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Sábado, 02 Março 2024

Cacique é a primeira pessoa indígena avaliada por uma banca de indígenas intelectuais no Pará

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Foto: Arquivo pessoal

Foi um ritual importante e o cacique Yssô Truká, cujo nome civil é Ailson Santos, não podia fazer diferente. Como quem partia para uma batalha, ele inflou o peito, espantou o nervosismo e, com a voz firme e o maracá em punho, pediu as bênçãos e proteções necessárias ao momento. Não bastava ter vencido a escrita da dissertação, ele precisava defendê-la e o fez com primor. Foi aprovado com distinção e louvor e se tornou cacique titulado mestre pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

Aprovado na turma precursora de mestrado direcionada exclusivamente a indígenas e quilombolas formada pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Pará (PPGD/UFPA), Yssô pesquisou sobre uma de suas principais marcas como liderança. A saúde indígena. Ao longo de dois anos, ele aliou o conhecimento prático aos estudos teóricos e tratou de discutir o acesso dos povos indígenas aos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), via subsistema de Atenção à Saúde Indígena.

"A partir do Povo Truká, reunimos a vivência e os argumentos teóricos para demonstrar que o subsistema jamais poderá substituir os diversos saberes indígenas e, menos ainda, os sistemas de saúde dos povos originários. O sistema de ação para a saúde tradicional deve ser usado de maneira intercultural com o subsistema de Atenção à Saúde Indígena do SUS, que ficará na retaguarda do atendimento para garantir o acesso aos estabelecimentos públicos de saúde, respeitando e fazendo respeitar as mais diversas formas de organizações internas dos povos com vista a promover a intermedicalidade que deve se dar respeitando os sistemas culturais e as práticas terapêuticas articuladas aos interesses e costumes de cada povo indígena, adequando as práticas dos estabelecimentos públicos para garantir formas de acolhimento com vistas à equidade sem prejuízo das demais normas estabelecidas de forma constitucional", defendeu o cacique na dissertação que também recebeu indicação de publicação e tem como título Povos indígenas e acesso à Saúde: o caso do povo Truká.

Defesa ocorreu de forma remota. Foto: Arquivo pessoal

A presidente da banca, orientadora da pesquisa, professora Jane Beltrão, deu boas-vindas aos espectadores e aos avaliadores convidados e, na sequência, convidou Yssô Truká a fazer sua apresentação. Quebrando alguns protocolos - como no momento em que pediu proteção dos seres encantados para fazer a defesa da pesquisa e quando leu o resumo da pesquisa em sua língua materna –, Yssô apresentou seu trabalho, que, logo após a conclusão, foi avaliado por três intelectuais também indígenas: os professores Uwira Xakriabá, cujo nome civil é William César Lopes-Domingues; Rosani de Fátima Fernandes, da etnia Kaingang; e Almires Martins Machado, da pertença Guarani-Terena.

"Eu me sinto emocionada. Este momento mostra que os títulos acadêmicos estão aí para serem conquistados por todos, basta que se encontrem caminhos adequados. Esta é a primeira vez que uma pessoa indígena é avaliada por uma banca de indígenas intelectuais. Isso é muito importante. Significa que estamos conseguindo ampliar as margens das políticas afirmativas da UFPA", 

comemorou Jane Beltrão.

Novos desafios 

Passada a defesa, Yssô Truká parte para um novo desafio acadêmico. Ele foi aprovado no processo seletivo especial ofertado pelo PPGD/UFPA, que disponibilizou duas vagas, em nível de doutorado, para pessoas étnica e racialmente diferenciadas. As aulas têm início este mês, em modalidade intervalar, para atender às demandas dos povos indígenas, como forma de conciliar academia e militância. 

A iniciativa é resultado do Projeto 'Diversidade étnica no ensino em direitos humanos', coordenado pelas professoras Cristina Terezo e Jane Beltrão, por meio da Clínica de Direitos Humanos da Amazônia (CDHA), com financiamento da Fundação Ford e da Clua.

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