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Desastres hidrológicos são os mais recorrentes na Amazônia Legal nos últimos 28 anos , aponta InfoAmazonia

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Foto: Reprodução/InfoAmazonia

A Amazônia Legal tem se mostrado cada vez mais vulnerável aos desastres naturais influenciados pelas mudanças globais do clima. De 1995 a 2024, houve um aumento de 1.789% nos registros de eventos climáticos na Amazônia: foram 1.425 ocorrências no ano passado, contra 37 no início da série analisada pela InfoAmazonia, com base nos dados do Sistema Integrado de Informações de Desastres da Defesa Civil.

Os eventos hidrológicos, como enxurradas, inundações e alagamentos, são os mais recorrentes na região, representando aproximadamente 64% de todos os desastres naturais. Ainda segundo dados do Sistema Integrado de Informações de Desastres da Defesa Civil, foram contabilizados 3.430 desastres desse tipo entre 1995 e 2024. Esta predominância está diretamente ligada à relação das cidades amazônicas com os rios.

O Pará lidera o ranking de desastres hidrológicos na Amazônia Legal, com 1.147 registros entre 1995 e 2024 (33% do total). Em seguida, temos Amazonas, com 716 ocorrências, Mato Grosso (541), Maranhão (483) e Tocantins (238). Rondônia (97), Acre (89), Roraima (73) e Amapá (46) apresentam menor incidência dos eventos, mas seguem o mesmo perfil, com mais desastres relacionados à água como o principal problema enfrentado nas últimas três décadas.

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A Defesa Civil Nacional define desastres como eventos graves naturais ou humanos que causam danos à vida, ao ambiente e à economia. Eles são classificados em naturais (como meteorológicos, climatológicos, geológicos e hidrológicos) e humanos (como acidentes com produtos perigosos ou incêndios). A Defesa Civil é responsável por monitorar e agir para reduzir os impactos desses eventos no Brasil.

Entre os naturais, está o desastre climatológico de chuvas. A Classificação e Codificação Brasileira de Desastres (Cobrade), criado pelo Ministério de Integração e Desenvolvimento Regional, define que esse tipo ocorre quando há grande volume de chuva em pouco tempo. Elas podem provocar inundações (transbordamento de rios), enxurradas (escoamento rápido em terrenos inclinados) e alagamentos (acúmulo de água por falha na drenagem urbana).

De acordo com o Atlas de Desastres Brasileiro, documento que disponibiliza dados sobre desastres no país, com base no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, essa interação de todos os eventos monitorados pela Defesa Civil Nacional leva a extremos com impactos significativos para o ecossistema, populações e atividades econômicas na região. A sistematização dos dados permite ter um panorama de situações de emergência no período de 1995 a 2024.

Municípios líderes em desastres

O levantamento mostrou ainda quais são os municípios com mais registros em cada estado da Amazônia. No Pará, destaca-se Oriximiná, localizado a 881 km de Belém, com um total de 139 casos de desastres naturais. Já em Mato Grosso, o município com maior número de ocorrências foi Sorriso, a 398 km de Cuiabá, com 61 casos — a maioria relacionada a incêndios florestais. 

No Amazonas, Manacapuru, a 93 km de Manaus, registrou 37 casos, todos associados a inundações. Esses eventos não ocorrem de forma isolada, mas são intensificados por fatores críticos, como as mudanças climáticas globais, o fenômeno El Niño — que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e afeta o clima em várias partes do mundo, alterando os padrões de chuva e temperatura —, e também pela oscilação de temperatura no Atlântico Norte tropical, que influencia diretamente o regime de chuvas na bacia amazônica.

Tanto Mato Grosso, Rondônia e Roraima apresentaram mais registros de desastres climatológicos, provocados principalmente pela escassez de chuvas. Mato Grosso registrou 333 casos de incêndios florestais, Rondônia e Roraima registraram respectivamente 52 e 38 casos de estiagem e seca. 

Apesar de Mato Grosso ter registrado a maior quantidade de incêndios florestais, e Roraima e Rondônia apresentarem como principais desastres a estiagem e seca, a maioria dos registros na Amazônia é decorrente de inundações. Esse tipo de tragédia vem impactando milhões de pessoas que vivem próximas aos rios, igarapés e do mar.

A complexidade dos desastres na Amazônia evidencia a necessidade de estratégias integradas de gestão de riscos, que considerem as particularidades de cada estado e seus desafios específicos. Além disso, é essencial reforçar iniciativas de conservação ambiental e políticas públicas que promovam a resiliência das populações afetadas e a proteção dos ecossistemas, assegurando o equilíbrio ecológico e a qualidade de vida na região.

Inundações na zona costeira

A região amazônica, em sua vasta extensão, apresenta uma disposição a desastres naturais, resultado da interação entre fatores climáticos, hidrológicos e meteorológicos. No entanto, dentro deste cenário, destacam-se áreas como a Zona Costeira Amazônica, que é considerada uma zona permanentemente de risco. 

A Zona Costeira Amazônica possui um litoral que se estende por 1.294 km, abrange os estados do Amapá, Pará e parte do Maranhão, cuja característica principal é a presença marcante da Foz do Amazonas. Essa região é agravada tanto pelos processos naturais característicos de zonas costeiras, como erosão, aumento do nível do mar e mudanças na dinâmica sedimentar, quanto pela influência direta do oceano, que intensifica os impactos locais.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é a Foz do Amazonas?

Segundo a doutora em geologia e pesquisadora no Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), Valdenira Santos, essa proximidade com o oceano influencia as dinâmicas ambientais e sociais até 800 km rio adentro, moldando o ritmo de vida das comunidades locais por meio do fluxo contínuo das marés.

“Um exemplo relevante é a foz do rio Amazonas, que inclui a parte norte da Ilha do Marajó e o litoral do Amapá. Nessa região, a intrusão de água salgada vinda do oceano pode alcançar grandes extensões devido à topografia plana e baixa. Os principais problemas enfrentados por essas zonas incluem inundações e processos de erosão costeira”, comenta a pesquisadora. 

As constantes alterações na costa são frequentemente relatadas por muitas comunidades da Foz do Amazonas. Fenômenos como invasão salina, inundações, erosão e acreção têm se tornado mais frequentes e severos, especialmente sob o impacto das mudanças climáticas e da elevação do nível do mar.

Municípios como Macapá, no Amapá, que se encontra no canal norte da Foz do Amazonas, e Chaves, no Pará, que está no canal sul, integram a Zona Costeira de Baixa Elevação. Essa região é caracterizada por áreas com uma elevação de menos de dez metros, aproximando-se ao nível médio do mar. Com a característica do terreno baixo e plano, o risco de inundação na região da foz do rio Amazonas aumenta. 

Valdenira Santos explica, ainda, que essa a dinâmica hidrológica do rio Amazonas está diretamente relacionada à periodicidade da Zona de Convergência Intertropical, um sistema que regula os padrões de chuvas na região. Além disso, também é influenciada pelo “El Niño” e “La Niña”. Quando o rio Amazonas atinge seu pico máximo de volume de água devido às chuvas intensas, ocorrem inundações fluviais que se espalham por diversos rios da região.

“Na Foz do Amazonas temos o encontro com o mar. O mar traz duas vezes por dia, no nosso caso aqui, as marés que elas sobem e descem. Com a alíquota máxima [nível máximo] do rio, e a maré subindo e descendo, temos um nível d’água que é mais exacerbado. Por isso, vemos inundações, principalmente em dias de lua cheia, devido a gravidade lunar que puxa a água em direção à lua e cria grande marés”, comenta Santos. 

