O lançamento oficial do Mapa Hidrogeológico do Estado de Rondônia, realizado em 30 de maio, marcou um importante avanço para a gestão dos recursos hídricos da região, oferecendo uma base técnica e estratégica para o planejamento, proteção e uso sustentável das águas subterrâneas.
Durante o evento, o chefe da Divisão de Hidrogeologia e Exploração (DIHEXP) do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Valmor Freddo, apresentou as ações da sua divisão e destacou o empenho institucional no fortalecimento da gestão hídrica. Em seguida, o geólogo Thiago Feijó explicou o programa de cartografia hidrogeológica e detalhou a metodologia utilizada para elaboração do novo mapa.
A geóloga Katarina Rempel ressaltou a importância do material para a conservação e o monitoramento dos aquíferos, fundamentais para garantir a segurança hídrica de Rondônia. Já o especialista Valdemiro Silva demonstrou o funcionamento do Sistema de Informação Geográfica (SIG) que integra o mapa, utilizando a plataforma QGIS (Quantum Geographic Information System), facilitando o acesso e a interpretação dos dados pelos usuários. O QGIS é um software de código aberto e gratuito para Sistema de Informações Geográficas (SIG). Ele é utilizado para criar, editar, visualizar, analisar e publicar informações geoespaciais.
O Mapa Hidrogeológico de Rondônia traz informações detalhadas sobre os principais aquíferos do estado, servindo como referência técnica para gestores públicos, pesquisadores, empresas e demais usuários interessados na temática da água subterrânea.
O projeto é resultado de uma articulação entre diversos órgãos e instituições, que compartilharam dados e experiências para construir uma base confiável e atualizada.
Segundo os organizadores, o evento também teve como objetivo promover a integração entre os entes federativos e estreitar os laços entre a União e o Estado de Rondônia.
“Trata-se de uma conquista coletiva, que fortalece as políticas públicas voltadas à gestão hídrica e beneficia diretamente a população rondoniense”, destacaram os participantes.
A cerimônia contou com a presença de autoridades, especialistas e representantes de instituições estaduais e federais, como a diretora de Hidrologia e Gestão Territorial (DHT) do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Alice Castilho; a presidente da Associação Profissional dos Geólogos de Rondônia (APROGERO), Suelem Lucena; a representante da Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia (CAERD), Mônica Cerqueira e a coordenadora de Recursos Hídricos do Estado, Daniely da Cunha.
Jogar bola é uma das brincadeiras limitadas por causa do calor. Foto: Anselmo Cunha/Nonada Jornalismo
É por volta das quatro da tarde – quando o Sol baixa e o calor se torna mais suportável -, que começa a brincadeira das crianças da ocupação residencial Abrigo da Liberdade, no bairro Terra Firme, em Belém (PA). Antes disso, a ansiedade dentro das casas é perceptível a quilômetros, indício de que tem erê querendo bater o chinelo no asfalto, contar de um a trinta e prontos-ou-não-lá-vou-eu, fazer a bola entrar no gol.
Mas uma vez na rua, o calor que ainda impera na suposta hora mais fresca da tarde atrapalha o livre fluxo das brincadeiras: a disposição diminui; a umidade, aliada às altas temperaturas, aumenta a sensação térmica e prejudica a respiração. Nas cidades, a ausência de espaços verdes agrava o que o colapso ambiental trata de varrer. Fica difícil ser criança.
“A gente tinha acesso a quintais, a gente tinha acesso a rua, os bairros eram espaços de encontros, de socialização, e as crianças ocupavam esses espaços de uma forma bastante independente e autônoma, mas nas últimas décadas isso vem mudando, né, e a gente vem vendo um encolhimento dessas experiências relacionadas ao brincar”, relata a especialista em infância e natureza do Instituto Alana, Maria Isabel Barros.
No Brasil, cerca de 40 milhões de meninos e meninas (60% do total) sofrem com a exposição aos riscos climáticos e ambientais. De acordo com o relatório Crianças, adolescentes e mudanças climáticas no Brasil, da Unicef, a crise climática, refletida no calor extremo e na poluição do ar, por exemplo, impacta crianças de maneira desproporcional em virtude de suas necessidades de desenvolvimento.
Isso ocorre por conta da “ausência da infraestrutura e dos serviços públicos necessários para a plena realização dos direitos na infância e na adolescência – escolas, serviços de saúde básica, espaços de assistência e proteção social, espaços de recreação e socialização etc. –, associada ao aumento de eventos climáticos extremos”, conforme aponta o relatório. Com as crianças mais pobres, menos protegidas pelas políticas públicas, esse cenário é ainda mais violento.
Lugares com sombra são mais difíceis de encontrar. Foto: Reprodução/Prefeitura de Belém
É preciso muita água para hidratar e saciar a sede da meninada que encontra em seus territórios áreas de recreação infantil com infinitas possibilidades. Mas água tratada, de qualidade, é algo difícil de encontrar na ocupação do Abrigo da Liberdade, a menos que se financie do próprio bolso ou se realize a fervura, prática que nem todo mundo adota.
Quando a infraestrutura urbana não ajuda
O Sarau em Movimento, coletivo itinerante de artistas que desenvolve trabalhos de Arte e Educação com crianças nas periferias de Belém há dois anos, entende bem a realidade do bairro Terra Firme. O coletivo atua através de oficinas que buscam incentivar a relação das crianças com o território através de atividades artísticas e brincadeiras na rua, como a oficina de bolhas de sabão, de pinturas de rua, graffiti, poesia, música e jogos infantis. Palhaçaria, teatro e cinema também são atividades realizadas pelo coletivo.
