No evento que une a energia do carnaval com a magia do boi-bumbá, o Carnaboi encerra nesta terça-feira (17) as festividades do Carnailha 2026, a segunda maior festa cultural de Parintins (AM). A partir das 18h, foliões e torcedores dos bois Caprichoso e Garantido prometem lotar o Circuito Carnailha para prestigiar a festa, que marca o início da temporada bovina na cidade.
A programação do Carnaboi conta com as apresentações dos principais artistas dos dois bois, que reúnem toadas de sucesso em cima dos trios elétricos.
Nos intervalos, Gilson Matos e Gean Figueira, cantores oficiais do Garantido e do Caprichoso, respectivamente, fazem participações especiais com o grupo Toada de Roda.
O Carnaboi 2026 acontece no Circuito Carnailha, realizado na Avenida Paraíba, no Centro de Parintins, e é aberto ao público.
Confira a programação:
18h – DJ Ruan Santos
19h às 20h – Grupo Toada de Roda/Gilson Matos e Gean Figueira
20h às 20h40 – Sebastião Júnior
20h40 – Grupo Toada de Roda/Gilson Matos e Gean Figueira
20h50 às 21h40 – Caetano Medeiros/ Júnior Paulain
21h40 – Grupo Toada de Roda/Gilson Matos e Gean Figueira
21h50 – 22h40 – Israel Paulain
22h40 – Grupo Toada de Roda/Gilson Matos e Gean Figueira
22h50 às 23h40 – Edmundo Oran
23h40 – Grupo Toada de Roda/Gilson Matos e Gean Figueira
23h50 às 00h40 – David Assayag / João Paulo Faria
00h40 – Grupo Toada de Roda/Gilson Matos e Gean Figueira
00h50 às 01h40 – Patrick Araújo
2h às 3h30 – Edilson Santana e Banda – Encerramento
Preparação para o Carnaboi
Para o Carnaboi 2026, os bois Caprichoso e Garantido dedicaram uma atenção especial ao evento, que marca a abertura da temporada bovina para o Festival Folclórico.
Pelo lado do Touro Negro, centenas de profissionais estarão envolvidos tanto na produção quanto na organização da apresentação azulada.
“Vamos estar com todo o nosso elenco, itens oficiais, com exceção da Marciele, que está no reality [BBB]. Vamos ter nossos blocos alegóricos, mais a equipe de produção do galpão, a equipe de produção que vai estar junto com a banda”, explica o membro do Conselho de Arte, Jair Almeida.
Caprichoso terá mais de 350 profissionais envolvidos na apresentação do Carnaboi, no Carnailha 2026. Foto: Michel Amazonas/Assessoria Boi Caprichoso
Já no Boi Vermelho e Branco, o coordenador de Comissão de Artes, Telo Pinto, detalhou que o repertório dos show promete empolgar e o público poderá esperar novidades.
“O circuito será realmente fantástico e o Garantido irá com show. Serão três shows muito bem montados. É o pontapé inicial do nosso festival. Todo mundo já vive essa expectativa e teremos muitas novidades pelo lado do Garantido. Queremos fazer com muito empenho e dedicação para empolgar nossa população e a Nação Vermelha e Branca”, explicou.
No Garantido, preparação dos itens seguiu a todo vapor para a apresentação no Carnailha 2026, que abre a temporada bovina. Foto: Sérgio Cole/Assessoria Boi Garantido
O Carnaval por si só é uma festa alegre, animada e cheia de surpresas. Escolher o local onde curtir a festa é importante, pois assim é possível conferir como a cultura local impacta a festa popular. Um exemplo é o Carnailha, a festa de Carnaval da Ilha da Magia, como é conhecido o município de Parintins (AM).
O Carnailha é o segundo maior evento da cidade amazonense, que é conhecida mundialmente por seu Festival Folclórico, que celebra a disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido. E é essa uma das manifestações culturais que se misturam ao festejo momesco.
O evento é tradicionalmente celebrado no domingo, segunda e terça de Carnaval, com desfiles e disputas entre blocos – divididos entre os grupos Irreverente e Chave Especial – e ainda o esperado Carnaboi, uma parte da festa dedicada à celebrar o Festival Folclórico com suas toadas.
Mas muito além de escolher Parintins para pular com as marchinhas e se divertir neste período, é possível conhecer pontos turísticos e emblemáticos da cidade durante os dias de Carnaval. Confira um mapa que mostra alguns dos pontos mais conhecidos e como é possível conhecê-los até mesmo à pé!
Foto: Yuri Pinheiro/Acervo Prefeitura de Parintins
O segundo dia do Carnailha 2026 promete ainda mais animação com a disputa da Chave Especial. O segundo maior evento cultural de Parintins, segue nesta segunda-feira (16), com homenagens, resgates históricos e a força da mulher.
O Carnailha 2026 é realizado na Avenida Paraíba, no Centro de Parintins, com entrada gratuita, mas também venda de mesas e camarotes. O evento acontece nos dias 15, com os blocos do grupo Irreverente; 16, com o desfile da chave Especial; e 17, com o Carnaboi.
