Como os rios de água barrenta, preta ou clara influenciam na alimentação das populações do Amazonas

O jaraqui é um dos peixes mais consumidos no Amazonas. Foto: Matheus Castro/Acervo Rede Amazônica AM

O tipo de rio pode ajudar a explicar a diversidade de peixes encontrados nas mesas dos amazonenses. Essa é a relação apresentada pelo gastrônomo carioca Thiago Loeser, criador do projeto Odisseia Gourmet, que analisou como as características das águas da Amazônia estão ligadas aos ambientes, à biodiversidade e aos hábitos alimentares de diferentes regiões do estado.

Em um vídeo que ganhou repercussão nas redes sociais, Loeser defende que o Amazonas não possui uma única culinária, mas diferentes formas de alimentação construídas a partir da relação das populações com os rios. Segundo o gastrônomo, fatores como composição da água, temperatura e origem dos rios ajudam a entender por que determinadas espécies são mais presentes em algumas áreas da Amazônia.

“No Amazonas, quem manda na cozinha não é só o rio, e sim o tipo de rio. Lá existem três tipos de água e cada uma monta uma mesa completamente diferente”, sintetiza Loeser.

A relação, porém, é mais complexa para a ciência. O pesquisador e doutor em ecologia aquática Edinbergh Caldas de Oliveira explica que, embora os rios tenham características próprias, muitas espécies de peixes circulam por diferentes ambientes e não ficam restritas a um único tipo de água.

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Gastrônomo carioca, Thiago Loeser é criador do projeto Odisseia Gourmet, que aborda sobre alimentos brasileiros, inclusive da região amazônica. Foto: Reprodução/Youtube-Odisseia Gourmet

Como os diferentes tipos de água formam ambientes distintos

A análise apresentada por Thiago Loeser considera conceitos da limnologia, ciência que estuda as águas continentais. As características dos rios influenciam os ambientes onde vivem plantas e animais e ajudam a explicar a relação entre natureza, pesca e alimentação.

As águas barrentas, como as do Rio Solimões, nascem na Cordilheira dos Andes e chegam à Amazônia carregadas de sedimentos e minerais. Com coloração semelhante a um “café com leite”, elas fertilizam as áreas de várzea durante os ciclos de cheia e seca. Esse ambiente favorece a agricultura ribeirinha e também abriga espécies de grande porte e importância comercial, como o tambaqui.

Já as águas pretas, como as do Rio Negro, têm coloração escura, semelhante à de um chá forte. São águas mais ácidas e com pouca quantidade de sedimentos minerais. Apesar da aparência, o Rio Negro abriga uma das maiores biodiversidades de peixes do planeta. A presença de espécies menores e com populações reduzidas ajudou a transformar Barcelos em referência mundial no aquarismo e na pesca sustentável do peixe-cardinal.

Os rios de água clara também fazem parte da diversidade amazônica e apresentam características próprias, que influenciam os ambientes encontrados em cada região.

Leia também: Conheça as diferentes cores de águas em rios da Amazônia e entenda suas mudanças

O encontro das águas mostra diferenças entre os rios

Encontro das águas
Encontro das águas no Amazonas — Foto: Reprodução/G1 Amazonas

Um dos exemplos mais conhecidos da diversidade dos rios amazônicos está em Manaus, no encontro das águas dos rios Negro e Solimões. O Rio Negro tem água mais quente, ácida e com movimento mais lento. Já o Solimões possui água mais fria, densa e rápida.

As diferenças entre eles fazem com que os rios sigam lado a lado por quilômetros antes de se misturarem completamente. O fenômeno ocorre pela diferença de densidade das águas e se tornou uma das paisagens naturais mais famosas da Amazônia. Ao g1, Thiago Loeser contou que o projeto nasceu da vontade de mostrar a gastronomia como uma forma de entender a cultura e o ambiente de cada região.

“Quando vou decidir os temas de uma região, tento ir além da receita típica. Como gastrônomo, analiso o ambiente, pois o ecossistema afeta a biodiversidade e os costumes. A composição do rio define quais insumos estarão acessíveis ao nativo”, explica.

O material é produzido de forma independente, com pesquisas acadêmicas, imagens e relatos de moradores locais.

“Muito da nossa cultura alimentar não tem documentação acadêmica. Ela sobrevive na oralidade de ribeirinhos, quilombolas e indígenas. Não posso ter um pensamento elitizado de que só o que está em artigo é válido. É preciso respeitar a ciência, mas também entender a riqueza do conhecimento popular.”

O que a ciência diz sobre a relação entre rios e peixes

Edinbergh Caldas de Oliveira concorda que os rios amazônicos possuem características diferentes, mas destaca que a distribuição das espécies depende de vários fatores e não apenas do tipo de água. Segundo ele, a biodiversidade do Rio Negro está ligada a cadeias alimentares complexas, mas esse ambiente também possui maior fragilidade.

“É um ecossistema com enorme riqueza de espécies devido a cadeias alimentares muito complexas, mas que são frágeis em razão da baixa produção primária. Há muitas espécies envolvidas, mas elas ocorrem em números populacionais pequenos se comparados aos rios de água branca”, detalha o professor.

Em períodos de crise climática e secas severas, essa característica torna rios de água preta e clara mais vulneráveis do que o Solimões/Amazonas, que possui maior volume de água e recuperação mais rápida.

Leia também: Portal Amazônia responde: como os peixes enxergam nas águas dos rios Negro e Solimões?

Rio Negro. Foto: Arquivo pessoal/Marcos Amend

Peixes circulam por diferentes ambientes da Amazônia

A principal ressalva do pesquisador é sobre a ideia de que cada tipo de água determina, sozinho, quais espécies chegam à mesa. Segundo Edinbergh, muitos peixes amazônicos são migratórios e percorrem grandes distâncias ao longo da vida.

“Do ponto de vista ecológico, é difícil fazer essa separação rígida por rios. Espécies de grande valor comercial e alimentar, como o tambaqui, o jaraqui e grandes bagres (piraíba, surubim), são migratórias. Elas possuem áreas de vida que cobrem centenas de quilômetros, circulando entre a calha dos rios, os lagos e as florestas inundadas (igapós e várzeas) para desovar, crescer e se alimentar”, esclarece.

Produção de tambaqui. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro/Rede Amazônica

O pesquisador explica que algumas espécies, como pirarucu e tucunaré, permanecem mais associadas a determinados lagos e áreas de várzea. Outras dependem da conexão entre diferentes ambientes da bacia amazônica para completar o ciclo de vida.

Conservação ajuda a manter os peixes nos rios

Reserva de Desenvolvimento Sustentável é referência em manejo do pirarucu. Foto: Divulgação

Apesar de partirem de perspectivas diferentes, gastronomia e ciência destacam a importância de compreender e preservar os rios amazônicos. Iniciativas como o manejo comunitário do pirarucu e a pesca sustentável do peixe-cardinal, em Barcelos, no interior do Amazonas, mostram que o uso responsável dos recursos naturais pode proteger espécies e manter a atividade pesqueira

Para Edinbergh, a preservação depende da união entre conhecimento tradicional, pesquisa científica e políticas públicas. “O manejo comunitário é essencial para administrar os recursos da nossa bacia com ética e sustentabilidade. Esse diálogo entre a ciência e a sociedade precisa do apoio de políticas públicas sérias, conscientização, fiscalização rigorosa no cumprimento do Defeso e o combate a obras que destruam os corredores ecológicos indispensáveis para a nossa biodiversidade”, concluiu.

*Como informações de Lucas Macedo, do G1 Amazonas.

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