O uso e a produção de biocombustíveis, como o etanol, promovem a autonomia energética, o que é especialmente importante em áreas isoladas, onde o acesso a recursos energéticos pode ser limitado. Em pesquisa, apoiada pelo Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), investigou-se a viabilidade da produção de bioetanol, através da hidrólise e fermentação das raízes de mandioca açucarada.
Amparada pelo Programa de Apoio à Ciência, Tecnologia e Inovação em Áreas Prioritárias para o Estado do Amazonas – CT&I Áreas Prioritárias, Edital N° 010/2021, o estudo intitulado ‘Mandioca açucarada, uma alternativa para a produção de bioetanol no estado do Amazonas’, analisou que a quantidade de amido presente no bagaço, após extração do caldo, permite uma maior liberação de açúcares, o que torna o processo fermentativo mais eficiente e vantajoso.
Segundo a coordenadora do estudo e doutora em Engenharia de Recursos Naturais da Amazônia, Leiliane do Socorro Sodré de Souza, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a mandioca foi escolhida devido à motivação do grupo de pesquisa em desenvolver bioprodutos a partir de biomassa vegetal presente no estado.
“A produção de biocombustíveis é uma possibilidade interessante para comunidades isoladas. E, como a mandioca é uma espécie que vários produtores têm experiência com cultivo e, mesmo que a mandioca açucarada tenha algumas características diferentes, a mandioca amilácea e açucarada são similares no cultivo, e assim esta foi escolhida para a pesquisa”, afirmou.
A mandioca açucarada apresenta em sua composição em torno de 85% de água e o restante da composição divide-se em açúcares, proteína, amido e fibras.
Bioetanol
Sobre a investigação da viabilidade da produção de bioetanol através da hidrólise, um fenômeno químico no qual uma molécula é quebrada em moléculas menores na presença de água, e da fermentação das raízes de mandioca açucarada, Leiliane Souza explica mais sobre o processo:
“Foi utilizado o caldo extraído da raiz, que já contém açúcares, e o bagaço restante foi analisado e ao observarmos que o mesmo apresenta mais de 50% de amido, foi aplicado o processo de hidrólise para a quebra desse amido em moléculas menores, os açúcares. Com mais açúcar, favorecemos o processo de fermentação, no qual o etanol é liberado”, afirmou a pesquisadora.
Foto: Reprodução/Arquivo Fapeam
No processo, após prensar as raízes, foram obtidas duas porções, uma fase líquida (caldo) e uma fase sólida (bagaço), essa última foi levada para análise, por apresentar um teor significativo de amido, observou-se que o uso das enzimas permitiria aumentar a contração de açúcares.
Durante a pesquisa, no processo de fermentação com a levedura Saccharomyces cerevisiae a concentração de etanol obtida foi de 14,33 g/L em 72 horas de processo, sendo possível obter 0,29 g de etanol/g de biomassa. Esses resultados podem ser melhorados com ajustes na concentração de açúcares e no tipo de microrganismo.
Outro benefício apontado pela pesquisadora sobre a utilização dessas fontes alternativas de energia foi a respeito da redução das emissões de gases de efeito estufa. Os biocombustíveis, que usam fontes renováveis, têm um ciclo de carbono mais equilibrado em comparação com os combustíveis fósseis, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
Mapear a variabilidade genética, identificando diferentes versões de um gene dentro de uma espécie de planta nativa, é a nova arma da ciência para a conservação e uso sustentável dos manguezais da Amazônia. Na região, que se destaca por abrigar a maior faixa contínua desse ecossistema no mundo, a tecnologia começou a ser aplicada de forma inédita em iniciativas de reflorestamento de áreas degradadas, com participação de comunidades locais que dependem dos recursos naturais como meio de sustento.
“Quanto maior a variabilidade genética das plantas de uma mesma espécie, maior a capacidade de adaptação e de sobrevivência diante de alterações ambientais, como os impactos climáticos”, afirma Marcus Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Bragança (PA).
Por meio do mapeamento, as sementes que se destinam à recuperação do ecossistema – antes coletadas de forma aleatória em praias e manguezais, sem distinção de qualidade – passaram a ser selecionadas conforme as áreas que concentram uma maior diversidade genética, com mais chances de resultar em novas gerações de árvores mais produtivas e resilientes. Saber onde se localizam as melhores plantas – diz Fernandes – é um conhecimento estratégico ao manejo mais eficiente das florestas de mangue, com reflexos positivos no estoque de carbono e na fauna – por exemplo, do caranguejo-uçá.
Com a nova ferramenta, muito além de quantidades, é possível trabalhar as qualidades impressas pelas características genéticas das plantas. “O método permite melhores resultados do reflorestamento, reduzindo perdas e proporcionando mais benefícios”, completa Fernandes, também coordenador do projeto Mangues da Amazônia, realizado pelo Instituto Peabiru, Instituto Sarambuí e o Laboratório de Ecologia de Manguezal – LAMA/UFPA. Visando à conservação e uso sustentável desse ecossistema, a iniciativa conta desde 2021 com o patrocínio da Petrobras e do Governo Federal através do Programa Petrobras Socioambiental, em benefício direto e indireto de cerca de 15 mil pessoas nos municípios paraenses de Tracuateua, Bragança, Augusto Corrêa e Viseu.
Entre as ações socioambientais, o projeto reflorestou até agora 18 hectares de áreas de manguezais degradados nesses municípios, envolvendo a mobilização comunitária, a aplicação de metodologias científicas e a integração de conhecimentos tradicionais. A meta é atingir o total de 40 hectares reflorestados e 100 hectares monitorados na região do entorno, nos próximos anos, alinhados ao Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC), com impacto positivo sobre o sequestro de carbono e a proteção das zonas costeiras e populações locais.
“O plantio de áreas degradadas é um gesto de sensibilização e conexão com a natureza, em que cada hectare recuperado mostra que é possível repor o que foi perdido e desperta a percepção de que a conservação é um dever coletivo”, observa John Gomes, gerente do projeto Mangues da Amazônia.
