Além das atividades no Centro Histórico de Manaus (AM), a Glocal Amazônia 2025 vai ocupar diferentes territórios da cidade com uma série de ações externas que fortalecem a conexão entre sustentabilidade, cultura e comunidade.
A programação inclui oficinas, rodas de conversa, cinema, feiras e apresentações artísticas abertas ao público. Confira:
Oficinas comunitárias
Na sexta-feira (29), o Projeto Rip Art, às margens do Igarapé do Gigante, no bairro Redenção, recebe a Oficina de Material Reciclável e PET voltada para mulheres e mães solos. A iniciativa estimula a geração de renda e a consciência ambiental, transformando resíduos como plástico, vidro e óleo de cozinha em artesanato e sabão, além de valorizar o protagonismo feminino.
No sábado (30), crianças participam da oficina “Olhares do Guetto”, que usa a fotografia como ferramenta de expressão. Após aprenderem noções básicas da técnica, os participantes saem pelas ruas para registrar cenas do cotidiano e, em seguida, montam uma exposição aberta à comunidade.
Cinema e consciência socioambiental
Ainda no sábado (30), o Cine Palafita – Infâncias Ribeirinhas e o Racismo Ambiental chega à comunidade de Educandos. A iniciativa promove exibições de filmes socioambientais, oficinas de arte e rodas de conversa sobre os impactos das desigualdades ambientais na vida de crianças ribeirinhas urbanas.
Cultura no Largo de São Sebastião
O coração cultural de Manaus também será palco de diversas atrações. Entre os dias 29 e 31 de agosto, o Largo de São Sebastião recebe os Jogos Amazônicos Sustentáveis, a Feira Glocal, pintura corporal indígena, tour guiado pelo patrimônio histórico, batalhas de poesia e de rima.
À noite, o Palco Fest será tomado por shows musicais e apresentações folclóricas. Na sexta (29), o cantor Uendel Pinheiro abre a programação, seguido do Boi Caprichoso com itens oficiais. No sábado (30), o destaque é o Rap Amazônia 2.0, encerrando com a apresentação do Boi Garantido.
Integração entre comunidade e cultura
Com atividades que vão do artesanato ao hip hop, passando por cinema, tradições indígenas e folclóricas, a Glocal Amazônia 2025 reafirma seu papel de unir sustentabilidade, diversidade cultural e inclusão social, aproximando o evento da vida cotidiana das comunidades de Manaus.
Os testes para eliminar Salmonella são realizados em laboratório com as espécies de peixes híbridos tambatinga (Colossoma macropomum x Piaractus brachypomus). Foto: Nathaly Barros Nunes/Acervo pessoal
Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Nutrição, Alimentos e Metabolismo, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), realizam estudos para determinar o ponto ideal de uso de hipoclorito de sódio (NaCIO) no processamento de peixes nativos, visando reduzir a contaminação por Salmonella spp., um microrganismo que pode causar doenças em consumidores.
“Embora a Salmonella não seja parte natural da microbiota de peixes, estudos indicam que eles podem atuar como hospedeiro assintomáticos, provocando contaminação cruzada durante o processamento industrial. Para enfrentar esse risco, a pesquisa avaliou o efeito de diferentes concentrações de cloro, tempo de exposição e temperaturas da água durante o abate”, explicou a doutoranda Nathaly Barros Nunes.
O projeto de pesquisa é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat).
Nathaly Barros Nunes, atualmente da área de Higiene, Tecnologia e Microbiologia de Alimentos, explica que “o método adotado é o Delineamento Composto Rotacional (DCCR), que contempla 19 experimentos para testar combinações de variáveis e identificar o protocolo mais eficaz de inativação da bactéria”.
Cepas da Salmonella pesquisadas
A cepas utilizadas são a Salmonella Enteritidis ATCC isolada de peixes híbridos tambatinga (Colossoma macropomum x Piaractus brachypomus) e Salmonella Schwarzengrund.
A expectativa foi desenvolver um protocolo tecnológico otimizado que possa ser aplicado em frigoríficos de pescado em todo o estado, aumentando a segurança alimentar e a produtividade, ao mesmo tempo aumentando o valor econômico aos produtos regionais.
