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Sábado, 25 Junho 2022

Inflação, preços e as graves consequências da guerra Rússia X Ucrânia

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A invasão da Rússia à Ucrânia gerou, antes de tudo, uma crise humanitária, seguida de choques econômicos com profundas repercussões na recuperação da economia mundial emergente no pós-pandemia do covid-19. O mais recente Panorama Econômico da OCDE (junho de 2022) destaca as implicações e riscos para o crescimento, o aumento generalizado da inflação e, consequentemente, a redução dos padrões de vida, a interrupção no fornecimento de energia e alimentos.

O preço da guerra, seguramente, "vai ser determinado em função da capacidade da comunidade internacional de evitar crise alimentar e energética, e pelo esforço global visando a proteção das famílias de baixa renda", afirma o estudo.

Projeções do PIB revisadas para baixo

Antes da guerra, a economia mundial estava a caminho de uma forte, embora desigual, recuperação do covid-19. O conflito na Ucrânia mudou dramaticamente o estado das coisas.

Para a OCDE, o crescimento do PIB global agora deve desacelerar para cerca de 3% e permanecer em um ritmo semelhante em 2023 ⁠ - bem abaixo do ritmo de recuperação projetado em dezembro passado. Essa desaceleração do crescimento levará a rendas mais baixas e menos oportunidades de emprego.

A guerra também está tendo um impacto grande e global na inflação, que já atingiu os máximos de 40 anos na Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos.

O choque econômico do conflito na Ucrânia é de tal magnitude que a Comissão Europeia reduziu drasticamente sua previsão de crescimento do PIB em 2022, de uma expectativa inicial de 4,3% para 2,7%, assim como elevou a projeção de taxa anual de inflação a 6,1%.

A Comissão afirma que o "principal golpe" ao desempenho econômico "procede dos preços das matérias-primas energéticas". As matérias-primas já registravam forte alta desde o último trimestre do ano passado, mas "a incerteza sobre as cadeias de abastecimento pressionaram os preços, ao mesmo tempo que aumentam sua volatilidade".

Em síntese, as expectativas alimentadas a respeito do comportamento do PIB ao redor do mundo é o expresso pela tabela a seguir:

Projeção de crescimento do PIB dos países da OCDE em 2022. Fonte: OCDE

Brasil

Quanto ao Brasil, de acordo com a revista Conjuntura Econômica da Fundação Getúlio Vargas, junho 2022, o crescimento de 1% do PIB brasileiro no primeiro trimestre deste ano em relação ao trimestre anterior é uma boa notícia, mas deve ser celebrada com moderação. Por seu turno, o desemprego medido pela PNAD Contínua caiu 0,7 ponto percentual, para 10,5% no trimestre encerrado em abril; e as Sondagens Empresariais do FGV IBRE registraram aumento da confiança do empresariado.

Entre os fatores que colaboraram para os resultados, aponta a publicação, estão alguns que não se repetem – como um aumento do consumo de um grupo de serviços que ainda está se normalizando dos efeitos da pandemia –, e outros como o aumento de preço das commodities exportadas pelo país, derivada de um cenário internacional conturbado.

O pesquisador associado do FGV IBRE Manoel Pires, contudo, faz enfático alerta sobre a estabilização econômica do Brasil. Para ele, ainda depende de várias reformas para colocar a economia nos trilhos, destacando o campo das contas públicas. "Se demorarmos nas reformas que garantam a sustentabilidade do país, poderemos nos deparar com uma próxima crise sem espaço fiscal para administrá-la", afirma.

Salários e renda em baixa

Estudos do IPEA apontam que os rendimentos habituais reais médios apresentaram queda de 8,7% no primeiro trimestre de 2022 em comparação com o mesmo trimestre de 2021, sendo o quarto trimestre consecutivo de queda interanual na renda. Apesar de parte desse movimento descendente ser apenas o inverso do observado ao longo de 2020, quando os rendimentos habituais apresentaram um crescimento acelerado, a renda habitual encontra-se abaixo dos níveis observados antes da pandemia.