No distrito da Vila de Nascimento, que fica a 115 km da sede do município de Chaves, na Ilha do Marajó, no Pará, houve uma inundação em 2019, segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres. Estima-se que o desastre tenha atingido 1.627 pessoas, entre elas alunos da escola municipal Júlia de Paula Moraes e destruído passarelas. A água também foi contaminada devido ao transbordamento dos banheiros (fossa rudimentar), morte de animais de espécies bubalinos e suínos, impossibilitando que 283 alunos tivessem acesso à escola entre os meses de março e abril.

A diretora Renata Melo, da escola Júlia de Paula Moraes, explica que, quando a maré vinda do oceano chega com força, ela avança sobre a terra, causando a queda de pontes. Mesmo durante o período de “maré morta”, em que o rio Amazonas apresenta menor volume, ela avança de forma mais lenta, mas ainda assim provoca danos, como a degradação dos portos e a intensificação da erosão.

“Quando está esse período de marés perigosas, a gente suspende as aulas e suspende também os alunos que moram perto da escola, porque eles precisam fazer esse percurso por ponte. Às vezes, a ponte está tomada de espinhos e de lixo que a maré traz, servindo de alojamento para animais peçonhentos como cobra, escorpião. Já aconteceu muito”, diz Melo.

A erosão é um outro problema que vem afetando as comunidades da região litorânea de Chaves. Segundo os dados Atlas de Desastres Brasileiro, a erosão é o desastre mais comum no município de Chaves.

Renata diz que, apesar de as casas nas comunidades não serem atingidas, é frequente que as famílias sejam transferidas para outros lugares. Dona Lucivalda Monteiro, moradora da comunidade do rio Tartaruga, 124 km da sede do município de Chaves, conta que, quando era criança, o rio era bem estreito, mas, com a intensificação da erosão, há uns dez anos para cá, precisou recuar sua casa para evitar perdê-la. 

“Nós desmanchamos a antiga casa, construímos esta, e já construímos outra aqui para trás porque está aqui já está bem na beira. Tem que ver no inverno mesmo, que é muita maresia das embarcações que andam por dentro, né? Aí que cai”, explica Dona Lucivalda.

Totalizando os danos de todos os desastres ocorridos no município de Chaves e apresentados no Atlas de Desastres Brasileiro, os custos podem ultrapassar R$ 11,2 milhões. Os eventos aumentaram a vulnerabilidade das comunidades, provocando prejuízos materiais, risco à saúde, dificuldades no abastecimento de água potável e nas atividades essenciais de subsistência, como a pesca e a criação de animais.

O bailar das ilhas

Outra região que vem sendo atingida pelas mudanças costeiras associadas a eventos climáticos e hidrológicos extremos é o arquipélago do Bailique, distrito localizado a 180 km de Macapá, no Amapá. Atualmente, vivem cerca de 12 mil pessoas no arquipélago, distribuídas em 52 comunidades, divididas em doze ilhas banhadas pelo rio Amazonas, com acesso apenas por via fluvial.

O nome Bailique deriva do tupi e significa ilhas que bailam, fazendo uma referência ao processo de constante mudança da região. A pesquisadora Valdenira Santos fala que não é só o Bailique que “baila”, mas todas as ilhas da Foz do Amazonas têm esse mesmo comportamento. Esse processo é natural e motivado pela quantidade de partículas de barro vindo na água do rio Amazonas, unindo corrente fluvial e as variações de maré.

“[Isso ocorre] exatamente devido às correntes, do material sempre disponível que é depositado nas beiradas das ilhas ou removido no processo de erosão fluvial e depositado em outros lugares. São envolvidos três principais fenômenos nesse processo muito peculiar da região da foz do rio Amazonas: a erosão, a acreção e o transporte de sedimentos”, completa a pesquisadora. 

O fenômeno da acreção se refere à formação de praias devido ao acúmulo de sedimentos, conhecido como “acamamento de maré”. Trata-se da deposição de camadas de lama e areia que, com o tempo e de forma constante, acabam emergindo. Depois, essas áreas passam a ser ocupadas por manguezais e vegetação de várzea.

Por não se tratar de um solo consolidado, e devido à força da correnteza ou à variação da maré, ocorre o processo de erosão — outro fenômeno característico da foz do rio Amazonas. Com a retirada do material das margens ou do fundo do rio, esses sedimentos erodidos são transportados para outras regiões, reiniciando o ciclo de acreção, erosão e transporte sedimentar.

Apesar dessas constantes alterações serem naturais, pesquisadores e as próprias comunidades começaram a notar que elas estão cada vez mais intensas nos últimos cinco anos. Ainda não se confirmou se ocorrem devido à maré do oceano ou ao aumento da força de corrente do rio Amazonas. A erosão vem atingindo fortemente as comunidades do centro do arquipélago do Bailique e causando danos humanos, materiais e afetivos com as comunidades. 

Geová Alves, morador da comunidade Vila Macedônia e presidente da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique – ACTB, diz que sua comunidade era totalmente diferente, tendo três vezes o tamanho que tem hoje. Conta que o processo de erosão ficou mais forte a partir de 2018-2019, onde ainda existia metade da comunidade e moravam cerca de 1.200 habitantes. Hoje são apenas 600. 

“Nós já perdemos três fileiras de passarela. Cada passarela tem dois terrenos de 30 metros cada um. Então, foram 180 metros que a gente já perdeu só de comunidade, fora a área que tinha na frente. Tinha uma escola lá na frente, tinha um campo de futebol e tinha uma passarela enorme, com várias casas, que já se perdeu”, lembra Geová.

Passarelas são estruturas de madeira construídas para permitir a circulação dos moradores entre as casas e áreas comuns da comunidade. Como a região é cercada por rios e sujeita a inundações frequentes, essas passarelas funcionam como “ruas elevadas”.

A pesquisadora Valdenira Santos acompanha a situação da erosão nas comunidades de Chaves, no Pará, e do Bailique, no Amapá, por meio do Observatório Popular do Mar (OMARA). O projeto tem como objetivo monitorar os impactos desse fenômeno, coletando dados diretamente das observações realizadas pelos moradores locais para subsidiar iniciativas voltadas à solução do problema.

Santos destaca que, apesar das dificuldades e dos prejuízos já enfrentados, as comunidades da Foz do Amazonas têm uma notável capacidade de adaptação. Contudo, ela ressalta que para que essas adaptações sejam eficazes e alinhadas às necessidades locais, é fundamental compreender em profundidade como os fenômenos ocorrem na região.

“Por exemplo, eu não posso construir uma escola, um posto de saúde, numa zona de erosão. Mas como é que você vai saber disso? Não é só olhando. Você tem que ir lá. Você tem que medir, você tem que fazer análise de satélite, saber quanto é a velocidade de corrente para você saber se a corrente ainda está forte o suficiente ou não para manter aquele processo. Tem que saber como é esse fundo de rio. Então, você pega todas essas informações morfológicas, hidrodinâmicas, e aí consegue dar um diagnóstico e um prognóstico. Dessa forma, eu posso me antecipar aos problemas e não deixá-los chegar para a gente tentar tomar soluções imediatas”, comenta a pesquisadora. 