“Aqui é muito quente e as crianças sentem muito calor. A gente percebe que quanto mais energia elas gastam, mais água a gente tem que ter disponível”, diz Edson X, coordenador do coletivo. Na ausência de água tratada, o coletivo recorre ao dinheiro do financiamento oferecido pela Fundação Abrinq para comprar garrafas de água e garantir que a agitação da meninada, em virtude do suor, das altas temperaturas e do sufoco, seja amenizada. “O calor intenso muda o temperamento das crianças. Elas ficam mais elétricas. Tem hora que elas ficam nervosas. Tem hora que elas mudam o comportamento”, pontua.
As condições extremas ocasionadas pelo clima, que impedem cada vez mais o brincar das crianças fora de casa, são potencializadas, nas cidades, pela falta de infraestrutura urbana e ambiental. No caso do bairro Terra Firme, a preparação da cidade de Belém para a COP30 tem impactado até mesmo as condições sanitárias da comunidade.
Com o novo planejamento urbano para receber um grande fluxo de pessoas durante o evento na capital do Pará, os investimentos em infraestrutura urbana, que já eram escassos na periferia antes mesmo da conferência, se concentram na construção de novos prédios e vias e adaptação de espaços públicos. Ainda que estejam entre os grupos mais vulneráveis à crise climática, crianças e adolescentes permanecem excluídos das discussões centrais da COP30.
Crianças participam de projeto do Sarau em Movimento. Foto: Rafael da luz Serrão/Divulgação
Com as oficinas do projeto, o Sarau em Movimento promove a interação das crianças com a cidade num contexto em que a natureza, em detrimento de eventos extremos, é, por elas, vista como uma ameaça. Para Maria Isabel Barros, do Instituto Alana, essa perspectiva representa um prejuízo no desenvolvimento infantil.
“A gente evolui com o vínculo com a natureza. Quando uma criança enxerga o meio ambiente como uma ameaça à sua própria vida, é porque alguma coisa muito profunda foi rompida. Então a gente precisa restituir o direito que as crianças têm de se relacionar com a natureza a partir de uma perspectiva da esperança, da beleza, do vínculo positivo e não da ameaça”.
Maria Isabel ainda explica que, para as crianças, brincar é uma estratégia de autopreservação, o que torna o ato ainda mais necessário em tempos de desequilíbrio ambiental.
Edson detalha que a percepção das crianças sobre racismo ambiental não se dá da mesma maneira que com os adultos, estruturada. Uma das premissas do projeto é trabalhar com os pequenos sobre essa forma de discriminação de maneira lúdica, através de canções de hip-hop, desenhos e poesia. A temática é frequente nos ensaios e espetáculos do teatro de rua do coletivo com o grupo infantil Erês em Movimento. “É um teatro que aborda bastante as questões climáticas. Toco bastante nesse assunto porque aqui tem mestres e mestras de carimbó que têm umas letras incríveis abordando essas questões, como o Mestre Lourival Igarapé, com as músicas Queimadas e Pajezinho”, explica.
Tratar dessa problemática com as crianças desde cedo ajuda a deixar claro que as adversidades com as quais se deparam no território durante o lazer não são um mero acaso. “Recentemente, uma criança caiu num córrego contaminado que passa aqui na frente. Caiu de costas. No susto, abriu a boca e bebeu a água do esgoto sem querer. Foi direto pra UPA [Unidade de Pronto Atendimento]. Contraiu uma bactéria e ficou cinco dias em casa sem ir para a escola”, relata o coordenador. Segundo ele, é comum que as crianças se joguem na água contaminada para pegar uma bola que caiu, ou para tomar banho durante a cheia da maré. O córrego é um braço do Rio Tucunduba, que delimita o bairro de norte a sul e deságua no Rio Guamá.
Itinerante, o coletivo atende também crianças de outras comunidades, incluindo quilombolas e ribeirinhas, como a comunidade de Buraco Fundo, em Icoaraci (um dos oito distritos que compõem a cidade), e no Quilombo de Tomazia. Apesar das dificuldades, a brincadeira não pode parar.
Liberdade de brincar na cidade
Para Maria Isabel Barros, do Instituto Alana, “brincar é transformar um território em um espaço de segurança e de pertencimento para as crianças”. No último século, a liberdade das crianças de brincar do lado de fora de casa foi aos poucos sendo tolhida. O raio de ação dos pequenos, trecho urbano onde a criança tem autorização da família para andar sozinha, diminuiu significativamente. Um estudo realizado na Inglaterra em 2013 mostrou que, em Londres, o raio de ação de uma criança, em 1919, era de 9,6 quilômetros. Até 2007, o raio diminuiu para 300 metros. A segurança é um dos principais fatores responsáveis por essa redução, bem como a perda de espaços verdes nos centros urbanos.
“A diminuição do raio de ação de uma criança tem impactos gravíssimos em muitas dimensões. Na dimensão da independência, na dimensão da autoconfiança, na dimensão da atividade física, na dimensão da cidadania e na dimensão do pertencimento ao território. Se a gente não tem autorização para andar naquele território, ele se torna uma coisa estranha para nós”, explica Maria Isabel.
Crianças brincam capoeira no bairro Cristal, zona Sul de Porto Alegre (Foto: Renata Feztner/ A Pezito) Remediando esse diagnóstico, o projeto A Pezito, sediado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, estimula as crianças a circularem pelo ambiente urbano, fazendo uso de espaços propícios para exercerem o brincar e entender a cidade como um agente de transformação.
