Verão: crescem secas e inundações combinadas na Região Norte

Com a chegada do período mais seco do ano na Amazônia, o chamado "verão amazônico", cresce a preocupação com os impactos da estiagem sobre as populações ribeirinhas e urbanas da Região Norte.

Crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Foto: Secom/Gov AC

Com a chegada do período mais seco do ano na Amazônia, o chamado “verão amazônico”, cresce a preocupação com os impactos da estiagem sobre as populações ribeirinhas e urbanas da Região Norte. Uma dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGAD/ICSA) traz um retrato preocupante da forma como os municípios da região vêm enfrentando — ou deixando de enfrentar — secas, inundações e a combinação cada vez mais frequente dos dois fenômenos.

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A pesquisa de Gilmar Pereira Sidônio, intitulada Interações entre secas e inundações na Amazônia: desafios para a gestão de riscos de eventos extremos, analisou registros de 450 municípios da Região Norte entre 2013 e 2024, cruzando dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) com informações da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), do IBGE.

“O chamado ‘verão amazônico’ corresponde ao período de redução das chuvas. Com menos precipitação, os níveis dos rios diminuem, o solo perde umidade e aumentam os riscos de seca e estiagem”, explica Sidônio. Segundo ele, o fenômeno afeta diretamente a navegação, o transporte de alimentos e medicamentos e o acesso das comunidades ribeirinhas aos serviços públicos, além de deixar a vegetação mais suscetível à queimadas.

El Niño, La Niña e o recorde histórico de 2024

A pesquisa mostra que a alternância entre os fenômenos climáticos El Niño e La Niña tem influência direta sobre os extremos hidrológicos na região. Entre 2017 e 2022, prevaleceram os registros de inundação, impulsionados pela fase prolongada de La Niña. A partir de 2023, com a ascensão de um El Niño de forte magnitude, os registros de seca e estiagem dispararam, atingindo em 2024 o maior número da série histórica.

“Embora aconteçam no Oceano Pacífico, o El Niño e a La Niña alteram a circulação da atmosfera em escala global. Essas mudanças modificam o transporte de umidade e a formação de chuvas em várias partes do planeta, inclusive na Amazônia”, diz Gilmar Pereira Sidônio. “Em geral, durante o El Niño há redução das chuvas na região, favorecendo secas mais severas. Já a La Niña costuma aumentar as chuvas, elevando o risco de inundações.”

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Verão: crescem secas e inundações combinadas na Região Norte
Crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Imagem: Magnific.com

Segundo o pesquisador, o recorde de registros de seca em 2024 está ligado à combinação de um El Niño intenso com um contexto mais amplo de mudanças climáticas. “Nossa pesquisa também reconhece que o aperfeiçoamento dos registros no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres contribui para documentar melhor esses eventos, mas isso não explica sozinho o aumento observado. O que vemos é um cenário em que as secas estão se tornando mais severas e mais frequentes”, avalia Sidônio.

Um dos achados mais impressionantes da dissertação foi o crescimento constante dos chamados “eventos compostos” — municípios que registraram seca e inundação no mesmo ano. Se em 2013 apenas dois municípios da região viveram essa combinação, o número saltou para 22 em 2022, 27 em 2023 e 25 em 2024.

“Isso acontece porque os eventos podem ocorrer em épocas diferentes do mesmo ano. Um município pode enfrentar uma cheia intensa durante o período chuvoso e, alguns meses depois, sofrer uma estiagem severa durante a estação seca”, explica o autor da dissertação. Para ele, esse tipo de situação é especialmente preocupante, pois “dificulta a recuperação da população e exige que o poder público esteja preparado para responder a dois tipos de desastre em um curto espaço de tempo”.

Planos de contingência ainda são raros na região Norte

É aqui que a pesquisa expõe a fragilidade da gestão local de riscos na Amazônia. Dos 407 municípios da Região Norte que responderam à pesquisa Munic 2020/IBGE, apenas 62 declararam possuir plano de contingência para inundações, e só 60 têm plano voltado para secas e estiagens. Instrumentos técnicos mais específicos são ainda mais raros: apenas 21 municípios contam com sistema de alerta antecipado de desastres, e somente 20 possuem carta geotécnica de aptidão à urbanização.

“Na prática significa que muitos municípios acabam reagindo somente quando a crise já começou”, afirma Gilmar Pereira Sidônio. “O plano de contingência organiza previamente quem faz o quê, quais recursos serão utilizados, como proteger a população e como manter os serviços essenciais funcionando. Sem esse planejamento, a resposta tende a ser mais lenta, menos eficiente e com maiores prejuízos para a população”, explica o pesquisador.

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crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Foto: Michel Castro/Rede Amazônica

A análise estatística foi feita por meio da técnica de análise de correspondência múltipla e mostrou que os poucos municípios mais bem preparados têm um perfil em comum: população maior (acima de 50 mil habitantes), presença de Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (Compdec), cadastro de áreas de risco e planos municipais de redução de riscos. Já os municípios menores, com até 5 mil habitantes, concentram a maioria das respostas “não” para esses instrumentos.

“Nossa análise mostrou que, de modo geral, os municípios de pequeno porte são os mais vulneráveis. Muitos possuem equipes reduzidas, poucos recursos técnicos e financeiros, e menor estrutura de Defesa Civil”, diz Sidônio.

Para as comunidades ribeirinhas, os efeitos de um verão amazônico mais intenso são sentidos no dia a dia. “Em muitos lugares as embarcações deixam de circular, dificultando o transporte de pessoas, alimentos, combustível, medicamentos e diversos produtos para comercialização”, relata. “O acesso aos serviços de saúde e educação também fica mais difícil. Além disso, a pesca e outras atividades econômicas são prejudicadas, reduzindo a renda das famílias justamente quando elas mais precisam de apoio.”

Calor intenso e qualidade do ar são desafios em Belém

Embora não seja um município ribeirinho isolado, a capital paraense também sente os efeitos do período seco. “Belém tem uma infraestrutura urbana mais desenvolvida do que muitos municípios ribeirinhos, mas o verão amazônico traz desafios e riscos como calor intenso, piora da qualidade do ar e maior risco de queimadas em terrenos baldios”, diz Gilmar Sidônio. “Também podem ocorrer chuvas rápidas e muito intensas, provocando alagamentos localizados devido às características da drenagem urbana.”

Para famílias com crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios, a recomendação do pesquisador é redobrar os cuidados. “A principal recomendação é acompanhar os alertas da Defesa Civil e dos órgãos meteorológicos. Também é importante manter uma boa hidratação, evitar exposição ao sol e à fumaça nos horários mais quentes, proteger crianças e idosos do calor excessivo e procurar atendimento médico caso ocorram sintomas respiratórios ou desidratação”, alerta.

Imagem colorida mostra atendimento médico pelo Sus na comunidade Ubim no Amazonas
crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Foto: Lucas Bonny/ Fas

Para ele, o início do período seco é o momento ideal para a gestão pública agir de forma preventiva. “Os municípios devem implementar ou revisar seus planos de contingência, monitorar continuamente os níveis dos rios, organizar equipes de resposta, capacitar servidores, orientar a população e articular ações com os governos estadual e federal”, orienta.

Sobre a pesquisa

A dissertação de Gilmar Pereira Sidônio, intitulada Interação entre secas e inundações na Amazônia: desafios para a gestão de riscos de eventos extremos, foi defendida em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGAD/UFPA), sob orientação da Profa. Dra. Marinalva Cardoso Maciel e co-orientação da Profa. Dra. Terezinha Ferreira de Oliveira.

*Por Luiza Amâncio,  Jornal Beira do Rio.

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