Os dados do Atlas de Desastres Brasileiro mostram que do total de registros de desastres ocorrido em Macapá, 32% foram na região do Bailique, em sua maioria do tipo erosão. Em 2017 e 2018, o evento afetou 1390 pessoas, além de ter deixado 514 casas destruídas ou danificadas. Consta, ainda, que houve a destruição total de aproximadamente 2.400 metros de passarelas; danos na rede de distribuição elétrica com a queda de postes e danos parciais em unidades de saúde e ensino. 

Mais recentemente, em 2021, houve dois registros de erosão e, em 2023, mais outro. O desastre afetou o abastecimento e a distribuição de água potável e de eletricidade das duas maiores comunidades do arquipélago, Vila Progresso e Macedônia. Estima-se que os desastres já tenham causado em reais R$ 39,4 milhões, mais da metade desse valor, cerca de 72%, foi danos em habitação da população do Bailique. 

A Defesa Civil do Amapá não informou quanto vem destinando para responder desastres do tipo erosão nas comunidades, reforçou que a assistência prestada às famílias está na ajuda humanitária com cesta de alimentos e água potável. No entanto, não informou quanto foi gasto nesse período. 

Esta reportagem foi produzida por jornalistas bolsistas da segunda edição do curso de Jornalismo Investigativo Ambiental e Geojornalismo, oferecido com o apoio da Earth Journalism Network da Internews, e é parte do eixo educacional da InfoAmazonia.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Thales Lima

Cuscuz, o prato típico nordestino que se tornou queridinho no Norte

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Foto: Reprodução/TV Globo

Cuscuz com café, ovo, leite ou até uma versão doce, no café da manhã, almoço e até na janta. São vários os jeitos de degustar o prato que é a cara de Rondônia. Mas você sabe onde surgiu e o porquê da massa amarela do milho ser tão popular no estado?

O Grupo Rede Amazônica conversou com o historiador Aleks Paliot, que volta no tempo para explicar como um prato típico do Nordeste se tornou o queridinho do Norte.

Um dos períodos que marcaram a introdução do cuscuz no território futuramente nomeado de Rondônia é o Ciclo da Borracha. Segundo Aleks Paliot, a região recebeu uma grande migração de nordestinos e povos de vários estados.

Os “soldados da borracha” fugiam da seca e chegaram a Rondônia com suas bagagens, cultura e principalmente o cuscuz.

Uma pequena volta no tempo

A história do grãozinho começa antes da combinação entre as culturas do Norte e Nordeste, a origem do prato não é brasileira e sua chegada está ligada a uma época em que pessoas eram separadas de suas famílias e comunidades e obrigadas a viajar em condição cruéis.

Segundo Palitot, o cuscuz veio do continente africano para o Brasil nos navios tumbeiros com os escravizados que eram obrigados a trabalharem com a produção açucareira no Nordeste. De acordo com Paliot foi assim que o alimento foi introduzido na culinária nordestina.

Leia também: Milho chegou ao Brasil pela Amazônia ocidental e foi domesticado ao longo de ondas migratórias

O cuscuz não é somente um alimento: o prato simboliza a identidade desses povos que, por diferentes motivos, tiveram que deixar seu lar.

A mistura e a combinação de diferentes culturas é o motivo para o alimento ser tão popular entre os rondonienses, que hoje após adaptações do prato consomem de diferentes formas e horários.

“Houve um sincretismo gastronômico cultural, entre os nordestinos e os ‘beiradeiros’. Foi assim que o alimento se tornou típico aqui”, conclui o historiador.

Confira abaixo receitas de Cuscuz:

Cuscuz tradicional

O cuscuz tradicional é feito a partir do fubá de milho, que é uma espécie de farinha com flocos finos e que absorvem mais água. Confira abaixo os ingredientes:

  • 2 xícaras de chá de flocão;
  • 1 xícara de chá de água;
  • Uma colher de chá de sal, ou a gosto.

Modo de fazer

  • Em um recipiente misture a farinha de milho com o sal. Coloque água aos poucos e mexa bem. Se possível, deixe hidratar por 5 a 10 minutos.
  • A massa é cozida no vapor de água, para isso é utilizada uma panela específica: a cuscuzeira. Para manusear faça assim: encha o fundo da cuscuzeira com água e encaixe o “cesto de vapor” na panela.
  • Coloque a farinha de milho hidratada no cesto. Tampe e leve ao fogão. Quando começar a ferver a água deixe cozinhar por mais 10 minutos.
  • Depois retire da cuscuzeira e adicione acompanhamentos, são boas pedidas: manteiga, ovo, queijo, frango e carne de sol, por exemplo.

Cuscuz de tapioca com coco e castanha

O Rondônia Rural já ensinou como fazer um cuscuz de tapioca com coco e castanha. Uma versão com ingredientes da amazônica que, segundo a chef Marita Moura, é fácil de fazer (veja no vídeo acima).

Ingredientes

  • 5 xícaras de leite
  • 4 xícaras de tapioca
  • 2 xícaras de coco ralado
  • 1 xícara de açúcar
  • 1 pitada de sal
  • 1 pitada de cumaru

Cobertura:

  • Doce de leite
  • 1 xícara de castanha do Brasil triturada

Modo de fazer

  • Em um recipiente, coloque as quatro xícaras de tapioca, as duas xícaras de coco ralado, uma xícara de açúcar, as cinco xícaras de leite e misture bem. Depois acrescente o sal.
  • Depois escolha a especiaria de sua preferência para aromatizar, pode ser canela. Mas a escolha da Chef foi cumaru.
  • Então deixe essa mistura por 8h na geladeira (confira o ponto correto no vídeo acima).
  • Depois, com a consistência correta, cubra o cuscuz de tapioca com doce de leite e a castanha do Pará.

*Com informações da Rede Amazônica RO

Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde para respostas rápidas a doenças infecciosas em comunidades rurais ribeirinhas

Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde. Foto: Divulgação/Fiocruz Amazônia

Um projeto piloto, desenvolvido pela Fiocruz Amazônia e Semsa-Manaus, vem desenvolvendo desde maio de 2024 uma série de atividades em duas comunidades rurais ribeirinhas de Manaus, com a finalidade de fortalecer o trabalho de vigilância em saúde para respostas rápidas a doenças infecciosas emergentes, a partir do desenvolvimento de uma ferramenta digital capaz de promover a coleta, gerenciamento e disseminação de dados sobre casos suspeitos que ocorram nas comunidades e entorno.

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Lalwani, que é membro do Laboratório de Diagnóstico e Controle de Doenças Infecciosas na Amazônia (DCDIA), explica que o projeto atua em duas comunidades rurais ribeirinhas na região do Baixo Rio Negro – Santa Maria e Fátima – e em mais dez localidades situadas nas áreas de abrangência no entorno das duas. Todas atendidas pela Unidade Básica de Saúde Fluvial Ney Lacerda, tendo como unidade de apoio a Unidade de Saúde da Família de Santa Maria, do Distrito de Saúde Rural, da Semsa Manaus.

“O Saúde nas Margens tem como principal fundamento o fato de que, nos últimos dez anos, estamos sofrendo ameaças de doenças emergentes, como zyka, chicungunha, febre amarela, covid-19, dengue e, mais recentemente, a febre oropouche, e percebemos que estamos precisando trabalhar para identificar e fazer uma vigilância mais rápida dessas ameaças, não só no nível laboratorial, mas também populacional”, explica.

