As linhas de crédito socioambientais (Agroecologia, Bioeconomia e Florestas) representaram 4,3% do volume total de crédito do PRONAF e apenas 0,4% do crédito agrícola total. Foto: Reprodução/Greenpeace
A Amazônia não sofre por falta de alternativas sustentáveis, mas pela falta de investimento e apoio institucional para colocá-las em prática. Essa é a conclusão de um artigo de opinião publicado na revista científica PLOS Climate, assinado por pesquisadores da FGV EAESP e de instituições parceiras baseado em análise de dados públicos sobre financiamento agrícola e florestal.
O estudo mostra que o Brasil investe dezenas de vezes mais em agronegócio do que em economias baseadas na sociobiodiversidade, mesmo estas sendo apontadas como estratégicas para conter o desmatamento na região e promover o desenvolvimento socioeconômico.
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O estudo, que é desdobramento de um projeto da Iniciativa Amazônia+10 financiado pela FAPESP e pela FAPEAM, liderado pelo FGV EARTH e Instituto Juruá e assinado por Michel Xocaira Paes, João Campos-Silva, Luciana Marques Vieira e José Antonio Puppim de Oliveira, argumenta que o modelo de desenvolvimento adotado para a Amazônia nas últimas décadas — baseado em crédito subsidiado, grandes obras de infraestrutura e pesquisa voltada ao agronegócio de exportação — consolidou o Brasil como potência agrícola, mas também aprofundou desmatamento, emissões e desigualdades locais.
Segundo os autores, esse padrão se repete nos investimentos mais recentes: o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinou US$ 13,29 bilhões a infraestrutura de transporte voltada ao escoamento de commodities, sem nenhuma previsão de recursos para territórios tradicionais ou cadeias de valor da sociobiodiversidade.
Do outro lado dessa equação estariam as economias da sociobiodiversidade: sistemas agroflorestais, pesca manejada e outras iniciativas de base comunitária que combinam geração de renda com conservação ambiental.
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Sustentabilidade comprometida
Os autores citam evidências científicas de que esses modelos já funcionam na prática — áreas protegidas de uso sustentável têm melhorado os meios de vida na Amazônia rural, e o manejo pesqueiro comunitário tem gerado um efeito de proteção ambiental de grande valor agregado nas florestas amazônicas.
Ainda assim, essas iniciativas seguem marginalizadas por dificuldade de acesso ao crédito, infraestrutura adequada, acesso a mercados e políticas de pagamento por serviços ambientais — dependendo, na prática, de cooperação internacional, filantropia e trabalho muitas vezes mal remunerado, o que compromete sua sustentabilidade a longo prazo e desestimula o engajamento de jovens no setor.
O texto também avalia os desdobramentos da COP30, realizada em Belém em novembro de 2025. Para os pesquisadores, embora o encontro tenha dado destaque a florestas, adaptação e financiamento climático — com a aprovação da Tropical Forest Forever Facility (TFFF) —, os compromissos assumidos permanecem majoritariamente simbólicos e não alteraram os padrões de investimento que impulsionam o desmatamento. Com retorno projetado de US$ 3 bilhões a 4 bilhões por ano, a TFFF teria escala muito menor que os subsídios domésticos que continuam expandindo a fronteira agrícola no país, funcionando como um mecanismo complementar, e não estruturalmente transformador.
“Se não mudarmos o modelo de financiamento, para dar mais apoio às cadeias sustentáveis, não conseguiremos resolver os problemas de desenvolvimento social e econômico da Amazônia e zerar o desmatamento”, afirma Puppim, professor titular da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da FGV (Fundação Getulio Vargas).
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Para Michel Xocaira Paes, pesquisador da FGV EAESP, a baixa representatividade das populações tradicionais no Congresso representa um dos grandes desafios para transformar esse cenário. “Enquanto o Congresso Nacional, responsável por aprovar o orçamento federal e por criar e alterar as leis e as instituições do país, continuar direcionando grande parte dos recursos públicos para setores já consolidados, dificilmente o Brasil conseguirá avançar de políticas públicas pontuais para políticas estruturantes. É necessário transformar a sociobioeconomia em prioridade e em um importante motor de desenvolvimento sustentável para a Amazônia e para o Brasil”.
Os autores defendem que reverter esse quadro exige redirecionar crédito público, investir em infraestrutura adaptada aos territórios florestais e fortalecer a assistência técnica para a sociobioeconomia, além de ampliar a representação política de povos indígenas, comunidades locais e pequenos produtores nas decisões orçamentárias. Atualmente, 63% dos deputados federais (324 de 513) integram a Frente Parlamentar da Agropecuária, enquanto apenas quatro parlamentares são indígenas. O desequilíbrio de representação, segundo os pesquisadores, ajuda a explicar por que o modelo atual se mantém apesar das evidências acumuladas sobre seus custos ambientais e sociais.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