Em ano especial de COP 30, em Belém, o trabalho de reflorestamento dá visibilidade aos manguezais amazônicos pela importância no enfrentamento às mudanças climáticas do planeta. Cientistas estimam que os manguezais da região produzem duas a três vezes mais carbono do que as florestas de terra firme, e o grau de diversidade genética – junto a outros fatores – é visto como diferencial-chave neste cenário.
“Estamos na fronteira da ciência no uso da genética como uma ferramenta essencial à conservação de manguezais”, reforça o biólogo Adam Bessa, pesquisador do projeto Mangues da Amazônia à frente do mapeamento. Na metodologia adotada, os pesquisadores do projeto utilizam 1 hectare de floresta de mangue dentro de cada um dos 12 quadrantes em que a península de Ajuruteua (Bragança – PA) foi dividida como base para a coleta de folhas das espécies Rhizophora mangle (mangue-vermelho), Avicennia germinans (mangue-preto) e Laguncularia racemosa (mangue-branco). O material é analisado em laboratório, por meio da extração do DNA, para a identificação das amostras que apresentam maior variação de genes e suas áreas de origem.
Atualmente a equipe do projeto realiza a coleta de amostras em campo para que os primeiros dados sobre a variabilidade genética sejam obtidos ao longo de 2025. “O objetivo é oferecer referencial para ajudar as plantas na superação de condições ambientais adversas e outros impactos a que estão expostas, no reflorestamento” diz Bessa. Além de subsidiar a proteção de áreas naturais como bancos de sementes, o trabalho dá suporte ao planejamento de corredores ecológicos que conectam fragmentos de vegetação nativa. “Restaurar não é só plantar árvores, mas trazer a estrutura biológica de volta”, enfatiza o biólogo.
O Mangues da Amazônia é um projeto socioambiental com foco na recuperação e conservação de manguezais, educação ambiental e atividades socioculturais em Reservas Extrativistas Marinhas do estado do Pará. É realizado pelo Instituto Peabiru, Instituto Sarambuí e Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), e conta com patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. Com início em 2021, o projeto já atua 5 anos nas RESEX Marinhas de Augusto Corrêa, Bragança, Tracuateua e Viseu.
Laboratório de Ecologia de Manguezal – LAMA
Foto: Divulgação/Mangues da Amazônia
O Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA) é um grupo de pesquisa vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA), com sede no Campus de Bragança, que atua há mais de 20 anos no estudo e conservação dos ecossistemas de manguezal na Amazônia. Reconhecido por sua excelência científica, o LAMA desenvolve pesquisas sobre ecologia, biodiversidade, dinâmica dos estoques de carbono e recuperação de áreas degradadas.
Seu diferencial está na atuação integrada com as populações locais, promovendo o monitoramento participativo e o intercâmbio entre conhecimentos científicos e tradicionais. O laboratório é referência nacional em Manguezais Amazônicos e na formação de pesquisadores comunitários, sendo uma das instituições realizadoras do projeto Mangues da Amazônia.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Pedro Devani/Secom Acre
O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) repassou R$ 27 milhões advindos de pagamentos originados por concessões federais em Florestas Nacionais (Flona) aos estados de Pará e Rondônia, além de cinco municípios onde se localizam as florestas concessionadas às quais os pagamentos se referem. O valor engloba a arrecadação resultante da produção dessas concessões em 2024 e a um saldo de repasses anteriores que não havia ainda sido mobilizado.
Os governos estaduais receberam a maior fatia (R$ 16.271.292,30), mas será nos municípios que o impacto desse dinheiro produzirá efeitos mais sensíveis – serão R$ 10.753.382,30 aterrissando em algumas das comunidades mais desassistidas da Amazônia, como é o caso do município de Melgaço, ocupante do triste posto de pior IDH do Brasil. Faro, Itaituba, Oriximiná e Terra Santa são os outros beneficiados.
“Esse é o maior valor já transferido para localidades que abrigam concessões florestais federais e merece ser comemorado”, afirma Leonardo Sobral, diretor Florestal do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Ele explica que os repasses dão visibilidade ao retorno econômico das concessões, aumentando a compreensão da população sobre o manejo sustentável feito pelas concessionárias. “Eles também contribuem para pôr de pé investimentos em projetos, atividades e recursos voltados à gestão e ao uso sustentável dos recursos florestais”, completa.
R$ 27 milhões vindos de concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Divulgação
Os repasses são benefícios diretos e que se somam a outros ganhos trazidos pela atividade, como lembra Renato Rosenberg, diretor de Concessões Florestais do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), destacando que as concessões costumam ocupar regiões fronteiriças do desmatamento. “São locais vulneráveis a crimes ambientais e fundiários, que ficam inibidos pela presença de pessoas vinculadas às concessões dentro das Unidades de Conservação. E a colheita florestal acontece de forma controlada e monitorada, desdobrando-se em recursos, empregos, renda, oportunidades sociais e formalização da economia”, afirma Rosenberg.
Ele explica ainda que, no ano passado, intensificaram-se os esforços para aumentar o número de concessões e melhorar o fluxo dos recursos destinados aos estados e municípios. O objetivo era apresentar os valores disponíveis e auxiliar na escolha de projetos aderentes aos requisitos para acessá-los. “O processo, aliado a um ajuste orçamentário, criou um caminho para que os repasses passem a ser acessados com maior regularidade daqui para a frente”, diz Rosenberg.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Fernando Sette/Agência Pará
O contrato de uma concessão florestal dura cerca de 40 anos e é pautado pela execução de um Plano de Manejo Florestal Sustentável, que estabelece as atividades e estima a produção anual de madeira. A produtividade da colheita, no entanto, varia de um ano para outro por múltiplos fatores e cabe ao SFB monitorar a execução das atividades e a produção efetiva. O concessionário, por sua vez, paga um valor mínimo anual estabelecido em contrato, destinado ao SFB. Superada a produção correspondente a essa arrecadação fixa, o excedente arrecadado é dividido nas seguintes proporções: 40% ao Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), 20% aos estados de origem das concessões, 20% aos municípios envolvidos e 20% ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal.
