Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Por Olímpio Guarany
Hoje é 4 de outubro.
Dia de São Francisco de Assis, que há oito séculos ensinava uma maneira diferente de enxergar a relação entre o homem e a natureza. Chamava o sol de irmão, a lua de irmã e via em toda a criação algo que deveria ser respeitado.
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Séculos depois, tornou-se patrono da ecologia.
E quis a história que, neste ano, o dia de São Francisco coincidisse com outro momento de enorme responsabilidade: o dia das eleições.
Para nós, amazônidas, existe uma pergunta que também deveria acompanhar o voto:
qual é o compromisso de quem recebe o nosso voto com a Amazônia?
A Amazônia é maior que partidos.
Por isso, é preciso observar propostas, compromissos e também a trajetória daqueles que pretendem governar.
O que pensam sobre o desmatamento?
Sobre o garimpo ilegal?
Sobre a proteção dos rios, das florestas e dos povos tradicionais?
Sempre defendi que a Amazônia precisa se desenvolver. Precisamos gerar emprego, renda, conhecimento, tecnologia e oportunidades.
Nossas riquezas naturais podem e devem contribuir para melhorar a vida das pessoas.
Mas existe uma fronteira que não podemos ultrapassar:
explorar não pode significar destruir.
Não podemos permitir que a ganância derrube a floresta sem critérios, contamine os rios ou transforme o garimpo ilegal em atividade tolerada.
Não podemos simplesmente “deixar a boiada passar”.

Proteger o meio ambiente não é impedir o desenvolvimento. O desafio é justamente produzir riqueza preservando o patrimônio natural que torna a Amazônia única.
E existe outra dimensão dessa discussão que considero fundamental:
a justiça.
Se a Amazônia produz riqueza, essa riqueza precisa chegar também à sua gente.
Ao ribeirinho.
Ao extrativista.
Ao quilombola.
Ao indígena.
Ao agricultor familiar.
Às populações tradicionais que vivem da floresta e ajudam a mantê-la em pé.
Não é justo que produtos e riquezas amazônicas atravessem fronteiras e gerem prosperidade enquanto muitos daqueles que estão na origem dessas cadeias ainda enfrentam dificuldades de saneamento, saúde, educação e oportunidades.
O mundo já descobriu quanto vale a Amazônia.
Precisamos agora discutir como esse valor pode melhorar a vida dos amazônidas.
Hoje, ao celebrar São Francisco de Assis e exercer o direito do voto, vale perguntar a quem pretende nos representar:
Qual é seu compromisso com o combate ao desmatamento e ao garimpo ilegal?
Defende a exploração responsável dos nossos recursos naturais?
Que Amazônia pretende deixar para as próximas gerações?
Não proponho aqui nomes, partidos ou números.
Cada eleitor fará sua escolha.
Proponho apenas que a Amazônia também esteja presente diante da urna.
Conheci esta região navegando seus rios, caminhando por sua floresta e convivendo com sua gente.
Quanto mais a conheci, mais compreendi que protegê-la não é impedir seu desenvolvimento.
É garantir que ela produza riqueza e oportunidades sem destruir aquilo que nenhuma geração terá capacidade de reconstruir.
São Francisco chamava a natureza de irmã.
Talvez, neste 4 de outubro, possamos transformar essa antiga lição em uma pergunta muito simples diante da urna:
quem estamos escolhendo para cuidar da nossa casa?
Porque o futuro da Amazônia também passa pelo nosso voto.
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Sobre o autor
Olímpio Guarany é jornalista, documentarista, economista e professor universitário. Durante dois anos navegou o rio Amazonas e diversos afluentes, desde sua foz até o rio Napo, no Equador. De barco, seguiu pelo rio Napo até o sopé da Cordilheira dos Andes. A partir dali, subiu a cordilheira até chegar a Quito, refazendo os caminhos de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia.
*O conteúdo é responsabilidade do colunista
