Imagem do Centro de Monitoramento da APA Alter do Chão.
Por Olímpio Guarany
Alter do Chão voltou a arder.
E não estamos falando de uma queimada qualquer. Um incêndio de grandes proporções atingiu novamente uma área ambientalmente protegida de Santarém, alcançando trechos de savana e floresta na região de Alter do Chão.
As equipes conseguiram controlar as principais frentes do fogo. Mas, para mim, o trabalho não pode terminar quando a última chama é apagada.
É exatamente aí que precisa começar outra etapa: a investigação.
A Prefeitura de Santarém informou que os órgãos ambientais estão fazendo o levantamento da área atingida e que as causas ainda serão apuradas, inclusive a possibilidade de ação criminosa. É isso que precisa ser feito. Sem precipitação, mas também sem silêncio.
Alter do Chão já viveu uma situação parecida em 2019, quando um incêndio de grandes proporções atingiu aproximadamente 1,2 mil hectares na região.
A investigação federal identificou três pontos distintos de origem do fogo, mas não conseguiu determinar a autoria. Aquele episódio nos deixou uma lição importante: não devemos fabricar culpados, todavia não podemos naturalizar incêndios em áreas protegidas sem investigar profundamente como começaram.
Porque fogo numa área ambientalmente sensível não pode ser tratado como fatalidade antes que a perícia demonstre que foi uma fatalidade.
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Uma área sob presão
Alter do Chão não é um território qualquer. É uma das regiões mais conhecidas e valorizadas da Amazônia. Suas praias, lagos, florestas e paisagens atraem turistas do Brasil e do exterior. Com a valorização turística naturalmente aumenta também a valorização da terra. O problema começa quando essa valorização vem acompanhada de ocupação irregular, grilagem, desmatamento e pressão sobre áreas públicas e ambientalmente protegidas. E isso não é uma suposição.
Em dezembro de 2025, o Ministério Público Federal recomendou a criação de uma ou mais unidades de conservação federais na região de Alter do Chão justamente para conter o avanço da especulação imobiliária, do desmatamento ilegal e da grilagem de terras públicas.
O MPF chamou atenção ainda para um fato preocupante: a Área de Proteção Ambiental de Alter do Chão, criada pelo município em 2003, continuava sem plano de manejo e zoneamento. Ou seja: estamos falando de um território ambientalmente precioso e, ao mesmo tempo, submetido a pressões econômicas e fundiárias já reconhecidas formalmente pelos órgãos de fiscalização.
Isso não significa que o incêndio atual tenha relação com interesses imobiliários.
Até agora não existe prova pública disso. E seria irresponsável afirmar o contrário
Mas é justamente por existir esse contexto que todas as hipóteses precisam ser investigadas.

Investigar não é acusar
Quero deixar isso muito claro. Investigar não significa escolher previamente um culpado. Significa descobrir a verdade. Onde o fogo começou? Havia um ou vários pontos de origem? Houve ação humana? Foi acidental ou deliberada? Se houve crime, quem praticou? E qual foi a motivação? Essas perguntas precisam ser respondidas pelos órgãos competentes. Polícia Civil. Órgãos ambientais do município e do Estado.
E mais, caso haja interesse federal, também Polícia Federal e Ministério Público Federal devem entrar em ação.
É bom lembrar que em 2019, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a competência federal no caso porque parte das áreas atingidas estava em terras da União, portanto, não é exagero pedir investigação. É dever institucional. E é dever da sociedade cobrar respostas.
O alerta já estava aceso
Há ainda outro elemento que torna o episódio mais preocupante.
Santarém já estava em situação de emergência ambiental em razão da estiagem, do aumento das queimadas e da deterioração da qualidade do ar.
O município chegou a proibir o uso do fogo por 180 dias.
E, pouco antes deste novo incêndio, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente havia solicitado à Polícia Civil reforço nas investigações sobre possíveis queimadas criminosas.
Portanto, o incêndio de Alter do Chão não ocorreu num cenário de normalidade.
O sinal de alerta já estava aceso. Isso exige ainda mais responsabilidade.
Não existe desenvolvimento sobre cinzas
Alter do Chão pode e deve se desenvolver, receber turistas, gerar empregos.
Pode movimentar pousadas, restaurantes, barcos, comércio e serviços, produzir renda, mas não existe desenvolvimento verdadeiro quando a riqueza de alguns depende da destruição de um patrimônio que pertence à coletividade.
A valorização econômica de Alter do Chão não pode significar a destruição daquilo que faz Alter do Chão valer tanto.
Não existe turismo sustentável sobre floresta queimada.
Não existe desenvolvimento quando a paisagem é destruída.
Não existe prosperidade duradoura quando o território perde exatamente aquilo que lhe dá valor.
E a Amazônia conhece muito bem essa lógica perversa. Primeiro a floresta parece não ter valor. Depois alguém percebe que a terra vale muito.
Então vêm a pressão, a ocupação, a abertura de áreas e a transformação da paisagem.
Foi assim em muitos lugares.
E justamente porque conhecemos essa história, precisamos reagir antes. Não depois.
Não basta apagar o fogo
Depois que as chamas diminuem, existe sempre o risco de a indignação diminuir junto. Não pode ser assim. Precisamos saber qual foi a área destruída. Qual foi o dano ambiental. Quanto tempo esse ecossistema levará para se recuperar e, principalmente, precisamos saber como esse incêndio começou.
Proteção ambiental não pode existir apenas na temporada de queimadas.
Plano de manejo é prevenção. Zoneamento é prevenção. Fiscalização é prevenção. Combate à grilagem é prevenção. Ordenamento territorial é prevenção. Presença permanente do Estado é prevenção.
Defender a Amazônia não significa impedir que as pessoas vivam, trabalhem ou prosperem nela. É exatamente o contrário. Significa garantir que o desenvolvimento não destrua a base natural que sustenta a própria economia.
Por isso, diante deste novo incêndio, minha posição é clara.
Não quero acusações sem prova.
Não quero culpados fabricados.
Não quero versões convenientes.
Quero investigação.
Investigação técnica. Independente. Profunda.
Que siga todas as linhas possíveis.
Que encontre a origem do fogo. Que determine responsabilidades, caso existam e, sobretudo, que não permita que mais um incêndio em Alter do Chão termine apenas com a contagem dos hectares queimados.
Porque a última chama apagada não pode significar o encerramento do caso.
Ao contrário.
DEPOIS DO FOGO, PRECISA COMEÇAR A INVESTIGAÇÃO.
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Sobre o autor
Olímpio Guarany é jornalista, documentarista, economista e professor universitário. Durante dois anos navegou o rio Amazonas e diversos afluentes, desde sua foz até o rio Napo, no Equador. De barco, seguiu pelo rio Napo até o sopé da Cordilheira dos Andes. A partir dali, subiu a cordilheira até chegar a Quito, refazendo os caminhos de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia.
*O conteúdo é responsabilidade do colunista
