimento das fichas de violência autoprovocada frequentemente impedem que isso ocorra.
Além disso, Samara também destaca que a ficha não traz critérios importantes para estimar dados sobre grupos vulneráveis, como gênero (restrito a masculino e feminino) e cor, que nem é um campo obrigatório.
Setembro Amarelo é a campanha de prevenção ao suicídio. Foto: Reprodução/Fenatibref
Apesar das lacunas nos dados oficiais, a pesquisadora identificou que a faixa etária mais vulnerável é a de jovens entre 16 e 32 anos.
Além deles, indivíduos que enfrentam vulnerabilidades relacionadas ao sofrimento mental, como as mulheres, o público LGBTIQIA+ e as pessoas negras, também apresentam um risco elevado, assim como profissionais da área da saúde e da segurança, como policiais.
Porém ela ressalta que “esses dados dizem mais sobre pesquisas quantitativas do que sobre os dados de que temos registros”. O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 e 29 anos globalmente, e uma das 10 principais causas de óbito em todas as faixas etárias.
A dimensão real do problema em Belém é preocupante. A pesquisadora, que atua em uma equipe multidisciplinar na atenção primária, relata atender, diariamente, a crianças e adolescentes já apresentando ideação suicida. Para ela, um alarme deve soar, pois estes são sinais de que as estratégias não estão funcionando.
Raps desarticulada: um obstáculo crítico ao cuidado
A dissertação expõe uma grave desarticulação na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Belém, evidenciada falta ou precariedade de comunicação entre os diversos pontos de atenção. O fluxo teórico de atendimento prevê o encaminhamento de usuários com ideação suicida ao Hospital de Referência da Raps para estabilização e, posteriormente, ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) para continuidade do Projeto Terapêutico Singular (PTS), mas não é o que acontece na prática.
A falta de articulação prejudica, diretamente, o cuidado da pessoa em risco ou com ideação ao suicídio. Profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) ficam sem condições de orientar o atendimento, porque a comunicação com os Caps e com a urgência é falha.
Nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), muitos pacientes recebem o atendimento inicial após uma tentativa de suicídio, mas saem sem continuidade do cuidado psicológico. Sem acesso ao histórico completo, a APS não consegue planejar ações de prevenção e pós-venção, e as informações acabam chegando de forma informal pela comunidade.
Os dados do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab) mostram essa falta de articulação, com poucos ou nenhum encaminhamento da Atenção Primária para serviços especializados em casos de suicídio. Segundo Samara, isso não significa ausência de cuidado, mas falhas de registro. A sobrecarga de trabalho, a falta de equipamentos e a complexidade dos formulários fazem com que o atendimento seja priorizado e o registro fique em segundo plano.
Universidade Federal do Pará investiga o aumento de suicídio entre jovens. Foto: Professor Gilmar / UFPA
Uma alternativa pela prevenção entre os jovens
A pesquisa de Samara mostra uma grande falha na formação dos profissionais de saúde: a falta de disciplinas sobre suicidologia, principalmente quando se trata sobre jovens. Psicólogos, terapeutas ocupacionais e enfermeiros entrevistados apontam essa ausência como uma das principais barreiras para um atendimento qualificado. Na prática, isso faz com que muitos profissionais não saibam reconhecer sinais de risco ao suicídio ou conduzir uma crise, encaminhando rapidamente os casos ao Caps, que já está sobrecarregado.
A pesquisadora destaca que, embora a sensibilidade seja individual, a técnica para lidar com o sofrimento deveria fazer parte da formação. Um profissional bem preparado identifica sinais de risco mesmo em dias difíceis. Porém, como a graduação não oferece esse preparo, muitos aprendem apenas em cursos externos, por iniciativa própria. Isso gera profissionais inseguros, que, por medo ou falta de preparo, acabam negligenciando o cuidado ou repassando a responsabilidade, criando um ciclo de atendimento inadequado que prejudica o paciente.
A dissertação propõe a implementação de uma “clínica ampliada” que vá além do enfoque hospitalar, valorizando o cuidado no território e no cotidiano do sujeito. Essa perspectiva entende que o sofrimento existencial não se restringe aos espaços formais de saúde, mas permeia a vida das pessoas em diversos ambientes, como escolas, universidades, locais de trabalho etc.
Nesse contexto, a figura dos “guardiões da vida” emerge como um potencial transformador. São indivíduos da comunidade que, mesmo sem formação profissional específica, estão em contato contínuo com as pessoas em situações críticas e cotidianas. Eles podem identificar crises e sinais de risco para o suicídio, como mudanças de comportamento, despedidas implícitas ou discursos mórbidos, e atuar como uma ponte entre o SUS e os usuários, aumentando o acesso a serviços antes do agravamento dos casos e com o uso de recursos de menor complexidade.
