Terceira República do Acre: a revolução que redesenhou as fronteiras do Brasil

Município de Sena Madureira, no Acre, no início do século 20, durante a Terceira República do Acre. Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

O Acre, no final do século XIX, se tornou o centro de uma das mais intensas disputas territoriais da história brasileira. A região, inserida no contexto da expansão da economia da borracha, pertencia oficialmente à Bolívia e passou a ser ocupada de forma crescente por brasileiros atraídos pelos seringais, o que deu origem a conflitos armados, proclamações de independência e, por fim, a um acordo diplomático que redefiniu as fronteiras do Brasil. 

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Foi nesse cenário que surgiu a chamada Terceira República do Acre, proclamada em 1902, durante a Revolução Acreana.

A economia da borracha durante a ocupação brasileira 

Durante 1880 e início do século XX, a borracha ganhou muito destaque e importância no mercado internacional, impulsionada pela industrialização e pela demanda da Europa e dos Estados Unidos. Por conta disso, a região Amazônica, rica em seringueiras, passou a atrair milhares de trabalhadores e empresários brasileiros, principalmente nordestinos e amazonenses. 

“A presença de brasileiros na região já era antiga, mas é a partir de 1880 que ela se consolida de forma intensa, com o objetivo claro de explorar os seringais. O problema é que, juridicamente, o Acre pertencia à Bolívia”, explica o mestre em história pela Universidade Federal do Amazonas, Hosenildo Alves, ao Portal Amazônia. 

A busca pelo controle da borracha foi o motivo da Terceira República do Acre. Foto: Edunyra Assef/Dept° de Patrimônio Histórico e Cultural (FEM)

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Com o crescimento da ocupação brasileira, os atritos com as autoridades bolivianas aumentaram drasticamente, visto que muitos brasileiros começaram a invadir áreas de forma forçada, em busca do controle dos seringais. Essa disputa deixou de ser apenas econômica e passou a envolver violência armada, mortes e confrontos diretos.

As Repúblicas do Acre e a Revolução Acreana

Em meio a fragilidade do controle boliviano e do interesse das elites regionais brasileiras, surgiram então tentativas de tornar o Acre independente. Em 1899, o espanhol Luís Gálvez liderou a proclamação da Primeira República do Acre, com a criação de instituições e um governo provisório.

“Luís Galvez invade o Acre e proclama a primeira república do Acre. Com apoio do governo do Amazonas, ele criou uma série de instituições e organizações, que não teve apoio do governo brasileiro, tanto que depois o governo brasileiro vai depor o Luís Galvez”, explica Hosenildo. 

De acordo com Alves, em 1900, uma nova tentativa, chamada de Segunda República do Acre, foi organizada por um grupo de amazonenses conhecidos como “poetas e boêmios”. Essa experiência durou cerca de um mês, sendo rapidamente desarticulada, o que permitiu à Bolívia reassumir o controle do território.

A situação mudou em 1902, com a Revolução Acreana e a Terceira República do Acre, liderada pelo gaúcho José Plácido de Castro. Diferente das tentativas anteriores, o movimento teve um caráter militar mais organizado e contou com forte apoio dos seringalistas e brasileiros instalados na região.

Território do Acre durante a Terceira República do Acre. Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

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“A Terceira República do Acre nasce nesse contexto de disputa entre brasileiros e a Bolívia. Não era uma ação direta do governo brasileiro, mas de brasileiros que queriam garantir o acesso à exploração da borracha”, afirma.

Em janeiro de 1903, após os confrontos armados, Plácido de Castro proclamou a Terceira República do Acre, consolidando o controle dos revolucionários sobre a maior parte do território.

“As coisas partiram para a violência, para armamento, para o enfrentamento e morte de brasileiros e bolivianos. O governo brasileiro, que já vinha conversando com a Bolívia há muito tempo, pela via diplomática, através do Barão do Rio Branco, consegue uma situação de acordo. Aí é assinado, em 1903, o Tratado de Petrópolis, que possibilitou que o Acre passasse para o Brasil”, explicou Hosenildo.

O Tratado de Petrópolis e a incorporação do Acre

No dia 17 de novembro de 1903, foi assinado o Tratado de Petrópolis, que oficializou a anexação do Acre ao Brasil. De acordo com o Tratado, o governo brasileiro comprometeu-se a pagar 2 milhões de libras esterlinas à Bolívia, além de ceder uma pequena faixa de território no atual estado do Mato Grosso. 

Além disso, o tratado também tinha como ponto central, o compromisso do Brasil em construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ligando o rio Madeira ao rio Mamoré, como forma de garantir à Bolívia acesso comercial à região amazônica.

Terceira República do Acre
Mapa do Acre com a anexação do território ao Brasil, após a Terceira República do Acre. Foto: Reprodução/Agência de Notícias do Acre

De acordo com Hosenildo, a decisão de transformar o Acre em território federal, e não anexá-lo ao Amazonas, gerou frustração entre as elites políticas amazonenses, já que o sonho do governo do Amazonas era incorporar o Acre e controlar diretamente a produção da borracha, que se tornaria uma das mais importantes do mundo.

“O governo amazonense fica de fora porque o sonho da elite do governo amazonense era ter acesso ao Acre justamente pela produção da borracha, tanto que o Acre se torna depois o maior produtor de borracha do mundo, só que o Acre não vira parte do Amazonas, o Acre vira um território federal, e passa a ser controlado diretamente pela presidência do Brasil”, ressalta o historiador. 

Leia também: Plácido de Castro, o homem por trás da Revolução Acreana

José Plácido de Castro, Comandante da Revolução Acreana e da Terceira República do Acre, em 1908. Foto: Reprodução/Livro “O Estado Independente do Acre

Quem foi Plácido de Castro ?

De acordo com o livro ‘O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro: Excertos Históricos’, de Genesco de Castro, José Plácido de Castro era um militar de formação e se tornou a principal liderança da Revolução Acreana e da Terceira República do Acre. Conhecido por sua habilidade estratégica, organizou tropas compostas, em grande parte, por seringueiros, que foram transformados em soldados do movimento.

Sua atuação foi decisiva para pressionar o governo brasileiro a resolver a questão pela via diplomática. Plácido de Castro entrou para a história como um dos principais símbolos da incorporação do Acre ao Brasil, e em 1906, foi nomeado governador do Acre, mantendo-se discreto e rejeitando honrarias no Rio de Janeiro.

Consequências sociais do movimento

Apesar de seu impacto territorial, a Revolução Acreana e a Terceira República do Acre ficaram marcadas como revolta dos controladores da borracha, interessados em garantir o monopólio dos seringais e definir os limites territoriais entre Brasil, Bolívia e Peru.

E como consequência da revolução acreana e da Terceira República do Acre, os seringueiros, base da força de combate, continuaram em situação precária após o conflito.

O episódio revela como interesses econômicos, especialmente ligados à borracha, moldaram as fronteiras, provocaram conflitos armados e influenciaram decisões diplomáticas de grande impacto.

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