Por meio de oficinas que vão desde a coleta de dados junto aos moradores das comunidades onde atua até a intervenção urbana em espaços públicos, que buscam despertar novas apropriações e olhares sobre esses espaços, o A Pezito coloca crianças no centro dessas atividades como forma de pensar as cidades a partir delas.
Em parceria com a Associação de Moradores Força Maior da Pedreira, do bairro Cristal, Zona Sul da cidade, o A Pezito criou o projeto Comitê das Crianças da Pedreira, bairro Vila Pedreira, através do programa Projetos Coletivos, da Fundação Abrinq. O projeto fomenta o protagonismo de crianças nas questões que afetam o seu desenvolvimento e bem-estar em seus territórios, “criando ambientes seguros e inclusivos a partir do brincar, da natureza e do território, reconhecendo-as como cidadãs do presente”.
Mario Prati, arquiteto responsável pelo projeto, conta que a comunidade da Vila existe há mais de quarenta anos e nunca teve um espaço planejado para o uso das crianças. “São gerações que não têm esse brincar. Brincavam na rua, e na rua passa moto, às vezes a rua é estreita”, comenta. Para ele, essa realidade explicita as muitas questões ligadas a compreensão do que é um espaço comum de brincar, além das implicações ambientais que a existência desses espaços suscita. “São espaços que podem ser pensados através desse olhar de cuidado com a natureza, cuidado com o meio ambiente e o espaço que elas [as crianças] estão vivendo ali.”
A partir disso, o projeto desenvolveu atividades com o objetivo de fortalecer os laços das crianças com o território e criar novos vínculos a partir do brincar. Algumas dessas atividades consistiram no livre caminhar pelas dependências da comunidade; na aproximação e promoção da identificação das crianças com personalidades do bairro; na ampliação do repertório das crianças sobre o próprio território, reforçando noções de territorialização, paisagens, história e arte; e na ativação e consolidação de um espaço para brincadeiras. A avaliação do uso e do rendimento do espaço também foi uma atividade que contou com a participação das crianças.
Com a escolha do espaço, próximo de uma grande rocha onde está gravada a frase “Respeite os moradores da Vila Pedreira”, e sua posterior ativação, as crianças possibilitaram a manutenção do lugar de maneira orgânica. Antes, para impedir a degradação do lugar, era necessário o uso de trabalho para que se mantivesse o espaço em ordem. Hoje, o espaço se conserva por meio da presença constante da criançada, que brinca e interage com o ambiente, descobrindo a si mesma e o próprio território nesse processo.
Crianças brincando na rua. Foto: Renata Fetzner/A Pezito
Parques naturalizados como uma solução
Num contexto em que o espaço urbano possui cada vez menos espaços verdes em virtude da priorização por áreas de concreto, o Instituto Alana, pensando na importância desses espaços para o desenvolvimento infantil, propôs um guia para gestores públicos para a implementação de parques naturalizados para o brincar. Se trata de paisagens para o brincar constituídas por elementos naturais e culturais. “Esses parques são uma resposta urgente para devolver às crianças o direito às cidades, à conexão com a natureza e oportunizar a experiência do corpo ao ar livre como fonte de saúde, aprendizagem e lazer”, diz o instituto.
O guia é embasado em estudos que indicam os benefícios da natureza para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, destacando a necessidade de infâncias sem paredes e da superação dos impactos da desconexão crescente das crianças com o mundo natural. Além da promoção do desenvolvimento psicomotor das crianças, a criação de parques naturalizados também contribui com a “melhoria do microclima da cidade, com o aumento da biodiversidade urbana e com a valorização das culturas das infâncias e dos territórios, indo no sentido oposto dos desbalanços climáticos promovidos pela construção de prédios e estacionamentos.
Outros benefícios para as múltiplas infâncias com a implementação dos parques, segundo o instituto, é a capacidade dos espaços de refletir e dar luz a elementos culturais relevantes para as infâncias e territórios; a sensibilização da criança com a flora e com a fauna características de sua região; e o favorecimento da integração entre cultura e natureza, ao incluir elementos da cultura das infâncias de cada território nos brinquedos e mobiliários.
Maria Isabel Barros acredita que brincar é algo regenerativo, momento em que o corpo assume protagonismo para que seja preparado o terreno onde irão fluir noções de cidadania, autonomia e comunicação. “As crianças se relacionam com o mundo por meio do brincar. Não tem outra forma. Não é por meio da cabeça, de maneira cognitiva. É através do corpo”. Uma cidade que possibilita esse ato nesse estágio da vida é uma cidade aliada ao meio ambiente e, portanto, mais feliz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Alexandre Briozo Filho
O ‘item 1’ do Festival Folclórico de Parintins, denominado de ‘apresentador‘, é o cargo responsável por guiar a apresentação de sua associação, introduzindo e contextualizando os itens no enredo proposto pelo boi-bumbá, com carisma, domínio e uma dicção clara, para que o público entenda a execução do tema na arena.
O cargo de apresentador nos bois bumbás do Festival de Parintins, Caprichoso e Garantido, é um papel tradicionalmente desempenhado normalmente por homens, mas foi em 1986 que Ednelza Sahdo mudou esse cenário.
Ednelza foi uma atriz, cantora e diretora, que ficou eternizada como a ‘Dama do Teatro Amazonense’, tornando-se referência e um símbolo da cultura no Amazonas.
Mas muito além do teatro e até mesmo do Carnaval, Ednelza protagonizou um dos maiores atos de inovação do boi Caprichoso. No ano de 1986 ela estreou como apresentadora, o item 1, na arena dos bumbás, solidificando a presença feminina no boi da estrela azul.