A renda média habitual real de R$ 2.548 do primeiro trimestre de 2022 é, porém, superior ao valor do quarto trimestre de 2021 (que foi o menor valor registrado na série histórica da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua(PNAD)). Em relação à renda efetiva, observou-se redução de 6,2% na comparação interanual, aproximando-se ainda mais da queda da renda habitual. Na comparação com o primeiro trimestre de 2020, a queda da renda efetiva foi de 8,5%.

Em relação aos países integrantes da OCDE, a tabela a seguir retrata os níveis de declínio de renda daqueles países:

Fonte: OCDE

Pressões inflacionárias se intensificam em 2022

De acordo com novos estudos da OCDE, divulgados em junho corrente, a guerra na Ucrânia tem feito desaparecer as esperanças da comunidade internacional de enxergar mais próximo no horizonte o final da escalada inflacionária observada na economia mundial em 2021 e princípios de 2022 a causa dos gargalos de suprimento associados à covid-19.

Novas projeções da OCDE refletem, ademais, um grande impacto internacional provocado pela invasão desumana da Rússia à Ucrânia nas taxas de inflação globalmente, que já alcançam seus níveis mais elevados em 40 anos na Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos. A Organização acredita, em princípio, que o alívio gradual das pressões sobre as cadeias de suprimento e dos preços de matérias primas, assim como o impacto da subida das taxas de juro, começarão a notar-se em 2023, embora se preveja que a inflação subjacente se mantenha em torno dos objetivos dos Bancos Centrais ou acima ao final do ano em muitas das principais economias. Brasil incluído.

Os mapas a seguir retratam o comportamento da inflação junto aos países membros da OCDE, base dezembro 2021 - Junho 2022: preço da guerra será determinado por nossa capacidade coletiva de evitar uma crise alimentar e energética e proteger as famílias de baixa renda.


Projeção da Inflação Anual nos países da OCDE (Dezembro 2021/Junho 2022)

Fonte: OCDE

Estados Unidos

Inflação recorde dos Estados Unidos pode impactar a economia brasileira, manchetes recorrentes na mídia mundial. O resultado da inflação para o mês de maio nos EUA gera o pior índice de inflação no país desde dezembro de 1981. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos Estados Unidos para o mês de maio, divulgado na manhã desta sexta-feira (10/6) pelo governo norte-americano, apresentou uma alta de 1% em relação ao mês anterior. Na inflação acumulada em todo o ano de 2022, o índice de 8,6% é o pior desde dezembro de 1981, durante o início do governo de Ronald Reagan, quando o acumulado foi de 8,9%.

A expectativa para os especialistas da bolsa norte-americana de Dow Jones era que o CPI avançasse em 0,7%, o que já representaria um forte aumento em comparação com abril, que registrou 0,3%. O aumento é causado, na visão de especialistas, principalmente pela elevação do preço global dos combustíveis - em meio à guerra da Rússia com a Ucrânia -, que ocasiona uma forte alta também no custo de alimentos, aluguéis, saúde, entre outros. O preço médio do galão de combustível (3,7 litros) nos EUA está próximo de alcançar os US$ 5 (R$ 25, no valor de câmbio atual), o que seria o maior patamar da história.

União Europeia

A inflação na zona do euro mantém a trajetória de alta e bateu um novo recorde em maio, com uma taxa de 8,1% em ritmo anual, estimulada pelo impacto da guerra na Ucrânia sobre os preços da energia e dos alimentos. De acordo com a agência europeia de estatísticas Eurostat, a inflação na Eurozona (os 19 países da União Europeia que adotaram a moeda comum) atingiu o maior resultado desde o início da série histórica, em 1979.