Foto: Nathaly Barros Nunes/Acervo pessoal
“Os testes mostraram que seguindo a recomendação oficial no Brasil, usar 5 partes por milhão de hipoclorito de sódio (mesmo princípio ativo da água sanitária) durante 5 minutos e a 5°C, é possivel reduzir uma carga microbiana considerável de aproximadamente 100 milhões de colônias da bactéria nas análises in vitro”, afirmou.
“Concluímos que a concentração de NaClO recomendada no Brasil é efetiva desde que sejam respeitados os parâmetros de tempo de exposição e temperatura”, finalizou a pesquisadora.
De acordo com o coordenador do projeto e do Laboratório de Microbiologia Molecular de Alimentos da Faculdade de Nutrição da UFMT, doutor Eduardo Figueiredo, “a iniciativa tem impacto direto na saúde pública, na economia regional, bem como no desenvolvimento tecnológico do setor de aquicultura”.
O livro ‘Espécies de Aves do Rio Cubate: Terra Indígena do Alto Rio Negro’ foi vencedor da categoria Ciências Biológicas, Biogeografia e Biotecnologia do prêmio Jabuti Acadêmico 2025. Apoiado pelo Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), a obra reúne registros de 310 espécies de aves observadas na região do Rio Cubate, com informações detalhadas sobre nomes tradicionais, habitats, alimentação e comportamentos.
A obra é resultado do projeto ‘Biogeografia de aves para conservação e desenvolvimento sustentável na Bacia do Rio Negro’, fomentado pelo edital nº 0007/21- Biodiversa/Fapeam, e conta com o trabalho colaborativo entre pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e de moradores da comunidade Baniwa da aldeia de Nazaré, no município de São Gabriel da Cachoeira (distante a 852 km de Manaus).
O livro foi organizada por Dario Baniwa, Dzoodzo Baniwa, Damiel Legario Pedro, Estevão Fontes Olímpio, Gracilene Florentino Bittencourt, Camila Cherem Ribas, Fernando Mendonça d’Horta e Ramiro Dário Melinski e foi publicado pela editora do Inpa.
Doutora em Biologia Genética e uma das organizadoras do livro, Camila Cherem Ribas explica que a obra foi criada de forma coletiva com mais de 130 pessoas, a maioria moradores da comunidade de Nazaré do Rio Cubate, na Terra Indígena do Alto Rio Negro. Receber o prêmio Jabuti Acadêmico foi uma supresa e um reconhecimento ao trabalho realizado com a comunidade.
Foi uma surpresa, pois todas as decisões foram tomadas em assembléia na comunidade, não houve nenhuma estratégia de fazer um livro que fosse interessante para a comunidade externa à Terra Indígena, e mesmo assim a comunidade acadêmica o viu como uma obra interessante. Esse reconhecimento é fundamental, pois mostra que a comunidade acadêmica está compreendendo cada vez mais a necessidade de abrir a ciência feita na academia para reconhecer e colaborar com outras formas de conhecimento, no caso da Amazônia, o conhecimento tradicional de comunidades locais indígenas e ribeirinhas”, comentou a pesquisadora Camila Ribas.
Fomento à pesquisa
Para a doutora Camila Cherem Ribas, o apoio da Fapeam é essencial para a difusão da ciência, principalmente, para a difusão do conhecimento científico intercultural, baseado na valorização de saberes locais e conhecimentos científicos.
“Todo o processo de fazer o livro foi inteiramente financiado pela Fapeam, incluindo as viagens de campo, as bolsas para os pesquisadores não indígenas, os pagamentos pelos serviços dos pesquisadores indígenas, a diagramação e a impressão do livro. Destaco também a importância do financiamento para levar ao conhecimento dos indígenas e de suas organizações a importância e a potencialidade de colaboração da Fundação”, explicou.
Ela também ressaltou que durante o processo de elaboração do livro, os indígenas, em especial os professores das escolas locais, ficaram muito interessados em conhecer os métodos de pesquisa utilizados na ciência acadêmica.
O estudo “Biogeografia de aves para conservação e desenvolvimento sustentável na Bacia do Rio Negro” culminou no livro e em um artigo publicado na revista Nature em 2023, além de ser foco de uma matéria para a Audubon Magazine em 2024. A lista de aves registradas também será a base para um artigo em preparação, que será coproduzido com os pesquisadores indígenas.
