O que faz uma língua continuar existindo e sendo falada por um povo, a cada nova geração? Essa foi uma das perguntas-chave de um evento realizado nos dias 22 e 23 de abril, na superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) no Amapá, em Macapá.
O ‘1° Encontro Qual(is) Língua(s) Você Fala?’ foi uma ação do projeto de pesquisa de mesmo nome, realizado no âmbito do Mestrado Profissional de Cultura e Política da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e contemplado em 2023 pelo edital do Programa Nacional de Patrimônio Imaterial (PNPI) do Iphan.
Reunindo pesquisadores, professores, estudantes e lideranças indígenas, o evento serviu para apresentar e pôr em discussão alguns resultados do projeto, que vem mapeando e busca criar um acervo digital de línguas indígenas faladas no Oiapoque, norte do Amapá.
Para isso, a equipe do projeto vem produzindo registros audiovisuais, aplicando questionários e conduzindo entrevistas nas 67 aldeias da região, com falantes das línguas:
Parikwaki (do povo Palikur-Arukwayene),
Kheuól Karipuna (dos Karipuna),
Kheuól Galibi-Marworno (dos Galibi Marworno)
e Kali’na (dos Galibi-Kali’na).
Com esse conjunto de dados qualitativos e quantitativos, os pesquisadores querem caracterizar a situação de cada uma dessas línguas – se estão em uso vigoroso, em processo de perda ou em fase de revitalização – para contribuir com a sua salvaguarda e o seu reconhecimento oficial como patrimônio cultural do Brasil.
“Esse tipo de trabalho tem valor por si só – por tudo que ele representa para as comunidades envolvidas –, mas também abre caminhos para novas políticas públicas, que garantam, por exemplo, educação bilíngue nas escolas indígenas, materiais de saúde traduzidos nas línguas das comunidades e o direito dessas pessoas de serem atendidas e compreendidas em sua própria língua”, disse o superintendente do Iphan no Amapá, Michel Flores. “Esse tipo de trabalho abre caminhos para novas políticas públicas, que garantam, por exemplo, educação bilíngue, materiais de saúde traduzidos e o direito das pessoas de serem atendidas em sua própria língua”.
O superintendente nota que a própria pesquisa celebrada no evento desta semana já é fruto de uma política pública de grande relevância, implementada pelo Iphan, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), que reconhece e protege as línguas faladas por diferentes comunidades no País.
Utilizando critérios padronizados e metodologia científica, o INDL é uma forma de documentação de línguas que, se reconhecidas como Referência Cultural Brasileira, podem contar com nível de proteção do Estado semelhante a outros bens culturais registrados como Patrimônio Imaterial do Brasil.
“O INDL entende que a língua é um patrimônio cultural, um bem precioso que deve ser cuidado como se cuida da memória de um povo”, disse Flores.
Participação das comunidades
Para a coordenadora do projeto, a doutora em Linguística Elissandra Barros, a pesquisa vai “fornecer dados sem precedentes sobre as línguas indígenas do Oiapoque”, município que abriga cerca de 8 mil indígenas – quase um terço de sua população. Segundo ela, além de contabilizar o número de falantes de cada uma das quatro línguas estudadas, a ideia é também investigar expressões e usos cotidianos, os níveis de proficiência e como se dá a relação entre elas e o português. Algo que pode variar muito de geração para geração.
“Os jovens entendem o que os mais velhos dizem, mas só respondem em português”, diz Nadilson Felipe, do povo Karipuna, que integra a equipe do projeto. Embora afirme que o Kheuól Karipuna continua vivo como língua e identidade étnica, Nadilson destaca que em muitas aldeias o português é a língua predominante, o que só reforça a urgência e a necessidade da pesquisa.
É um depoimento semelhante ao de Rudolph Lod, do povo Galibi Kali’na: “Meu povo no Brasil é pequeno, somente os mais velhos falam o Kali’na”, diz ele. “Mas passei a ter um outro olhar sobre a nossa língua quando entrei para o projeto e vejo que isso tem acontecido com muitos indígenas também”.
A participação de Nadilson e Rudolph na equipe não é por acaso. O projeto conta com a colaboração de organizações representativas dos quatro povos estudados: a Associação Indígena do Povo Palikur (AIPA), a Associação Indígena do Povo Galibi-Marworno (AIPGM), a Associação Indígena do Povo Karipuna (AIKA) e a Associação Na’na Kali’na.
Cada uma delas indicou um coordenador interno para articular as ações localmente, garantindo a participação direta das comunidades na pesquisa. Além de Nadilson e Rudolph, também integram a equipe, como coordenadores locais, Lenise Felício Batista, do povo Palikur, e Orineio Monteiro, dos Galibi-Marworno.
“Essa estrutura colaborativa assegura que o projeto seja conduzido em diálogo constante com os povos envolvidos, respeitando os saberes tradicionais e as dinâmicas locais”, diz Elissandra.
O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) publicou, na Revista da Propriedade Industrial (RPI) do dia 8 de abril de 2025, o reconhecimento da Indicação Geográfica (IG), na espécie Indicação de Procedência (IP), para a região do Bailique, como produtora de açaí.
Com essa concessão, a segunda para o estado do Amapá, o INPI chega a 141 IGs reconhecidas no Brasil, sendo 102 IPs (todas nacionais) e 39 Denominações de Origem – DOs (29 nacionais e 10 estrangeiras).
A região do Bailique é composta de oito ilhas fluviais e área costeira próxima à foz do rio Amazonas, no leste do Amapá. O ambiente natural é marcado por uma rede de rios, igarapé e furos que desaguam no canal norte do rio Amazonas, formando extensas áreas de florestas de várzea, manguezais e campos inundados. São cerca de 51 comunidades ribeirinhas que se organizam em torno de sua religiosidade e de atividades produtivas como a coleta do fruto de açaí.
