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Amazomics: expedição científica investiga saúde da população ribeirinha do Amazonas

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Expedição busca informações de saúde da população ribeirinha amazonense. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

É amplamente conhecida a associação entre a falta de ferro no sangue e a anemia. Porém, e se uma população estiver com falta de zinco, ou magnésio? Se há uma deficiência nutricional, ela foi causada por uma alimentação desbalanceada ou por exposição a algum contaminante do ambiente? Essas são algumas das questões que o projeto ‘Amazomics: integração de abordagens ômicas na elucidação dos efeitos decorrentes da exposição a metais e contaminantes emergentes – um estudo epidemiológico em populações ribeirinhas na Amazônia Brasileira’, busca investigar em populações tradicionais da Amazônia.

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A pesquisa levanta o estado geral de saúde dos comunitários, analisa as concentrações de metais e contaminantes em amostras clínicas de comunidades ribeirinhas e investiga possíveis efeitos causados por contaminantes tóxicos. Esse estudo já vem sendo realizado no Rio Tapajós, e este ano ocorreu pela primeira vez na região do Médio Solimões, especificamente nas Reservas Mamirauá e Amanã e na Floresta Nacional de Tefé.

A expedição contou com um barco transformado em laboratório e percorreu 59 comunidades ribeirinhas da região durante 37 dias. Em cada comunidade, foram coletadas amostras de sangue, urina, fezes e cabelo dos participantes, além de medir a pressão arterial e avaliar a alimentação e a saúde mental de cada um.

Estas amostras serão analisadas para determinar as concentrações de metais – tanto do ponto de vista de metais tóxicos quanto de desnutrição de micronutrientes – avaliar os níveis de poluentes ambientais, como hidrocarbonetos e parabenos, e avaliar o perfil do material genético e da microbiota intestinal. No total, 1463 pessoas das comunidades locais participaram da pesquisa, um esforço de amostragem sem precedentes para a região.

Pesquisadores coletam informações sobre aspectos de saúde e da alimentação da população ribeirinha. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Um aspecto diferencial da pesquisa é que todos os participantes receberam os resultados dos exames de sangue (hemograma completo) e fezes (parasitológico) logo após a participação no estudo. Em uma região onde a população tem pouco acesso a serviços de atendimento médico, esses resultados de exame são fundamentais para prevenir ou diagnosticar possíveis doenças.

“Em alguns casos, um hemograma completo pode fazer uma diferença tremenda na vida de uma pessoa”, comenta Fernando Barbosa, professor da USP e coordenador da expedição.

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“Tivemos alguns casos em que o participante da pesquisa estava com um quadro muito grave de anemia que demandava internação imediata. Nossa equipe entrou em contato com funcionários da Secretaria de Saúde local para coordenar um atendimento, possivelmente salvando a vida dessa pessoa”, complementa o pesquisador.

De forma geral, a pesquisa detectou cerca de 100 casos de pessoas com níveis de hemoglobina abaixo do esperado, indicando uma tendência à anemia. Outro resultado já detectado em campo foi uma prevalência de alterações associadas a infecções por parasitas, algo que pode estar associado à falta de saneamento básico.

Abordagem integrativa

Segundo Daniel Tregidgo, pesquisador do Instituto Mamirauá que também coordenou a expedição, “no Brasil, a quantidade de crianças entre 0 e 5 anos com anemia, em média, é de 10%. Aqui na região Norte, esse número aumenta para 17%. Porém, em comunidades rurais, esse número pode chegar a até 50% ou mais, ou seja, mais da metade das crianças com anemia”.

“Por isso, é muito importante analisar a saúde dessas comunidades por inteiro – não é somente um problema de mercúrio, não é somente um problema de desnutrição – temos que ver o conjunto para entender o que está acontecendo nessa população”, comenta o pesquisador.

“Na região do nosso estudo, nós temos dados das plantas, dos animais, do ambiente e agora vamos analisar amostras da população humana, portanto poderemos utilizar uma abordagem de saúde única para estudar a relação do sistema como um todo”, conclui.

Profissionais de saúde coletaram amostras de sangue, cabelo, fezes e urina para análise. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Após o fim da expedição, milhares de amostras congeladas foram acondicionadas em 45 caixas e enviadas de volta para São Paulo, onde serão minuciosamente analisadas. Segundo Fernando Barbosa, “com o número de resultados nos estudos com essas populações ribeirinhas, que envolvem amplos aspectos de saúde relacionados à contaminação geral, alterações do clima, hábitos de vida, dieta, fatores relacionados à depressão, sono, entre outros, esse conjunto de informações pode servir como referência para ações de políticas públicas”.

“O intuito ao final do projeto é repassar esses resultados a órgãos do governo no sentido de promover intervenções que possam propiciar condições melhores de saúde nessas populações vulneráveis”, complementa o pesquisador.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Miguel Monteiro

Festival de Parintins deve atrair 120 mil turistas e impulsiona recorde no aeroporto local

Foto: Reprodução/Prefeitura de Parintins

Previsto para começar em 27 de junho, o 58º Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, deve atrair mais de 120 mil turistas. Somente o aeroporto Júlio Belém, na cidade, deve receber mais de 20 mil passageiros durante o período.

O número representa um recorde histórico para o terminal, com aumento de 12% em relação ao mesmo período de 2024, quando 17.882 usuários passaram pelo local. Os dados foram divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor).