A segunda noite do Carnaval da ilha da magia, conta com seis grupos que compõem a chave Especial. Confira a ordem da apresentação e seus respectivos temas para o Carnailha:
1°: Metralhas
Fundado em 1989, o bloco mais antigo do Carnailha mantém a sua tradição de abrir a segunda gorda de Carnaval. Neste ano, o bloco irá homenagear os responsáveis pela limpeza pública de Parintins: os garis. O enredo dos Metralhas, presidido pelo Elson Barros, promete “levantar a poeira com os garis da Ilha”, como diz a marchinha que visa reconhecer a importância desses profissionais.
Tradicional bloco que abre a chave especial homenageará os garis que trabalham na cidade. Foto: Divulgação/Bloco Os Metralhas
2°: Bad Boy
Em 2026, o bloco Bad Boy, sob a presidência de Assis Oliveira, entra na avenida mergulhando na histórica rota do navio japonês Kasato Maru, que saiu do Porto de Kobe e floresceu na Vila Amazônia, em pleno solo parintinense, trazendo imigrantes japoneses. O tema ‘Parintins abraça forte o Japão’ reserva muitas emoções e um grande resgate histórico dentro do Carnailha.
Apresentação no bloco Bad Boy, durante o Carnailha 2025. Foto: Reprodução/Instagram-Prefeituradeparintins
3°: Império do Palmares
Num enredo que mistura cultura, consciência ambiental e sustentabilidade, o bloco leva pra avenida uma homenagem ao município de Presidente Figueiredo, a menina dos olhos da Amazônia. Considerada uma das cidades mais rica na flora e fauna, a Terra das Cachoeiras terá sua história contada de forma artística, educativa pelo bloco presidido por Netinho do Império.
Conhecida por ser a Terra das Cachoeiras, Presidente Figueiredo será a homenageada pelo bloco Império do Palmares. Foto: Divulgação
A força, resistência e coragem da mulher será o tema que o bloco FAX vai levar para a avenida do Carnailha. Numa espécie de tributo, o bloco pretende dar voz e vez para aquelas que são sinônimos de garra e resiliência desde os primórdios descritos nos livros de história até as guerreiras do cotidiano parintinense. O bloco é presidido por Maurício Porto.
Ensaio do bloco Fax. Foto: Arquivo Fax
5°: Unidos do Itaúna
Das primeiras brincadeiras de rua até o desfile na avenida. É desta forma que o bloco Unidos do Itaúna quer resgatar sua história neste ano no Carnailha. O tema escolhido, segundo o presidente Edmar Bitercourt, visa fazer um resgate cronológico e social das comunidades Itaúna 1, Itaúna 2 e Paulo Correia, que formaram a identidade da região.
Bloco Unidos do Itaúna. Foto: Sidney Simas
6°: Rubro Negro
A ancestralidade indígena de Parintins vai entrar na avenida com o bloco Rubro Negro, que apresenta o tema ‘Guerras na Mundurukania: Muras x Mundurukus’, como uma forma de exaltar a identidade e memória dos povos originários. O presidente Jailson Rodrigues afirma que o bloco, atual campeão do Carnailha, vai em busca do bicampeonato em 2026.
Bloco Rubro-negro é o atual campeão da chave especial do Carnailha 2026. Foto: Sidney Simas
Pelo segundo ano consecutivo, a Prefeitura de Parintins leva as marchinhas e os sambas-enredo do Carnailha às principais plataformas digitais, ampliando o acesso do público às músicas que vão embalar a festa em 2026.
O álbum ‘Carnailha 2026’ é composto pelas as marchinhas dos blocos:
Os olhos do mundo estão voltados para os desfiles das escolas de samba em São Paulo e Rio de Janeiro. Para ajudar a fazer os espetáculos que vão tomar conta da avenida, artistas e profissionais do Amazonas cruzaram o país e estão entre os destaques nos sambódromos do Anhembi e da Marquês de Sapucaí.
O desfile das escolas de samba do grupo especial foram sexta-feira (13) e sábado (14), em São Paulo. Já no Rio de Janeiro, as principais agremiações desfilam nesta segunda (15) e terça-feira (16).
Da avenida à criação de enredos e alegorias, conheça talentos amazonenses que marcam presença nas principais escolas do país em 2026:
Musa no Anhembi
A amazonense Tamires Assis foi confirmada no Grupo Especial de São Paulo como Musa da Camisa Verde e Branco. Ela levará para o Sambódromo do Anhembi a representatividade, a beleza e a força da mulher nortista na tradicional escola paulistana.
Nascida em Manaus, Tamires já foi guia do levantador de toadas do boi Garantido, David Assayag, que tem deficiência visual. Além de modelo, ela é ativista social e dançarina.
Amazonense Tamires Assis foi confirmada no Grupo Especial de São Paulo como Musa da Camisa Verde e Branco no Sambódromo do Anhembi. Foto: Divulgação
Talento na Sapucaí
No Rio de Janeiro, o artista Alex Salvador assina trabalhos de destaque no Carnaval carioca. Ele é responsável pelo abre-alas da Mangueira, pelas esculturas da Viradouro e pela icônica Águia da Portela que desfilarão na Sapucaí este ano.
O amazonense também atua em projetos na Vila Isabel, Imperatriz Leopoldinense, Grande Rio e na União de Maricá.