A repartição, destinação e modo de acesso ao recurso são regulamentados por dois dispositivos legais – a Lei de Gestão de Florestas Públicas (11.284/2006) e a Portaria MAPA 506/2022, que estabelecem condições e procedimentos para os repasses. Estados e municípios precisam apresentar um plano com os projetos ou atividades a serem realizados. Esses planos devem ser aprovados por conselhos de Meio Ambiente, nos quais se prevê participação popular. Outra exigência é que estejam ligados ao uso sustentável dos recursos florestais – ou seja, com iniciativas que favoreçam a manutenção da floresta em pé. “Em campo, notamos grande dificuldade dos envolvidos para diferenciar entre projetos ambientais diversos e aqueles com incidência sobre a floresta. Tanto que um dos planos para 2025 é criar um guia permanente para orientar conselheiros e gestores municipais”, conta Sobral.
Alguns dos projetos alavancados pelos repasses feitos em 2025 impactam diretamente a população e sua relação com a floresta. Em Faro, por exemplo, há previsão de construção de uma miniusina para processamento de castanha-da-Amazônia e promoção de oficinas sobre boas práticas de manejo.
Em Terra Santa, os repasses oriundos das concessões já permitiram a construção da sede própria da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, equipada com infraestrutura adequada — algo ainda raro entre secretarias do tipo na região. Além disso, a aquisição de um veículo em 2019 tornou possível ampliar o alcance das ações técnicas e de fiscalização nas áreas rurais. Segundo a secretária de Meio Ambiente e Mineração, Samária L.C. Silva, os impactos mais visíveis se darão diretamente nas comunidades.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Greenpeace Brazil
Com mais de R$ 800 mil em caixa para novos projetos, a prefeitura já destinou parte do valor à construção de uma casa de apoio ao projeto Pé-de-Pincha, de conservação de quelônios, e lançou a primeira chamada pública voltada à seleção de propostas de associações comunitárias. Os recursos estão financiando viveiros florestais, hortas comunitárias, sistemas agroflorestais e meliponicultura. “São projetos que aliam conservação da floresta com geração de renda e segurança alimentar, além de fortalecerem a autonomia das associações”, afirma a secretária.
Há até um projeto de construção de uma casa de apoio à ciência para promoção de pesquisa, educação ambiental e inclusão socioambiental das comunidades.
Já o município de Melgaço irá investir em oficinas de capacitação para regularização ambiental de pequenas propriedades rurais, no apoio à obtenção de licença para serrarias de pequeno porte e na reforma de um viveiro florestal para plantio de mudas de açaí e cupuaçu a serem distribuídas a famílias da zona rural, promovendo alternativas econômicas sustentáveis e conectadas à realidade local. O engenheiro sanitarista e ambiental Juesley B.P. Viegas, da Secretaria de Meio Ambiente do município, destaca que o apoio financeiro possibilitou ainda ações como oficinas sobre manejo e educação ambiental e recuperação de um bosque municipal.
Concessões florestais federais chegam a estados e municípios da Amazônia. Foto: Amazonastur
“O próximo passo será ampliar o alcance dessas medidas. Nosso território é extenso e o deslocamento até as comunidades exige estrutura adequada. Com esses recursos, poderemos adquirir equipamentos, embarcações e combustível, o que viabiliza a presença do poder público onde ela é mais necessária”, afirma Viegas.
Essas são apenas algumas das maneiras pelas quais os recursos das concessões retornam para as comunidades do entorno, viabilizando iniciativas que, de outra forma, não teriam investimento para se concretizar. É a floresta fazendo diferença na vida daqueles que com ela convivem e podem, a partir dessas experiências concretas, aumentar a percepção de que a floresta em pé também tem valor.
O livro ‘Protocolo de Manejo de Abelhas Nativas Sem Ferrão (Meliponini): Reservas Amanã e Mamirauá, Floresta Nacional de Tefé e comunidade Missão, Amazonas, Brasil’ foi lançado no dia 27 de maio na sede do Instituto Mamirauá. Fruto de mais de três décadas de pesquisa e atuação junto às comunidades ribeirinhas, a publicação representa um marco na promoção da meliponicultura na região do médio rio Solimões, Amazônia.
O lançamento contou com a presença de pesquisadores, técnicos e representantes de comunidades locais, que participaram ativamente na construção do documento. A obra, realizada pelo Instituto Mamirauá em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e com a colaboração de instituições como Emazon, Rede Mel e IFAM, foi celebrada como um exemplo de integração entre ciência e saberes tradicionais.
“Esse protocolo significa muito para mim. Ele foi muito mais do que fazer ciência. Foi uma forma de honrar tudo aquilo que a floresta amazônica, os rios e as comunidades tradicionais me ensinaram”, destacou, emocionado, Bruce Dickinson dos Santos, biólogo e coautor da obra, natural de uma comunidade da Reserva Mamirauá.
Mel de abelhas sem ferrão da Amazônia. Foto: Julia Rantigueri/Instituto Mamirauá
Saberes tradicionais e partilhados no cuidado com as abelhas nativas
O livro reúne informações detalhadas sobre a criação e o manejo sustentável de abelhas nativas sem ferrão — conhecidas como meliponíneos — espécies abundantes na Amazônia que não apenas produzem mel de alto valor, mas também desempenham papel fundamental na polinização de espécies florestais e agrícolas. Elas garantem a fertilidade dos ecossistemas e o equilíbrio da biodiversidade, serviços ecossistêmicos cruciais em uma região onde floresta, comunidade e vida estão profundamente entrelaçadas.
A região do médio Solimões, cenário central do protocolo, é um dos maiores celeiros de biodiversidade do planeta. Ali estão as Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, a Floresta Nacional de Tefé e a comunidade Missão — territórios onde a natureza pulsa em ciclos de cheia e vazante, e onde povos ribeirinhos, indígenas e tradicionais vivem em profunda relação com o ambiente. É nesse mosaico de vida e resistência que a meliponicultura ganha força como prática ancestral e contemporânea, que une cuidado, conhecimento e autonomia.