Capacitar esses “guardiões” — como educadores, profissionais de segurança e outros envolvidos em crises e pós-venção — é essencial para fortalecer a rede de apoio informal em prevenção ao suicídio. Samara defende que é preciso treiná-los e aproximar a escola do cuidado em saúde, criando protocolos de prevenção e registrando informações sobre a vulnerabilidade emocional dos alunos. Ampliar a clínica para além dos serviços de saúde, alcançando os espaços em que as pessoas circulam, é fundamental para que a sociedade inteira participe da prevenção.
Sobre a pesquisa: a dissertação de mestrado ‘Itinerário, cuidado e vivência de profissionais de saúde na atenção a pessoas em risco e crise suicida’ foi defendida por Samara Machado Paiva, em 2024, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP), Campus Belém, com orientação da professora Maria de Nazareth Rodrigues Malcher de Oliveira Silva.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 176, escrito por Luiza Amâncio
As ações de integração de cultura e meio ambiente serão realizadas na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, no contexto do projeto ‘Esperançar Chico Mendes’, coordenado pelo MMA. Foto: Divulgação UFAC
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) firmou acordo de cooperação técnica Esperançar Chico Mendes, com objetivo de fortalecer a gestão socioambiental e promover a valorização do patrimônio cultural em territórios de povos e comunidades tradicionais no Brasil. As ações serão implementadas prioritariamente na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, no âmbito do projeto de mesmo nome.
A parceria com o Ministério da Cultura (MinC), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estabelece uma atuação integrada para identificar, reconhecer e valorizar os modos de vida, os saberes e a diversidade cultural dessas populações.
Na Resex Chico Mendes, o Turismo de Base Comunitária (TBC) tem sido fortalecido como instrumento de valorização e proteção do território, além de oportunidade de diversificação da economia da sociobiodiversidade.
A iniciativa também prevê a ampliação das ações para outras unidades de conservação de uso sustentável e territórios tradicionais em diferentes regiões do país.
Foto: Gilvani Scatolin/ISA
Integração entre cultura e meio ambiente
Entre os instrumentos previstos está a utilização do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), ferramenta que possibilita o registro participativo das referências culturais associadas à gestão socioambiental, à identidade e à memória dos territórios.
As atividades incluem, ainda, ações de educação ambiental e patrimonial, fortalecimento de organizações comunitárias, promoção do turismo de base comunitária e incentivo à economia da sociobiodiversidade, com protagonismo de mulheres e jovens.
Na avaliação da secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT), Edel Moraes, a parceria reforça o compromisso do governo federal com a justiça socioambiental e a valorização das culturas tradicionais.
“A integração entre cultura e meio ambiente é o caminho para a proteção dos direitos das populações cujas formas de viver historicamente protegem os recursos da natureza”, destacou.
O acordo terá vigência de quatro anos e será executado por meio de cooperação técnica, disponibilização de equipes e compartilhamento de conhecimentos, experiências e metodologias entre as organizações envolvidas.
Coordenada pelo MMA, com alicerce na participação social, a iniciativa busca o reconhecimento, a valorização e a salvaguarda do patrimônio cultural e socioambiental dos territórios tradicionais.
O projeto se orienta pelos princípios do pertencimento, da identidade, do empoderamento e do respeito aos modos de vida tradicionais para fomentar a geração de renda, de forma integrada e interdependente à economia da sociobiodiversidade.
*Com informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Rasga-mortalha, coruja-da-igreja, coruja-das-torres, suindara… esta icônica coruja com “carinha de maçã” (Tyto furcata) tem muitos nomes e possui uma característica horripilante: um grito alto e bastante agudo, que alguns acreditam ser anúncio de morte.
Reza a lenda que a presença da suindara perto de uma casa é mau presságio. O nome popular rasga-mortalha, inclusive, faz referência ao material usado para envolver cadáveres. A explicação é que o canto da suindara lembra um pano sendo rasgado.
A antiga crença popular revela que, embora pareça assustador no meio da noite, o grito não é um prenúncio de morte. Serve apenas para a ave se comunicar com seu parceiro e demarcar território, e não para avisar que alguém “vai de arrasta pra cima” ou está prestes a “bater as botas”.
Estas aves são cercadas de mitos desde a época do Império Romano. No ano 77, o historiador romano Plínio, o Velho, em seu livro História Natural, chamou a ave de “monstro da noite” que carrega más notícias. As corujas também foram mencionadas em diversas obras do escritor inglês William Shakespeare, como em Macbeth (1623). “Foi a coruja que gritou, o mensageiro fatal”, disse a personagem Lady Macbeth após a morte do rei Duncan.
“Associar sons de aves noturnas com espíritos e presságios é uma prática antiga presente em diversas culturas indígenas. É uma herança de tradições medievais, nas quais o canto da coruja era visto como sinal de tragédia ou morte”, conta o biólogo e educador do Museu Biológico do Instituto Butantan, Matheus de Moraes dos Santos.