O livro
O livro lançado em 2024, foi escrito em Baniwa, Nheengatu e português. O material alia o conhecimento tradicional dos Baniwa à pesquisa científica, e foi concebido desde o início como ferramenta para fortalecer o ensino nas escolas indígenas e a autonomia cultural das comunidades locais. A obra não apenas registra a biodiversidade do Alto Rio Negro, mas também afirma a potência dos saberes indígenas como base legítima para a produção de conhecimento científico e a conservação ambiental.
Boiuna é uma produção da Amazônia, filmado no Pará, que venceu três categorias no festival. Foto: Divulgação
O Festival de Cinema de Gramado 2025, realizado entre os dias 9 e 23 de agosto, encerrou mais uma edição consagrando produções de diferentes regiões do país e reforçando sua posição como o evento mais tradicional do audiovisual brasileiro. Entre os destaques, o cinema produzido na Amazônia chamou a atenção pela força criativa, conquistando prêmios e projeção nacional.
O grande representante do Norte foi o curta-metragem ‘Boiuna’, produzido no Pará, que venceu três categorias: Melhor Direção (Adriana de Faria), Melhor Atriz (Naieme e Jhanyffer Santos) e Melhor Fotografia (Thiago Pelaes).
Inspirada na lenda amazônica da Cobra Grande, a obra alia realismo fantástico com temas sociais, como ancestralidade, resistência e protagonismo feminino. As filmagens ocorreram em Benevides, Benfica e Ilha do Combu, envolvendo uma equipe majoritariamente paraense, formada por mais de 60 profissionais.
22/08/2025 – 53º Festival de Cinema de Gramado – Adriana de Faria recebe o prêmio Melhor Direção por “Boiuna”, entregue pelo ator Marcos Breda | Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto
Antes da premiação, ‘Boiuna’ já havia sido indicado em nove categorias, consolidando-se como uma das produções mais lembradas da edição. O reconhecimento amplia a visibilidade do cinema amazônico, que cada vez mais ganha espaço em eventos de alcance nacional.
Da Amazônia pela Amazônia
Outro destaque da região foi o documentário ‘Os Avós’, produzido no Amazonas e dirigido por Ana Lígia Pimentel. A obra integrou a mostra competitiva de longas documentais, sendo um dos quatro títulos inéditos no Brasil. O filme aborda a realidade de avôs e avós com idades entre 30 e 35 anos, um retrato de juventude e maturidade forçada em comunidades periféricas. A temática chamou atenção por lançar luz sobre conflitos geracionais e estruturais pouco explorados no cinema nacional.
53º Festival de Cinema de Gramado: Homenageado Kikito de Cristal, ator Rodrigo Santoro, e equipe do longa-metragem Hors-Concours ‘O Último Azul’. Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto/Festival de Cinema de Gramado
Além dessas produções, a Amazônia também esteve presente de forma indireta com o longa ‘O Último Azul’, exibido fora da mostra competitiva. Estrelado por Rodrigo Santoro e Denise Weinberg, o filme se passa em um cenário amazônico, onde idosos são transferidos para uma colônia habitacional.
A obra, que já havia vencido o ‘Urso de Prata’ no Festival de Berlim, ganhou espaço em Gramado, reforçando a Amazônia como território de narrativas universais. Dirigido por Gabriel Mascaro (‘Boi Neon’ e ‘Divino Amor’), o filme foi escolhido para fazer a abertura do 53º Festival de Cinema de Gramado.
No total, o festival exibiu 74 filmes entre curtas e longas, entregando 52 prêmios, sendo 40 Kikitos. Com público estimado em 40 mil pessoas, a edição de 2025 reforçou o papel de Gramado como vitrine para o cinema nacional, reunindo produções de diferentes origens e consolidando a pluralidade do audiovisual brasileiro.
A presença da região Norte no festival reflete uma tendência de maior inserção do cinema amazônico no cenário nacional. Com a premiação de ‘Boiuna’ e a participação de ‘Os Avós’, o Norte se firmou como um dos polos criativos que mais crescem no país, levando para as telas de Gramado a força cultural e social da Amazônia.
Rede de tratamento de esgoto de Rio Branco atende 20% da população, aponta Trata Brasil. Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre
O Acre foi o estado que menos investiu em saneamento básico no Brasil entre 2019 e 2023. Isto é o que aponta os dados do Instituto Trata Brasil, divulgados nesta semana.
