Foto: Reprodução/Instagram-@roseeeloisee
No interior da Floresta Nacional do Tapajós (Flona), no Pará, uma árvore se destaca não apenas pelo tamanho, mas pela história, simbologia e conexão com a comunidade local. Conhecida como Sumaúma ‘Vovozona’, essa gigante da Amazônia se tornou um dos principais símbolos da comunidade de Maguari, no município de Belterra, onde está localizada.
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A grandiosidade da vovozona impressiona, segundo o coordenador dos guias locais da comunidade, Raimundo Vasconcelos, são necessárias cerca de 25 a 28 pessoas de mãos dadas para abraçar completamente o seu tronco. No entanto, ao longo da trilha que leva até ela, existem outras sumaúmas, como uma localizada na Serra do Gato, que precisa de cerca de 19 pessoas para abraçá-la, e a sumaúma ‘baby’, que precisa de cerca de 12 pessoas.
A caminhada até a vovozona não é simples, são cerca de 7 quilômetros mata adentro, em uma trilha que já prepara o visitante para o encontro com a grandiosidade da árvore. Além disso, as raízes tabulares, típicas da espécie, se espalham pelo solo como paredes naturais, o que cria um cenário surpreendente.
Uma árvore milenar
A idade da Vovozona é um dos aspectos mais intrigantes, visto que não há um número exato, mas um consenso sobre sua grandiosidade temporal. De acordo com Raimundo Vasconcelos, a estimativa foi construída coletivamente na comunidade.
“A gente fez um levantamento junto com o ICMBio e a comunidade, e ela é considerada uma árvore milenar. Pode ter mil anos, pode ter mais, pode ter menos. É uma estimativa, a gente não tem como saber a idade certinha dela”, explicou.

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A falta de precisão científica não diminui a sua importância, e abre espaço para interpretações populares grandiosas. De acordo com o guia local, Joacir Pedroso, @guia.joacirodrigues, os antigos habitantes da região acreditavam que a árvore poderia ter até 100 mil anos.
Independente da idade real, a Vovozona é uma árvore extremamente antiga, que atravessa gerações e as transformações da floresta amazônica.
Origem do nome e simbologia

O nome não se trata apenas de uma árvore velha, mas de uma figura ancestral, quase familiar. “É porque é uma árvore antiga, maior que todas. Por isso foi escolhido o nome Vovozona sumaúma”, explicou Joacir.
Além disso, a árvore também possui um valor espiritual significativo. De acordo com Joacir, ela é associada à presença da ‘mãe da floresta’, conhecida como Curupira, entidade protetora das matas no imaginário amazônico.
Outro aspecto atribuído a sumaúma vovozona é o seu uso medicinal, já que, segundo Joacir, suas raízes armazenam água potável, considerada boa para consumo em situações específicas.
Um santuário natural protegido pela distância
A localização da Vovozona contribui para sua preservação. Situada a cerca de 7 quilômetros de caminhada dentro da floresta, ela está distante de áreas de desmatamento ou atividades humanas intensas, como roçados.
“Ela não tem ameaça de queimadas porque fica muito distante. As pessoas não chegam lá para fazer esse tipo de coisa”, destacou Raimundo Vasconcelos.
Esse isolamento natural funciona como uma barreira protetora, permitindo que a árvore se mantenha relativamente segura em meio às pressões ambientais que afetam outras regiões da Amazônia. No entanto, isso não significa que a árvore esteja livre de riscos, já que eventos naturais já deixaram marcas.
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Um dos episódios mais marcantes foi um forte temporal que atingiu a região. “Ela sofreu uma rachadura por causa de um vento forte. A gente acredita que tinha uma cicatriz antiga, e isso abriu. Mas ela está se regenerando”, contou Raimundo.
“Com pouco mais de um ano, a rachadura cicatrizou. Foi uma conquista para a gente ver a recuperação da Vovozona”, completou Joacir.
Esse processo de regeneração evidencia a resiliência da árvore, mas também revela sua vulnerabilidade. De acordo com Raimundo Vasconcelos, por ser uma das mais altas da floresta e possuir grande quantidade de água em sua estrutura, a sumaúma pode ser mais suscetível a ventos intensos.
Entre os principais desafios para sua preservação, estão os incêndios florestais, os danos às raízes e os eventos climáticos extremos.“Os principais desafios são prevenir incêndios e não deixar danificarem as raízes. A gente precisa zelar sempre”, destacou Joacir.
Turismo de base comunitária: conservação e renda
A Vovozona é também o principal atrativo do turismo de base comunitária na região, e a visita à árvore integra o roteiro oficial das trilhas da Flona do Tapajós, conduzida por guias locais. Atualmente, há um grupo de 22 condutores locais, que atuam sob orientação do ICMBio, além de uma associação comunitária que auxilia na organização e proteção da área.
De acordo com o guia Joacir, o passeio, de 14 km (ida e volta), segue regras rigorosas para garantir segurança e preservação:
- Cada guia leva no máximo 5 visitantes
- É obrigatório o uso de roupas e calçados adequados (tênis ou bota)
- A Flona não oferece calçados e o vistante deve levar
- A trilha só pode ser feita com guia e não é permitido entrar sozinho na floresta
Essas medidas ajudam a minimizar os impactos ambientais e proporcionam uma experiência mais rica e educativa para os visitantes. O valor médio da experiência é de R$200 por grupo, o que ajuda a gerar renda para a comunidade e incentiva a preservação da floresta.
Uma experiência transforma
Mais do que um atrativo turístico, a Vovozona proporciona uma experiência emocional profunda, já que muitos visitantes relatam sentimentos intensos ao chegar até a árvore.
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“Eles falam que a árvore representa uma bíblia, e muitos choram quando chegam lá”, contou Joacir.
A imponência da árvore, somada ao silêncio da floresta e à conexão com a natureza, cria um ambiente quase espiritual.
Um símbolo de resistência e memória
Sem registros científicos aprofundados, a Vovozona segue sendo conhecida principalmente pela tradição oral e pelo cuidado da comunidade.
“A sumaúma é muito importante para o ecossistema da flona e também para nossa comunidade”, afirmou Joacir.
A ausência de projetos específicos de proteção é compensada pelo esforço coletivo.“A gente preserva, cuida, porque quer que ela dure por muito tempo”, disse Raimundo.
Em meio às ameaças que rondam a Amazônia, a vovozona permanece de pé, firme, silenciosa e imponente,como uma verdadeira guardiã da floresta.