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Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

A ideia foi criar um aplicativo, por meio do software REDCap, com questionários que possam ser utilizados no levantamento de suspeitas tanto pelos agentes comunitários de saúde (ACS) quanto pelos agentes de combate a endemias (ACE), nas dez comunidades. O software é utilizado na coleta, gerenciamento e disseminação de dados de pesquisa.

Primeiro, identificamos os gargalos existentes nas comunidades para desenvolvermos o questionário, e agora daremos início à fase de coleta de dados propriamente dita”, afirmou o pesquisador, durante reunião na comunidade São Francisco do Chita, com representantes da Disa Rural, Vigilância Epidemiológica, ACS, ACE e lideranças comunitárias com a finalidade de testar o aplicativo.

A vigilância de base participativa e comunitária é algo inédito em Manaus e visa não só identificar as doenças respiratórias causadas por mosquitos (arboviroses) como também diarreias, lesões de pele, mordeduras de animais domésticos ou silvestres, como morcegos, entre outras.

“Estamos começando a entender como é a percepção da população em termos de risco associado a doenças emergentes e como podemos trabalhar para melhorar essa vigilância com a participação efetiva da comunidade, contribuindo para a coleta de dados pelos ACS e ACE, e a consequente notificação pela Semsa-Manaus, em caso de confirmação de diagnóstico”, ressalta Pritesh.

O pesquisador destaca que, além do cenário de mudanças climáticas, as populações ribeirinhas da Amazônia enfrentam o desafio diário de conviver em conjunto com a floresta. “Nossa intenção é exatamente entender os gargalos e como trabalhar no sentido de buscar esse equilíbrio, com a parceria fundamental da Semsa-Manaus. O desafio agora é levar esse aplicativo em campo para coleta de dados, o que permitirá entender o quanto é eficiente essa ferramenta e como vão reagir em cima das suspeitas”, pontuou.

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Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

As coletas de dados permitirão um mapeamento que poderá se expandir para outras comunidades. Segundo a gestora da USF Santa Maria, Maria Tereza Silva Rocha, as comunidades estão situadas em área endêmica para malária, mas registram também casos de leishmaniose, doença de Chagas, filariose.

“Estamos aqui na comunidade do Chita com a Fiocruz apoiando esse projeto de aplicativo para identificar as doenças porque sabemos o quanto é importante somarmos esforços para a melhoria do atendimento básico em saúde da unidade. Muitas vezes acontece de não termos como notificar casos porque não tomamos conhecimento. Com o aplicativo, esse processo se torna mais rápido e eficiente, não só em relação às síndromes que aparecem, como também as lesões na pele, picadas de animais, entre outras ocorrências, contando com o apoio da Fiocruz no diagnóstico”, afirma.

Para os moradores, a presença da Fiocruz é motivo de alegria. Maria Miranda de Souza Filha, 69, mora há 20 anos na comunidade do Chita, que tem pouco mais de 100 habitantes. Ela comemora a implementação do projeto como uma oportunidade que surge de atenção à saúde dos ribeirinhos.

“Nossa comunidade estava precisando que esses órgãos se manifestassem. Temos muito que aprender com vocês, mas também temos muito a repassar através dos nossos conhecimentos tradicionais e a convivência que temos na comunidade. Estamos aqui para ajudar uns aos outros”, argumentou, citando, como exemplo, a força terapêutica dos remédios caseiros, até hoje utilizados no tratamento de várias doenças na comunidade.

Liderança religiosa do Chita, o pastor Antônio Daniel é também um dos moradores mais antigos, convidado a participar do processo de elaboração do aplicativo, contribuindo para a mobilização da comunidade para que apoie principalmente na fase de coleta dos dados, que se inicia a partir desta fase do projeto. “Estamos hoje aqui com a Semsa e a Fiocruz nos trazendo a possibilidade de podermos participar e contribuir para a prevenção em saúde na comunidade. É o início de um período de boas novas e um privilégio recebê-los aqui. Estamos aproveitando ao máximo e é de suma importância o que vocês estão fazendo aqui”, observou.

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Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

Junto com Pritesh Lalwani, participam da implementação do projeto a gerente de Vigilância Epidemiológica do Disa Rural, Maria Aparecida Santos da Silva, os enfermeiros Jeferson Castilho Moraes e Patrícia Conceição Cabral e Silva, técnicos da Vigilância, e médica veterinária Maria dos Santos, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Biologia da Interação Patógeno-Hospedeiro (PPGBIO-Interação), da Fiocruz Amazônia. O treinamento, realizado ao longo do dia, incluiu a aplicação simulada de questionários na comunidade e posterior análise dos dados coletados.

O questionário está estruturado em três elementos: Saúde Humana, Saúde Animal e Saúde Ambiental. Dentro de cada um desses, terão tópicos específicos a serem respondidos, sobre ocorrências como, por exemplo, casos de diarreia e vômito, problemas respiratórios, lesões de pele, intoxicações, acidentes de trabalho e óbitos humanos, agressão por animais, lesões de pele, mortes de animais, infestação por pulgas e carrapatos, mudança de comportamento animal, problemas com lixo, problemas hídricos, contaminação do solo, desmatamento ou queimadas, estiagem e alagamento.

Para a gerente de Vigilância Epidemiológica da Disa Rural, Aparecida Silva, a participação no projeto Saúde nas Margens está focado na preparação dos comunitários, dos ACS e ACE para serem agentes de mudança dentro das comunidades.

“Por meio do projeto, os moradores e agentes de saúde estarão fazendo vigilância constante, identificando problemas para que possamos identificar possíveis subnotificações, sinalizadas pela própria comunidade, e a partir daí reestruturar o processo de trabalho da Vigilância da DISA Rural em si”, afirmou.

Segundo Aparecida, através do aplicativo, será possível identificar necessidades de capacitação continua e fortalecer o trabalho de Vigilância do município de Manaus, uma vez que propicia que rumores, suspeitas de doenças e agravos em animais e humanos sejam identificados pela própria população local, a partir daí, sinalizando para que a Vigilância entre em ação fazendo a identificação direta e tomando as medidas cabíveis.  

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Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

Sobre o projeto

O Projeto Saúde nas Margens: Um Modelo One Health para Vigilância Participativa e resposta rápida a doenças infecciosas em comunidades ribeirinhas de Manaus” propõe uma abordagem inovadora de Vigilância de base participativa e comunitária, com ênfase em áreas remotas, populações de ribeirinhos. A iniciativa visa desenvolver e implementar um Modelo Uma Só Saúde no contexto amazônico, frequentemente afetado por surtos de doenças e exige uma abordagem integrada e adaptada às complexidades geográficas e limitações socioeconômicas.

O projeto reconhece a interconexão entre fatores ambientais e surtos, destacando a necessidade da abordagem Uma Só Saúde, que compreende as interações entre saúde humana, animal e ambiental. A fragilidade dos sistemas de vigilância nessas áreas remotas, juntamente com a falta de acesso à comunicação e internet, são desafios significativos. O projeto propõe uma estrutura de vigilância participativa que integra líderes comunitários, agentes de saúde e serviços de telemedicina. O objetivo é capacitar as comunidades para a detecção precoce de doenças infecciosas, considerando fatores de saúde humana, variáveis ambientais e saúde animal.