De acordo com a documentação apresentada pela Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique, a região produz o açaí mais sustentável do mundo. Ele é nativo da região e cultivado da forma natural, sem o uso de agrotóxicos, máquinas e fertilizantes. É apenas manejado pelos produtores e possui certificado FSC (Forest Stewardship Council, organização não governamental internacional que atesta que os produtos florestais são oriundos de florestas bem geridas), o que garante que todas as etapas do processo sejam feitas com respeito à legislação do país, aos direitos dos trabalhadores e ao meio ambiente.
Além do certificado FSC, o açaí do Bailique também possui o selo vegano SVB, da Sociedade Vegetariana Brasileira. Esse certificado garante que o produto não contenha, em sua composição, nada de origem animal, bem como que o processo de extração e de produção seja livre de qualquer tipo de exploração animal.
O açaí do Bailique é composto apenas da polpa da fruta, sendo inteiramente puro, sem adição de açúcares, xaropes, corantes, aromas ou conservantes. A notoriedade do arquipélago na produção de açaí o fez ser incluído no Polo Tucuju, da Rota do Açaí, uma das Rotas de Integração Nacional (RIN) do Governo Federal, redes de arranjos produtivos locais associadas a cadeias produtivas estratégicas capazes de promover a inclusão produtiva e o desenvolvimento sustentável das regiões brasileiras.
O Parque Zoobotâncio Mangal das Garças, em Belém (PA), promoveu um intercâmbio especial entre corujas murucututu (Pulsatrix perspicillata), em parceria com o Hospital Veterinário da Universidade Federal do Pará (HV-UFPA). A ação teve como objetivo contribuir tanto para a conservação da fauna quanto para projetos de educação ambiental e reabilitação de animais silvestres.
O Mangal recebeu da instituição uma coruja da espécie murucututu batizada de ‘Iara’, que sofreu a amputação de uma das asas em decorrência de um acidente com descarga elétrica. Devido à gravidade da lesão e a perda funcional, sua reintegração ao ambiente natural tornou-se inviável.
Agora, sob os cuidados do parque, Iara assume um novo papel: contribuir com os programas de educação ambiental, sensibilizando o público sobre os impactos das atividades humanas na fauna silvestre e a importância da conservação das espécies amazônicas.
Foto: Divulgação
Como parte do intercambio, o Parque encaminhou ao HV-UFPA a corujinha ‘Tapioca’, também da espécie murucututu, que foi assim batizada pela público, por meio de votação nas redes sociais. Ela foi abandonada nas dependências do Mangal em outubro de 2024 e, desde então, era acompanhada por profissionais.
Por apresentar plenas condições físicas e comportamentais, Tapioca será submetida a um processo de reabilitação com treinamento de caça e outras habilidades fundamentais para retorno ao habitat natural.
“A Tapioca foi acolhida e passou pela avaliação clínica inicial feita pela nossa equipe. Ela está sendo submetida a exames complementares de triagem, para que possamos conhecer melhor seu quadro de saúde. Em seguida, ela iniciará as etapas de reabilitação, sempre acompanhada de perto pelos nossos médicos veterinários e biólogos. Estamos empenhados em oferecer o melhor cuidado para que, futuramente, ela tenha a oportunidade de retornar à natureza”, declara Cinthia Távora, técnica veterinária do Setor de Animais Silvestres do HV/UFPA.
Além da Iara, o Parque possui outras três corujas da espécie murucututu que podem ser vistas durante o funcionamento Mangal, em um recinto feito especialmente feito para elas, o qual fica localizado dentro da Reserva José Márcio Ayres (borboletário).
Segundo o médico veterinário do Mangal das Garças, Camilo González, essa ação é essencial para o equilíbrio entre conservação e educação ambiental.
“A Iara agora tem um papel fundamental na conscientização da população. Mesmo não podendo mais viver na natureza, ela contribui para que mais pessoas entendam a importância de proteger esses animais. Já a Tapioca é um exemplo de recuperação. Com o treinamento adequado, ela terá a chance de voltar ao seu ambiente natural, o que é sempre o nosso objetivo principal”, explicou.
A murucututu é uma das maiores espécies de coruja da América do Sul, conhecida por seu olhar penetrante e canto grave. Com hábitos noturnos, alimenta-se principalmente de pequenos mamíferos e aves pequenas. Discreta e silenciosa, exerce um papel importante no controle de populações de roedores e insetos, sendo uma grande aliada dos ecossistemas em que vive.
O intercâmbio, que foi realizado no último dia 25, reforça o compromisso do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Turismo e Organização Social Pará 2000, que administra o Parque, em realizar ações de fomento e conservação da biodiversidade amazônica e o bem-estar dos animais silvestres.
Produção de cacau nativo em comunidade indígena do Acre. Foto: cedida
No coração da floresta Amazônica, o Acre tem se revelado uma potência no universo do cacau. Terra de biodiversidade exuberante e de povos tradicionais com saberes ancestrais, o estado aposta em um tesouro: o cacau nativo, aquele que cresce naturalmente no meio da mata densa, e o cacau de cultivo, plantado a partir de material genético de alta produtividade.
Diferente das plantações comerciais do Sudeste ou do Norte da Bahia, o cacau nativo acreano nasce de forma espontânea nas matas, principalmente nas regiões do Juruá, Tarauacá, Envira, Purus e Alto Acre.
Produção de cacau. Foto: Marlon del Aguila Guerrero/CIFOR
Visando o potencial da cultura do cacau no estado, a Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri) tem investido, desde 2023, no incentivo à cultura do cacau nativo e do cacau de colheita em todo o Acre.
