Foto: Imagem gerada por IA
Vinhos com frutas tradicionais da Amazônia podem parecer um tanto quanto inusitados, no entanto, essa ideia tem ganhado espaço entre produtores que buscam inovar e valorizar ingredientes regionais. É o caso da Florisa Vinhos da Amazônia, de Rio Branco, no Acre, que a partir de experimentos com fermentação, surgiu com a proposta de criar bebidas inspiradas no vinho tradicional, mas feitas com frutas como o açaí e o cupuaçu, dois símbolos da biodiversidade amazônica.
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A iniciativa começou em 2020, quando a empresa passou a realizar diferentes testes com bebidas fermentadas. Além disso, a experiência anterior com produção de cerveja artesanal ajudou no desenvolvimento das primeiras receitas.
“Em 2020 fizemos vários testes de bebidas fermentadas: hidromel, kombucha, fruit beers, entre outras. Usamos nossa experiência prévia com a fermentação de cerveja artesanal. No teste com o açaí, vislumbramos o potencial para desenvolver uma bebida semelhante ao vinho tradicional da uva, porém com identidade própria”, explica Marcos Vieira, proprietário e produtor da Florisa Vinhos da Amazônia.
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Uma bebida com identidade amazônica
Embora muitas pessoas associem o vinho exclusivamente à uva, tecnicamente a bebida é apenas o resultado da fermentação de uma fruta. Por isso, ao redor do mundo existem vinhos produzidos com diferentes ingredientes.
Marcos destaca que a produção de fermentados com frutas já é comum em vários países.
“Sempre se produziu vinho com frutas diversas ao redor do mundo, como a pêra, a maçã, o morango e o mirtilo. A jabuticaba, por exemplo, é muito utilizada na produção de vinhos no sudeste do Brasil”, afirma.
De acordo com Marcos, a proposta do vinho amazônico é justamente aproveitar ingredientes locais, que contribuam para expor o potencial das frutas da região e produzir bebidas com identidade amazônica.
Como funciona a produção?
Apesar de se inspirar no vinho de uva, o processo de produção apresenta algumas diferenças importantes. No caso das frutas amazônicas, é necessário criar o chamado ‘mosto’, líquido que será fermentado.
“A principal diferença em relação ao processo da uva é que nós ‘criamos’ o nosso mosto (suco) com a adição da polpa, água e uma fonte de açúcar para a fermentação, enquanto com a uva o mosto/suco é extraído simplesmente ao prensá-la”, explica Marcos ao Portal Amazônia.
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De acordo com ele, o vinho de açaí, por exemplo, nasce a partir de três elementos principais: açaí, água e uma fonte de açúcar. Diferente da uva, que já possui água e açúcares naturais em quantidade suficiente para a fermentação, o açaí, o cupuaçu e outras frutas amazônicas funcionam quase como um concentrado de sabor.
“A praticamente ausência de água e açúcares nas frutas amazônicas poderia ser considerada uma desvantagem em relação à uva, mas na verdade contribui para o desenvolvimento de bebidas”, explicou o produtor.
Segundo Vieira, um dos principais desafios do processo está justamente na preparação do mosto. Já que enquanto no vinho de uva o líquido é extraído simplesmente ao prensar a fruta, no caso do vinho amazônico é preciso desenvolver a mistura ideal.
Depois que a mistura está pronta, inicia-se o processo de fermentação, que dura em média cerca de 15 dias até que a bebida esteja pronta para as próximas etapas de produção. Na emrpesa acreana, a produção ainda acontece em pequena escala, de forma artesanal, com quantidade limitada de garrafas por mês.
Harmonização dos vinhos
De acordo com Marcos, para quem experimenta pela primeira vez, a reação costuma ser de surpresa, já que muitas pessoas não imaginam que seja possível produzir vinho sem utilizar uvas.
“O público sempre se surpreende quando descobre que é possível fazer vinho sem uvas. Na degustação, também chama atenção a semelhança com o vinho tradicional”, conta.

De acordo com a sommelière Christianne Rosas, de Belém (PA), o vinho de açaí pode harmonizar muito bem com pratos típicos da culinária brasileira, especialmente aqueles com sabores marcantes.
Entre as sugestões estão peixe frito, carne de sol e carnes mais gordurosas, combinações que ajudam a equilibrar o perfil da bebida.
Valorização regional
Mais do que uma inovação gastronômica, o vinho feito com frutas amazônicas também representa uma forma de valorizar a produção regional. Para Marcos, trabalhar com ingredientes como o açaí e o cupuaçu significa contribuir para toda a cadeia produtiva da região.
“As frutas amazônicas são, antes de tudo, fonte de alimento e sustento para muitos ribeirinhos e para nós da cidade também. Poder contribuir de alguma forma com a cadeia econômica desses recursos nos dá muito orgulho”, afirma.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