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Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

Para superar desafios de comunicação, o projeto visa implementar postos de comunicação eficientes, promovendo o acesso à internet e facilitando a troca de informações por dispositivos móveis. A abordagem personalizada busca adaptar e implementar eficientemente a vigilância participativa em duas comunidades ribeirinhas Santa Maria e Nossa Senhora de Fátima, considerando suas particularidades culturais, sociais e ambientais. A principal pergunta do projeto é: Como implementar eficientemente postos de comunicação como parte de uma abordagem participativa em duas comunidades ribeirinhas, uma localizada nas proximidades da capital e outra situada a uma distância de aproximadamente 5 horas de barco da mesma, considerando as nuances culturais, sociais e ambientais específicas de cada uma?

Os objetivos específicos incluem o levantamento de informações preliminares, a formação de comitês locais de vigilância de saúde, o desenvolvimento de manuais de treinamento, a implementação de tecnologias de comunicação, o treinamento em telemedicina, teste piloto e avaliação contínua. Indicadores de sucesso incluem a efetividade na coleta de informações, participação ativa nas atividades, estabelecimento eficiente da rede de comunicação e melhorias nos indicadores de vigilância ao longo do tempo.

Os resultados esperados abrangem desde o empoderamento de líderes comunitários até o estabelecimento de um sistema de vigilância participativa eficiente e adaptativo. O projeto busca fortalecer a resiliência comunitária e os sistemas de saúde, preparando as comunidades para enfrentar desafios presentes e futuros na região amazônica.

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Projeto fortalece sistema de vigilância em saúde. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

Inova emergências em saúde pública

O edital Emergências em Saúde Pública é uma chamada do Programa Inova Fiocruz que visa atender demandas específicas de saúde pública. O objetivo é dar respostas rápidas e ações para emergências sanitárias, órgãos internacionais e demandas do Ministério da Saúde. As emergências em saúde pública são situações que exigem medidas urgentes de prevenção, controle e contenção de riscos, podendo ser epidemiológicas (surtos e epidemias), de desastres ou de desassistência à população.

O Programa Fiocruz de Fomento à Inovação, o Inova Fiocruz, lançado em 2018, apoia propostas que visem melhorar as condições de vida da população e do SUS. O programa seleciona projetos que usem os resultados das pesquisas em saúde pública e busca fomentar a pesquisa e a inovação resultando na entrega de produtos/conhecimento/serviços para a sociedade, tendo como valores a inovação, excelência, transparência, inclusão e colaboração.

*Com informações da FioCruz Amazônia, para mais informações consulte AQUI.

Três Indígenas Yanomami são os primeiros a receberem título de mestre pela Ufam

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Indígenas Yanomami recebem título de mestre. Foto: Divulgação/Ufam

Dia 23 de abril foi a data que a educação amazonense viveu um momento histórico, quando os educadores Edinho, Modesto e Odorico se tornaram os primeiros indígenas Yanomami a obterem o título de mestre do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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As defesas ocorreram no Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS) do campus sede, localizado em Manaus, como parte da programação do encontro inédito “Davi Kopenawa: palavras de um xamã Yanomami”.

Os indígenas Edinho, Modesto e Odorico são graduados em Licenciatura Indígena – Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável e atuam como professores do ensino básico em dois Xaponos (casa coletiva Yanomami), no Rio Marauiá, onde constroem pontes entre o saber tradicional e a formação escolar.

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Indígenas Yanomami
Indígenas Yanomami na banca de mestrado. Foto: divulgação

O ingresso no mestrado ocorreu em 2023, quando o PPGSCA ofertou uma turma em São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros da capital). Todos enfrentaram dificuldades para concluir os estudos: domínio da língua portuguesa, compreensão das atividades, disponibilidade de computadores e o deslocamento, interrompido durante a estiagem recorde de 2023, foram alguns dos desafios.

Com apoio da UFAM, e concessão de bolsas e equipamentos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), os três indígenas finalizaram suas dissertações, cujo objeto de pesquisa tratou da ancestralidade do povo Yanomami.

O Odorico Xamatari Hayata Yanomami foi o primeiro aprovado pela banca de mestrado com o tema “O Matohi Yanomami: uma autoetnografia do corpo de um aprendiz de hekura do Xapono Balaio do Rio Marauiá/AM”. Após defender sua dissertação, ele não escondeu a felicidade.

“Estou muito satisfeito e emocionado como um Yanomami que conseguiu vencer as batalhas. Eu não sou individual, me formei como coletivo do povo do Amazonas”, destacou.

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Indígenas Yanomami
Indígenas Yanomami recebem título de mestre pela Ufam. Foto: divulgação

A segunda defesa de dissertação foi feita Edinho Yanomami Yarimina Xamatari com o tema “Pohoropihiwitëri Pë á Rii Rë Haiwei – A língua materna dos Yanomami de Pohoroâ”, motivada por sua percepção sobre a importância de manter viva a língua de seu povo.

“Eu estava vendo que havia um problema. Cada Xapono já vem deixando um pouquinho da língua Yanomami. Quem está vindo vai ver que o material [didático] já está elaborado para ser trabalhado com as crianças na escola. […]. Eu estou alegre, porque estou defendendo o resultado de minhas dificuldades”, explicou.

Quem finalizou as defesas foi Modesto Yanomami Xamatari Amaroko, cujo tema de dissertação foi “Amôa Yanomami: Reflexões sobre a função e as transformações das amôa (músicas) na vida do Xapono Balaio do Rio Marauiá”. Agora, o próximo passo é seguir para o Doutorado, onde pretende continuar explorando a música Yanomami.

“Hoje é um dia muito especial. Nós, três Yanomami, do município de Santa Isabel [do Rio Negro], estamos concluindo nosso trabalho. Estamos levando novidades para nossas comunidades, e estou muito feliz e agradecido por todo apoio. Isso é muito importante para mim e minhas lideranças tradicionais”, finalizou.

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Indígenas Yanomami
Acadêmicos aproveitaram o momento para acompanhar a defesa dos Indígenas Yanomami. Foto: divulgação

Educação em terra Yanomami

Em seu momento de fala, Davi Kopenawa exaltou a dedicação empreendida para ajudar a transformar a realidade dos indígenas Yanomami. “Vocês sofreram [dificuldades], mas aprenderam. Isso era o que eu queria há 10, 20 anos passados. Vocês três escolheram um bom caminho. Isso é resultado de nossa luta. Estou muito orgulhoso de vocês, são meus primos e guerreiros”, declarou emocionado.

Porém, Kopenawa não foi brando ao cobrar publicamente a construção de escolas em pontos estratégicos para atender a população indígena — uma promessa que a cada ano se repete.

“Em 2025, precisamos que o Ministério da Educação [MEC] olhe para nós, todos os Yanomami. Isso é o que nós queremos: ter escolas construídas. […]. Não queremos aprender para ganhar dinheiro, mas para proteger a floresta onde está a saúde, a harmonia, a alegria, o trabalho. Se não funcionar, vamos nos pintar para pressionar quem está suvinando as escolas nas comunidades. […]. Se não resolverem, vamos para o exterior até chegar na ONU [Organização das Nações Unidas]”, afirmou veementemente.