Leia também: ‘Garanchoso’ em Paris: o dia em que Garantido e Caprichoso se uniram para representar o Brasil

Segundo o gestor do aeroporto, Jean Jorge Rodrigues, o terminal está ampliando suas operações para atender à alta demanda de visitantes, inclusive vindos do exterior. De acordo com ele, os investimentos vão além dos aspectos técnicos.

“A cada ano, a movimentação de passageiros cresce significativamente. Investir no pleno funcionamento do aeroporto é essencial, não apenas para garantir a segurança de quem embarca e desembarca, mas também para impulsionar o turismo, que movimenta a economia local e garante emprego e renda para muitas famílias de Parintins”, avalia Rodrigues.

Aeroporto de Parintins será incluído no Programa AmpliAR

Ainda em 2025, o aeroporto também receberá reforço de infraestrutura, com a inclusão na primeira fase do Programa de Investimentos Privados em Aeroportos Regionais (AmpliAR).

A iniciativa do MPor visa atrair investimentos privados para a malha aeroportuária regional por meio de um modelo simplificado e competitivo, com o objetivo de conectar áreas remotas aos principais aeroportos do país. A abertura das propostas está prevista para setembro de 2025 e os ajustes contratuais devem ser concluídos até o final do ano.

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Segundo o diretor de Outorgas, Patrimônio e Políticas Regulatórias Aeroportuárias, Daniel Longo, o município — com cerca de 102 mil habitantes — tem forte potencial turístico, o que contribui para o desenvolvimento regional.

“Investir na infraestrutura do aeroporto tem impacto direto no crescimento do município e de toda a região, pois permite oferecer serviços de melhor qualidade a quem utiliza o terminal aéreo, além de fortalecer o turismo como motor de desenvolvimento econômico e social”, pontua.

Movimentação de passageiros

Em 2024, o aeroporto de Parintins registrou a movimentação de mais de 40 mil passageiros, o que representa um aumento de 3,1% em relação a 2023, quando 38.875 usuários foram contabilizados. Os dados constam no Relatório de Demanda e Oferta da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

*Com informações do Brasil 61

Governo Federal anuncia que Fundo Amazônia tem melhor semestre da história: R$ 1 bilhão em aprovações

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O volume de recursos aprovados no primeiro semestre de 2025, de R$ 1,19 bilhão, indica também um recorde anual. Foto: Divulgação/BNDES

O Fundo Amazônia já aprovou em 2025 recursos que somam R$ 1,189 bilhão. De acordo com o Governo Federal, este é “o melhor desempenho semestral da história do Fundo”, que é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

O resultado é superior ao valor aprovado em 2024 e representa o dobro do volume de recursos aprovados em 2023, quando o Fundo Amazônia foi retomado. O balanço da gestão foi apresentado no dia 16 de junho, antes da 33ª reunião do Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA).

Leia também: Fundo Amazônia: R$ 882 milhões aprovados em 2024, mas apenas 11% repassados a projetos

A reunião ocorreu em Brasília com a presença da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva; da diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello; do secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco; e de representantes de outros oito ministérios, dos nove estados da Amazônia Legal, de entidades da sociedade civil que compõem o Comitê Orientador e de doadores do Fundo.

O volume de recursos aprovados no primeiro semestre de 2025, de R$ 1,19 bilhão, indica também um recorde anual, por superar o total registrado em cada um dos anos, desde 2009, quando o Fundo Amazônia foi criado, já considerados os valores atualizados da inflação.

Até então, o melhor desempenho havia sido registrado no ano passado, quando as aprovações somaram R$ 947 milhões, em valores já corrigidos pela inflação. Em 2023, o BNDES aprovou R$ 584 milhões do Fundo, mesmo após os quatro anos de paralisação.

Os resultados refletem a mudança de patamar na atuação do Fundo Amazônia, com ganhos de escala, novo ritmo de aprovação e foco nos projetos estruturantes e estratégicos. Desde 2009, houve aprovações de 133 projetos, das quais 31 (23,3%) ocorreram desde 2023.

Entre as iniciativas, destacam-se:

Restaura Amazônia, voltado a projetos de restauração ecológica e produtiva (R$ 450 milhões);

– Amazônia na Escola (R$ 332 milhões), que leva a produção de agricultores familiares a escolas da rede pública;

– Sanear Amazônia (R$ 150 milhões), que financia a implantação de tecnologias sociais de acesso à água de qualidade para consumo humano e produção de alimentos na Amazônia;

– Naturezas Quilombolas (R$ 33 milhões), que busca apoiar comunidades quilombolas da Amazônia Legal em suas práticas de gestão territorial e ambiental;

– FORTFISC, para fortalecer a capacidade do Ibama na fiscalização ambiental para o controle do desmatamento ilegal na Amazônia (R$ 825 milhões);

– Investimentos na Polícia Federal, Rodoviária Federal, nas Forças Policiais dos nove Estados da Amazônia Legal e na Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública (Amas) (R$ 318 milhões);

– Investimentos nas corporações dos corpos de bombeiros dos estados da Amazônia Legal (R$ 371 milhões).

“Os resultados recorde obtidos pelo Fundo Amazônia são a confirmação de que o governo do presidente Lula implementa uma política séria e eficiente de prevenção e combate ao desmatamento, que combina fortalecimento da agenda de comando e controle, pesquisa científica e incentivos econômicos que valorizam a manutenção da floresta em pé e promovem seu uso sustentável”, destacou a ministra Marina Silva.

De 2009 até junho deste ano, o Fundo Amazônia aprovou R$ 5,6 bilhões para projetos e desembolsou R$ 2,7 bilhões para a sua execução. A diferença entre os valores se deve ao período necessário para a estruturação, contratação e execução dos projetos, já que os recursos são desembolsados conforme sua implementação.

