Tecnologia social implantada no Maranhão pode se tornar referência para combate à fome e produção alimentar comunitária

O “Sisteminha” consiste num módulo de produção alimentar integrado para criação de galinhas e peixes, compostagem, vermicompostagem, horticultura e geração autônoma de energia por meio de usina fotovoltaica.

Dados do IBGE apontam que, em 2022, havia, no Brasil, 67,8 milhões de pessoas na pobreza e 12,7 milhões na extrema pobreza. E o Maranhão, de acordo com pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, detinha, em 2021, a maior proporção de pobres (57,90%) do pais, concentrados, em sua maioria (72,59%), no Litoral e Baixada Maranhense. Nesse cenário, a fome (ou “insegurança alimentar grave”, como denomina o IBGE), corresponde, no Maranhão, de acordo com o último levantamento oficial, a 12,3% (ou 243 mil famílias).


Porém, uma tecnologia social concebida pelo pesquisador Luiz Carlos Guilherme, da Embrapa Cocais (MA) e implantada no Instituto Federal do Maranhão (IFMA), de modo experimental, pode contribuir para a alteração desse quadro. O “Sisteminha” consiste num módulo de produção alimentar integrado para criação de galinhas e peixes, compostagem, vermicompostagem, horticultura e geração autônoma de energia por meio de usina fotovoltaica. Dessa forma, uma comunidade é capaz de produzir o próprio alimento.
Trabalhador rural do Quilombo Frechal, em Mirinzal. Foto: Cláudio Moraes

A tecnologia social foi concebida, há 22 anos, pelo zootecnista Luiz Guilherme, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Patenteado em 2005 com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), e aperfeiçoado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), unidade do Piauí, onde ingressou em 2008. Treze anos depois migrou para a Embrapa Cocais, no Maranhão, passando a implantar e colocar em prática os módulos do Sisteminha.

O módulo pioneiro passou a ser usado no treinamento de indígenas das tribos Nova Gavião e Juçaral Guajajara, do município de Amarante do Maranhão. “A relação Embrapa e IFMA se iniciou em 2019, ainda em Grajaú, com a elaboração de projetos e realização de oficinas”, informa o pesquisador da Embrapa e inventor do módulo, Luiz Guilherme.

Hoje, há módulos demonstrativos do “Sisteminha Embrapa” já instalados nos campi do IFMA em Grajaú, Codó, Caxias, São Raimundo das Mangabeiras e Alcântara, com projeto aprovado para a instalação em comunidades quilombolas do município de Mirinzal, no litoral ocidental do estado.

“A parceria do IFMA com a Embrapa tem o objetivo de levar essa tecnologia ao conhecimento de produtores rurais da comunidade”, destaca o reitor Carlos César Texeira Ferreira. “Nós iniciamos com uma formação, em que as pessoas se apoderam do conhecimento e, a partir daí, se inicia a multiplicação da informação nos locais em que será instalada”, explicou o reitor.

O “Sisteminha” consiste num módulo de produção alimentar integrado para criação de galinhas, peixes e outros. Foto: Divulgação

“Eu vejo o IFMA e a rede federal de educação como potenciais herdeiros da tecnologia do sisteminha”, avaliou o inventor Luiz Guilherme. “No IFMA, a ciência se aproxima dos adolescentes de 14 a 15 anos, além dos cursos superiores, e isso torna o IFMA muito importante”, destacou.

A experiência de sucesso do IFMA deve ser apresentada ao Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif) ainda em abril. “A Embrapa tem o IFMA como referência para que se possa estender ações para todo o Maranhão e o país e vamos tentar pautar, na próxima reunião do Conif, essa questão da parceria com a Embrapa”, mencionou Carlos César Teixeira.

“Espero que essa parceria possa se tornar cada vez mais forte, para demonstrar o potencial científico do sistema, inclusive para o desenvolvimento, nas comunidades, do controle biológico de arboviroses como a dengue”, pontuou o pesquisador Luiz Guilherme.

“Temos Mangabeiras se destacando com a psicultura com tecnologia de ponta e, em Caxias, está sendo desenvolvido, com participação de estudantes uma plataforma digital de código aberto para se avançar na produção e monitoramento do sisteminha em todo o Brasil”, celebrou. “Tudo isso é muito importante no combate à fome”, sintetizou.

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