Lévi-Strauss: uma obra planetária enraizada em Rondônia

Em setembro de 2026, faz 88 anos que um dos maiores intelectuais do século XX, o jovem antropólogo franco-belga Claude Lévi-Strauss esteve na região.

O trem da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré chegando à estação de Guajará-Mirim. Foto: Luiz de Castro Farias

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Em 1938, o jovem antropólogo franco-belga Claude Lévi-Strauss, aos 29 anos, fez a que seria a última grande expedição etnográfica do século XX ao interior do Brasil. O destino era o futuro Território do Guaporé, hoje Rondônia. Foram 500 quilômetros de caminhão de Cuiabá a Utiariti e outros 340 quilômetros no lombo de animais até alcançar o Posto Telegráfico de Vilhena, no portal da Amazônia Ocidental.

Ligado à recém-criada USP, ele se tornaria uma das mentes mais brilhantes do século. Dessa travessia nasceria “Tristes Trópicos”, de 1955, marco da literatura mundial.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Fundador do estruturalismo, Lévi-Strauss passou 14 dias em Vilhena, em setembro de 1938. Narrou com minúcia os Nambiquaras e a vida dos caboclos, seringueiros e garimpeiros, em todos os lugares por onde andou. Seguiu de trem da Madeira-Mamoré de Guajará-Mirim a Porto Velho.

Não se furtou às tragédias: registrou como os Sabanês quase foram dizimados por uma gripe em 1929. Ao descrever Vilhena, falou em “virgindade paisagística cuja monotonia despojava a natureza selvagem de qualquer significado”. Comparou os postes tortos do telégrafo e o arco dos fios ao surrealismo de Yves Tanguy, elementos estranhos flutuando na solidão. A tristeza daquela paisagem, hoje, deu lugar à soja, ao milho e ao algodão.

O que é estruturalismo?

Lévi-Strauss veio buscar em Rondônia a matéria-prima para sua grande tese: por trás de toda cultura – seja um mito indígena, uma língua, um modo de casar ou uma comida – existem estruturas invisíveis que se repetem.

A ideia é simples e genial: um Nambiquara e um francês parecem totalmente diferentes, mas quando contam um mito, organizam o parentesco ou dividem a aldeia, ambos usam a mesma lógica inconsciente do cérebro humano, sempre em pares opostos: cru e cozido, natureza e cultura, parente e inimigo.

Para ele, não importa o que o indígena conta, mas como ele organiza a história. Essa estrutura é universal. É o que nos faz humanos. Por isso “Tristes Trópicos” não é um livro de viagem. Ele usa o chão de Rondônia e seu povo para mostrar como toda a humanidade funciona por baixo.

Estruturalismo é a busca do que é igual em todos os povos, observando justamente aquilo que parece mais diferente.

Vislumbres de uma Chicago Tropical

Em 1938, Vilhena era um punhado de cabanas numa clareira. Rondon, que passou aqui pela primeira vez em 1909, sonhava em vê-la como uma Chicago nos trópicos. Sonho audacioso, mas alimentado pela esperança.

Só duas famílias viviam perto do posto, sem receber suprimentos havia oito anos, anotou Lévi-Strauss. Viviam de caça, criação de aves e pequenas roças. Eram 18 pessoas numa família e 34 na outra: Sabanê e Latundê, falantes de dialetos da família Nambiquara, que reúne pelo menos 15 línguas. Chamavam-se mutuamente de “cunhados”.

Rondon incluiu os Sabanês entre os Nambiquaras; Lévi-Strauss discordou. Foi Rondon quem, em 1914, primeiro registrou o termo Latundê. Hoje, os Sabanês estão na Reserva Aroeira, entre Vilhena e Comodoro (MT), e às margens do Rio Roosevelt. Os Latundês estão em Chupinguaia, antigo distrito vilhenense. Há ainda Mamaindês, Lakundês e Tarundês. Em 1938, os Tarundês eram só 12 homens.

Os Mamaindês viviam no Guaporé, ao longo do Rio Cabixi, então território de Vilhena. Muitos foram levados para a Aroeira pelo SPI, embrião da Funai, para trabalhar nos seringais.