Durante o registro feito pelo canal oficial da Universidade Federal do Amazonas no YouTube, o xamã Yanomami e ativista indígena, falou sobre a preservação da Amazônia, a demarcação de terras indígenas e os saberes do povo Yanomami na universidade:

Kopenawa foi convidado, no dia anterior, e palestrou em uma conferência para a comunidade acadêmica. A palestra do líder indígena têm como título: “Davi Kopenawa: palavras de um xamã Yanomami”; veja:

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Apoio de professores

Devido à seca histórica de 2023, os mestrandos não conseguiram assistir às aulas em São Gabriel da Cachoeira. A solução encontrada pela coordenação do PPGSCA foi enviar dois professores para realizar a orientação em territórios tradicionais. O professor Dr. Agenor Cavalcanti foi um dos que aceitou o desafio.

Para ele, a conquista do mestrado por parte de três indígenas representa uma reparação histórica para a educação amazonense.

“É um engajamento do processo da pós-graduação com a inclusão de intelectuais indígenas. Isso não será revertido. Eu vejo o futuro da universidade nesta linha, pois passamos muito tempo formando conhecimento hegemônicos e especialistas ‘stricto sensu’, mas agora chegou o momento de reconhecer as apropriação que, por muito tempo, a ciência fez e [agora] fazer com que nossas dissertações sejam feitas pelos povos indígenas, que antes eram objetos de estudo desta universidade. […]. Esses três são uma reparação histórica muito pequena, mas é algo que inicia”, afirma.

Indígenas Yanomami
Indígenas Yanomami recebem título de mestre pela Ufam. Foto: divulgação

Caio Souto, professor do PPGSCA, coordenou diversas reuniões e iniciativas para que os mestrandos finalizassem o curso. Além disso, atuou como orientador no trabalho de Modesto e coorientador junto às pesquisas dos indígenas Edinho e Odorico.

No segundo semestre deste ano, o PPGSCA pretende lançar um novo edital de mestrado e, agora, também de doutorado fora da sede, em São Gabriel da Cachoeira. A expectativa é que novas turmas, com mais vagas, continuem a ser ofertadas em 2026, de forma que estudantes de municípios próximos, como Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos (a 406 quilômetros da capital).

Além disso, entre os dias 26 a 30 de maio, o PPGSCA vai realizar as defesas dos outros 27 estudantes que concluíram o mestrado em São Gabriel da Cachoeira.

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Indígenas Yanomami
Indígenas Yanomami recebem título de mestre. Foto: divulgação

O momento vai contar com 20 doutores para avaliar as dissertações, contado também com representantes públicos, como Dadá Baniwa, coordenadora da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) na região do Rio Negro, e Joenia Wapichana, presidente da FUNAI.

Caio enfatiza que este é um novo passo na história da universidade. “Esse programa tem 27 anos. Esperamos que ele cresça cada vez mais, acolha cada vez mais os povos indígenas da Amazônia e de outros locais, e que colabore com outros projetos. Estou profundamente emocionado por ter participado disso”, declarou Caio.

Mandioca: startup produz embalagens com insumos da biodiversidade amazônica

Foto: Divulgação

A popular mandioca, espécie amazônica domesticada pelos povos originários da região antes de se espalhar no mundo como fonte de alimento e diversas aplicações industriais, ganha nova utilidade no mercado: a produção de embalagens a partir de matéria-prima renovável, com a promessa de unir conhecimento tradicional, tecnologia e demanda das empresas que olham para critérios de sustentabilidade. Além de reduzir a poluição plástica, a fabricação nas próprias comunidades aumenta a renda e ajuda a conservar a Amazônia.

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Desenvolvida em parceria com o Idesam, a inovação substitui plásticos convencionais, isopor e outros materiais por solução de baixa emissão de carbono e biodegradável, inicialmente a partir da fécula da mandioca –ingrediente muito usado na culinária para fazer tapioca.

“As bioembalagens agregam valor a cadeias produtivas amazônicas, considerando o diferencial das matérias-primas regionais, com impactos socioambientais positivos”, afirma a empreendedora Erika Cezarini, à frente da startup Dooka.

Em fevereiro, a empresa inaugurou inovadora biofábrica de embalagens em Lábrea (AM), em parceria com uma organização comunitária local, a Associação de Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha (ASPACS), que abrange indígenas, ribeirinhos e pequenos produtores da agricultura familiar.

O investimento veio do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), desenvolvido pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para o repasse de recursos de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) que as empresas são obrigadas a investir como contrapartida dos incentivos fiscais. Foram mobilizados até hoje mais de R$ 146 milhões, com 40 empresas investidoras e 76 projetos já finalizados ou em execução no Amazonas, Amapá, Roraima, Rondônia e Acre.

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“É fundamental levar tecnologias para o beneficiamento das matérias-primas e a produção final nas comunidades, com aumento da renda e menor dependência de recursos filantrópicos”, destaca Paulo Simonetti, gerente de projetos de inovação em bioeconomia do Idesam, instituição que coordena o PPBio. “A biofábrica de embalagens em Lábrea contribui com o Polo Industrial de Manaus na busca de maior conexão com a Amazônia”.

O projeto da Dooka recebeu cerca de R$ 1,4 milhão de investimentos em P&D da indústria de bicicletas OX Bike, instalada em Manaus. Os recursos se destinaram ao desenvolvimento de testes, prototipagem, equipamentos e construção da biofábrica, incluindo a capacitação técnica de 11 pessoas da comunidade na operação do maquinário, em escala piloto, dentro dos padrões de qualidade para o produto final

Além da fécula da mandioca, o uso de insumos regionais em bioembalagens, copos e outros utensílios abrange resíduos do agroextrativismo – como no beneficiamento de castanha, açaí, óleos e manteigas vegetais – capazes de adicionar valor às cadeias produtivas da floresta mantida em pé. A estratégia inicial é produzir embalagens técnicas

para produtos eletrônicos, como estojo de celulares e notebooks, bem como fornecer à indústria de cosméticos. “Um mercado promissor é o de biocápsulas para sementes no reflorestamento de áreas degradadas”, revela Cezarini.

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Com capacidade de produzir em média 120 mil peças ao mês na biofábrica em Lábrea, o objetivo da Dooka é replicar a inovação na Amazônia por meio do licenciamento social da tecnologia para comunidades, com equipamentos modulares. “Há uma longa trajetória no desenvolvimento do processo produtivo e na formulação do material a ponto de viabilizar a terceirização”, aponta a empreendedora.

Com negócio voltado à transferência de tecnologia e receita de royalties, a startup planeja obter novos investimentos para a instalação de unidades de bioembalagens em pelo menos nove outras localidades, também no Tocantins, Maranhão e Pará, até 2030.

Em Lábrea, região de alta pressão de desmatamento, no Sul do Amazonas, a biofábrica recém-inaugurada se soma às demais fontes de renda das comunidades, reforçando a expectativa em torno da bioeconomia, com conservação da floresta. “Jamais imaginávamos um dia produzir embalagens para celulares, com produtos da floresta”, conta Sandra Barros, vice-presidente da ASPACS, também fornecedora de copaíba, andiroba e manteiga de murumuru e tucumã.

“O objetivo agora é produção local também da fécula da mandioca, hoje comprada em Manaus para fabricação das bioembalagens. Com maior visibilidade [pela inovação], chegam novas parcerias que aumentam a renda e movimentam a economia da nossa região”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Idesam

Boiuna, a cobra grande da lenda amazônica que assombra o imaginário popular

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Imagem gerada por IA

Nas profundezas sombrias dos rios, lagos e igarapés da Amazônia, reza a lenda que habita uma criatura mítica de poder assombroso: a Boiúna, também conhecida como Cobra Grande. Envolta em mistério e temor, essa cobra colossal não é apenas uma figura do folclore regional — ela é um símbolo das forças ocultas da floresta e das águas, representando o desconhecido, o sagrado e o perigoso.