Segundo Adailson Veiga, escritor da biografia da artista, ‘Ednelza Sahdo – a dama do teatro, do carnaval e da cultura amazonense‘, a artista se interessou pela cultura popular por causa de seu pai, Faiez Isaac Sahdo, que, além de responsável pela iluminação do Estádio General Osório, em Manaus, também fazia parte da ala musical de diversas ‘tribos’ que se apresentavam no Festival Folclórico do Amazonas, do qual a artista também fez parte.
Ednelza Sahdo em Parintins. Foto: Reprodução/ Livro Ednelza Sahdo- A dama do Teatro, do Carnaval e da Cultura Amazonense.
Com uma participação emblemática, Ednelza Sahdo não se limitou apenas à apresentação, e se envolveu na organização e roteirização das três noites do festival.
Veiga registra na biografia que foi Zezito Assayag, diretor do Caprichoso naquele ano, o responsável pela participação de Ednelza.
“O responsável por esse feito genial foi o saudoso Zezito Assayag, que fazia parte da diretoria do Boi Caprichoso e teve a brilhante ideia de convidar a artista para, insolitamente, compor o importante quesito ‘apresentador'”, afirma.
Zezito repetiu o convite no ano seguinte, em 1987, porém Ednelza ficou impossibilitada devido aos conflitos de agenda.
As Superintendências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Pará e no Amazonas estão organizando uma série de oficinas de escuta social com a população como parte do processo de candidatura dos Teatros da Amazônia – o Theatro da Paz, em Belém (PA), e o Teatro Amazonas, em Manaus (AM) – a Patrimônio Mundial Cultural, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A ação marca uma etapa fundamental no processo, que exige a participação ativa da sociedade.
“Todo o processo de reconhecimento desses teatros como patrimônio mundial exige a escuta da sociedade. E chegou o momento de ouvir a população diretamente”, explica a superintendente do Iphan no Pará, Cristina Vasconcelos.
Embora a data exata ainda esteja em definição, as oficinas já estão sendo planejadas com participação das secretarias de Cultura estaduais e municipais envolvidas, reunidas recentemente em uma reunião especial para alinhar os detalhes da mobilização.
Teatro Amazonas. Foto: Divulgação/Arquivo Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas
O formato previsto para as oficinas contempla um dia inteiro de escuta, focado nos pontos centrais relacionados aos dois teatros. A convocação para participação será feita via formulário online, que será disponibilizado no portal do Iphan e das secretarias envolvidas na candidatura.
As contribuições coletadas nas oficinas serão essenciais para a construção do roteiro da vistoria que será realizada por uma consultora da Unesco, que visitará os Teatros da Amazônia no segundo semestre de 2025. A escuta social garantirá que as vozes locais estejam refletidas no processo e nas diretrizes de preservação e valorização desses espaços.
Theatro da Paz. Foto: Maycon Nunes/Agência Pará
O reconhecimento internacional dos Teatros da Amazônia representa não apenas um marco simbólico, mas também um passo importante para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à cultura e à memória da região.
A candidatura foi oficialmente apresentada em janeiro de 2025 à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), por meio de um dossiê elaborado pelo Iphan, em parceria com o Ministério da Cultura (MinC), o Ministério das Relações Exteriores (MRE), e as secretarias de Cultura do Pará, do Amazonas e das prefeituras de Belém e Manaus.
O processo está em fase de avaliação e seguirá até julho de 2026, quando será julgado na 48ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial. Até lá, estão previstas diversas ações, incluindo a visita técnica de representante do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), entidade ligada à Unesco, que avaliará in loco os teatros no segundo semestre de 2025.
Em junho, quando o mundo celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, no dia 5, o lançamento do projeto SUS na Floresta reforça a urgência de integrar saúde pública e conservação ambiental na região mais biodiversa do planeta. O projeto é executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) com parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fundo Vale e Umane, e gestão parceira do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).
A iniciativa vai levar acesso qualificado à Atenção Básica de Saúde para comunidades remotas no interior do Amazonas, com soluções sustentáveis e tecnológicas ajustadas aos preceitos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Por meio da construção de cinco pontos de apoio à saúde e a assessoria técnica para o desenvolvimento da Saúde Digital nos municípios parceiros, fortalecendo a oferta de teleatendimentos integrados ao SUS, o projeto atenderá diretamente mais de 6.700 pessoas nos municípios de Carauari, Itapiranga, Novo Aripuanã, Eirunepé e Uarini, beneficiando principalmente moradores das Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uacari, Juma, Mamirauá e Uatumã, e Reserva Extrativista (Resex) Rio Gregório – territórios onde floresta em pé e vida saudável devem caminhar juntas.
“O SUS na Floresta é mais do que um projeto. É uma proposta concreta de como levar saúde de qualidade a quem vive nos lugares mais remotos da Amazônia profunda, com tecnologia, inovação e escuta ativa das comunidades. É um modelo com alto potencial de replicabilidade em outras regiões da Amazônia Legal”, destaca Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS.
Saúde como ferramenta de justiça socioambiental
O projeto nasce em um contexto preocupante: a precariedade e a falta de acesso aos serviços de saúde em áreas rurais e ribeirinhas da Região Norte. Segundo dados oficiais, há menos de 11 médicos para cada 10 mil habitantes na região, número bem abaixo da média nacional. Ao mesmo tempo, são esses territórios que mantêm a floresta preservada e contribuem diretamente para o equilíbrio climático do planeta.
Fortalecer o SUS nesses locais significa não apenas cuidar de pessoas, mas também proteger os guardiões da floresta e valorizar modos de vida sustentáveis. A proposta articula atendimento presencial com telessaúde, por meio de tecnologia de ponta, capacitação de profissionais locais e construção de estruturas físicas.