Lançamento do protocolo foi realizado dia 27 de maio. Foto: Julia Rantigueri/Instituto Mamirauá
Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá, explicou que a publicação é o resultado de um longo percurso iniciado ainda nos anos 1990:
“A obra traduz o resultado de um trabalho iniciado nos anos 1990 e tem como finalidade documentar, guiar e orientar os passos para criação e manejo de abelhas nativas sem ferrão na região do médio Solimões, por meio da integração do conhecimento científico e tradicional.”
“A publicação deste protocolo é uma importante contribuição não somente para a região do médio Solimões, mas que também poderá ser utilizado como referência para o manejo de abelhas nativas sem ferrão no estado do Amazonas. O protocolo, além de todas as orientações sobre todos os passos que devem ser seguidos desde o início da criação, manejo até a regularização da atividade na região, traz uma discussão sobre o contexto da meliponicultura no Amazonas trazendo visibilidade para as discussões, desafios e lacunas com o objetivo de dar mais clareza as discussões, fluidez e estruturação à cadeia da meliponicultura e apoiar a adequação da legislação de meliponicultura do Amazonas para que seja mais inclusa aos meliponicultores”, acrescenta Fernanda Viana.
Médio Solimões, região estratégica para a meliponicultura
A região do médio Solimões — onde se localizam a Reserva Mamirauá, a Reserva Amanã e a Floresta Nacional de Tefé — é considerada uma das áreas mais ricas do mundo em biodiversidade. Com um mosaico de ecossistemas de várzea e terra firme, abriga dezenas de espécies de abelhas sem ferrão. O protocolo se baseia em experiências reais de comunidades locais que há décadas praticam o manejo dessas abelhas.
“O protocolo foi produzido justamente para dar suporte, ser uma fonte de apoio técnico, com informações técnicas a respeito da criação de abelhas e da legalização dos criatórios”, afirmou Rinaldo Sena Fernandes, professor do Instituto Federal do Amazonas (IFAM). Além de fornecer instruções práticas para a criação e manejo das abelhas, o protocolo aborda aspectos legais, sanitários e de comercialização, contribuindo para a geração de renda de forma sustentável.
Lançamento do protocolo para manejo de abelhas nativas sem ferrão na Amazônia. Foto: João Cunha/Instituto Mamirauá
Inovação, qualidade e potencial de mercado
A qualidade do conteúdo técnico do livro foi ressalta por especialistas e coautores da publicação. Segundo Sidney Dantas, técnico agrícola e coordenador da Rede de Meliponicultura do Amazonas, a publicação oferece ferramentas valiosas para os criadores da região. “Esse é um trabalho muito importante porque vem dar tecnologias e tecnificar o meliponicultor para que possa executar as atividades com mais precisão, com maior higienização e colocar um produto futuramente no mercado que é de suma importância e alta qualidade”, aponta.
Diego Ken Osoegawa, da Amazônia Bee, enfatizou o valor científico da publicação. “O protocolo traz muitos avanços para o Médio Solimões. Em parceria com o IFAM e o Instituto Mamirauá, conseguimos inclusive identificar espécies de abelhas que nunca haviam sido registradas no Amazonas.”, afirma.
Conhecimentos tradicionais e biodiversidade em uma colher
Mais do que um manual técnico, o protocolo foi descrito por seus autores como um símbolo de pertencimento e resistência cultural. Ao dar visibilidade à sabedoria de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas, o documento também valoriza os produtos da sociobiodiversidade amazônica.
“O mel que as abelhas nativas produzem carrega a essência de uma floresta em uma colher”, disse Bruce Dickinson. “Ele carrega a cultura de uma comunidade.”
Reinaldo Bozelli, pesquisador Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Comissão de Avaliação do MCTI, reforçou o valor social e ambiental da obra. “Se a gente pensa num futuro que não tem apenas o lucro em vista, mas também a proteção da biodiversidade, esse tipo de atividade — o manejo das abelhas — aponta o caminho”, considera.
Inundação do Rio Juruá em 2021. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC
Eventos extremos como as inundações de 2021 na bacia do rio Juruá, no Oeste da Amazônia, se tornam 2,5 vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas na comparação com um cenário sem interferência humana.
A constatação é de artigo da parceria de Ciência para Serviços Climáticos Brasil (CSSP-Brasil), que envolve cientistas de instituições nacionais, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e estrangeiras, como a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido). O estudo foi publicado na revista científica International Journal of Disaster Risk Reduction nesta quinta (29).
O trabalho constatou, ainda, que as ações humanas aumentaram os riscos associados ao evento. 61% da probabilidade total de ocorrência da inundação de 2021 pode ser atribuída diretamente às mudanças climáticas — levando um evento que naturalmente se repetiria em 107 anos a acontecer em 42 anos. Na ocasião, mais de 43 mil pessoas sofreram impactos diretos, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares – sendo que 10 milhões podem ser atribuídos às mudanças climáticas, segundo o artigo.
Para avaliar o impacto ambiental, os pesquisadores utilizaram dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, do Instituto Nacional de Meteorologia, do Cemaden e do conjunto de dados Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), que mapeia a precipitação ao longo do tempo com base em informações de satélites e de pluviômetros. Para a estimativa do impacto socioeconômico, os cientistas usaram dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, plataforma do Sistema Nacional e Proteção e Defesa Civil que reúne informações sobre riscos e desastres nos municípios brasileiros.
No caso das inundações do rio Juruá – que atravessa os estados do Acre e do Amazonas – , a precipitação entre os meses de dezembro de 2020 a março de 2021 foi 48% maior do que a média para o período. As cheias também afetaram 25 km² de área urbana e 1.150 km² de áreas de pastagem, prejudicando a mobilidade da população afetada e contaminando solos agrícolas utilizados para subsistência.