Os dados mostram que, além de acelerar o ritmo de aprovação, o Fundo tem ampliado os desembolsos, com entregas distribuídas em diferentes regiões da Amazônia Legal e voltadas a temas estratégicos, como combate ao desmatamento, inclusão produtiva e social e geração de renda para comunidades tradicionais. No primeiro semestre, foram liberados R$ 158 milhões – valor três vezes maior do que o total liberado em 2023 (R$ 51 milhões) e cerca de 75% do desembolsado em todo ano passado (R$ 209 milhões).

Combate Foto: Divulgação/Governo do Maranhão 

Para o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o desempenho recorde do Fundo Amazônia comprova que o mecanismo entrou em um novo ciclo, com mais ritmo, capilaridade e impacto real na ponta. Ele destacou que os projetos aprovados têm grande escala e profundidade territorial.

“Estamos estruturando iniciativas que fortalecem políticas públicas e apoiam diretamente quem está na linha de frente do combate ao desmatamento e da proteção ambiental. O Fundo Amazônia é hoje um pilar fundamental da política ambiental brasileira e prova que é possível conciliar governança, escala e ação concreta”, afirmou.

“O Fundo Amazônia alcança agora uma nova escala de atuação, com ampliação da capacidade de transformar a realidade da região. O volume recorde de aprovações neste semestre é resultado direto da retomada da política ambiental liderada pelo governo federal, que combina comando e controle, inclusão social e desenvolvimento sustentável com justiça climática. Estamos conseguindo fazer com que os recursos cheguem a quem mais precisa, nas áreas mais pressionadas, e com foco nas soluções estruturantes, especialmente para enfrentar um novo desafio que se impõe: os incêndios florestais”, ressalta o secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco.

As informações detalhadas sobre a governança do Fundo Amazônia e sobre cada um dos projetos apoiados estão disponíveis aqui. 

*Com informações da Secretaria de Comunicação Social do Presidência da República e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

Artista Juarez Lima é homenageado em festival de bois mirins em Parintins

Foto: Reprodução/Instagram @juarezlima_am

O Festival de Quadrilhas, Danças e Bois Mirins, realizado em Parintins (AM) nos dias 14 e 15 de junho, foi palco de uma das homenagens mais tocantes do circuito cultural amazonense. Durante o evento, os bois mirins prestaram tributo ao artista Juarez Lima, figura histórica da cultura popular do Amazonas.

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A homenagem se deu em diferentes momentos da programação, emocionando familiares, amigos e o público presente. O Boi Estrelinha, com uma apresentação repleta de simbolismos, fez questão de citar o nome de Juarez Lima, reverenciando sua importância como artista, criador e incentivador do movimento dos bois-bumbás.

Leia também: Tupi, Estrelinha e Mineirinho: conheça os bois mirins do Festival Folclórico de Parintins

Outro momento marcante foi protagonizado pelo Boi Mineirinho, que levou uma alegoria dedicada a Juarez. Com um cartaz estampando sua imagem e elementos visuais que relembravam suas contribuições ao folclore local, a agremiação reforçou a permanência do artista na memória afetiva daqueles que acompanham a cultura do Festival Folclórico de Parintins.

Juarez Lima é lembrado por sua ampla atuação nas artes populares, especialmente como um dos grandes nomes ligados aos bois-bumbás mirins. Ao longo de décadas, participou da criação de roteiros, composições, figurinos e coreografias que marcaram a história das apresentações juninas no Amazonas. Seu trabalho era pautado pela valorização da identidade regional, pelo incentivo ao protagonismo das crianças e pelo fortalecimento das tradições culturais nas comunidades.

A família de Juarez Lima, presente no festival, agradeceu publicamente as manifestações de carinho. Em nota, expressaram “gratidão profunda ao Boi Estrelinha, que citou com carinho o nome de Juarez Lima e ainda conquistou a vitória da noite”, além de reconhecerem “o gesto comovente do Boi Mineirinho, pela linda alegoria e o cartaz com sua imagem”. Para os familiares, o reconhecimento vindo das novas gerações demonstra que a história do homenageado continua viva, emocionando e inspirando quem hoje pisa nas arenas e palcos dos festivais.

O artista Juarez Lima

Reconhecido como um dos maiores artistas plásticos ligados ao Festival de Parintins, Juarez transformou madeira, isopor e tinta em narrativas amazônicas grandiosas, carregadas de simbologia, emoção e identidade.

Discípulo do artista italiano Miguel de Pascale e de Jair Mendes, Juarez Lima começou sua jornada ainda jovem, pintando a cerca do curral Zeca Xibelão, sede do Boi Caprichoso. Nos anos 1990, ascendeu como principal artista de alegorias do boi azul, conquistando respeito pelo gigantismo e movimento de suas esculturas. Em 1995, foi peça-chave no bicampeonato do Caprichoso, assinando rituais como Kananciuê e Templo de Monan, em parceria com nomes como Simão Assayag, Arlindo Júnior e Ronaldo Barbosa.

Apesar de ter uma trajetória fortemente ligada ao Caprichoso, Juarez também teve passagem marcante pelo Garantido, com quem assinou trabalhos entre 1997 e 1999. O retorno ao boi azul em 2000 marcou uma nova fase de experimentações. Entre os destaques de sua produção estão o ritual Pássaro da Tocaia (2000), Ulaykimpia – O Pássaro Bicéfalo (2003), a lenda Aymá Sunhé (2010), e Boitatá (2018), que consolidaram seu nome como referência no Festival de Parintins.