O líder comunitário da comunidade Ubim, localizada na Resex Rio Gregório, em Eirunepé, Francisco Erly, de 24 anos, celebra a chegada do projeto:
“Vai ser ótimo, porque vai facilitar muito, porque muitas vezes têm consultas que dá pra fazer aqui [na comunidade]. Quando a gente precisa de acesso ao médico, a gente se desloca da comunidade para a cidade. [Agora,] com um ponto de telessaúde para nós vai melhorar bastante”.
Além da infraestrutura e do suporte tecnológico, o projeto oferece apoio técnico para gestão de telessaúde e ações de educação permanente para profissionais de saúde, visando à sustentabilidade das ações pelos próprios municípios após o término do projeto.
Os atendimentos serão realizados por profissionais vinculados às Secretarias Municipais de Saúde, integrados à estratégia nacional de Saúde da Família. Isso garante que os novos polos de saúde estejam inseridos na lógica de territorialização do cuidado — fortalecendo vínculos, respeitando saberes tradicionais e promovendo saúde com base na realidade de cada território.
A prática utiliza cães treinados como facilitadores terapêuticos, contribuindo para o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social dos participantes. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Nesta quinta-feira, 12, as crianças atendidas pelos dois centros de referência para a educação especial em Boa Vista receberam a visita do Grupo Tático Municipal (GTAM), da Guarda Civil Municipal. A ação apresentou uma turminha de quatro patas por meio do novo programa educacional de cinoterapia, também conhecida como Terapia Assistida por Cães.
A prática utiliza cães treinados como facilitadores terapêuticos, contribuindo para o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social dos participantes. Em Boa Vista, a iniciativa faz parte do Programa Alice Terapia Animal Educacional (PATAE) — primeira instituição reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) por capacitar profissionais voltados ao bem-estar animal e à atuação dos animais em contextos de serviço, intervenção e companhia.
Nesta primeira ação, 12 guardas civis municipais de Boa Vista participaram de uma formação teórica sobre a cinoterapia e logo fizeram a primeira atividade prática junto às crianças do Centro Municipal Integrado de Educação Especial (CMIEE), no bairro dos Estados, e do Centro Especializado em Transtorno do Espectro Autista (CETEA), bairro São Vicente.
A visita foi marcada pela interação carinhosa com os cães Faísca (da raça Border Collie), Mel e Théu (ambos Poodles), que encantaram os pequenos com demonstrações de afeto e estímulo. Além de trazer sorrisos, a atividade promoveu um ambiente de acolhimento e estímulo ao desenvolvimento das crianças.
Ao final, cada criança ainda recebeu um certificado de participação no programa, celebrando esse momento especial. Quem adorou a visita dos novos amiguinhos de quatro patas foi Pietro Rafael Cunha, de 13 anos, aluno do CMIEE.
“Gostei muito de conhecer o Faísca. Achei ele muito fofo e ainda deixou eu fazer carinho. Dá até vontade de levar ele para casa”, contou, sorridente.
Pietro Rafael Cunha, de 13 anos, conheceu o Faísca da raça Border Collie. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
A psicóloga Juscyelly Pereira é mãe da Allana Cellyny, de 8 anos, que é atendida há cerca de 10 meses no CETEA. Ela conta que tem um pet em casa, o João Apolo, e acredita que a chegada do programa com cães terapêuticos só vem a somar no desenvolvimento das crianças.
“Os animais ensinam as crianças a ter mais cuidado, responsabilidade, além de proporcionar uma troca emocional de carinho e afeto. Em muitos casos, eles até ajudam a acalmar as crianças durante crises. Acredito que será um programa maravilhoso, tanto para minha filha quanto para os demais alunos acompanhados pela unidade”, afirmou.
Equipe da Guarda Civil Municipal é a primeira no Brasil a receber a capacitação
Segundo Emi Parente, fundadora do PATAE, esse é o primeiro grupo de guardas civis municipais no Brasil a receber esse tipo de capacitação. Ela destaca a importância de unir o cuidado humano com a sensibilidade animal.
“É uma honra estar em Boa Vista formando essa equipe da Guarda Municipal. Acreditamos no poder da conexão entre humanos e animais para transformar vidas. Esses agentes agora também são pontes de afeto, inclusão e educação, levando mais amor, empatia e consciência sobre o papel dos animais em nossa sociedade. Eles auxiliam não só na saúde emocional, mas até em quadros graves, como o tratamento de doenças como o câncer”, afirmou Emi.
O planejamento de atendimentos será elaborado em parceria com as gestoras das unidades educacionais. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Planejamento das atividades
Segundo o coordenador do GTAM, Gilberto Lopes, o programa será estruturado por meio de um planejamento de atendimentos com cronograma definido, elaborado em parceria com as gestoras das duas unidades educacionais. A proposta é, após essa primeira etapa, ampliar visitas assistidas a outras escolas da rede municipal, além de hospitais e atendimentos clínicos.
“Selecionamos 12 guardas civis municipais para atuar nesse projeto. O mais gratificante é ver, já nesse primeiro contato, como as crianças reagem positivamente à presença dos animais. Eu tenho um filho atípico e sei o quanto esses momentos fazem a diferença. Além disso, recebemos uniformes e um transporte exclusivo, o que garante a mobilidade adequada dos cães e reforça a identidade visual do projeto”, destacou o coordenador.
A diretora do CETEA, Sandra Nobre, avalia a chegada do programa como positiva, pois oferece um novo suporte terapêutico aos alunos dos dois centros de educação especial.