Porém, os dados subestimam o real impacto, como destaca a coautora Renata Pacheco Quevedo: “Ao considerar a realidade brasileira, principalmente de uma região de extrema relevância estratégica e ambiental como a Amazônia, o estudo evidenciou gargalos relacionados à coleta, padronização e integração dos dados sobre impactos”.
As lacunas limitam a compreensão completa dos danos causados, como gastos relacionados a hospitalizações e tratamentos de condições como ansiedade e depressão. “Esses gastos não previstos acabam afetando todo o sistema de saúde; portanto, considerar impactos socioeconômicos a longo prazo ajuda a garantir respostas mais eficazes e medidas preventivas mais precisas”, avalia a autora.
Mesmo com a abordagem mais conservadora, a magnitude das consequências surpreendeu os cientistas — especialmente devido aos impactos severos sobre 22 municípios cobertos parcialmente ou totalmente pela bacia, incluindo comunidades ribeirinhas altamente dependentes das dinâmicas de água para suas atividades econômicas. “Os resultados nos fizeram refletir sobre a urgência de aproximar a ciência da tomada de decisões políticas, independentemente de ideologias, partidos ou religiões. Sem uma ação coordenada e baseada em evidências, esses impactos continuarão a ser socializados, contribuindo para o empobrecimento do país como um todo”, concluem as autoras Renata Quevedo e Liana Anderson.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Manaus vista de cima. Foto: Clóvis Miranda/SemcomManaus
Localizada às margens do Rio Negro, em plena floresta amazônica, Manaus carrega em seu DNA a força da resistência, da diversidade e da criatividade. Fundada oficialmente em 1669 com a construção do Forte de São José do Rio Negro, a cidade cresceu entre os ciclos da borracha, o movimento migratório e o avanço da Zona Franca, tornando-se a capital vibrante que conhecemos hoje.
Com influências indígenas, nordestinas e caboclas, a capital do Amazonas é um verdadeiro caldeirão cultural onde surgem histórias únicas, capazes de emocionar e surpreender, e as produções audiovisuais feitas na cidade vêm ganhando espaço e reconhecimento.
De produções independentes a filmes premiados e séries que conquistam o público, Manaus tem sido cenário para revelar o dia a dia de quem vive no coração da floresta e muita criatividade.
Além disso, tem revelado diretores, roteiristas e atores que exploram temas regionais como a juventude periférica, conflitos urbanos, cultura popular, lendas amazônicas, ancestralidade e o dia a dia de quem vive no coração da floresta.
Confira seis produções filmadas em Manaus:
A Febre
O filme acompanha Justino, um indígena que há 20 anos vive em Manaus, trabalhando como segurança no porto da cidade. Sua filha Vanessa trabalha em um posto de saúde e acaba de passar para a faculdade de Medicina, na Universidade de Brasília. Insegura entre seguir seu sonho e deixar seu pai, ela precisa ainda lidar com uma estranha febre que subitamente aparece. Paralelamente, uma série de estranhos ataques a animais ganha destaque na TV local.
O longa é estrelado pelo ator indígena Regis Myrupu, natural de São Gabriel da Cachoeira, vencedor do prêmio Leopard for Best Actor de 2019.
Onde assistir: Netflix
O último azul
O filme acompanha Tereza, uma mulher de 77 anos que mora numa cidade industrializada na Amazônia, e recebe um chamado do governo para abandonar sua casa e residir numa colônia habitacional para idosos. Antes de ser compulsoriamente expulsa de seu lar e enviada para longe, Tereza quer realizar seu último desejo: embarcar numa viagem pelos rios e afluentes da região.
O longa, dirigido por Gabriel Mascaro, se passa no Amazonas, com cenas filmadas em Manaus, Manacapuru e Novo Airão.
Onde assistir: tem previsão de lançamento nos cinemas brasileiros em agosto de 2025.
Dois Irmãos
A série gira em torno da história de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, e suas relações familiares em uma casa em crise. Baseada no romance de Milton Hatoum, a narrativa ocorre na cidade de Manaus e fala sobre a história de uma família de imigrantes libaneses.
O curta acompanha dois amigos que se encontram para comer um bodó. A conversa entre eles percorre as cores e os cheiros das casas, no calor da cidade de Manaus.
A novela conta a história de três jovens dispostos a explorar um novo mundo. À procura de pessoas queridas que desapareceram sem explicações, eles se conhecem e descobrem que é preciso ir muito além do horizonte para desvendar os mistérios que envolvem suas famílias.
A produção teve algumas cenas gravadas em Manaus, onde a floresta e suas grutas, rios e cachoeiras serviram de cenário para contar o início da trama.
Onde assistir: Globoplay
Antes o tempo não acabava
O longa acompanha a história de Anderson, um jovem rapaz que possui raízes na etnia indígena saterê. Quando ele se muda para Manaus e vai morar na cidade grande, ele começa a se ver preso entre os embates culturais das tradições do mundo de onde veio e cresceu, os costumes urbanos e o complexo e conturbado cotidiano da metrópole.
Onde assistir: atualmente está indisponível em streamings
Grupo busca viabilizar retomada de atividades do Trem de Santana. Foto: Jorge Júnior/Rede Amazônica AP
Em dezembro de 2014, o trem de carga da estação de Santana circulou pela última vez na Estação Ferroviária do Amapá. Em 2015, os serviços para passageiros também encerrou. Desde então, os mais de 380 vagões de carga e o trem de passageiros estiveram abandonados, espalhados por áreas onde passa o trilho, que passaram a fazer parte dos quintais de moradores da região.
Construída entre 1954 e 1957, pelas empresas Indústria e Comércio de Minério S.A. (ICOMI) e a Bethlehem Steel Company, seus trilhos serviam de caminho para os trens que transportam minério (manganês) extraído entre a Serra do Navio e Santana.
Esta é a única estrada de ferro em bitola standard (largura determinada pela distância medida entre as faces interiores das cabeças de dois trilhos em uma via férrea), com 1,435 m, no Brasil. O percurso é de pelo menos 194 quilômetros, passando por cinco localidades amapaenses.
