Transição energética na Amazônia enfrenta isolamento e desigualdade

Estudo da Universidade do Estado do Pará (UEPA) mapeou o perfil de sustentabilidade energética dos nove estados da Amazônia Legal.

Na Amazônia, a energia limpa das hidrelétricas contrasta com comunidades ainda dependentes do diesel. Foto: Nareeta Martin/Unsplash

Um novo estudo brasileiro, publicado na urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, revela que a transição energética na Amazônia Legal enfrenta realidades muito distintas, que variam da extrema dependência de fontes fósseis a matrizes altamente diversificadas. A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade do Estado do Pará (UEPA).

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A região, que concentra uma imensa riqueza de recursos naturais e abriga mais de 30 milhões de pessoas, vive um cenário de contrastes diários na forma como consome energia.

Enquanto grandes usinas hidrelétricas instaladas ali exportam eletricidade renovável para o restante do país, milhares de famílias em comunidades isoladas amazônicas ainda dependem da queima rotineira de óleo diesel para iluminar suas casas. Essa limitação estrutural encarece o custo de vida e eleva as emissões de carbono em um bioma vital para o clima global.

Leia também: Amazônia abastece país com energia, mas quase 3 milhões de moradores da região dependem de fósseis

Para entender essa assimetria, a equipe analisou indicadores ao longo de duas décadas, unindo dados ambientais, sociais e econômicos. A abundância de rios, ventos e sol não se mostrou suficiente para resolver o problema automaticamente. O grande gargalo regional é a falta de tecnologia acessível, a ausência de infraestrutura de distribuição e a gestão desigual dos recursos gerados.

“Muita gente pensa que a Amazônia é tudo igual, mas cada estado é diferente. Por mais que existam grandes hidrelétricas, como no estado do Pará, a maioria dessa oferta de energia não vai para a Amazônia Legal, mas, sim, para os outros estados. Além disso, as tecnologias de energia renovável ainda são caras para serem custeadas, principalmente pela nossa população”, explica Lucas Nunes, autor principal do estudo.

O mapeamento também expôs o impacto direto do rápido crescimento urbano sobre o meio ambiente amazônico. Municípios que atraem mais habitantes demandam mais transporte, bens e serviços. Sem um planejamento ágil, essa pressão esgota recursos naturais, eleva o consumo energético e multiplica rapidamente a poluição atmosférica regional.

“Quanto mais pessoas crescem em um estado ou num município, mais recursos são necessários para sustentá-las. O problema não é a urbanização em si, mas a urbanização em excesso. É preciso obter tecnologia para ter uma matriz mais diversa, incluindo a eólica, a solar e a biomassa, para minimizar esses impactos”, destaca o pesquisador.

energia na amazônia
Foto: Vandenilson dos Anjos/ Rede Energia e Comunidades

Família de regiões remotas na Amazônia são mais dependentes

Muitas famílias ficam reféns das opções mais poluentes simplesmente porque o acesso a alternativas seguras depende de redes logísticas complexas. Regiões remotas da bacia amazônica sofrem ainda mais com essa dependência porque não estão conectadas à rede nacional de distribuição de energia elétrica, o que requer soluções de transporte custosas para garantir o básico diário.

“A região amazônica tem uma composição florestal bem densa, e isso dificulta o acesso à energia. Para suprir essa limitação, é preciso investir na geração de energia descentralizada ou distribuída, que está mais próxima de nós e não precisa de grandes áreas, sendo atrelada ao convívio daquela comunidade”, ressalta Nunes.

Para mudar esse quadro, os governos estaduais e o Governo Federal precisam integrar as dimensões econômica, social e ambiental em seus atos normativos. Ferramentas recentes de monitoramento de dados, como o Atlas Brasileiro da Transição Energética, lançado de forma inédita pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no primeiro semestre de 2025, auxiliam na coordenação das políticas e no mapeamento de vocações locais.

O futuro socioeconômico da Amazônia depende de estratégias descentralizadas que transformem resíduos, luz solar e ventos locais em energia acessível para quem realmente vive no território.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

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