“Estamos muito felizes com essa parceria com a Guarda Civil Municipal. A cinoterapia traz a possibilidade de desenvolver a empatia nas crianças, além de trabalhar estímulos sensoriais e proporcionar uma interação diferenciada. Essa abordagem contribui também para o desenvolvimento motor e cognitivo dos alunos, ampliando ainda mais os resultados das terapias já feitas nas unidades”, destacou.
Qualquer tutor interessado pode se voluntariar com seu pet no programa de Cinoterapia. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Quer fazer parte da turminha do Faísca?
Para integrar essa “turminha de quatro patas”, os cães passam por uma triagem criteriosa. Primeiro, verifica-se se estão acostumados a ambientes públicos, se não apresentam reatividade a outros animais ou a pessoas e, sobretudo, se demonstram disposição e alegria — requisito essencial para as atividades, já que o foco é a interação lúdica com as crianças. A partir dessas brincadeiras, conteúdos pedagógicos e habilidades socioemocionais são estimulados de forma natural.
Nesta primeira turma, os cães pertencem aos próprios integrantes do GTAM. Porém, qualquer tutor interessado pode se voluntariar com seu pet: basta procurar a equipe do programa na sede da Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública (SMSOP). O animal será avaliado e, se aprovado, participará de um treinamento específico para atuar nas visitas terapêuticas junto à comunidade.
Ritual de boas-vindas na aldeia Ulupuwene marca parceria entre indígenas e pesquisadores. Foto: Celso Viviani
Em uma roça de mandioca na aldeia Ulupuwene, no Alto Xingu, estado de Mato Grosso, um ancião do povo Waurá espeta na terra estacas retiradas de diferentes variedades de mandioca, bem perto uma da outra. De cada uma brotam folhas e raízes. Quando crescem e formam arbustos, as plantas cruzam entre si. A técnica de cultivo estimula a produção de sementes de novas variedades da planta, evitando o empobrecimento genético típico das plantas clonadas, segundo estudo publicado em março na revista Science.
“A mandioca foi domesticada por povos indígenas há cerca de 6 mil anos na borda sul da Amazônia, que hoje corresponde aos estados de Rondônia e Mato Grosso”, conta o etnobiólogo Fábio Oliveira Freitas, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Recursos Genéticos e Biotecnologia, que coordenou uma equipe de pesquisadores de oito países.
A planta se tornou tão central na alimentação que foi sendo difundida na forma de estacas (partes do caule), desde antes do período colonial, por meio de trocas entre comunidades vizinhas, desde o sul dos Estados Unidos até a parte meridional da América do Sul.
Os pesquisadores chegaram a essa conclusão a partir da análise do genoma de 282 amostras de mandioca domesticada (Manihot esculenta) e selvagem (Manihot flabellifolia) de coleções vivas de instituições de pesquisa ou de roças tradicionais, além de DNA extraído de coleções de herbários e artefatos encontrados em sítios arqueológicos. Além disso, usaram dados genômicos de 291 amostras de estudos anteriores, totalizando 573 genomas analisados.
“Muitos agricultores tradicionais, indígenas ou não, identificam as plantas que brotam de sementes e as deixam crescer”, relata Freitas. Se tiverem as qualidades que procuram – como um tamanho mais avantajado da raiz tuberosa ou um teor maior de amido –, passam a usá-las como fonte de estacas, que formam clones idênticos à planta-mãe. Segundo ele, o arbusto pode cruzar com espécies selvagens, que vivem nas cercanias das roças, incrementando a variabilidade no genoma.
“A clonagem fez com que todos os pés de mandioca das Américas tenham os mesmos marcadores genéticos de parentesco, como se fossem irmãos”, afirma o biólogo britânico Robin Allaby, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, um dos autores do artigo. Em conversa com Pesquisa FAPESP, ele destacou que o padrão difere de culturas como o milho, que forma linhagens distintas.
“O estudo faz uma análise genética abrangente da mandioca, confirmando padrões genéticos que foram observados em estudos mais restritos”, avalia o etnobiólogo Nivaldo Peroni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que não participou do estudo.
“No entanto, poderia ter ressaltado com mais ênfase a importância das comunidades tradicionais não indígenas na geração de diversidade – não apenas na Amazônia, mas em outros lugares do Brasil e das Américas”.
Segundo Peroni, existem mais de 7 mil variedades de mandioca, criadas por comunidades com preferências próprias na hora de selecionar as plantas. O pesquisador tem estudado a origem e a circulação de variedades no contexto das comunidades tradicionais brasileiras e destaca que agricultores de origem açoriana que vivem na costa atlântica do centro-sul do país, como no estado de Santa Catarina, aprenderam a plantar mandioca com povos indígenas locais.
“No Sul predominam variedades extremamente brancas, refletindo o desejo de produzir algo parecido com a farinha de trigo da Europa”, acrescenta Peroni. No litoral do estado de São Paulo, ele encontrou mais de 50 variedades no município de Cananéia e mais de 30 em Ubatuba, com características próprias – muitas delas geradas a partir da brotação de sementes em roças e quintais de comunidades caiçaras.
O ancião Kuratu Waurá monta uma casa de Kukurro fincando estacas de mandioca. Foto: Celso Viviani
Por ser um alimento rico em nutrientes e de fácil reprodução e transporte, o tubérculo se tornou um dos principais itens da dieta indígena e parte da alimentação de 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Freitas e Allaby visitaram a aldeia Ulupuwene diversas vezes entre 2018 e 2023 para investigar o cultivo tradicional da mandioca, coletar amostras das variedades e entrevistar os moradores. “É uma técnica única, dominada por poucas famílias”, relata Freitas, que estuda a agricultura dos Waurá desde 1997.