No período, o estado aplicou R$ 55,58 milhões, valor que representa menos de 0,1% do total nacional, que superou a casa dos R$ 25 bilhões.
Do valor investido no Acre, R$ 6,76 milhões vieram de recursos próprios, R$ 34,21 milhões de fontes onerosas (empréstimos e financiamentos) e R$ 14,58 milhões de recursos não onerosos, como repasses da União.
Entre as capitais brasileiras, Rio Branco está na terceira pior posição de pior capital do Brasil em atendimento de saneamento básico, atrás somente de Porto Velho (1º) e Macapá (2º), todas do Norte.
Já no ranking geral das cidades, a capital acreana aparece na quarta posição, atrás de Santarém (1º), Porto Vellho (2º) e Macapá (3º).
Os indicadores de Rio Branco revelaram ainda baixa cobertura de água, esgoto e desperdício elevado.
Coleta de esgoto: caiu de 21,65% em 2019 para 19,91% em 2023;
Atendimento de água: passou de 54,23% para 53,13% no mesmo período;
Esgoto tratado: apenas 40,49% do volume coletado;
Perdas na distribuição: chegam a 56,06%;
Desperdício diário: cada ligação perde, em média, 829 litros de água.
A capital acreana também registrou o menor valor médio anual de investimento por habitante entre todas as capitais: R$ 8,09. Para alcançar a universalização prevista no Marco Legal do Saneamento, seriam necessários R$ 223,82 por habitante ao ano.
No Acre, apenas 48% da população tem acesso a água potável e pouco mais de 10% contam com coleta de esgoto. Menos de 1% do esgoto é tratado, segundo dados complementares do setor.
Maior parte dos moradores do Acre não são contemplados pela rede de esgoto. Foto: Aleksandro Soares/Saneacre
O levantamento também revela que o Acre não apresentou a documentação exigida pelo Decreto 11.598/2023 para comprovar a capacidade econômico-financeira da empresa responsável pelo serviço de saneamento, o Departamento Estadual de Água e Saneamento do Acre (Depasa).
Além disso, o estado não possui projetos estruturados ou licitações em andamento para ampliar a rede de água e esgoto. Houve apenas um acordo de cooperação com o BNDES em 2017 para preparar um projeto, mas ele não saiu do papel.
O Grupo Rede Amazônica entrou em contato com o órgão e aguarda retorno.
Segundo o Instituto Trata Brasil, 67% dos investimentos na macrorregião Norte vêm dos prestadores de serviço, percentual bem abaixo da média nacional. Os 33% restantes dependem de prefeituras e governos estaduais, que nem sempre possuem capacidade fiscal para bancar obras de grande porte.
Essa limitação estrutural ajuda a explicar por que os indicadores de saneamento da região são os piores do Brasil, com cobertura de abastecimento de água e coleta de esgoto muito abaixo das metas do Marco Legal, que prevê 99% de cobertura de água e 90% de esgoto até 2033.
Um projeto de pesquisa investiga formas de produzir leites fermentados utilizando polpas de frutos nativos do Brasil. Os primeiros foram os frutos do cupuaçu (Theobroma grandiflorum), mangaba (Hancornia speciosa) e ata (Annona squamosa), explorando o uso desses ingredientes para agregar valor nutricional aos produtos lácteos.
Os estudos fazem parte do Edital Bolsa de Doutorado com produto Tecnológico, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), e coordenado pela doutora Maressa Caldeira Morzelle, da área de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Os estudos começaram com o desenvolvimento de um leite à base de cupuaçu, formulado e otimizado para definir concentrações de polpa de açúcar, buscando equilíbrio de sabor e estabilidade do produto. Foram realizadas análises físico-químicas, medição de teor de compostos bioativos, testes de vida de prateleira e avaliação sensorial.
Cupuaçu uma é fruta amazônica. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
Frutas de outros biomas
Na segunda etapa, foi produzida uma versão com mangaba, com formulação voltada para alto teor de fibras. O objetivo foi avaliar o potencial do produto para a saúde intestinal e quais os benefícios ele pode oferecer. As análises incluirão estudos físico-químicos, bioacessibilidade de compostos fenólicos e fermentação colônica, para investigar o efeito sobre a microbiota.
