Cientista Carlos Nobre recebe Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 por mais de 40 anos dedicados à Amazônia

Pioneiro nos estudos sobre o “ponto de não retorno” da Amazônia, Carlos Nobre pesquisa a floresta e contribui para sua conservação há mais de quatro décadas.

O Dr. Carlos Afonso Nobre foi homenageado com o Prêmio Thomas E. Lovejoy de Liderança em Ciência e Conservação da Amazônia de 2026. Foto: Terria Clay/WCS

O cientista brasileiro Carlos Afonso Nobre recebeu o Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 por sua trajetória de mais de quatro décadas dedicada ao estudo da Amazônia e de sua relação com o clima global, assim como por suas contribuições para a conservação do bioma. O prêmio foi entregue no dia 23 de setembro, no Zoológico do Central Park, da Wildlife Conservation Society, durante a Semana do Clima de Nova York (EUA). O reconhecimento destaca contribuições para a conservação da Amazônia baseadas na ciência, na colaboração e no respeito à sua diversidade natural e cultural.

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Nobre dedicou sua carreira ao estudo da complexa relação entre a floresta amazônica e o clima da Terra. Iniciou sua trajetória como pesquisador no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), trabalhou durante 30 anos no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e atualmente é cientista sênior e professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

Também é membro do Conselho Deliberativo do WWF-Brasil. Ao longo de sua carreira, tem promovido a pesquisa científica, a colaboração e o desenvolvimento de soluções para a conservação da Amazônia.

Na década de 1990, Nobre foi um dos primeiros cientistas a identificar e modelar o chamado ponto de não retorno da Amazônia: o limite crítico a partir do qual a perda de florestas em grande escala e as mudanças climáticas poderiam alterar o ciclo da água que permite à floresta se sustentar e colocar em risco sua sobrevivência a longo prazo. Suas pesquisas contribuíram para ampliar a compreensão sobre as consequências do desmatamento e a importância da Amazônia para o clima global.

Leia também: Ponto de não retorno: a Amazônia não tem tempo a perder

O cientista afirmou:

“A floresta amazônica está muito próxima de um ponto de não retorno que pode degradar mais de 70% da floresta em um período de 30 a 50 anos. Se o desmatamento ultrapassar 20% da área total da floresta (atualmente está em 18%) e o aquecimento global chegar a 2,0 °C (chegará a 1,5 °C até 2030), o ponto de não retorno será atingido. Precisamos implementar imediatamente soluções baseadas na natureza: uma transição global para abandonar os combustíveis fósseis até 2040; alcançar desmatamento, degradação e incêndios zero até 2030; restaurar florestas em grande escala; valorizar os conhecimentos dos povos indígenas e das comunidades locais; e implementar uma sociobioeconomia baseada na floresta em pé e em rios vivos. Todos queremos salvar a Amazônia e o nosso planeta”.

Nobre também desempenhou um papel fundamental na criação de instituições e redes de colaboração científica que fortaleceram a pesquisa ambiental no Brasil e em outros países. Participou da concepção do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) e fundou o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN).

Ciência pela Amazônia

Como copresidente do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês) e por meio de sua iniciativa Amazônia 4.0, Nobre tem promovido o uso da ciência e da tecnologia para gerar oportunidades econômicas a partir da floresta em pé, especialmente para os povos indígenas e as comunidades locais, e contribuir para a conservação da biodiversidade.

Nobre colaborou com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e atuou como assessor de organizações internacionais. É membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Além disso, foi o primeiro cientista brasileiro em mais de um século a ser eleito membro da Royal Society.

O Prêmio Thomas E. Lovejoy honra o legado do biólogo da conservação Thomas Lovejoy, que faleceu em 2021 e dedicou grande parte de sua carreira à proteção da Amazônia. Lovejoy contribuiu para dar projeção mundial ao conceito de biodiversidade e promoveu a conservação da Amazônia e da natureza por meio da ciência, da colaboração e da defesa da conservação.

Leia também: Thomas Lovejoy: o “padrinho da biodiversidade” e defensor da Amazônia

carlos nobre realiza estudos sobre a amazônia
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Entre os agraciados anteriormente com o Prêmio Thomas E. Lovejoy estão Belén Páez, do Equador; Marc Dourojeanni, do Peru; e Martín von Hildebrand, da Colômbia. Ao reconhecer Nobre, o prêmio dá continuidade ao reconhecimento de pessoas que dedicaram seu trabalho e liderança à conservação da Amazônia e ao bem-estar das comunidades e da vida silvestre que dela dependem.

Para Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil, “Carlos Nobre ajudou o mundo a entender que o destino da Amazônia não é uma questão distante ou restrita à floresta: ele está diretamente ligado ao equilíbrio climático e ao futuro das sociedades. Seu trabalho transformou conhecimento científico em um alerta que não podemos ignorar e em caminhos concretos para manter a floresta de pé.”

“O legado de Carlos Nobre mostra que conhecer os limites da Amazônia é também assumir a responsabilidade de agir antes que eles sejam ultrapassados. Sua trajetória nos lembra que conservar o bioma exige combinar ciência de ponta, inovação e os conhecimentos de quem vive e protege a floresta”, acrescenta Mariana Napolitano, diretora de Conservação do WWF-Brasil.

O reconhecimento ocorre em um momento decisivo para a região. As mudanças climáticas, o desmatamento, os incêndios, a degradação florestal e outras ameaças afetam cada vez mais a floresta e os processos ecológicos que ela sustenta. As pesquisas de Nobre e de outros cientistas demonstraram a importância de conservar uma Amazônia saudável e funcional para a biodiversidade, as comunidades da região e o clima global.

O Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 é uma iniciativa conjunta da Conservation International (CI), do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), da The Nature Conservancy (TNC), da Wildlife Conservation Society (WCS) e do World Wildlife Fund (WWF), juntamente com pessoas próximas a Thomas Lovejoy e comprometidas com a conservação da Amazônia.

Assista ao curta documental “Ponto de Virada da Amazônia”, produzido pelo WWF-Brasil, que contou com a participação de Carlos Nobre e foca em soluções para salvar o bioma:  

*Com informações da WWF-Brasil e WCS

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