No Brasil, o mito da rasga-mortalha nasceu de uma mistura de crenças trazidas pelos europeus durante a colonização, e ganhou força principalmente no Nordeste e no Norte.
Na região amazônica, a suindara costuma ser associada à personagem do folclore Matinta Pereira, uma mulher que se transforma em coruja e assusta as pessoas durante a noite com seu canto estridente. Segundo a história, ao ouvi-la, os moradores devem oferecer prendas, como café ou tabaco, para não sofrerem consequências negativas. A mulher retorna na manhã seguinte em busca de sua recompensa.
Características como o formato da face e os olhos pequenos a diferem de outras corujas (Foto: Vinícius Radica Correa – Instituto Butantan)
Afinal, o que é a coruja suindara de verdade?
As suindaras ou corujas-das-torres existem há quase 30 milhões de anos. Elas fazem parte da família Tytonidae, que compreende 20 espécies espalhadas pelo mundo. No Brasil, vive a espécie Tyto furcata, também encontrada em toda a região das Américas, dos Estados Unidos ao Chile.
A maioria das corujas que vemos nos filmes – como a famosa Edwiges do Harry Potter – é da família Strigidae, que é muito mais populosa, com mais de 200 espécies já descritas.
Diferente de suas primas, que em geral possuem cabeças redondas e olhos grandes, as suindaras têm uma carinha que lembra o formato de um coração ou uma maçã, com olhos pequenos.
Elas têm hábitos noturnos e gostam de ficar em áreas abertas e semiabertas, como campos, bordas de floresta e até nas cidades. Para se abrigar e proteger os ovos, as suindaras se aproveitam de cavidades como ocos de árvores, cavernas, forros de casas, galpões e torres de igrejas (daí o nome coruja-das-torres).
O canto “rasgado” é bem característico das corujas da família Tytonidae, enquanto as da família Strigidae costumam emitir o clássico “hoo hoo”. Uma mesma coruja, na verdade, pode ter de três a quatro tipos de vocalização.
O amor está no ar
Romântica, a suindara costuma viver em casal e escolhe um parceiro para toda a vida. Para conquistar a fêmea, o macho performa “voos de exibição”, sempre acompanhados de vocalização. Quando o par está formado, ele a presenteia com banquetes, levando presas para o ninho.
O sucesso da reprodução depende da disponibilidade de alimento e pode ocorrer em qualquer época do ano. Em geral, a coruja-das-torres pode colocar de quatro a sete ovos.
O par vive em cooperação e divide as tarefas em casa: o macho leva alimento para a parceira e os filhotes, enquanto a fêmea cuida da ninhada. Após cerca de um mês, o casal volta a caçar juntos para alimentar a prole. Com cerca de 80 dias de idade, quando já sabem voar e caçar sozinhos, os filhotes deixam o ninho.
Super predadoras
As suindaras, assim como outras corujas, são caçadoras profissionais e conseguem localizar as presas com muita precisão. Além dos ouvidos assimétricos, que ampliam o alcance de sua audição, elas possuem um disco facial (estrutura de penas ao redor da face) que funciona como uma antena parabólica, direcionando o som para seus ouvidos.
Outra vantagem é a capacidade de virar a cabeça em até 270°, no estilo O Exorcista. Isso ajuda a coruja a observar os arredores, procurar presas e identificar predadores, já que a mobilidade de seus olhos é limitada.
A ave também é mestre na arte de espreitar: as pequenas “franjas” (serrilhas) na borda das asas garantem um voo silencioso, o que a ajuda a passar despercebida.
O principal alimento da suindara são os ratos, por isso ela é muito importante para controlar a população desses animais – que são capazes de transmitir doenças. Em média, a coruja pode predar quatro roedores por noite, totalizando mais de 1.400 no ano. Ela também gosta de insetos e pequenos vertebrados como morcegos, anfíbios, répteis e outras aves.
Além do papel no controle de roedores, a suindara é um bioindicador da saúde do ambiente, por ser sensível a poluentes e metais pesados. Assim, diferente do que muitos acreditam, a presença dela é um ótimo sinal: significa que o ecossistema está em equilíbrio.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Butantan, escrito por Aline Tavares
Entre os anos de 2020 e 2025, o Governo Federal não realizou nenhuma operação de fiscalização ambiental voltada especificamente ao combate ao descarte irregular de plásticos nos rios do Amazonas. A informação foi admitida pelo próprio Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em documento obtido pelo Grupo Rede Amazônica.
No ofício, assinado pelo ministro substituto do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, em dezembro de 2025, além do MMA, órgãos como Instituto Chico Mendes (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) admitem a falta de ações de fiscalização e “apagão” nos dados sobre poluição plástica na Amazônia, mesmo com a contaminação de peixes em níveis preocupantes, segundo especialistas.