“O nosso cacau guarda uma genética de alto valor, por isso identificamos que o Acre tem um potencial de crescimento. A nossa expectativa é de que o cacau se torne uma das principais cadeias produtivas do estado nos próximos anos”, disse o secretário de Agricultura, Luis Tchê.
A Rota do Cacau no Acre é um conjunto de ações que busca mapear, fortalecer e integrar os elos da cadeia produtiva do cacau. A iniciativa conecta produtores rurais, extrativistas, comunidades indígenas, agroindústrias, universidades e o poder público em uma rede que tem como objetivo impulsionar a produção sustentável e agregar valor ao cacau nativo.
Desde a produção e beneficiamento até a comercialização e exportação, a rota busca oferecer capacitação técnica, infraestrutura, certificações e abertura de mercados, tudo isso alinhado à conservação da floresta.
Mapa da Rota do Cacau no Acre. Imagem Ilustrativa: Seagri
De acordo com o chefe da Divisão de Produção Familiar da Seagri e mestre em Gestão e Conservação de Recursos Naturais, Marcos Rocha, a rota do cacau ainda está em construção. “Estamos mapeando as plantações existentes no Acre, colocando tudo isso em um banco de dados. Visitamos os produtores, dando orientação técnica, fazemos levantamentos de dados, também abordamos a questão do controle de pragas e começamos a fomentar, incentivar e orientar, de forma técnica, o plantio e manejo da floresta”, declarou.
De acordo com Marcos, projetos para o fomento à cultura cacaueira começaram a ser aprovados pelo Programa REM. Um deles vai financiar a implantação de uma agroindústria de produção de chocolate, liderada por mulheres, em Cruzeiro do Sul.
Segundo a Seagri, mais de 300 famílias foram mapeadas pela Rota do Cacau, que tem como público-alvo populações indígenas, ribeirinhos, extrativistas e produtores rurais em todo o estado.
O fruto do cacau. Foto: Divulgação/USDA
A Rota do Cacau é um projeto desenvolvido em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Universidade Federal do Acre (Ufac), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Acre (Idaf), Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), prefeituras, cooperativas e associações de produtores.
À frente de muitos desses avanços está o governo do Acre, por meio da Seagri, que tem investido em políticas públicas estratégicas para o fortalecimento da cacauicultura. Entre as ações mais relevantes estão: capacitação técnica dos produtores com práticas sustentáveis; incentivo à regularização ambiental, parcerias com instituições de pesquisa e fomento à industrialização, com apoio a mini fábricas de chocolate artesanal e cooperativas de agricultores familiares.
Produção de cacau nativo em comunidade indígena do Acre. Foto: cedida
Segundo o secretário estadual de Agricultura: “O cacau nativo é uma das nossas maiores apostas. Ele representa não apenas um produto com alto valor de mercado, mas um símbolo de desenvolvimento sustentável, que respeita a identidade cultural e ambiental do Acre”, declarou Tchê.
Este ano, a Seagri vai lançar o programa de incentivo à cultura cacaueira no Acre, o que vai incentivar e promover a cultura no estado. O programa deve conectar produtores, empreendedores e instituições públicas para a valorização do produto.
Segundo uma estimativa da Seagri, atualmente o Acre possui mais de 80 hectares de cacau de cultivo plantados e 200 hectares de cacau nativo em diversas regiões da floresta.
Mais que um produto agrícola, o cacau acreano se consolida como símbolo de identidade e inovação. Uma rota que une saberes tradicionais, ciência e empreendedorismo, mostrando que é possível desenvolver e preservar ao mesmo tempo.
A cozinheira paraense Maria Helena Galdino cresceu ao lado da mãe, no bairro do Marco em Belém (PA). Desde criança, adquiriu o hábito de observar os temperos e modos de fazer das comidas de seu território. Na mesa da família matriarcal, sempre era possível encontrar uma maniçoba, um peixe no tucupi ou um arroz paraense. Porém, ao escolher uma profissão, Maria Helena não optou pela gastronomia de imediato. Ela trabalhou vários anos no ramo calçadista, até que em 2016, trocou de profissão para cuidar da saúde da mãe. “Por que não cozinhar?”, pensou.
No quintal da casa, começou a fazer os pratos que já conhecia, como a maniçoba e o peixe frito. Não demorou muito para o local virar um sucesso da vizinhança. “Muita gente começou a dizer que iria almoçar lá no quintal. As pessoas falavam que era um tempero único, que era o ‘sabor da nega’”, conta. Com a casa sempre lotada, mãe e filha expandiram o cardápio, oferecendo mingau de milho e tapioca. Assim, nasceu o Sabor da Nega, empreendimento culinário familiar gerido por Maria Helena.
Seu trabalho com a gastronomia paraense é a definição de “Patrimônios culturais que cabem num prato”. No dia a dia, prepara comidas que estão intimamente ligadas à cultura de seu povo.
“A nossa comida paraense é muito rica, cheia de ancestralidade. Aprendemos através das gerações até o dia de hoje”.
Tanto é que são base para alguns dos bens culturais imateriais registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como, por exemplo, o ofício das doceiras de Pelotas (RS) e o ofício das baianas do acarajé, que é originário da Bahia mas é registrado em todos os estados brasileiros. Seja no dia a dia, numa manifestação religiosa, em celebrações e festas, as comidas estão sempre presentes na cultura brasileira das cinco regiões.
“Todo grupo social tem uma comida própria, uma comida que se come em casa”, afirma Ana Claudia Alves, especialista em Preservação Cultural pelo Iphan, onde trabalhou entre 1983 e 2010. Nessas décadas de experiência, ela pôde constatar que “as pessoas podem esquecer a língua materna, mas não esquecem as comidas maternas”.