Artista Alex Salvador assina trabalhos de destaque no Carnaval carioca. Foto: Divulgação
O compositor Helen Veras, integrante da ala de compositores da Mangueira, mantém há cinco anos a ligação entre o Festival de Parintins e a Sapucaí.
Em 2026, além da Verde e Rosa, ele também terá participação no Salgueiro e na Acadêmicos de Niterói, com apresentações em quadras e camarotes.
Veras tem mais de 25 anos de carreira e é responsável por diversas toadas históricas do boi Garantido.
Compositor Helen Veras, integrante da ala de compositores da Mangueira, mantém há cinco anos a ligação entre o Festival de Parintins e a Sapucaí. Foto: Divulgação
Da estrutura ao acabamento
Em São Paulo, Sorin Sena atua na Colorado do Brás e é o responsável direto pelas alegorias da escola. Ele coordena desde a solda estrutural até o acabamento e pintura dos carros, garantindo o padrão técnico apresentado na avenida.
Sorin Sena tem sua história marcada no cenário artístico de Parintins, atuando há mais de 15 anos no Boi Garantido.
Entre tantos desafios, o artista tornou-se um dos maiores nomes do Festival de Parintins, bem como dos carnavais do Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2020, Sorin chegou a fazer um Carnaval internacional no Uruguai.
Sorin Sena atua na Colorado do Brás e é o responsável direto pelas alegorias da escola no Sambódromo do Anhembi. Foto: Arquivo Pessoal
Carnavalesco no Grupo Especial
Cria da Escola de Arte do Boi Caprichoso e designer por formação, o parintinense Rayner Pereira completa 12 anos de atuação no Carnaval.
Em 2026, ele assina como carnavalesco da Gaviões da Fiel, levando para o Anhembi o enredo “Vozes Ancestrais”.
Parintinense Rayner Pereira completa 12 anos de atuação no Carnaval em 2026. Foto: Arquivo pessoal
Experiência no visual artístico
Com 21 anos de trajetória no Carnaval paulista, o artista Marcio Gonçalves, também ligado ao Boi Caprichoso, acumula passagens pela Mocidade Alegre, Dragões da Real e Gaviões da Fiel. Atualmente, ele é responsável pelo visual artístico dos carros alegóricos da Acadêmicos do Tatuapé.
Artista Marcio Gonçalves, ligado ao Boi Caprichoso, acumula passagens pela Mocidade Alegre, Dragões da Real e Gaviões da Fiel, no Sambódromo de Anhembi. Foto: Arquivo pessoal
Imagine uma cidade onde o sol brilha quase o ano inteiro, banhada pelo Rio Branco, com praças limpas, avenidas largas e um pôr do sol que parece pintado à mão.
Bem-vindo a Boa Vista, a charmosa capital de Roraima, o único estado brasileiro totalmente acima da linha do Equador. Uma cidade planejada, acolhedora e cheia de surpresas.
Boa Vista nasceu às margens do rio Branco, e foi oficialmente fundada em 1830, mas seu crescimento começou a ganhar força nas décadas de 40 e 50, quando se tornou capital. Desde então, a cidade cresceu, se modernizou e virou um dos destinos mais bonitos e organizados da região Norte.
Foto: Gildo Júnior/Bora de Trip
O mais curioso é que, apesar de estar na Amazônia, Boa Vista tem um clima que lembra o Caribe, céu azul, clima quente e uma brisa constante. A cidade é plana, arborizada e cheia de espaços públicos, perfeitos para quem gosta de caminhar, andar de bike ou apenas relaxar vendo o pôr do sol no rio.
O que fazer em Boa Vista
Boa Vista é daquelas cidades que surpreendem quem chega. Bonita, acolhedora e cheia de lugares incríveis pra visitar. Aqui vão os principais pontos turísticos que você precisa conhecer:
Foto: Gildo Júnior/Bora de Trip
Mirante Edileusa Lóz
O Mirante Edileusa Lóz, com aproximadamente 120 metros de altura, é a torre mais alta da região Norte e o mais novo cartão-postal de Boa Vista. Ele está localizado dentro do Parque do Rio Branco, um dos principais complexos turísticos da cidade.
Orla Taumanan
O cartão-postal da cidade! Localizada às margens do Rio Branco, a orla é o melhor lugar para assistir ao pôr do sol. À noite, os bares e restaurantes ganham vida com música ao vivo e comidas típicas.
Praça das Águas
Um espaço moderno e encantador, com fontes luminosas, esculturas e espelhos d’água. É o ponto de encontro das famílias aos fins de semana e um dos locais mais fotografados da cidade.
Praça do Centro Cívico
Coração político e cultural de Boa Vista, onde estão o Palácio do Governo, a Catedral Cristo Redentor e o monumento ao Garimpeiro. De cima, o traçado da cidade lembra um leque, inspirado em Brasília!
Parque Anauá
Maior parque urbano da região Norte! Um espaço verde gigante, com áreas para caminhada, ciclovias, quiosques e o famoso Lago dos Americanos. Um passeio perfeito para quem quer relaxar e sentir a natureza da cidade.
Monte Roraima (expedições saindo de Boa Vista)
Embora o Monte Roraima fique na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, Boa Vista é o ponto de partida oficial das expedições. Um dos trekkings mais incríveis do mundo, que mistura aventura, espiritualidade e natureza em estado puro.