O terceiro produto será elaborado com o fruto da ata, sem adição de açúcar. O foco é atender consumidores que buscam opções com menor teor calórico. Serão feitos testes físico-químico, análises de percepção de doçura de vida de prateleira.
De acordo com a pesquisadora, “o trabalho busca ampliar o portfólio de leites fermentados funcionais, valorizar frutos regionais e gerar conhecimento aplicável à indústria de alimentos, contribuindo para a inovação no setor lácteo brasileiro’, ressaltou a doutora Maressa.
A criação do mecanismo veio de um encaminhamento da reunião da Cúpula de Belém, realizada em 2023, para ser lançado na Cúpula promovida na Capital da Colômbia. Ao longo de dois anos, os países da Bacia Amazônica se reuniram para discutir e definir o formato do mecanismo, com participação e articulação ativas do Ministério dos Povos Indígenas.
Em seu discurso, a ministra Sonia Guajajara celebrou a criação do Mecanismo Amazônico dos Povos Indígenas na OTCA, destacando-o como uma conquista histórica que garante participação e protagonismo indígena nas decisões que os afetam.
“Estamos no Brasil com o primeiro Ministério dos Povos Indígenas. Sabemos que Venezuela também tem um Ministério importante e que Colômbia conduz uma importante mesa de concertação. Já a Bolívia tem um vice-presidente da altura e grandeza de David Choquehuanca e que outros países também têm avançado em políticas que garantam direitos, participação e protagonismo dos povos indígenas em nossos países”, afirmou a ministra Sonia Guajajara.
Ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. Foto: Divulgação
“Mas era necessário garantir este mesmo espaço na OTCA. Os presidentes deram um passo importante na Carta de Belém em 2023. Decidiram por fortalecer a organização e orientaram a construção de um mecanismo com participação paritária. Os Chanceleres transformaram a orientação dos presidentes em resolução e muitos de vocês aqui presente negociaram ao longo de todo este ano de 2025 este texto belíssimo que hoje foi aprovado pelos chanceleres”, acrescentou.
Sonia Guajajara enfatizou a importância de transformar o mecanismo em um espaço real de influência, ressaltando o papel crucial dos povos originários, que registram cerca de 3 milhões de pessoas de mais de 400 povos na Bacia Amazônica, como guardiões do bioma, seus saberes e modos de vida.
Ela ainda conectou a conquista do mecanismo à luta contra as mudanças climáticas, o negacionismo e a violência histórica, posicionando-o como fundamental para evitar o ponto de não retorno ambiental e para promover um futuro com mais direitos e participação indígena em fóruns globais como a COP do Clima e da Biodiversidade.
Formato de governança inédito
A criação do mecanismo foi uma orientação dos chanceleres que compõem a OTCA por meio da Resolução 7 da organização internacional, que estabelece novas diretrizes e metas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, com foco no alcance desses objetivos até 2030.
Ao longo de todo o primeiro semestre de 2025, representantes dos países membro e organizações indígenas formataram o mecanismo, com participação direta da equipe negociadora brasileira, composta pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Ministério das Relações Exteriores (MRE) e Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).
Indígenas. Foto: Divulgação
Um dos resultados dos debates é o formato de governança inédito, composto de maneira paritária pelos 8 países e 8 organizações indígenas que participam da organização. Com rotatividade de presidência anual entre os países, o MAPI poderá debater temas de relevância para os povos indígenas na região amazônica, incentivando os países e a OTCA a avançarem na garantia de direitos aos povos indígenas.
Outra importante atribuição do mecanismo será a organização do Fórum dos Povos Indígenas e Comunidades Locais e Tradicionais para que estes contribuam com seus conhecimentos tradicionais na formulação de políticas nos âmbitos nacionais e da OTCA.
Com a criação do mecanismo, a ministra Sonia Guajajara acredita que a OTCA avança de forma estrutural para garantir as vozes e a participação indígena nos espaços de decisão das questões amazônicas.
Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Sabemos que ESG é a sigla, em inglês, para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). Como o objetivo maior do ser humano e dos seres-empresas é a Felicidade (mesmo nos negócios, o lucro ainda não é o fim, mas o meio necessário para isto), defendo sempre que deveríamos buscar o ESG-H (happiness) ou ASG-F (felicidade). Entender os conceitos não é tão difícil, difícil pode ser implantar as suas práticas e muito mais difícil, fazer com que elas se tornem um valor real, se transformem em cultura e entrem no espírito de toda a empresa.
