Foto: Reprodução/Fundação Omacha
Transformar perdas graves para a fauna em uma estratégia robusta de preparação para o futuro. Com esse objetivo, especialistas, governos e organizações de seis países amazônicos vêm trabalhando conjuntamente no desenvolvimento de instrumentos para fortalecer a resposta regional aos impactos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas aquáticos. Um dos marcos desse processo foi a Oficina Regional SARDI & ASL – Gestão e Adaptação de Protocolos e Instrumentos de Política Pública durante Eventos de Mortalidade Incomum de Golfinhos de Rio, realizada em maio deste ano em Manaus, que contribuiu para a construção do toolkit regional.
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A iniciativa foi conduzida tecnicamente pelo WWF-Brasil, no âmbito da South American River Dolphin Initiative (SARDI), em parceria com o Amazon Sustainable Landscapes (ASL), um programa Global Environmental Fund (GEF) liderado pelo Banco Mundial, contando com o apoio do ICMBio e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), e reuniu especialistas, governantes e pesquisadores de Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
Daniel Sumalavia, consultor do programa de coordenação regional do ASL, ressalta a importância estratégica dessa união institucional: “Espaços de articulação regional como o que estamos desenvolvendo junto ao SARDI são fundamentais, porque os impactos das mudanças climáticas sobre a bacia amazônica afetam toda a região. O encontro realizado em Manaus foi uma demonstração concreta do valor de reunir representantes de diferentes países para compartilhar lições aprendidas e integrar diferentes perspectivas na gestão e conservação dos ecossistemas amazônicos”.
Mariana Frias, analista de conservação do WWF-Brasil e coordenadora da SARDI, reforça que a atuação da organização busca uma abordagem que conecte todos os atores da bacia:
“A solução passa pela difusão ampla do conhecimento, a discussão das melhores abordagens da perspectiva das ciências acadêmica e tradicional, dos saberes e cultura local e das transformações impactantes na paisagem. O papel do WWF-Brasil é assegurar que todas essas perspectivas sejam levadas em consideração e que, além da sociedade civil, órgãos públicos estejam incluídos e ativamente participantes, garantindo a estratégia multissetorial, multi-institucional e multiescalas”.
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O eco de uma tragédia
A urgência do encontro remete aos eventos de 2023, quando a Amazônia enfrentou uma seca histórica e ondas de calor extremas, intensificadas pelo fenômeno El Niño. Nos lagos Tefé e Coari, as águas atingiram a marca fatal de 39,1°C, resultando na morte de pelo menos 330 botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e tucuxis (Sotalia fluviatilis).
Para os cientistas, o que ocorreu foi um alerta global: pela primeira vez, o calor extremo da crise climática matou mamíferos aquáticos dessa forma. Ingrid Maria Furlan Oberg, analista ambiental do ICMBio, destaca que o episódio revelou uma combinação fatal de fatores, como o aquecimento da água acima dos limites toleráveis, a seca extrema que isolou animais em áreas rasas e a baixa concentração de oxigênio.
“Em alguns locais, a água ultrapassou o que é suportável para os botos, causando um estresse térmico severo nessas espécies, que são altamente sensíveis a variações ambientais rápidas e funcionam como sentinelas da saúde dos rios”, avalia a especialista.

Naquela crise, a principal hipótese para as mortes foi de que o estresse térmico tenha afetado a capacidade dos animais de regular a temperatura corporal, resultando em colapsos cerebrais. A vulnerabilidade dessas espécies a novos padrões climáticos é um dos pontos focais para o monitoramento futuro.
Para Hilda Chávez, pesquisadora do Instituto Mamirauá, o evento de 2023 foi um divisor de águas na compreensão dos limites de sobrevivência dessas espécies.
“Os golfinhos de rio amazônicos são bem adaptados às condições e variações sazonais da região. No entanto, o cenário de 2023 expôs os botos a mudanças drásticas na termoclina diária, à péssima qualidade do ar e à redução de seu habitat aquático. Essa combinação de fatores interrompeu e alterou seus sinais adaptativos, deixando-os sujeitos a estresse térmico e culminando em uma fatalidade sem precedentes”, explica a pesquisadora.
Estratégia regional para antecipar crises
A construção da estratégia regional reuniu representantes de seis países amazônicos para discutir como fortalecer a preparação e a resposta a eventos extremos que afetam os golfinhos de rio. As discussões concentraram-se em três frentes principais: coordenação institucional para emergências, protocolos técnicos de resposta e monitoramento de indicadores ambientais capazes de antecipar situações de risco.
Entre os avanços debatidos estiveram o fortalecimento de sistemas de alerta precoce, a padronização de procedimentos de campo e o uso de novas ferramentas de monitoramento, incluindo soluções desenvolvidas em parceria com o MapBiomas Água para acompanhar alterações na temperatura da água e na dinâmica dos ambientes aquáticos.
Durante os diálogos, especialistas identificaram desafios comuns em toda a região amazônica, como a dificuldade de atuação em áreas remotas, a necessidade de recursos especializados e a importância de ampliar a integração entre órgãos públicos, cientistas e comunidades locais.