A gastronomia de Boa Vista, um sabor amazônico e multicultural
Com influências indígenas, nordestinas e venezuelanas, a gastronomia de Roraima é uma festa de sabores! Não deixe de provar:
Dona da casa: a damurida, prato típico indígena feito com peixe e pimenta murupi.
Guaraná em vários cantos da Praça do Ayrton Senna, com aquele sabor amazônico.
Carnes de sol e peixes regionais, como o tambaqui e o matrinxã na brasa.
Doces caseiros e sucos de frutas da região, como taperebá, cupuaçu e buriti.
E claro: uma passada no Mercado Municipal São Francisco é parada obrigatória, lá você sente o cheiro, o sabor e o calor humano de Roraima!
Quando visitar Boa Vista
Foto: Gildo Júnior/Bora de Trip
Boa Vista é uma cidade ensolarada quase o ano inteiro, mas o melhor período para viajar é entre dezembro e março, quando o tempo está mais seco e os rios têm aquele tom dourado ao entardecer.
Se quiser curtir os grandes eventos culturais, programe-se para:
Mormaço Cultural (setembro)
Expoferr Show (novembro)
Natal de Luz (dezembro)
Aniversário da cidade, 9 de julho
Como chegar
Boa Vista tem aeroporto internacional (Atlas Brasil Cantanhede), com voos diretos de Manaus e conexões com outras capitais do Brasil.
Se vier de carro, a BR-174 é a principal rodovia que liga Roraima ao Amazonas e também à Venezuela, passando por paisagens incríveis e florestas de lavrado.
A partir de Boa Vista, destinos imperdíveis em Roraima e fronteiras
A capital é a base perfeita para explorar todo o estado e até países vizinhos! Confira alguns dos principais roteiros que você pode fazer a partir daqui:
Monte Roraima (Venezuela) — uma das montanhas mais antigas do planeta.
Tepequém (Amajari) — cachoeiras, trilhas e um clima de serra perfeito.
Caracaraí e Balneário do Rio Branco — praias de água doce que aparecem na seca.
Virgínia e Maracá — reservas ecológicas para os amantes do turismo sustentável.
Santa Elena de Uairén (Venezuela) — cidade fronteiriça cheia de cultura e paisagens.
Lethem (Guiana) — ideal para quem quer uma experiência internacional a poucas horas de carro.
Dica do Bora de Trip
Boa Vista é daquelas cidades que não dá pra visitar com pressa. É uma capital que mistura o calor amazônico com o charme de quem vive à beira-rio. Aqui o tempo parece correr mais devagar e talvez seja esse o maior encanto de Roraima.
Se você ama natureza, cultura e hospitalidade, coloque Boa Vista no seu mapa. E claro, antes de embarcar nessa viagem, confira mais dicas aqui no Bora de Trip!
Gildo Júnior é fotógrafo, videomaker, aventureiro e colecionador de roteiros no Bora de Trip e colunista no Portal Amazônia. Para o servidor público federal, “o mundo é imenso, repleto de lugares para conhecer, de coisas para fazer, de culturas para admirar, comidas para provar e pessoas para conhecer”.
Em regiões de fronteira na Amazônia, a febre é quase sinônimo automático de malária para a população e até para os serviços de saúde. No entanto, por trás dessa “certeza” podem estar escondidos vírus como os da dengue, da chikungunya e do parvovírus B19, que exigem cuidados médicos completamente diferentes.
Esse cenário de incerteza diagnóstica é a realidade no Oiapoque (AP), na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa.
Um novo estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revela que a circulação simultânea do parasito Plasmodium vivax (principal agente causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o predomínio histórico da malária na fronteira acaba ofuscando outras infecções potencialmente graves.
“A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF, que orientou a pesquisa.
Imagem ao microscópio mostra esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação dentro das células sanguíneas. Foto: Stefan Walkowski /Wikimedia Commons
Muito além da malária
Essa confusão gera um risco direto ao paciente. Enquanto a malária exige medicação específica para eliminar o parasito, como a associação de cloroquina e primaquina, viroses como a dengue demandam monitoramento clínico cuidadoso para evitar complicações, como sangramentos.
Outra preocupação dos cientistas é o parvovírus B19, com febre e manchas avermelhadas na pele), mas que pode ter efeitos graves em adultos.
“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.
O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.
“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.
A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam ainda, que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Quem escolhe Parintins (AM) como destino no período do Carnaval para aproveitar a segunda maior festa da cidade, o Carnailha, com direito ao Carnaboi, encontra muito mais do que trio elétrico, toadas e apresentações culturais.
Com o tema ‘Da Ilha da Magia, vem pro meio da avenida, é o Carnailha’ em 2026, os eventos mantêm a proposta de valorizar a identidade cultural da cidade e movimentar a economia local.
Mas para quem vai conhecer a cidade neste período carnavalesco e deseja aproveitar outros espaços além das festas, algumas opções formam um roteiro simples, que contempla vários pontos turísticos. Confira:
Bumbódromo e Praça dos Bois
Foto: Michael Dantas/ Arquivo Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas
O principal cartão-postal de Parintins é o Bumbódromo. Inaugurado em 1988, o espaço foi construído especialmente para receber o Festival Folclórico e tem capacidade para cerca de 17 mil pessoas. Mesmo fora do período das apresentações oficiais, a arena pode ser visitada e é parada obrigatória para quem deseja conhecer o palco onde Caprichoso e Garantido se enfrentam nas três noites de espetáculo.