Juarez Lima. Foto: Divulgação

Mas o legado de Juarez Lima vai além das festas juninas. Sua fé o levou a criar a Romaria das Águas, evento que levava, de barco, a imagem de Nossa Senhora do Carmo até Parintins, unindo arte, religiosidade e tradição em um só movimento. Essa fusão entre o sagrado e o popular foi uma constante em sua vida e obra, marcada sempre pela exaltação da Amazônia — sua natureza, seus mitos e seu povo.

O reconhecimento póstumo que vem das ruas, dos bois mirins, das famílias parintinenses e dos artistas contemporâneos é a prova de que a história de Juarez Lima não termina com sua partida física. Seu nome permanece nas arquibancadas, nos palcos, nos ateliês e, sobretudo, nos corações de quem compreende a importância da arte como força de resistência cultural e construção de identidade.

Juarez Lima faleceu no dia 22 de novembro de 2024 , aos 58 anos, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) na cidade de Sankt Pölten.

Por Hector Muniz, do Portal Amazônia

Parque Nacional Los Katios, um santuário de cachoeiras e vida selvagem na Colômbia

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Foto: Melissa Valenzuela

No norte da Colômbia existe um Patrimônio Mundial Natural onde a vida selvagem da América Central e do Sul se funde. O Parque Nacional Los Katios é um considerado um verdadeiro santuário da vida selvagem localizado na fronteira entre a Colômbia e o Panamá.

Este Patrimônio Mundial Natural, entre a América Central e a América do Sul, é uma densa floresta tropical, isolada da civilização humana, adequada para a conservação e o intercâmbio de espécies. Com uma extensão de 72.000 hectares, foi declarada área protegida em 1973.

Como a floresta tropical começa no nível do mar e se estende até as colinas próximas, o Parque Nacional Los Katios abriga um conjunto de ambientes muito particular e diverso: a floresta nublada, a mata ciliar e a floresta inundável são alguns dos ecossistemas que coexistem nesta pequena área da Colômbia.

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No entanto, é possível encontrar uma grande variedade de espécies endêmicas neste território, sendo uma importante fonte de biodiversidade para todo o planeta. Calcula-se que 30% da biodiversidade de aves da Colômbia reside nestas terras, além de algumas espécies ameaçadas de extinção, como a Anta, o Urso-de-Óculos e a Rã-arlequim.

A flora também é diversificada, com espécies ameaçadas, como o Catival, que se espalham pelo parque e estão sendo protegidas. No registro mais recente são 669 espécies botânicas distribuídas em 96 famílias dicotiledôneas e 20 famílias monocotiledôneas.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que são Parnas?

O Parque Nacional Los Katios também é uma importante fonte de água. O Rio Atrato atravessa todo o parque, criando uma ampla gama de planícies de inundação e pântanos, especialmente durante as estações chuvosas. Além disso, de acordo com o governo colombiano, essa vasta e densa floresta é um reservatório natural de carbono de grande importância para o mundo, mantendo uma atmosfera mais limpa.

Do coração das montanhas, águas cristalinas emergem, criando belas cachoeiras e cascatas. A mais impressionante é a Tilupo, uma cachoeira que, além de sua beleza, é considerada sagrada pelo povo Kuna, uma das tribos indígenas que habitam este território.

Foto: Reprodução/Facebook-El Rostro de mi Pueblo

Outro atrativo é o ‘Salto de Bordones’, uma cachoeira conhecida por ser uma das mais altas da Colômbia. A área ao redor é ideal para quem gosta de trilhas desafiadoras, já que o caminho até a cachoeira inclui encostas íngremes e terreno irregular.

Foto: Reprodução/Turismo en Colombia

Vale a pena saber que o Parque Nacional Los Katios não foi projetado para fins de ecoturismo, mas sim para proteger a natureza. Por isso, para qualquer tipo de visita é preciso ser acompanhado por um guia durante todo o percurso. A maneira mais fácil de chegar é de avião, partindo de Medellín para Turbo e, em seguida, viajando de carro até o parque.

*Com informações do Governo da Colômbia

Flor Ribeirinha: grupo de Danças Folclóricas do Mato Grosso faz turnê pela Europa

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Foto: Reprodução/@edu.slum_audiovisual

Campeão Mundial e com 30 anos de história, o grupo de danças folclóricas Flor Ribeirinha, de Mato Grosso, avança mais um passo na divulgação da cultura. Reconhecido como patrimônio histórico e imaterial de Cuiabá em fevereiro deste ano, o grupo começou uma turnê pela Europa no dia 15 de junho.

O Flor Ribeirinha é uma das principais manifestações culturais mato-grossenses, trabalhando no resgate, manutenção, proteção e difusão da cultura popular da região, além de manter viva a tradição do Siriri e Cururu.

Leia também: Cururu, Chorado, Mascarados: conheça danças que fazem sucesso em Mato Grosso

O grupo folclórico começou o novo circuito de apresentações do espetáculo ‘Brazil Brazil’ na cidade de Beloeil-Quevaucamps, na Bélgica.

São 80 minutos de apresentação, com elementos típicos que vão da Amazônia, como o Boi-Bumbá, até o Nordeste, como o Frevo, e, claro, o Siriri mato-grossense. A turnê segue até dia 8 de julho entre a Bélgica e a França.