No caso de Maria Helena, a origem materna é direta. “Me espelhei em minha mãe para cozinhar”, explica. O entendimento dela é que o trabalho com alimentação é também um trabalho com a cultura. “Eu sempre digo que não trabalho com comida típica. Eu faço comida regional paraense. É como estar com o Pará em nossas mãos. É sobre quem nós somos”, define. Assim como as comidas significam identidade e ancestralidade para ela, diversos outros pratos alimentares são registrados por sua importância cultural no Brasil.
Foto: Maria Helena Galdino/Acervo pessoal
Comida é transmissão de saberes
Sabrina Silva, técnica em História pelo Departamento de Patrimônio Imaterial e Coordenadora Substituta de Registro e Revalidação do Iphan, pontua que os sistemas alimentares refletem a história e as formas de convivência de comunidades.
“Esses saberes e práticas incluem modos tradicionais de cultivar, colher e preparar alimentos, além das dinâmicas culturais que incluem o significado de determinados alimentos, a transmissão de conhecimentos e o compartilhamento de refeições. Dessa forma, o alimento se torna um elemento simbólico que conecta pessoas, sociedade e cultura”, afirma.
Nota-se que o Iphan não reconhece as comidas em si ou as receitas culinárias como patrimônios culturais, mas sim as práticas e saberes ligados à alimentação. Isso se deve a um entendimento do órgão, que considera os alimentos como parte de processos culturais. “Por isso, a identificação, o reconhecimento e o apoio devem estar voltados às referências culturais associadas à produção e ao significado dos alimentos para determinadas comunidades, que por vezes não se limita à comercialização”, explica Sabrina.
As práticas e saberes ligados à alimentação já reconhecidos como patrimônio cultural são as seguintes: Ofício das Baianas de Acarajé; Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas nas regiões do Serro, Serra da Canastra e Salitre/Alto Parnaíba; Produção Artesanal e Práticas Socioculturais associadas à Cajuína do Piauí e Tradições Doceiras de Pelotas. Há ainda o Sistema agrícola tradicional de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) e o Sistema agrícola tradicional do Rio Negro.
Além disso, atualmente outras quatro práticas e saberes estão em processo de registro: Ofício de Tacacazeira na Região Norte; Ofício das Quitandeiras de Minas Gerais; Modo de Saber Fazer do Queijo Artesanal Serrano de Santa Catarina e Rio Grande do Sul; e Engenhos de Farinha de Santa Catarina.
Essas tradições devem ser adicionadas aos mais de 40 bens culturais de natureza imaterial já registrados pelo Iphan. Isso se tornou possível a partir do ano de 2000, com o Decreto Presidencial 3.551 que criou a Política de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, permitindo assim que celebrações, saberes da cultura popular e outras práticas passassem pelo registro do órgão.
Para além de decretos e registros do Iphan, “o principal motivo para que esses patrimônios estejam vivos é o olhar das comunidades entendendo que é um bem cultural e pensando coletivamente como mantê-lo” afirma a historiadora Gabriella Pieroni, autora da dissertação de mestrado “Fazedores de cultura, comedores de patrimônio: Estado e sociedade civil no registro do patrimônio imaterial ligado à alimentação (2000/2016)”.
Gabriella aponta também que entre os motivos que levam as comunidades a reivindicarem o registro de um bem como patrimônio cultural está a busca por um olhar mais atento do Estado para as dificuldades locais pelas quais passam para manter suas práticas e saberes.
Quais práticas e saberes alimentares são considerados patrimônio?
Na família de Maria Helena, e de milhares outras no estado do Pará, um patrimônio cultural imaterial ligado à alimentação é o Círio de Nazaré, manifestação de fé que conta com várias celebrações e procissão em homenagem à padroeira da Amazônia. Parte importante da tradição é o “almoço do Círio”, que inclui pratos típicos como a maniçoba e o pato no tucupi – presentes no cardápio do Sabor da Nega o ano inteiro.
Já no Rio de Janeiro, a tradição do Samba, registrada pelo Iphan em 2007, é outro exemplo de reconhecimento. Como não associar uma roda de samba a um boa feijoada?
No ano de 2004, houve o primeiro registro de uma prática diretamente ligada à alimentação: o Ofício das Baianas de Acarajé. O acarajé – bolinho de feijão fradinho, cebola e sal, frito em azeite-de-dendê – é de origem africana, vindo com os escravizados durante a colonização. E são as baianas do acarajé quem preservam e perpetuam esse legado.
O dossiê destaca que esse registro expressa a relevância das raízes afro-brasileiras na cultura. “O registro do Ofício das baianas de acarajé como Patrimônio Cultural do Brasil, no Livro dos Saberes, é ato público de reconhecimento da importância do legado dos ancestrais africanos no processo histórico de formação de nossa sociedade e do valor patrimonial de um complexo universo cultural”, diz o texto.
Em 2008, foi a vez do registro do Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas nas regiões do Serro, Serra da Canastra e Salitre/Alto Parnaíba, que destaca a produção artesanal de queijos de leite cru com técnica de origem milenar. “Fazer e comer queijo são parte do modo de ser mineiro”, resume-se no dossiê.
Já em 2010, houve a primeira definição de um sistema agrícola como patrimônio cultural: o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro. Passando por municípios amazonenses como São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos, esse sistema é comandado por diferentes povos indígenas e baseado na mandioca, que desemboca no preparo de itens essenciais na culinária local, como farinha, beiju, tucupi e caxiri.
No ano de 2014, o reconhecimento cultural veio à Produção Artesanal e Práticas Socioculturais associadas à Cajuína do Piauí. A cajuína é uma bebida não alcoólica feita a partir do suco do caju, por meio de uma produção tradicional feita por diferentes famílias em seus próprios quintais.
Em 2018, houve o registro das Tradições Doceiras de Pelotas (RS). As produções envolvem doces como: bem casado, marmelada, quindim, pessegada, ninho, camafeu, figo em calda, amanteigado, ameixa recheada, abóbora cristalizada e bolo de noiva. A tradição se desenvolveu em casas de famílias ricas, contando com as trocas entre senhoras da elite e suas cozinheiras, formada em maior parte por mulheres negras escravizadas e suas descendentes.