Nos arredores do Bumbódromo fica a Praça dos Bois, onde estão elementos que remetem aos bastidores das agremiações. Durante o Carnaboi, o espaço costuma receber ensaios, encontros de torcedores e programações culturais.
Catedral de Nossa Senhora do Carmo e Igreja do Sagrado Coração de Jesus
Foto: Reprodução/ Ponto Alto – Amazon Sat
A Catedral de Nossa Senhora do Carmo é outro ponto tradicional da cidade. Inaugurada em 1981, a igreja é dedicada à padroeira de Parintins e reúne romeiros especialmente entre os dias 6 e 16 de julho, durante os festejos religiosos. A construção teve início na década de 1950 e está ligada à história do Festival Folclórico, em que os bois-bumbás Caprichoso e Garantido se enfrentam, criado inicialmente para arrecadar recursos para a conclusão da obra.
Outro espaço religioso importante é a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, fundada em 1945. Antes da construção da catedral, ela funcionava como principal templo da cidade. Localizada em área elevada, proporciona vista para o rio Amazonas e é procurada por visitantes interessados em contemplar o pôr do sol.
Foto: Jorge Luiz – Wikimedia Commos
Mercado Municipal
O Mercado Municipal de Parintins, inaugurado em 1937 e revitalizado em 2019, é parada estratégica para quem deseja experimentar a culinária local. Situado às margens do rio Amazonas, o espaço reúne boxes de peixes, ervas medicinais, frutas regionais e comidas típicas.
Foto: Yuri Pinheiro/ Secom Parintins
Entre as opções mais procuradas estão o pão com tucumã e queijo coalho, a tapioquinha, o jaraqui frito com baião de dois, a fritinha de crueira e sucos de frutas amazônicas. O mercado também concentra venda de artesanato, como colares, brincos e peças produzidas por artistas da região, o que o transforma em ponto de encontro entre moradores e turistas durante o Carnailha e o Carnaboi.
Orla: praças e pôr do sol
A orla de Parintins é um dos locais mais frequentados ao fim da tarde. A popular Praça Cristo Redentor, ou Praça Digital, fica às margens do rio Amazonas e conta com anfiteatro, píer, bares e restaurantes. O espaço recebe apresentações culturais e concentra visitantes que buscam apreciar o entardecer na ilha.
Foto: Clóvis Miranda/ Amazonastur
Outro ponto bastante visitado é a Praça do Comunas, oficialmente chamada Praça Judith Prestes. Durante o dia, especialmente em períodos festivos, o local reúne torcedores e moradores que aproveitam a vista do rio e o clima da cidade. Já a Praça Eduardo Ribeiro é referência para quem chega por via fluvial e costuma sediar feiras de artesanato indígena e regional.
Balneários
Para quem busca contato com áreas naturais e ambientes tranquilos em Parintins, o Balneário Cantagalo, localizado na comunidade do Aninga, destaca-se como um dos principais refúgios naturais nos arredores de Parintins.
A cerca de 8 quilômetros do centro da cidade, o balneário está situado às margens do Lago do Aninga e é conhecido por suas águas geladas de cor escura, típicas das lagoas amazônicas, que oferecem uma alternativa refrescante ao forte calor da ilha.
Durante o período de Carnailha e Carnaboi, o local costuma receber visitantes que desejam relaxar entre um compromisso e outro no centro cultural, apreciando o pôr do sol e a paisagem verde ao redor.
Além do banho de lago, o Cantagalo possui infraestrutura com um píer, serviços de bar e restaurante, lanchonetes e espaços para convivência, o que permite ao turista experimentar pratos regionais, como peixes frescos da pesca local, tacacá e frutos típicos da Amazônia.
O ambiente, cercado por aningais e sombras de árvores nativas, também possibilita a contemplação da fauna e flora amazônicas em um ritmo mais tranquilo que o da cidade. Para facilitar o acesso, alguns visitantes optam por acordos com mototáxis ou triciclos, já que o transporte público até lá é limitado, especialmente em períodos de grande movimentação na cidade.
Foto: Yuri Pinheiro/ Secom Parintins
Outro destino que combina história e natureza é a Vila Amazônia, que fica a cerca de 20 minutos de barco da sede municipal. A vila representa parte significativa da trajetória histórica de Parintins e da região amazônica, pois foi um dos principais polos da imigração japonesa no Amazonas e do cultivo de juta nas décadas de 1930 e 1940 — época em que essa fibra era importante economicamente no Brasil.
O percurso fluvial até a Vila Amazônia percorre trechos do rio Amazonas e do Paraná do Ramos, permitindo ao visitante observar a vida das comunidades ribeirinhas, o vai e vem das embarcações e a paisagem exuberante formada por igarapés, árvores e pequenos assentamentos ao longo do grande rio.
Passeios em triciclos
Uma outra forma tradicional de conhecer Parintins é por meio do city tour de triciclo, meio de transporte característico da cidade. Em bicicletas ou motos adaptadas com cobertura, visitantes percorrem ruas, praças e pontos turísticos acompanhados por condutores que apresentam informações sobre a história local.
