Foto: Olimpio Guarany
Por Olímpio Guarany*
No Dia da Amazônia (5 de setembro), uma reflexão de quem atravessou seus rios e descobriu que a maior riqueza da floresta também está nas pessoas que aprenderam a viver com ela.
Durante dois anos, atravessei a Amazônia pelas águas do Amazonas e de alguns de seus afluentes.
Naveguei por águas tranquilas, mas enfrentei correntezas, tempestades e distâncias que pareciam não terminar. Entrei por lagos, furos e igarapés. Vi águas que faziam a outra margem desaparecer no horizonte. Caminhei pela floresta e contemplei paisagens diante das quais o homem compreende a sua pequenez.
Mas, quando me perguntam o que mais ficou daquela jornada, minha resposta não é a imensidão dos rios. Não é a floresta. São as pessoas. São os rostos que encontrei pelo caminho: homens e mulheres que me receberam em suas comunidades, dividiram histórias, conhecimentos, preocupações e esperanças.
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Gente que conhece o rio não pelos mapas, mas pelo movimento das águas. Que sabe quando a chuva vai chegar, quando o peixe muda de lugar, quando a vazante começa a revelar novamente as praias.
Foi convivendo com essa gente que compreendi algo que muitas vezes escapa aos grandes debates sobre a Amazônia: a floresta não é um cenário sem habitantes. A Amazônia é terra de gente.
Gente que pesca, planta, navega, ensina, cuida e cria seus filhos às margens de rios que são estrada, fonte de alimento e caminho para a escola, para o hospital e para o restante do mundo.
Há conhecimentos guardados nessas comunidades que nenhuma universidade conseguiu catalogar por inteiro. Saberes indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e caboclos, transmitidos entre gerações e construídos por séculos de convivência com a floresta e com as águas.
Por isso, sempre me incomodou quando a Amazônia é apresentada apenas como uma enorme mancha verde no mapa.
Para o mundo, ela pode representar biodiversidade, equilíbrio climático, água, carbono ou uma gigantesca reserva de recursos naturais. Para quem vive aqui, ela é algo muito mais simples e profundo: é casa.

No dia 5 de setembro, celebramos o Dia da Amazônia. É certo que devemos proteger a floresta, combater o desmatamento, preservar a biodiversidade e enfrentar as mudanças climáticas. Mas precisamos fazer outra pergunta: quem está cuidando das pessoas que vivem nessa floresta?
E essa também é uma questão de justiça.
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Riquezas da Amazônia
A Amazônia produz riquezas que há séculos atravessam suas fronteiras. Já foram as drogas do sertão, a borracha, a madeira e os minérios. Hoje, são também o pescado, a castanha, os óleos, os frutos da floresta e tantos outros produtos que movimentam mercados no Brasil e no exterior.
Não há problema em transformar os recursos da Amazônia em riqueza. Precisamos gerar riqueza, emprego, renda e desenvolvimento. A questão é: quanto dessa riqueza permanece com quem vive na Amazônia e ajuda a produzi-la?
O açaí talvez seja o exemplo mais emblemático. O fruto que durante gerações alimentou as populações amazônicas conquistou o Brasil e ganhou o mundo. Tornou-se produto valorizado e movimenta uma cadeia econômica cada vez maior.
Mas, no início dessa cadeia, está o peçonheiro.
É ele quem coloca a peconha nos pés e sobe no açaizeiro para colher o fruto. Depois vêm o transporte, o beneficiamento, a indústria, o comércio e mercados cada vez mais sofisticados. E não é raro que justamente esse trabalhador continue vivendo em condições muito distantes das benesses proporcionadas pela riqueza que ajudou a produzir.
Essa contradição precisa nos incomodar.
Não se trata de colocar produtores contra empresários ou a floresta contra o mercado. Precisamos de investimentos, tecnologia, indústria e mercados capazes de agregar valor aos produtos amazônicos. Mas precisamos de cadeias econômicas mais justas.
Não basta que a riqueza saia da floresta. É preciso que uma parcela maior dela permaneça com quem vive nela e ajuda a mantê-la em pé. Isso vale para o peconheiro, o pescador, o extrativista, o agricultor familiar e para as comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas.
Não podemos apresentar a Amazônia ao mundo como esperança para o planeta enquanto tantos amazônidas ainda lutam por saneamento, saúde, educação, energia, comunicação e oportunidades.
Preservação e desenvolvimento não são caminhos opostos. O verdadeiro desafio é construir um modelo que mantenha a floresta em pé e permita que sua gente também fique de pé. Com dignidade. Com renda. Com conhecimento. Com oportunidades.
Depois de atravessar seus rios, caminhar por sua floresta e conviver com sua gente, compreendi que defender a Amazônia significa muito mais do que defender árvores, animais e rios. Significa defender pessoas.

O mundo já descobriu que a Amazônia tem valor. Talvez tenha chegado a hora de fazermos uma pergunta ainda mais importante: para quem essa riqueza vai gerar prosperidade?
Porque a floresta pode ser patrimônio do Brasil e esperança para o planeta, mas, antes de tudo, a Amazônia é a casa de alguém.
A Amazônia é sua gente.
Sobre o autor
Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.
*O conteúdo é responsabilidade do colunista