Região ao entorno dos trilhos é habitada por moradores. Foto: Jorge Júnior/Rede Amazônica AP
Após alguns anos, já em 1980, a Bethlehem vendeu sua participação para a Caemi e a exploração de manganês foi encerrada 17 anos depois. Assim, com o encerramento das minas da ICOMI, iniciou-se o processo de sua desativação gradualmente.
Somente em 2006 uma nova empresa assume a administração da Estrada de Ferro: a MMX Mineração e Metálicos. Mesmo com os diversos planos de investimento para a recuperação, dois anos depois a MMX foi vendida para a Anglo American. Mais um hiato se passou e, em 2013, a Zamin assumiu o controle.
Com a crise financeira na empresa, após o desabamento do porto particular em 2013, o governo estadual decretou, em 2015, a extinção do contrato da mineradora com a ferrovia. A fiscalização e a concessão voltou para o poder público, ficando na responsabilidade da Secretaria de Estado de Transportes (Setrap). A DEV Mineração foi quem assumiu as operações do setor mineral no estado em 2019. Em 2021, foi levantada uma proposta de possível reativação, no entanto, o projeto não teve continuidade.
Recuperação
A reestruturação do trem e a revitalização da estação de Santana será discutida em uma audiência pública nesta sexta-feira (30) na Câmara de Vereadores do município. O evento está marcado para iniciar às 9h e o debate é aberto à população em geral.
A discussão é promovida pelo movimento ‘Eu vou de Trem’, tendo em pauta a valorização da estrada de ferro, do turismo e movimentação na economia local.
Reativação da ferrovia de Santana vai ser discutida em audiência publica. Foto: Reprodução/Arquivo Setrap
Ester de Paula, representante do movimento ‘Eu vou de Trem’, disse que durante a reunião serão debatidas a revitalização dos vagões e o resgate da história. Além disso, o trem deve percorrer em um trecho curto.
Luiz Antônio Gonçalves, também representante do movimento, disse que o intuito é resgatar a história da estrada de ferro, que vem se deteriorando com o tempo. Ele explicou ainda que o movimento deve sair da audiência com um grupo de trabalho já firmado, para que o projeto siga em plano de desenvolvimento.
*Com informações do Acervo da Rede Amazônica AP e Isadora Pereira, do g1 Amapá
Produto é rico na biodiversidade do local. Foto: Divulgação/Ataic
Uma nova forma de movimentar a economia foi adotada pela população da Ilha das Cinzas, em Gurupá (PA), a partir de frutos e sementes oleaginosas. Com os recursos únicos e naturais da região, foi aprimorado o agroextrativismo pela população. A essência única desses produtos é vendida para grandes empresas de produção de cosméticos.
A realidade dos agroextrativistas do Arquipélago do Marajó mudou por conta das sementes e castanhas oleaginosas da Amazônia como patauá, andiroba, muru-muru e ucuúba. A essência do produto é de alta demanda no meio estético, com componentes que enriquecem a pele e o cabelo.
Nete Cardoso descobriu essa nova forma de sustento no pequeno pedaço da imensidão de riquezas naturais. Em 2015, ela passou a trabalhar com agroextrativismo.
“A vida da minha família mudou. Consegui comprar placa solar pra minha casa. Agora também tenho máquina de lavar e não preciso mais lavar a roupa nas mãos”, disse a agroextrativista.
Nete Cardoso trabalha como agroextrativista há pelo menos 10 anos. Foto: Divulgação/Ataic
A Amazônia é o bioma mais rico em biodiversidade do planeta e compreende o conjunto de ecossistemas que correspondem à Floresta Amazônica, a maior floresta tropical do planeta, e também a Bacia Amazônica, considerada a maior bacia hidrográfica do mundo.
Associação dos trabalhadores agroextrativistas
Nete faz parte da associação dos trabalhadores agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), que atende mais de 400 famílias no Arquipélago do Marajó e atua há mais de 25 anos gerando oportunidades de renda para as famílias locais.
No dia 23 de maio, a Ataic inaugurou a primeira agroindústria em área de várzea do país. O objetivo, agora, é triplicar o número de famílias atendidas pela iniciativa.
Hoje, a empresa conta com uma estrutura totalmente nova, com máquinas que fazem a extração de óleo das castanhas e sementes.
Sede da Ataic, na Ilha das Cinzas. Foto: Divulgação/Ataic
Com o novo espaço, os agroextrativistas podem vender o produto final, o óleo extraído das sementes. Antes a associação encaminhava as sementes para outra empresa, que fazia a extração do produto.
A nova agroindústria também conta com energia renovável, placas solares foram doadas por uma fabricante de equipamentos elétricos.
“Hoje a gente consegue fazer a entrega da manteiga ou do óleo e ter um resíduo que gera outros produtos. Isso agrega mais valor, gera mais renda e atende mais pessoas no território”, disse Francisco Malheiros, presidente da Ataic.
A dona Nete, que já viu sua vida ser transformada pelas sementes e castanhas oleaginosas da Amazônia, acredita que, a partir de agora, o trabalho desenvolvido pela associação vai avançar ainda mais.
“Receber isso aqui foi uma felicidade imensa pra nós que somos mulheres ribeirinhas e empoderadas. Me sinto muito feliz trabalhando nessa atividade”, completou.
Produto extraído é comercializado pela empresa Natura. Foto: Divulgação/Ataic
A nova agroindústria foi construída em parceria com a empresa ‘natura’ e custou em torno de R$ 2 milhões. O óleo extraído pela Ataic é comprado pela empresa, que trabalha com agroextrativismo na Amazônia desde os anos 2000.
Segundo a Angela Pinhati, diretora de sustentabilidade da indústria de cosméticos ‘natura’, a parceria da companhia com a associação de agroextrativistas da Ilha das Cinzas iniciou em 2015 e segue movimentando a cadeia produtiva do local.
