Entre versos e saberes do campo, “Seu Ceará” transforma defesa de TCC em formato de cordel em experiência acadêmica na Unifesspa. Foto: Divulgação/Unifesspa
“Eu sou migrante nordestino / filho de agricultor”.
Foi assim, em versos, que Francisco Valter Pinheiro Gomes começou a contar sua história. Não apenas a história registrada nas páginas de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mas a própria trajetória que o levou até a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).
Conhecido como “Seu Ceará”, Francisco Valter escolheu uma forma pouco convencional para apresentar o resultado de sua formação na Licenciatura em Educação do Campo: recitou seu TCC em cordel. Em vez de transformar a defesa em uma sequência convencional de tópicos e slides, levou para diante da banca uma linguagem que atravessa sua vida, sua cultura e sua relação com o campo.
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E a banca também entrou no verso. Na defesa pública, realizada em 28 de agosto de 2026, o professor Diego de Macedo Rodrigues, membro da comissão avaliadora, fez toda a sua arguição rimando, também em formato de cordel.
O que poderia ser apenas uma etapa formal da graduação ganhou outra dimensão: tornou-se um encontro entre ciência e poesia, entre conhecimento acadêmico e experiência de vida, entre a universidade e os saberes que chegam a ela a partir dos territórios.

A defesa reuniu ainda os professores Amintas Lopes da Silva Junior, orientador e presidente da banca, Ailce Margarida Negreiros Alves e Hiran de Moura Possas.
Um TCC que começa antes da universidade
O trabalho apresentado por Seu Ceará tem como título ‘Territórios de esperança: resistindo ao avanço do capital na fronteira e à violência no campo’. Elaborado no curso de Licenciatura em Educação do Campo, com ênfase em Ciências Agrárias e da Natureza, o estudo discute o avanço do capitalismo autoritário no Sul e Sudeste do Pará, os processos de expropriação e violência no campo e, em contraponto, as possibilidades construídas pela agroecologia, pela Educação do Campo e pelas lutas dos povos do território. Mas a pesquisa começa muito antes da escrita acadêmica.

No próprio TCC, Francisco Valter se apresenta como migrante nordestino e filho de agricultor. Conta que nasceu em Quixadá, no Ceará, cresceu convivendo com a seca e aprendeu desde cedo o trabalho da roça. Sua narrativa passa pela migração para o Pará, pela luta por terra, pela organização comunitária, pela criação de uma associação e pela construção de uma escola em um barracão para que as crianças da comunidade pudessem estudar.
A universidade aparece, nessa trajetória, como resultado de uma luta que não começou dentro dela. Francisco Valter conta que participou de discussões pela criação da Unifesspa e acompanhava as primeiras turmas da Educação do Campo. Participava de mesas, palestras e atividades do curso, até que alguém lhe fez uma pergunta que acabaria mudando sua própria trajetória: por que ele não estava estudando? Ele decidiu tentar.
Ingressou pelo Processo Seletivo Especial e, segundo seu próprio relato, foi aprovado em primeiro lugar. A chegada à universidade, entretanto, trouxe desafios. Entre eles, aprender a lidar com computador, escrita acadêmica e normas como a ABNT. Mas, ao longo do percurso, também aconteceu outra descoberta: o conhecimento que ele trazia do campo não precisava ser deixado do lado de fora da universidade.
“No diálogo com doutores e mestres / eu fui logo percebendo / que o camponês também sabe / aí eu fui no saber crescendo”.
A passagem sintetiza uma dimensão central de sua formação: o encontro entre os conhecimentos construídos na experiência e aqueles sistematizados pela ciência.
Quando a experiência de vida também vira conhecimento
Ao longo do curso, Seu Ceará relata o contato com conteúdos relacionados ao território, agricultura, solos, plantas, sistemas agroflorestais, trabalho, exploração da mão de obra, Estado, política, educação e políticas públicas. A formação, segundo ele, foi construindo uma ponte entre teoria e prática.
“Com teoria e prática / eu fui me apropriando / do conhecimento científico / para continuar lutando / hoje eu estou aprendendo / amanhã estou ensinando”.
É também nesse processo que aparece a ideia de sua formação como educador do campo. O TCC registra que, ao concluir a graduação, ele se sente preparado para assumir essa que chama de sua “velha e nova profissão”. A escolha do cordel, portanto, não surge como recurso meramente estético. Ela está relacionada à própria concepção do trabalho.
Entre os objetivos específicos da pesquisa, Francisco Valter estabelece a intenção de valorizar a literatura de cordel e sua pedagogia na Educação do Campo, além de reafirmar a Educação do Campo como direito e como processo que não acontece somente dentro da escola, mas também no viver e no fazer das comunidades. Em outro momento, ele explica diretamente a opção pela linguagem:
“Este trabalho é narrado / na forma de TCC / onde busco na pesquisa / os versos que vou fazer / com cultura e ciência / vamos agora escrever”.
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O orientador e a construção de uma ponte
Nesse percurso, o papel do orientador, professor Amintas Lopes da Silva Junior, aparece de maneira especialmente significativa. Nos agradecimentos, Francisco Valter não apenas registra sua gratidão ao professor. Ele descreve uma relação de orientação marcada pela escuta e pelo reconhecimento dos saberes que o estudante trazia consigo:
“Ao professor Amintas, meu orientador que, com sabedoria, escuta e respeito, soube caminhar comigo, valorizando os saberes do campo como parte essencial do conhecimento”.
A afirmação ajuda a compreender a própria natureza do trabalho. A orientação não significou apenas conduzir um estudante pelas etapas formais de elaboração de um TCC. Foi também acompanhar a construção de uma pesquisa em que memória, experiência, cultura popular e conhecimento científico pudessem coexistir.
Essa perspectiva está presente desde as primeiras páginas. Seu Ceará define sua introdução como um memorial escrito em cordel e afirma que, para ele, essa linguagem é cultural. O resultado é um trabalho que não esconde a trajetória pessoal de seu autor. Ao contrário, faz dela uma das chaves para compreender o objeto da pesquisa.