Pesquisadores da Unifap realizam a separação, catalogação de documentos históricos do TJAP.Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP
Pesquisadores do Centro de Memórias da Universidade Federal do Amapá (Unifap) estão catalogando processos judiciais com mais de 100 anos. O trabalho faz parte do projeto ‘Memórias Reveladas: a salvaguarda da história jurídica e cultural do estado do Amapá’, realizado em parceria com o Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP).
Os documentos mostram como era a vida social e política do Amapá desde o século XIX. Eles ajudam a entender acontecimentos que marcaram épocas e influenciaram a sociedade.
O Tjap disponibilizou cerca de 1.300 caixas, cada uma com 5 a 10 processos judiciais de diferentes áreas. Os documentos tem em média de 50 a 300 páginas. Quando os documentos estão muito danificados e não podem ser recuperados, eles são devolvidos ao tribunal.
O trabalho inclui limpeza, organização e descrição dos processos judiciais. As caixas são trocadas para garantir preservação. Os pesquisadores usam equipamentos de proteção durante a atividade.
Foto: Reprodução/ Rede Amazônica
De acordo com Elke Rocha, coordenadora do Centro de Memória da Unifap, o trabalho é minucioso e feito em etapas.
O objetivo é disponibilizar o acervo em formato físico e digital, ampliando o acesso para pesquisadores e estudantes.
“São documentos históricos, anteriores à era digital. Pesquisadores e advogados precisam ter acesso. É um trabalho minucioso, porque alguns processos têm mais de 100 anos”, disse Elke Rocha.
Os pesquisadores também anotam termos jurídicos para tornar a linguagem menos burocrática, sem perder o contexto histórico e judicial.
A bolsista Vitória Melo destaca que alguns casos antes eram registrados como homicídio e hoje são reconhecidos como feminicídio.
“Atualizamos os termos jurídicos. Nos arquivos antigos não havia essa nomenclatura, mas temos autorização para usar o termo feminicídio”, explicou.
Processos revelam casos emblemáticos
Entre os casos emblemáticos está o homicídio da diretora de uma escola localizada em Santana. Ela foi morta dentro da biblioteca da instituição. A riqueza de detalhes do processo faz os pesquisadores revisitarem o passado. Depois da curadoria, o material será entregue ao TJAP, que fará o arquivamento no Centro de Memória.
Experiência transformadora. Grandiosidade impressionante. Conexão profunda com a natureza. Estas são algumas das expressões ouvidas com frequência por pessoas que visitaram o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, o segundo maior da categoria no Brasil, com mais de 2 milhões de hectares.
O tamanho, por si só, já colocaria esta como uma unidade de conservação a ser visitada no Brasil. Mas o Jaú ainda reserva muito mais. Dono de uma biodiversidade absolutamente superlativa, o parque é responsável por proteger uma das maiores áreas de florestas úmidas no mundo.
Localizado no coração da Amazônia, a cerca de 3 horas de lancha da cidade de Novo Airão, o Parque Nacional do Jaú faz parte do Mosaico do Baixo Rio Negro, que abrange 11 unidades de conservação do estado do Amazonas.
A existência do Mosaico, inclusive, é representativa por envolver um dos grandes tesouros do Jaú: o envolvimento das comunidades locais em todos os processos, algo fundamental para a valorização da diversidade sociocultural e o desenvolvimento territorial.
Atualmente, cerca de 70 famílias vivem nas comunidades do Parque Nacional do Jaú — e são parte fundamental para que a visitação da unidade aconteça de maneira sustentável e regular, desde os barqueiros até a hospedagem.
A visitação do Parque Nacional do Jaú é um ótimo exemplo de como funciona o que o Instituto Semeia — organização que atua para incentivar a visitação nos parques do Brasil, fortalecer a gestão dessas unidades e apoiar o desenvolvimento socioeconômico das regiões onde estão inseridas — costuma chamar de “ciclo virtuoso” das Unidades de Conservação.
O ciclo virtuoso funciona com:
a visitação: que acontece com turistas demandando produtos e serviços da população local, que para isso precisam dos ativos naturais conservados;
a geração de renda: com as pessoas da região gerando impacto econômico na comunidade;
a conservação: com o turismo trazendo visibilidade para a necessidade de conservar o meio ambiente.
Parque Nacional do Jaú: a grandiosidade da Amazônia conservada
Árvores históricas gigantes, bacia hidrográfica do rio Jaú protegida e uma biodiversidade extremamente rica, habitat de diversos animais. Já na chegada, feita normalmente de barco, não é incomum que o visitante seja acompanhado por bandos de papagaios e outras aves enquanto navega pelos igapós.
Uma das particularidades do Jaú é a possibilidade de encontrar duas “Amazônias” diferentes: uma no período de cheia (normalmente de março a agosto) e outra no período de seca (entre setembro e fevereiro).
O local é o mesmo, mas a mudança no clima muda a realidade. Enquanto na cheia as trilhas aquáticas são o ponto alto, na seca é possível visitar as praias e avistar os petróglifos, parte do rico patrimônio arqueológico do parque.
