Matamatá. Foto: Luis F. C. Lima
A Amazônia, lar de uma grande diversidade de quelônios, abriga uma espécie que chama a atenção pela aparência, comportamento e importância científica: o matamatá. Porém, o que antes era considerado uma espécie única, surpreendeu os pesquisadores.
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Descrita em 1783, pelo naturalista alemão Johann Schneider, a Chelus fimbriata era considerada a única espécie dessa tartaruga de água doce, que ocupa as bacias dos rios amazônicos no Brasil no Brasil, Peru, Equador, Colômbia e Bolívia.
No entanto, em 2020, uma nova espécie foi descoberta nas bacias do Orinoco, que corta a Colômbia e a Venezuela, e do alto rio Negro, no Brasil.
De acordo com a Revista Fapesp, a nova espécie, Chelus orinocensis, foi descrita com base em análises morfológicas e genéticas realizadas por pesquisadores do Brasil, da Colômbia, da Alemanha e do Reino Unido e pode ajudar no combate ao tráfico internacional desses animais.
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Ao Portal Amazônia, o doutor em ecologia aquática e pesca e membro do grupo de especialistas em quelônios de água doce da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), Fábio Cunha, explicou as principais diferenças entre as espécies.
Duas espécies e territórios diferentes
Os matamatás pertencem à ordem Testudines, reunindo todos os quelônios marinhos, terrestres e de água doce que, dentro desse desse grupo diverso, destacam-se por sua morfologia incomum. As diferenças físicas entre as duas espécies são sutis, o que caracteriza o grupo como espécies crípticas.
“Nós usamos um termo na ciência que a gente chama de espécies crípticas, ou seja, espécies que são quase impossíveis de distinguir só a olho nu, do ponto de vista morfológico, com as características e estruturas anatômicas”, explica Cunha.
De acordo com o especialista, para a descrição da nova espécie, foram usadas além das características morfológicas, como formato e tamanho, as proporções da carapaça, e informações e resultados moleculares.
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Segundo a Fapesp, o C. orinocensis apresenta carapaça mais clara e ovalada, enquanto o C. fimbriata tende a ter casco mais escuro e com formato mais retangular.

Além disso, a parte inferior do casco também varia, já que na espécie do Orinoco ele é mais amarelado e com menos pigmentação escura.
As análises genéticas das espécies indicam que as linhagens se separaram há cerca de 13 milhões de anos, quando as bacias dos rios Amazonas e Orinoco passaram a evoluir de forma independente.
Comportamento do matamatá
Além da aparência peculiar, os matamatás impressionam pela estratégia de alimentação. Predominantemente carnívoro, o animal se alimenta exclusivamente de peixes.
“Eles não mastigam, dão um bote e engolem a presa inteira por sucção. Esse movimento pode durar cerca de 44 milissegundos, quase como um piscar de olhos”, revela Cunha.
Adaptados a ambientes de águas calmas como lagos, igarapés e rios de corrente lenta, os matamatás não são bons nadadores. Em vez disso, caminham pelo leito do rio, camuflados entre folhas e galhos, já que a coloração do casco e as projeções na carapaça ajudam a imitar troncos submersos.
“Ele fica ali parado, ele não nada muito bem, mas se desloca por entre os galhos e troncos, e quando o peixe está passando perto, imaginando que é um tronco, ele dá o bote e se alimenta. Ele não consegue tirar em pedaços, ele não mastiga, ele ingere com muita quantidade de água e depois a presa cai diretamente no trato digestivo, que faz o processo de digestão e absorção de nutrientes”, detalha.

Quando jovens, os matamatás podem ser predados por peixes grandes ou jacarés, enquanto na fase adulta, praticamente não possuem predadores naturais conhecidos.
“É um animal grande, robusto e com casco muito rígido. O fato de ele existir até hoje mostra que essa linhagem teve sucesso evolutivo”, afirma o pesquisador.
Importância da descoberta para a conservação
A descrição de uma nova espécie vai além da curiosidade científica, segundo o especialista. Ela tem impacto direto nas estratégias de conservação.
“Toda vez que se descreve um novo táxon, a gente avança no conhecimento da biodiversidade. Estamos dizendo que aquela região abriga mais linhagens evolutivas do que se imaginava. Isso exige um olhar mais cuidadoso para a conservação”, reforça.
A Amazônia é considerada um ‘hotspot de biodiversidade’ (termo aplicado para designar áreas geográficas de alta biodiversidade e risco de destruição), com altas taxas de diversidade e endemismo. Isso significa que muitas espécies só existem ali e, caso sejam extintas localmente, podem desaparecer do planeta.
Ameaças atuais aos matamatás
Apesar de não estarem, até o momento, classificados como ameaçados de extinção, os matamatás enfrentam diversos riscos. Um dos principais é a retirada ilegal de filhotes da natureza para o comércio de animais de estimação.
“Por serem exuberantes, muitos criadores e colecionadores têm interesse nesses animais. O problema é que, na maioria das vezes, essa retirada é feita de forma criminosa e sem controle”, alerta o especialista.
De acordo com Fábio Cunha, a caça do animal acaba sendo um risco, visto que eles são retirados da natureza sem um controle, quase sempre de forma criminosa.
Além disso, há ameaças mais amplas que afetam todos os quelônios amazônicos: desmatamento, poluição, construção de hidrelétricas, dragagem de rios, mineração e aquecimento global.
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“O aquecimento global, por exemplo, pode estar afetando e alterando a determinação sexual, então, de repente, uma população que tem poucas fêmeas pode estar comprometendo o recrutamento populacional dessa espécie”, explica.
De acordo com Cunha, são muitas as pressões ambientais e “não é algo exclusivo do matamatá, mas de todos os quelônios da amazônia”.
Bioindicadores da saúde ambiental
Assim, por conta dessas características do ambiente, de acordo com o especialista, os matamatás são mais abundantes em ambientes preservados. Regiões como o Alto Rio Negro, uma das áreas mais conservadas da Amazônia, apresentam boas populações da espécie.
“Isso nos permite dizer que o matamatá pode funcionar como um bioindicador da qualidade ambiental. Onde tem matamatá, o ambiente ainda está equilibrado, com poucas pressões antrópicas”, conclui Fábio.
Por isso, os matamatás são animais vistos como peças-chave para entender a saúde dos ecossistemas amazônicos. Conhecer suas diferenças, hábitos e ameaças é um passo fundamental para garantir que essas espécies singulares continuem fazendo parte da maior floresta tropical do mundo.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