De acordo com o Ibama, nos últimos cinco anos não houve operações de fiscalização com foco específico no descarte irregular de resíduos plásticos em ecossistemas amazônicos, incluindo os rios do Amazonas. O órgão afirma que suas ações de fiscalização relacionadas a resíduos sólidos se concentraram principalmente em portos e aeroportos, onde há entrada de materiais controlados ou proibidos por lei.
O Ibama informou ainda que, ao consultar sua base de dados, encontrou apenas três autos de infração isolados em 2023 que podem ter relação com descarte de resíduos no bioma amazônico. Nos demais anos, não foram identificadas autuações diretamente ligadas ao tema.
No mesmo documento, o próprio ICMBio admite que não possui registro oficial de estudos próprios capazes de identificar quais espécies da fauna amazônica estão sendo impactadas pela poluição plástica.
Poluição de rios com plásticos traz riscos à fauna, flora e seres humanos na Amazônia. Foto: Divulgação/ MCTI
Estudos apontam crescimento da poluição por plástico no bioma amazônico
Estudos científicos indicam a presença crescente de resíduos plásticos e microplásticos nos rios amazônicos, com impactos sobre peixes, tartarugas, aves e outras espécies.
Em setembro de 2025, um estudo coordenado pelo Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia (Legepi), do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), em parceria com o Instituto Mamirauá, constatou que os riscos não são somente aquáticos e terrestres, mas também envolvem danos à saúde humana.Populações ribeirinhas e indígenas, por exemplo, estariam diariamente expostas a toneladas de lixo flutuante.
“A contaminação de fontes importantes de alimentos e de água representa um grande risco para a Saúde Única de populações tradicionais”, destacou Jéssica Melo, bióloga e pesquisadora da Fiocruz que participou da pesquisa.
O alerta para o problema já vinha sendo sinalizado por pesquisadores. Em 2023, outro estudo do Instituto Mamirauá encontrou plástico no intestino de seis espécies de peixes no Amazonas. Entre os pescados analisados estão tambaqui, jaraqui e pacu.
A análise foi realizada em peixes comercializados no mercado municipal de Tefé, interior do Amazonas. Nos 336 peixes examinados, foram encontradas 34 partículas com forma de fragmentos e filamentos. Sacola, linha de pesca e isopor foram os materiais mais encontrados.
“As descobertas do estudo são voltadas para as populações naturais de peixes encontradas na região do Médio Solimões, nas proximidades da cidade de Tefé. Essa é uma região que possui grande parte do seu comércio de peixes baseado em pesca artesanal”, afirmou a pesquisadora Carolina Sarmento.
Estudo encontra plástico no intestino de 6 espécies de peixes no Amazonas. Foto: Carolina Sarmento/Arquivo Pessoal
Por que não há fiscalização?
Os órgãos federais apresentam justificativas semelhantes sobre a falta de fiscalização. O Ministério do Meio Ambiente afirma que a gestão de resíduos sólidos e a limpeza urbana são responsabilidades dos municípios, conforme a legislação brasileira. A atuação do governo federal, segundo o ministério, se concentra na formulação de políticas públicas, apoio técnico e financeiro e coordenação nacional.
O MMA cita como avanços recentes a publicação de dois decretos, em outubro de 2025, incluindo a criação de um sistema de logística reversa de embalagens plásticas e a Estratégia Nacional de Combate à Poluição Plástica.
Já o Ibama reforça que suas ações de fiscalização são definidas a partir de planejamento estratégico, do Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental ou de operações emergenciais. O órgão também destaca que denúncias formais feitas pelos canais oficiais são fundamentais para viabilizar investigações e autuações.
Iniciativas tentam mudar cenário
Enquanto o governo federal admite não ter dados, fiscalização nem plano estruturado para enfrentar o avanço do lixo plástico na Amazônia, iniciativas da sociedade civil já mostram, na prática, a dimensão do problema.
O projeto Galho Forte, criado em 2020 pelo deputado Amom Mandel (Cidadania-AM), atua em todas as zonas da capital e, mais recentemente, no interior do estado, com ações em municípios como Parintins e Tefé.
Durante o período de estiagem, quando os igarapés expõem o que normalmente fica submerso, o Galho Forte concentra esforços na retirada manual de resíduos sólidos das margens e leitos dos cursos d’água — exatamente onde o plástico entra no sistema alimentar e segue para os grandes rios da Amazônia.
Somente em 2025, mais de 1.500 voluntários participaram de 50 ações ambientais realizadas em Manaus, resultando na retirada de mais de 10 toneladas de lixo das margens de rios e igarapés.
Voluntários do projeto Galho Forte durante ação em Manaus. Foto: Divulgação