A importância da conversação para a biodiversidade
Uma das mais importantes funções de uma unidade de conservação como o Parque Nacional do Jaú é conciliar e integrar a conservação da natureza e a recreação/ecoturismo para as pessoas. As pesquisas também fazem parte deste contexto. Uma delas dentro do Jaú é o Programa de Monitoramento de Quelônios de Água Doce, uma parceria do ICMBio com a WCS Brasil, e que tem o apoio de diversas organizações.
Com mais de uma década de existência, o projeto conta com um forte vínculo com as comunidades locais. Afinal de contas, a utilização de quelônios (tartarugas, jabutis e afins) como alimento é algo comum historicamente na região.
Como parte de todo o processo, o Programa de Monitoramento promove o monitoramento comunitário com participação ativa das famílias que vivem no Parque Nacional do Jaú. O sistema conta com cursos e treinamentos para monitores locais, incluindo acompanhamento de toda a temporada reprodutiva dos quelônios – da desova à soltura.
Os quelônios são um dos grupos de vertebrados mais ameaçados do mundo. De acordo com dados do Programa de Monitoramento, cerca de 54% das espécies classificadas se enquadram em alguma categoria de ameaça.
Atrativos e atividades
Viver o Parque Nacional do Jaú é passear pela floresta amazônica, seja por via terrestre ou por via aquática. Não por acaso o local é parte dos Caminhos do Rio Negro, que conta com pelo menos 630km de trilhas mapeadas, seja para serem feitas a pé ou por caiaques nos igapós.
Durante os passeios pela imensidão do parque, são diversas as possibilidades de encontros que vão fazer qualquer visitante ter uma excelente experiência. Veja a seguir algumas delas:
Observação da vida silvestre e contemplação da natureza: como o filme “Dias Perfeitos” nos ensina, o termo em japonês komorebi é a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores, enquanto balançam contra o vento. Isso pode ser multiplicado pela milésima potência no Parque do Jaú;
A imensidão das árvores: de uma magnitude raras vezes vista, as árvores gigantescas da Amazônia se fazem presentes no Jaú. Das magistrais samaúmas até as milenares macacarecuias, que recentemente foram apontadas como as mais antigas do bioma, as possibilidades de encontro com árvores majestosas são inúmeras.
As praias na área do rio Negro: passeio específico para a época das secas, as praias de areia branca e água doce são uma das maravilhas do Parque Nacional do Jaú. Um convite para o relaxamento, com banhos memoráveis nas águas do rio Negro.
Banho e cachoeiras nos rios Jaú e Carabinani: também ideal para época de secas. O rio Carabinani é local de diversas pequenas corredeiras e cachoeiras, perfeitas para banho e contemplação.
Trilhas a pé ou de caiaque: como citamos anteriormente neste mesmo texto, os Caminhos do Rio Negro oferecem diversas oportunidades de trilhas. Entre as trilhas terrestres, destacam-se a trilha do Itaubal, com cerca de 3,5km de extensão, e a trilha dos Igapós do Carabinani, com cerca de 3km, e duas trilhas que levam a contato com árvores gigantes: a da Sumaúma da Enseada e a Sumaúma de Base
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite.
Em julho do ano passado, visitei Alter do Chão pela primeira vez. Até então, só tinha escutado sobre o paraíso que havia aqui do lado, terra onde botos disputam a vitória em um festival belíssimo e o carimbó dá o ritmo da vida das pessoas que ali moram. Quem visita Alter realmente encontra tudo isso, mas há ali uma vila do tamanho de um universo.
Ouvir sobre a luta incessante dos moradores – em grande parte, indígenas Borari – contra empreendimentos estrangeiros que ameaçam a estabilidade do lugar, inclusive do maior aquífero de água doce do mundo, é ser testemunha de uma luta épica. A descrença de quem não entende o papel dos povos indígenas na defesa da natureza cai por terra em Alter do Chão, o que talvez seja o maior poder daquele lugar.
Dentre os pequenos e diversos momentos especiais que tive naquela orla, um em especial me ficou na mente: um casal de idosos, daqueles que a gente vê em filme mesmo, presenciava um pôr do sol também cinematográfico, provavelmente fazendo juras de amor à vista da Ilha do Amor.
Tive uma certeza: aquele casal dividia sua história com o rio, assim como todas as pessoas que tiram sustento de suas margens, cada catraieiro, cada pescador, cada cozinheiro, cada pessoa que tece Alter do Chão com fios de água. Naquele momento, percebi que eu e meus amores também tivemos, assim, nossa história enredada nos contos daquela correnteza.
Foto: Jan Santos/Acervo pessoal
Na época, eu não sabia, mas no mês seguinte seria assinado pelo Governo Federal o Decreto nº 12600, que prevê a privatização e a dragagem dos rios Madeira, Tocantins e do próprio Tapajós, que dá as margens de Alter do Chão. A medida é a mais nova declaração de apoio do governo ao agronegócio, que procura assumir o acesso concedido por esses rios para viabilizar o escoamento da produção de soja, milho e outras coisas que os estrangeiros compram dos barões do agro, mas faltam na mesa dos brasileiros.