Penso nisso quando observo duas companhias, igualmente importantes em seus setores e igualmente possuidoras de valores declaradamente elevados. Ambas são empresas do bem e se esforçam para fazer as coisas corretas. Financeiramente, uma vive momentos de prosperidade há anos e a outra, nem tanto, embora isto possa ser atribuído a vários fatores inerentes ao próprio tipo de negócio. Pode-se dizer que ambas possuem características de empresas familiares. Ambas anseiam tornar-se empresas ESG.
Uma delas ainda está na primeira geração e os seus fundadores participam da operação diariamente. Eles não se cansam de repetir as declarações de Missão, Valores e Propósito da empresa. Cada palavra dessas declarações foi minuciosamente discutida, de forma que cada uma é dotada de um significado real. A máxima dita por eles aos colaboradores é: “se você tiver dúvidas em qualquer situação, leia a nossa missão e você terá a resposta”. Eles possuem diversos rituais que favorecem a criação da cultura que desejam criar e seguem com eles, de maneira consistente. Também possuem um conselho consultivo, composto por eles e por conselheiros externos que se sentem confortáveis em questionar e discordar de eventuais decisões dos diretores executivos. O conselho, mesmo de caráter consultivo, funciona e tem força para reverter uma decisão, em prol dos interesses da empresa.
A segunda empresa é muito forte em sua proposta de valor e nos produtos que entrega ao mercado, conseguindo se diferenciar de concorrentes muito maiores e poderosos. Apesar de já ter algumas décadas de existência, ela não investiu em rituais de gestão, direcionando os seus esforços para pesquisa e produção. Há declarações de Missão, de Valores e de Propósito, mas elas não são trabalhadas com a equipe. Ao implantar a governança, a empresa se depara com uma cultura centralizada no CEO, que ao assumir a presidência do conselho, tem dificuldades de conviver com discordâncias, inconscientemente lidando com os conselheiros, como se fossem executivos, numa relação hierárquica. O tema ESG, e o que está contido nele, é estranho à cultura da companhia.
As duas empresas ainda têm um longo caminho a percorrer até se tornarem empresas ESG maduras, que vão além dos discursos e das exigências formais da legislação ou do mercado. A diferença é que uma delas parece mais distante de entrar nessa trilha, pois a sua governança é desalinhada ao discurso e não contribui para a formação de uma cultura ESG.
Sem cultura, não existe ESG. Sem rituais e sem um processo legítimo de governança, a cultura ESG não será formada, tendendo a ser departamentalizada. Ou seja, o mundo real acontece e o tema é tratado em um departamento com ações específicas, emissão de relatórios e cumprimento de tabelas. Ainda é o estágio da maior parte das boas empresas que declaram ser ESG. Nem é preciso falar daquelas que simplesmente tentam capitalizar na comunicação e fazer o mínimo possível, como o conhecido Greenwashing (algo como “lavagem verde”, para parecer ser ambientalista, por exemplo).
Não é o caso destas duas empresas, que buscam ser coerentes entre discurso e prática. Mas ser coerente não é tão fácil assim. Nós mesmos, como pessoas, podemos ter dificuldades que, às vezes, são mais percebidas pelos outros do que por nós mesmos.
Para nós, seres humanos ou para os seres-empresas, penso que vale o mesmo caminho: autoconhecimento, saber o que se quer, humildade para ouvir o que os outros têm a dizer e força para se transformar.
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
AFrentetem como objetivo promover debates sobre a exploração sustentável das terras raras no Brasil. Foto: Divulgação
O Congresso Nacional aprovou decreto do Projeto de Resolução nº31/2025 que institui a Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras Brasileiras no âmbito do Senado Federal.
A Frente será um órgão suprapartidário composto por senadores que assinarem sua constituição e terá regulamento próprio, com reuniões que poderão ocorrer no Senado ou em outros locais do Brasil.
