Nharamaã e o grito pela memória de Rondônia

Fotógrafo Marcos Santilli ministra palestra depois de quase meio século desde os registros que testemunharam a ocupação do território.

O palestrante no auditório da UNIR. Foto: Raíssa Dourado/Eldorado Filmes

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

O fotojornalista paulista Marcos Santilli esteve em Porto Velho nesta semana para registrar algo que vai além de imagens: a urgência de preservar a memória. Na quarta-feira, dia 12, na Universidade Federal de Rondônia, ele ministrou a palestra Nharamaã — palavra que, no idioma paiter suruí, significa “apropriação da terra”.

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Santilli é quem documentou, em 1977, o ápice da transformação territorial de Rondônia. Foram suas lentes que acompanharam o surgimento de cidades ao longo da BR-364 e o cotidiano do antigo território federal tomado por migrantes, culminando na instalação do Estado. Quase 50 anos depois, esse mesmo olhar continua vivo no projeto.

Nharamaã, uma documentação áudio-fotográfica sobre as transformações humanas e ambientais na Amazônia.

São 49 anos de trabalho ininterrupto que já resultaram em três livros, discos, espetáculos, audiovisuais e filmes. Do encontro desta semana participaram acadêmicos, historiadores e jornalistas. Para todos, ficou claro: o acervo de Santilli é referência indispensável para quem estuda a Amazônia.

Nharamaã e o grito pela memória de Rondônia
O palestrante no auditório da UNIR. Foto: Eldorado Filmes/Raíssa Dourado

Além de fotógrafo, Santilli é escritor — autor de Madeira-Mamoré — e produtor do long-play Paiter Metewá, com cantos dos suruís de Rondônia. Estudou em Londres e Nova York, dirigiu o Museu da Imagem e do Som de São Paulo entre 1995 e 2003 e promoveu mais de 700 eventos. Fez parte do staff da Editora Abril e tem fotos publicadas em centenas de jornais no mundo.

O alerta

Durante a palestra, Santilli fez um apelo: Rondônia precisa de um espaço para preservar sua memória audiovisual.

Hoje, não existe nenhum arquivo organizado pelo governo do estado com imagens, vídeos e fotos. E o mesmo vale para a prefeitura da capital: a hemeroteca da Biblioteca Municipal Francisco Meirelles está abandonada. O único acervo de imagens e documentos bem cuidado no estado é o do Centro de Memória do Poder Judiciário.

Público atento às histórias de quem testemunhou e registrou a memória da história. Foto: Eldorado Filmes/Raíssa Dourado

Em 2017, a Superintendência de Turismo criou, de forma virtual, o Museu de Gente de Rondônia, com mais de 400 depoimentos audiovisuais. Em 2019, o projeto foi extinto. E, ao contrário da maioria dos estados, Rondônia sequer tem um Instituto Histórico e Geográfico ativo.

Ano eleitoral, hora de cobrar

Estamos em 2026, ano eleitoral. É o momento para que Unir, academias de letras e os militantes da cultura se unam e cobrem compromisso dos candidatos.

Que assinem, em cartório, o compromisso de resgatar a cultura e a história regionais. Até agora, nenhum candidato a governador tocou no assunto. E poucos demonstram afinidade real com o tema.

Se não cuidarmos da nossa memória, quem vai contar a história de Rondônia amanhã?

Leia também: Benedito Ruy Barbosa: a conexão entre a ficção e a história de Rondônia

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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