Foto: Flávia Camila Schimpl/Acervo pessoal
Com aroma marcante, o puxuri é uma árvore nativa da região amazônica que chama atenção tanto pelos usos tradicionais quanto pelo potencial científico e econômico. A espécie, conhecida cientificamente como Licaria puchury-major (Mart.) Kosterm., pertence à família Lauraceae, a mesma de árvores conhecidas como o pau-rosa e a canela, além do abacateiro.
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De grande porte, o puxuri pode alcançar entre 25 e 30 metros de altura e possui uma característica que ajuda a diferenciá-lo de outras espécies da floresta: o aroma intenso, presente em praticamente toda a planta.
Segundo doutora em biologia vegetal e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Flávia Camila Schimpl, a fragrância pode ser percebida na casca, madeira, folhas, frutos e, principalmente, na semente, que concentra uma grande quantidade de óleo essencial rico em safrol, com aproximadamente 40% e, em algumas amostras, mais de 70% da composição, acompanhado pelo eucaliptol.
“O nome científico é Licaria puchury-major (Mart.) Kosterm., mas ao longo da história ela já foi classificada em outros gêneros, como Ocotea e Nectandra, o que pode gerar alguma confusão na literatura antiga”, explicou a pesquisadora.
Onde o puxuri é encontrado?
O puxuri é uma espécie nativa e endêmica da Amazônia brasileira, ou seja, em condições naturais, ela não ocorre em nenhuma outra parte do mundo. No Brasil, a árvore é encontrada nos estados do Amazonas e do Pará.
No Amazonas, os registros estão principalmente em áreas do baixo rio Madeira, em afluentes do baixo rio Negro e do baixo Japurá. A espécie já foi identificada em municípios como Borba, Silves, Santa Isabel do Rio Negro e Maraã.
“Está presente tanto em florestas de igapó, que são áreas sazonalmente alagadas, quanto em floresta de terra firme”, destacou Schimpl.
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Essa distribuição também faz parte das pesquisas realizadas sobre a espécie. De acordo com Flávia Camila Schimpl, compreender como o ambiente influencia o desenvolvimento da árvore é importante para conhecer melhor sua produção de óleo essencial e pensar em formas de cultivo que reduzam a pressão sobre as populações naturais.
Identificação da árvore
A identificação do puxuri não depende apenas da aparência. Segundo Schimpl, a espécie apresenta folhas alternas ou subopostas, de formato elíptico a oblongo, com textura firme e superfície lisa e brilhante, e em média, com 10 centímetros de comprimento.
Porém, uma das características mais marcantes é o cheiro. De acordo com a pesquisadora, o aroma característico pode ser percebido quando diferentes partes da planta são maceradas.
“Como várias Lauraceae amazônicas se parecem entre si, a identificação segura depende de um botânico especialista, idealmente apoiada por análise química”, afirmou.
O fruto também apresenta características próprias, como o formato oval que faz com que ele fique preso aos galhos por uma pequena estrutura semelhante a uma cúpula. Schimpl explica que quando amadurece, o fruto cai naturalmente e abriga uma única semente de coloração marrom-escura, lisa, brilhante e bastante aromática.
A semente que virou especiaria
Entre as diferentes partes do puxuri, a semente, também chamada de amêndoa, é a mais utilizada. É nela que está concentrada a grande quantidade do óleo essencial responsável pelo aroma intenso.
O uso da semente ultrapassa as fronteiras da Amazônia e tem uma história que remonta a séculos. Segundo Flávia Camila Schimpl, o puxuri foi uma das primeiras especiarias amazônicas a atravessar o Atlântico.
“Suas sementes, conhecidas na Europa como “fava-pichurim” (pichurim beans), eram exportadas já entre os séculos XVII e XVIII e usadas como substituto da noz-moscada, além de aplicações na medicina e na perfumaria da época”, explicou.

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Atualmente, a semente continua presente na culinária amazônica e também ganhou espaço na gastronomia. Seu sabor e aroma fazem com que seja utilizada como condimento, como ralar sobre a língua do pirarucu.
