Mudanças climáticas e saúde: doenças que aumentam com temperaturas extremas e ameaçam milhões de pessoas

O aumento contínuo das temperaturas, as chuvas irregulares, as ondas de calor e a poluição do ar alteram o comportamento de doenças infecciosas, exacerbando problemas respiratórios e cardiovasculares.

Foto: Reprodução/Unifranz

As mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental e se tornaram um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. O aumento contínuo das temperaturas, as chuvas irregulares, as ondas de calor e a poluição do ar estão alterando o comportamento de doenças infecciosas e exacerbando problemas respiratórios, cardiovasculares e de saúde mental em diversas regiões do mundo.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que, entre 2030 e 2050, o aquecimento global poderá causar aproximadamente 250 mil mortes adicionais por ano devido à desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico. Essa situação é agravada pela disseminação de doenças transmitidas por vetores, como dengue, zika e chikungunya, que prosperam em climas mais quentes e úmidos.

Fernando Siles, professor do programa de Medicina da Universidade Franz Tamayo (Unifranz), explica que as épocas de chuvas criam condições ideais para a proliferação de doenças infecciosas.

“Em Cochabamba, doenças respiratórias como resfriados e gripes são comuns devido ao aumento da umidade. Doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e malária, também são prevalentes devido à proliferação desses insetos em criadouros de água parada”, observa o médico.

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Mudanças climáticas e saúde: doenças que aumentam com temperaturas extremas e ameaçam milhões de pessoas
Aedes aegypti. Foto: Reprodução/Fiocruz

Altas temperaturas e chuvas intensas favorecem a reprodução do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya. O preocupante é que o inseto começou a se adaptar a áreas onde antes não conseguia sobreviver.

“Nos últimos anos, temos observado que o mosquito se adaptou a novas áreas geográficas; embora não sejam casos excepcionais, trata-se de uma mudança que deve suscitar preocupação”, alerta o Dr. Froilan Mamani Ch., também professor da Unifranz.

Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a América Latina atravessa um de seus períodos mais desafiadores em relação às doenças transmitidas por vetores, devido à combinação de mudanças climáticas, urbanização acelerada e mobilidade humana. As temperaturas mais elevadas permitem que os mosquitos expandam sua área de distribuição geográfica e permaneçam ativos por mais meses do ano.

Até uma década atrás, a presença do mosquito Aedes aegypti acima de 2.550 metros de altitude era considerada improvável. Hoje, cidades e regiões antes consideradas seguras começam a registrar casos.

“Durante a estação chuvosa, os casos de certas doenças aumentam, sendo as mais relevantes a dengue, o zika e a chikungunya. Isso ocorre porque a umidade e a água parada levam à proliferação de mosquitos”, explica Mamani.

A dengue continua sendo uma das doenças mais perigosas. A OMS estima que ocorram entre 100 e 400 milhões de infecções em todo o mundo a cada ano. Em casos graves, o vírus pode causar hemorragias, choque e morte em poucas horas se não houver atendimento médico imediato.

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Foto: Divulgação/Arquivo/Ascom Sesau

Mas o impacto das mudanças climáticas na saúde não se limita a doenças infecciosas. Ondas de calor também aumentam o risco de insolação, desidratação e complicações cardiovasculares, especialmente em idosos e pessoas com doenças crônicas. O relatório Lancet Countdown alertou que a exposição prolongada ao calor extremo se tornou uma ameaça crescente para as cidades devido ao efeito de “ilha de calor urbana”, causado pelo acúmulo de concreto e pela falta de áreas verdes.

A poluição atmosférica é outro fator crítico. A OMS estima que cerca de sete milhões de pessoas morrem anualmente devido a doenças associadas à poluição do ar. Os incêndios florestais, cada vez mais frequentes e intensos devido às secas e às temperaturas extremas, agravam os problemas respiratórios e cardiovasculares.

Além disso, especialistas começam a alertar sobre o impacto psicológico da crise climática. Fenômenos como incêndios, inundações e secas geram ansiedade, estresse e uma crescente sensação de incerteza, especialmente entre os jovens. A chamada “ecoansiedade” é hoje reconhecida como uma resposta emocional ligada ao medo da degradação ambiental.

Foto: Divulgação

Diante desse cenário, a prevenção surge como a principal ferramenta para reduzir os riscos. Siles enfatiza a importância da adoção de medidas diárias de proteção à saúde e controle de vetores.

“Essas doenças podem aumentar durante a estação chuvosa devido à proliferação de mosquitos em criadouros de água parada”, destaca o acadêmico.

Eliminar recipientes com água acumulada, usar repelentes, reforçar a vigilância epidemiológica, expandir as campanhas de vacinação e melhorar a infraestrutura de saúde são algumas das ações recomendadas por organizações internacionais e especialistas.

As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça futura. Seus efeitos na saúde humana são visíveis em hospitais, bairros e comunidades ao redor do mundo. A grande questão não é mais se elas impactarão a saúde pública, mas sim o quão preparados estarão os sistemas de saúde e as sociedades para enfrentar uma crise que se intensifica a cada grau de aumento da temperatura.

*Com informações da Unifranz

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