Energia solar fortalece geração de renda em aldeias indígenas na Amazônia

Projeto identifica demandas e leva energia fotovoltaica a comunidades do Amapá e do Pará, fortalecendo cadeias produtivas de artesanato.

Oficina de produção de biojoias na aldeia Kumenê, no Amapá. Fotos de Lúcio Camargo, Gabriel Baena Chêne, Ocinildo Labontê

Em 2017, a professora de Antropologia da Unicamp Artionka Capiberibe presenciou uma situação que a fez refletir sobre o acesso à energia na aldeia Kumenê, localizada na Terra Indígena Uaçá, dos Palikur-Arukwayene, no município de Oiapoque (AP). Na ocasião, uma peça do único gerador de energia elétrica havia quebrado.

Além do inconveniente para as famílias, que ficavam às escuras, com comunicação restrita e sem ter como conservar alimentos, outro problema se somava: o óleo diesel, estocado às margens do rio, trazia um perigo de contaminação. Naquele momento, a professora entendeu que era urgente implementar fontes de energia limpa para a aldeia, onde desenvolve pesquisas junto aos Palikur desde 1996.

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Cinco anos depois, um novo desafio reforçou essa necessidade. Em 2022, com a disseminação de um fungo agressivo nas lavouras de mandioca na região, a população indígena teve sua principal fonte de renda afetada. Essas duas situações inspiraram o projeto Energia Limpa, Vida Sustentável, focado no fomento à educação escolar, à transmissão de práticas tradicionais e à geração de renda entre os povos indígenas do Baixo Oiapoque e Mapuera-Trombetas-Nhamundá. Idealizado pela professora em conjunto com duas colegas de universidades amazônicas, o programa foi contemplado, em 2023, com recursos da iniciativa Amazônia +10.

Junto a Capiberibe, coordenam o projeto as professoras Elissandra da Silva, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), e Lilian Rebellato, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). A iniciativa abrange, além da Terra Indígena Uaçá, as TIs Trombetas-Mapuera e Nhamundá-Trombetas, na região conhecida como Calha Norte, no Pará.

Biojoias feita com madeira reaproveitada da confecção de bancos; atividade tradicional Palikur une tecnologia e tradição.

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A demanda por energia elétrica, destaca a professora da Unicamp, sempre esteve presente. “Os povos da região do baixo rio Oiapoque têm esse contato muito intenso com os não indígenas há séculos. Isso significa que eles adotaram elementos da cultura não indígena, como vestuário e alimentação. Os povos indígenas, como gosto de falar, invertem a imagem que é sempre produzida em relação a eles como povos que estariam parados no tempo e fixos no passado. Eles são contemporâneos da sociedade não indígena, então usam celulares, vão para a escola, vêm para a universidade e têm necessidades de bens de consumo, dentre eles aparelhos eletrônicos”, elucida.

Na Amazônia Legal, 78 mil indígenas convivem com o fornecimento inadequado de energia elétrica, segundo levantamento de 2026 da rede Uma Concertação pela Amazônia, em parceria com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). A pesquisa mostra que a exclusão energética atinge principalmente comunidades tradicionais e originárias, que muitas vezes precisam recorrer a soluções precárias e poluentes, como os geradores.

“Nossas aldeias dependem muito de motogerador com combustível, e temos tido muitos problemas de quebra de motor. Já ficamos até um ano sem energia”, conta Lenise Batista, moradora da aldeia Kumenê e mestranda em Estudos de Cultura e Política da Unifap. Ela integra o projeto e destaca a importância de trazer energia limpa para a comunidade.

“Precisamos pensar também na poluição do próprio território. Temos uma questão que é o transporte do combustível, que pegamos na cidade de Oiapoque e levamos para a aldeia. Isso traz riscos de acidentes, de derramar o óleo nos rios. A Artionka identificou esse problema, pois de fato nas aldeias não temos locais adequados para armazenar o óleo diesel”, afirma.

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Energia solar fortalece geração de renda em aldeias indígenas
O encontro também ensinou o manuseio de parafusadeiras e lixadeiras para a confecção dos artefatos.

Integração de saberes

Para Batista, uma das vantagens da iniciativa é sua integração com a população. “O projeto escuta e busca ouvir as pessoas da aldeia e da comunidade, [chamando as pessoas] para participarem, trazendo suas opiniões, porque nossos povos têm uma forma de entender energia e economia sustentável. Então, trazer toda essa discussão tem sido muito importante para o fortalecimento da nossa comunidade, do nosso povo, incentivando e valorizando aquilo que nós temos de conhecimento.”

O projeto se encerra em 2027. Ao longo do seu desenvolvimento, a equipe de pesquisadores ouviu e mapeou as demandas de indígenas do Amapá e do Pará, instalou placas de energia fotovoltaica nas aldeias e adquiriu equipamentos de trabalho que podem contribuir na confecção do artesanato. Além disso, ofereceu oficinas de cerâmica, em Alter do Chão (PA), e de reaproveitamento de madeira para a confecção de biojoias, na aldeia Kumenê.

A iniciativa incluiu também um workshop na Unicamp e duas expedições de indígenas Palikur, Karipuna e Galibi Marworno a Gotemburgo, na Suécia, para ajudarem a catalogar artefatos dessas etnias que foram levados ao país no início do século 20. A repatriação será feita de forma digital: o acesso aos artefatos será devolvido por meio da digitalização dos documentos e da produção de réplicas em impressoras 3D. A opção por não trazer fisicamente os objetos ocorreu pela falta de um local adequado para armazená-los.