Lévi-Strauss: uma obra planetária enraizada em Rondônia

Preparativos para uma viagem histórica

Antes de chegar a Rondônia, o cientista reuniu em Cuiabá 15 homens, 15 burros e 30 bois, com apoio do governo brasileiro e do francês Paul Rivet, etnólogo e político socialista que financiou a expedição. Escolheu para si um imponente burro branco, “o mais majestoso”.

O acompanhavam o carioca Luiz de Castro Faria, 25 anos, a serviço do Brasil, e o etnógrafo Jehan Albert Vellard, 37, além de peões, vaqueiros e um cozinheiro indicado pelo bispo de Cuiabá, a quem Strauss se referiu no diário com um termo pejorativo da época.

Oito dias depois, seguiu de caminhão com os mantimentos pela picada aberta por Rondon. A jornada era um suplício: atolamentos, risco de capotar, travessias em balsas improvisadas onde era preciso descarregar tudo e recarregar do outro lado.

O trecho final foi a lombo de muares. Três meses depois de sair de Cuiabá, em setembro, chegaram a Vilhena. Daqui, a equipe seguiu para Pimenta Bueno, visitou seringais do Rio Machado, chegaram a Guajará-Mirim e Porto Velho, rumo a Manaus.

A presença brasileira na expedição

Luiz de Castro Faria registrou tudo em diário, só publicado em 2001 como “Um outro olhar: Diário da Expedição à Serra do Norte”. São fotos e desenhos preciosos do cotidiano, quase 30 anos após a passagem da Comissão Rondon pela região.

Numa das imagens, indígenas jogam zicunati, o “head ball” citado por Theodore Roosevelt – ex-presidente dos EUA que esteve em VIlhena em 1914 – com bola de látex de mangaba. O jogo já havia aparecido nas comemorações do Centenário da Independência, em 1922, no Rio de Janeiro.

No Posto Vilhena, gerido por Manoel Lage, um Mamaindê, Faria anotou a visita, em 12 de setembro de 1938, de Mamaindês e Cabixis para uma apresentação de flauta: “Foi a maior emoção que já senti. Há algo verdadeiramente mágico naquela música, sombria e profunda”.

Em 1938, indígenas vilhenenses jogam zicunati – ou “head ball”. Foto: Luiz de Castro Faria

Cientistas rejeitados

Paul Rivet, patrocinador da viagem, defendia a polêmica tese de que os indígenas sul-americanos teriam vindo da Austrália e Melanésia há 6 mil anos. Nunca veio ao Brasil. Foi declarado ‘persona non grata’ por criticar costumes brasileiros na França.

Lévi-Strauss também teve atritos. O SPI quis impor um fiscal à expedição; ele recusou. No Estado Novo, teve o visto negado e se exilou nos EUA até o fim da guerra. Voltaria ao Brasil em 1985, por seis dias. Em 2005, a TV Cultura exibiu “Trópico da Saudade”, de Marcelo Fortaleza Flores, que conviveu com ele entre 2004 e 2008.

Era tudo deles

Rondon estimou 20 mil Nambiquaras; Roquette-Pinto, 15 mil em 1912. Rondon chamou a região de “País Nambiquara”. Um quarto de século depois, Lévi-Strauss apontou o extermínio por doenças de branco, escravidão nos seringais, fome e guerras. A dizimação foi mais forte entre 1907 e 1930.

O cientista observou ainda que não eram canibais e que praticavam poligamia entre chefes. Rondon, 26 anos antes, dissera o oposto: que eram canibais que valorizavam a carne do inimigo como troféu e escravizavam mulheres e crianças. Na canção “Fora da Ordem” (1991), Caetano Veloso cita Lévi-Strauss: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Pessimismo ou retrato?

Leia também: Nharamaã e o grito pela memória de Rondônia

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Estudante do Amapá cria iogurte de açaí sem açúcar voltado para pessoas com diabetes

Receita do iogurte substitui o açúcar por xilitol e já passou por testes iniciais de degustação. Agora, pesquisadores buscam investidores para levar o alimento aos supermercados.

Leia também

Publicidade