Leia também: Professora escreve livro sobre cururu e siriri em homenagem a Cuiabá

Foto: Reprodução/@edu.slum_audiovisual

Origem

Idealizado por dona Domingas Leonor, o grupo nasceu na comunidade de São Gonçalo Beira Rio, situada à margem esquerda do Rio Cuiabá, pertencente ao distrito do Coxipó da Ponte, em Cuiabá, Estado de Mato Grosso.

Como a comunidade foi fundada no século XVIII, em território de indígenas Coxiponés – cuja presença é recordada nos traços físicos dos moradores, no ritmo e nos passos da dança – o Flor Ribeirinha não poderia deixar de trabalhar o Siriri – dança típica mato-grossense, realizada na região sul de Cuiabá há mais de 200 anos e que reflete o multiculturalismo brasileiro formado por indígenas, negros, portugueses e espanhóis.

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É dançado e cantado por homens, mulheres e crianças em fila ou roda formada por pares que cantam e batem palmas ao ritmo rápido e forte da música. O coro estridente e às vezes monótono é próprio da música ameríndia, com clara influência da música serena e melodiosa repleta de sentimento religioso dos colonizadores.

O ritmo marcado por instrumentos de percussão é herança da música africana. A dança utilizada é o meio expressivo que usa o corpo como instrumento material vibrante e sonoro de construção de elementos simbólicos que traduzem sentido.

O grupo contribui para a preservação de tradições cuiabanas, como as celebrações das festas de santos, produção de cerâmica em argila, comidas e bebidas típicas, confecção e uso da viola de cocho.

E também acumula títulos mundiais, conquistados em países como Turquia (2017), Polônia (2021) e Bulgária (2022) e se tornou tetracampeão mundial de folclore, no ‘Cheonan World Dance Festival’, na Coreia, da edição de 2024.

*Com informações do Mapas MT e Grupo Folclórico Flor Ribeirinha

Acordo judicial garante permanência de quilombolas em PARNA no Amazonas

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PARNA Jaú, Praia da Velha. Foto: Josângela Jesus/Mosaico do Baixo Rio Negro

Um acordo judicial histórico foi firmado entre o Ministério Público Federal (MPF), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) encerrando a ação civil pública que tratava da presença da Comunidade Quilombola do Tambor no Parque Nacional do Jaú, localizado entre os municípios de Novo Airão e Barcelos, no Amazonas.

Esse é o primeiro acordo judicial firmado no Brasil a reconhecer e a garantir a compatibilização dos direitos de uma comunidade tradicional em uma unidade de conservação de proteção integral com a preservação ambiental.

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O acordo permite que os quilombolas permaneçam em seu território tradicional, sem a necessidade de desafetação da área do Parque Nacional. A regularização fundiária será feita por meio de um Contrato de Concessão de Direito Real de Uso (CCDRU), assegurando tanto a preservação ambiental quanto os meios para o desenvolvimento cultural, social, físico e econômico da comunidade.

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Foto: Divulgação/Ascom PR-AM

A assinatura ocorreu durante audiência pública na última terça-feira (10), com a presença de representantes da comunidade quilombola do Tambor e da  Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) Amazonas. A medida é considerada a melhor solução para conciliar a proteção do Parque Nacional do Jaú com os direitos da comunidade que reside na área.

Entenda o caso

A Comunidade Quilombola do Tambor habita a região desde o início do século passado. Contudo, desde a criação do Parque Nacional do Jaú, em 1980, houve diversos conflitos entre a gestão e os quilombolas.

Em 2014, diante da notícia de uma decisão interna do ICMBio para a remoção da Comunidade de dentro do Parque, o MPF ingressou com uma ação civil pública para garantir a permanência dos quilombolas em seu território e obrigar o Incra a finalizar o procedimento de titulação quilombola.

Em 2023, o MPF iniciou tratativas para um acordo que contemplasse a dupla afetação: a proteção ambiental do parque e a garantia dos direitos da comunidade quilombola. O processo de negociação foi construído com a participação ativa da Conaq Amazonas e dos próprios comunitários do Tambor. Em março deste ano, o MPF se deslocou até a comunidade para discutir os termos do acordo, mostrando o engajamento direto na construção da solução.

O procurador da República Eduardo Sanches analisa que os quilombolas, residentes há mais de 100 anos em um local reconhecidamente preservado, não podem, com seu modo de vida tradicional, ser vistos como agentes de degradação ambiental.

“A compatibilização é viável a partir de uma interpretação sistemática da Constituição que busca proteger diversos valores caros ao Estado brasileiro, como a proteção ao meio ambiente, a proteção ao patrimônio cultural e a garantia aos direitos das comunidades quilombolas”, explicou o procurador da República.

*Com informações do MPF

Estudos de florestas em segundo ciclo de corte busca contribuir para manejo madeireiro na Amazônia

Pesquisadores realizando monitoramento florestal, para posterior catalogação das espécies. Foto: Samuel de Pádua Chaves e Carvalho/Acervo pessoal

Um projeto desenvolvido em cooperação entre três instituições científicas de ensino e pesquisa, está investigando os estoques de madeira em florestas da Amazônia brasileira, submetidas a um segundo ciclo de colheita. A iniciativa envolve áreas exploradas anteriormente por dois métodos distintos: a Exploração de Impacto Reduzido (EIR) e a Exploração Convencional (EC).

O objetivo é entender melhor como estão os estoques de madeira em florestas que já foram exploradas no passado e que agora passam por uma nova colheita, chamada de segundo ciclo. Essa prática ainda é pouco estudada, por isso pesquisadores querem produzir informações que ajudem a orientar como essa nova etapa de exploração pode ser feita de forma planejada, considerando os limites, bem como o potencial de recuperação de florestas.

