BR-319 e a infraestrutura do agro

Particularmente, no Amazonas a forte dependência do transporte rodoviário agrava o problema, sobretudo nos períodos de pico da estiagem, que tem se agravado nos últimos três anos.

Foto: Reprodução/DNIT

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

De acordo com estudo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a deficiência de infraestrutura no agronegócio brasileiro gerou um impacto econômico da ordem de US$ 14 bilhões (R$ 72 bilhões) em 2025. O relatório identifica sérios gargalos, particularmente em armazenagem, transporte e escoamento, fatores altamente limitantes ao crescimento da produção agrícola brasileira até 2034. Segundo o USDA, o problema assume dimensões preocupantes, dentre as quais a incapacidade da infraestrutura não ter acompanhado a expansão das novas fronteiras agrícolas, especialmente no Norte e no Matopiba.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Atualmente, a capacidade de armazenagem cobre apenas 60% a 70% da produção nacional (no Amazonas é praticamente zero), enquanto nos EUA ela equivale a cerca de 150% da produção anual. O déficit brasileiro é estimado em 134 milhões de toneladas. A eliminação do gap demanda cerca de R$ 140 bilhões em investimentos ajustados às idiossincrasias regionais. O estudo também destaca que a logística representa aproximadamente 30% dos custos de produção agropecuário, enquanto mais de 60% das rodovias, particularmente na Amazônia, encontram-se, no geral, em péssimas condições de tráfego, mesmo assim ameaçadas por xiitas ambientais apoiados pelo MMA.

Particularmente, no Amazonas a forte dependência do transporte rodoviário agrava o problema, sobretudo nos períodos de pico da estiagem, que tem se agravado nos últimos três anos. Para o USDA, a ampliação de ferrovias e hidrovias será fundamental para reduzir custos e sustentar o crescimento do agro brasileiro e da região. O transporte ferroviário pode reduzir o frete em até 25%, enquanto as hidrovias amazônicas vêm ganhando participação no escoamento da produção, mesmo enfrentando limitações estruturais e climáticas.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou em Manaus aportes da ordem de R$ 235,8 milhões para ações de conservação, restauração ecológica e gestão territorial na Amazônia. Do total, R$ 180 milhões do Fundo Clima, destinados à restauração de mais de 10 mil hectares na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, no Pará. Outros R$ 50,5 milhões do Fundo Amazônia, que se destinariam ao projeto Naturezas Quilombolas, voltado à gestão territorial e ambiental de comunidades quilombolas na Amazônia Legal.

apa triunfo do xingu foto bruno cecim agencia para
APA Triunfo do Xingu. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Foi ainda anunciado o início da ativação dos seis primeiros Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia (NDS), destinados “a reunir organizações locais, negócios comunitários e instituições públicas integrantes do programa Prospera Sociobio, criado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) para fomentar negócios ligados ao segmento”. O investimento total é de R$ 70,2 milhões, sendo R$ 11,7 milhões por núcleo. Os recursos provêm do governo da Alemanha e serão geridos pelo banco alemão de desenvolvimento KfW. Um dos seis núcleos será implantado no território Juruá-Tefé, no Amazonas. Os demais ficam no Pará, Acre e Amapá. A previsão é de que os projetos sejam implementados ao longo de 48 meses.

Claramente, as iniciativas não passam de promessas oportunistas de campanhas eleitorais posto só comunicadas publicamente às vésperas do pleito de 4 de outubro. Por que não em 2023 ou 2024? Os anúncios, por outro lado, não apontam detalhamentos dos investimentos prometidos e as prioridades eleitas. Mais uma vez o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), para o Amazonas, ficou para depois. Projeto há anos entocado na SEDECTI sem possibilidades de resolução. Por outro lado, o que exatamente significa NDS quando o Estado se depara com abissal deficiência no crédito especializado, na formação de técnicos agropecuários, zootecnistas, veterinários, no padrão da assistência técnica e extensão rural exercida pela Sepror/Idam, que se encontra na UTI, para dizer o mínimo?

Ante a ausência de política agrícola e de medidas voltadas a suprir o baixo nível tecnológico do setor, como acreditar na integração SUFRAMA/PIM/BIOECONOMIA, a matriz ideal para promover a diversificação e interiorização da economia amazonense na perspectiva 2073? A propósito, nenhum candidato ao governo do Amazonas se posicionou ou se posiciona a respeito. Não nesta campanha eleitoral, talvez na próxima, quem sabe. Os discursos, no geral, focam apenas em ganhos políticos de curto prazo, ignorando consequências fiscais resultantes de promessas eleitoreiras sem correspondência orçamentária e financeira.

Incansavelmente repetidas, simplistas sobre problemas econômicos complexos, além de absolutamente distantes do que realmente importa: respostas eficazes e responsáveis sobre os gargalos de nossa economia relacionados à crônica deficiência da infraestrutura social e econômica, ao saneamento básico, à saúde pública; ao ensino, pesquisa e extensão com vistas a integração da Zona Franca de Manaus e o estado do Amazonas ao mundo tecnológico 4.0. Até quando as classes política e empresarial, a sociedade continuará tolerando tal descalabro? Uma lástima republicana!

Leia também: Novas reservas de desenvolvimento sustentável, por que e para quê?

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Cinco locais para observar aves e outros animais no Amazonas

De reservas florestais em Manaus a áreas preservadas em outros municípios no Amazonas, espaços oferecem trilhas, passeios e atividades para observar a fauna amazônica.

Leia também

Publicidade