No mesmo ano, o Iphan reconheceu o Sistema agrícola tradicional de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) como patrimônio cultural. Além das técnicas de cultivo e diversidade das plantas, a prática envolve a transmissão de conhecimento e de consumo alimentar através de expressões de música e dança.
Origens afro-brasileiras e indígenas na alimentação
Ao olhar para os registros citados acima, ficam evidentes as contribuições de populações indígenas, africanas e afro-brasileiras para a construção da diversidade culinária existente no país e seus impactos nas culturas populares. Mas, para Gabriella Pieroni, essa representatividade ainda precisa ser ampliada. “O Iphan deveria fazer um trabalho de fortalecer as culturas indígenas e de matriz africana nos registros das práticas alimentares, é muito importante alguma ação pensando em priorizar esses processos”, afirma.
A pesquisadora, que analisou os pedidos de registro ao Iphan ligados à alimentação entre 2000 e 2016, destaca ainda que muitos desses pedidos trazem narrativas que promovem o apagamento das culturas alimentares indígenas e afro-brasileiras. “Muitos deles vem com uma narrativa que enaltece a cozinha portuguesa, a influência dos colonizadores, como é o exemplo da tradição doceira de Pelotas (RS), que foi registrada, e no meio do processo se aprofundou essa relação com as comunidades negras, que não existia anteriormente [no pedido de registro]”, explica.
Para além dos patrimônios culturais ligados diretamente à alimentação, há aqueles que de alguma forma se relacionam com isso, conforme explica Ana Claudia Alves. É o caso, por exemplo, do Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, que trata de mulheres do Espírito Santo que produzem panelas de barro, as quais são itens indispensáveis para receber pratos como as moquecas de peixe e a torta capixaba. “A comida sempre faz parte da festa e do cotidiano. Tem comidas cerimoniais, tem as mais festivas e tem as comidas do cotidiano”, pontua Ana Claudia.
Gabriella Pieroni destaca que entender a comida como patrimônio pode reverberar em diferentes âmbitos da sociedade.
“É muito importante reconhecer os patrimônios alimentares do Brasil. A agricultura e a alimentação contém bens culturais que contam a nossa história e a nossa identidade cultural. E também, esse olhar da educação patrimonial e da salvaguarda do patrimônio imaterial é uma ferramenta muito interessante para se pensar o combate à fome e a resiliência às mudanças climáticas”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Beatriz de Oliveira e Anna Ortega
Já imaginou explorar trilhas em meio à mata, se refrescar em piscinas naturais e conhecer uma cachoeira de 32 metros de altura? Essas são algumas das atrações do Vale das Cachoeiras, destino ecológico localizado próximo a Ouro Preto do Oeste (RO), que recebe turistas de todo o Brasil.
O grande destaque do local é a Cachoeira do Rio Mandi, com uma impressionante queda livre de 32 metros. Para chegar até ela, os visitantes enfrentam uma descida íngreme, de aproximadamente 120 graus, seguida de uma caminhada de 600 metros em meio à floresta.
Durante o percurso, é comum encontrar animais silvestres como capivaras, macacos e veados, proporcionando ainda mais conexão com a natureza.
Além do contato com os fenômenos naturais, o Vale também oferece opções para quem busca aventura. O parque aquático da região abriga o segundo maior toboágua do Brasil, com 43 metros de queda, uma atração para os amantes de adrenalina.
Veja fotos do Vale das Cachoeiras:
Cachoeira do rio Mandi. Foto: Divulgação/Vale das CachoeirasTrilha por dentro do vale. Foto: Divulgação/Vale das CachoeirasMacaco prego. Foto: Divulgação/Vale das CachoeirasArara-canindé. Foto: Divulgação/Vale das CachoeirasMacaco Guariba. Foto: Divulgação/Vale das Cachoeiras
Confira as atividades disponíveis no Vale das Cachoeiras:
Visitação à Cachoeira do Rio Mandi;
Banho em piscinas naturais;
Trilhas ecológicas;
Parque aquático com toboágua gigante.
O Vale das Cachoeiras é uma ótima opção para quem deseja se desconectar da rotina e vivenciar momentos de lazer e aventura em meio à natureza de Rondônia.
Ação do Greenpeace na serraria Maginco, em Rio Maria, Pará, Brasil, no ano de 1992, contra a exploração de mogno. Foto: Steve Morgan/Greenpeace
A proteção da Amazônia é um chamado que costura os capítulos da história do Greenpeace Brasil. Tão conectadas como as raízes das florestas ou o encontro das águas nos rios, as campanhas da organização sempre tiveram centralidade na defesa do bioma, lar de uma imensa biodiversidade e de milhares de comunidades indígenas e populações tradicionais.
Não teria como ser de outra forma. Afinal, a maior floresta tropical contínua do mundo ocupa cerca de 59% do território brasileiro com uma imensidão que cobre nove estados, além de abrigar uma biodiversidade única e desempenhar um papel crucial na regulação do clima global.
No entanto, tão grande quanto sua importância, são as ameaças que a afetam. É justamente por isso que, desde sua origem, na década de 90, os ativistas do Greenpeace Brasil enfrentam projetos, pessoas e empresas que lucram com a destruição do bioma.
Ao longo desses 33 anos de história, celebrados no dia 26 de abril, foram muitas as denúncias e manifestações contra o comércio ilegal de madeira, o desmatamento e o garimpo ilegal, que cresceu exponencialmente em Terras Indígenas nos últimos anos.