A integração dessas diferentes capacidades é considerada essencial para uma resposta eficiente aos impactos das mudanças climáticas. Para María Jimena Valderrama, médica veterinária e membro da equipe de reabilitação de mamíferos aquáticos da Fundación Omacha, a resposta a eventos extremos depende de uma articulação permanente entre ciência, comunidades e tomadores de decisão.
“A resposta efetiva a eventos extremos exige uma articulação permanente entre ciência, comunidades e tomadores de decisão. O monitoramento científico fornece informações sobre variáveis ambientais e saúde dos animais, enquanto as comunidades locais e indígenas geralmente são as primeiras a detectar mudanças incomuns nos ecossistemas e a reportar eventos de mortalidade ou risco” explica Valderrama.
A definição de quais sinais monitorar deve ser um dos pilares de uma ação regional coordenada. Hilda relata que o Instituto Mamirauá identificou três grupos de indicadores essenciais para antecipar situações de risco: ambientais (temperatura da água, ar e níveis hídricos), biológicos (comportamento e taxas de mortalidade) e sociais.
“Comunidades locais como indicadores: é essencial manter redes de apoio e comunicação com as comunidades ribeirinhas permitindo a expansão de um sistema de alerta precoce em uma região tão vasta quanto a Amazônia”, enfatiza Hilda, reforçando que o olhar das populações tradicionais é o que permite a capilaridade da vigilância ambiental no território.

Compromisso para além das fronteiras amazônicas
Um dos grandes desafios discutidos foi o fato de os grandes sistemas fluviais não reconhecerem limites políticos. A cooperação entre fronteiras é essencial para garantir que os esforços de um país não sejam anulados pela falta de ação no vizinho.
A Colômbia e a Venezuela, por exemplo, trouxeram experiências valiosas de resgate com forte participação comunitária. A proposta da iniciativa é que essas lições aprendidas em diferentes rios amazônicos ajudem a fortalecer a adaptação de toda a região às mudanças climáticas.
As discussões abordaram a conectividade regional e a articulação entre redes e iniciativas de conservação na Amazônia, explorando oportunidades de cooperação entre mecanismos de governança como a OTCA, a Aliança Águas Amazônicas e a Convenção de Ramsar. Também foram debatidos caminhos para replicação dos conhecimentos compartilhados, fortalecimento de redes de especialistas e ampliação da coordenação regional para apoiar protocolos e respostas a emergências envolvendo botos de rio.
A experiência da Fundación Omacha em diversos rios da bacia reforça que a crise climática não atinge apenas os cetáceos, mas todo o sistema de manutenção da vida na Amazônia.
“Eventos climáticos extremos estão aumentando tanto em frequência quanto em intensidade. As secas prolongadas reduzem a conectividade entre habitats, diminuem a disponibilidade de alimento e favorecem o isolamento de populações. O que afeta os golfinhos também impacta peixes, tartarugas, peixes-boi e as comunidades humanas que dependem desses sistemas aquáticos”, alerta María Jimena.
Segundo ela, a cooperação entre fronteiras é fundamental, já que os impactos ambientais ignoram limites cartográficos.
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Do diálogo à ação regional
Os debates e recomendações construídos ao longo da oficina contribuíram para o desenvolvimento de um toolkit regional voltado à preparação e resposta a eventos extremos que afetam os golfinhos de rio e outros organismos aquáticos da Amazônia. O material reúne orientações práticas para monitoramento, alerta precoce, coordenação institucional e resposta emergencial, incorporando experiências e conhecimentos compartilhados pelos países participantes.
A descrição oficial da ferramenta foi durante o webinar “Uma resposta regional para proteger os golfinhos de rio diante da seca extrema”, nesta quinta-feira (24).
Da pesquisa à política pública
A resposta rápida no evento de 2023, que contou com o apoio logístico e material do WWF-Brasil, revelou a necessidade de protocolos permanentes. Como legado prático dessa crise, o ICMBio e o INPA construíram um Guia para emergências com mamíferos aquáticos amazônicos em situações de seca extrema, visando nortear futuras respostas na região.
“A atuação em equipe e a instalação rápida de um Sistema de Comando de Incidente (SCI) foram fundamentais para o atendimento à emergência e a identificação dos fatores de mortalidade”, considera Ingrid.
Agora, somando também os insights gerados pelos diálogos da oficina, o WWF-Brasil e seus parceiros trabalham na estruturação de recomendações e protocolos técnicos que poderão auxiliar governos e instituições no fortalecimento de políticas públicas nacionais. O objetivo é que esses subsídios sejam úteis para aprimorar a proteção dos habitats e possam, futuramente, embasar discussões estratégicas em fóruns globais, como a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), visando uma resposta regional mais resiliente e integrada
Ao analisar os requisitos para uma governança regional resiliente, Sumalavia aponta as prioridades e os desafios para os próximos anos. “A proteção dos golfinhos de rio é um termômetro da nossa capacidade coletiva de adaptação às mudanças climáticas. Uma resposta regional efetiva requer sistemas de monitoramento articulados e protocolos eficazes de atendimento a emergências. Para avançar, será fundamental fortalecer as redes entre atores e instituições, incorporar o conhecimento indígena e local e contar com ferramentas práticas que permitam aos países estarem mais preparados diante de futuros eventos extremos”, enfatiza o especialista.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo WWF-Brasil, escrito por Priscila Pacheco