Em abril, a Eurostat calculou uma taxa de 7,4% (originalmente havia projetado 7,5%, mas uma revisão reajustou o índice com uma leve baixa de 0,1 ponto percentual). A inflação da zona do euro iniciou em novembro do ano passado uma forte tendência de alta, devido ao aumento dos preços da energia, e a partir de então a cada mês estabeleceu um novo recorde da série histórica.

No fim de fevereiro, no entanto, o início do conflito militar na Ucrânia agravou dramaticamente a tendência, por seu impacto sobre os preços da energia e os efeitos sobre o mercado mundial de alimentos.
Ao considerar os componentes da inflação em maio, a Eurostat aponta que os preços da energia representaram em maio uma alta de 39,2%, acima dos 37,5% registrados em abril. Da mesma forma, os preços dos alimentos (em um conjunto estatístico que engloba alimentos, bebidas e tabaco) subiram 7,5%, contra 6,3% de abril.

Entre as principais economias da UE, a Espanha registrou uma inflação de 8,5% em ritmo anual, depois do índice de de 8,3% em abril. Além disso, a União Europeia adotou vários pacotes de sanções econômicas contra a Rússia pela guerra na Ucrânia. E analistas concordam que as medidas restritivas também terão efeito interno na economia do bloco.

China

A economia da China registrou forte início em 2022 a uma taxa de crescimento que superou as expectativas. Mas com o país enfrentando um aumento significativo dos índices de Covid-19 e com dezenas de cidades sob lockdown, determinou um processo de reversão das expectativas. O que levou o Produto Interno Bruto (PIB) crescer não mais do que 4,8% nos primeiros três meses do ano em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados divulgados pelo Departamento Nacional de Estatísticas do país nesta segunda-feira. Normalmente o país crescia a taxas de 8% a 10% anuais.

Quanto à inflação, cresceu em abril na China em ritmo mais acelerado em quase seis meses. O índice de preços ao consumidor em abril registrou alta de 2,1% em ritmo anual, informou o Escritório Nacional de Estatísticas. Os números refletem o aumento dos preços provocado pelas restrições vinculadas à estratégia "covid zero" do país. Os efeitos da gestão restritiva da pandemia repercutem cada vez mais na economia, afetada por confinamentos de cidades como Xangai, que perturbam as redes de abastecimento e aumentam os preços do transporte, além, evidentemente, das altas de preços internacionais importados pelo país.

Fome, ameaça mundial

Rússia e Ucrânia são importantes provedores de matérias primas em muitos mercados. Em conjunto, representam ao redor de 30% das exportações mundiais de trigo, 20% das de trigo, fertilizantes minerais e gás natural, e cerca de 11% das exportações de petróleo. Não é novidade para ninguém que os preços dessas commodities se elevaram consideravelmente desde o início da guerra.

Foto: Reprodução/OCDE

Analistas internacionais constatam em uníssono que, se não forem tomadas medidas emergenciais, o mundo se defronta com alto risco de uma crise alimentar planetária. As interrupções de suprimento de muitos produtos dessas cadeias deverão elevar-se, representando clara ameaça, em particular, para aqueles países de baixa renda que dependem fortemente de Rússia e Ucrânia para o suprimento de alimentos básicos. As contas públicas desses países já estão sobrecarregadas por dois anos de pandemia, de sorte que poderão ter dificuldades para fazer chegar alimentos e energia a preços acessíveis a seus cidadãos, acelerando, por conseguinte, os riscos de fome e mal estar social.

De acordo com estudos da OCDE, o aumento dos preços das matérias primas e possíveis interrupções da produção interna, tendem a produzir importantes consequências. Com efeito, a forte subida dos preços já corroendo o poder aquisitivo, obrigando às famílias de baixa renda em todo mundo a cortar fortemente seus gastos em outros artigos para poder cobrir suas necessidades básicas de comida e energia. Terão, enfim, de pagar um alto preço pela escassez mundial.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas (ALCEAR), do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA/INPA) e do Conselho Regional de Economia do Amazonas (CORECON-AM).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista


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