Proteger florestas existentes produz melhor custo-benefício para biodiversidade e clima do que restaurar, revela estudo na Science

Estudo feito em mais de 3 milhões de hectares da Amazônia mostra que restaurar áreas já desmatadas, como abordagem isolada, é insuficiente para reverter perdas. Pesquisadores concluíram que a combinação entre proteção e restauração das florestas produz mais benefícios para a biodiversidade e para o clima.

Uma árvore solitária permanece de pé enquanto a floresta ao redor é derrubada na Floresta Nacional do Tapajós, uma área protegida da Amazônia brasileira. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

Evitar o desmatamento e a degradação das florestas tropicais gera mais benefícios para a biodiversidade e o clima por recurso investido do que apenas restaurar áreas já convertidas, segundo estudo publicado na revista Science. A pesquisa comparou os resultados e os custos de três principais estratégias de conservação florestal: conter o desmatamento, evitar danos provocados por incêndios e extração de madeira, e restaurar a vegetação para cumprir o Código Florestal. A estratégia que une proteção e restauração é a que produz mais benefícios para a biodiversidade e para o clima.

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O estudo foi realizado por um grupo internacional de 19 pesquisadores, liderado pela Rede Amazônia Sustentável (RAS), e reúne especialistas de instituições como a Universidade de Lancaster, a Embrapa Amazônia Oriental, o Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), as universidades de Oxford, Cambridge e Manchester Metropolitan, Exeter, a Esalq/USP, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Museu Paraense Emílio Goeldi.

A análise abrangeu Paragominas e Santarém, no Pará, duas regiões da fronteira agrícola amazônica que somam mais de 3 milhões de hectares.

Os pesquisadores combinaram dados de biodiversidade coletados em 381 áreas de amostragem, distribuídas por 38 microbacias, além de informações socioeconômicas de entrevistas em 499 propriedades rurais e imagens de satélite de alta resolução. A partir dessa base, reconstruíram as mudanças ocorridas entre 2010 e 2020, simulando o que teria acontecido em diferentes cenários se cada estratégia tivesse sido adotada individualmente ou em conjunto.

Os resultados mostram que evitar incêndios e extração de madeira teria mitigado 68% das perdas de biodiversidade e 47% das perdas de carbono observadas. Impedir o desmatamento teria evitado 28% das perdas de biodiversidade e 61% das perdas de carbono. Já a restauração, quando adotada isoladamente, compensaria apenas 6% e 15% dessas perdas, respectivamente.

“Uma floresta não está necessariamente protegida apenas porque continua aparecendo como floresta nas imagens. Incêndios, exploração de madeira e efeitos de borda podem retirar biodiversidade e carbono sem eliminar completamente a cobertura florestal. Essa degradação precisa ocupar um lugar muito mais central nas políticas de conservação”, afirma Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e autor sênior do estudo.  

A dimensão do problema aparece nos dados da própria região. Durante o período analisado, foram registrados 159 mil hectares de desmatamento e 274 mil hectares de florestas primárias atingidas por fogo ou extração de madeira. Outros 130 mil hectares passaram por regeneração, mas 63% dessas florestas secundárias voltaram a ser afetadas pelo fogo. Para os autores, o resultado evidencia os limites de recuperar a vegetação sem controlar simultaneamente as causas de sua destruição.

“A restauração é indispensável para recompor áreas protegidas, conectar fragmentos e recuperar funções ecológicas”, explica Leonardo de Sousa Miranda, pesquisador da Universidade de Lancaster e um dos autores principais do artigo. “O estudo mostra, porém, que ela não consegue compensar sozinha as perdas enquanto o desmatamento e a degradação continuam avançando. Restaurar sem proteger é tentar repor continuamente algo que segue sendo destruído”.

Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, onde o Museu Goeldi mantém a Estação Científica Ferreira Penna foto Calil Torres MPEG
Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará. Foto Calil Torres/MPEG

Estudo analisa estratégias usadas nas florestas

A diferença entre as estratégias aumentou quando os pesquisadores incluíram seus custos econômicos. Para a biodiversidade, evitar perturbações florestais apresentou um índice médio de custo-efetividade cerca de três vezes maior do que o de impedir o desmatamento e quase 15 vezes superior ao da restauração. Para o carbono, evitar o desmatamento apresentou o maior retorno, seguido pelo controle da degradação e pela restauração. Mesmo quando os custos de restaurar foram reduzidos em até 95% nas simulações, a estratégia permaneceu menos custo-efetiva do que as medidas preventivas.

Isso não significa, contudo, que a restauração deva ser abandonada. Os maiores benefícios foram alcançados quando as três estratégias apareceram combinadas. Nesse cenário, a biodiversidade aumentaria 22% e os estoques de carbono 42% em relação ao patamar de 2010. A interação entre as medidas potencializa os resultados, já que florestas preservadas favorecem a recuperação de áreas próximas, enquanto o controle do fogo permite que a vegetação em regeneração sobreviva e amadureça.

“Não existe uma única solução capaz de responder à crise das florestas tropicais. Precisamos proteger as áreas remanescentes, impedir que elas sejam degradadas e restaurar territórios estratégicos”, reforça Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e também uma das autoras da pesquisa.

Leia também: Terras indígenas registram 1,7% do desmatamento da Amazônia em 12 meses: proteção da biodiversidade

Investir somente em restauração faz pouco sentido enquanto florestas maduras continuam a ser degradadas. É necessário integrar as agendas, por exemplo, incluindo brigadas para evitar incêndios nos projetos e programas de restauração. “O estudo oferece uma base para decidir onde e como combinar as diferentes ações de maneira eficiente”.

As conclusões ampliam o foco tradicional das políticas florestais, historicamente concentradas no desmatamento e, mais recentemente, na restauração. Os autores defendem que prevenir incêndios e extração ilegal de madeira, garantir que a exploração de madeira autorizada cumpra as regras de manejo sustentável, reduzir o uso do fogo em áreas rurais, sempre que possível, e fortalecer brigadas locais se tornem parte central das estratégias de clima e biodiversidade.

No Brasil, os resultados dialogam com o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e a aplicação do Código Florestal. Também podem orientar programas de REDD+, projetos dos mercados de carbono e decisões sobre financiamento climático, ao mostrar que recursos voltados à restauração produzem menos resultado quando não são acompanhados de investimentos para proteger as florestas existentes.

“Em termos internacionais, é necessário que as empresas e os mercados que se beneficiam de commodities, como soja e carne bovina, assumam a responsabilidade não apenas pelo desmatamento, mas também pela degradação das florestas remanescentes, que está intrinsecamente ligada a esses sistemas de produção na Amazônia”, afirmou o Dr. Toby Gardner, coautor, pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute e cofundador da Trase, uma iniciativa de sustentabilidade em cadeias de suprimentos.

Embora concentrado em duas regiões da Amazônia Oriental, o estudo apresenta implicações para outras florestas tropicais submetidas simultaneamente ao desmatamento, ao fogo, à exploração de madeira e à expansão agropecuária. Nessas paisagens, acompanhar apenas a perda total de cobertura vegetal pode esconder uma parcela decisiva dos impactos sobre a biodiversidade e o clima.

*Com informações da Rede Amazônia Sustentável

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