Segundo a pesquisadora, o processo tradicional de beneficiamento também envolve etapas específicas, como a secagem ao sol durante vários dias e, posteriormente, uma rápida torra em tacho. Além disso, o ingrediente também já foi incorporado à alta gastronomia por chefs em pratos e bebidas.
Conhecimento tradicional
O puxuri também está ligado aos conhecimentos tradicionais das populações amazônicas. Além da culinária, a planta é utilizada na medicina popular.
“Na medicina popular, infusões e chás feitos da semente, da casca e das folhas são usados como tônicos e no tratamento de problemas gastrointestinais, como diarreia, má digestão e dores de estômago, além de dores de cabeça e insônia”, explicou Marcela.
Esses conhecimentos fazem parte da relação entre as comunidades e a floresta e ajudam a explicar por que o puxuri é considerado pela pesquisadora um exemplo da sociobiodiversidade amazônica.
Para Schimpl, a importância da espécie está justamente na combinação entre biodiversidade, cultura e potencial econômico. O puxuri “é, ao mesmo tempo, patrimônio genético, químico e cultural”.
O potencial das folhas
Embora a semente seja a parte mais conhecida e utilizada, as pesquisas realizadas atualmente procuram ampliar o aproveitamento do puxuri. De acordo com Flávia, as folhas ainda são pouco utilizadas, mas apresentam potencial para gerar novas possibilidades de renda aos produtores, principalmente nos períodos em que não há produção de frutos.

Segundo a pesquisadora, as folhas apresentam elevado rendimento de óleo essencial e uma composição semelhante à encontrada na semente. Uma das linhas de investigação de pesquisas avalia o potencial fungicida desse óleo, com resultados considerados promissores para o controle de agentes infecciosos que causam doenças em plantas.
Conservação da floresta
Apesar de não constar oficialmente nas listas nacionais de espécies ameaçadas de extinção, o puxuri enfrenta desafios relacionados à conservação.
Flávia Camila Schimpl explica que existem registros, desde a década de 1990, apontando uma redução da presença da espécie em algumas áreas onde antes era abundante, com um dos fatores relacionado à exploração intensa ocorrida no passado. A produção ainda depende, em grande parte, do extrativismo, enquanto os plantios comerciais de puxuri ainda são pouco estabelecidos.
Outro problema está relacionado à forma de coleta em algumas regiões. De acordo com a pesquisadora, há relatos de árvores em áreas de igapó que são cortadas inteiras durante o período de frutificação para facilitar a retirada dos frutos.
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Além disso, a situação é agravada pelo crescimento relativamente lento da espécie. Além da pressão provocada pela atividade humana, as mudanças ambientais também despertam preocupação.
“E há um fator que temos acompanhado de perto: as mudanças climáticas, com eventos extremos como o El Niño já em curso este ano, somadas às ações antrópicas de desmatamento e alteração no uso do solo, vêm afetando o regime de chuvas e impactando a ecofisiologia das plantas amazônicas. Isso pode reduzir a abundância e a diversidade genética das populações e alterar até a produção e a composição dos produtos florestais não madeireiros, como os óleos essenciais”, explicou Schimpl.
No caso do puxuri, a frutificação nem sempre ocorre de maneira regular, e uma das hipóteses estudadas é justamente a influência das alterações climáticas nesse processo.
Ciência em busca de uma cadeia produtiva sustentável
Para enfrentar esses desafios e, ao mesmo tempo, ampliar o potencial econômico do puxuri, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) desenvolvem estudos em parceria com o Instituto Federal do Amazonas (IFAM), com financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A pesquisa é realizada junto a produtores de Borba, município que abriga um dos poucos plantios de puxuri do Amazonas.
A proposta é estruturar a cadeia produtiva da espécie desde o início. Isso inclui:
- a seleção das melhores árvores-matrizes, capazes de produzir maior quantidade de óleo essencial e apresentar a qualidade desejada;
- produção de mudas com qualidade e rastreabilidade;
- desenvolvimento de sistemas de cultivo;
- processamento da matéria-prima;
- e criação de novos produtos.
Os pesquisadores também comparam plantas encontradas naturalmente em áreas de igapó com aquelas cultivadas em terra firme. De acordo com Flávia Camila Schimpl, a intenção é entender de que maneira o ambiente interfere no rendimento e na composição do óleo essencial.