A colheita de segundo ciclo é a retirada da madeira em uma floresta que já foi explorada anteriormente, ou seja, é a segunda vez que se corta árvores comerciais naquela mesma área. E só pode acontecer depois de um período de recuperação da floresta, quando novas árvores cresceram ou ficaram na primeira colheita e já atingiram tamanho comercial.

Leia também: Pesquisa analisa conhecimento e uso de madeiras pelos povos Suruí e Gavião no Pará

De acordo com o coordenador da pesquisa, o Engenheiro Florestal e doutor em Recursos Florestais Samuel de Pádua Chaves e Carvalho, “os resultados promoverão uma atualização das regulamentações às diretrizes para a colheita de madeira de segundo ciclo na Amazônia brasileira, possibilitando identificar espécies sensíveis e potenciais de uso comercial”.

“Além dos avanços esperados na ciência florestal, este projeto promoverá a capacitação e treinamento dos principais stakenholders desta importante cadeia produtiva do setor florestal brasileiro. Os principais grupos afetados com os resultados do projeto, nos aspectos sociais, econômicos ou ambientais, são as comunidades locais próximas as florestas, trabalhadores do setor madeireiro, empresas de madeira e construção civil, órgãos públicos de meio ambiente e fiscalização, pesquisadores e universidades, ONGS ambientais e consumidores finais dos produtos de madeira”.

Foto: Samuel de Pádua Chaves e Carvalho/Acervo pessoal

Os trabalhos iniciais incluíram a realização de colheitas experimentais, além do monitoramento de manejo florestal em escala empresarial. As áreas de estudos estão distribuídas nos municípios de Belterra e Paragominas, no Pará; Itacoatiara, no Amazonas; e Tabaporã, em Mato Grosso.

Esses locais foram manejados pela primeira vez em 1979 e meados da década de 1990. O objetivo nessa etapa é coletar dados comparativos antes, durante e depois do segundo ciclo de exploração.

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Além das colheitas experimentais, está previsto o inventário florestal em mais três ou quatro áreas, que passaram pelo primeiro corte no início dos anos de 1990. Os pesquisadores esperam que os dados obtidos sirvam de base para atualizar diretrizes técnicas e regulamentação relativas à prática do segundo ciclo de corte florestal na região amazônica.

Foto: Samuel de Pádua Chaves e Carvalho/Acervo pessoal

Na fase seguinte do projeto, os dados serão compartilhados com instituições de ensino e pesquisa, profissionais da área florestal e representantes da indústria madeireira. Parte das informações será destinada à identificação de espécies mais comuns nesse tipo de floresta e suas possíveis aplicações na construção civil e em outros segmentos do mercado interno.

O projeto faz parte da inicativa Amazônia+10, que é um programa de desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Inovação, construído em parceria com as Fundações de Amparo à Pesquisa signatárias e organizada no âmbito do Conselho Nacional de Fundações de Amparo à Pesquisa Estaduais (CONFAP), representada no estado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT), e tem como intuito promover ações de CT&I que sejam úteis e convergentes para o fortalecimento de ações concretas regionalizadas de replicação.

A pesquisa intitulada “Indo além do primeiro ciclo de colheita nas florestas tropicais da Amazônia Brasileira”, é coordenado pelo Eng. Florestal e doutor em Recursos Florestais, o pesquisador Samuel de Pádua Chaves e Carvalho, tendo como instituição executora a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e, instituições parceiras, a EMBRAPA, a ESALQ/USP e a UFRRJ.

*Com informações da Fapemat

Marinhagem manauara: livro explora condições de trabalho nos séculos XIX e XX

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Região central de Manaus em 1900, com a Ponte dos Remédios em primeiro plano. Foto: George Huebner

O livro ‘Os Lugares da Marinhagem: Racialização e associativismo em Manaus, 1853-1919′, de Caio Giulliano Paião, resultou de uma extensa pesquisa historiográfica acerca das estruturas de poder que ditavam as relações de trabalho da categoria marítima no período. A obra, dividida em três partes, narra a busca dessa classe por melhores condições de trabalho valendo-se do associativismo e do reconhecimento como o proletariado das águas.

Além disso, o autor explora as relações raciais estabelecidas nesse contexto de coletivo heterogêneo, em que as posições hierárquicas eram influenciadas pela raça.

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Graduado em história pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutor em história social pela Unicamp, Paião desenvolve atualmente um pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), atua como professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em História da Ufam e integra o Laboratório de Estudos sobre História Política e do Trabalho na Amazônia (Labuhta), também da Ufam.

Na entrevista a seguir, o pesquisador detalha o processo de escrita da obra e as suas contribuições para a historiografia brasileira.

Qual a motivação para a pesquisa que resultou nesse livro e quais as dificuldades enfrentadas durante a sua realização?

Caio Giulliano Paião – Essa obra é um desdobramento de uma pesquisa anterior sobre a navegação a vapor na Província do Amazonas, tema de meu outro livro [Para além das chaminés, Editora Valer, 2024]. Depois de estudar a recepção e o imaginário em torno dessa navegação, procurei entender o mundo do trabalho dos seus tripulantes. Primeiro, deparei-me com uma lacuna na historiografia, em função da própria dinâmica do ofício: tratava-se de personagens que viviam em movimento, por isso, personagens de difícil apreensão. Depois descobri que o acervo histórico da Capitania do Porto do Amazonas havia sido incinerado. Precisei então percorrer uma série de diferentes documentos, de variados tipos e procedências. Nesse sentido, acredito que o maior desafio da pesquisa deu-se ao acompanhar os movimentos desses sujeitos, que sabiam utilizar a mobilidade a seu favor.