A banca também entrou no cordel
Foi diante dessa construção que aconteceu a defesa. Seu Ceará apresentou o trabalho em versos. E a resposta da banca veio na mesma linguagem. A participação do professor Diego de Macedo Rodrigues, do Instituto de Estudos em Desenvolvimento Agrário e Regional (IEDAR), ganhou uma dimensão particular ao realizar toda a arguição também em cordel.
A cena estabelece um diálogo raro dentro de uma defesa acadêmica: o estudante apresenta sua pesquisa a partir de uma linguagem que reconhece como própria, e o professor avaliador responde utilizando a mesma forma poética. Não se tratava, porém, de abandonar a universidade ou os procedimentos de avaliação. Tratava-se de permitir que a própria defesa encontrasse uma linguagem coerente com o trabalho que estava sendo apresentado. O cordel, nesse caso, não estava à margem da pesquisa. Fazia parte dela.
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Cinco atos para contar uma Amazônia em disputa
O próprio TCC é estruturado como uma narrativa em atos. Seu Ceará organiza a pesquisa em cinco movimentos:
- “Expropriação, conflito e resistência”;
- “O poder, o Estado e o mercado”;
- “A violência no campo é a história que todos contam”;
- “A besta fera é o capital autoritário”;
- e “Território de esperança ou Educação do Campo e agroecologia”.
Ao longo dos capítulos, dialoga com autores e pesquisas sobre a formação territorial da Amazônia e do Sul e Sudeste do Pará, a expansão do agronegócio, a expropriação, os conflitos fundiários e a violência no campo. Mas a narrativa não termina na denúncia.
No último movimento, o autor desloca o olhar para aquilo que chama de “territórios de esperança”, aproximando agroecologia, Educação do Campo, soberania alimentar, conhecimentos tradicionais e formas de resistência construídas pelos povos do campo. Essa perspectiva também aparece no resumo do trabalho, que anuncia a agroecologia e a Educação do Campo como caminhos para a construção desses territórios de esperança. É uma característica importante da pesquisa: Seu Ceará escreve sobre conflitos e violência, mas também escreve sobre aquilo que nasce da resistência.
Uma universidade que também aprende com seus estudantes
A experiência de Francisco Valter dialoga profundamente com o sentido da Educação do Campo: uma formação que reconhece os sujeitos, os territórios e os conhecimentos que historicamente foram produzidos fora dos espaços acadêmicos tradicionais.
Na trajetória narrada pelo próprio estudante, a universidade não aparece como o lugar onde ele finalmente deixou para trás aquilo que sabia. Aparece como o espaço em que esses saberes puderam encontrar novas ferramentas, conceitos e possibilidades de sistematização. É por isso que sua defesa ganha significado para além da cerimônia de conclusão de curso.
Quando Seu Ceará recita seu TCC, ele não está apenas apresentando uma pesquisa. Está também apresentando a trajetória de um agricultor que chegou à universidade, aprendeu a linguagem acadêmica sem abandonar a sua própria linguagem e transformou a experiência do campo em objeto de reflexão científica.
E quando um professor da banca responde em cordel, estabelece-se uma imagem potente dessa universidade: aquela que não apenas ensina, mas também escuta, dialoga e reconhece que o conhecimento pode chegar por diferentes caminhos. A própria dedicatória do trabalho traduz essa concepção. Francisco Valter dedica sua pesquisa aos povos do campo, das águas e das florestas e aos mestres e mestras que lhe ensinaram que “o saber não cabe somente entre quatro paredes, mas se faz no caminho, no trabalho e na partilha”.
Talvez seja essa a imagem que melhor permaneça daquela defesa. Um agricultor que virou estudante, um estudante que virou pesquisador e um pesquisador que, diante da universidade, decidiu não deixar sua voz do lado de fora.
Na Unifesspa, naquele dia, o TCC virou cordel. E o cordel virou também uma forma de dizer que há conhecimento na terra, na memória, na experiência, na luta, na oralidade e na poesia — e que a universidade pode ser o lugar onde esses saberes se encontram, dialogam e ganham novas formas de existência. Seu Ceará esboça um voo de pássaro.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Unifesspa.
