Foto: Arquivo/ Pesquisador Fábio Albuquerque
Estudo realizado pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), por meio do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND), avaliou a presença de metais tóxicos — mercúrio, arsênio, cádmio e chumbo — em peixes consumidos na região. A coleta do pescado foi feita nos municípios de Faro, Juruti, Santarém e Oriximiná (Baixo Amazonas) e Itaituba (Sudoeste do Pará).
A pesquisa investigou seis espécies de peixes e avaliou a presença dos metais tóxicos sob dois cenários de consumo: o cenário brasileiro, com o consumo de 24 g/pessoa por dia, e o cenário amazônico, com 462 g/pessoa por dia. Nesse cenário amazônico, tem-se o consumo de grandes quantidades de peixe, principalmente em comunidades ribeirinhas.
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As espécies de peixes pesquisadas são tucunaré, surubim-pintado, pirarucu e piranha, consideradas predadoras; e duas espécies não predadoras: aracu e acari. O principal critério para essa escolha foi a presença dessas espécies em todas as localidades, assim como o fato de todas serem muito valorizadas e consumidas na região.
Os pesquisadores responsáveis pela pesquisa são o doutor em Ciências Ambientais Fábio Albuquerque, colaborador do PPGSND, e o professor Antonio Minervino, docente do quadro permanente do programa. Ambos são pesquisadores do Laboratório de Sanidade Animal (Larsana) da Ufopa.
Contextos importantes da pesquisa
A escolha dos municípios para a pesquisa, assim como das espécies de pescado, deu-se com base no cenário atual da região, que enfrenta diversos desafios ambientais. Um exemplo é a mineração artesanal de ouro, em grande parte ilegal, que é uma atividade poluidora consolidada na região e responsável pela contaminação direta por mercúrio. Nos últimos anos, a mineração de ouro aumentou consideravelmente na região, com mudanças no perfil da atividade, considerando que os garimpeiros passaram a utilizar equipamentos pesados, levando a uma maior industrialização do processo e, consequentemente, a maiores danos ambientais. Esse é um cenário identificado em Itaituba.
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A região também abriga grandes projetos de mineração, principalmente de bauxita, em Porto Trombetas — no município de Oriximiná —, desde 1969, e no município de Juruti, desde 2009. O estudo destaca que o resíduo dessa prática, uma lama vermelha, contém elevada alcalinidade e pode conter metais pesados em altas concentrações. Os riscos ambientais decorrem de seu alto pH, o que pode provocar problemas de permeabilidade do solo e favorecer a mobilização de contaminantes junto a águas subterrâneas, alterando características químicas do solo ou da água.
Santarém, que diretamente não tem essas atividades minerais, é afetada porque recebe a carga de sedimentos a partir do movimento dos rios Tapajós e Amazonas, que são afetados pelas ações nos três municípios citados – Itaituba, Oriximiná e Juruti.

De acordo com a pesquisa, a região tem passado por uma rápida transformação agrícola, transitando de uma agricultura familiar para uma agricultura mecanizada industrial de milho e soja. A região do Baixo Amazonas, no Oeste do Pará, tornou-se uma nova fronteira agrícola, com aumento da área plantada com soja de apenas 25 hectares, em 2001, para 122 mil hectares, em 2024.
Tanto essa expansão agrícola quanto as atividades de mineração em curso têm impulsionado o desmatamento direto por meio da abertura de áreas e da construção de extensas redes de infraestrutura. Como o mercúrio está presente de forma abundante nos solos da região, a remoção da vegetação e a perturbação do solo promovem erosão acelerada, contribuindo para uma maior disponibilidade de mercúrio nos ecossistemas aquáticos.
Considerando que o peixe de água doce é a principal fonte de proteína em comunidades ribeirinhas, essas atividades têm impactado as populações locais, já que as espécies de peixes podem acumular elementos potencialmente tóxicos, como os metais inorgânicos.
No caso de Faro, este é um município que não é, diretamente, influenciado por águas provenientes da mineração, mas, como Santarém, sofre pressão de atividades agrícolas, desmatamento, queimadas e exploração ilegal de madeira, o que pode afetar negativamente a saúde das pessoas que consomem peixe.
Sobre os resultados da pesquisa
Os resultados do estudo mostram que peixes carnívoros apresentaram maiores níveis de mercúrio, podendo ultrapassar valores considerados seguros quando o consumo é frequente. “Altas concentrações de mercúrio se encontram nos peixes predadores, como o tucunaré, a piranha, o surubim-pintado e o pirarucu. Nos peixes não predadores (aracu e acari) foram observadas concentrações elevadas de arsênio, possivelmente associadas à exposição ao sedimento”, disse o professor Albuquerque.
No cenário amazônico, de alto consumo de peixe, os dados indicam risco à saúde ao longo da vida, principalmente por efeitos neurológicos associados ao mercúrio. Em parte das amostras, o arsênio também contribuiu para risco potencial de câncer.
Porém, de acordo com o pesquisador, o estudo não indica que os peixes estão impróprios para o consumo porque, considerando a variação dos locais, há as espécies predadoras que têm baixa concentração de substâncias tóxicas. A pesquisa, segundo ele, pretende chamar a atenção para as situações de degradação ambiental na região que podem aumentar a concentração das substâncias a níveis mais arriscados. Vale ressaltar que os metais pesados ocorrem naturalmente nos ecossistemas, mas as atividades antrópicas como mineração, desmatamento, queimadas, entre outras, vai favorecer o aumento das concentrações de metais que chegam aos organismos aquáticos”, alertou Fábio Albuquerque.
Aspectos ligados à saúde
O estudo fornece novos insights sobre os riscos carcinogênicos (representam a probabilidade de desenvolver câncer) e não carcinogênicos (efeitos adversos à saúde que não resultam em câncer), referentes aos metais pesquisados.
No cenário brasileiro de consumo de peixe, os percentuais de arsênio e cádmio resultaram em, praticamente, todos os dados com risco negligenciável, ou seja, perigo baixo. Porém, considerando o cenário amazônico, o consumo de certas espécies de peixe (acari e pirarucu) de cidades do Oeste do Pará (Faro, Juruti e Santarém) resultou em risco inaceitável para populações ribeirinhas devido à ingestão de arsênio.
De acordo com a pesquisa, as diretrizes nacionais não podem ser usadas para avaliar os riscos à saúde de elementos potencialmente tóxicos em populações amazônicas, uma vez que o consumo de peixe impacta significativamente o risco humano.
Necessidade de monitoramento ambiental

O estudo destaca que padrões nacionais de consumo e segurança alimentar não refletem adequadamente a realidade amazônica, reforçando a necessidade de monitoramento ambiental e ações de saúde pública específicas para populações com alto consumo de pescado.
Os resultados estão associados a processos ambientais e atividades humanas presentes na região, como garimpo, mineração, desmatamento e expansão agrícola, que influenciam a disponibilidade desses contaminantes nos ecossistemas aquáticos.
*por Rosa Rodrigues – Ascom/Ufopa