AFrente Parlamentar em Defesa das Terras Raras Brasileirastem como objetivo promover debates sobre a exploração sustentável das terras raras no Brasil; Fortalecer a soberania nacional sobre esses recursos estratégicos; Incentivar a agregação de valor no território nacional, evitando a exportação de matéria-prima bruta; Apoiar políticas públicas de pesquisa, inovação e capacitação; Propor e monitorar o marco regulatório do setor; Fortalecer a posição do Brasil na cadeia global de terras raras; Garantir segurança jurídica e atratividade para investimentos; Acompanhar e propor ações de governança e fiscalização do setor e Articular a criação de um Plano Nacional de Terras Raras.
O Senado Federal prestará colaboração às atividades desenvolvidas pela Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras Brasileiras no Senado e o PRS nº31/2025 já está em vigor. A criação da Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras Brasileiras no âmbito do Senado Federal é justificada pela importância estratégica, econômica, ambiental e tecnológica que os elementos conhecidos como terras raras vêm assumindo no cenário global.
Na Região Norte despontam com depósitos relevantes o estado do Amazonas. Foto: Divulgação
Esses minerais são insumos essenciais na produção de componentes de alta tecnologia, tais como ímãs permanentes, baterias recarregáveis, turbinas eólicas, painéis solares, semicondutores, equipamentos médicos, sistemas de defesa e dispositivos eletrônicos em geral.
O Brasil figura entre os países com maior potencial geológico para exploração de terras raras, especialmente nas regiões Norte, Sudeste e Centro-Oeste, com depósitos relevantes em estados como Amazonas, Minas Gerais, Goiás e Bahia. Apesar disso, o país ainda ocupa posição marginal na cadeia global de produção e beneficiamento desses elementos, exportando eventualmente matéria-prima sem processamento e sem agregar valor, o que representa perda de oportunidades industriais, tecnológicas e de geração de emprego qualificado.
Além disso, a concentração da cadeia global de terras raras em poucos países acarreta risco geopolítico e dependência estratégica, situação que tem levado diversas nações a buscar alternativas de diversificação de fornecedores e fortalecimento de sua própria soberania mineral.
O Greenpeace Brasil realizou sobrevoo no sul do Amazonas. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace-Brasil.
Nesse contexto, o Brasil tem condições de assumir papel de destaque, desde que implemente políticas públicas e marcos regulatórios que incentivem a pesquisa geológica e tecnológica; o fortalecimento de centros de excelência científica; estímulo à mineração responsável e ao refino nacional; apoio à industrialização de produtos de alto valor agregado e a compatibilização entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. O documento foi assinado eletronicamente por diversos senadores, incluindo Nelsinho Trad, Eduardo Girão, Tereza Cristina, Marcos Pontes, entre outros.
Senado Federal: Projeto de resolução do Senado N° 31, DE 2025 que Institui, no âmbito do Senado Federal, a Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras Brasileiras.
Plantio de café no Amazonas. Foto: Érico Xavier/Acervo Fapeam
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Diante da baixa representatividade do setor agropecuário, pouco mais de 3% do PIB estadual, venho há algum tempo levantando a bandeira de criação de uma empresa estadual de pesquisa agropecuária, com estrutura técnica infensa a influências político-partidários, destinada a promover a governança do sistema de P&D local, ora disperso, desestruturado e contaminado por individualidades sociais, culturais e tecnológicas. A instituição teria como foco central, especificamente, a eliminação do grave distanciamento cristalizado entre o sistema de ensino e pesquisa, o setor privado e a estrutura de planejamento estadual. O sistema é consolidado praticamente em todo o país a partir de exemplos como Epamig, em Minas Gerais, e Iapar, no Paraná, absolutamente representativos da eficácia do instituto.
A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), constituída como empresa pública em 1974, surgiu do Programa Integrado de Pesquisas Agropecuárias do estado de Minas Gerais – PIPAEMG. Fundada em 1971, tornou-se a primeira iniciativa de coordenação e integração das instituições de pesquisa agropecuária de Minas. Para se ter ideia da importância do Programa, a partir da base de integração realizada pelo PIPAEMG, foi criada, em 1973, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e o Sistema Cooperativo de Pesquisa Agropecuária (SCPA) com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento agrícola nacional por meio da geração de conhecimento e soluções tecnológicas para melhorar a qualidade e produtividade do campo.