Depois de preparar a roça, os indígenas formam montes de terra afofada, para facilitar a colheita do tubérculo, e espetam ramos que representam elementos da lenda que rodeia a produção da mandioca. O conjunto de estacas, eles chamam de casa de Kukurro, deus representado pela lagarta que come as folhas da mandioca. O crescimento da planta seria fortalecido pelos cantos rituais para Kukurro. As sementes formadas por essa mistura de plantas são uma fonte importante de variedade genética e costumam ficar dormentes até que o fogo, usado para limpar o terreno antes do plantio da roça, estimule sua germinação a partir do ano seguinte.
“As mulheres desempenham um papel crucial nesse processo”, ressalta a bióloga Carolina Levis, da UFSC, que não participou do estudo. “Elas costumam ser as principais responsáveis por cuidar das roças. São curiosas e deixam crescer as plantas novas, observando suas características.”
“Os Waurá são bastante seletivos”, acrescenta Freitas. “Escolheram quatro variedades originadas por sementes no período de nossas visitas, mas descartaram todas por avaliar que não tinham características novas.” Se a planta é aprovada, eles a batizam e incorporam à coleção viva da aldeia.
O vídeo Casa de Kukurro, produzido pela Embrapa em 2019 e disponível no YouTube, mostra o ritual que acompanha o plantio. Os Waurá não se incomodam com as lagartas que comem as folhas da mandioca: na mitologia da aldeia, é Kukurro que se alimenta e assim cuida das plantas. As mudas que nascem de sementes são chamadas kukurromalacati e são consideradas plantas que caem do céu.
“Identificamos 19 variedades de mandioca-brava em Ulupuwene”, relata Allaby. Segundo os pesquisadores, ao contrário das variedades conhecidas como aipim, macaxeira ou mandioca-doce, esse tipo de tubérculo pode ser letal se não for processado para a eliminação do ácido cianídrico, que tem efeito tóxico. “É preciso descascar a raiz, ralar e prensar a polpa, ferver para o ácido cianídrico evaporar e pôr o polvilho ao sol para secar”, relata Freitas. O polvilho é usado para fazer biju, principal item da alimentação Waurá ao lado do peixe.
Ao se casarem, as mulheres costumam levar a coleção de plantas de sua família até o marido e seguem trocando as plantas quando voltam para visitar os parentes. “O casamento pode ser interétnico e envolver grandes distâncias, aumentando a circulação de estacas”, acrescenta Levis.
“O estudo mostra o quão importante é a agricultura de pequena escala para a segurança alimentar”, afirma Allaby. Segundo ele, das 20 variedades de banana que existem no Brasil, só a nanica, que está se deteriorando geneticamente e pode desaparecer em questão de décadas, resiste ao transporte de navio até a Europa. “Os indígenas conhecem muito mais sobre a lavoura da mandioca do que nós”, reconhece. Segundo ele, a casa de Kukurro é uma técnica que pode ajudar a rejuvenescer, do ponto de vista genético, a diversidade da mandioca e de outras plantas e representa um exemplo marcante de como a ciência acadêmica tem a ganhar no intercâmbio com a ciência dos povos indígenas e tradicionais.
A construção de hidrelétricas no rio Madeira — um dos mais importantes da Amazônia e parte da região do Interflúvio Madeira-Purus — impactou drasticamente os padrões migratórios da dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), um dos maiores peixes de água doce do mundo, muito apreciado na culinária amazônica.
A dourada é conhecida por realizar migrações de longa distância, percorrendo até 12 mil quilômetros entre as áreas de desova, na parte alta do rio Madeira, e os berçários no estuário do rio Amazonas. Essa jornada é essencial para o ciclo de vida da espécie, que depende da conectividade entre os rios para se reproduzir e crescer.
A construção das barragens de Jirau e Santo Antônio, em 2011 e 2012, alterou significativamente essa dinâmica. Utilizando a análise da microquímica dos otólitos — estruturas localizadas no ouvido interno dos peixes —, pesquisadores observaram uma drástica redução no número de indivíduos que retornam às áreas de desova após a construção das hidrelétricas.
Antes das barragens, 79% dos peixes apresentavam o comportamento de “retorno natal” (homing), ou seja, voltavam para desovar no mesmo local onde nasceram. Após a construção, essa proporção caiu para apenas 5%. A maioria dos peixes (95%) passou a ser considerada residente, permanecendo no rio Madeira durante todo o ciclo de vida.
Essa mudança de comportamento tem implicações ecológicas relevantes: os peixes residentes apresentaram um crescimento menor em comparação aos migratórios, o que indica que a falta de acesso às áreas de berçário no estuário do Amazonas pode comprometer o desenvolvimento da espécie.
Os dados foram publicados na revista Conservation Letters, no artigo intitulado “Quantitative impacts of hydroelectric dams on the trans-Amazonian migrations of goliath catfish” (“Impactos quantitativos das barragens hidrelétricas nas migrações transamazônicas da dourada”, em tradução livre).
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP) — instituições associadas à Aliança Águas Amazônicas —, entre outras. Eles concluem que é necessário restaurar a conectividade do rio para garantir a conservação da dourada.
A construção de passagens eficientes para peixes é apontada como medida crucial para que esses animais possam completar seu ciclo de vida e para assegurar a manutenção da biodiversidade na bacia amazônica. Veja imagens e saiba mais sobre a espécie aqui.