“A gente procurou essas sementes pelos ativos presentes nelas. A nossa ideia é transformar desafio socioambiental em oportunidade de negócio, desenvolvendo as comunidades e preservando a floresta em pé”, afirmou a diretora.
Terçado de infantaria foi levado ao Museu Joaquim Caetano, em Macapá. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP
Uma nota técnica realizada por um pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) revela que a suposta espada curta da infantaria de Napoleão, encontrada por banhistas em um rio de Calçoene, se trata, na verdade, de um terçado de sargento de 1831.
O terçado encontrado foi entregue no dia 27 de maio ao Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva, no centro de Macapá. O terçado vai passar pelo processo de curadoria e limpeza antes de ser exposto à população.
Segundo o Iphan, a arma de modelo francês foi utilizada pelo exército europeu e brasileiro em um extenso período.
O modelo do terçado em questão tinha uma lâmina reta de dois gumes e uma guarnição em latão de uma única peça, assim como a encontrada no rio do interior do Amapá.
O Iphan foi ao encontro de Rafael Gomes, morador de Calçoene, que encontrou o artefato e o matinha guardado em casa, mas expressava interesse em doar o objeto para um museu do estado.
O superintendente do Iphan no Amapá, Michel Flores, explicou que a população, ao encontrar artefatos históricos, deve deixar o objeto no local onde foi encontrado e não o tocar.
O melhor a se fazer, é fotografar o objeto e indicar onde se encontra, para que o Iphan faça a retirada e análise completa.
“É muito importante que uma instituição de guarda e pesquisa receba os materiais, porque se a gente encontra o material e leva para casa, o material vai acabar oxidando, ele vai enferrujar e a gente vai perder. Então além de perder a informação, de tirar o material do seu contexto original, a gente vai acabar perdendo o material e a informação”, disse.
Espada francesa foi encontrada no município de Calçoene. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP
O superintendente explicou que os materiais originais inseridos neste contexto histórico, são o terçado e bainha de couro e ferro.
“Não sabemos se tem outros materiais associados, poderia ter uma farda, poderia ter medalhas, moedas […] A gente não sabe se o contexto em que ele estava, se era uma casa ou se era um contexto em ele pode ter sido perdido. Então existem várias possibilidades sobre a história desses artefatos”, disse.
Michel contou ainda que Rafael vai levar a equipe do Iphan até o local onde o artefato foi encontrado, para que seja feito um estudo aprofundado que busque a origem.
A nota que contextualiza o terçado foi feita pelo historiador Adler Homero Fonseca de Castro, no Rio de Janeiro, no início do mês de maio, para que o artefato pudesse ser transferido para o museu com um contexto histórico. A análise do material foi feita com base em imagens.
“Frisamos que não é impossível que a arma encontrada no Amapá seja um terçado de uso das forças armadas brasileiras, muito possivelmente do 3º Batalhão de Artilharia a Pé, que fazia o serviço de guarnição da fortaleza de Macapá e cujos soldados seriam usados no patrulhamento do interior da região”, diz a nota.
Destaca-se que os terçados de modelo curvo e reto possuem origem francesa, fabricados na França, mas foram comprados pelo exército brasileiro e distribuído para as tropas.
Sobre o terçado encontrado no Amapá
A espada tem uma lâmina reta com uma crista na região central e uma guarnição em latão com uma cruzeta plana e empunhadura com cordões e pomo. Analisando a empunhadura é possível ver os números “654” e “655-2” gravados na cruzeta, que parecem ser números de distribuição dentro de um batalhão ou regimento.
Lâmina de modelo francês em conjunto com a bainha de couro e ferro era usada no Brasil (terçado na cintura do soldado à esquerda). Foto: Reprodução/Iphan
Segundo a análise feita, os números visíveis não são números de série, pois a prática não era realizada em armas brancas.
“Parecem ser números de distribuição dentro de um batalhão ou regimento. Esse dado é relevante, pois indica que foi uma arma efetivamente usada pelo Exército Francês, pois gravar números de distribuição não era uma prática comum no Exército Brasileiro”, aponta Adler na pesquisa.
Ainda segundo o estudo de Adler, a espada encontrada em Calçoene, especificamente, foi possivelmente usada pelo Exército Francês. A datação da espada é entre 1831 e 1866, com uma data mais provável na década de 1830.
Foi averiguado ainda que um desgaste em um dos lados da lâmina, mas não há sinais de uso em combate. A ferramenta está em estado de conservação razoável, sem sinais de oxidação prolongada ou perda grande de material.
História do modelo ‘terçado’
Segundo a pesquisa, o instrumento era utilizado em massa no Brasil colonial e imperial. Devido à necessidade de tropas armadas para combate corpo-a-corpo. Esses instrumentos evoluíram ao longo do tempo e foram empregados em diversas situações.
No século 16, os espanhóis desenvolveram uma especialidade em tropas armadas, com a utilização de espadas curtas, semelhantes ao terçado, e escudos no combate de falanges e piqueiros. Mas o material acabou entrando em desuso na Europa.
No século 17, o uso do terçado era recorrente no Brasil e continuava a ser distribuído entre os mais fortes fisicamente, ou seja, os que partiriam para a luta corporal, sendo eles: os granadeiros – soldados especializados no lançamento de granadas – em sua maioria, além de artilheiros e fuzileiros.
A arma foi utilizada em diversas batalhas e conflitos, incluindo a Guerra dos Guararapes e a Guerra do Paraguai. No entanto, a ferramenta, além de servir para a defesa, era utilizada para outras tarefas pelos artilheiros.
“Além de lhes servir de ornato, de defensa pessoal, e de instrumento para cortar cordas, paus de pouca grossura e consistência, lhes serve também para fazer continências”, diz a pesquisa.
O estudo mostra o uniforme e equipamento utilizado pelos brasileiros, onde é possível observar a lâmina com o soldado granadeiro.
Soldado ‘granadeiro’ à direita da imagem. Foto: Reprodução/Iphan
Alguns modelos, como o sabre de tropas a pé modelo 1831, tinham lâminas retas ou curvas e eram feitos de materiais como aço e latão. O design e funcionalidade dos terçados variaram ao longo do tempo.