No momento em que escrevo este texto, passam de quinze os dias em que os indígenas da região se mobilizam pela revogação do decreto, que foi apenas suspenso no dia 6 de fevereiro. O decreto não respeitou o direito constitucional dos povos indígenas de serem ouvidos acerca do impacto que tais empreendimentos causam em suas terras ancestrais, escrevendo mais um capítulo na longa história de negligência do Estado não apenas com os povos indígenas, mas contra o solo.
“Nós estamos em guerra” – declara Ailton Krenak. – “Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum”.
A afirmação do filósofo indígena não é tão chocante quanto um dia pareceu: dragar um rio é atentar não apenas contra sua vida – sim, porque estamos falando de um organismo vivo – mas de todos cuja história atravessa suas águas, em especial os povos indígenas.
Contudo, esse atentado contra o rio Tapajós não é menos do que um ato de guerra contra a própria Vida.
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite
Krenak já havia profetizado que a COP 30 não traria um legado positivo para a Amazônia. Sediada no próprio Estado que hoje tenta sufocar o rio Tapajós e seus irmãos, a conferência escreveu suas promessas no vento. Ao contrário do que o leitor possa pensar, essa história não é separada da de nenhum de nós: somos todos afluentes dessa desgraça, pois embora suspenso, o decreto não fora revogado, e não seria a primeira vez que um desastre ambiental se deu por conta de uma manobra burocrática dessa natureza.
Não tenho vocabulário para fazer um negacionista entender como isso afeta toda a humanidade, e a luta solitária dos povos do Tapajós escancara uma verdade acerca da defesa da natureza contra grandes empreendimentos: não há raiva o bastante, não há revolta o bastante.
A Krenak, no entanto, não faltam palavras. Em “Futuro Ancestral”, ele nos conta a história de como o rio Watu resistiu às investidas contra esses inimigos sem rosto, mas com CNPJ:
“Quando penso no movimento do Watu, percebo sua potência: um corpo d’água de superfície que, ao sofrer uma agressão, teve a capacidade de mergulhar na terra em busca dos lençóis freáticos profundos e refazer sua trajetória. Assim, ele nos ensina a evitar um dano maior. No tal capitaloceno que estamos experimentando não restará nenhum lugar da Terra que não seja como o corpo desse rio, assolado pela lama. Ela alcançará todos os recantos do planeta, assim como os polímeros e os microplásticos alcançam a barriga de cada peixe no oceano […]. Achei isso escandaloso, mas não podemos nos render à narrativa de mundo que tem nos assombrado, porque ela serve para nos fazer desistir dos nossos sonhos, e dentro dos nossos sonhos estão as memórias da Terra e de nossos ancestrais”.
Mais uma vez, as mentalidades indígenas dão ao mundo globalizado não apenas um alerta, mas também um curso de ação: precisamos mergulhar para resgatar possibilidades de mundos possíveis. Não ouvi-los, que é prática conhecida na sociedade brasileira, não trouxe sonhos, mas verdadeiros pesadelos: Brumadinho, Mariana, Belo Monte, Balbina, e diversos outros episódios que tiram o sono apenas enquanto são manchetes, não enquanto podem ser prevenidos.
No entanto, um tipo muito específico de milagre acontece quando essas vozes são de fato ouvidas. No mesmo texto, Krenak responde aos que defendem tais atentados contra a vida como única forma de desenvolvimento econômico. Ele traz a ideia de “envolvimento”, perdida quando o ser humano decidiu se separar da natureza para poder explorá-la com a consciência leve.
Envolver-se é misturar-se, é também ser envolvido, é fazer parte. É mergulhar na água que se quer dragar e pisar no solo que se quer asfaltar, é lembrar que ninguém é imagem e semelhança de Deus para como Ele se comportar. A terra não pertence a nós mais do que pertencemos a ela. Somos também criatura, somos também natureza. Violá-la é violar a nós mesmos, é atentar contra toda a beleza e vida que pulsa sob nossos pés.
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite
Quando penso em envolvimento, penso no texto de Daniel da Rocha Leite e nas imagens de Maciste Costa, reunidos na obra “A história das crianças que plantaram um rio” (2013). Se precisamos de histórias para adiar o fim do mundo, nessas páginas eu vejo uma capaz de criar um universo inteiro.
Enquanto discutimos sobre dragar um rio, Leite e Costa falam sobre plantar um, em uma narrativa que celebra o poder da comunidade e da infância e a crença ingênua – quase infantil – necessária para que sonhos mudem o mundo. Sinto falta de narrativas assim, que misturem tão bem as infinitas possibilidades do sonho como caminho para criarmos uma realidade possível, bem-vivida, uma vez que, envolvidos não pela terra, mas pelos delírios de grandeza ilusória fomentados pelo mundo do capital, esquecemos que nem todo o dinheiro do mundo compra água numa terra devastada.
Ilustração de Maciste Costa para o livro “A história das crianças que plantaram um rio”, de Daniel da Rocha Leite
Se precisamos contar mais histórias para que o mundo siga existindo, quero me juntar a essas crianças e aprender a plantar rios, a criar cursos d’água com minhas próprias mãos, e quero isso não por conta de algum futuro utópico, mas para que eu mesmo possa bebê-la em uma realidade em que a crise hídrica expõe o óbvio: água é um recurso mais precioso que qualquer barra de ouro.
Podemos viver sem o ouro, mas não sem a água que sustenta a vida. Eis a moral desta história.
Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).