O Greenpeace Brasil atua junto a comunidades amazônidas, fortalecendo a luta por seus direitos e apoiando iniciativas que mostram concretamente como a convivência equilibrada e saudável com a floresta é possível.
Confira alguns desses momentos marcantes e conheça mais da história da organização:
1. Protestos contra o comércio de mogno
Logo em 1992, ano de fundação do Greenpeace Brasil, os ativistas da organização denunciaram o crescimento da extração destrutiva de mogno, uma das madeiras mais nobres da Amazônia e espécie ameaçada de extinção.
Em novembro daquele ano, foi realizada uma ação de bloqueio em frente à serraria de mogno Maginco em Rio Maria, no Pará, que na época era a maior empresa de comércio de mogno do Brasil. Esse foi o primeiro de muitos protestos e ações de uma intensa campanha que seguiu pelos anos seguintes.
No início dos anos 2000, as vitórias chegaram: a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas inseriu o mogno brasileiro em sua lista e passou a exigir controle rígido e comprovação de origem legal para qualquer comércio internacional.
Antes mesmo dessa decisão, diante da grande mobilização pública, o governo brasileiro já havia suspendido a exploração e o comércio de mogno em 2001 por meio de uma instrução normativa do Ibama, proibindo a extração de mogno de florestas nativas.
O mogno se tornou um símbolo da luta contra o desmatamento ilegal e a atuação do Greenpeace Brasil nesse tema segue sendo uma referência.
2) 100% crime
A maior contribuição do Brasil na emissão de gases do efeito estufa vem da produção agropecuária, sendo o setor também um dos grandes responsáveis pelo desmatamento ilegal.
Em 2006, ativistas do Greenpeace ocupam uma área de 1.645 hectares da Amazônia que foi desmatada ilegalmente. Um enorme banner de 2.500 metros quadrados com a mensagem “100% crime” foi aberto para chamar a atenção para a questão.
O responsável pelo crime, o então presidente da Associação de Produtores Agropecuários de Santarém, já havia sido responsabilizado pelo Ibama por esse desmatamento ilegal, o maior da região de Santarém naquela época.
A sequência de imagens mostra a recepção hostil de nossa ação, com o banner sendo destruído por uma caminhonete.
3) 400 mil vidas
Em abril de 2021, em meio à pandemia da Covid-19, o Brasil atingiu a marca de 400 mil mortos. Em homenagem às vítimas e suas famílias, os ativistas do Greenpeace realizam uma ação pacífica no Encontro das Águas – o ponto em que os rios Negro e Solimões se encontram para formar o rio Amazonas – em Manaus, uma das cidades que mais sofreu com a crise causada pela pandemia.
Diante da situação de calamidade pública, a ação também cobrou responsabilidade do poder público no combate ao vírus. Para formar a mensagem “400 mil vidas”, de 14 x 92 metros, foram utilizadas 18 toneladas de alimentos, itens de higiene, máscaras e cilindros de oxigênio, que foram doados para instituições de atendimentos assistenciais na região de Manaus.
Sendo a solidariedade também um pilar da organização, seus ativistas também se dedicaram ao projeto Asas da Emergência, que em 2020 e 2012 transportou toneladas de equipamentos e insumos de saúde para populações indígenas e outras comunidades tradicionais da região Norte – confira o que foi feito.
4) Expedição “Amazônia que precisamos”
Em 2022, realizamos uma expedição fluvial no sul do Amazonas, em apoio à ciência e à luta de comunidades do Rio Manicoré, onde comunidades que vivem às margens do rio lutam por sua existência e pela preservação da floresta e de seu território.
Durante a Expedição“Amazônia que precisamos”, centenas de espécies de fauna e flora do rio Manicoré foram identificada pelos pesquisadores que nos acompanharam, algumas delas ainda não descritas pela ciência.
O projeto também foi importante para fortalecer a luta das famílias associadas à Central das Associações Agroextrativistas do rio Manicoré (CAARIM em defesa da criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do rio Manicoré – uma área protegida que não só decretaria, por lei, a conservação daquela região, como também permitiria a elas que continuassem manejando os recursos da área de maneira sustentável.
5) Cadê o rio que passava aqui?
Ano passado, uma estiagem sem precedentes atingiu a Amazônia. Com o intuito de evidenciar os impactos da crise climática, ativistas do Greenpeace Brasil foram até o leito seco do Rio Solimões com um imenso banner, questionando: “Cadê o rio que passava aqui?”.
Ações como essa são uma potente ferramenta de conscientização das pessoas, já que por meio delas é possível registrar e denunciar a gravidade da situação.
No mesmo local, a organização também colocou um outro banner com a frase “Who pays?”, em inglês, trazendo uma reflexão sobre quem realmente está pagando o preço da crise climática.
Irenilce Batista Souza é cacica da aldeia Vista Alegre do Kapixauã, na terra Indígena Kumaruara, no Baixo Tapajós, no Pará, e aos 41 anos conta como passou os últimos sete: trabalhando pela gestão do território. Escolhida pelo povo Kumaruara para assumir o posto aos 34, a cacica hoje celebra as melhorias em prol do ecoturismo que é fonte de renda para todos.
“Nós já trabalhamos há 25 anos com o turismo aqui na aldeia, mas do jeito da gente, recebendo os clientes debaixo de árvores, apresentando os atrativos. Só recentemente que fomos contemplados com um empreendimento que vem trazendo renda para as famílias”, conta a cacica.
O ecoturismo na aldeia ganhou mais estrutura com a aprovação de um projeto para construção de uma pousada em uma parte do território bem próxima às margens do rio. O empreendimento, inaugurado em 2024, conta com cozinha, área de alimentação, banheiros, quartos e redários para hospedagem.
São cerca de 30 famílias vivendo em Vista Alegre. A aldeia também tem uma escola para ensino infantil e fundamental. Ainda, recebe eventos em conjunto com aldeias vizinhas e parceiros de outras localidades.