Quais contribuições a obra traz aos estudos historiográficos no Brasil?

Caio Giulliano Paião – Ainda são poucos os estudos sobre a categoria marítima no Brasil, especialmente enquanto trabalhadores, no período e no recorte geográfico do livro. A Amazônia chegou a abrigar a maior parcela desse contingente, por isso suas lutas foram fundamentais para que toda a categoria ganhasse reconhecimento como parte da classe trabalhadora. Diferentes dos tripulantes das grandes navegações, já bem estudados, os desse livro buscam preservar sua liberdade de movimento enquanto enfrentam o Estado e os patrões no campo dos direitos. Lutam contra lugares racializados que os relegavam à reserva militar, portanto, excluindo-os da cidadania. Assim, a obra contribui para a historiografia social do trabalho, mostrando que, ao ocuparem lugares como o de “trabalhadores”, essas pessoas conseguiram obter reconhecimento profissional e acessar direitos.

Como o seu livro pode colaborar para o entendimento das relações de trabalho no mundo atual?

Caio Giulliano Paião – Vivemos um período em que a condição de “trabalhador” é vista como algo pejorativo e de pouco valor, enquanto a ideologia do “empresário de si” é usada para enfraquecê-la como identidade coletiva, visando dificultar a organização de classe e a luta por direitos. Essa desorganização dá-se por meio de uma profunda individualização e por meio de um isolamento hoje reforçado pelas redes sociais. No livro, vemos como a individualização foi usada para brecar a organização dos marítimos como classe, algo agravado pela racialização, que negava aos trabalhadores negros e mestiços o direito de reivindicar sua identidade racial em termos políticos ou a chance de denunciar o racismo no ambiente de trabalho. Trata-se de questões que ainda estruturam as relações de trabalho no tempo presente.

Foto: Divulgação

Você vê alguma evolução na luta dos trabalhadores marítimos, especificamente nos dias de hoje?

Caio Giulliano Paião – O livro encerra a análise em 1919, justamente em um momento crucial de discussão e aperfeiçoamento da legislação marítima em todo o mundo. Meu intuito foi demonstrar sob quais circunstâncias a categoria chegou a esse debate e qual o papel dos amazônicos nisso. Sem dúvida, o repertório legislativo está muito mais sofisticado nos dias atuais, além de apresentar padrões internacionais de proteção a esses trabalhadores, uma pauta levantada a partir do fim da Primeira Guerra Mundial. Contudo destaco uma conquista histórica, que é o reconhecimento e a inserção cada vez maior das mulheres no mundo marítimo. Na Amazônia, já viajei em barcos com tripulação 100% feminina. Um marco importante que pode ser visto como um dos resultados da luta feminista contra a masculinidade hegemônica do sistema capitalista.

Em que o livro se diferencia de outros estudos do gênero e qual o público, para além dos estudantes e professores de história, que pode se interessar pela obra?

Caio Giulliano Paião – Nossa historiografia conta com excelentes estudos sobre o mundo marítimo, com foco nos oceanos e nos séculos XVIII e XIX. Embora se ancore nessas pesquisas, meu enfoque difere ao priorizar os trabalhadores fluviais em um recorte que ultrapassa o século XIX, oferecendo uma perspectiva sobre a Amazônia para além da visão de “pulmão do mundo”, ao explorar suas dimensões humanas. Na crise climática atual, os(as) leitores(as), acadêmicos(as) ou não encontrarão uma Amazônia onde populações com demandas próprias lutam por inclusão social e política. O público em geral, preocupado com a progressiva perda de direitos trabalhistas e com o colapso ambiental, pode se inspirar nos lugares da marinhagem em prol de um mundo menos opressivo e mais humano.

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*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, edição 726, escrito por Ana Alice Kohler

Tese investiga papel das farmácias públicas de manipulação no mercado de fitoterápicos

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Fotos: Divulgação

O broncodilatador e expectorante Mikania glomerata, o famoso guaco; o calmante, analgésico e ansiolítico Cymbopogon citratus, conhecido como capim-santo; e o anti-inflamatório e antioxidante Curcuma longa, o popular açafrão-da-terra, oferecem exemplos de plantas medicinais facilmente encontradas nas feiras livres e nos mercados municipais de qualquer Estado brasileiro, nas formas in natura, a granel, em garrafadas ou como óleos essenciais.

Essas plantas representam uma prova inequívoca da nossa biodiversidade vegetal – a maior do mundo – e do nosso conhecimento tradicional. Uma riqueza que, apesar de reconhecida, está longe de ter todo seu potencial explorado. Enquanto detém de 15% a 20% da biodiversidade vegetal do planeta, o país responde por ínfimos 0,1% do mercado global de fitoterápicos e ervas medicinais, que movimentou, em 2024, US$ 230 bilhões (R$ 1,3 trilhão).

Para entender as contradições e a complexidade da cadeia de fitoterápicos no Brasil, a engenheira agrícola colombiana Nataly Cubides Zuñiga pesquisou em sua tese de doutorado, dentro do Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica (PPG-PCT) do Instituto de Geociências (IG), as Farmácias Vivas.

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Instituídas em 2010, esses estabelecimentos funcionam como farmácias de manipulação públicas, dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), fornecendo gratuitamente plantas medicinais que cultivam e medicamentos que manipulam, além de prestarem assistência social farmacêutica. A atividade promove o encontro entre os conhecimentos tradicional e científico.