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A morada da Boiúna é chamada de boiaçuquara, a “casa da cobra grande”. Ela é descrita como um ser de corpo escuro, com escamas tão brilhantes que refletem o luar, serpenteia silenciosamente sob as águas profundas. Seus olhos irradiam uma luz forte e hipnótica, confundindo pescadores e viajantes, que a confundem com embarcações iluminadas. Quando se aproximam, descobrem — tarde demais — que estão diante de um monstro faminto.

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Como se não bastasse sua forma assustadora, conta a lenda que Boiúna é capaz de se transformar em navios, canoas, vapores e até cachoeiras para enganar suas vítimas. Seu deslocamento provoca ondas e redemoinhos tão poderosos que o som lembra o motor de uma embarcação a vapor, criando pânico entre os navegantes mais experientes.

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Mas a lenda da Boiúna vai além da criatura monstruosa. Em uma das histórias mais contadas entre os povos amazônicos, ela aparece como uma figura divina ligada à criação da noite. Se diz que, ao casar sua filha, presenteou-a com a noite guardada dentro de um caroço de tucumã. Porém, os portadores do presente, movidos pela curiosidade, abriram o caroço antes da hora, libertando a escuridão no mundo e sendo castigados por isso.

Outra narrativa fala sobre a união de uma indígena com a Cobra Grande, da qual nasceram duas crianças-cobras gêmeas: Honorato (ou Nonato) e Maria. Lançados ao rio pela mãe, sobreviveram como serpentes gigantes. Honorato era bondoso, mas Maria, cruel, espalhava o terror entre animais e humanos. A maldade da irmã foi tamanha que Honorato, apesar do laço fraterno, foi obrigado a destruí-la.

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Reza a lenda ainda que Honorato, em noites de luar, recuperava a forma humana, vivendo como um belo rapaz entre os mortais. Para libertá-lo definitivamente do feitiço, seria necessário que alguém derramasse leite em sua boca e ferisse sua cabeça até sair sangue — um ato de coragem que ninguém ousava tentar. Até que, um dia, um soldado de Cametá, no Pará, realizou o ritual, libertando Honorato da maldição e permitindo que ele vivesse como homem entre sua família.

Imagem gerada por IA

Muitas versões de Boiúna

Na crença popular, a Boiúna habita algumas cidades da região amazônica. Em Parintins (AM), por exemplo, de acordo com a lenda, a Cobra Grande está adormecida há milênios nas profundezas da cidade, e o seu despertar faria com que Parintins afundasse. Em Itacoatiara (AM), a lenda remonta aos tempos dos colonizadores, quando estes trouxeram a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Serpa. “Serpa” significa serpente.

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E em Belém (PA), a versão da lenda conta que a cobra vive adormecida sob a cidade, entre os bairros da Cidade Velha e Nazaré, onde a cabeça do animal estaria na Catedral da Sé, e seu corpo terminaria na Basílica de Nazaré. A lenda afirma que, caso a Cobra Grande acorde, a capital paraense afundaria no rio. Alguns moradores mais antigos acreditam que ela já se moveu algumas vezes, ocasionando tremores de terra. Há ainda quem relacione o despertar da Cobra Grande à interrupção do Círio de Nazaré.

Já em Mato Grosso, a lenda ganha outra versão, tornando-se a lenda do minhocão, um ser temido por pescadores que acreditavam que ele morava nas profundezas do Rio Cuiabá. A lenda teria surgido após o padre Ernesto Barreto comprar um terreno, em 1880, onde hoje está localizada a Barra do Pari, em Cuiabá.

Moradores de bairros tradicionais com o Santa Amália ou o Araçá, ainda contam que o Minhocão do Pari só desapareceu da região quando houve uma grande enchente, em 1974. Aos que acreditam na lenda, após a enchente, o minhocão ficou preso debaixo da igreja matriz da capital de Mato Grosso pelos fios de cabelo de Nossa Senhora. Por isso, é proibido reformar ou restaurar a igreja, para não libertá-lo.

Tamanduá raro é flagrado “passeando” por estrada em Rondônia

Foto: Reprodução/Zooparque Itatiba

Um tamanduaí — o menor tamanduá do mundo — foi avistado enquanto “passeava” tranquilamente pela estrada que liga os distritos de Extrema e Nova Califórnia, em Porto Velho. O pequeno animal é conhecido por ser solitário, noturno e bastante raro.

Leia também: Conheça os tamanduaís, os menores tamanduás do mundo

O encontro inusitado foi registrado pelo engenheiro agrônomo Fernando Gehrke. Segundo ele, já está acostumado a cruzar com animais silvestres na região, mas dessa vez o momento foi ainda mais especial.

“Fantástico ver um animal deste, já que é tão raro. Já tive encontros assim com diversos animais, como onças, jacarés, dentre outros, mas esse encontro foi único, é como achar um diamante. Fico feliz em saber que tem uma população na região, mantendo nossa biodiversidade rica e saudável”, contou.

Ao Grupo Rede Amazônica, o biólogo Flávio Terassini explicou que o tamanduaí é, de fato, uma joia rara da fauna amazônica. Além do tamanho reduzido, podendo medir de 20 a 40 centímetros, a espécie é difícil de ser observada, já que vive no alto das árvores e raramente desce ao solo.

“Eu, em 25 anos de Amazônia, eu só encontrei duas vezes esse pequeno tamanduá na floresta. Raramente ele desce no solo, assim como todos os tamanduás, nesse elemento de insetos, com a sua língua, principalmente cupins e também formigas”, detalhou o biólogo.

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O tamanduaí chama atenção por suas características: olhos pequenos e negros, focinho mais curto do que os de outros tamanduás e garras curvas que funcionam como verdadeiras ferramentas, usadas tanto para abrir formigueiros quanto para se defender e se locomover.

“Vive na copa das árvores, tem hábito noturno e é um mamífero muito bonito”, completou Terassini.

*Por Amanda Oliveira, da Rede Amazônica RO

Greenpeace Brasil mostra impacto da crise climática em documentário com imagens da Amazônia

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Foto: Reprodução/Greenpeace

O Greenpeace Brasil lançou, no dia 16 de abril, uma nova campanha de conscientização e alerta sobre a crise climática. A campanha ‘Que Planeta É Esse?’, com criação da Beta Collective e dos Irmãos Meirelles, repune imagens reais, sem uso de inteligência artificial, de locais do Brasil que foram impactados pelas mudanças climáticas, a ponto de parecerem cenários de outros planetas.

O filme tem um ritmo acelerado e mostra regiões da Amazônia, com registros feitos pelo Greenpeace, como Tefé (AM) e Porto Velho (RO), além de imagens da seca em Gilbués, no Piauí, registradas pelo diretor Fabio Meirelles e pelo fotógrafo Ícaro N. Silva, mostrando um cenário de destruição.

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Com tomadas aéreas de secas, queimadas e desertificação, o material audiovisual retrata o solo desértico e a estiagem. As cenas provocam a reflexão sobre como a intensidade e gravidade dos eventos extremos estão desfigurando paisagens naturais.

‘Que Planeta é Esse?’ tem a premissa de conscientizar e sensibilizar diferentes públicos, com um material que impacta e deixa um recado claro sobre a urgência do agir para contornar os trágicos cenários que já são realidade.