Referência: Hauser, M., Doria, C. R. C., Pécheyran, C., Ponzevera, E., Panfili, J., Torrente-Vilara, G., Renno, J. F., Freitas, C. E., García-Dávila, C., & Duponchelle, F. (2024). Quantitative impacts of hydroelectric dams on the trans-Amazonian migrations of goliath catfish. Conservation Letters, 17, e13046. https://doi.org/10.1111/conl.13046
Constituição Federal possui versão em nheengatu. Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF
“Purãga ara” quer dizer bom dia em nheengatu, idioma originado do tronco linguístico tupi com influência do português. Já foi o mais falado na Amazônia e ainda é usado por um total estimado entre 6 mil e 30 mil indígenas e ribeirinhos, principalmente no Brasil, Colômbia e Venezuela.
Para aprender essa língua, agora há dois aplicativos. O primeiro, Nheengatu App, foi lançado em 2021, com o apoio da Lei Aldir Blanc e da Secretaria de Cultura do Pará. Elaborado por Suellen Tobler Almeida, graduada em tecnologia de análise de sistemas, como parte de seu mestrado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), contém exercícios, imagens, áudios e canções.
Os alunos Vitor Bandeira e Gustavo Pacheco, da equipe que desenvolveu o trabalho. Foto: Reprodução/Insper
O segundo, anunciado este ano, foi uma encomenda da IBM, concretizada pelo engenheiro da computação Tiago Fernandes Tavares e por um grupo de alunos do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).
Ainda sem site, o aplicativo integra tradutores, dicionários e corretores ortográficos para facilitar a produção de textos no idioma indígena. Saiba mais AQUI.
Nos dois casos, os desenvolvedores apresentaram as versões preliminares para indígenas voluntários, em busca de sugestões.
A Amazônia tem destaque na coleção com figurinhas de espécies de árvores. Foto: divulgação
A cinco meses da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em novembro em Belém (PA), crianças da capital paraense irão receber um presente especial: o álbum de figurinhas “Árvores do Mundo”, uma iniciativa da Vale que une ludicidade e educação ambiental para falar sobre sustentabilidade de forma leve e descontraída.
A ação tem como objetivo sensibilizar o público infantil sobre a importância da conservação da natureza e promover o engajamento local em torno da conferência, que reunirá líderes globais para discutir o futuro do clima no planeta. A distribuição dos álbuns e figurinhas será gratuita e começa no dia 14 de junho em Belém (PA).
O álbum, criado em parceria com a agência Africa Creative, ilustra 60 espécies de árvores representativas dos cinco continentes, sendo 10 delas em versões especiais com realidade aumentada. Ao escanear o QR Code com o celular, as crianças poderão ver imagens tridimensionais das árvores e acessar informações educativas sobre cada uma delas.
A Amazônia tem destaque na coleção com figurinhas de espécies de árvores icônicas como castanheira-do-pará, babaçu, sumaúma e seringueira. Também estão presentes árvores de países como Estados Unidos (sequoia-vermelha), China (jasmim-do-imperador), Canadá (bétula-amarela), França (plátano), Itália (choupo-branco), Japão (glicínia), entre outros.
A distribuição dos álbuns e figurinhas será gratuita e começa no dia 14 de junho, com um evento de lançamento na Usina da Paz do bairro Jurunas, em Belém. Em seguida, a programação continua no dia 18 de junho na Usina da Paz do Bengui, e se encerra no dia 28 de junho na Usina da Paz da Cabanagem.
Durante os eventos, as crianças poderão participar de atividades como: apresentações culturais, brinquedo interativo “roleta da floresta”, que distribui figurinhas extras como prêmios, espaço instagramável para que os participantes se fotografem como se fossem figurinhas do álbum, e ainda vivenciar experiência de realidade virtual, conhecendo as ações de preservação ambiental desenvolvidas pela Vale na região amazônica.
As Usinas da Paz fazem parte do programa estadual Territórios Pela Paz (TerPaz), que promove inclusão social e cidadania em comunidades vulneráveis. Com mais de 70 serviços gratuitos, as unidades oferecem cursos profissionalizantes, reforço escolar, emissão de documentos, atividades esportivas e culturais, entre outros.
“O engajamento das novas gerações é essencial para que sejamos bem-sucedidos no combate às mudanças climáticas. A gente acredita que essa iniciativa conseguirá, de forma lúdica, despertar o interesse das crianças para um tema essencial nesse contexto, a preservação das florestas”, afirma Leandro Modé, diretor de Comunicação e Marca da Vale.
Atuando de forma sustentável na Amazônia há 40 anos, a Vale contribui com a proteção de 800 mil hectares do Mosaico de Carajás, no Pará, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). As operações da companhia ocupam cerca de 3% do Mosaico. Na última década, a Vale investiu mais de R$ 1 bilhão em ações socioambientais, pesquisa & desenvolvimento e incentivo à cultura. Deste total, R$ 910 milhões foram voluntários.
Na Floresta Nacional de Carajás, onde fica a maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo, estão catalogadas mais de 3 mil espécies de fauna e flora, além de 11 mil nascentes de água protegidas. Para proteger essa área, equipe de guardas florestais mantida pela Vale realiza patrulhamentos diários por terra, ar e água, além do combate a focos de incêndio. A atuação evitou, entre 2021 e 2024, 662 tentativas de atividades como garimpo ilegal, caça e pesca predatórias e extração de madeira.
Em 2019, a Vale se comprometeu com seis metas de sustentabilidade alinhadas à Agenda 2030 da ONU. Uma delas é a Meta Florestal Vale. A iniciativa prevê a recuperação de 100 mil hectares de áreas e a proteção de outros 400 mil hectares de florestas, além das fronteiras da companhia, até o final desta década. Esse compromisso voluntário vai além das exigências regulatórias, consolidando-se como uma estratégia inovadora de solução climática liderada pelo setor empresarial.