“Esse é um patrimônio natural que precisamos integrar. Temos tanto o conhecimento técnico-científico quanto o tradicional, mas eles estão dispersos”, defende a engenheira agrícola.

Ao se aprofundar nesse espaço de convergência, Cubides Zuñiga concluiu que as Farmácias Vivas têm o potencial de articular essa cadeia técnico-produtiva porque estão inseridas no SUS e porque são capazes de criar ecossistemas de conhecimento a partir de ações de conexão e cooperação envolvendo diferentes atores, como universidades, institutos de pesquisa, organizações não governamentais, cooperativas de agricultores e comunidades.

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A pesquisa identificou múltiplas razões para a baixa produção de medicamentos fitoterápicos no Brasil. Uma delas é a carência de descrição e registro das espécies medicinais nativas, algo obrigatório para a produção dos insumos farmacêuticos ativos vegetais (Ifavs), necessários à manipulação dos medicamentos.

A engenheira deu início aos estudos junto com a equipe do Projeto Prospecção e Priorização Técnico-Produtivas para a Integração da Cadeia de Fitoterápicos Amazônicos (Profitos Bioam), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), entre 2021 e 2024.

Ainda pouco conhecidas por parte da população e muitas vezes do próprio poder público – municipal, estadual e federal –, as atuais 226 Farmácias Vivas fazem parte da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) do governo federal.

“As Farmácias Vivas são um instrumento da política nacional, cuja diretriz é incentivar a produção e o uso de plantas medicinais e de fitoterápicos no SUS. Entretanto a incongruência das regulamentações e a falta de monografias, em muitos casos, restringem a autonomia das Farmácias Vivas para trabalhar com espécies locais”, disse Cubides Zuñiga.

De acordo com a orientadora da pesquisa, professora Maria Beatriz Machado Bonacelli, deter uma grande sociobiodiversidade – conceito que inclui as populações responsáveis pelo conhecimento tradicional – não basta para promover avanços.

“O Brasil tem uma grande diversidade e todo mundo acha que isso já basta. Mas só o recurso não resolve, assim como só a biodiversidade também não, nem só a política ou a legislação. Não se pode usar o conhecimento tradicional sem saber a origem desse conhecimento ou do seu povo. O conhecimento tradicional é riquíssimo e deve se somar ao conhecimento e método científicos. É preciso promover esse encontro. O conhecimento tradicional vem da herança indígena, dos ribeirinhos, dos quilombolas e da agricultura familiar”, afirmou Bonacelli.

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Segundo a professora, o Brasil conta com cerca de 340 fitoterápicos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), enquanto a Grã-Bretanha está na casa dos 3 mil, a Alemanha, dos 10 mil e a China, dos 70 mil. O país, portanto, tem potencial para explorar sua sociobiodiversidade, promovendo o crescimento econômico, aponta a pesquisa. Os medicamentos fitoterápicos hoje não chegam a 2% do mercado farmacêutico brasileiro, enquanto na Alemanha esse percentual gira em torno de 20%.

Rigor da lei

A legislação sobre os fitoterápicos no Brasil, que começou a ser implementada nos anos 1980, ganhou um novo quadro regulatório em 2014. Segundo a pesquisa, com uma legislação nacional mais completa e mais próxima das normas internacionais, muitas empresas que antes exploravam as plantas medicinais, por não se enquadrarem nas novas diretrizes, deixaram de existir ou se concentraram na produção de fitocosméticos, suplementos e óleos essenciais. Hoje, no país, há cerca de 68 empresas de fitoterápicos, concentradas na Região Sudeste.

No caso específico das Farmácias Vivas, a legislação, criada a partir de 2010, dispõe sobre as etapas da cadeia produtiva, abrangendo das matérias-primas (plantas in natura e derivados vegetais) até os medicamentos fitoterápicos. Os Ifavs ou matérias-primas devem ser produzidos nas próprias Farmácias Vivas ou devem vir de produtores certificados, tudo isso sob o controle da Anvisa.

A gestão das farmácias é municipal ou estadual, a cargo das secretarias de saúde. Os funcionários desses estabelecimentos integram o SUS e instituições parceiras, além de haver alguns voluntários. Cada localidade desenvolve seu próprio modelo conforme suas especificidades, capacidades e necessidades. Muitas dessas farmácias se transformam em espaços comunitários de troca de conhecimentos, oferecendo ações de capacitação, seminários e rodas de conversa. Na avaliação da engenheira, a institucionalização das farmácias é um dos grandes desafios do programa no país.

A tese analisou unidades das Farmácias Vivas do Distrito Federal e de sete Estados, entre eles o Ceará, onde esses locais foram idealizados em 1983, por Francisco José de Abreu Matos, da Universidade Federal do Ceará (UFC). A Farmácia Viva da cidade de Jardinópolis (Farmácia da Natureza), em São Paulo, foi a mais completa que Cubides Zuñiga conheceu: possui viveiros, fornece mudas e tem laboratórios que produzem fitoterápicos em cápsulas, óleos, cremes, tinturas e xaropes.

E conta ainda com um ambulatório para a realização de consultas à população. Nesse ambulatório trabalham médicos da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto. A farmácia fornece quatro fitoterápicos ao SUS. Em Campinas, a pesquisadora conheceu quatro Farmácias Vivas, que abrigam canteiros ou hortos.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, edição 726, escrito por Adriana Vilar de Menezes