“Trabalhamos em forma de rodízio entre as famílias e todas ganham do turismo. A gente já participou de curso de culinária, de manipulação de alimentos, porque para trabalhar no empreendimento tem que estar capacitado. Depois vamos ter curso de guia de turismo, queremos também o de inglês”, comenta.
A realização dos cursos é apoiada pelo projeto Saúde e Alegria, diz a cacica, o que reforça a profissionalização das famílias que querem trabalhar com o ecoturismo. Nos passeios, os turistas têm a oportunidade de conhecer a aldeia, caminhar por áreas de floresta nativa, navegar e nadar em igarapés.
Na ocasião desta entrevista, a aldeia recebia uma formação para lideranças indígenas sobre REDD+, carbono e mudanças climáticas na Amazônia. A data do evento deve de ser postergada pela seca do rio Tapajós, o que impossibilitava a chegada dos participantes, de alimentos e dos materiais necessários.
“A mudança climática tá cada vez avançando mais e isso só prejudicou a gente. Ficou muito quente, morreu muita planta, inclusive as que a gente regava e que davam frutas. Nosso roçado ficou seco. Muitos familiares ficaram sem mandioca. O clima mudou muito para nós. Até para o turismo isso piorou: passamos metade do verão tendo que buscar os turistas lá na ponta, porque não dava para pegar lancha”, lembra a cacica.
Com decisões tomadas coletivamente, a cada bater do sino – que chama a comunidade para se reunir na maloca central – novos passos são dados em direção à prosperidade e bem-estar na aldeia. Desde o resgate da identidade indígena do povo Kumaruara, em 2011, segundo conta a cacica, a instalação de uma escola indígena na aldeia com ensino da língua para crianças, jovens e adultos, tem dado continuidade à memória viva.
Os planos para o futuro do território incluem, além de investir no trabalho com o ecoturismo, articular cada vez mais ações em prol da conservação da região. Para a cacica, realizar o desejo que tem desde criança: “ver minha aldeia crescer”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Bibiana Alcântara Garrido
Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Em maio, entra em vigor a nova norma NR1 que obriga as empresas a fazerem um diagnóstico dos riscos de doenças mentais dos empregados e a estabelecerem medidas para preveni-las. A norma não é nova, mas a versão anterior, que trata da prevenção e tratamento de doenças ocupacionais, não enfatizava a questão mental dos trabalhadores. Nova também é a declarada intenção de multas financeiras, depois de um prazo de adaptação, para aquelas que não atenderem às exigências. A preocupação é a doença mental. Segundo o Atlas de Saúde Mental – OMS 2022, o Brasil ocupa a posição de país mais ansioso do mundo, o segundo mais estressado e o quinto mais depressivo. O mundo do trabalho é apontado como um dos principais vilões. Foi preciso que o quadro se apresentasse grave e acompanhado de ameaças de punições para que o assunto ganhasse relevância.
A questão é que o foco na doença gera uma distorção. Não ser doente não significa ser saudável, assim como não ser infeliz não significa ser feliz. O foco precisa ser na saúde e na felicidade. Todos querem possuí-las, mas elas não caem do céu. Precisam ser construídas, consciente e intencionalmente. As empresas que constituem, para muitos, a instituição mais poderosa de nossos tempos, acima mesmo de países, da ciência e das religiões têm, obrigatoriamente, a responsabilidade de dar a sua contribuição.
Vale lembrar que a felicidade não é formada apenas por momentos de alegria e de prazer e que há outras dimensões a serem consideradas como: o engajamento, o propósito, as relações positivas, as realizações de sonhos e metas e a maneira como lidamos com as dificuldades. Sabemos também que ela dependerá muito mais de fatores internos do que externos, como confirmam estudos mais recentes da neurociência e da psicologia positiva e como já nos ensinavam os antigos filósofos. É neste contexto que ganha relevância a construção consciente de felicidade, um ato de autorresponsabilidade de cada um.
Não cabe a ideia superficial de que seria reponsabilidade da empresa fazer a sua equipe feliz. Isto cabe a cada um individualmente. À empresa, cabe sim, criar as condições básicas para que isto aconteça, preparando um bom terreno. Os sistemas de cargos e salários, os benefícios, as condições materiais e tecnológicas, os programas de treinamento e a adoção clara de um estilo de liderança que favoreça o desenvolvimento das pessoas representam a parte da companhia. Para isto ela também precisa estar saudável financeira e economicamente. Ou seja, pessoas e resultados caminham juntos.
Um passo a mais das empresas pode ser o de estimular o aprendizado de algo que não faz parte de nossa educação curricular, a construção da felicidade, mesmo sendo ela o maior anseio do ser humano.
Há modelos mentais e práticas que nos aproximam da felicidade e outros que nos afastam dela. Isto pode ser ensinado depois de um convite aceito e não pode ser imposto. Como diz um velho ditado: “você pode levar o cavalo até o rio, mas não pode obrigá-lo a beber água”. Repetindo: a construção consciente de felicidade é um ato de autorresponsabilidade individual que pode, sim, ser favorecido pelas empresas, que serão fortemente beneficiadas, pois saúde e felicidade geram produtividade, atraem e retêm os maiores talentos e são boas para os negócios.
Existem empresas felizes e saudáveis mentalmente? Sim, assim como existem empresas doentes e infelizes. Além dos números financeiros, como estão as pessoas que as compõem?
Vamos aguardar os efeitos da nova versão da norma RN1 e qual será a sua influência nas empresas, nas suas lideranças e nos colaboradores. O foco na doença e na punição não é o melhor, mas pode ser um primeiro passo. É preciso, porém, que se vá além, onde as leis humanas não conseguem chegar. É preciso que o desejo de construir uma sociedade saudável e feliz seja mais que um dever legal, mas um ideal, um propósito que una todos nós, pessoas e empresas. Cada um com a sua parte e responsabilidade, conscientemente.
