Evento de lançamento do estudo sobre transição verde do Brasil contou com a participação de diversos especialistas, brasileiros e internacionais. Foto: Reprodução/Instituto Clima e a Sociedade
O Instituto Clima e a Sociedade (iCS), em parceria com a London School of Economics (LSE), lançaram o estudo “Brazil’s Investment-led Growth in the Ecological Transition”, que coloca o país como a principal referência na América Latina para liderar a transição verde, que é a mudança global rumo a energia de baixo carbono.
O relatório aponta os pontos fortes naturais e industriais da maior economia do continente sul-americano para impulsionar o crescimento econômico, criar empregos e expandir a inclusão social. De acordo com Maria Netto, diretora executiva do iCS, o intuito do documento é incentivar o país a utilizar suas vantagens para a transição verde.
“O relatório não propõe um afastamento da conservação, nem um modelo tradicional de industrialização pesada. Propõe que o Brasil faça melhor uso das vantagens que já possui: um sistema de energia elétrica em grande parte renovável, capacidade agrícola de classe mundial, experiência com biocombustíveis, potencial de restauração, capital natural e capacidades industriais relevantes”, explica Maria.
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Netto reforça que a proposta do estudo é mostrar que o Brasil possui todas as garantias para se tornar a principal liderança da transição verde.
“O Brasil pode oferecer segurança ao mundo em três áreas-chave: energia limpa, em larga escala e com previsibilidade, além de biocombustíveis sustentáveis para o transporte global; minerais críticos obtidos com responsabilidade social e ambiental; e segurança alimentar inovadora. Essas soluções apresentadas no estudo garantem resiliência nas cadeias produtivas, estabilidade de preços e mitigação dos riscos de conflitos associados aos recursos naturais”, completa Maria.

Sobre o estudo da transição verde
Os especialistas autores do estudo são Luiz Awazu Pereira da Silva, professor visitante no Centre for Economic Transition Expertise (CETeX) da LSE e autor principal; Jorge Arbache, professor de Economia da Universidade de Brasília e senior fellow do iCS; Rodrigo C. A. Lima, sócio-diretor da Agroicone; Fernanda Gimenes, pesquisadora sênior líder em Mobilização de Capital Privado no Centre for Economic Transition Expertise (CETeX) da LSE; e Manoel de Castro Pires, pesquisador sênior do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE).
Os autores enfatizam ainda que o sucesso depende de fatores importantes: “para concretizar essas oportunidades, será necessário resolver gargalos de infraestrutura, reduzir riscos de investimento, fortalecer a capacidade de implementação, melhorar a segurança jurídica e dar continuidade aos esforços para combater o desmatamento ilegal”.
Luiz Awazu Pereira da Silva afirmou que as mudanças climáticas, a transformação tecnológica e a fragmentação geopolítica estão remodelando os padrões globais de investimento. “A questão é se o Brasil conseguirá converter suas vantagens estruturais em investimentos sustentáveis, crescimento da produtividade e desenvolvimento econômico”, avalia.
Para Jorge Arbache, o modelo da produção está mudando. “O mundo está saindo de uma era em que a energia era transportada para a indústria para uma em que a indústria buscará cada vez mais a energia limpa. Essa mudança pode redefinir as cadeias de valor globais nas próximas décadas.”
Fernanda Gimenes lembrou que, com muita frequência, as discussões sobre a transição ecológica se concentram nas lacunas de financiamento. “Esse artigo defende que, para países como o Brasil, a transição também deve ser entendida como uma oportunidade de investimento. O desafio é criar as condições que permitam que o capital nacional e internacional invista em grande escala nos setores que moldarão a economia global do futuro”.
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Investimento e crescimento
O investimento global na transição climática ultrapassou US$ 4 trilhões em 2024 e deve crescer acentuadamente na próxima década. Estima-se que um montante entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões seja direcionado anualmente para setores nos quais o Brasil já possui forte potencial competitivo, incluindo aço verde, combustíveis sustentáveis, fertilizantes de baixo carbono, energia renovável, materiais industriais, agricultura regenerativa e produtos de base biológica. O estudo estima que captar mesmo uma parcela modesta do investimento global em transição poderia elevar o crescimento anual do PIB brasileiro em cerca de 1 a 1,5 ponto percentual, além de impulsionar as exportações, aumentar a arrecadação fiscal e ampliar a geração de empregos formais.
Mais do que apenas um fornecedor de commodities agrícolas ou minerais de margens mais baixas, o Brasil é hoje capaz de oferecer soluções estruturais para desafios globais, argumentam os autores do relatório. Esse debate envolve temas como a expansão de fertilizantes verdes e biofertilizantes; a reorganização industrial baseada em energia limpa; o fortalecimento de cadeias de valor mais resilientes; a cooperação entre países do Sul Global; e o avanço do Powershoring — um modelo no qual as indústrias se aproximam de regiões capazes de oferecer energia renovável, estabilidade e menor intensidade de carbono; entre outros.
“O Brasil tem uma oportunidade histórica de alinhar crescimento econômico, liderança climática e progresso social”, conclui o relatório. “A transição ecológica pode se tornar uma plataforma para a reindustrialização e para um novo ciclo de desenvolvimento inclusivo.”
O evento de lançamento do estudo foi transmitido no canal de Youtube do iCS e contou com a participação de diversos especialistas, brasileiros e internacionais, para discutir sobre o crescimento do Brasil e investimento na transição ecológica.
*Com informações do Instituto Clima e a Sociedade.