Keyla Palikur, artista visual do povo Palikur-Arukwayene e membro do coletivo de artistas indígenas Waça’Wará, ministrou a oficina de reaproveitamento de madeira para confecção de biojoias junto à mestre-artesã e doutora em Ambiente e Sociedade pela Unicamp Marília Giesbrecht. “A equipe do projeto fez uma oficina muito importante, mostrando para os mestres e mulheres que trabalham com confecção de colares e brincos que há outra maneira de obter materiais dentro do território, sem precisar ficar gastando com miçangas, que é um material caro”, lembra.

Entrega de Kits de energia fotovoltaica na Terra Indígena Uaça, em junho de 2026.

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A madeira utilizada, explica, provém principalmente da sobra da confecção de bancos por mestres palikur, uma atividade tradicional entre a etnia. A partir desse material, avalia, promove-se uma nova forma de produção de brincos e colares, que carregam a história da tradição dos bancos. “Eles carregam uma memória sobre a cosmologia, sobre as narrativas, sobre as histórias que os pajés e nossos mais velhos contavam sobre o momento em que era realizado o toré [ritual sagrado] do nosso povo”, observa.

Além disso, essas peças promovem uma nova forma de geração de renda a partir da valorização da cultura e da memória Palikur. “Os colares e brincos que estão sendo feitos são novas formas de poder criar e contar um pouco sobre nosso povo e sobre nossa cultura de uma forma atual, porque nós também estamos aqui no presente, tendo acesso a tecnologias que agilizam o fazer e a produção de um produto, sem perder a ligação com nosso povo. Vamos adaptando aprendizados e tecnologias, mas fortalecendo o que está dentro da aldeia”, diz Keyla Palikur.

Na oficina foram ensinadas formas de manusear equipamentos que facilitam a preparação dos materiais, como parafusadeiras e lixadeiras. A energia elétrica fornecida pelo kit fotovoltaico permitirá utilizá-los. No âmbito do projeto, ainda, foi construída uma pequena oficina.

“Dentro da aldeia agora temos uma casinha em que todos podem entrar para compartilhar, aprender a usar essas ferramentas e começar a produzir. E ali o kit de placas para fazer as máquinas funcionarem também permite acesso à internet.”

A oficina de cerâmica reuniu povos indígenas do Baixo Oiapoque e da Calha Norte, em Alter do Chão (PA).

A professora Artionka Capiberibe ressalta a natureza prática das propostas vinculadas ao Amazônia +10, que trazem impactos imediatos a partir do intercâmbio de saberes. “Conseguimos alcançar resultados práticos, sobretudo com as oficinas de cerâmica e de madeira reaproveitada e com a instalação das placas solares, que não é uma instalação aleatória. Elas estão vinculadas às oficinas, aos locais de trabalho, para lidar com as matérias-primas e com a produção de artesanatos e de artefatos que forem do interesse deles e que possam beneficiá-los economicamente.”

O projeto Energia Limpa, Vida Sustentável tem três eixos: geração de energia elétrica sustentável, fomento a cadeias produtivas de artefatos e relação entre o conhecimento indígena e não indígena. As atividades tiveram início com um diagnóstico das necessidades energéticas das 12 aldeias indígenas das etnias Katuena, Xereu, Wai Wai, Tunayana, Sikiyana, Hixkaryana, Karafawyana e Waimiri Atroari na região da Calha Norte.

O levantamento foi realizado por uma equipe da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação (Feec) da Unicamp, coordenada pelo professor Luiz Carlos Pereira da Silva, com apoio do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn). O mesmo levantamento foi realizado em nove aldeias da região do baixo rio Oiapoque.

Gabriel Baena Chêne e Artionka Capiberibe: para a dupla, o projeto mostra que o conhecimento indígena também produz ciência.

Durante o mapeamento, foram levantados dados sobre consumo de energia individual, familiar e coletivo. Neste caso, o foco foi o uso de energia nas cadeias produtivas, como a do artesanato. Com consulta às comunidades, decidiu-se que as oficinas comunitárias seriam o destino dos kits de placas fotovoltaicas, que geram uma energia limpa e menos suscetível a imprevistos, como aqueles que ocorrem com o gerador.

Em junho deste ano, duas aldeias já receberam os kits: Kumenê e Mawihgi, ambas na TI Uaçá. A instalação na aldeia de Mapuera, na Calha Norte, está prevista para o fim de 2026.

Gabriel Baena Chêne, doutorando em Antropologia na Unicamp e membro do projeto, acompanhou e documentou a entrega dos kits, bem como o workshop realizado na Unicamp em 2024 e as oficinas. Para o antropólogo, destaca-se na iniciativa a troca de conhecimentos. “É interessante esse intercâmbio entre os pesquisadores indígenas e não indígenas, não colocando o conhecimento indígena só como conhecimento tradicional, mas também como o conhecimento que produz ciência”, observa.

Baena, responsável pela identidade visual do projeto, também vem documentando, com registros fotográficos, o percurso das atividades vinculadas ao Energia Limpa, Vida Sustentável. Algumas exposições já foram realizadas com suas fotografias, que ilustram esta reportagem.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Liana Coll

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