“Deve-se observar que a iconografia e os exemplares existentes em museus no Brasil mostram um sabre do modelo francês do ano IX (1801), de lâmina curva, mas há menções documentais à compra de terçados de lâmina reta”, detalha o estudo.
Ainda no século 19, por volta de 1858, a menção aos terçados em lutas passa a diminuir. Foi nesse período que o Brasil passou a adquirir as armas à Minié – rifles carregados pela boca, com maior precisão e alcance – que eram utilizadas junto a um novo tipo de sabe que substituía o terçado.
Esse novo modelo incluía o sabre-serra, que era uma lâmina curta, reta, com o dorso serrilhado, que podia ser usado como facão e como serrote.
A história aponta que este tipo de arma também era utilizada para reprimir indígenas e quilombolas, pelos ‘pedestres’. Estes eram soldados que andavam constantemente em região de mata e usavam os terçados como facões para se deslocarem na floresta.
Terçado foi encontrado no município de Calçoene. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP
Linguiça feita com peixe. Foto: Agaminon Sales/Rede Amazônica RO
Nara Souza apresentou uma nova alternativa de alimento na 12ª edição da Rondônia Rural Show Internacional, que acontece durante esta semana em Ji-Paraná (RO). A piscicultora criou uma linguiça feita com peixe, unindo tradição regional e inovação alimentar.
Natural de Itacoatiara (AM) e morando em Rondônia desde a adolescência, Nara transformou sua paixão pela culinária e o conhecimento adquirido como fisioterapeuta em um projeto inovador que nasceu dentro das escolas públicas. Foi durante o preparo de peixe para a merenda escolar que ela começou a testar maneiras de aproveitamento dos filés com espinhas.
“Como a gente prepara muito peixe para a merenda escolar, tirava os filézinhos que vinham com espinhas, e aí eu fiquei tentando ver o que eu poderia fazer. Comecei a fazer tipo como se fosse sardinha. Deu certo, porém, como que eu ia fazer enlatado? Depois eu pensei: tem que fazer embutidos. Aí chamei uma senhora que dá cursos pelo Senar. E aí eu comecei”, explicou.
A criação deu tão certo que atualmente ela oferece cinco tipos diferentes de linguiça de peixe: a Rondonice, feita com pimenta biquinho e queijo de coalho; a apimentada; a tradicional, sem pimenta; a recheada; e a frescal, mais fina. Todos os produtos são feitos a partir de pirarucu ou tambaqui, peixes nativos da região amazônica.
Nara conta que foram quase três anos para desenvolver a linguiça, entre testes, criação de sabores e a burocracia de rotulagem e legalização do produto. Hoje, ela chega a produzir entre 300 e 500 quilos, dependendo da demanda. A piscicultora já participou de feiras internacionais e está em processo de ampliação da produção para atender grandes compradores.
“Estamos nessa batalha há dois anos pra três anos, fazendo pra ter o melhor sabor. Tirando as rotulagens, tirando a documentação, pra que a gente possa levar esse produto todo legalizado, todo registrado, pra poder levar pro comércio”, contou.
Filha de ribeirinho, ela afirma que sua história com o peixe vem desde sempre, mas foi em Rondônia que encontrou espaço para empreender, inovar e educar. Para ela, o projeto é também uma forma de levar dignidade à mesa dos estudantes.
“Você vê que muitas crianças vão pra escola e aquilo ali é o que elas têm pra comer. Muitas vezes elas repetem, pedem do amigo, querem levar pro irmão. Isso me sensibilizou muito”.
Nara Souza e a linguiça feita com peixe. Foto: Agaminon Sales/Rede Amazônica RO
A paixão pela culinária e pela transformação social segue guiando a piscicultora, que já desenvolve também bolinhos de peixe e receitas diversas como lasanha, escondidinho, estrogonofe e até vatapá com base de pescado.
“Eu tive que inovar. Você vender peixe pra criança que já tá acostumada com comida mais fácil, você tem que inventar. Hoje eles comem almôndega, macarronada de peixe, e repetem. E ainda perguntam: ‘tia, é frango?’ Eu digo: ‘não, é peixe'”.
Apesar de ainda não serem distribuídas nas escolas, a produtora trabalha para que as linguiças de peixe possam, em breve, chegar à merenda escolar. Segundo ela, a preocupação com a saúde das crianças e adolescentes é o que guia o desenvolvimento das receitas, que são acompanhadas por uma nutricionista.
Além disso, a empreendedora informou que suas linguiças são mais saudáveis quando comparadas às versões tradicionais do mercado, por não levarem gordura animal.
A 12ª edição da Rondônia Rural Show Internacional (RRSI), maior evento de agronegócio da região Norte, começou na segunda-feira (26) e segue até o dia 31 de maio, em Ji-Paraná (RO), na região central do estado.
O tema desta edição é “Do campo ao futuro”. Mais de 650 expositores do estado e de diversas partes do Brasil vão apresentar inovações tecnológicas e as principais tendências do agronegócio.
A feira, realizada anualmente desde 2012, promove o desenvolvimento sustentável e tecnológico da agropecuária, aproximando agricultores, empresários e o público em geralde. De acorodo com o governo de Rondônia, ela é reconhecida nacional e internacionalmente por impulsionar a economia agropecuária do estado, atraindo milhares de visitantes, produtores e investidores.
As novidades para a edição de 2025 são: mais lotes para expositores; um novo portal de acesso; setor pecuário maior; novo pavilãho de Pecuária de Corte; retorno do Pavilhão da Piscicultura; uma trilha no bosque para atividades de educação ambiental.
Na sua primeira edição, a feira movimentou cerca de R$ 186 milhões em negócios. Hoje, se consolidou como uma das mais importantes da região Norte, movimentando bilhões de reais e destacando a força do agronegócio rondoniense.
Segundo a Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri), a expectativa é que a Rondônia Rural Show 2025 supere os resultados das edições anteriores em volume de negócios.