O Instituto Agronômico do Paraná – Iapar, fundado em 1972, exatamente na ambiência e efervescência da instalação da Embrapa. O Iapar é o órgão oficial de pesquisa agropecuária do Paraná, sendo responsável pela formação de vários profissionais alinhados à sua missão de “prover soluções inovadoras para o meio rural e o agronegócio do Paraná”. Nesse campo, o Instituto tem como diretriz solucionar problemas por meio de inovações apropriadas ao clima, solos e ao perfil social e econômico dos produtores paranaenses. Há 45 anos o órgão contribui para o desenvolvimento do estado atuando em várias frentes.
Muitos estudos do Iapar forneceram as bases técnicas para a conservação do solo e da água e a proposição de sistemas mais sustentáveis de produção agropecuária. Dentre muitos outros, estudos sobre plantio direto, rotação de culturas, citricultura, integração lavoura-pecuária-floresta, café e zoneamento agroclimático vêm contribuindo significativamente para a estruturação de cadeias produtivas mais eficientes, a melhoria da qualidade de vida no campo e a preservação do planeta. Em relação ao melhoramento genético, destacam-se mais de 200 cultivares desenvolvidas, com destaque para as culturas de feijão, trigo, milho, café, laranja e maçã. Pioneiro no tema, em 1981 o Instituto lançou seu primeiro livro sobre essa prática que se tornou um dos pilares da agricultura moderna, adotada em mais de 30 milhões de hectares no Brasil.
Além de cursos, práticas de campo, seminários e outros eventos, o Instituto divulga os resultados de suas pesquisas em livros e boletins técnicos – são mais de 500 publicações editadas nesses 45 anos. A transferência de tecnologias ainda se consolida em parcerias, prestação de serviços tecnológicos, acordos de cooperação e projetos de desenvolvimento específicos. Com sede em Londrina, o Instituto mantém cinco polos regionais (Curitiba, Ponta Grossa, Paranavaí, Pato Branco e Santa Tereza do Oeste), 19 fazendas experimentais e 18 estações agrometeorológicas (também utiliza dados coletados por 37 estações do Sistema Meteorológico do Paraná-Simepar). O Iapar tem em seu quadro de pessoal cerca 600 funcionários, entre pesquisadores – a maioria com doutorado e pós-doutorado – e pessoal de apoio técnico. Somam-se ainda 500 colaboradores temporários (pesquisadores voluntários, bolsistas, estagiários, trabalhadores terceirizados, etc.).
O Amazonas, se pretende efetivamente desenvolver o setor primário, impulsionar o agronegócio no Estado e promover a integração PIM/Bioeconomia, obriga-se a participar desse clube, via IPAG-AM. Do contrário, a economia estadual vai continuar dependendente da Zona Franca de Manaus, que em 57 anos não foi capaz de cumprir as funções essenciais que levaram à criação do órgão, dispostas no Art. 1º, do DL 228/67, isto é, de gerar, ipsis litteris, “uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento, em face dos fatores locais e da grande distância, a que se encontram, os centros consumidores de seus produtos”.
Vale destacar, porque poucos se dão conta desse dispositivo, o preceituado no Art. 11, que define as atribuições da Suframa:
a) elaborar o Plano Diretor Plurianual da Zona Franca e coordenar ou promover a sua execução, diretamente ou mediante convênio com órgãos ou entidades públicas inclusive sociedades de economia mista, ou através de contrato com pessoas ou entidades privadas;
b) revisar, uma vez por ano, o Plano Diretor e avaliar, os resultados de sua execução;
c) promover a elaboração e a execução dos programas e projetos de interesse para o desenvolvimento da Zona Franca;
d) prestar assistência técnica a entidades públicas ou privadas, na elaboração ou execução de programas de interesse para o desenvolvimento da Zona Franca;
e) manter constante articulação com a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), com o Governo do Estado do Amazonas e autoridades dos municípios em que se encontra localizada a Zona Franca;
f) sugerir a SUDAM e a outras entidades governamentais, estaduais ou municipais, providências julgadas necessárias ao desenvolvimento da Zona Franca;
g) promover e divulgar pesquisas, estudos e análises, visando ao reconhecimento sistemático das potencialidades econômicas da Zona Franca.
Inexiste, até a presente data, documento abrangente prestando conta do atendimento dessas exigências legais.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).