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
Oficinas na comunidade da Barra de São Manoel. Foto: Túlio Paniago/OPAN
O Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Apiaká do Pontal e Isolados (MT) está ganhando corpo. Em março de 2025, durante oficinas realizadas na comunidade da Barra de São Manoel, foram firmados os acordos de dois dos cinco eixos temáticos que irão compor o PGTA.
Durante as oficinas, conduzidas pelo antropólogo e indigenista Rinaldo Arruda, foram discutidas todas as questões levantadas pelos Apiaká relacionadas aos eixos “Território e Ambiente” e “Organização Social e Governança”. Nos próximos encontros serão definidos os acordos dos três eixos temáticos restantes: Economia; Saúde e Segurança Alimentar; Educação e Cultura.
“Nós, Apiaká, vamos trabalhar com o PGTA que nós mesmos estamos elaborando. Vamos ter o privilégio de ter o nosso plano de gestão para fazer o trabalho que estamos montando dentro desse território”, avalia Robertinho Morimã, cacique da aldeia Matrinxã, sobre o PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados, que será concluído em 2026.
Terra Indígena Apiaká do Pontal e Isolados. Foto: Adriano Gambarini/OPAN
PGTAs são planos de vida coletivos que reúnem uma série de pactuações e acordos comunitários que servem como bússola para o presente e mapa para um futuro sustentável dos territórios indígenas. Eles também apresentam a cultura, a cosmovisão, os valores e as aspirações do povo que o elaborou.
“Envolve todos os moradores de uma terra indígena num processo de mapear o que se tem no território, as ameaças externas, as potencialidades e projetar o que se quer. Esse trabalho se consolida num livro, uma carta de visita que mostra quem são, o que querem e como querem”, explica Rinaldo Arruda.
Muitos acordos foram firmados a partir desses dois primeiros eixos, como a abertura de novas aldeias em pontos estratégicos para implementar a vigilância e o monitoramento do território, principalmente em áreas que sofrem pressões e ameaças externas. Também foram definidos critérios internos para abertura dessas e outras aldeias.
Cacique Robertinho Morimã durante as oficinas. Foto: Túlio Paniago/OPAN
Em relação aos lugares sagrados, decidiram mapear e listar todos que estão dentro e no entorno do território e buscar o reconhecimento dos mais importantes por parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), além de registrar as narrativas dos anciãos sobre esses lugares.
Foram estabelecidas regras internas para caça, pesca, manejo de quelônios e coleta de frutos e palhas, todas visando a conservação da biodiversidade e o bem viver da comunidade indígena. Também trataram das queimadas, que devastaram áreas dentro do território nos últimos anos. Decidiram formar, com apoio de órgãos ambientais, uma equipe de brigadistas, além da construção de bases de vigilância.
No que diz respeito às associações Apiaká, decidiram buscar formações em elaboração de projetos e gestão organizacional, além de incluir mais jovens e mulheres em sua composição para que a atuação seja cada vez mais alinhada aos anseios da comunidade.
O primeiro ciclo de oficinas ocorreu em novembro de 2024, quando os Apiaká estabeleceram cinco eixos temáticos inter-relacionados (Território e Ambiente; Organização Social e Governança; Saúde e Segurança Alimentar; Educação e Cultura; Economia), a partir dos quais se situa o horizonte de vida que se quer alcançar, definido pelo conceito geral de bem viver.
Antropólogo Rinaldo Arruda falando com povo Apiaká durante a oficina. Foto: Túlio Paniago/OPAN
Este segundo ciclo de oficinas, realizado entre os dias 03 e 05 de março, foi centrado nos dois primeiros eixos temáticos, sendo que cada eixo é composto por uma série de temas/questões levantadas pelos Apiaká. O eixo “Território e Ambiente” reúne 15 temas, como regularização fundiária; monitoramento territorial; queimadas; locais sagrados; e aldeias. Enquanto “Organização Social e Governança” engloba outros nove temas, como organização social das aldeias; normas de convivência; associação/governança; e organização das mulheres e da juventude Apiaká.
Divididos em grupos compostos por jovens, mulheres, anciãos e homens adultos, os Apiaká discutiram todos os temas levantados dentro de cada eixo. Primeiro, enfocando a descrição da questão (por que o tema é relevante para o povo) para, em seguida, definir quais as soluções/encaminhamentos possíveis. Por fim, a partir dos encaminhamentos apresentados por cada grupo em plenária, foram realizadas discussões e firmados os acordos que irão compor o PGTA.
“A gente tem um planejamento do território. É importante pensar o que nós vamos fazer para desenvolver melhorias nas aldeias envolvidas. O PGTA vai dar um direcionamento, vai apontar como deve ser feito, por isso que ele é importante”, ressalta Raimundo Paigo, liderança Apiaká da aldeia Pontal.
A elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados e a implementação do PGTA do povo Rikbaktsa são eixos estruturantes do Berço das Águas, projeto realizado pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) junto aos povos Apiaká e Rikbaktsa, com patrocínio do Programa Petrobras Socioambiental.
Os Planos de Gestão Ambiental e Territorial pensam a gestão do território em aspectos sociais e ambientais. É um instrumento de luta política que reúne as principais diretrizes de cada povo no que diz respeito à história, organização social e política, cultura, educação, saúde, geração de renda, vigilância, monitoramento, alimentação…
Além de uma série de acordos internos sobre diversos temas, os PGTAs reúnem instrumentos de gestão (etnomapeamento e etnozoneamento) dos territórios e constituem importante ferramenta política e de autonomia comunitária, afinal possibilitam que os povos projetem suas vozes em questões de soberania e conservação ambiental.