“Já estamos vivendo os impactos da mudança do clima nas nossas vidas, mas ainda é possível fazer diferente para evitar que a situação se agrave. Apoiando nosso trabalho conseguimos mobilizar mais pessoas e atuar na responsabilização de quem precisa ser responsabilizado e impulsionar as soluções que precisam ser priorizadas”, afirma Laura Leal, diretora de Engajamento do Greenpeace Brasil.

“A vida e o planeta Terra da forma que conhecemos estão em risco”, alerta Bernardo Tavares, Fundador e Diretor de Criação da Beta Collective. “Muito se fala sobre encontrar água em outro planeta, mas pesquisando sobre algumas regiões do Brasil, percebemos como é urgente comunicar sobre a necessidade de cuidar do nosso próprio planeta, que cada vez mais se parece com outros, pra que tentar encontrar água não se torne uma missão na Terra”, complementa.

*Com informações do Greenpeace

Detector de anticorpos contra vírus da encefalite de Saint Louis na Amazônia é desenvolvido no Mato Grosso

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Clonagem e expressão da proteína NS1. Foto: Divulgação/Arquivo da pesquisa

Pesquisadores de Mato Grosso estão desenvolvendo um ensaio imunoenzimático (ELISA), para a detecção de anticorpos contra o vírus da encefalite de “Saint Louis” (SLEV), uma doença ainda pouco diagnosticada no Brasil, mas que apresenta potencial de impacto significativo na saúde pública. O arbovirus é transmitido por mosquitos do gênero Culex e pode atingir o sistema nervoso central, causando inflamação no cérebro.

Os principais sintomas são a febre, dor de cabeça, rigidez no pescoço, estupor, desorientação, coma, tremores, convulsões ocasionais e paralisia espástica.

Estudos estimam que aproximadamente 500 espécies de arbovírus identificados no mundo, cerca de 200 já tenham sido encontrados no bioma Amazônia e, desses, pelo menos 40 podem causar doenças em humanos.

Nesse cenário, uma pesquisa desenvolvida no Laboratório de Imunologia e Biologia Molecular (LIBM) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Sinop/MT, está desenvolvendo um método inovador para melhorar a detecção de SLEV no Sistema Ùnico de Saúde (SUS).

O projeto é coordenado pela doutoranda em Biotecnologia e Biodiversidade Ana Lucia Scarpin Ramos, e fomentada pela Governo do Estado, através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), dentro do Edital nº 004/2023-Doutorado com Produto Tecnológico.

A metodologia envolve a clonagem e expressão da proteína NS1 recombinante do vírus, utilizado como antígeno em testes de ELISA para detecção de anticorpos IgG e IgM. O processo segue rigorosos protocolos. O RNA viral é extraído, amplificado por RT-PCR, e a proteína NS1 é clonada e expressa em células de Escherichia coli. Após a purificação, a proteína recombinante é empregada em testes laboratoriais para determinar sua eficácia na detecção de infecções por SLEV.

“Esses processos serão posteriormente validados com amostras humanas previamente processadas, garantindo alta sensibilidade e especifidade. Os resultados esperados desse estudo vão além do laboratório. Um teste diagnóstico eficaz e acessível, como o proposto, pode transformar a forma como as arboviroses são monitoradas e tratadas no Brasil”, afirmou a pesquisadora.

Foto: Divulgação/Arquivo da pesquisa

A equipe de pesquisadores do Laboratório de Imunologia realizam há mais de dez anos a vigilância humana e ambiental no município de Sinop e região. “Realizamos testes com amostras coletadas da população nos laboratórios municipais e parceiros, onde conseguimos monitorar o tipo de arbovirose em circulação, aumentando o controle e um melhor atendimento clínico a população, porque os sintomas das arboviroses são semelhantes”, afirmou Ana Scarpim

O teste de ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay), é uma técnica de imunoensaio que detecta e quantifica antígenos ou anticorpos usando uma enzima ligada a um anticorpo. Quando essa enzima entra em contato com um substrato específico, ocorre uma reação colorida que pode ser medida, geralmente usa-se um leitor de microplacas.

De acordo com a pesquisadora, “ao final da pesquisa, o novo teste será incorporado à rotina de laboratórios públicos se tornando uma ferramenta valiosa. A detecção precoce, o diagnóstico mais rápido e preciso pode evitar subnotificações e minimizar confusões com outras arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. Com um diagnóstico confiável, os profissionais de saúde poderão tomar decisões mais assertivas no manejo dos pacientes, reduzindo complicações e melhorando os desfechos clínicos, contribuindo para o mapeamento da prevalência e incidência do SLEV, além de fornecer dados valiosos para a formulação de políticas públicas e estratégias de controle”.

*Com informações da Fapemat

Silêncio como forma de resistência: indígenas isolados na área de influência da BR-319

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Foto: Daniel Cangussu/Funai

No Interflúvio Madeira-Purus, onde a mata ainda fala mais alto que o asfalto, vivem povos que escolheram o isolamento como forma de existir. São indígenas que não mantêm contato com a sociedade envolvente e que seguem em silêncio, cercadas por árvores, rios e mistérios.

Na área de influência da BR-319, há registros oficiais da presença de pelo menos cinco grupos isolados, segundo levantamentos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e organizações indígenas.

Leia também: Brasil tem 119 povos indígenas vivendo isolados, aponta publicação do Cimi

Esses povos habitam regiões de difícil acesso ao sul da rodovia, entre os municípios de Lábrea, Humaitá e Canutama. Ali, a floresta ainda guarda sinais de sua passagem: trilhas recém-abertas, malocas escondidas, utensílios deixados para trás. Mas a ameaça avança junto com projetos de infraestrutura, como a BR-319, hidrelétricas e a abertura de ramais.

A repavimentação da estrada e a abertura de seus ramais intensificam a presença de madeireiros, grileiros e caçadores — invasões que colocam em risco não apenas o modo de vida desses grupos, mas sua própria sobrevivência física.

Entre os registros mais sensíveis está o dos indígenas isolados do Mamoriá Grande, na calha do rio Purus, entre os municípios de Lábrea e Canutama. Indícios da presença desse grupo já foram confirmados por expedições da Funai, e sua existência levou o Ministério Público Federal a cobrar medidas urgentes de proteção.

Veja também: Indígena isolado faz contato voluntário com ribeirinhos no Amazonas

Outro caso emblemático é o da Terra Indígena Hi-Merimã, no médio rio Purus, onde vivem indígenas isolados que resistem sem contato há décadas, em um dos territórios mais remotos e preservados da região.

Historicamente, muitos desses povos se isolaram após experiências traumáticas de contato forçado, marcadas por violência, epidemias e expulsão de seus territórios.

O direito ao isolamento voluntário é protegido pela Constituição e por normas internacionais, mas, na prática, a proteção depende de ações como a criação de terras indígenas, restrições de uso e vigilância permanente.

Nos últimos anos, o Ministério dos Povos Indígenas e a Funai renovaram medidas de proteção, como a Portaria de Restrição de Uso da Terra Indígena Jacareúba-Katawixi, válida até 2026.

Mas especialistas alertam: o ritmo das ameaças é mais veloz que o das garantias. Defender os povos isolados é defender o direito de existir em liberdade — e proteger o que resta da floresta em pé.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Observatório BR-319