Pluma do rio Amazonas diminiu salinidade do mar em cerca de 9%, aponta estudo. Foto: European Space Agency / Wikimedia Commons
O Amazonas é o maior rio do planeta e responde por cerca de um quinto de toda a água doce que chega ao oceano. Essa descarga gera a pluma do rio Amazonas, que alcança até mesmo áreas a centenas de quilômetros da foz através das correntes marítimas. Um estudo publicado na revista científica internacional Global Biogeochemical Cycles no dia 30 de setembro por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) mostra que a água doce da pluma diminui a salinidade média do Atlântico Tropical Oeste em cerca de 9%. Isso favorece a absorção de dióxido de carbono da atmosfera, o CO₂, pelo oceano.
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A influência da pluma é maior no período de chuvas na Amazônia, quando há descarga de água doce no oceano em maior volume. Como efeito, há redução da salinidade em até 11% e de diferentes componentes da química do carbono na região entre 8% e 10%.
Rica em nutrientes, a pluma também estimula o desenvolvimento do fitoplâncton, microrganismos que são a base da cadeia alimentar marinha e que realizam fotossíntese a partir da captura do CO₂, que é o gás mais associado ao efeito estufa. Já na estação seca, o fitoplâncton está menos abundante por conta da menor influência da pluma e, portanto, tende a absorver menos o CO₂.
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A equipe analisou dados coletados entre 1991 e 2019 por pesquisadores de diferentes países e disponibilizados em bancos internacionais — obtidos por cruzeiros organizados pela comunidade científica e por equipamentos instalados em navios mercantes com rotas no Atlântico. A partir de parâmetros como salinidade, temperatura e quantidade de CO₂ na superfície do mar e na atmosfera, os cientistas estimaram a contribuição percentual da pluma sobre diferentes variáveis químicas do oceano, como alcalinidade, pH e concentração de carbono inorgânico dissolvido.

Eles compararam as médias das condições do Atlântico durante os quase 30 anos de dados com as médias da região diretamente influenciada pela pluma para identificar diferenças entre elas nos períodos seco e chuvoso.
O artigo é derivado da dissertação de mestrado de Matheus Batista sob orientação dos professores Eunice Machado e Rodrigo Kerr da FURG e conta com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de Sorbonne (França).
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Batista e o pesquisador Thiago Monteiro, professor da UFBA e coautor da pesquisa, explicam que o trabalho é pioneiro em quantificar a contribuição da pluma do rio Amazonas sobre as variáveis químicas do oceano a partir de dados observacionais — estudos anteriores trabalharam a partir de modelos computacionais, que simulam como a região seria sem a existência do rio.
“Este trabalho mostra que o que acontece na foz do Amazonas e na margem equatorial gera impacto em uma área muito grande no oceano Atlântico”, frisa Monteiro.
Artigo é continuidade dos estudos sobre a pluma do rio Amazonas
O artigo dá continuidade às pesquisas da equipe, que já havia investigado as trocas de CO₂ na região da pluma, mas ainda não havia se debruçado sobre a influência das demais variáveis nesse processo. Batista observa que a salinidade é a primeira variável do oceano afetada pelo rio Amazonas, já que a água doce dilui a salgada. Apesar de o estudo não avaliar impactos diretos da química do carbono na vida marinha, a diminuição da salinidade está relacionada, por exemplo, ao aumento do pH, importante para a formação de conchas ou esqueletos em organismos como corais e moluscos.
A equipe pretende agora entender a influência da pluma ao longo da coluna d’água, para além da superfície, além de investigar a variação temporal dos parâmetros para além da média calculada na pesquisa atual. “Ainda não sabemos se o percentual de diminuição desses parâmetros varia ao longo do tempo. Então o próximo passo seria colocar essa informação em modelo para estimar as tendências”, detalha Monteiro.
A continuidade dos estudos pode ajudar a avaliar possíveis efeitos das mudanças climáticas no Atlântico, especialmente com a mudança do regime de chuvas na Amazônia.
“Já sabemos que o período chuvoso está ficando mais intenso, aumentando a influência da pluma, e no período seco está havendo menos chuva do que deveria, então há menos influência da pluma. E isso tem um impacto nos fluxos de CO₂ e nas variáveis do sistema carbonato”, conclui Batista.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
